sexta-feira, novembro 09, 2012
Sentir
Estou em crer que há coisas sobre as quais devemos ter pudor em falar, guardar sobre isso o silêncio de quem não sente, nunca sentiu. É o caso da fome, por exemplo. Quem nunca a sentiu não pode falar disso como quem a sentiu, então deve respeitar sagradamente esse sofrimento, só usando a voz para reclamar da sua existência neste mundo.
~CC~
PS. Claro, a propósito de gente que fala, fala...e diz muitas asneiras.
segunda-feira, novembro 05, 2012
Saber
Um colega que nem conheço muito bem, disse-me hoje na mesa do bar:
- O meu casamento de 21 anos chegou ao fim (no final da sua tese de doutoramento). E hoje, com o distanciamento, já consigo identificar porquê: eu tinha deixado de a mimar.
Eu enfiei os olhos dentro do meu chá, antes de conseguir olhar para alguém que se confessava assim tão cruamente. Mas consegui levantá-los.
Esta (nova) sabedoria masculina terá algum futuro? Deixará sementes? Serão diferentes estas novas gerações?
~CC~
domingo, novembro 04, 2012
Ver
Afinal eles não nos cobram só uma verba monstruosa de dinheiro ao final do mês, fazem qualquer coisa mais e até é coisa boa! (o que não justifica a verba).
~CC~
Ouvir
É verdade que o rosto parece esconder a vontade de não envelhecer, deixando que lhe tirem as rugas. Mas essa limpeza correponde ao modo como dentro dela a vida ferve e se ilumina, como o riso a invade, como brinca consigo própria. Ela diz que tem sempre 13/14 anos e é verdade que é uma menina que vemos em palco. Só quando ela se emociona envelhece séculos porque só aos mais velhos as memórias comovem assim.
Aos noventa aguenta quase duas horas de palco e a voz é ainda bela. Como concerto, soube a pouco, como lição de vida, foi uma vida inteira.
Quero tanto manter-me viva assim com o sangue a brilhar.
~CC~
quinta-feira, novembro 01, 2012
Pessoas (eles)
Entraram vagarosamente, cumprindo o ritual das Segundas Feiras. Ela tinha posto a sua maquilhagem ligeira que tão bem combinava com o sotaque francês com que falava português. Ele tinha a gravata verde que lhe realçava o branco do cabelo e da barba ligeiramente comprida mas muito bem aparada. Só quem se sentava ao lado (eu) podia saber que não eram um casal na cada dos sessenta e cinco ou mais. Comemoravam vinte anos de almoços naquele pequeno restaurante de bairro, cada qual vindo do seu lado da cidade. Uma amizade que tinha sobrevivido à quase morte dos dois, cada qual doente a seu tempo, agora ambos quase curados, trocando risos sobre o boletim clínico e avaliando mutuamente a ementa para escolher o que poderia cada um comer.
Ainda te lembras da última vez que bebemos vinho?
Oh, foi há cerca de dez anos, que belo vinho, fiquei ligeiramente embriagada.
Quando se encontraram já ambos eram casados e tinham família. Por acordo mútuo fizeram da paixão que sentiam um outro sentimento. Trabalharam arduamente para se desligarem dos corpos um do outro e se centrarem na doçura dos olhos. Se se tivessem tornado amantes não resistiram muitos anos às dores que teriam provocado nos seus e neles próprios. Assim, ainda ali estavam, certos de que aquele leve toque na mão um do outro lhes chegava para trazer aos dias a aragem doce e quente que os fazia querer o futuro.
~CC~
domingo, outubro 28, 2012
Domingo
Tudo dito sobre a beleza do encontro deles para dizer da tristeza de um amor que morre.
Começam por rir, não é sempre assim que tudo começa?!
~CC~
sexta-feira, outubro 26, 2012
Pessoa (eu)
Feliz a comer mangas do cabo junto ao azul claro transparente do oceano Índico, aquela estrela do mar que passou a nadar junto a mim enquanto a fitava incrédula, seguindo-lhe as ligeiras marcas do seu ondular. É moda que as aulas terminem com quase dez minutos de relaxamento, a monitora nos mande fechar os olhos, ouvir a música e reflectir sobre nós próprios, sobre os nossos sentimentos mais profundos. Os meus sentimentos mais profundos? A ausência de mim? As minhas imagens são profundamente sensoriais, não voo nem me esvazio, a minha meditação é alimentada a sabores, imagens e cheiros. Não tenho jeito nenhum para a transcendência. O bem estar é um belo abraço dado por quem gosta de nós, é pele.
~CC~
quinta-feira, outubro 25, 2012
segunda-feira, outubro 22, 2012
Coração surpreendente
De todas as doenças que um dia pensei poder vir a ter, sofrer do coração foi sempre uma das que exclui. Não sei explicar porquê, acreditei sempre que tinha um coração para a vida. Por isso lhe dei um e outro ralhete quando começou a doer, uma dor fininha, aguda, bem no centro do músculo palpitante. A primeira vez estava em situação de esforço físico e dei-lhe o benefício da dúvida, coitado estava a dar um sinal de que o corpo estava há muito parado. Mas tem vindo a acontecer mais vezes. Eu digo-lhe, tentanto convencê-lo, que não pensámos nunca levá-lo ao cardiologista, por isso não me faça tal desfeita. Ainda tenho esperança de o conseguir acalmar.
~CC~
sexta-feira, outubro 19, 2012
Dos cadernos sem linhas
Querido Manuel António Pina, eu também me confundo com as linhas dos cadernos, só os uso lisos, mas devo dizer-te que é cada vez mais díficil encontrá-los.
O que fica? O mundo mais triste sem o teu sorriso doce, um sorriso de menino.
E depois... todos os teus verbos e substantivos alinhados poesia.
~CC~
Vê se há mensagens
no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas, as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo, agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu, pelos vistos,
não tenha razão de queixa.
Senhor, permite que algo permaneça,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte, nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?
Agora o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.
Manuel António Pina
Captado em: http://um-buraco-na-sombra.netsigma.pt/p_mundo/index.asp?op=4&p=1782
quinta-feira, outubro 18, 2012
Saltar os muros (II)
Por aqui também há gente a tentar...começando com perguntas.
http://www.si.ips.pt/ese_si/noticias_geral.ver_noticia?P_NR=7931
E respostas necessariamente incompletas mas ainda assim bandeiras ao vento.
~CC~
Saltar os muros (I)
Percebo os gritos que correm nas ruas. Os meus querem ecoar mais pelas mãos. O melhor caminho para mim é esgueirar-me destes tempos pela porta das coisas que valem a pena. No último fim de semana vi tanta gente a querer mudar as coisas fazendo-as de uma outra maneira. Recolher as tradições locais para voltar à construção colectiva de acordo com materiais mais condizentes com o que a natureza dá. Outros combinavam trocas directas de sementes. Trocavam-se ideias sobre a real utilidade das plantas para melhorar a nossa vida. E também se dançava, uma mistura entre sons inspirados em Kusturica e Folk Irlandês. Podemos reinventar, não precisamos que tudo o que é tradição seja foclore e fado.
As manifestações são importantes mas também é esta gente que quer saltar os muros.
http://www.quintadaescola.com/festival-terras-daire-e-candeeiros/
~CC~
quinta-feira, outubro 11, 2012
Gap, jump, step, yessence...essas coisas!
A minha mãe era uma mulher linda, talvez só a filha mais nova (que não sou eu, claro) se aproxime em beleza. Mas lembro-me bem da velhice lhe chegar de forma mais e mais irremediável por volta dos cinquenta anos e da vida dela nessa altura ser tão difícil que ela não podia fazer nada. Não falo de plásticas mas sim de umas corridinhas, umas aulas de ginásio, um brilho para os olhos. Tudo lhe estava vedado. Creceu-lhe a barriga, as peles debaixo dos braços, a celulite. Os meus genes são dela um derivado tão grande que olhar o corpo dela com essa idade é também olhar o meu a sofrer o mesmo.
Também não tive muito tempo, andei para aí a coleccionar graus académicos e a trabalhar loucamente para me manter uma mulher adulta perfeitamente autónoma.
Há dois anos fiz uma experiência infeliz de ginásio com umas máquinas estupidamente silenciosas a contrastar com as gralhas das monitoras que pareciam ter saído de um programa de TV americano. Acabou tão depressa como começou porque fretes não são o meu forte.
Este ano estava mesmo decidida a fazer qualquer coisa. Não me perguntem os nomes das várias modalidades de grupo, navego nelas como num país estrangeiro, convencida de que as barreiras são ultrapassáveis pela minha vontade mas pouco disposta a ir para além de um certo nível de aprendizagem - o básico. Passei hoje pela vergonha de dizer ao professor que era a minha primeira aula de uma coisa daquelas (a que ainda chamo ginástica) em quase 20 anos. E ele perguntava e perguntava incrédulo como é que alguém não pode fazer da actividade física o seu altar (eles são todos um bocadinho assim), até que lhe disse que nos últimos 20 anos só tinha mesmo usado a cabeça. Lá se riu e recebi uma palmadinha nas costas e a frase mágica: mas aguentou muito bem! Está bem, assim vou voltar...
~CC~
domingo, outubro 07, 2012
Cores
A menina sabe que se trata de um dia azul, um dia feito à sua medida. Mas não há onda que a venha buscar ao cinzento do seu sangue.
~CC~
segunda-feira, outubro 01, 2012
Sinais dos tempos (I)
As revistas cor de rosa predominam no estabelecimento de bairro onde (me) sacrifico. Sem jeito para as unhas (passei de grande roedora a moderada), com o cabelo sem grande tratamento e verdadeiramente desinteressada de outros pacotes de embelezamento sou só uma cliente sem grande interesse, demoraram algum tempo a registar o meu nome e a palavra que me dirigem raramente vai além de um usual "como está". Contudo, o esvaziamento gradual de clientes tem se feito sentir. A televisão deixou de estar sempre ligada, assim como a música, vai predominando um silêncio cada vez mais pesado. Na semana passada, ela disparou logo à minha entrada: então o que acha destas medidas? O que é que vai ser deste país? Arregalei os olhos de espanto com a conversa desviada de um nível "casa dos segredos" para a análise política da situação nacional. Estava no mesmo sítio? Elas eram as mesmas?
Foi assim que fiquei a saber que no último mês já tinham sido despedidas duas das esteticistas mais novas, inclusive a brasileira que nos chamava queridinhas e nos mimava como nenhuma outra (terá voltado ao Brasil?). De repente a conversa começou a fluir como nunca antes tinha acontecido. Coisas boas acontecem por razões más, uma delas é este súbito interesse pelo mundo onde vivemos: por todo o lado se fala como nunca se falou. Às vezes até parece que deste desespero irão crescer (outras) sementes.
~CC~
segunda-feira, setembro 24, 2012
Mais um
Os lugares que se escondem desta fúria negra dos tempos são os únicos onde ainda me sinto qualquer coisa viva, onde há momentos em que estou em paz e penso que há um futuro, um para nós (país), um para mim. No sábado o mar alentejano tinha a temperatura necessária ao banho de mudar mais um ano no calendário e apenas meia dúzia de pessoas estendidas na areia. Bendito Outono que esvazias as praias de quem menos as ama. Houve um canto baixinho dos poucos que aceitaram fazer-se à estrada, um canto doce que chegou para aquecer-me. No dia seguinte choveu muito, acordámos sem sol mas ainda quentes do dia anterior. A chuva costuma chegar um dia antes e entristecer-me, desta vez soube esperar. Gosto da média feita de muitos dias de sol cortados por um de boa chuva, daquela que molha e nos lava.
~CC~
terça-feira, setembro 18, 2012
Sinais dos tempos
Não sei se foi exactamente a história ou se o modo como ele contou a história. Mais belo que o amor...só mesmo as palavras que sobre ele se escrevem. A verdade é que senti os olhos a ficarem mais e mais húmidos à medida que ouvia os sinais de hoje (Fernando Alves na TSF). São os sinais dos tempos, vivemos em equilíbrio tortuoso na corda esticada.
~CC~
Subscrever:
Mensagens (Atom)