terça-feira, novembro 18, 2008

Perdidos e achados



As pessoas que eu perdi sem que tivesse escolhido perdê-las. Ficaram lá atrás, situadas em cenários com voz, cheiro, paisagem. Pergunto porque é que a vida as levou para longe do meu presente quando havia entre nós um rio de palavras e silêncios coloridos, tantos modos de nos dizer...Por vezes luto contra essa perca, vou fazendo alguns telefonemas ou enviando mails, até que o tempo me vence e o espaço entre cada comunicação se torna maior. É como se os caminhos se tivessem desviado de forma inevitável, destinos que se perderam. Aceito essas ausências sem mágoa, mas de quando em quando elas tornam-se tristes, como se as pessoas ausentes fossem sombras que me acompanham e que de repente tomam forma.


Hoje foi assim com a sms dela, devia ter ficado alegre por saber que está bem e a fazer teatro, coisa que sempre desejou. Devia ter ficado feliz, mesmo sabendo que o que escreveu a mim é o mesmo que escreveu a todas as pessoas que constam da sua lista de endereços. Mas ela deixou de ser sombra e tomou forma de carne e osso e voz. E vi-me e via-a na nossa juventude e transição para a vida adulta, pensei nas tardes, nas noites, nas manhãs em que acordámos juntas em tantos lugares. Lembro-me de pensar que as nossas crianças cresceriam juntas num sítio no campo, perto do mar e de muitos malmequeres. Como é que a vida desfaz amizades fortes, alimentadas de tanto sonho, de tanta ternura? Mesmo com o telefone na mão, sabemos que não podemos voltar, perdemos a intimidade. O que nos resta é talvez um café, algumas palavras de circunstância a conferir se estamos bem, o que resta do brilho antigo deixado num breve sorriso.

E pensamos e dizemos: Adeus, até á próxima. Mas nem sequer sabemos se a próxima existirá.


~CC~

7 comentários:

Anónimo disse...

O tempo, esse inimigo do afecto, da mão que afaga, do olhar sem pressa.

Gostava de me reformar intermitentemente, tipo (como diz a tua filha, à 2f e a 5f., e trabalhar nos outros dias.

Não queria fazer nada de especial, só o tempo de saborear o retomar esses laços perdidos e mimar os presentes. T

J. disse...

A vida é assim mesmo... feita de capítulos. Às vezes deixamos algumas personagens importantes esquecidas... Há no entanto uma série de recordações que ficam para sempre!

Bjs
João

J. disse...

Esqueci de dizer que gostei muito da foto!

João

deep disse...

Antes, magoava-me muito mais a ausência das pessoas que considerava amigas. Com o tempo, comecei a ganhar calo, mas não o suficiente... O tempo também me mostrou que eu própria fui responsável pelo afastamento de algumas pessoas, por não ter sido capaz de "agarrar" o momento, por não ter sabido esclarecer equívocos ou por não ter tido confiança...

:)

Anónimo disse...

Querida professora amiga,

foi consigo que aprendi a aceitar que a distância acontece e que sem querermos a intimidade se vai diluindo no tempo. Ainda hoje me dói, mas lembro-me sempre das suas palavras, dos seus ensinamentos.

Com amizade,
Madalena.

Anónimo disse...

pois para mim continuas a ser minha amiga, apesar de saber que não tens nada a ver com a imagem que guardo dentro de mim. Para mim podemos sempre ouvir música ao luar da prais de Faro...

CCF disse...

T, bela reforma essa :)
J, gosto da ideia dos capítulos da vida, mas às vezes todos se misturam.
Deep, se tens pena de as teres perdido, moram ainda dentro de ti, pelo menos é assim comigo. :)
Madalena, sim, tento aceitar algumas coisas como inevitáveis, mas não quer dizer que não entristeça de quando em quando com elas. Beijinho
Anónima que me conheces: talvez já não use tranças nem saias indianas, mas ainda gosto muito de luar na praia. Escreve para o meu e.mail se quiseres, para te poder identificar. (cibelefster@gmail.com)