quarta-feira, julho 30, 2008

Pousio

No tempo em que a minha aspiração profissional era a agricultura costumava apreciar uma terra sem nada, em pousio, coisa que agora, nos tempos da agricultura intensiva, já não se usa. Não era uma terra vazia, era uma terra à espera do momento das sementes e das primeiras chuvas.


Também eu preciso de um tempo assim, de pousar as palavras no silêncio e de deixar que o corpo tome conta de mim.


Voltarei, quando as palavras, de tão sumarentas e maduras, precisarem de se soltar na ardósia, na ardósia azul. Agora pousio.
~CC~

terça-feira, julho 29, 2008

Perguntas intímas (I)

Decifrar em cada vida uma palavra tão curta como o amor pode ser uma tarefa de sucesso incerto e sem fim à vista. Não obstante a tarefa me parecer impossível, continuo a tentar compreender como acontece e como morre ou permanece, interessa-me sobretudo entender o modo como a sua luz pode brilhar tanto e tanto tempo como a de uma estrela.
~CC~

domingo, julho 27, 2008

Memórias com voz (II)

O mar da minha infância morava ao meu lado e podia sentir-lhe o cheiro mas era feito de distância, um tapete líquido chamado baía de Luanda, bilhete postal que toda a vida ficou dentro dos olhos da miúda que eu fui.

Raramente se ia à praia, tenho três ou quatro idas dentro da minha memória. Além delas, um acampamento num lugar mágico, nele corria um rio pequenino para o mar e os caniços que cresciam lá eram tão grandes e altos que os caranguejos, também enormes, se passeavam vagorosamente por eles, como equilibristas de circo. Ir à praia e mergulhar no mar não era coisa que o meu pai pudesse acarinhar para os filhos e muito menos gastar nisso o seu tempo, preferia o sol na sombra de livros nas esplanadas e disso a infância está cheia, de longos tempos de observação do mundo nas esplanadas e no interior dos cafés, onde as ventoinhas de tecto giravam incansavelmente a tentar afastar o calor imenso das tardes.

Ontem com as minhas crianças, embora chamar-lhes assim já me custe (de tão crescidas que estão), fui elogiada por ser a única adulta da família que entra na água com elas, isto é, bem depois delas que entram mal poisam o pé na areia. Não pude deixar de pensar nessas infâncias de sequeiro que todos tivemos, mais estranhas ainda pela proximidade do mar que tínhamos, mas era difícil explicar-lhes isso, como as infâncias líquidas delas são tão diferentes das nossas.

Investi depois nesse prazer que a infância não me deu e um banho de mar desperta na minha pele um efeito de contentamento só igual ao de um grande e apertado abraço.
~CC~

sexta-feira, julho 25, 2008

Notas da Viagem a Itália (III)

Cartaz do seminário numa das paredes do hotel
~CC~

Notas da Viagem a Itália (II)

Arezzo, 19 de Julho, 8h da manhã


quinta-feira, julho 24, 2008

Notas da viagem a Itália (I)

Há pessoas que viajam com uma pequena mochila e desconhecem por isso as longas esperas nos tapetes de bagagem, há quem não corra atrás da "first bag", sempre admirei estes quase passáros, muito embora pareçam demasiado desligados da carga simbólica que os objectos têm. Ora dentro das nossas roupas estão os nossos cheiros e os nossos livros transportam as marcas dos nossos dedos, e disso não posso desligar-me.

Outras pessoas impressionam pelas malas pesadas e enormes que levam para três ou quatro dias como se a sua estabilidade dependesse do número de coisas que conseguem trazer de casa. Nunca irão nem vestir nem usar metade dos objectos que transportam e o peso excessivo atrapalha-os nas escadas rolantes e nos longos corredores dos aeroportos. Acreditam demasiado nos objectos e dependem deles.

Procurei levar para quatro dias uma mala pequena e flexível e comigo apenas uma pequena mochila com três ou quatro objectos, nos quais não se incluia nem um de higiene pessoal, nem sequer uma escova de cabelo. Isso não seria problemático se minha mala tivesse chegado a Itália, mas ela ficou no aeroporto em Lisboa. Acresce que nesse mesmo dia tinha que viajar para 300 Km a norte de Roma, para Arezzo e depois Cortona e não pude esperar pelo voo seguinte. Pedi que a deixassem em Lisboa, mas responderam que o procedimento era o de a enviar no avião seguinte, a inflexibilidade da burocracia é ainda uma coisa que me espanta. A mala passou assim três dias em Roma sem mim e eu passei os mesmos sem ela.

Na primeira noite não tinha nada mesmo a não ser a roupa que trazia vestida e o hotel era tão fraco que em nada ajudou, experimentei o que é um banho só a água, um cabelo molhado completamente despenteado e uma roupa interior mal seca por ter sido lavada na noite anterior.

Ao início fiquei perdida sem nada de meu e sem ter nada para substituir. Depois deram-me meia hora para comprar o mais urgente, mais exactamente das 9h às 9h30 porque iríamos viajar para o seminário e esse era longe de tudo. Comprei quase nada, as minhas coisas durante todo esse tempo cabiam na minha pequena mochila. E depois da falta do primeiro dia, deixei de pensar nelas e percebi que era mais livre do que eu própria pensava e que precisava de muito pouco. É claro que quando as minhas colegas mudavam a segunda vez de roupa no dia, descendo vaporosas para o jantar, sentia uma certa inquietação, acompanhada do sentimento de ser a mais feia e mal vestida da sala, mas depois de cinco minutos de conversa e das primeiras garfadas de pasta e de chianti, só me dava uma imensa vontade de rir.

Depois fui buscar a mala no dia da partida para Lisboa, mas como estava retida nas chegadas, saí com ela como se naquele momento tivesse chegado a Roma. Cheguei duas vezes a Roma numa só ida. Mas Roma lida ao contrário é outra coisa, uma coisa boa a que se pode chegar mais do que uma vez, e então pensei que era esse o sentido e voltei feliz.
~CC~

quarta-feira, julho 23, 2008

Uma flor para a ~CC~


Pediu-me, esta tarde, que a ajudasse a por um céu na Ardósia!

Apressado, como sempre (deveríamos ter muito mais tempo para os amigos como a ~CC~), disse que não tinha tempo, mas que poderia tentar mais logo em casa, se me enviasse os dados por e-mail!

Mandou, e tentei...

Fui avisando que com os dados poderia também publicar em seu nome e ela, ingénua, confiou em mim e disse que sim, que podia publicar uma mensagem...

Agora sinto-me como um ladrão em casa alheia, que pode meter no saco qualquer objecto de que goste...

Apetece-me levar os textos todos lá para onde ninguém os lê, mas tenho a sorte de já ter por lá alguns que foram dados e não roubados e é desses que eu mais gosto!

Procurei no fundo do saco e encontrei um flor para deixar aqui nesta Ardósia dos textos lindos juntamente com um beijo para a dona antes de fechar a porta deste lugar cheio de magia e palavras lindas que a ~CC~ agrupa como mais ninguém.

João

terça-feira, julho 22, 2008

Mulheres livres (II)

Esta mulher esteve presa muito tempo mas creio que sempre foi livre. E agora, mesmo livre, nunca o estará totalmente, está no momento presa pela esquerda e pela direita e todo o espaço que tem parece reduzir-se, oprimido entre mundos cuja separação feita desta forma já não faz sentido. Ela, no entanto, parece querer conquistar agora uma outra liberdade, a de poder ser quem é.

Para a esquerda, Ingrid é rica e burguesa e excessivamente católica, para além de não mostrar grandes marcas do seu sofrimento em cativeiro, o que até torna possível pensar que terá sido beneficiada entre os prisioneiros. Mesmo a esquerda que aplaudiu a sua libertação começou a bater palmas mais silenciosamente quando a viu junto do presidente francês, não só porque ele é considerado de direita como porque uma mulher como ela não deveria mostrar-se junto a políticos, junto ao poder (mesmo que eles tenham sido importantes na sua libertação). O poder é, nesta visão do mundo, uma coisa contaminada em si mesma.

Para a direita Ingrid não é confiável, mal agradeceu a sua libertação ao presidente da Colombia foi logo dizendo que isso não a tornava refém da sua estratégia política. Para a direita, ela pode bem ter cooperado com as FARC em algum momento, para além disso é uma mulher que se casou duas vezes e que não parece presa neste seu último casamento, anda por todo o lado sem o marido. É uma católica da linha dos movimentos de libertação da América Latina e estes são tudo menos bem vistos no Ocidente Católico de hoje.

Acresce que para os colombianos que não gostam dela, ela é francesa. Já para os franceses que não gostam dela, ela é colombiana. Dizem que fala e se mostra demais, que conta histórias, que dorme em hoteis caros. Tudo serve para a denegrir e o modo como as notícias são fabricadas é demonstrativo, veja-se como os títulos são sugestivos: Ingrid Betancourt está de férias com os filhos nas Seychelles. Há gente que nunca vai ler o resto desta notícia, ficará sem saber que ela viveu lá durante um período e que foi aí que filha nasceu, que foi a convite do presidente das Seychelles, a maior parte das pessoas pensará que Ingrid já foi para umas férias milionárias.

Ela é inclassificável e disso eu gosto, não sei dizer se ela é uma mulher livre, mas que parece, isso parece. E isto é o que eu penso hoje, não a tenho obviamente sob vigilância, até porque vigiada ela já foi demais, mas estarei aberta a ver outros lados desta mulher, se eles me parecerem passíveis de crítica, mas até agora não vi.
~CC~

sexta-feira, julho 18, 2008

Agenda(s)

Em agenda ficam as memórias com e sem voz (II) e as mulheres livres (II) e outras notas soltas que trarei da viagem que inicio hoje. Daqui a nada já estarei no aeroporto de Roma e daí até à pequena vila a 100km de Florença que acolherá educadores de vários países que querem formar uma rede internacional para educar para uma Cidadania Global. Segundo sei, virá gente de Malta e da Palestina e de países outros que não apenas os dos circuitos dos países do poder. Não vos sei explicar porque é que nos acolhemos em Itália, agora que os seus rumos parecem tão arredios do acolhimento da multiculturalidade. Mas há muito aprendi que os povos não se espelham completamente nos seus governos, que há muitas verdades dentro de uma só.

Em agenda também a arrumação das ligações virtuais a outros amigos, desde o JR Marto à Clorinda que mudaram de casa e a alguns outros que têm chegado recentemente. Que me perdoem esta desarrumação permanente, é o tempo sempre a escassear.

Cidadania Global o que é? Como a definir? Servirá para alguma coisa lançar conceitos novos num mundo tão saturado deles? E redes, valerá a pena mais uma? Vou escutar, uma das minhas tarefas permanentes na agenda.
~CC~

quarta-feira, julho 16, 2008

Mulheres livres (I)

Elas segredavam uma para a outra: já deve ter outro namorado. Questionei-as directamente: de quem falam vocês, é de mim? Que não, que não era. Resolvi brincar, sabendo a indignação que ia suscitar: então é de uma de vós?! Se tivesse pensado duas vezes não diria nada para não ter de ouvir o que se seguiu.

Elas eram duas mulheres bem casadas, que amavam os maridos e que esperavam ficar com eles para sempre. Tinham filhos lindos, encomendados a Deus menino e menina e Deus ouviu-as e brindou-as com um casal. Estas mulheres nem sequer eram afectadas ou especialmente religiosas, mulheres normais de classe média e profissão liberal, mas com o mundo do tamanho do seu quintal. A felicidade em família e a profissão conquistada, os trunfos apresentados, as grandes conquistas.

Está tudo certo mas há qualquer coisa que lhes falta em chama, em viagem, em experiência. São mulheres lisas, direitas, feitas à medida. E custa-lhes compreender as outras, mesmo não querendo, escapa-lhes aqui e ali um comentário de gozo, um olhar de soslaio, o traçar de uma fronteira entre elas e as outras. Elas são as mulheres casadas uma só vez, as da escolha certa, as do ideal do amor companheiro, elas não falharam. Elas não são as namoradas nem as amantes, elas são as mulheres, as esposas, as companheiras.

Por um momento oiço outra vez a minha filha a dizer "eu disse à professora que quem me tinha arranjado aqueles folhetos tinha sido o namorado da minha mãe, e a professora muito atrapalhada corrigiu: pois, um familiar".

É este ainda o mundo em que vivemos, um mundo em que as mães ainda não podem ou não devem ter namorados.
~CC~

terça-feira, julho 15, 2008

Memórias com voz (I)

Há certos naufrágios que o Verão nos traz à memória, lembro os teus olhos como navios perdidos, como bandeiras de aceno cujo código não sabia interpretar, como um adeus que eu ainda não sabia ser para sempre. Nunca compreendi os teus olhos nem as tuas palavras, e não tenho a fotografia deles, por isso pinto-os feitos um céu de fim de tarde de Junho, um céu limpo cruzado pelo voo das andorinhas. E arrumo esses teus olhos belos na gaveta dos amores perdidos.
~CC~

Memórias sem voz (I)



A senhora branca e loira, de olhos claros, deixou à guarda do rapaz africano o seu bebé pequenino para ir tirar o curso de datilografia, uma possível futura ocupação que não deixaria envergonhado o seu marido, já um graduado e aspirante a comissário de polícia. A menina, igualmente branca e loira, tomou os seus biberons da tarde nos braços negros e no colo do rapaz, um par improvável para uma Angola dos anos 60, mesmo no limiar da eclosão dos movimentos de libertação. O que bebeu com esse leite e com esse colo não está na sua memória, nos seus sonhos ela bebeu aí o gosto imenso pela vastidão das paisagens ou pelo que também poderia chamar liberdade.


~CC~

segunda-feira, julho 14, 2008

Ficar ao pé do mar

Parece uma ideia mórbida esta de pensar na nossa morte. Há pessoas que durante toda a vida nunca pensam nela. Já a imaginei como a liberdade mais plena, mas agora só a associo a escuridão e portanto à prisão imensa do nada. Outros pensam insistentemente na sua morte, deixando recomendações claras, e entre esses, estão sobretudo aqueles que querem as suas cinzas no rio ou no mar. É como se eles fossem uma tribo, um conjunto de gente que só se irá encontrar entre a água sal ou entre a água doce, quando deles restar apenas a pequena partícula do eu que foram. Não me conto entre eles.

Até ontem não conhecia ninguém que tivesse para a sua última morada o mesmo desejo que eu. Mas se ela apareceu tão diferente de mim dentro do filme*, quando pediu agonizante ao seu amor que levasse o seu corpo para o pequeno cemitério com vista para o mar, não quis acreditar que aquelas suas palavras eram iguais às que eu própria já tinha pronunciado. Quero morrer muito velha, mas quero uma vista linda para um mar azul. E não é por engano que lhe acrescento azul, mas sim porque há mar de muitas outras cores, eu própria já estive dias e dias junto a um pedaço de tom castanho.

É claro que também serei infinita pequena partícula de nada, mas ainda assim perto do mar.
~CC~

* Paciente Inglês, comprado para revêr após todos estes anos e a preços tão módicos no supermercado que não queria acreditar que a fita fosse mesmo feita de imagens-movimento.

quinta-feira, julho 10, 2008

Nascer

A minha rua em Luanda, o ano passado, afinal tantos anos depois.

Nascemos muitas vezes ao longo da vida, também nos sentimos morrer por vezes, no tormento de uma solidão que nessa altura é maior que todas as outras. E nascemos a cada encontro, como hoje, na mesa do ninguém lê*, em que se sentou connosco um poeta, todo ele construido da simplicidade com que me parece amar as palavras. É bom nascer mais um bocadinho, porque cada outro com que o encontro se tece, é sempre também mais um lado qualquer de nós a descobrir o mundo.

Mas há há um lugar agarrado a nós em que nascer foi a primeira inscrição da geografia sobre o nosso corpo, marcas que os nossos dedos não conseguem tactear e que moram entre a derme e a epiderme. Penso às vezes nesse nascimento das pessoas com as quais me cruzei já adultas, penso na infância delas e nas crianças que foram e espreito-as dentro dos olhos, como se pudesse voltar com elas ao lugar onde nasceram. E às vezes volto.
~CC~

* Girafa cor de rosa e Deep, senhoras da Geografia do Norte, ficaram presas nos seus afazeres. Sabemos que não era grande dia para a Sardinhada, mas foi assim. Um dia poderemos talvez sentar-nos convosco num outro lugar, certas que nesse encontro, nascer será também a palavra adequada para referir este modo como nos movimentamos uns com os outros, uns para os outros.

quarta-feira, julho 09, 2008

Verão que (me) tardas



Entre tantos dias de ritmo intenso este chega hoje com um certo sabor a festa, como se de repente entre todos os sabores ganhasse o vermelho adocicado das cerejas. Chegaram ao fim os dias de viagem de estágio em estágio, vividos entre momentos de grande alegria e preocupação intensa. Pequenos pedaços foram quase tudo: a peça representada pelos jovens com défices cognitivos profundos da APPACDM; os três idosos vestidos a rigor e brilho que vieram cantar letras da sua autoria, a poesia popular a sair decorada sem custo dos lábios das idosas a quem a vida (quase só) chega através do serviço de apoio domiciliário; as despedidas que muitos fizeram na sinceridade de uma saudade que já começa.


Este Verão não me parece ser, nunca a escola esteve assim frenética em Julho, nem o meu coração fervente de emoções e desafios balançou e bateu tão manso de cansaço que quase não o consigo ouvir. Nunca as letras pararam tão devagar nos dedos e os romances do ano esperaram tanto para ser lidos. Nunca, como este ano, deixei de renovar o guarda roupa com uma nova cor ou feitio da estação, nem de cortar o cabelo um pouco mais curto.


Este Verão não parece ser, o mundo estremece entre a libertação de Ingrid e o preço do barril de petróleo, enviam-se mandatos de captura internacional, encerram-se processos judiciais de grande aparato, os deputados parecem não querer largar o debate sobre o estado da nação, as pessoas correm ainda pelas cidades.


Só o chapéu de sol laranja que abriste para dar sombra ao quintal parece ser um sinal de que é Verão. E é por ele que me vou guiando, na esperança de ainda conseguir apanhar as noites de calor e lua deslumbrante.

~CC~

segunda-feira, julho 07, 2008

Reservas de céu estrelado

Às vezes agrada-me aquela voz ciciada com que o Eduardo fala no programa da Antena 1: "Os dias do avesso". Desta vez o assunto pareceu-me da máxima importância. Dizia ele que o céu foi recentemente considerado património da humanidade, não um céu qualquer, mas o céu estrelado. A poluição luminosa aumentou tantos nos últimos anos que as grandes cidades são focos que emanam luz e tapam as estrelas. Como esta tendência de iluminar a electricidade todo e qualquer canto não irá diminuir tão cedo, há já propostas em cima da mesa da UNESCO de guardar pedaços de terra iluminados só a luz de estrelas. O primeiro lugar é um monte escuro algures na Nova Zelandia, é aí que querem construir a primeira reserva de céu estrelado. Dizia ele, com a sua doçura e o pensamento sempre nas crianças, que assim podíamos levar os nossos filhos a ver o céu que nas cidades já não conseguem ver.

Lembro-me então do teu monte no Alentejo e do Petromax à luz do qual jantavámos tantas vezes para poupar a energia do gerador. Invariavelmente se seguia o passeio pela noite que só parecia escura até vermos o imenso céu estrelado por cima de nós. Elas eram tão grandes, tão brilhantes que ocupavam os nossos olhos por inteiro em desenhos que procuravámos compreender. E as palavras tornavam-se mais redondas e mais doces e o sono chegava muito mais cedo. Curei tantas feridas entre os dias nos campos de estevas e as noites de estrelas.

Não sei se me agrada esta ideia das reservas de céu estrelado. Penso que qualquer dia todas as coisas de que realmente gostamos estarão em reservas e o resto do mundo será um lugar inabitável.
~CC~

PS- Inicialmente troquei os "Dias do Avesso" com O "amor é" este último é da responsabilidade do Júlio Machado Vaz, um homem a quem os anos não gastam a voz e o interesse. Que fique a correcção, não obstante o cansaço destes dias.

sexta-feira, julho 04, 2008

quinta-feira, julho 03, 2008

A construção do amor e outros edifícios(III)


Jaime era um homem bem parecido, com uma voz bonita, e muita confiança em si mesmo. Mal acabou a faculdade conseguiu o emprego que queria, nele a sua voz brilhava como uma peróla. A carreira correu quase tão bem como o amor. Hoje pensa que encontrou cedo demais a mulher que procurava, era ela, mas chegou muito cedo. Casou com ela mal se estreou no primeiro emprego e os filhos chegaram pouco depois, duas meninas lindas, com quatro anos de diferença. Ela era uma mulher alta e um pouco redondinha, mas os cinco quilos a mais davam-lhe graça, enchiam-lhe as covinhas do sorriso mais bonito que alguma vez tinha visto. Era activa e bem disposta, quente e lunar. Uma pessoa pode ter tudo isto e perder? Sim, diz Jaime, foi exactamente o que ele fez. Olha para mim e nem o reconheço, é sombra dele próprio. E porquê, porque é que perdeste o que tanto amavas? E ele diz o que já antes ouvi da boca de tantos homens: por estupidez, por mera estupidez. É este o nome que alguns homens dão à traição, não conseguem sequer pronunciar a palavra, é como se dentro dela estivesse uma ofensa virada contra si próprios.

Óscar tinha sido sempre o patinho feio, o tipo de homem com que nenhuma de nós sonhava estar, desde que nos tinhamos cruzado no pátio da escola até os anos todos em que ele nos aparecia sempre em algum lugar, soprado pelo vento leste. Quando pensavámos em beijos impossiveis, pensavámos nele: e o Óscar, já pensaste beijar o Óscar? Cruzes, canhoto! Casou com uma rapariga muito pequenina e magrinha, tão envergonhada, que nunca lhe ouvimos palavra. Nunca lhes conhecemos crianças. Com a maturidade passámos dos comentários parvos de miúdas aos preocupados. Imaginava o Óscar e a mulher nas mesmas operações dificeís que alguns dos meus grandes amigos: os corpos são escortinados a pente fino, despidos de toda a intimidade e o sexo é reduzido a um mero exercício de reprodução. Ontem o Óscar escreveu-nos um e-mail, nele diz que chegaram os dois filhos dele, um com quatro e outro com seis e que será ele a pedir licença de maternidade pois a sua menina mãe está a acabar o seu projecto de investigação e ele não vai deixar que ela o abandone. O Óscar, quantos beijos não valia afinal o Óscar!

Estes dois homens talvez existam ou não, talvez tu os conheças também.
~CC~

terça-feira, julho 01, 2008

Sobre o medo...

Foto do JVT, no Ninguém lê

Respondendo a desafios, vencendo o medo em http://ninguemle.blogspot.com/search/label/desafio3


E vale a pena o desafio, parece que o prémio é universal e do tipo "Sardinhas junto ao Sado".
~CC~

segunda-feira, junho 30, 2008

Maternidade

O ano acabou e ela revelou-se esgotada, atrás do cansaço chegou uma maleita e mais outra. Mas os olhos nunca deixaram de brilhar e nem por um minuto a vontade de viver abrandou. Mesmo doente, vai dizendo sempre que está bem e ralhando os meus cuidados, dizendo-os excessivos. Ela está sempre boa, mesmo quando a febre passa dos 39.

É impossível não ter orgulho no A a Matemática e no A a Português das provas de aferição, nos cinco a cobrir todos os quadradinhos da pauta, nas tardes em que pediu para ficar em casa a estudar quando gosta tanto de rua quanto eu. Não houve prémio nem se falou em recompensas, muito embora venha a pedir desde há algum tempo para viajar, sobretudo este ano em que viu a mãe partir e chegar tantas vezes.

Mas o meu orgulho não teria sentido se visse crescer nela a arrogância pelos mais fracos, pelos menos inteligentes, pelos que olham a escola de um modo diferente do dela. Fez uma festa com uma das colegas quando soube que um dos alunos mais complicados da turma seguia com eles para o 7º ano. Fica igualmente feliz quando ganha nas corridas, quando a equipa da turma fica em primeiro num torneio, quando se enfeitam todos para dançar e cantar e ela faz bem e se sente bonita. Fica feliz quando vamos às compras e escolhe uma roupa que a torna elegante, quando o jantar é uma coisa que gosta, quando comentamos no seu blogue privado. O seu mundo é maior e muito mais completo do que o protótipo da menina boa aluna que faz dos estudos um objectivo de vida, chegámos à conclusão de que os 4 livros que lhe desapareceram este ano só podiam ser dela: dificilmente se queixaria do facto ou acusaria os colegas.

E há as contendas: a paixão pelos cavalos a pedir aulas de hipismo que eu recuso, a desarrumação a indiciar uma pré adolescência cada mais acentuada, o telemóvel a furar os bolsos das calças de ganga, a lua a levá-la por momentos para recantos aos quais não chego.

Queria agradecer-lhe isto de ser mãe dela. E queria que este prazer pudesse permanecer sempre como uma coisa imensa na minha vida.
~CC~

Senhora da Visitação

Quando o sol desce num dia de Verão abrasador numa pequena ermida no coração do Alentejo, enchendo o céu de uma luz dourada reflectida na cal das paredes, é impossível não acreditar que se a Nossa senhora existe, é claro que virá aqui para uma visita. Nossa Senhora da Visitação é assim o nome mais belo a dar à passagem de um qualquer anjo por dentro de nós. Abriu-se dentro de mim um futuro tão manso e tão intenso que parecia poder fazer desenhos sobre a realidade, tornando-a a própria matéria dos sonhos.

Depois a brisa passou nos meus olhos e pelos teus à hora do crepúsculo e deixou as marcas com que a memória tece para sempre os seus laços.

~CC~

quinta-feira, junho 26, 2008

De mãos dadas


Nunca poderei esquecer que o meu pai me dava a mão quando saíamos à rua, mesmo quando eu já não tinha idade para isso e não me ia perder dele, outras vezes passava-me um braço pelo ombro e trazia-me assim, como num ninho.

Nunca poderei esquecer como tu, ao contrário de tantas outras crianças, tinhas a iniciativa mal deixavámos a porta de casa, de nos dar a mão, de nos segurar com força, quase com medo de que te esquecessemos num lugar qualquer. Era a mão mais doce que já segurei, tão pequenina, tão minha.


Nunca poderei esquecer a mão permanentemente húmida de um rapaz que me fazia poemas e que queria ser meu namorado embora soubesse que eu já tinha um namorado, tinha uma doença que o fazia pingar das mãos e por isso usava sempre um lenço. Um dia, num passeio colectivo a Sintra, deu-me a mão e eu fiquei a pingar tanto como ele, mas não tive coragem de a tirar.


Nunca poderei esquecer aquele homem mais velho que há muito não dava a mão a ninguém na rua e que segurando a minha me disse: fico um pouco envergonhado.


Nunca poderei esquecer o modo como uma mão de uma colega que à minha se agarrou quando me sentia a desfalecer num lugar em que não tinha ninguém, me fez ter esperança.


E nunca quererei esquecer as noites em que adormecemos de mãos dadas e assim permancemos longo tempo até que o sono as desfaz. Talvez seja por causa delas que acordas para me salvar dos pesadelos.


São as mãos nas mãos que nos aquecem o sangue.

~CC~

terça-feira, junho 24, 2008

Prisão

Há imagens que perduram nos dias como alguém a gritar dentro de um pesadelo, mesmo quando acordamos parece que a aflição permanece.

Ela era uma mulher grande de um loiro que não consigo adivinhar se natural. Jovem ainda, nunca para mais de trinta anos, toda ela uma torre de marfim, um cofre forte, um lugar longe.
Levava uma criança de três anos com ela, loirinha também, mas pequenina e com um rosto bonito, quase alegre. A mãe trazia-a presa por uma trela, em vez da tradicional mão. Quando a criança se afastava dela para ver uma montra, ela não a seguia, nem lhe dizia nada, dava um puxão na trela que entrentando se tinha soltado mais pela pressão da criança. E assim foram andando corredor de centro comercial fora, perante a admiração de quem passava. Havia um silêncio onde me parecia ler reprovação, mas muda. Eu segui-a com os olhos muito tempo, tanto que confirmei como o comportamento da criança era igual a de um bicho preso, farejando uma coisa interessante, parando junto de alguém, para logo ser puxada para seguir caminho.

Ainda pensei em dizer alguma coisa mas não consegui encontrar as palavras certas, as que pudessem interrogar sem ofender a mãe-dona. Ou talvez ela precisasse de ser ofendida, mas dificilmente eu o conseguiria fazer. A imagem, essa não a consigo esquecer.
~CC~

segunda-feira, junho 23, 2008

Prova


Quando o Verão começa, o mar ainda está frio, embalado que foi pelo Inverno. O melhor modo de o provar é bebendo pequenas gotas na pele da pessoa amada. Quem diz pele, diz lábios.

~CC~

sábado, junho 21, 2008

Juventude (I)


Dizem que a juventude não pensa. Dizem coisas que não são verdadeiras. Já era assim quando eu era jovem, esta espécie de julgamento universal sobre as gerações não ajuda a incentivar o que de melhor há nelas, por muito que algumas coisas possam ser especialmente perturbadoras (por exemplo, o uso intensivo da tecnologia para diálogos de vazio).

Mas os jovens também são pessoas como tu, por escolha a viver e a pensar do outro lado do mundo.
~CC~

quarta-feira, junho 18, 2008

Vermelho-amarelo-verde


Mana, estive lá, no lugar onde os olhos das pessoas são os mais tristes de que tenho memória, talvez porque nunca tenha entrado num campo de concentração, talvez porque mesmo os olhos mais pobres que vi em África não eram assim. Não consigo lá ir sem me lembrar. É sobretudo o cheiro, aquele cheiro do azedo químico, parecido com o de enxofre que se sente em algumas termas, mas diferente porque este parece emanar da pele das pessoas. Depois de algum tempo falaste abertamente desse cheiro. O que é espantoso é que não me recordo das lojas, dos cafés em volta, da loja das flores, nem do café ao ar livre dentro do próprio hospital, não vi tudo o que agora vejo. Habitava em nós um sonambulismo, um vazio, uma tristeza que procurávamos a todo o custo afastar. E conseguiste mana, e conseguimos.

Jurei que voltaria lá como voluntária, ciente de que o meu saber poderia talvez ajudar alguma coisa. Temos estas crenças de devolver o bem a quem nos faz bem. Mas não voltei e hoje penso mesmo que nem seria muito necessária, aquele hospital está cheio de voluntários. Mas desde o primeiro ano do curso que uma aluna dizia que queria lá fazer o seu estágio de animadora sociocultural. Se podemos, devemos estimular que possam ir atrás dos sonhos. E assim foi, ela e outra estão desde Janeiro na Pediatria do IPO-Lisboa.


Estive lá na festa das crianças, num auditório que nunca tinha visto. As animadoras organizaram actividades em todos os lugares em que havia crianças e jovens, fiquei a conhecer todos. A projecção dos medos e dos sentimentos era a matéria prima do trabalho que procurámos fazer através do jogo e da brincadeira. Um jovem de 14 anos nunca quis fazer nenhuma das coisas propostas, mas um dia aceitou a pequena tela e o pincel que elas ofereceram. E pintou um fundo negro com um bonequinho amarelo no meio como se fosse um semáforo e escreveu tristeza igualmente com letras amarelas. Vi a tela dele na exposição e a sua fotografia. Então pensei que talvez o bonequinho se pudesse tornar verde e libertar-se do fundo negro que o oprimia. Mana, pensei que podia fazer como tu fizeste.
~CC~

terça-feira, junho 17, 2008

Saber(es)


Durante largos anos acreditei que as conferências eram a sério, que estavámos ali para de facto trocar saberes uns com os outros, partilhar o resultado da investigação, conversar como bons amigos sobre o que nos fazia estudar. Ficava quase emocionada por chegar perto dos autores de livros que me tinham ajudado a construir o pensamento. Depois chegou o desencanto das conferências e de quase todos os conferencistas, ficaram alguns como amostra do coração e do pensar. Numa das faculdades em que dei aulas, os professores eram obrigados a publicar pelo menos três artigos por ano e a efectuar comunicações, numa espécie de lei de mercado aplicada ao saber.

Por isso, na vertigem da rejeição, via tudo como uma imensa feira de vaidades. Deixei quase completamente de frequentar estes lugares e tenho voltado lentamente, desconfiada ainda. Na verdade faço-o por duas razões: porque não posso por enquanto ignorar o valor de um currículo e provavelmente nunca poderei e porque permanece em mim uma réstia de esperança. Hoje lá fui, parte de mim arrastada pelo tema da Cidadania Global e pela vontade de mostrar o que ando a fazer, parte de mim já em tédio e descontentamento.

Hoje tudo foi mau, o arrastar das comunicações, a tecnologia que não funcionava, a a qualidade das coisas que se apresentavam (28 slides para 15m de apresentação, será possível?!), o modo como os oradores aceitavam comunicar de costas para os ouvintes e de olhos postos no power point que liam quase na íntegra, um moderador que não moderava e que era também comunicador. Gosto mais de falar de pé e lá pedi ao moderador que encolheu os ombros a pensar quem seria esta rapariga da pronvíncia. Na sala não havia mais de dez pessoas, pois decidiram colocar cerca de 8 salas em simultâneo.

Quando terminei, puxei então uma cadeira e sentei-me de frente para eles, sentei-me como se estivesse no café ou como faço tantas vezes nas aulas, como se estivesse quase em casa, sem dar conta do que fazia, parte daquele meu alheamento do lugar era mesmo cansaço. Mas foram os melhores quinze minutos do dia, todos se puseram a falar, mesmo quem não tinha vindo de casa para apresentar nada, anulando as fronteiras entre os que dizem e os que ouvem. Não falaram só sobre o meu trabalho, todos falaram de si e do que pensavam, mesmo os que agora não andam a investigar nada. De repente senti-me bem. Mas foram só quinze minutos, talvez os quinze da esperança. Mas não tenho dúvidas de que estes modelos de seminários e conferências estão gastos, é preciso inventar outros modos para trazer o saber às nossas vidas.

Quando penso em aprender penso sempre em duas ou mais pessoas percorrendo as pequenas alamedas de um jardim.

~CC~

segunda-feira, junho 16, 2008

Envelheço (I)

O meu rosto está lentamente a cobrir-se de rugas. Primeiro foram só uns fiozinhos à volta dos olhos, mas agora desataram a aparecer por todo o lado. Mas não é por isso que estou a envelhecer, há qualquer coisa outra. É o modo como os sentimentos andam sempre muito próximo de aparecer, como o mundo se torna pesado de repente ou tão leve que acho que vou voar com ele para outro sistema solar. Dantes achava que era isto ser mulher mas agora que conheço melhor as mulheres acho que é por estar a envelhecer. Também achei que era por eu ser Almar, esta espécie de pertença a uma tribo andarilha, mas há muito que me perdi deles. É por eu já ser velha, velha como as palmas das minhas mãos que parecem de 90 anos com tantas linhas cruzadas e desalinhadas.

Tenho, como os velhos, uma visão distorcida do real. As pequenas coisas parecem-me enormes e as grandes parecem-me tão pequenas. É o modo como me entusiasma uma coisa bem feita pelos meus alunos nos múltiplos contextos em que os vou ver, acompanhar, observar. É o modo como me enterneço com a minha filha a entrar na sala da formação com os cabelos molhados da piscina e os olhos líquidos de sol, desligada do mundo e feliz. É ter vontade de chorar quando sinto genuíno um abraço dado por alguém que não via há dez anos e conheci ainda uma miúda a tentar afirmar-se no trabalho e hoje me aparece assim tão crescida, tão sabedora. É ter vontade de chorar porque hoje, de carro imobilizado junto a uma passadeira, a mãe que a atravessava com o filho pequeno parou a meio para dar um beijo na criança que levava pela mão e esta se encolheu e riu arrepiada. É ter saudades de gente que mal conheço só porque um dia me disseram ou escreveram qualquer coisa que me tocou especialmente.

É o modo como uma coisa grande como esta última crise despoletada pelos caminonistas me parece tão pequena. É o modo como a recusa do tratado no referendo irlandês me dá vontade de rir, não devia. É o modo como no trabalho só me interessa a minha própria actividade de docência e os projectos a que me ligo e de que efectivamente gosto, ficando tudo o resto a importar-me tão pouco, não devia. É o modo como gosto de olhar para o mundo com a calma de quem olha para uma noite escura mas pontuada de mil estrelas, é ficar a pensar nela muito tempo. É o modo como preciso de compreender tudo e me custa tanto opiniar, como se o tempo das certezas se tivesse ido de vez, de vez para não voltar mais.


Envelheço, os olhos no meu rosto já não brilham da mesma maneira.
~CC~

domingo, junho 15, 2008

Este Domingo


Porque hoje é Domingo e a tua voz só ecoa no telefone em vez de acariciar a minha pele, não é afinal um Domingo verdadeiro, sabe a estufa como a fruta que nos chega fora do tempo. Esse é o desconforto inicial da tua ausência. Sinto este domingo sem ti muito grande, como se eu fosse ainda adolescente, como se as férias de Verão fossem ainda os três meses que eram naquele tempo, ou então como se fosse já velha e o tempo me sobrasse porque todas as tarefas essenciais estão feitas e só sobra o acessório.


Sei porque não estamos juntos e sei como devo ocupar este tempo. A tua ausência é feita para que eu ocupe todo o tempo que me tomas com as tarefas a que me costumas roubar: a limpeza da casa, a troca das roupas Verão-Inverno, a sopa para a semana, os mais de 50 trabalhos escolares à espera das notas a verde, a comunicação para o colóquio, a escrita da tese que se atrasa todos os dias mais e mais, os dois relatórios de projectos cuja data de entrega já passou. Em vez disso, ocupo o tempo a pensar na tua ausência e na solidão que me toma hoje e no gosto a que ela me sabe e consigo passar do desconforto inicial de me saber sem ti a um conforto vagoroso e lento. Sinto-me um gato deitado ao sol, uma papoila a saborear o vento no alentejo, uma andorinha a debicar por horas e horas a água de um leito do rio. Não devia ser nada disto, mas é.


Gosto que a minha vida seja assim não obstante desejar que ela seja tantas vezes uma outra coisa. Gosto de sentir este dia sem vozes, preciso dele para cortar os dias e dias em que elas transbordam perto de mim. Deixo-me ficar bem neste silêncio que mais logo, mais adiante, será já saudade.


~CC~

sábado, junho 14, 2008

Os anos do meu amigo

Ele traz dentro dos olhos todos os montes de pedra e erva do lugar em que nasceu, misturados com notas de canção francesa das outras rotas do mundo por onde os pais o levaram. Ele tem sempre um elogio, uma brincadeira, as moedas certas na mão para nos pagar o café da manhã.

Nos lugares de trabalho os amigos demoram a chegar e ainda mais a ficar, parecem ser fogos fátuos que tanto nos alumiam como quando damos conta já não estão, deixando um friozinho na nossa alma. Com ele não é assim, ele continua lá, mesmo quando os tempos que temos são tão poucos que quase só nos cruzamos uma vez por semana. Mas sabemos que ao alcance de uma palavra, um mail, um tefonema, não nos deixará jamais sozinhos do outro lado da linha, ele responderá. Gosto muito desse seu dom, dessa sua bondade, dessa reciprocidade que constrói com os outros.

Não posso dizer se o seu mundo é triste ou alegre, mas posso dizer que sabe rir, sabe ser sério, sabe calar-se quando ficamos tristes. Gostaria de aumentar o seu grau de felicidade sim, mas não depende nada de mim. Vejo-lhe por vezes os olhos em viagem para esses lugares, uma aspiração a uma outra vida, um sonho que se lhe atravessa na quietude dos dias e penso para onde irá, que caminhos seguirá no encalce dessas chamas. Imagino-me a visitá-lo daqui a uns anos num outro lugar, mas a música, essa será a mesma, os acordes quentes de umas mãos estendidas quando precisamos delas. Foi com ele que aprendi que mesmo que ninguém lesse era importante escrever. Mais tarde ensinou-me a fazer ardósias azuis e é por isso que aqui estou.

Atrasada, incorporada numa seita que me leva a mil afazeres e me afasta de tudo, venho dar-te mesmo assim os meus parabéns e um abraço grande e doce.
~CC~

quinta-feira, junho 12, 2008

Ser


Ser apenas do mundo uma parte pequenina. Mexer-me nessa parte pequenina como se fosse muito grande, espalhar-me, agarrar-me mais além no coração de alguém que eu toquei.

~CC~

quarta-feira, junho 11, 2008

Silêncio



Confesso que ando aturdida entre o volume de trabalho, o ruído da crise no mundo e o fascínio pelo cinema na minha cidade (que filmes tão belos tenho visto nos independentes americanos e no cinema polaco, coisas que esbarram na indústria do cinema). E preciso de silêncio para pensar, porque as palavras, essas só chegam cheias e pesadas de sentido quando compreendo. Não é ainda o caso, só tenho perguntas a ecoar em mim. A primeira, tão forte que me entontece é: qual é o exacto sentido de tudo isto? E isto não é Portugal, é pelo menos metade do mundo. E por favor não me digam as coisas simples que enchem os noticiários, digam-me mais, digam-me outras coisas para que possa pensar, compreender.


~CC~

terça-feira, junho 10, 2008

A bola

Faço também parte do pequeno grupo dos quase indiferentes a esta loucura que toma conta do país e parece anular todas as crises que nos atormentam. Não deixo de achar o futebol um jogo bonito e interessante, exige uma combinação sábia artes várias, talvez mesmo poesia. Está, contudo, há muito contaminado por tudo o que temos de pior: ambição desmedida, corrupção, inflação milinonária de talentos, violência, xenofobia. É um desporto rei, mas um rei obeso, opulento, pesado e sem capacidade de governo. E os meios de comunicação social fazem triste figura ao seguir passo a passo o cortejo europeu deste rei.

No entanto, desde há uns anos que procuro fazer com que a diferença que vai de mim ao outro não seja um abismo, mesmo que o outro seja um adepto apaixonado do circo montado nos quadrados de relva destas novas catedrais, novos lugares de culto. Não sinto nada quando vejo as bandeiras portuguesas estendidas na janelas dos prédios das cidades, mas arrepia-me o silêncio dessas cidades quando há jogo. Arrepia-me a forma como a festa do golo ecoa pelas paredes e ruas desertas, mostrando que afinal ninguém dorme nem se foram embora, estão ali, vibram, estão tremendamente vivos. Talvez isto seja difícil de explicar, mas não são os jogos que me emocionam mas o modo como as pessoas se emocionam com eles. Mas é também claro que o fascínio por essa emoção não anula o repúdio, esse está alojado mais fundo na reflexão construída sobre o lugar que o futebol ocupa aqui e agora. Um triste lugar.
~CC~

sexta-feira, junho 06, 2008

quinta-feira, junho 05, 2008

Diários de Resiliência (III)

Um centro para jovens de iniciativa autárquica, duas salas pequenas mas arejadas e bem mobiladas numa zona em trânsito do rural para o dormitório, mistura de um velho bairro hoje degradado com um novo, de construção barata mas muito digna, quase bonita. Fim de uma tarde que felizmente já aquece.

Há dois anos que conheço este local e sei que os jovens o procuram mesmo, não é daqueles lugares vazios, onde eles não param. Aqui podem usar livremente os computadores, só o acesso a pornografia é interdito, usam-nos predominantemente para estar no msn. Aqui podem usar a consola e ver filmes. E é basicamente isto e isto é um sucesso. É também um sucesso porque os monitores têm pouco mais que a idade deles, compreendem-nos, falam a mesma linguagem, mas sente-se que há respeito, eles não abusam. Não sabia como sair deste beco, nem como fazer o animador sair dele. De um lado a satisfação dos utentes como é moderno dizer-se, do outro a minha profunda insatisfação, inquietação. Qualquer coisa parecida com sessões de leitura, debate de filmes, escrita criativa, dinâmica de grupos, qualquer coisa dessas me parecia votada ao fracasso.

Hoje saíram para a rua com as máquinas digitais nas mãos a fotografar o bairro e a eles próprios, eles outros nos jardins, nos bancos, encostados às paredes. Encantaram-se com flores vulgares, carreiros de formigas, cães à solta, bandeiras ao vento. O grupo tinha miúdos dos 8 aos 18 ou mais e isso não constituiu nenhum problema. Por ali andaram tranquilamente e aos pinotes, sem nenhum tédio, olhando o que já tinham olhado vezes sem conta.

Amanhã as fotografias encherão os ecrans dos computadores para que aprendam a tratar a imagem, dar-lhes luz, tirar sombras, recortar, emoldurar...o msn ficará por uns momentos parado, parcialmente derrotado pelos rostos do bairro. Pensaremos em mais derrotas parciais.
~CC~

quarta-feira, junho 04, 2008

A construção do amor e outros edifícios(II)



Jacinta amou uma vez só e a dor do abandono foi tão forte que ainda hoje a sente como uma lamina a cortar a carne. Percebeu que não sabia medir-se na entrega, percebeu que quereria sempre demais. Escolheu o deserto em que mora como quem decide entre a paz e a guerra. Tem um jardim lindo de amores perfeitos e é tudo o que quer da vida, que a deixem dar-lhes água e alimentar as suas cores. O corpo pode pedir por vezes outras coisas, mas ela sabe torná-lo manso. Os dias de Natal é que são um pouco mais difíceis cheios de tanto silêncio.


Josefa mergulhava intensamente em cada amor como se ele fosse o único e o maior de todos, nessa infinita capacidade de se entregar como se fosse vento ou água. Não durava muito o tempo de cada amor, fins colocados por ele ou por ela, quase sempre despedidas negras. Era uma mulher em viagem recolhendo pequenas dores que nunca a derrubavam, saía de todas igual a si própria, como se limpasse a roupa depois de uma queda na areia, importante era seguir em frente. Não queria perder tempo a falar das suas mágoas nem a chorar, melhor era pensar no riso que ainda havia a conquistar. Pouco saberemos sempre de outras das suas paisagens interiores, a paisagem exterior era o seu domínio de brilho.


Joaquina ainda não era velha mas há muito tinham passado os anos da sua juventude. Sabia a história das suas rugas como sabia dizer da arquitectura de cada amor e da forma como a ruína os tinha afectado como se fossem casas. Não tinha tido muitos amores, mas cada um deles era um mapa mundo que tocava com os olhos fechados, como se a todos tivesse guardado um lugar único, parecia ainda amá-los, o que de certo modo era estranho. Disse-me um dia que tinha decidido não amar mais, que aquele amor que tinha agora seria o seu último. Questionei o modo como podia tomar tal decisão e se isso se devia à sua idade. Respondeu que não, que dominava agora melhor a arquitectura do amor, não era preciso procurar mais, bastava construir.


Estas mulheres talvez possam ser homens. Estas mulheres são na realidade uma mulher só. Talvez seja eu todas estas mulheres ou talvez ela seja uma mulher que conheço.

~CC~

terça-feira, junho 03, 2008

Diários de Resiliência (II)

Elas passam a manhã na escola, a tarde inteira no ATL. As primeira hora e meia a seguir ao almoço é dedicada aos trabalhos de casa, depois o lanche e quando há tempo brincam. Brincam aí uma meia hora, talvez uma, até a carrinha os vir buscar. A brincadeira depois do lanche é controlada, podem fazer desenhos, ler uma história, fazer um jogo de mesa. O corpo não mexe quase nada, nem a voz. Dos corações nada sabemos, de preferência que batam devagar.

A sala é pequena, muito pequena. As animadoras ensaiam à sexta a menina do mar com estas crianças, foi o único dia que lhes deram. Têm 45m de ensaio uma vez por semana. Era preciso fazer muitas coisas com estas crianças antes de poderem representar a menina do mar.

Era preciso levá-las até ao mar, deixá-las rebolar na areia, dizer: gritem ao vento. Depois falar com elas sobre o sabor e textura que tem cada coisa: o sal do mar, a consistência da areia, as cores do céu, assim só para começar.
~CC~

segunda-feira, junho 02, 2008

A construção do amor e outros edifícios(I)


Elas dizem agora que são quase irmãs. Antes, eram só intrusas na vida uma da outra, o acaso tinha-as juntado sem que o tivessem pedido. Perguntas o que foi que fizémos por esta construção que agora nos parece quase perfeita e não conseguimos dizer ao certo. Falámos muito é certo, muitas vezes. Acredito no imenso poder que reside no coração posto nas sílabas. Estão ali uma com a outra sem perguntar por televisão, jogos electrónicos, computadores. É uma com a outra que gastam o tempo, na construção da cumplicidade que alimenta os segredos no raiar da adolescência.


As palavras sim, o resto foi só o vento que começou a soprar mais quente dentro delas, outra compreensão a nascer do que é uma e outra, a certeza de que o amor que lhes temos chega para cada uma ter o seu lugar, sem roubos nem competições. Haverá talvez ainda um choro, um amuo, uma zanga, mas os laços são agora fortes, capazes de enfrentar a tempestade.

A amizade pode ser a lenta descoberta dos pedaços de sol e de sombra que moram em nós, em vez do fogo voraz onde o outro se incendeia e se consome.

~CC~

sexta-feira, maio 30, 2008

Materialismo puro

Se estivesse sol poderia comprar as socas amarelas.
E chinelando com elas pelas ruas, poderia trazer mais e mais bocadinhos, encher o céu de azul.
~CC~

quinta-feira, maio 29, 2008

Diários de Resiliência

Na Segunda

Um grupo de mulheres de idades várias, usavam uniforme de uma empresa de catering mas os clientes há muito tinham acabado o almoço e estavam apenas elas, embaladas na penumbra enorme do refeitório. Entrei por uma porta que não devia e deslizei pelo corredor tentando que não me vissem. Não me viram, absorvidas nas palavras que também me absorveram.

- A minha mãe deixou-me aos oito anos numa casa e foi viver para outra.
Silêncio das outras mulheres.
Ela grita:
- Eu só tinha oito anos, oito anos e fiquei a viver ali sem ninguém.
- Para onde foi ela?
- Foi atrás de um homem qualquer, dizia que não podia levar-me.
Os meus passos têm que deslizar dali para fora e não posso ouvir o resto, mas pelo rosto dela transformou aquela dor (que ainda transporta) em força.


Na Quinta...

Aqui posso despir as palavras da moda: terceira idade e idosos e chamar-lhes velhos. Ando agora por muitos lares e centros de dia, oiço-os, recolho os beijos, as tristezas, os sonhos que ainda vão perdurando, a maior parte das vezes os diálogos são semelhantes a este que aqui reproduzo.
Entro e estão doze crianças e doze velhos num terraço ao quase sol deste Maio, sentados em círculo, julgo que preparados para um encontro.

Animadora: cada um de vós apresenta-se e diz uma coisa que gosta muito. E eles vão dizendo um a um, num contraste absoluto com as crianças. Elas (quase) só falam de coisas, eles (quase) só falam de afectos. Elas dizem que gostam da play station, de ver novelas, de comer pipocas, de jogar futebol...eles dizem que gostam muito de estar ali, que querem todos em paz, que gostam muito da animadora, que gostam de passeios, que gostam dos netos... Até que...
- O que eu gostava era de morrer já!
Silêncio total entre os miúdos
Animadora (entre o zangado e o divertido): essa não vale, pense lá noutra...

E ela brincou o resto da tarde, foi mesmo das mais divertidas, esquecida do seu desejo de morte. Não sabemos por quanto tempo o adiou nem quando voltará a gelar os nossos corações com os seus desejos
~CC~

quarta-feira, maio 28, 2008

Lá dentro, crianças africanas...

Nascer do Sol, a caminho das Quirimbas (Cabo Delgado)

Vento forte, palmeiras do Hotel Polana

Maputo, rua da Cidade

Maputo, festa do dia da cidade, Set. 2007


A Isabela escreveu um texto muito belo sobre o dia em que deixou, ainda criança, a África que ela conhecia como a sua pátria, o seu lugar no mundo. Também tive assim a infância cortada ao meio, como se as duas metades nunca mais tivessem possibilidade de se encontrar e nelas residisse uma identidade dividida, uma tristeza sem fim feita de uma saudade imensa que não conseguia explicar a quase ninguém porque eram só dez anos de vida.

Voltei há pouco tempo a África. Deixo para a Isabela e para os comentadores do seu post algumas imagens de Moçambique. Um dia tomaremos um chá, adultos europeus com as nossas crianças africanas lá dentro, à conversa como se qualquer um(a) de nós se pudesse levantar de repente e trazer mangas para todos (as do Cabo Delgado, as melhores de todas). E falaremos sobre identidade combinadas, múltiplas, ricas.

Um abraço por ora.
~CC~

segunda-feira, maio 26, 2008

Ser maior

Richard Zimler
Escritor


Ele costuma dizer que foi na praia que tudo começou, esse lugar onde só os adolescentes começam histórias de amor e onde nunca pensei começar nenhuma, nenhum romantismo nessa imagem de novela, ideal rejeitado. Beijos na praia?! É muito improvável, não fosse o meu mundo estar cheio de coisas improváveis em mim. Mas alguém sabe quando começa exactamente o amor? E quando é que podemos saber com certeza que amamos? Há quem diga que nessa certeza redonda e sumarenta parecida com a paz, mora também o fim do amor. E quando digo isto costumas zangar-te, talvez com razão.


Emprestei-lhe o livro como quem lhe dá uma chave para um mundo, assim é que começou. Mas sem a consciência plena do que queria e do que fazia. No empréstimo do objecto amado, como quem diz que se gostares dele é porque gostas também de mim. Se encontraras Sana, vais encontrar-me também, ela era muito pior do que eu nesse modo de tirar os pés do chão, muito pior na dor da terra perdida, muito pior no ténue fio que a ligava a tudo, muito pior em contenção, em explosão interior. Se compreenderes a dor com que ela está no mundo, muito pequena te parecerá a minha e poderás tolerá-la. Se compreenderes como é que o fogo pode arder lento e por dentro, poderás encontrar-me. E tu gostaste do livro mas não gostaste logo de mim ou gostaste mas ficaste assim sem saber até que o mar te disse, há pessoas que só escutam o mar, é por isso que as suas histórias de amor começam na praia.

Nunca ouvi a voz do Zimler, nunca o vi. Mas talvez o possa fazer amanhã, talvez amanhã. Hesito por saber que depois de o ouvir, nunca mais haverá silêncio na minha leitura. E talvez passe a emprestar livros com voz e as consequências sejam ainda mais imprevisíveis.


O Zimler, leiam-no, é um escritor maior.
~CC~

Tempo (III)


Penso num tempo de abraços sem fim.
~CC~

Sem norte

Cada grito que ecoa vindo da África do Sul é um mundo a desfazer-se de sentido.

Não são só as vidas deles que se perdem na violência daqueles actos, é toda a esperança que depositámos em fazer desta terra um lugar em que isto não poderia ser possível. Perco o norte, mesmo que não consiga chorar.
~CC~

quarta-feira, maio 21, 2008

Aniversário


Toma uma flor JPN. Parabéns.
~CC~

terça-feira, maio 20, 2008

Pobreza(s) III


Junho começa bem. Começa com um não. Há quanto tempo não diz não? Há quanto tempo não volta as costas a alguém? Há quanto tempo não se zanga? Aproveite, o protesto é pequeno mas vale mais esse que nenhum. Deixe a BP, a GALP e a REPSOL sem nada que fazer nos dias 1, 2, e 3 de Junho. Eles precisam de algum descanso, vá lá, digamos que um tempo de reflexão.

Os mails já circulam, o boicote está aí, é um começo!

~CC~

Riqueza(s) III

Avançam lado a lado por um caminho estreito e quase inexistente num terreno baldio onde não há papoilas, só ervas grandes e sem graça. O mp3 está na mão de um deles mas são os dois que ouvem a música, fios pendurados e repartidos baloiçando nos seus passos. São dois rapazes que devem ver o mundo há 14, há 16 anos, não mais. Avançam devagar e não há fim à vista naquele caminho, não se percebe para onde vão. É perfeita a sua cumplicidade.
~CC~

segunda-feira, maio 19, 2008

Pobreza(s) II


Mercado de Pemba, Novembro 2007


Eles desfazem com toda a paciência os pneus velhos para os transformar nestas tiras finas de borracha multi resistente que permitem juntar os toros de madeira uns aos outros, tornando-os inseparáveis. Com estes toros e fitas de borracha são construídas casas e bairros inteiros de uma grande beleza. Estes bairros, de casas de madeira redondas com quintais cheios de mamoeiros, em nada se assemelham aos bairros de chapa de zinco e cimento sem tinta nos arredores de grandes cidades em que muitos africanos vivem, quer na Europa, quer em África. Há saber no modo como se reciclam os materiais e se usa o que a terra dá. Há saber no modo como os bairros se desenham na terra, como deixam espaços comuns, como as mangueiras ficam no meio para a sombra e para os frutos. Há aspectos ainda preocupantes: a água, os esgotos. Mas não sei se a riqueza está em construir casas de tijolo cortando o céu, ainda mais aqui, num lugar em que o céu é todo ele um vermelho fogo de poeira e calor.

~CC~

sexta-feira, maio 16, 2008

Tempo (II)


Há segundos, minutos, horas, dias, em que solidão é um frio que parece que ter chegado para nos tomar para sempre. Acontece-nos no meio da multidão, acontece-nos entre os amigos, acontece-nos no meio do amor, acontece num dia intenso de trabalho, acontece numa noite de sexta, num domingo à tarde. Ela vem e embrulha-se em nós para nos enrolar a pele de escuro triste.


Digo-lhe baixinho: fica pouco tempo comigo.



~CC~

quinta-feira, maio 15, 2008

Riqueza(s)

A minha casa cheia da tua ausência.
~CC~

Pobreza(s) I

O homem chega com uma pequena carrinha, é tão pequenina que parece um ovo a rolar na estrada. A carrinha não tem marca que se veja e parece um produto adulterado, não por isso ser moda, mas porque foi construída às peças, como se fosse uma casa de um bairro clandestino, em que já há janelas mas a pintura ainda tarda. O homem vem ao fim da tarde, às vezes durante todos os dias de uma semana. O homem é já velho mais ainda tem força, caso contrário não arrancaria objectos tão grandes do lixo, objectos que não sei como encontra dentro dos contentores, nem para que os quer.


A princípio pensei que vinha colocá-los secretamente no lixo, na hora parda em que todos se preparam para jantar, por não querer chamar o serviço da autarquia ou por puro desleixo. Mas depois comecei a perceber que ele tirava as coisas do lixo, coisas partidas, velhas, fora de moda. Não sei porque as quer, não parece ser comida o que procura. E faz tudo a medo, olhando várias vezes para os lados e parando imediatamente a sua busca quando se sente observado. Imagino uma casa delirante com todos estes objectos que são pedaços de coisas outras, coisas que já foram de alguém.

Não sei que pobreza é esta, nem se é pobreza, todas as categorias que usámos para classificar o mundo parecem não ter já sentido.
~CC~

quarta-feira, maio 14, 2008

Creme de esteva



As coisas não me prendem. Demorei tempo a apreciar roupas, a gostar do espellho, a entender para que eram precisos adornos na pele se ela já era uma coisa tão bela. Ainda hoje não me demoro nas lojas, fujo dos centros comerciais, abomino desfiles de moda e outras manobras de exposição pública do corpo. Antes era uma ideologia baseada na busca da terra e da nudez, entre a ecologia e o comunitarismo, uma arquitectura tão íntima que não encontrava alojamento em nenhum partido, em nenhuma organização, em nenhum grupo. De qualquer modo cresci num mundo em que as mulheres que usavam saltos e pintavam as unhas eram objecto de desprezo, tanto quanto eram admiráveis as que usavam linhos brancos e longas cabeleiras sem pingo de tinta.


Hoje está longe de ser isso, abandonados os ideais românticos que forjaram a adolescência e embrulharam a entrada na idade adulta num limbo, há condições outras para pensar os objectos com liberdade. Mas ao contrário de muitos outros não viajei com a idade adulta até ao extremo, como quem vai da esquerda para a direita quando percebe que o mundo é imperfeito e dificilmente vai mudar. Não passei a gostar de saltos agulha e de verniz vermelho, mas passei a saber que quem os usa é potencialmente tão bom e tão interessante como quem não o faz, ainda que esteticamente essa imagem não me apaixone.


E passei a apaixonar-me por pequenos objectos, a deixar-me encantar pela poesia que alguns objectos parecem ter. É como se falassem comigo, é como se os ouvisse dizer: leva-me. É como se por os usar a minha identidade encontrasse eco neles. O creme de esteva, por exemplo. O creme de esteva, um produto natural para o rosto, estava num banal supermercado, creio que à minha espera. Não o tenho visto em mais nenhum. Tem duas particularidades: não parece acabar mais, há meses que o uso e o fundo continua a encher-se; cheira a campo, cheira à Primavera dos campos alentejanos, ao seu branco amarelo sol.


~CC~

terça-feira, maio 13, 2008

Temor, tremor.

Há mortes embrulhadas na revolta do mundo, vitímas de ditaduras, de actos terrorristas, de conflitos prolongados, da corrupção infiltrada entre os poros do negócio. Mortes que são gritos, mortes que nos dão vontade de gritar. E depois há estas mortes brancas, corpos tombados num repente sem sentido, um temor, um tremor. Há silêncios com os quais acordamos, mortes que não choramos, mas nos perturbam e incomodam. É tão longe a China, é tão longe a Birmania. Mas é como se aquela dor embrulhada em chuva fosse ainda de algum modo a minha dor.
~CC~

domingo, maio 11, 2008

Diálogos de rua

Disse a medo, perante a incorrecção que devia ser dirigir-me a ele no guichet
-Só queria comprar um bilhete, mas estou perdida no meio de tantas máquinas, mas há uma para cada destino?
- Deixe lá que eu vendo, assim é mais personalizado!

(Sorri, respirei de alívio, pensei que me ia chamar analfabeta)

Parece aflita a mulher de passo apressado e de olhar agitado, olho-a e ela dirige-se a mim
- Diz-me as horas por favor.
- Não tenho, não sei exactamente.
E quando ia dizer-lhe a hora aproximada que imaginava ser, ela diz:
- Já ninguém diz nada a ninguém, nem as horas!


(Há muitos anos que não uso relógio, após tentativas várias de o ter, mas tive pena. E tive pena porque não obstante a sua zanga exagerada, ela tem razão, já nem as horas se perguntam).
~CC~

sexta-feira, maio 09, 2008

Tempo (I)

Entre a terra e a pedra, poder respirar.
~CC~

quarta-feira, maio 07, 2008

Desejos



As palavras, todas elas, as mais feias e as mais belas, afogam-se num beijo. Só fica o beijo e dentro dele corações liquídos.


Beija-me Primavera.


~CC~

terça-feira, maio 06, 2008

Aprender

Aquela Faculdade é uma caixa forte pintada de branco, não fala comigo. Desde o primeiro dia que sou lá uma estranha e a maior parte das vezes não sei como fui lá parar. Não consigo resconstituir os meus passos. Nunca tinha feito lá nada antes. Desde o início tentei fazer o impossível em mim, pensar que ia para lá com um objectivo muito, muito específico, uma rota da qual não me devia desviar. Desta vez nada de delírios, percursos por este mundo e pelo outro.

Quando dei conta do que andava a fazer já os laços com os colegas eram quase tão sólidos como com os meus amigos de há vinte anos. Jantaradas, música, palavras noite fora, olhos molhados por vezes. Nada do que se espera de adultos, os mais novos já no limiar dos quarenta. Nenhuma rivalidade, pura delícia de amizade.

Depois a orientação, desde o início um nome certo, não haveria desvio. Um homem sólido, amigo, calmo e ponderado. Pois. Depois do primeiro ano o deslumbramento intelectual já morava noutro lado. Não resisti a seguir a pista do desnorte. Não sabia depois de tanto tempo a estudar que a orientação de um trabalho poderia acontecer a passear num jardim de um lado para o outro e depois pela tarde fora sentados ao relento num banco verde de madeira velha. Puro deleite de neurónios e um papel cheio de desenhos, mais confusa do que à chegada decerto mas com sentidos apontados e desafios múltiplos.

Ando por este mundo e pelo outro, é caso para dizer que nunca aprendo.
~CC~

segunda-feira, maio 05, 2008

Dias do avesso



A roupa vestida do avesso. O ponteiro a girar num sentido e os meus passos a girar para o outro. Um cordão prestes a apertar o pescoço e mil amarras por todo o corpo. Um peso sobre as palavras. Um sorriso a afogar-se. A impossibilidade de dizer algo que faça inteiro sentido para os outros. A fuga de todos os olhares que possam ver a cor que vai dentro de mim. O peso que cada hora tem em certos dias é superior ao seu tamanho em minutos e segundos.


Uma clara vontade de abrir uma janela e ter asas para poder sair por ela.


Abraça-me Primavera.

~CC~

domingo, maio 04, 2008

Mãe- um colo para as palavras

O prazer de a ver constuir uma identidade, passo a passo, palavra a palavra. Lugar ao texto de ~AF~, acolhido há uns dias atrás, e cuja partilha hoje resume quase tudo o que possa dizer sobre o ofício materno como longa e contínua construção do amor.

EU QUERO SER UMA PESSOA-LOBO

Depois do cão, o lobo é o meu animal preferido. Os lobos não são iguais às pessoas. Os lobos são mesmo muito diferentes das pessoas, apesar de haver pessoas que parecem verdadeiros lobos disfarçados.
No fundo nem sei se prefiro ser pessoa ou lobo, existem tantas diferenças:
1.
As pessoas lutam pela liberdade.

Os lobos não sobrevivem sem ela.

2.
Os lobos matam para comer.

Algumas pessoas matam-se a si próprias por desgosto, matam outras pessoas por ódio, matam animais por divertimento e sim, também matam para comer.

3.
As pessoas traçam o seu próprio destino.

Os lobos já têm o seu destino traçado.

4.
Os lobos são todos iguais.

As pessoas têm aspectos diferentes, têm costumes diferentes, têm pensamentos diferentes.

5.
As pessoas ou vivem cubículos fechados, ou em grandes casarões, ou em tendas ou frio, ou em apartamentos dentro duma grande cidade, e ainda são raras as que vivem no campo, mas essas vivem em casinhas bonitas, mas solitárias e sem grandes condições.

Os lobos só vivem num sítio na natureza e não te preocupes, eles não precisam de um shopping para sobreviver.

Mas pronto depois destes meus pensamentos, ainda ouço a célebre frase, da boca de um adulto: “Se não comeres a sopa toda, chamo o lobo mau.” Tudo por causa da maldita história em que o lobo mata a avozinha comendo-a e o caçador mata o lobo, baleando-o. Ou seja está é uma história, que é contada a crianças de 4 anos, em que se matam todos uns aos outros e ainda acabam felizes. Realmente é fantástico, como ninguém se apercebe disto e todos acham esta história maravilhosa.

Eu quero ser livre, só quero matar para comer, quero viver na natureza, quero traçar o meu destino e quero ser diferente dos outros. No fim de contas eu quero ser uma pessoa-lobo.
~AF~

sexta-feira, maio 02, 2008

Boas correntes

A poeira enviou no vento uma corrente. Não me importo não é expressão que colha em mim grande simpatia, mas sei que é modo de dizer o contrário, isto é, importo-me, quero, desejo, coisa que a Cristina sabe dizer bem e ainda bem.

Não me importo com o dinheiro, talvez por não desejar ter muita coisa.


Não me importo que me chamem aluada por saber que em parte têm razão e por saber que a outra parte é raiz na terra.

Não me importo de mostrar a minha ignorância, de dizer que não sei quando não sei.

Não me importo de chorar em público e em privado e de ainda hoje me emocionar tanto com tão pouco.

Não me importo de não ter um amor quando não o tenho, não me assusta a solidão.

Não me importo de ter tanto sempre para fazer por normalmente gostar tanto do que faço.

Perdoa Cristina a pequena transgressão de não nomear, peço antes que o vento de Primavera leve esta corrente a quem por ela aqui passar e por ela se deixar tocar.
~CC~


Regras:-

- Dizer 6 coisas que não se importe de fazer ou de ter.
- Colocar o link da pessoa que o "mimou".
- Colocar as regras no blog.
- Desafiar 6 pessoas, deixando um comentário nos seus blogs.