quinta-feira, dezembro 06, 2007

Café (I)

A voar, Novembro de 2007


Talvez por causa dos genes, afinal o meu pai, para além de ter vivido em quatro continentes, viveu metade da vida nos cafés. Um café dentro do meu presente é fundamental. Tive um ou mais por cada tempo, por cada terra, por cada trabalho, por cada grupo de amigos, tive um e agora tenho outro com a minha filha, outro(s) com cada amor.


Cafés da infância em Luanda são sem nome na minha memória, são horas que me pareciam uma eternidade na conversa sempre longa e com muitos cigarros do meu pai e amigos. A primeira das minhas paixões genuínas foi talvez o café "Vaquinha" na baixa Lisboeta, uma leitaria antiga que tem outro nome para além deste que guardei no meu coração. É capa de um vinil ou CD do Vitorino. Alimentei lá a minha adolescência a chá de limão e bolos de cenoura comprados no Celeiro, nem sei dizer se era macrobiótica ou vegetariana, acho que era simplesmente adolescente e estava fascinada pelos meus amigos e por Lisboa.


Nos cafés aprendi as coisas mais importantes de todas e ainda aprendo. Ontem, no café do trabalho (como é que há trabalhos sem cafés dentro ou por perto?), um colega de que quase só eu gosto, perguntava-me pelas diferenças entre Angola e Moçambique. São muitas, disse eu, antevendo uma conversa longa que eu não podia ter porque a aula estava prestes a começar. E ele respondeu: sabes, tive numa conferência...Acenei com a cabeça, não percebendo a relação. Ele continuou: lá percebi o que era a pobreza e a desigualdade e que uma e a outra não são a mesma coisa. Continuei a acenar com a cabeça. E ele deu a resposta à pergunta que me tinha feito: Angola é mais desigual, Moçambique é mais pobre. E com esta síntese arrumou as milhares de palavras que me ocorriam sobre a pergunta que me tinha feito. Gostei do café, gostei mais dele por me facilitar tanto a vida com as suas sínteses.


~CC~


3 comentários:

CristinaGS disse...

Um café é sempre um pretexto para deixar (es)correr o tempo e, com ele, o nosso olhar por dentro dos outros. :)

Paulo Raposo disse...

o que é extraordinário nisto tudo é termos estado porventura na mesma altura na Vaquinha...da tua e da minha juventude. E de repente chegar o inverno e reencontrarmo-nos nesta esquina virtual. Sei que chegáte ao meu blog pelo respirar o mesmo ar..amigos comuns...que mais em comum? estranhos os trilhos da vida...

CCF disse...

Cristina, dos outros e de nós:)


Paulo, porventura...:)Bons estes trilhos da vida!
~CC~