terça-feira, novembro 20, 2012

Entristecer



Entristece a minha cidade com as pequenas lojas e cafés a fecharem diariamente. Já nem falo do café aqui por baixo da minha casa pois esse viveu estes anos de mudança em mudança de dono, sem rumo certo, apesar da afluência da clientela. Falo de uma das mais famosas charcutarias que aqui nasceu. Quando cá cheguei o dono, ainda jovem, tinha vestido uma bela fatiota de empresário bem sucedido. E o negócio corria bem, vendia produtos emblemáticos das várias regiões de Portugal, belos queijos e bolos de fatia, doces caseiros e fruta com cor e cheiro.
 
A classe média da cidade não comprava estes produtos no hipermercado, comprava ali, apesar do preço mais elevado. Nessa altura podia-se escolher o melhor, mesmo que ligeiramente acima do valor de mercado. Depois ele duplicou as lojas e tinha uma em cada extremo da cidade, de seguida abriu ao lado uma loja de chocolates e vinhos. A loja de vinhos foi o princípio do fim, a aberura já há foi há dois anos mas ninguém praticamente lá entrava. Agora é doloroso olhar para o interior vazio através dos vidros. As vezes que estive lá dentro a comprar requeijão e os biscoitos da infância da minha filha, umas argolas grandes que lhe serviam de pulseiras. É como se uma parte de nós morresse com a morte destes lugares onde a nossa vida construiu a sua história.
 
~CC~

8 comentários:

Carlos Azevedo disse...

É tudo tão, tão triste. Eu, que estou desempregado, sonho em arranjar um trabalho no exterior. Desde que seja honesto e me paguem o suficiente para me sustentar, qualquer coisa serve. Quero é sair deste país, pois começa a ser demasiado sufocante. A conversa nos cafés, as notícias nos jornais, na rádio e na televisão, o que quer que seja, tudo acaba no mesmo: desemprego, crise, miséria... É insuportável.

Anónimo disse...

Fechou a loja do antónio?
Parece que o país vai fechar durante o primeiro trimestre de 2013. Só ficam abertos os bancos para nos cobrarem as prestações das casas e receberem injecções de capital provenientes dos nossos impostos.
Bj
*jj*

Bípede Falante disse...

Na minha cidade natal fecharam os cinemas, a livraria, o clube...
Na minha cidade natal fechou-se o meu passado.

beijoss

CCF disse...

Carlos, Portugal já viveu momentos muito complicados. Quando penso, por exemplo, como é que se conseguiu absorver tantos e tantos retornados (como eu, embora ainda uma criança), muitos deles sem absolutamente nada(como a minha família) vejo a força deste país. Contudo há qualquer coisa de diferente agora e acho que é mesmo a falta de esperança. Se partir para a Europa não sentirá, contudo, muita diferença em relação a um certo desalento...(exceptuando talvez nos países nórdicos). Nos outros cantos do globo há pelos menos uma energia mais construtiva, ainda que tenha muitas dúvidas em relação a alguns países "emergentes". Bom seria encontrar cá o seu lugar e ajudar a (re)construir isto...

JJ, essa mesmo! Encaixada em dois bairros tipicamente classe média da cidade...será que ainda há classe média ou que depois de pagar todos os impostos mudam de estatuto...é que não lhes conseguem fugir de forma alguma.

Bípede...como é?! Estou espantada, no Brasil também fecham coisas? Ou fecham para abrir outras maiores?

Abraços aos três
~CC~

cs disse...

Temo que os riscos deste presente não sejam a giz...não se podem apagar por muitos e muitos anos...vão deixar marcas tais que delas vamos renascer..temo que aquilo que renascer seja uma desilusão...

também emigraria se tivesse menos uns anos e esperanças, e sim, para um desses países emergentes mesmo que desconfie de muito do que se faz em grande parte deles.

Espero acabar de criar um filho e ir morrer lá longe, em àfrica, de onde vim e a onde acho que pertenço. Se a algum ligar pertencemos...sei lá. Desculpe a extensão do comentário

Carlos Azevedo disse...

«Bom seria encontrar cá o seu lugar e ajudar a (re)construir isto...»

Depois de 28 meses a lutar, chega uma altura em que o cansaço toma conta de nós. Mas, claro, isto é muito pouco, ou até nada, quando comparado com as coisas graves que acontecem pelo mundo fora.

Um aparte: devo dizer que também fiquei surpreendido com o comentário da Bípede.

Abraço.

CCF disse...

CS não tem que pedir desculpa, uma vez deixei de ir a um blogue porque a autora me escreveu a dizer que só aceitava comentários de 3 linhas...e eu me tinha alongado...mas agora já nem falar podemos? Pois eu também nasci lá nesse lugar a que pertence metade de mim, mas como já lá voltei (a Angola)também não me iludo. Volte sempre e também vou ao seu canto saber do (seu) mundo.

Carlos, compreendo-o perfeitamente, eu acho que também me iria embora. Mas como vamos ficar se todos os bons partirem? Não haverá nenhum programa de exportação rápida dos outros? Quanto ao Brasil, espanto-me porque estive lá há pouco tempo e estão no extremo oposto de nós: confiantes, com vontade de vencer, com a classe média a emergir...mas é um país tão grande que se calhar cresce a várias velocidades (e de forma desigual?). Espero que memso que vá, o possa continuar a ler.

~CC~

Carlos Azevedo disse...

Poderia dizer-lhe que ainda não fui porque quero mesmo ficar a lutar pelo país, mas não lhe minto: só ainda não fui porque não surgiu uma oportunidade. Como muito bem disse Jorge de Sena: «O problema não é salvar Portugal, mas salvarmo-nos de Portugal».
Desculpe-me o desabafo no seu blogue.

Abraço.