quinta-feira, maio 03, 2012

Espelhos com lágrimas


É verdade que há muitos anos que é no gabinete que melhor conheço os alunos. Muito antes de Bolonha ter denominado como tutorias as minhas conversas com eles. No entanto, nunca vi tanta gente a chorar como este ano. Choram nas aulas a propósito de coisas tão triviais como falar dos livros de que gostamos. E aqui no espaço reservado do gabinete choram por vezes um choro solto, incapazes de se controlarem. Há um desespero nestes jovens, alguns já entrados na idade adulta, como nunca tinha visto antes.

Não é, contudo, nada consciente, muito menos são politizados ou se preocupam com o estado em que está o mundo. Choram em grande parte por si próprios, pelo confronto com verdades que não queriam ou não podiam ver. Choram porque lhes devolvo a escrita incompreensível, as passagens de copy-paste assinaladas, porque lhes sublinho os muitos sinais de linguagem oral nos textos, porque lhes mostro a folha de presenças onde as suas ausências são afinal o traço marcante. Choram porque os inquieto sem saber o quanto também me inquietam eles.

Choram também pelas vidas que em muitos casos foram recheadas de dificuldades que eles não conseguiram ver como desafios, não olham como pedras no caminho mas como injustiças, alguma coisa que só eles tiveram. É constante a comparação com aquilo que o outro é, aquilo que ele consegue e tem. Dizem amiúde: eu não posso ser como a) ou como b). Invariavelmente é no humor que me refugio, mesmo quando eles choram. Não pode ser como a princesa de Inglaterra nem ter o princípe William, mas...

Conto-lhes as histórias dos resilientes, dos que fizeram a diferença.  Digo-lhes: suba a escada mesmo que tenha medo. Nunca consigo medir o alcance, o efeito...umas vezes creio que é nulo tudo isto, outras vezes há palavras que chegam, às vezes muito tempo depois, sob a forma de um agradecimento sentido que me emociona. Não se formam profissionais sem se formarem também pessoas, pouco me importa que este pensamento esteja hoje tão fora de moda.

~CC~







6 comentários:

Anónimo disse...

Continuo a acreditar que vale a pena. Mesmo quando tudo à volta se parece organizar para o contrário.
Beijo
*jj*

Maria de Jesus Lourinho disse...

Sim, está fora de moda, mas ainda há quem o faça, felizmente. Poucos mas bons e indispensáveis. São esses os que ficam na memória dos alunos para a vida.

cs disse...

passo algumas vezes por aqui.
Gostei imenso de ler este post.

Mesmo que sejam palavras que ajudem só um já valeram a pena

Margarida Belchior disse...

...também nós não podemos desistir daquilo em que acreditamos - são essas as pessoas que fazem a diferença.

Beijos e belo dia da mãe.

sem-se-ver disse...

pois.

tudo isto é triste.

JvT disse...

Triste, mas lindo!