domingo, novembro 18, 2012

Viajar


Enquanto eu for eu, as manhãs nas cidades que não conheço terão sempre o encanto de me levantar da cama com o espanto nos olhos e uma absurda vontade de viver.

Ao terceiro dia, seja no Rio de Janeiro (em Julho) ou em Zaragoza (acabadinha de chegar de lá) tenho a sensação que começo a compreender a cidade e a saber da expressão do rosto de quem a habita e do espanto nasce o conforto de pensar que já não me perderei se não levar o mapa.

Para todo o lugar em que a língua não é um obstáculo sério, também a ideia de ficar mais tempo se enrola nas várias ideias de futuro que habitam sempre o meu presente, um puzzle de mil sentidos em que as peças nunca estão completamente encaixadas.

Há ainda por cima agora nos povos do sul um piscar de olhos cúmplice.

~CC~

segunda-feira, novembro 12, 2012

Ser



Feliz naquele bocadinho em que a minha filha adolescente se enrosca metade em mim, metade na felpuda manta roxa dela para assistirmos à nossa série preferida.

~CC~

sábado, novembro 10, 2012

Poderia ser?!


Sim, sem dúvida.
Um germinar de histórias em cada comboio.
~CC~

sexta-feira, novembro 09, 2012

Recordar


~CC~

Sentir



Estou em crer que há coisas sobre as quais devemos ter pudor em falar, guardar sobre isso o silêncio de quem não sente, nunca sentiu. É o caso da fome, por exemplo. Quem nunca a sentiu não pode falar disso como quem a sentiu, então deve respeitar sagradamente esse sofrimento, só usando a voz para reclamar da sua existência neste mundo.

~CC~

PS. Claro, a propósito de gente que fala, fala...e diz muitas asneiras.

segunda-feira, novembro 05, 2012

Saber


Um colega que nem conheço muito bem, disse-me hoje na mesa do bar:

- O meu casamento de 21 anos chegou ao fim (no final da sua tese de doutoramento). E hoje, com o distanciamento, já consigo identificar porquê: eu tinha deixado de a mimar.

Eu enfiei os olhos dentro do meu chá, antes de conseguir olhar para alguém que se confessava assim tão cruamente. Mas consegui levantá-los.

Esta (nova) sabedoria masculina terá algum futuro? Deixará sementes? Serão diferentes estas novas gerações?

~CC~



domingo, novembro 04, 2012

Ver




Afinal eles não nos cobram só uma verba monstruosa de dinheiro ao final do mês, fazem qualquer coisa mais e até é coisa boa! (o que não justifica a verba).

~CC~

Ouvir


É verdade que o rosto parece esconder a vontade de não envelhecer, deixando que lhe tirem as rugas. Mas essa limpeza correponde ao modo como dentro dela a vida ferve e se ilumina, como o riso a invade, como brinca consigo própria. Ela diz que tem sempre 13/14 anos e é verdade que é uma menina que vemos em palco. Só quando ela se emociona envelhece séculos porque só aos mais velhos as memórias comovem assim.
 
Aos noventa aguenta quase duas horas de palco e a voz é ainda bela. Como concerto, soube a pouco, como lição de vida, foi uma vida inteira.
 
Quero tanto manter-me viva assim com o sangue a brilhar.
 
~CC~

quinta-feira, novembro 01, 2012

Numa onda


Numa onda todo o meu sul



Eis Aline frazão.

~CC~

Pessoas (eles)



Entraram vagarosamente, cumprindo o ritual das Segundas Feiras. Ela tinha posto a sua maquilhagem ligeira que tão bem combinava com o sotaque francês com que falava português. Ele tinha a gravata verde que lhe realçava o branco do cabelo e da barba ligeiramente comprida mas muito bem aparada. Só quem se sentava ao lado (eu) podia saber que não eram um casal na cada dos sessenta e cinco ou mais.  Comemoravam vinte anos de almoços naquele pequeno restaurante de bairro, cada qual vindo do seu lado da cidade. Uma amizade que tinha sobrevivido à quase morte dos dois, cada qual doente a seu tempo, agora ambos quase curados, trocando risos sobre o boletim clínico e avaliando mutuamente a ementa para escolher o que poderia cada um comer.
 
Ainda te lembras da última vez que bebemos vinho?
Oh, foi há cerca de dez anos, que belo vinho, fiquei ligeiramente embriagada.
 
Quando se encontraram já ambos eram casados e tinham família. Por acordo mútuo fizeram da paixão que sentiam um outro sentimento. Trabalharam arduamente para se desligarem dos corpos um do outro e se centrarem na doçura dos olhos. Se se tivessem tornado amantes não resistiram muitos anos às dores que teriam provocado nos seus e neles próprios. Assim, ainda ali estavam, certos de que aquele leve toque na mão um do outro lhes chegava para trazer aos dias a aragem doce e quente que os fazia querer o futuro.
 
~CC~

domingo, outubro 28, 2012

Domingo

 
 
Tudo dito sobre a beleza do encontro deles para dizer da tristeza de um amor que morre.
Começam por rir, não é sempre assim que tudo começa?!
 
 
 
 

~CC~

sexta-feira, outubro 26, 2012

Pessoa (eu)

Feliz a comer mangas do cabo junto ao azul claro transparente do oceano Índico, aquela estrela do mar que passou a nadar junto a mim enquanto a fitava incrédula, seguindo-lhe as ligeiras marcas do seu ondular. É moda que as aulas terminem com quase dez minutos de relaxamento, a  monitora nos mande fechar os olhos, ouvir a música e reflectir sobre nós próprios, sobre os nossos sentimentos mais profundos. Os meus sentimentos mais profundos? A ausência de mim? As minhas imagens são profundamente sensoriais, não voo nem me esvazio, a minha meditação é alimentada a sabores, imagens e cheiros. Não tenho jeito nenhum para a transcendência. O bem estar é um belo abraço dado por quem gosta de nós, é pele.
 
~CC~

Pessoas (B)


Como é ela?

Tem a beleza da borboleta que muito lutou para sair do casulo.

~CC~

quinta-feira, outubro 25, 2012

Pessoas (A)


Como é ele?


O lado claro da noite, o lado escuro do dia.

~CC~

Agarrar


Ondulando ao de leve na baía.

http://www.cm-seixal.pt/seixaljazz/2012

~CC~

segunda-feira, outubro 22, 2012

Coração surpreendente


De todas as doenças que um dia pensei poder vir a ter, sofrer do coração foi sempre uma das que exclui. Não sei explicar porquê, acreditei sempre que tinha um coração para a vida. Por isso lhe dei um e outro ralhete quando começou a doer, uma dor fininha, aguda, bem no centro do músculo palpitante. A primeira vez estava em situação de esforço físico e dei-lhe o benefício da dúvida, coitado estava a dar um sinal de que o corpo estava há muito parado. Mas tem vindo a acontecer mais vezes. Eu digo-lhe, tentanto convencê-lo, que não pensámos nunca levá-lo ao cardiologista, por isso não me faça tal desfeita. Ainda tenho esperança de o conseguir acalmar.
 
~CC~

sexta-feira, outubro 19, 2012

Dos cadernos sem linhas



Querido Manuel António Pina, eu também me confundo com as linhas dos cadernos, só os uso lisos, mas devo dizer-te que é cada vez mais díficil encontrá-los.
O que fica? O mundo mais triste sem o teu sorriso doce, um sorriso de menino.
E depois... todos os teus verbos e substantivos alinhados poesia.
~CC~

Vê se há mensagens

no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas, as linhas distraem-me).

Não digas nada
a ninguém,
o tempo, agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu, pelos vistos,
não tenha razão de queixa.

Senhor, permite que algo permaneça,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte, nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?

Agora o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.

Manuel António Pina
Captado em: http://um-buraco-na-sombra.netsigma.pt/p_mundo/index.asp?op=4&p=1782

quinta-feira, outubro 18, 2012

Saltar os muros (II)


Por aqui também há gente a tentar...começando com perguntas.

http://www.si.ips.pt/ese_si/noticias_geral.ver_noticia?P_NR=7931

E respostas necessariamente incompletas mas ainda assim bandeiras ao vento.

~CC~

Saltar os muros (I)



Percebo os gritos que correm nas ruas. Os meus querem ecoar mais pelas mãos. O melhor caminho para mim é esgueirar-me destes tempos pela porta das coisas que valem a pena. No último fim de semana vi tanta gente a querer mudar as coisas fazendo-as de uma outra maneira. Recolher as tradições locais para voltar à construção colectiva de acordo com materiais mais condizentes com o que a natureza dá. Outros combinavam trocas directas de sementes. Trocavam-se ideias sobre a real utilidade das plantas para melhorar a nossa vida. E também se dançava, uma mistura entre sons inspirados em Kusturica e Folk Irlandês. Podemos reinventar, não precisamos que tudo o que é tradição seja foclore e fado.

As manifestações são importantes mas também é esta gente que quer saltar os muros.

http://www.quintadaescola.com/festival-terras-daire-e-candeeiros/

~CC~
 

quinta-feira, outubro 11, 2012

Gap, jump, step, yessence...essas coisas!


A minha mãe era uma mulher linda, talvez só a filha mais nova (que não sou eu, claro) se aproxime em beleza. Mas lembro-me bem da velhice lhe chegar de forma mais e mais irremediável por volta dos cinquenta anos e da vida dela nessa altura ser tão difícil que ela não podia fazer nada. Não falo de plásticas mas sim de umas corridinhas, umas aulas de ginásio, um brilho para os olhos. Tudo lhe estava vedado. Creceu-lhe a barriga, as peles debaixo dos braços, a celulite. Os meus genes são dela um derivado tão grande que olhar o corpo dela com essa idade é também olhar o meu a sofrer o mesmo.

Também não tive muito tempo, andei para aí a coleccionar graus académicos e a trabalhar loucamente para me manter uma mulher adulta perfeitamente autónoma.

Há dois anos fiz uma experiência infeliz de ginásio com umas máquinas estupidamente silenciosas a contrastar com as gralhas das monitoras que pareciam ter saído de um programa de TV americano. Acabou tão depressa como começou porque fretes não são o meu forte.

Este ano estava mesmo decidida a fazer qualquer coisa. Não me perguntem os nomes das várias modalidades de grupo, navego nelas como num país estrangeiro, convencida de que as barreiras são ultrapassáveis pela minha vontade mas pouco disposta a ir para além de um certo nível de aprendizagem - o básico. Passei hoje pela vergonha de dizer ao professor que era a minha primeira aula de uma coisa daquelas (a que ainda chamo ginástica) em quase 20 anos. E ele perguntava e perguntava incrédulo como é que alguém não pode fazer da actividade física o seu altar (eles são todos um bocadinho assim), até que lhe disse que nos últimos 20 anos só tinha mesmo usado a cabeça. Lá se riu e recebi uma palmadinha nas costas e a frase mágica: mas aguentou muito bem! Está bem, assim vou voltar...

~CC~