quinta-feira, novembro 01, 2012

Pessoas (eles)



Entraram vagarosamente, cumprindo o ritual das Segundas Feiras. Ela tinha posto a sua maquilhagem ligeira que tão bem combinava com o sotaque francês com que falava português. Ele tinha a gravata verde que lhe realçava o branco do cabelo e da barba ligeiramente comprida mas muito bem aparada. Só quem se sentava ao lado (eu) podia saber que não eram um casal na cada dos sessenta e cinco ou mais.  Comemoravam vinte anos de almoços naquele pequeno restaurante de bairro, cada qual vindo do seu lado da cidade. Uma amizade que tinha sobrevivido à quase morte dos dois, cada qual doente a seu tempo, agora ambos quase curados, trocando risos sobre o boletim clínico e avaliando mutuamente a ementa para escolher o que poderia cada um comer.
 
Ainda te lembras da última vez que bebemos vinho?
Oh, foi há cerca de dez anos, que belo vinho, fiquei ligeiramente embriagada.
 
Quando se encontraram já ambos eram casados e tinham família. Por acordo mútuo fizeram da paixão que sentiam um outro sentimento. Trabalharam arduamente para se desligarem dos corpos um do outro e se centrarem na doçura dos olhos. Se se tivessem tornado amantes não resistiram muitos anos às dores que teriam provocado nos seus e neles próprios. Assim, ainda ali estavam, certos de que aquele leve toque na mão um do outro lhes chegava para trazer aos dias a aragem doce e quente que os fazia querer o futuro.
 
~CC~

1 comentário:

Maria de Jesus Lourinho disse...

Muito bonito. E sábio.