terça-feira, maio 11, 2010

Só existir

Setúbal, Maio 2010. caminhadas matinais. Foto da amiga C.

Só existir, sem Deus de nenhuma religião, sem clube de futebol, sem partido político. Vejo-lhes a festa nos rostos, nas vestes, no olhar, sinto-lhes a alegria a uma distância de anos luz. Tenho pena às vezes de não poder entrar na multidão, diluir-me num mar de rostos e de vozes, a minha identidade tão misturada na deles, como se um parto nos tivesse feito nascer ali. Deve ser boa a alegria, deve ser bom perder por um momento a razão.

Comigo não se passa nada, não há entusiasmo pelo Benfica nem por nenhum outro, não sou nem contra a vinda do Papa, nem a favor dela, não rejúbilo nem me revolto. Comigo não se passa nada, não tenho como me ligar aos outros. Minto talvez, algumas lutas pelos direitos das pessoas entusiasmam-me, ainda me maravilho com a utopia em forma de letra na Declaração dos Direitos Humanos. E é tudo, é quase tudo


Falta ainda a luz desta manhã, quando me deparei com vastas áreas cobertas de papoilas, talvez esse deslumbramento me possa unir a alguém.

~CC~

3 comentários:

*JjS* disse...

Espera até veres as rosas que se floriram em cachos à tua espera.
Agora, entre o benfica e o papa também não escolho. Rejeito os dois. Mas eu sou um racionalista e sou capaz de enumerar uma série de prejuízos nessas duas (e nas outras todas) religiões.
É bom que se saiba que o papa é recebido como chefe de estado de um estado, o Vaticano que para além de outras bizarrias não subscreve a Declaração dos Direitos Humanos nem reconhece o Tribunal Penal Internacional (tal como os EUA).
Fora isso, cada um tenha a fé que tenha e creia no deus que escolher, desde que não o imponham aos outros.
E não te esqueças das rosas. Esperam-te.
Beijo
*jj*

CCF disse...

Valha-nos o facto de seres um racionalista que gosta de rosas :) Mais, que achas que elas são capazes de florir para alguém...
~CC~

ana maria disse...

Pois eu, que ardo com o Benfica e rejubilo com o Papa; que me revolto com o desrespeito contínuo pelos mais básicos direitos de todos os seres e de toda a criação; que vivo em eterna ebulição...emociono-me a cada passo com estas manifestações da Natureza! O canto das águas e dos pássaros e do vento; as cores que não me deixam respirar nestes dias de Primavera; os aromas da terra e do mar, inebriantes; os sorrisos e as lágrimas e os gritos e os murmúrios... Cada instante tem tanto de belo como de trágico, e em tudo há algo superior que nos transcende, chamem-lhe o que quiserem...E cada um de nós faz parte disto tudo, parte única e irrepetível...Porém, a maioria vive mental e emocionalmente entorpecida, nem repara, nem respira, nem ouve, nem cheira, nem sente!