sexta-feira, outubro 31, 2008

Ausências e errâncias (VII)

Várzea, Verão 2007


Quantas vezes precisamos para saber de vez que alguém não nos quer? É verdade que assisti ao seu abraço com a religião católica e que nunca me pareceu que pudesse haver retorno, mas precisei de todo este tempo, quase dez anos. Mantive o meu abraço quente à espera dele. Todos os meus envolvimentos neste anos foram pontuados pela ausência de esperança e de calor que neles depositei. Em sonhos eu era a Senhora da Candosa, montada no burro, capaz de abrir e fechar desfiladeiros com um olhar, dona de um encanto, de uma luz tão grande que Deus ao pé de mim era só uma sombra. Imaginava-o a acordar comigo em cada manhã, com aqueles seus olhos castanhos tão claros como mel e aquela paz que o habitava desde sempre a entornar-se também para dentro de mim. Imaginava que a fusão dos nossos dois corpos doces e macios traria à terra dos nossos pais pelo menos uma menina traquina, com duas tranças loiras e um rapazito de ar grave, a fazer perguntas sobre as razões da nossa existência.


Nada foi assim, eu perguntei pelo seu amor uma vez e duas e três e só na terceira chorei. Quando as lágrimas finalmente tomaram forma, eu pude perceber que a vida que eu tinha pensado um dia ter, não existiria nunca.


E quando parti para Londres era já uma outra pessoa, um outro destino de mim.


~CC~

3 comentários:

Maria, Simplesmente disse...

A vida prega-nos partidas com que não contamos, fazendo-nos sofrer e por ficar com cicatrizes na alma, para sempre.
Bom fim de semana
Maria

elia disse...

será que nunca existiu mesmo? só e até por isso o amor e a paixão valem sempre a pena...SEMPRE!
´beijinho
Élia

CCF disse...

Só quero fazer pensar...não é para isso que há séculos contamos histórias?
Abraços dois
~CC~