quinta-feira, março 13, 2008

Bairro Amarelo II

Yasmina tirou os óculos e poisou-os sobre a mesa, mostrando o cansaço dos seus quarenta anos:


Aos nove levaram-me para um lugar incerto, pensei que não voltava nunca mais, consegui fugir, mas escolhi não odiar.


Aos doze a polícia tirou-nos de casa numa acção de despejo porque a minha mãe não pagava a renda, mas escollhi não odiar.


Aos catazore fui apanhada a roubar chocolates num supermercado e apenas por um chocolate levaram-me à esquadra como se eu fosse uma deliquente, mas escolhi não odiar.


Aos dezanove o homem que eu amava desde os doze deixou-me por outra mulher, mas escolhi não odiar.


Aos vinte e dois acabei para sempre com qualquer hipótese de promoção na fábrica porque não entrei no carro do chefe quando ele me acenou à saída do trabalho, mas escolhi não odiar.


Tenho quarenta e a fábrica abriu hoje pela última vez e não faço ideia do que irei fazer amanhã, mas vou continuar a escolher não odiar.


Mas vê estas pessoas aqui do bairro, elas odeiam e eu sei porquê, é porque a vida delas foi igual ou pior que a minha.


Olho Yasmina e o rosto dela apaga-se no meu e o meu apaga-se no dela. Digo para mim as palavras dela, baixinho, para que elas me entrem para sempre no coração: escolhi não odiar.
~CC~

4 comentários:

clo disse...

Palavras sábias,
que só os corações grandes como o de
Yasmina podem sentir.
Para ela e para todos os que sabem como ela,corajosos e lutadores, passar por cima de tudo o que é ruim
um grande abraço.
para si CC
Bjs
Clo

Alba disse...

É muito belo esse testemunho de fé. Esse acreditar que, apesar das mágoas, o ódio não é o caminho que nos leva à dignidade e à paz.

JvT disse...

Lindo testemunho. E pensar que às vezes escolhemos odiar por tão pouco!

Um beijo grande
João

marta disse...

Ó JVT tem razão.
Sou pouco de odiar, mas às vezes por tão pouco sobe uma raiva...

A Alba também tem razão.
Lindo este teu restemunho