quinta-feira, janeiro 24, 2008

Os outros ao envelhecer


Ele tem uma voz tão feliz que o próprio sol escorre para dentro do meu telemóvel, parece tão longe o tempo em que ela vinha envolta num tom sombrio, coberta de uma poeira cinza. Discordamos em quase tudo e no entanto isso já não nos afasta como quando jovens, nesse tempo em que as bandeiras eram mais importantes que o afecto que nos corria no sangue. Agora rimos dos pontos de vista às vezes opostos que temos sobre as coisas e já não nos magoamos, sabemos que há além de tudo um fio azul que nos une e que é ele também a nossa bandeira.


Ela tem uma voz doce mas carregada de luto, triste de tantas coisas más que a vida lhe deu. Dantes dava-lhe conselhos, mas agora escuto-a. Dantes diria o que deve fazer, cheia das certezas que habitavam o que era mais forte que tudo: a verticalidade de um olhar. Agora digo-lhe que estarei com ela no que ela escolher fazer em tempos tão negros que a habitam. Compreendo a sua dor como antes não sabia, não tinha eu própria a dimensão do que era errar. E sem a julgar, faço das minhas mãos carícias verdadeiras que deixo sobre a sua pele.


Ele tem aos meus olhos de mulher feminista um passado azedo e oblíquo que não me impeço de comentar e de entristecer com ele, mas tento todos os dias não o julgar por ele, antes confiar-lhe um futuro diferente.


Não é só cansaço que chega ao corpo quando envelhece, é também um outro modo de estar com os outros, um modo melhor de estar com os outros.

~CC~

4 comentários:

clo disse...

Parabéns!
Eu também gostava de escrever assim
direito
mas quando estou cansada sai-me tudo
torto!
Abraço
Clo

CCF disse...

Clo, às vezes sai torto, mas é mais a falar do que a escrever.
Abraço
~CC~

Anónimo disse...

Ainda não me afastei, a teia é linda, chapéu de seda ... ela quis descobrir alguma coisa, mas só escutar não chegue talvez assim nem ela rasgue nada, e risque apenas os dias... diga-lhe o que quiser , mas dê-lhe o meu abraço fraterno, dizendo-lhe que as mulheres que conheci e eram tão femininistas que escolheram sempre o rei... isto é um caso pessoal ... das que conheci poucas se salvaram , mas ela tem tempo... a si o meu abraço também que traz memórias muitas do tempo...

Mónica (em Campanhã) disse...

é bom que o tempo a passar também nos traga tanto de bom