quarta-feira, janeiro 13, 2010

Aprisionados na rede (I)

Foi já há cinco anos que me chegou um sinal de alarme, um dos meus alunos parecia-me estranho. De facto não conseguia nunca vir de manhã à escola e quando o acompanhei no estágio fez um esforço enorme, mas nunca conseguia chegar antes das 10h. Perguntei-lhe se trabalhava à noite e soube que não. Só depois de muita insistência me confessou que não dormia e passava as noites a navegar, depois não conseguia levantar-se de manhã. Procurei saber em que consistia a palavra navegar e fiquei a saber que era contactar pessoas, falar com elas, jogar, andar em sites de música. Era um rapaz atormentado, coartado no seu potencial, metido todo para dentro. Tive a noção clara que que em breve precisaria de mais ajuda, ou navegaria para sempre em galáxias que o impediriam de ter uma vida aqui, aqui na terra. E era um futuro professor que estava na minha frente.

Sei que não tinha ainda o blogue e que muito pouco por lá andava, mesmo à procura de informação. Tinha tido, contudo, uma experiência única de contacto com ex. alunos através de um site que eles criaram para trocar ideias (e sobretudo afectos) em torno das suas primeiras experiências de trabalho. Não tinha, nessa altura, capacidade para compreender o que significava inteiramente ser viciado na Internet, nesse tempo ainda não ganhara lugar entre as dependências e não sei se agora já ganhou, se a Ciência já olha para isto com olhos de ver, e mais ainda de sentir, de compreender.


Depois, comecei a ver estas coisas acontecerem a um ritmo crescente, e estou cada vez mais assustada, confesso. Hoje, fui com os meus alunos realizar uma actividade na área da Educação para a Saúde a um clube de jovens. Normalmente o responsável que nos acolhe participa na actividade, mesmo que fique só a ver. Já esta jovem animadora que trabalhava com o grupo passou o tempo a enviar sms, recebeu chamadas e até se sentou durante um bocado a ver o seu facebook, isto tudo se passou durante o tempo da sua actividade profissional, uma actividade que não exerce em privado, mas sim em público, ou seja tudo isto se passou com os jovens presentes. Parece-me que para alguns esta ligação à rede já se exerce num sistema de aprisionamento, de domínio do instrumento sobre a pessoa, de descontrole. Para outros não será ainda isso, mas é já um domínio do virtual sobre o real, é na rede que estão os amigos, que partilham novidades, que se expoem, mas depois não têm ninguém com quem ir ao cinema, com quem tomar um café, alguém a quem tocar.

Muitas vidas acreditem estão fora de controle, aprisionadas na rede. E é quase paradoxal que a use para protestar contra ela, mas no fundo não é ela, somos nós.

~CC~
PS. Para ler uma óptima reflexão sobre o assunto:

http://janela48.blogspot.com/2010/01/meditacao-sobre-decada-que-comecou.html

9 comentários:

via disse...

a rede é mesmo isso, uma rede, tens razão, eu própria passo uma boa parte do tempo aqui,o contacto visual é desprovido de riscos e é fácil, cria-se facilmente intimidade mas é uma falsa intimidade, a da presença, constante, física é mais exigente e nos tempos de hoje está a passar para 2º plano, não sei se por ser menos estimulante que a virtual ou por ser mais exigente, exigir mais de nós e, por comodismo renunciamos a ela. seja como for não me parece haver nesta atitude um futuro auspicioso. abraço

CCF disse...

Via, fiquei logo com vontade de ir beber um café contigo :)
Mas estás longe, não é?
Abraço,
~CC~

Margarida disse...

Mto agradecida às duas por estas reflexões.

Eu própria tenho andado a questionar-me sobre o meu comportamento nesta rede - a interrogar-me sobre se me deixo aprisionar ou não.

Bjs agradecidos

deep disse...

Por vezes, pergunto a mim própria se não pertencerei a esse grupo de "viciados". Reconheço as vantagens de se navegar, mas continuo a gostar das conversas cara a cara - os chats nunca me seduziram -, dos cafés, ainda que breves, na companhia de alguém de quem gosto ou de ir jantar e ao cinema (como acontecerá hoje) com colegas e isto deixa-me mais descansada.

Quando voltas a Trás-os-Montes para repetirmos um cafezinho? :)

Um abraço.

bug disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

Eu não estou viciada. Há muito me desliguei. Era ainda aluna e senti esse malefício. Em consciência fiz um esforço e afastei-me. Sinto que a cada dia estou mais distante. Tenho pena que algumas redes, em que participei e que me davam gozo, tenham desaparecido. Não tenho pena de viver, cada dia mais, face a face as minhas relações.

Um grande beijinho, com saudade,
Madalena

via disse...

estou em S.Domingos de rana e tu?

JvT disse...

As redes, as virtuais e as outras, são feitas de nós... E, na minha opinião são esses que contam.

As tecnologias permitem, por exemplo que a Deep comente a ~CC~ (e vice-versa) e, só por isso, não podem ser vistas apenas como um vício...

Concordo que não devemos descuidar outros aspectos da vida... Mas as tecnologias podem aproximar muito mais que isolar... na minha modesta opinião... claro!

Por falar disso... Quando é que os "amigos da ardósia" organizam um jantarinho real?

Deep, vem tu cá baixo desta vez!

Abraços
JvT

CCF disse...

Margarida, interrogar é bom, é essencial :)

Deep, agora é a tua vez de cá vir! E deixo à tua escolha três lugares: Lisboa, Setúbal ou Faro, é o meu eixo sul :)
( e muito embora eu ande sempre de um lado para o outro, T-O-M não estará, com pena minha, nos meus horizontes até ao Verão)
Madalena, então e eu não sei?! Mas foi convosco que aprendi o lado bom da NET. Saudades.
JVT, sei que és muito crédulo nestas coisas, mas olha que devias pensar duas vezes, isto tem mesmo que ser interrogado. Venham os jantares, os cafés, e tudo o mais que implique face to face, aí é que a vida se constrói.
Via, e eu a pensar que vivias no estrangeiro :) Eu vivo no eixo sul, assim tipo A2 para cá e para lá. Quero ir à casa das histórias a Cascais, quando lá fosse, podia entrar em contacto contigo...

Abraços vários
(inclui o anónimo que fez um comentário e depois eliminou...nem sabia que isso se podia fazer...quando não quiser publicação, diga que eu não publico).

~CC~