terça-feira, junho 17, 2008

Saber(es)


Durante largos anos acreditei que as conferências eram a sério, que estavámos ali para de facto trocar saberes uns com os outros, partilhar o resultado da investigação, conversar como bons amigos sobre o que nos fazia estudar. Ficava quase emocionada por chegar perto dos autores de livros que me tinham ajudado a construir o pensamento. Depois chegou o desencanto das conferências e de quase todos os conferencistas, ficaram alguns como amostra do coração e do pensar. Numa das faculdades em que dei aulas, os professores eram obrigados a publicar pelo menos três artigos por ano e a efectuar comunicações, numa espécie de lei de mercado aplicada ao saber.

Por isso, na vertigem da rejeição, via tudo como uma imensa feira de vaidades. Deixei quase completamente de frequentar estes lugares e tenho voltado lentamente, desconfiada ainda. Na verdade faço-o por duas razões: porque não posso por enquanto ignorar o valor de um currículo e provavelmente nunca poderei e porque permanece em mim uma réstia de esperança. Hoje lá fui, parte de mim arrastada pelo tema da Cidadania Global e pela vontade de mostrar o que ando a fazer, parte de mim já em tédio e descontentamento.

Hoje tudo foi mau, o arrastar das comunicações, a tecnologia que não funcionava, a a qualidade das coisas que se apresentavam (28 slides para 15m de apresentação, será possível?!), o modo como os oradores aceitavam comunicar de costas para os ouvintes e de olhos postos no power point que liam quase na íntegra, um moderador que não moderava e que era também comunicador. Gosto mais de falar de pé e lá pedi ao moderador que encolheu os ombros a pensar quem seria esta rapariga da pronvíncia. Na sala não havia mais de dez pessoas, pois decidiram colocar cerca de 8 salas em simultâneo.

Quando terminei, puxei então uma cadeira e sentei-me de frente para eles, sentei-me como se estivesse no café ou como faço tantas vezes nas aulas, como se estivesse quase em casa, sem dar conta do que fazia, parte daquele meu alheamento do lugar era mesmo cansaço. Mas foram os melhores quinze minutos do dia, todos se puseram a falar, mesmo quem não tinha vindo de casa para apresentar nada, anulando as fronteiras entre os que dizem e os que ouvem. Não falaram só sobre o meu trabalho, todos falaram de si e do que pensavam, mesmo os que agora não andam a investigar nada. De repente senti-me bem. Mas foram só quinze minutos, talvez os quinze da esperança. Mas não tenho dúvidas de que estes modelos de seminários e conferências estão gastos, é preciso inventar outros modos para trazer o saber às nossas vidas.

Quando penso em aprender penso sempre em duas ou mais pessoas percorrendo as pequenas alamedas de um jardim.

~CC~

8 comentários:

Mar Arável disse...

Belo belo belo texto

como eu a compreendo

Anónimo disse...

Lembro-me tão bem no nosso curso de aprender a construir os slides das apresentações. Pouco texto, nada de leitura, imagens, letras grandes... e tal como a professora vou reparando que tanta gente comete esses tais enganos!!!

Adorei o meu curso... :)))))

beijinho,
Madalena.

MJ disse...

A propósito do seu texto e da belíssima frase final, aqui vai uma sugestão para um passeio e agradeço a divulgação.
MJ

http://amigosdobotanico.blogspot.com/

CCF disse...

Mar arável, apazigua a nossa angústia sentir que alguém nos compreende.

Madalena,:)

MJ, obrigado pela sugestão, deve ser tão bom ser amiga de um jardim.

~CC~

JPN disse...

já há muito que deixei de esperar alguma coisa desses encontros, dessa não troca. já não vou a um há milhares de anos. é claro que a e-vidência curricular - e até a nossa esperança de que haja algo diferente desta vez - necessita da nossa presença. por isso mesmo haja alguém que se vire de frente, que converse, que esteja-realmente - ali. bj

CCF disse...

JPN, a questão é como conseguimos fazer a troca de outra maneira, aceito sugestões tuas, sei que gostas de pensar. Beijos
~CC~

sem-se-ver disse...

(gosto tanto de si)



(já lhe tinha dito?)

CCF disse...

Sem se ver...não me tinha dito, não sabia mesmo! Bem vinda!
~CC~