quinta-feira, junho 26, 2008

De mãos dadas


Nunca poderei esquecer que o meu pai me dava a mão quando saíamos à rua, mesmo quando eu já não tinha idade para isso e não me ia perder dele, outras vezes passava-me um braço pelo ombro e trazia-me assim, como num ninho.

Nunca poderei esquecer como tu, ao contrário de tantas outras crianças, tinhas a iniciativa mal deixavámos a porta de casa, de nos dar a mão, de nos segurar com força, quase com medo de que te esquecessemos num lugar qualquer. Era a mão mais doce que já segurei, tão pequenina, tão minha.


Nunca poderei esquecer a mão permanentemente húmida de um rapaz que me fazia poemas e que queria ser meu namorado embora soubesse que eu já tinha um namorado, tinha uma doença que o fazia pingar das mãos e por isso usava sempre um lenço. Um dia, num passeio colectivo a Sintra, deu-me a mão e eu fiquei a pingar tanto como ele, mas não tive coragem de a tirar.


Nunca poderei esquecer aquele homem mais velho que há muito não dava a mão a ninguém na rua e que segurando a minha me disse: fico um pouco envergonhado.


Nunca poderei esquecer o modo como uma mão de uma colega que à minha se agarrou quando me sentia a desfalecer num lugar em que não tinha ninguém, me fez ter esperança.


E nunca quererei esquecer as noites em que adormecemos de mãos dadas e assim permancemos longo tempo até que o sono as desfaz. Talvez seja por causa delas que acordas para me salvar dos pesadelos.


São as mãos nas mãos que nos aquecem o sangue.

~CC~

7 comentários:

Anónimo disse...

Pois!

*JjS* disse...

Mãos de fazer a paz e o amor e de esculpir a esperança.
Bj
*jj*

José disse...

Muito bonito. Uma mão cheia de beijos.

apicultor disse...

Lindo! Nem consigo acrescentar nada.

Rita lobo disse...

Quando era pequena, tinha medo. Medo de me perder na imensidão desse mundo...
Onde havia tantas pessoas grandes e era só eu a pequenina.

Anónimo disse...

....eu sou da mesma opinião do josé, mas com alguns dias de atraso ...
um prazer de ler , como sói dizer-se!
José Ribeiro Marto ( JRM )

CCF disse...

Belas mãos estas que me dão. Obrigado seis vezes.
~CC~