quinta-feira, outubro 11, 2012

Gap, jump, step, yessence...essas coisas!


A minha mãe era uma mulher linda, talvez só a filha mais nova (que não sou eu, claro) se aproxime em beleza. Mas lembro-me bem da velhice lhe chegar de forma mais e mais irremediável por volta dos cinquenta anos e da vida dela nessa altura ser tão difícil que ela não podia fazer nada. Não falo de plásticas mas sim de umas corridinhas, umas aulas de ginásio, um brilho para os olhos. Tudo lhe estava vedado. Creceu-lhe a barriga, as peles debaixo dos braços, a celulite. Os meus genes são dela um derivado tão grande que olhar o corpo dela com essa idade é também olhar o meu a sofrer o mesmo.

Também não tive muito tempo, andei para aí a coleccionar graus académicos e a trabalhar loucamente para me manter uma mulher adulta perfeitamente autónoma.

Há dois anos fiz uma experiência infeliz de ginásio com umas máquinas estupidamente silenciosas a contrastar com as gralhas das monitoras que pareciam ter saído de um programa de TV americano. Acabou tão depressa como começou porque fretes não são o meu forte.

Este ano estava mesmo decidida a fazer qualquer coisa. Não me perguntem os nomes das várias modalidades de grupo, navego nelas como num país estrangeiro, convencida de que as barreiras são ultrapassáveis pela minha vontade mas pouco disposta a ir para além de um certo nível de aprendizagem - o básico. Passei hoje pela vergonha de dizer ao professor que era a minha primeira aula de uma coisa daquelas (a que ainda chamo ginástica) em quase 20 anos. E ele perguntava e perguntava incrédulo como é que alguém não pode fazer da actividade física o seu altar (eles são todos um bocadinho assim), até que lhe disse que nos últimos 20 anos só tinha mesmo usado a cabeça. Lá se riu e recebi uma palmadinha nas costas e a frase mágica: mas aguentou muito bem! Está bem, assim vou voltar...

~CC~









domingo, outubro 07, 2012

Cores


A menina sabe que se trata de um dia azul, um dia feito à sua medida. Mas não há onda que a venha buscar ao cinzento do seu sangue.

~CC~

segunda-feira, outubro 01, 2012

Sinais dos tempos (I)


As revistas cor de rosa predominam no estabelecimento de bairro onde (me) sacrifico. Sem jeito para as unhas (passei de grande roedora a moderada), com o cabelo sem grande tratamento e verdadeiramente desinteressada de outros pacotes de embelezamento sou só uma cliente sem grande interesse, demoraram algum tempo a registar o meu nome e a palavra que me dirigem raramente vai além de um usual "como está". Contudo, o esvaziamento gradual de clientes tem se feito sentir. A televisão deixou de estar sempre ligada, assim como a música, vai predominando um silêncio cada vez mais pesado. Na semana passada, ela disparou logo à minha entrada: então o que acha destas medidas? O que é que vai ser deste país? Arregalei os olhos de espanto com a conversa desviada de um nível "casa dos segredos" para a análise política da situação nacional. Estava no mesmo sítio? Elas eram as mesmas?

Foi assim que fiquei a saber que no último mês já tinham sido despedidas duas das esteticistas mais novas, inclusive a brasileira que nos chamava queridinhas e nos mimava como nenhuma outra (terá voltado ao Brasil?). De repente a conversa começou a fluir como nunca antes tinha acontecido. Coisas boas acontecem por razões más, uma delas é este súbito interesse pelo mundo onde vivemos: por todo o lado se fala como nunca se falou. Às vezes até parece que deste desespero irão crescer (outras) sementes.

~CC~


segunda-feira, setembro 24, 2012

Mais um


Os lugares que se escondem desta fúria negra dos tempos são os únicos onde ainda me sinto qualquer coisa viva, onde há momentos em que estou em paz e penso que há um futuro, um para nós (país), um para mim. No sábado o mar alentejano tinha a temperatura necessária ao banho de mudar mais um ano no calendário e apenas meia dúzia de pessoas estendidas na areia. Bendito Outono que esvazias as praias de quem menos as ama. Houve um canto baixinho dos poucos que aceitaram fazer-se à estrada, um canto doce que chegou para aquecer-me. No dia seguinte choveu muito, acordámos sem sol mas ainda quentes do dia anterior. A chuva costuma chegar um dia antes e entristecer-me, desta vez soube esperar. Gosto da média feita de muitos dias de sol cortados por um de boa chuva, daquela que molha e nos lava.

~CC~

terça-feira, setembro 18, 2012

Sinais dos tempos


Não sei se foi exactamente a história ou se o modo como ele contou a história. Mais belo que o amor...só mesmo as palavras que sobre ele se escrevem. A verdade é que senti os olhos a ficarem mais e mais húmidos à medida que ouvia os sinais de hoje (Fernando Alves na TSF). São os sinais dos tempos, vivemos em equilíbrio tortuoso na corda esticada.

~CC~

domingo, setembro 16, 2012

Historiazinhas (I)


Dona Matilde não quis viver mais desde o mês em que a figura já magra e curvada dele não apareceu à sexta feira, hora marcada pelas 9h30m, ainda os correios não se tinham animado com gente a vir buscar encomendas e pensões, já que cartas eram raras. Eram poucos os seus motivos de vida, uma solidão inteira espraiada no balcão, a tentar habituar-se com dificuldade a todos os botões electrónicos que tinham passado a substituir os bons dias. As senhas mudavam de cor com os dias da semana, já a sua dificuldade em avistar com clareza o visor, essa não mudava.

Tinha atendido o senhor Jacinto durante aqueles 20 anos em que ali estivera e ele também. Tinha sido logo no primeiro ano de atendimento que intrigada com o misterioso senhor das sextas feiras tinha guardado delicadamente a carta por baixo do balcão e depois no bolso da bata. O coração saltava-lhe do peito mal se sentou no sofá da sua sala e a abriu. Um bilhete com apenas uma frase e uma nota. A frase nunca mudou - querida, nunca me esqueci de ti. A nota, primeiro de escudos e depois de euros combinava mal com o romance que D. Matilde tinha decidido partilhar. Não se envia uma nota de baixo valor com uma frase para uma amada distante. O registo da carta chegou a aproximar-se do valor da nota, coisa que D. Matilde não podia dizer ao senhor Jacinto. Um dia atreveu-se: senhor, um registo por semana é muito caro, porque não envia o senhor assim mesmo, com certeza chegará ao seu destino. E ele que não, que não podia ser, que a carta era valiosa.

No primeiro ano ela enviou regularmente a carta com o dinheiro. Entre o segundo e o décimo ano levou-as para casa e guardou-as juntamente com o dinheiro numa caixinha que etiquetou como: senhor Jacinto. No décimo primeiro ano ficou com medo por causa de umas notícias de corrupção de funcionários dos correios e voltou a enviá-las e assim o fez até ao fim. De notar que era cada vez mais complexo roubar cartas com os registos electrónicos. O pequeno delito que cometeu entre o segundo e o décimo ano totalizou um valor que nunca chegou sequer a contar. Nesse dia em que o senhor Jacinto não apareceu mais, essa sexta feira de chuva intensa, ela chegou a casa mortificada com o seu roubo. Fez um pacote com as cartas que sabia serem todas iguais e com um valor em dinheiro idêntico e escreveu o nome e morada que tinha visto todos esses anos: Amélinha Dias, Rua de Baixo, nº 1 Rio Vermelho, 7655- 002 Portugal. Acrescentou um papel com a sua letra: minha querida, desculpa por todos estes anos em que guardei para mim o que era teu, também gosto muito de ti.

Depois pensou no rio e em quanto tempo o seu corpo, uma vez deitado à agua, levaria a chegar ao mar.


~CC~

segunda-feira, setembro 10, 2012

Quem acredita?


Quem é que acredita que os grandes empresários (cujos lucros em alguns casos ainda aumentaram com a crise) vão criar mais empregos por ter descido a taxa social única? É isto a dinamização da economia? Mas de qual economia? As empresas pagam menos e os trabalhadores mais...mas como é que alguém se convence da justiça de tais medidas?

Ouvi ainda há pouco na TSF que foi distribuído um manual de instruções pelos ministérios - melhor dizendo 4 páginas de propaganda - para que os ministros e respectivos demais possam explicar -usando as mesmas palavras - estas medidas. Fico hesistante...que eles nos consideravam estúpidos ja sabia mas parece que também consideram os outros ministros analfabetos e por isso fornecem-lhes tudo explicadinho, não vão eles baralhar-se.

Tristes, são uns tristes.

~CC~

terça-feira, setembro 04, 2012

Do (des)amor


Receita de uma mulher (ambas entre os 30 e os 40) em voz sussurada e meiga à sua amiga:

Tens que diminuir as sms, vais espaçando, chega a um ponto que sentes que já vais conseguindo passar...uma por mês...até que isso acaba.

Uma vez, em tempos de desamor, eu e minha mana mais velha inventámos uma empresa para enviar sms de substituição, uma espécie de metadona que ajudaria à desabituação do amado. Em vez de um corte brusco e doloroso, traçavámos um plano de fortalecimento da auto estima de quem precisava desamar. Inventámos mesmo algumas: sabes que és linda e vai ser muito difícil passar sem ti, mas temos que conseguir (esta para os homens casados sem coragem de deixar a mulher pela amante). Para nós era uma diversão inventar estas sms ao mesmo tempo que os nossos TM estavam estranhamente calados.

De facto o amor invade tudo desde que somos crianças, todos nos querem ensinar a amar e nos dizem o que é o amor, mas ninguém nos fala de como fazer para deixar de amar.

Os dois métodos mais conhecidos têm um uma conotação masculina e outro feminina, passando ambos por infalíveís. O método masculino: arranjar outra. O método feminino: coligir dados para odiar quem se amou. Um e outro são na realidade péssimos.

~CC~

sexta-feira, agosto 31, 2012

Coração singular


Um coração é invariavelmente igual a outro nas suas características essenciais. Torná-lo singular foi um desafio interessante lançado pela cidade de Guimarães (a par com Maribor, cidade europeia da cultura). Nestes pequenos gestos reside, parece-me, um evento pensado mais nas pequenas coisas do que em grandes acontecimentos.

É fácil para um estabelecimento comercial tornar singular um coração, mas como seria para cada um de nós? Que cores, materiais, texturas? Que sinais? Que singularidade? O teu, como seria?


~CC~

segunda-feira, agosto 20, 2012

Agosto, essa aldeia

Há um Agosto desconhecido de todos os habitantes do Sul. Um Agosto a Norte em que ainda se ouve pujante um francês de emigrante a varrer várias gerações de uma história que pensavámos estar acabada. Nós não sabemos o que é estar às 15h de um sábado nas termas em Chaves, de repente há um Portugal desconhecido que nos irrompe em vestidos de domingo e penteados com rolos, que dança descalço na relva enquanto o rádio dos carros investe num foclore pimba. Estas pessoas, quem são? O que as move? Tenho um genuíno interesse por saber quem são.

Fecham os olhos para beber com golinhos pequenos a água quente que tudo cura, mais além pararão para um farto piquenique. Vi um jovem de cerca de 20 anos e crista de galo benzer-se quando passou em frente à Igreja. Além adiante há mais um santuário cheio de mulheres a galhofar, homens mais adiante, em pose de Domingo. Há uns miúdos a casar-se com roupas incompatíveis com o século XXI. O comboio que percorre a zona turística vai cheio de gente que acena, grita e canta. No Sul todos estes comboios partem e chegam vazios. Miguel Gomes antes de Tabu trouxe-nos este querido mês de Agosto de feiras e romarias, fez esse retrato com a mesma incredulidade e com o mesmo carinho que eu sinto.

Contudo, ele foi um pouco mais generoso que eu. Em alguns momentos invade-me um repúdio impossível de controlar. É a maldita distância, o outro lugar que eu habito, como se entre este mundo e o meu houvesse um desfiladeiro em que é impossível caminhar. Eu vejo-os como outros. Gostei muito e, no entanto, assim que a paisagem entra no sul, sinto-me em casa.

~CC~

segunda-feira, agosto 06, 2012

Já cá, ainda de lá



Quando voltamos realmente? No momento em que o avião aterra? Mais tarde? Vamos chegando?
Durante alguns dias sonhava que estava ainda lá e os horários nunca mais se encontravam com os de cá. Vou chegando. Uma parte ainda está lá no primeiro morro pacificado do Rio, dos únicos onde há um elevador para subir (plano inclinado). O coração ainda bate à imagem destes macaquinhos vindos da mata da Tijuca, tal qual os que invadiam os quintais da minha infância.

~CC~

segunda-feira, julho 30, 2012

A altitude


A altitude no Rio de Janeiro é diferente. Não vamos subindo devagarinho como acontece nas colinas de Lisboa, em que a curvatura apesar de dificil, é acessível. As colinas são o centro da nossa cidade, enquanto no Rio eles são pontos turísticos ou favelas. Aqui os morros são a pique irrompendo numa cidade plana. Emergem por toda a cidade cortando-a em várias partes e dividindo-a em o povo que sobe e o povo que não sobe ou o faz raramente. Os morros são os lugares em que os brasileiros se comovem a ver a sua cidade amada e como eles sabem amar, como eles sabem dizer que amam (no trem do Corcovado, uma mulher pediu licença a todos para poder dizer um palavão e antes que alguém respondesse ela disse: puta que pariu que esse Rio de Janeiro é mesmo lindo! Teve aplauso). Agora que as favelas são cada vez menos algo que os envergonha, eles chamam-lhes comunidade - e cada palavra inventada por eles (são aos milhares) é sempre um mundo novo que começa.

Se fosse mais nova poderia ser brasileira, mas agora é tarde de mais, para o bem e para o mal tenho a Europa cravada no meu sangue, não sei se poderia ficar. Mas que se respira fora da Europa, isso respira-se e é bom sair para aliviar o sufoco que aí se sente a cada esquina. Exagerando um pouco: aí parece viver-se o fim de uma civilização, aqui o seu começo.

Mais um lugar onde o coração ficou preso mais um bocadinho.

~CC~

Fotograma


As pessoas são tudo o que apetece fotografar, não porque sejam lindas, bem pelo contrário. A garota de ipanema devia ser só aquela, ou quase. Parece que no Leblon há mais mas eu não fui lá. Apetece fotografá-las por serem genuínas, indiferentes a quem as possa olhar, senhoras de si próprias. Mas as pessoas não podem ser fotografadas de qualquer maneira, resisto o mais possível a apontar-lhes a objectiva. Aponto assim para o céu, o mar, o verde, ao mesmo tempo todas essas coisas são também as pessoas porque elas habitam de forma intensiva todos os lugares desta cidade, consomem-na com imenso deleite.

Quase toda a gente se apaixona perdidamente pelo Rio de Janeiro. Eu não me apaixonei por esta cidade porque nunca me apaixono assim, necessito de um tempo de namoro que me permita entendimento. E esta cidade necessita desse tempo porque é profundamente complexa se quisermos ir além da superfície. Não é uma mas várias cidades que se justapõem e intercomunicam por pontes, tuneis e escadarias. Poderia, no entanto, apaixonar-me.

Enseada do Flamengo, Julho de 2012

~CC~

terça-feira, julho 17, 2012

Esse oceano...



Da primeira vez de barco, ainda uma menina.
Da segunda vez de avião, ainda uma menina.
Da terceira vez e quarta vez até meio - embalada nas terras da Morna (duas vezes)



Para Moçambique e Angola vi pouco azul, voámos grande parte do tempo por cima da continente africano.
Da quinta vez até às ilhas de Bruma.


Agora eu quero cruzar esse oceano inteiro, abraçar alguém do outro lado.
(tanto mar... e dizem que está frio lá)

Está quase...Volto já.
~CC~





sexta-feira, julho 13, 2012

Um certo enlevo tecnológico


Para não pensarem que vivo no tempo dos povos recolectores, dado o gosto pela não interferência com a natureza (ai, ai...o comentandor ali abaixo até diz que fica tudo bem porque eu tiro as couves para que as papoilas possam crescer) , devo dizer-vos que ontem estive todo o dia num centro de tecnologia inovadora a saber mais sobre robótica (quem diria que o lego afinal se mexe?) , impressoras a três dimensões e um gigante chamado watson. Às tantas um dos monitores/professores, num momento mais informal, pediu-me para segurar uma caixa de fósforos grande, como nunca se sabe bem o que passa pela cabeça destes génios, pensei que ela ia acender a impressora ou qualquer coisa do género, mas ele disse: abra! E claro que eu cumpri ordem tão imperativa...pois, lá dentro estava um computador!

Não vesti a camisola como todos os que ali estavam (são assim estas empresas, qualquer coisa científica é simultaneamente promocional) mas quase....

~CC~



quarta-feira, julho 11, 2012

A contemplação verde


Seria maçador explicar-vos as razões porque fiz o meu ensino secundário numa escola profissional de agricultura. O que importa é que descobri lá o que ainda hoje suporta a minha relação com a natureza: a contemplação é o melhor que podemos fazer por ela. Não me seria possível trabalhar em nenhum ramo da agricultura, embora mantenha o meu fascínio por hortas domésticas e estufas de cactos e flores.

Observo as plantas da minha varanda com carinho e dou-lhes apenas água, não faço rigorosamente mais nada por elas a não ser votar-lhes diariamente alguns momentos de contemplação. Vejo as folhas que cresceram, as que definharam, o modo como se inclinam com o vento, a dificuldade que algumas têm com o frio, o modo como gostam do calor. Pela primeira vez a roseira tem dois botões: uma das rosas nasceu há quase mês e meio, outra é ainda um botão.  Fico estupidamente contente porque pela primeira vez esta roseira dá mais que uma rosa por Primavera/Verão, atribuindo à cumplicidade do meu olhar essa maior produtividade. Não, não poderia certamente trabalhar no ramo.

~CC~

quarta-feira, julho 04, 2012

Prémio


Costumava sempre dizer que não tinha estudado no tempo dos prémios, dos quadros de mérito e de progressão, enfim, nunca tinha recebido nada pelos números quase sempre bons que as pautas mostravam no lugar do meu nome. Por alguma razão que está por certo escondida entre as camadas inferiores da pele também nunca tive auto estima muito elevada em área nenhuma. Quando iniciei o meu doutoramento achei durante muito tempo que não o ia terminar, não por falta de trabalho, mas por ser realmente uma área complexa da qual sabia muito pouco.

Misturei umas lagriminhas que correram ao longo dos cinco anos com muitas doses de boa disposição, continuidade do trabalho na escola em dose que não diminuiu muito e dois amores  de natureza difernete mas igualmente trabalhosos, desafiantes. Também tive dois orientadores na tese, absolutamente diferentes e cada qual essencial. E agora ganhei um prémio pela tese de doutoramento! 

Querem saber do que me orgulho mais? Não é da tese propriamente...mas de ter tido uma mãe doméstica, um pai polícia (ambos pobres), de eles se terem divorciado, de eu ser retornada, de ter morado numa casa ocupada e depois num quarto alugado onde viviam quatro pessoas, de ter mudado depois de casa várias vezes, de por vezes não ter um tostão que fosse nem para livros nem para mais coisa nenhuma. O orgulho está no corte com o estigma da pobreza e da desgraça, é isso que vale este prémio, a hipótese de que o mérito pode valer alguma coisa mesmo num país como este.

~CC~



quarta-feira, junho 27, 2012

Desagravos (II) (M/H)


Os homens gostam de fazer coisas úteis pelas suas namoradas/mulheres, levar-lhes o carro à lavagem, pagar-lhes as contas pelo multibanco, arranjar os parafusos do estendal que se partiu, arranjar um pequeno contentor para as pilhas gastas que se espalham pela casa...Eles acham que são essas as suas pequenas provas de amor. As mulheres/namoradas gostam de palavras, frases belas, sopradas com voz quente e doce, isso sim, é para elas o amor.

~CC~

Erros fatais


Depois de tantos anos feliz na minha ignorância, comprei uma balança. Ontem dormi muito pior, não apenas pelo calor, é claro.

~CC~

segunda-feira, junho 25, 2012

Desagravos (M/H) (II)


Os filmes fartam-se de mostrar aos homens aquilo de que as mulheres gostam, quase sempre coisas inúteis tais como flores ou poesia. Eles persistem em comprar-lhes utensílios domésticos.

~CC~

Desagravos (M/H) (I)


Os homens gostam de arranjar coisas em casa, a bricolage para amadores é uma das suas artes, fazem-no julgando com isso agradar às suas namoradas/mulheres. Já elas, chamariam de bom grado um profissional para ver o assunto (bem) arrumado.

~CC~

Desagravos (M/H)


Os homens dizem frequentemente às suas namoradas/mulheres que as outras são giras, esquecendo-se, frequentemente de tecer qualquer comentário do mesmo tipo a respeito delas. Com o tempo isso vai-se tornando insuportável.

~CC~

domingo, junho 24, 2012

Península


São cactos belos com uma flor roxa impressionante e as àrvores que deitam bagas de ouro.
É a cor clara do azul do mar, mesmo quando se deixa infiltrar pela manta matreira das algas verde escuro. É um bocadinho frio é bem verdade mas é impossível não entrar - é a doçura que nos chama. É o areal que não termina pemitindo passeios sem fim.
É o gelado de amendoim de textura e temperatura absolutamente excepcional, o único que não me faz mal depois do triste episódio angolano do gelado de múcua que queria por força provar, contra todas as recomendações. Paguei bem caro. Este é fantástico e há também de eucalipto para as constipações de Verão.

É assim península que eu decidi chamar de minha terra mar.

Nem sei porque quero tanto correr mundo. Devia ficar-me por este mundo.

~CC~

PS. Não posso deixar, no entanto, de dizer que o barco é realmente caro, inacessível para a maioria dos jovens da cidade que iam lá amiúde. Mais, agora é obrigatório comprar ida e volta, não vá alguém querer ficar por lá a dormir nas dunas e afugentar os turistas endinheirados que são realmente os desejados. Contudo, há música, bar, casa de banho e ar condicionado, são barcos integralmente "de primeira", excepção ao modo de compra de bilhetes: umas máquinas que ninguém percebe e provocam filas intermináveis, obrigando a abrir em sistema de emergência a bilheteira à moda antiga.




sábado, junho 23, 2012

Tenho que concordar...


"Compreenderá que sorria ironicamente quando acrescenta a Ética Escolar a um Estatuto do Aluno assente no castigo, forma populista de banir os sintomas sem a mínima preocupação de identificar as causas. Reconheço, todavia, a sua coerência neste campo: retirar os livros escolares a quem falta em excesso ou multar quem não quer ir à escola e não tem dinheiro para pagar a multa, fará tanto pela qualidade da Educação como dar mais meios às escolas que tiverem melhores resultados e retirá-los às que exibam dificuldades. Perdoar-me-á a franqueza, mas vejo-o como um relapso preguiçoso político, que não sabe o que é uma escola nem procurou aprender algo útil neste ano de funções."



Santana Castilho, na carta aberta ao ministro Nuno Crato, leitura integral aqui

http://aventar.eu/2012/06/21/carta-aberta-ao-ministro-nuno-crato/#more-1159105

~CC~

Breves (I)


1. Ela cantaralova na casa de banho da faculdade, o pano com que acariciava ligeiramente a superficie do lavatório um mero pretexto. Era grande, gordinha, negra, a voz era grave e doce na morna que ecoava até ao bar. Por quantos anos as ouviremos cantar assim em crioulo nas casas de banho de um país distante?! Esta para mim era a segunda vez, há algum tempo atrás aconteceu-me o mesmo na casa de banho de uma área de serviço em pleno Alentejo, pelo calor morno da tarde. Desta vez meti conversa: tem uma voz bonita, nasceu em Cabo-Verde? Ela surpreendida falou baixinho, enquanto cantar, cantava alto. Nasci na Ilha de Santiago, conhece? De repente estava naquelas ruas calmas de S. Nicolau, a subir a ladeira até ao final da terra, olhando o esforço de talhar pequenas hortas com pouca chuva. E depois disse-lhe: cante, cante, nunca pare de cantar. Ela já não respondeu, pensando provavelmente que eu era um pouco louca, o que dado estarmos numa faculdade de Psicologia seria afinal normal.

2. Sou daquelas pessoas que vai sozinha ao cinema. O apelo do filme é sempre o mais forte. A tarde é dos solitários, dos velhotes e dos adolescentes. Nunca tive problema algum. Ontem um homem que se sentava na terceira fila da frente (quem é que se senta na 3ª fila nestes cinemas pequenos?!) levantou-se a meio do filme para sair. Levava na mão um saco de plástico de supermercado que me parecia quase vazio. Quando já ia a sair parou a sua marcha e ficou a olhar para mim no meio do corredor, fica ali a um metro de distância como uma estátua, penso que vamos ter problemas caso escolha sentar-se ao meu lado. Ainda por cima estou a gostar do filme e se ele se sentar, ainda vou ter que ser eu a sair. Parecem-me longos momentos em que ele está assim parado a olhar-me. Depois sai, um alívio.

~CC~





terça-feira, junho 19, 2012

Breves

1.É verdade que não chega a doer este afastamento (forçado) da Ardósia. Às vezes já não sei se é apenas o tempo que não me deixa vir aqui, nem quase respirar. Comprei na feira um daqueles antigos cadernos feitos à mão onde escrevi a minha adolescência. A escrita permanecerá ali fechada, é bem verdade. E aqui?

2. Parecia um aparato policial digno de uma maifestação de precários indignados, de suspeitas terroristas, de um verdadeiro ataque à nação, mas era tão só um homem de meia idade que tinha roubado qualquer coisa insignificante no Minipreço. Vinha escoltado por três polícias, a cara baixa. O povo silencioso a ver. Três carros da polícia parados, três!

3. Ouve-se o povo gritar "golo" em dias de jogo e é apenas o que se ouve o povo gritar.

~CC~

domingo, junho 10, 2012

Despedidas


As últimas semanas de aulas arrasam-me emocionalmente. A impossibilidade de recusar a cerimónia das fitas em que é preciso subir ao palco com eles e dizer-lhes alguma coisa (que dizer nestes tempos de descrença a jovens que terminam um curso...). O cansaço que me surge de tantos anos a ser sempre eu a acompanhá-los quando há tantos professores no curso, ainda assim este ano tive a companhia de uma colega. Ainda queria sentir-me feliz mas a parte da exaustão que carrego matou a minha alegria, perdi a inocência e estas cerimónias pesam-me.

As apresentações finais que duram dias inteiros e me mostram as diferenças entre eles apesar de terem passado pelo mesmo percurso, as mesmas horas no gabinete, as mesmas aulas, todo o tempo que sinto que em alguns casos foi sem utilidade, noutros uma conquista, tempo bem gasto. Feliz com alguns resultados, alguns muito bons.

Há choros e sorrisos e imagens que eles prepararam dos três anos que passaram por aqui, há emoção e carinho e são sentidos os abraços finais, apesar de ser árduo o caminho, há agora respeito e ao mesmo tempo há proximidade entre docentes e estudantes, não se anulam. Nunca tive nada disto nas universidades pelas quais passei. Talvez isto seja o melhor que temos, esta sensação de que acompanhámos de facto um percurso de formação, que sabemos exactamente o que vale agora cada um deles. Ao mesmo tempo que sei e sinto isto, leio no jornal que os Politécnicos são em muitos casos um caixote do lixo, a última das hipóteses para quem quer tirar um curso de ensino superior. Não duvido que estão em cima da mesa cortes profundos que levarão ao fecho de muitas destas instituições, acabarão como acabam as coisas em Portugal - com um estudo encomendado para servir uma decisão política antecipadamente tomada.

~CC~


quinta-feira, maio 31, 2012

Inevitável (I)


Todos temos uma história triste. A frase é dita pela personagem de uma série, mas podia ser eu a dizê-la. Há uma narrativa de tristeza oculta em cada um de nós, uma sombra. Quando amamos alguém uma parte dessa história triste é dita ao outro sob formas várias, nem sempre pelo uso da palavra. Tenho para mim que o amor dura mais quando o outro é capaz de escutar e compreender a parte do negro que em nós vive paredes meias com o branco, o vermelho, o azul.

Um sombra que corre lado a lado com a luz. Uma pequenina coisa, pode ser apenas aquele dia em que lá na nossa infância após uma queda com sangue à vista e dor a condizer, não houve ninguém para nos abraçar. Pode ser aquele dia no quadro em que ficámos mudos perante a pergunta do professor. Pode ser aquela rosa descoberta num caderno da adolescência por um amigo idiota que a mostrou a toda a gente gozando com a descoberta. Pode ser aquela mão suada de um amigo que largámos por não a aguentar. È tudo feito da mesma matéria de abandono e desamparo, como quando os anjos deixam de saber voar e ficam presos nos beirais.


~CC~

segunda-feira, maio 28, 2012

Quero (I)


Uma vida para sentir o pulsar diferente dos cinco continentes.
É destes desejos que os meus dias se enchem.

~CC~

quarta-feira, maio 23, 2012

Inevitável


Um toquezinho no ombro em plena estação de comboios é coisa para uma pessoa se assustar. Viro-me e vejo uma mulher jovem que parece já ter tido melhores dias na vida. Penso imediatamente que me vai pedir dinheiro. Mas ela diz muito baixinho, quase em segredo: a senhora tem o casaco vestido ao contrário...

O que ela terá pensado da minha gargalhada?!

Talvez: esta além de trazer o casaco ao contrário é completamente maluca.

~CC~


terça-feira, maio 22, 2012

Confiança


A confiança é parte essencial do bem estar. Quando a desconfiança invade esse território alastra como uma nódoa. Controlo todos os movimentos que entram no puro e duro esquema de controle dos outros para indagarmos se nos estão ou não a mentir porque se começamos a pensar nisso nunca conseguimos parar, acrescentamos sempre mais desconfiança à que já existe e nada nos tranquiliza. Conheço quem assim vive no mais horrivel dos tormentos, não só para si como para o outro. Mas a confiança não é uma coisa fácil, é conquistada, trabalhada, maturada, aprendi-a como quem aprende um ofício.

Confio tanto na minha filha que nunca me passa pela cabeça que esteja a mentir seja no que for. Há quem se ria de mim dizendo que todos os adolescentes mentem, que isso é uma espécie de hormona do crescimento que se infiltra nas células. Ela deixa invariavelmente todas as coisas por aí e o FB muitas vezes ligado, com conversas a meio. Foi ao desligá-lo sem sequer tentar ler uma palavras que fossem que me deparei com uma embalagem vazia de um medicamento ao lado do computador. Soaram as campanhias de alarme, todos os comprimidos da embalagem tinham sido tomados. A sensação era de tontura, de incredulidade. Não reconhecia o medicamento na categoria habitual dos antibióticos ou analgégicos e não a tinha como rapariga capaz se se aliciar com qualquer tipo de estimulante ou afins.

Corri com o nome do medicamento até ao google mais próximo...
Pois...era apenas a vacina que o médico lhe tinha receitado no início do Inverno! Senti-me tão estúpida.

Depois de rir de mim própria e de perceber que nunca devemos tomar nada em nós como adquirido, fiquei a pensar...como é que não se deita fora uma embalagem acabada de tomar aí em Novembro do ano passado? Isso sim, parece ser hormona adolescente.

~CC~

sábado, maio 19, 2012

N1 para Sul


É na estrada para sul, pouco depois da cidade que me habituei a chamar minha. Está lá todos os dias da semana, mesmo aos Domingos. Às vezes ela muda de rosto ou talvez pinte apenas o cabelo. Ela se calhar não é uma, mas várias que se vão revezando. Não vemos parar ninguém mas certamente param, pois de outro modo ela não gastava ali um maço inteiro de cigarros e tanto tempo no telemóvel. O rosto não o vemos, a roupa cumpre o estereótipo. Tem por companhia o homem das ameijoas do Sado, ele também não sai de lá nunca, também nunca vi ninguém parar para lhe comprar ameijoas. Talvez eles sejam parte de um filme e não vendam afinal nada do que parecem vender. Nunca falam um com o outro, cada um do seu lado da estrada. Talvez sejam apenas fantasmas e se pararmos para os ver melhor, irão desfazer-se em fumo. Agora em Maio chegou também o senhor dos caracóis, dois sacos grandes postos numa mesa de campismo e um cartaz tosco em cartão. Nunca vi ninguém parar para comprar caracóis.

Eu também não lhes quero comprar nada, mas vezes sem conta apeteceu-me parar para saber quem são.

~CC~



sexta-feira, maio 18, 2012

Necessidades


É um cansaço que (te) pede beijos nos olhos, rapidamente se tornarão borboletas.

~CC~

terça-feira, maio 15, 2012

É proibido desistir

Olhos grandes, intensamente verdes mas parados como um lago sem corrente. Um sorriso inocente, mais inocente ainda do que é comum aos oito anos. Inicialmente entusiasmada com a escrita do texto no computador, mas desistindo pouco depois face às dificuldades que encontrava. O livro tinha letra de imprensa minúscula, o teclado do computador letra de imprensa maiúscula, nada de complicado quando a transferência está cognitivamente concretizada. Não era o caso dela.

Não podes desistir, disse-lhe. Desistir é proibido, tens que ir até ao fim. Se podemos ser firmes e sorrir, foi o que tentei.

Ela acabou o texto, olhos luminosos... dei-lhe um beijo, bem sei que não é suposto nos tempos que correm. Depois fiz as perguntas aos professores e ouvi tudo o que leva à história dos que estão inevitavelmente marcados para o insucesso. Até os piolhos: tem amiúde piolhos e a mãe não trata!

Se calhar também trouxe algum comigo, nada que um coração cheio não possa limpar.

~CC~

domingo, maio 13, 2012

Aparições


Tantos anos e eu sem conseguir ver nada e muito menos sentir.
Que luz ou escuridão é essa que lhes toca o corpo e os põe a andar para um dos lugares mais feios de Portugal? Aparições dizem. Uma aparição branca. luminosa, única. Quanto mais miséria, mais aparições. É um mistério não o que aconteceu há tantos e tantos anos mas o que acontece hoje. O mistério é o que os move, a esperança ter aquele nome. Os olhos deles devem ter luz mas eu só os vejo opacos.

Mistérios é o nome que os açorianos dão a esse lugares de lava perto do mar. Mas nas terras de bruma o espiríto santo é mesmo um menino a sério, quase o podemos ver a espraiar-se nas lagoas e a rir para nós, afinal estamos no meio do oceano e tudo é possível. Lá todos os olhos são luminosos, meio feitos de chuva, meio de sol. Se eu pudesse acreditar seria lá.

~CC~

quinta-feira, maio 03, 2012

Espelhos com lágrimas


É verdade que há muitos anos que é no gabinete que melhor conheço os alunos. Muito antes de Bolonha ter denominado como tutorias as minhas conversas com eles. No entanto, nunca vi tanta gente a chorar como este ano. Choram nas aulas a propósito de coisas tão triviais como falar dos livros de que gostamos. E aqui no espaço reservado do gabinete choram por vezes um choro solto, incapazes de se controlarem. Há um desespero nestes jovens, alguns já entrados na idade adulta, como nunca tinha visto antes.

Não é, contudo, nada consciente, muito menos são politizados ou se preocupam com o estado em que está o mundo. Choram em grande parte por si próprios, pelo confronto com verdades que não queriam ou não podiam ver. Choram porque lhes devolvo a escrita incompreensível, as passagens de copy-paste assinaladas, porque lhes sublinho os muitos sinais de linguagem oral nos textos, porque lhes mostro a folha de presenças onde as suas ausências são afinal o traço marcante. Choram porque os inquieto sem saber o quanto também me inquietam eles.

Choram também pelas vidas que em muitos casos foram recheadas de dificuldades que eles não conseguiram ver como desafios, não olham como pedras no caminho mas como injustiças, alguma coisa que só eles tiveram. É constante a comparação com aquilo que o outro é, aquilo que ele consegue e tem. Dizem amiúde: eu não posso ser como a) ou como b). Invariavelmente é no humor que me refugio, mesmo quando eles choram. Não pode ser como a princesa de Inglaterra nem ter o princípe William, mas...

Conto-lhes as histórias dos resilientes, dos que fizeram a diferença.  Digo-lhes: suba a escada mesmo que tenha medo. Nunca consigo medir o alcance, o efeito...umas vezes creio que é nulo tudo isto, outras vezes há palavras que chegam, às vezes muito tempo depois, sob a forma de um agradecimento sentido que me emociona. Não se formam profissionais sem se formarem também pessoas, pouco me importa que este pensamento esteja hoje tão fora de moda.

~CC~







terça-feira, maio 01, 2012

Primeiro

Esta é a cor primeira. Esta é a flor mais efémera. Este é o grito mais doce. Estas são todas as bandeiras.

Com este vermelho me manifesto interiormente, com estas flores. Não sei encontrar-me com os que se manifestando descem as avenidas. Estou com eles de um modo só meu que é ao mesmo tempo um modo de não estar com eles. Tem sido sempre assim.

Ficam as papoilas, fica o meu grito vermelho.
~CC~



Maio, maduro Maio...


É talvez um Maio triste, o Maio mais triste desde há muitos e muitos anos. Basta pensar nos que não têm trabalho para essa tristeza colar-se à nossa pele. Basta pensar nos supermercados a ensobrarem o dia com as suas promoções embutidas na nossa miséria. Basta vez como o dia acordou luminoso mas chegaram logo as cortinas cinzentas.

E, no entanto, Maio é o meu mês preferido do ano. A seguir Junho, também adoro Junho. Maio e Junho são meses de renascer, de ir junto do mar meio vestida, meio despida, de apanhar as conchas calmamente, antes que as enchentes de gente tomem todo o areal e o mar se empalideça. Maio e Junho são também os meses mais belos no verde dos campos, pintalgados de papoilas e malmequeres brancos e amarelos, são os meses da esteva, do rosmaninho florido e da tremocilha onde sonhámos deitar-nos a namorar.

É verdade que a tristeza me arrepia e que no momento seguinte a alegria me causa tonturas. São assim estes tempos, uma montanha russa de incertos sentimentos e angústias várias.

Ontem brilhou o Jazz, que bonito um teatro absolutamente cheio a ovacionar uma música.

É Maio o meu mês, não aquele em que nasci, não aquele em que nasceram os que mais amo, é meu porque o escolhi, por ser Maio, maduro Maio...

~CC~






segunda-feira, abril 23, 2012

Bichos e homens


Das coisas mais belas que há é ver um elefante a passear pela Savana. Eles andam devagar, baloiçando a tromba, brincam com pequenas coisas e raramente se zangam, têm tempo.

Das coisas mais belas que há é ver um golfinho assumar num estuário azul, as suas voltas e saltos são um hino ao próprio azul água.

Das coisas mais feias que há é ver um rei a caçar elefantes, por ser um acto inútil que não enobrece.

Das coisas mais feias que há é ver um golfinho arrastado por uma rede matreira, é uma morte que não matará a fome a ninguém.

Não acho os homens mais importantes que os animais, mas há sem dúvida animais mais importantes que certos homens.
~CC~


 

domingo, abril 22, 2012

Ricos tão pobres


Sábado de manhã na esplanada de um dos bairros melhores da cidade. A mesa está repleta de casais entre os cinquenta e sessenta, bem vestidos, eles e elas, como se fossem à missa. Se calhar até foram. Trocam jornais e revistas entre eles. Aproxima-se o casal de ciganos, muito jovens, vendem camisolas. Elas viram e reviram as camisolas levantando a voz como não era suposto na sua condição. Tratam o cigano jovem por tu e com enorme arrongância: Vai lá à carrinha e traz-me outra cor! Não te tinha dito que para a minha neta era um S?!
O cigano não é apenas bonito, bem arranjado, é também bem educado. Responde-lhes com suavidade, quase doçura, fazendo-lhe todas as vontades. O modo como elas lhe passam as notas para a mão sem sequer olhar para ele é ultrajante. A rapariga cigana, também muito bonita, não abre a boca, tem uns olhos grandes e doces e vai ajudando o rapaz.
Os homens não dizem nada, indiferentes à mercadoria e ao frenesim das mulheres.
São todos tão pobres.
A nobreza, essa está com o casal de ciganos.
~CC~



sexta-feira, abril 20, 2012

A metade de mim


A metade de mim que ama as cidades deixou-se tocar pelo entardecer doce de Lisboa. Essa metade pensou mesmo começar uma nova vida e perdeu tempo com alguns anúncios de aluguer de casas para arrendar. Alguns andares nas zonas mais antigas estão a preços acessiveis. As árvores do Princípe Real e as limonadas do quiosque prendem-me mais e mais e deixo-me ficar. Nem me importo de estar sozinha enquanto praticamente todos à minha volta estão em grupo, alguns são pares. Sou só eu e os meus olhos tontos a beber cada andorinha que volteia.

A outra metade só pensa numa casa branca no Alentejo, uma casa para envelhecer à lareira, absurdamente cheia de livros e com espaço para ampliar a colecção de caixas.

Serei apenas eu a única a ser feita de metades contraditórias em aparente harmonia?

~CC~

domingo, abril 15, 2012

Agenda de cheiros (1)

As laranjeiras em flor nas ruas de Sevilha. No fim da tarde, o odor tornava-se mais inebriante e intenso e sentia como boas as tonturas ligeiras que me aconteciam.
~CC~

sábado, abril 14, 2012

Coração parado.

Nada me intriga mais do que os corações que param de repente. É talvez uma morte rápida, sem tempo de lágrimas, sem medo, mas é brutal para todos os que ficam.


Nunca pensei que pudesse acontecer-me, sinto o meu coração incansável, quase nunca me salta do peito ou faz qualquer ameaça, bate apenas um pouco mais depressa quando sinto medo. Mas no outro dia o meu coração parou dentro de um pesadelo. Acordei nesse momento e estava viva mas o coração queria fugir-me do peito, ainda o sentia palpitante. No meu pesadelo morria quem eu amava e o meu coração parava. Soube então porque podia ele parar de repente.


~CC~

sábado, abril 07, 2012

900

Novencentas vezes aqui com os dedos.

E uma dor nas asas. Nasci com elas, que fazer? Quando não as uso tanto quanto devia, cresce a ansiedade, os olhos gastos pelas mesmas paisagens, o coração apertado, a cabeça cheia.

Novecentas vezes, muitas felizes e outras não tanto. Cabiando...

Livre sempre, não obstante não usar ainda o suficiente estas asas.

~CC~

sexta-feira, abril 06, 2012

Saudad(inha)



É aquela saudade sem dor.

~CC~

Primavera

O desafio dos dias escuros.




~CC~

quarta-feira, abril 04, 2012

Os mais velhos

O mundo tem abandonado mais e mais aqueles que envelhecem. Esses sem acesso à Internet, sem dedos para as máquinas que cospem bilhetes no metro, nos comboios e até nas portagens, sem olhos para ver nos écrans os horários das partidas e das chegadas, para consultar os mapas e avisos em letra pequenina que inundam as cidades. Só a publicidade usa letra grande. Ninguém se lembra que as capacidades mais correntes vão diminuindo com a idade. Os serviços do Estado são os primeiros a abandoná-los.


Ontem um senhor, na casa dos 65, queria obter uma declaração da caixa geral de aposentações na loja do cidadão de Faro. Mas só há duas lojas que têm delegações da CGA: Lisboa e Porto. A funcionária dizia que era simples obter a declaração via Internet, coisa que obviamente o senhor não tinha. Solução: ir a Lisboa, isto para obter uma simples declaração. Igual para a minha mãe, cuja pensão não chega há três meses. Tirando a Internet, existe a solução dos anos 1980 - ir a Lisboa. Parece simples, excepto quando a pensão é diminuta e se tem 83 anos. Para que lhes prolongámos a vida se a vida que lhes damos nada mais é do que um simulacro?

Não acabaria aqui esta história, tenho muito mais. No outro dia organizei com os meus estudantes um lanche com idosos. Disse-me o responsável pelo grupo que não poderia deixá-los chegar à mesa e tirar o que queriam. Teria que organizar mais ou menos uma merenda para cada um, como se faz com os miúdos muito pequenos. E disse-me em voz baixa e quase envergonhada que tiveram que aprender a fazer assim no Centro de Dia. Os problemas eram vários, entre eles, os idosos que levavam a mala/saco para colocar lá dentro a comida que tiravam da mesa e lhes servia depois de jantar. A contenda em torno do que cada um comia a mais do que o outro. A dureza da vida miserável a incentivar os sentimentos mais mesquinhos.

~

As pessoas vivem, contudo, em média, mais vinte anos do que antes viviam. Mas que vinte anos são esses?

~CC~

quinta-feira, março 29, 2012

Abraço

Gosto deste sentimento de que o amor, mesmo o de mãe, pode amadurecer dentro de nós. Abrir as mãos e deixar voar. Ainda assim pensamos tanto na capacidade das asas, na sua consistência, na sua qualidade. Não há no amor nada de mais belo do que a confiança.

Boa noite. Abraço-te.

~CC~

sábado, março 24, 2012

conversas inquietantes (VIII)

(ontem, final do dia, fim de aula, duas alunas de 18/19 anos)

- Enviaram-me uma sms, diz que um homem se atirou para a linha do comboio...
- Que chatice, agora como é que vamos para casa? (acrescente-se expressão zangada, com sobrolho franzido e tudo)

Eu - S, então?!...vou repetir o que disse a sua colega...estamos a falar de um homem que se atirou para a linha do comboio
Ela - Oh professora, se ele se matou foi porque quis, o que é que eu tenho a ver com isso...

~CC~

quinta-feira, março 22, 2012

O silêncio do corpo

O cansaço misturado com polén desta Primavera seca deixou-me sem voz e à beira da exaustão. E junto com ela veio esta secura de palavras, travadas, engolidas, presas. É pior que tristeza, é impossibilidade do corpo que arrasta a alma para a dormência. Só penso em sobreviver semana a semana a esta alergia-gripe, qualquer coisa terrível de que não sei o nome. Como teimo contra ela, continuo a trabalhar intensivamente.


À espera que o primeiro banho de mar me lave ou a chuva venha banhar a Primavera.


~CC~

domingo, março 11, 2012

As primeiras nêsperas

A sul um vento norte sopra ligeiro não deixando o calor subir além do que Março pode permitir. Vais até à árvore buscar as primeiras nêsperas, não obstante as minhas dúvidas sobre a possibilidade de as comer. Acho-as belas sem dúvida, amarelo sol entre folhas verdes, folhas grandes e escuras. Acho-as normalmente demasiado ácidas. Estas, contudo, descascadas e descaraçodas, deixadas com carinho num prato, eram doces como as manhãs lentas de Domingo, doces como são os Domingos quando não se precipitam depois do almoço nessa descida vertiginosa até à Segunda Feira. São felizes os Domingos antes da ansiedade do trabalho que se acumula e acumula nos puxar para o fundo.




~CC~

quinta-feira, março 08, 2012

Conversas inquietantes (VII)

Aluna - A professora R faltou de manhã...e temos aulas com ela à tarde...tem o telefone dela?
Professora - E então? Nao querem esperar? Percebo, mas dai a telefonar...
Aluna - Professora, a questão é o almoço...era menos um almoço aqui na escola...
Professora - Tentem pedir o telefone ali na portaria...

~CC~

segunda-feira, março 05, 2012

Manhãs

Manhã de dar um passeio a um jardim desconhecido, levar os nossos olhos e pintá-los de verde. Os brincos rosa de flores que apanhaste para mim, ainda os sinto nas orelhas. São também feitos de pele nua todos os dias bons, todas as verdadeiras manhãs do mundo. E é o único modo de sobreviver à passagem atónita dos dias.


~CC~

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Conversas inquietantes (VI)

Eu (prof) - Eu nunca vi uma escrita como a sua no ensino superior, estou muito preocupada consigo, é que não se percebe mesmo o que escreve.
Ele (aluno) - Eu sei professora...em tempos viram que eu tinha dislexia...
Eu (prof) - Então e onde está esse diagóstico?
Ele (aluno) - Não tenho, nunca me deram...
Eu (prof) - E nunca procurou ajuda? Tem que fazer alguma coisa...já foi aqui ao gabinete de Psicologia?
Ele (prof) - Sim, eles não fazem o teste. Levam 5 euros por cada consulta para outras coisas, eu não posso...
Eu (prof) - E uma colega que escreva bem? Alguém que pudesse estar consigo um bocadinho, fazer uns exercícios...
Ele (aluno) - Ninguém tem tempo professora...acha que alguém se vai importar?!

~CC~

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Da saudade (III)




Tantas saudades de andar por aí. Anseio por passeios.


~CC~

terça-feira, fevereiro 21, 2012

Cinema em estado puro

A invenção de Hugo é a crença na magia humana e o cinema nasce nesse momento. Seria muito pobre o mundo sem essa tela onde nos vemos melhor.

Todas as coisas sem explicação têm afinal uma explicação, uma história. Sou assim, acredito nisso. A maior parte das vezes passamos pelas coisas sem ver, muitas vezes sem nada sentir. Isso também me acontece.

Por um segundo não vi o filme, quando percebi que era em 3D corri para a bilheteira, presa da imagem do último em que enjoei. Quando lá cheguei vi que já tinhas comprado os bilhetes, ainda te vi a pagá-los. Ainda bem que não cheguei a tempo.

Senti o frio e a neve. A esperança em alguma coisa, mesmo que não saiba exactamente o quê, talvez só mesmo essa palavra doce nos olhos daqueles dois miúdos, no velho que renasce, na mulher que se torna outra vez bela, no homem que ama o cinema.

Senti a companhia, esse calor de vos ter ali.

~CC~

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

De fugida

Corro atrás do tempo sem o conseguir agarrar, sempre a fugir-me, a rir-se de mim. E agora que é Carnaval colocou uma máscara trocista, um sorrisinho miudinho, uma voz em surdina que diz: pensava ela que ia agarrar-me e sentar-se ao meu colo a olhar a paisagem...corre corre cabacinha.



~CC~

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

Conversas inquietantes (V)

Casal (entre os trinta e os quarenta) com duas filhas pequenas, ao fim da tarde, no café.

- Pai, quero ali aquela bolachinha.
- Pede à tua mãe, ela é que sabe dessas coisas (sacundindo-a devagarinho).

A mãe, que já estava sentada na mesa, levanta-se para vir atender a criança, enquanto o pai se senta, indiferente.

~CC~

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Palavrar

Palavrar, foi assim que ele chamou ao que fomos fazer hoje.

Nunca lhe daria esse nome, é certo. Para mim seria espraiar - um mar de letras onde eu poderia estender-me feliz.


Falar dos livros da minha vida para jovens - contar das histórias que correm dentro do meu sangue, circulam como o seu sal. Como é bom falarmos do que amamos, não há nada melhor. Estes momentos valem mil comunicações académicas, bem sei que tenho, terei sempre dificuldade em explicar isto. Adicionalmente outras coisas lindas: ser no Alentejo, coração quente e silencioso; ser o convite de uma ex.aluna.

Certeza é antes o que sinto dentro de mim - poderia fazer disto o meu ofício. Porém, já não vou a tempo. Resta-me respirar bem nestes bocadinhos.

~CC~

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Olhos secos

Os olhos que se foram secando. Ela foi-se queixando, dia para dia a ver menos. Os olhos, o bem maior. Lá ia retorquindo: então e os ouvidos para poderes dizer e ouvir, o gosto para poderes saborear, as pernas que te levam de casa...procurava ajudar a relativizar a sua dor.


Até que a vi assinar os papéis diante de mim na loja do cidadão, eu marcava com o dedo o lugar para ela ver "onde", mas ela começou a assinar por cima do meu dedo, simplesmente não o viu. Depois a assinatura grande, enorme, a sair da folha, como vi tantas vezes fazer às pessoas quando aprendem a ler tardiamente, mas não era o caso. Pela primeira vez apeteceu-me molhar de lágrimas os meus olhos por causa dos olhos secos dela.


~CC~

segunda-feira, janeiro 30, 2012

Da saudade (II)

Daquele tempo longo a estudar em cafés com um caderninho ao lado dos livros para rabiscar palavras poéticas soltas, acreditando que elas eram um caminho importante entre mim e os outros, ou chegariam mesmo a um potencial público.

~CC~

quinta-feira, janeiro 26, 2012

Conversas inquientantes (IV)

Lisboa, Dezembro 2011


~CC~

terça-feira, janeiro 24, 2012

Estrela (III)

Madalena deitada na água num Domingo de Agosto, fechou os olhos por um momento, sorvendo a vertigem do azul para dentro de si. Quando os abriu, o barco estava muito perto e ela mal conseguia ver quem o levava. Mas ouviu a voz dele: sou eu, o pescador de sereias.


Madalena nadou o mais rapidamente que conseguia para fugir daquela voz de homem, uma voz forte e ao mesmo tempo doce. Madalena nadava muito bem, era mesmo o que ela sabia fazer melhor, superava mesmo o jeito para arranjar as flores nas jarras da Igreja.


Nos dias seguintes ouviu um sem número de vezes essa voz rasgar o seu silêncio. Pensou ir ao médico e dizer-lhe que estava a ouvir vozes, mas pensou manter por mais tempo intíma a sua loucura.


E foi nadar no Domingo seguinte.


~CC~

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Da saudade (I)

Atravessar um campo de milho no Verão, não lhe saber o fim.

~CC~

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Conversas inquietantes (III)

Na escola x

Mãe cigana: O meu filho tem 16 anos e queria que ele viesse para cá para o 5º ano.
Funcionária: Não há vagas.
Mãe cigana: Ele também pode ir para o 4º ano...
Funcionária: Vou ali perguntar à Direcção...
Funcionária (um minuto depois): Não, também não há vagas, não as temos em ano nenhum.
Mãe cigana: não há aqui, não há na outra escola, não há...não querem! E por causa disso perdemos o rendimento social de inserção...sabia minha senhora, sabia que nos tiram?
Funcionária: Pois, não posso fazer nada, aqui não há vagas.

~CC~

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Estrela (II)

Os Domingos de Agosto são os mais difíceis para Madalena. A aldeia agrupa-se aos molhinhos em torno de uma açorda, de um pernil de porco, de uma galinha de cabidela. Madalena enjoa todas as carnes. Mortos os pais, sem irmãos, sobram-lhe tantos primos de segunda que a convidam à vez, numa espécie de combinação atroz. Só uma sopa de cardos, por favor, diz Madalena de cada vez que aceita um convite.



Às vezes ela é corajosa e não aceita, vai logo pela manhã nadar nua no mar. Pela fresca não há turistas, não há meninos, não há pescadores. Ninguém é afinal tão livre e tão feliz como ela quando sai da água com a pele salgada. Madalena, faltando à missa de Domingo, aos almoços em família, Madalena fugindo aasim pelas manhãs é uma menina de vinte anos, nem uma ruga em torno dos poços azuis que são os seus olhos.



Nesses dias em que ela anda fugida do mundo é que a comentam como nunca nos almoços fartos, depois de bebido muito vinho. As crianças dizem que é uma fada, as mulheres que é uma bruxa, os homens que é uma virgem enlouquecida. Quantas palavras a ouviram dizer pela vida toda? E disputam entre eles: eu só a ouvi dizer bom dia, eu só a ouvi dizer obrigada, eu só a ouvi dizer com licença...E os meninos, eles que sabem tudo, dizem: vocês não sabem que ela é a mulher de Jesus?




~CC~




domingo, janeiro 15, 2012

Estrela (I)

Madalena sabia que tinha sido a mulher proscrita de Jesus, a que a história encerrara na categoria de prostituta. Outras versões líricas diziam outras coisas dela. Ela registara simplesmente que era uma mulher que não podia ser amada.


Madalena, tinha dito o padre em tom doce, desde que ela era menina, o teu nome é pertença da igreja, como tu. E Madalena, nascida na aldeia da Estrela, tinha aceite ser a mulher sozinha da aldeia. Era ela que cuidava dos velhos e os vestia bonitos para o enterro. Era ela que ensinava catequese às crianças. Era ela que enfeitava a igreja com flores e a abria para a mostrar aos visitantes. Não era Madalena, contudo, uma beata devota como as outras. No fundo dos seus olhos azuis havia um lago vazio onde ela nadava até se cansar nas tardes de Domingo. Madalena, onde vais, diziam as crianças? Onde vais Madalena se é tarde de Domingo, de estar em casa, de dormir a sesta, de ligar a TV e nada fazer? Vou andar, andar...e Madalena apanhava a estrada de terra do campo porque as ruas da Aldeia já não lhe cansavam o corpo e o ar fedia de velho e cansado. Vou andar entre as silvas, vou descalçar-me nas ervas, vou esconder-me na sombra.


Madalena, o teu nome consta de todas as bíblias de todos os tempos. Ela sabia que era prisioneira do seu nome, prisoneira do seu corpo virgem, do seu destino falhado.


Ela tirava lá longe no meio do mar o fato de banho e nadava nua, não ela não era inteiramente prisioneira, tinha umas asas que abria nas tardes de Domingo, quando todos dormiam e não davam por ela.

E foi assim que aconteceu. Aldeia da Estrela, quando o século se dobrou para nascer outro, Madalena também nasceu outra vez.


(continua)


~CC~


quarta-feira, janeiro 11, 2012

Frases singulares (I)




" Fecham uma escola lá no interior...e sabe o que abre a seguir? Um posto da GNR".


(Senhor de cerca de 65/70 anos numa conferência sobre Educação, soube depois que é artesão e que procurou toda a vida salvar umas das principais oficinas de azulejo cá da terra)


~CC~

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Conversas inquietantes (II)

Área de serviço de Aljustrel

Na bomba
- Onde está a caixa multibanco?
- Já não temos.
- E ali na cafetaria/restaurante?
- Também havia, mas já não sei se há.

Na cafetaria/restaurante

- Aqui também já não há caixa multibanco?
- Já não!
- Mas agora não existe nem aqui, nem na bomba?
- Assaltaram as duas!
- E então, a solução é deixar de as ter?
- Sim, minha senhora, ter uma caixa multibanco tornou-se um perigo.
- Mas até a minha escola tem uma...
- Minha senhora, tirem-na de lá quanto antes!

~CC~

domingo, janeiro 08, 2012

A estrada

Há dias em que detesto estes caminhos de ida e volta. É uma estrada tão grande entre ti e mim. Mas hoje vi a lua nascer grande e redonda, ao mesmo tempo que o céu se tingia em laranjas múltiplos. De repente tudo estava certo e era belo. E não havia distância nem estrada entre ti e mim. A lua redonda e grande era um beijo teu a acompanhar-me.


~CC~

terça-feira, janeiro 03, 2012

Escutas inquietantes (I)

No café


Rapariga de leste (bonita) - É demais para mim, ele conhece-me há um mês e já diz que me ama.

Rapariga portuguesa (bonita) - Aproveita agora... com o passar do tempo deixa de te dizer essas coisas e não voltas a ouvi-las.


~CC~

Chão (1)

Um chão para me agarrar à terra

Mantendo quente todo o desejo de voar.


~CC~

quarta-feira, dezembro 28, 2011

A lista

Adoro listas para combinar com as passas, mas preciso de as fazer com tempo, não ali à boca de cena. Hoje, no blogue escrever é triste (um blogue sempre a merecer visita) lá estava uma bela lista, a aguçar-me o apetite.


É verdade que muitas das coisas que desejamos são quase impossíveis, roçam o abstracto filosófico contido num outro programa de mundo, ou para falar bem e depressa - o fim do capitalismo, deste capitalismo estúpido que conhecemos já demasiado bem. Não façam, contudo, mais perguntas. Não inventámos ainda a fórmula capaz de susbtituir o que está gasto. Há por aí contudo milhares de particulas milagrosas, a propor e a fazer coisas diferentes, resta-nos pensar que haverá um momento de fusão.


Podemos ainda diminuir a abertura da janela - ficar pelo país - outro governo, outros políticos, outro povo? Ora bolas, outro povo é que não. E mais uma vez tropeçamos, não é fácil fabricar sonhos, tudo o que queremos nos parece contaminado, dificil, problemático. Ainda nós e ainda assim outros seria a fórmula a dar ao desejo da lista, ainda assim complicado, nenhum génio da lâmpada poderia realizar tal vontade.


Deixemos assim o mundo, o país, regressemos a nós. Mas até nesta matéria os desejos simples que antes formulavámos com a maior legitimidade tais como um emprego melhor, até esses se nos afiguram pesados, como desejar um emprego mellhor se tantos não têm nem sequer um?


Quando perdemos a inocência, até desejar é difícil.


Fico-me assim por um desejo dois em um: ainda desejar, oh...ainda desejar fazer tantas coisas.


(Preparação do Pós Doc na América Latina, escrita daquele livro das histórias, estadia nas termas de Budapeste, meia maratona da ponte Vasco da Gama, retoques estéticos não invasivos, apoios para o projecto com P, n mais um passeios com J, n mais uma coisas para certas pessoas que amo tanto ou mais do que a mim própria).


~CC~

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Dois

Dois é quanto basta para fazer calor, mas se mais, melhor. E calor é tudo quanto precisamos para germinar. É o que vos desejo nestes tempos de festa, de fazer festas.


~CC~

terça-feira, dezembro 20, 2011

Um(a)



Palmela, Dezembro de 2012




Às vezes é difícil saber. Saber sim, saber a direcção. Mais fácil é saber dizer não, saber o que recusamos.




~CC~


domingo, dezembro 18, 2011

Dois

Cabo Verde, 2008



Ilha de S. Nicolau (a lembrar Cesária)






~CC~

Um



Palmela, Dezembro 2011

~CC~

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Reverso

As obras na estação duraram quase ano e meio, durante alguns meses nem de noite paravam, presos de uma urgência a todos imperceptível.


Sofremos com o barulho, pó, com a seguradora que nos bateu à porta para examinar se as paredes já tinham rachas antes das obras, para não irmos reclamar depois. Nunca lhes abri a porta, e olho agora para as pequenas fissuras que percorrem os azulezos da cozinha e o hall de entrada.


Suportámos a pensar no Intercidades que nos ligaria a todo o lado mais rápido e aqui mesmo à porta. Tu virias de Sul, eu iria, ambos podíamos ir para Norte, e foi assim que há bem pouco viajei até Viana.


Há uns dias soube que a CP cortará esta cidade da rota do Intercidades, justificando-o com a poupança de meia hora para Sul, seguindo assim a linha que o ALFA já percorre, igualzinha. Olho para a estação remodelada, ampliada, imponente. É assim um país sem planeamento, que risca as cidades médias do mapa, retirando-lhes estações, escolas, hospitais. Sempre foi uma céptica face aos arautos da regionalização, vendo bem como adornaram tudo de rotundas e pavilhões gigantescos...mas isto é demais!


Resumam o país a Porto e Lisboa, cidades ainda assim periféricas, onde se virá para contratar emigrantes para a Europa rica.


~CC~

terça-feira, dezembro 13, 2011

Verso

Pouco a pouco foi desaparecendo a venda de pinheiros a céu aberto nas ruas e nas praças. Frequentemente mal cortados e podendo provocar danos às árvores, ou mesmo arrancadas ainda jovens, esta actividade só nos envergonhava. É verdade que não há nada como o cheiro a pinheiro natural numa casa, e que é ele que ainda invoco nesta altura do ano, mas há que mudar as nossas práticas, e ser inventivos nas trocas.


Na minha infância eram as próprias árvores do Quintal que se invadiam de luzes, numa Àfrica em que a cor e a luz eram sinónimo de alegria e em que isso nada tinha de piroso. Hoje hesito quando olho para esses quintais enfeitados, ambígua nos meus gostos.


Eu tenho uma árvore muito pequenina, criada num quintal do sul, é sem dúvida um pinheiro infantil que por ora quase envergonha, mas tem o encanto de o termos vistos nascer e ainda poder vir a crescer e nos acompanhar a cada Natal. E já gosto dele.


~CC~


domingo, dezembro 11, 2011

Sublinhados nos dias (V)

Ainda ligo a televisão para ver as notícias num dos quatro canais portugueses, mas sou incapaz de me sentar a ver. É um desgosto tão grande.

~CC~

terça-feira, dezembro 06, 2011

Ganhei um pássaro azul

Cresceram-me as asas nestes anos
cada abraço
cada lágrima
cada dúvida
é uma soma feita de um vento agridoce
outra eu
a mesma eu

Ou fui eu que cresci
e agora já sei olhar as minhas asas?

Ou foi um pássaro que tinha preso cá dentro
que resolveu soltar-se
e pousar no dia 5 de Dezembro
resolvido a dizer-me segredos

amiga, diz ele baixinho
sê feliz
despacha isso
vai por aí

tem um ar malandro
mas grave
como uma formiga com voz de cigarra

um guarda rios atencioso

o mais belo pássaro azul

que às vezes faço voar dentro de mim.


~CC~

domingo, dezembro 04, 2011

Contagem decrescente (III)

Oficialmente são menos de 24 horas, ou seja, por esta hora deve estar a acabar. Mas ando a medir mal o tempo, tanto me parece que está a passar rápido, como excessivamente lento.

É também assim com o calor e o frio, que parecem alternar amiúde.

E os velhos fantasmas que resolvem aparecer nestas horas?

Sobra a gargalhada para o melhor conselho que ouvi: é fazer como os pinguins, sorrir e acenar, sorrir e acenar...

~CC~

sábado, dezembro 03, 2011

Contagem decrescente (II)

Imaginação nunca me faltou. Imaginem teses de doutoramento transformadas em temas de carros alegóricos num desfile de tipo carnavalesco e estarão no meio do meu sonho. Até tinha graça.


~CC~

quarta-feira, novembro 30, 2011

Contagem descrescente (I)

Sonhos regressivos face à ansiedade. Ontem respondia a um júri, mas era sobre a matéria de Matemática do Secundário. Hoje novamente o júri, o arguente era um moço louro estranhamente semelhante ao meu primeiro namorado, mas bastante mais prolixo. Freud explicaria, eu prefiro rir-me.


~CC~

terça-feira, novembro 29, 2011

Contagem decrescente

Os orientadores estão confiantes, resta-me assim confiar nos orientadores.

~CC~

domingo, novembro 27, 2011

Sublinhados nos dias (IV)

Discordo do título. O método não é perigoso. É verdade que o médico se apaixona pela doente e vice versa, como já aconteceu com outros médicos, professores e alunos, advogados e clientes...a proximidade gerada numa relação profissional é geradora de inúmeros casos de amor, uns de êxito e outros fracassados, quase sempre atravessados por muitos dilemas.


O método é fascinante, pela primeira vez alguém prescinde de químicos e usa a palavra, a livre associação, a metáfora. Mais, pela primeira vez o médico não cura o doente, é o doente que se cura a si próprio, tudo depende da capacidade e disponibilidade para a viagem. Jung vai mais longe que Freud nessa busca pela autodeterminação de quem se vê doente, e é simultaneamente o que mais erra, o que mais se fragiliza, o que mais duvida...mas, como diz, só alguém ferido pode compreender realmente outro ser ferido. Continuo a admirar a psicanálise, provavelmente o único método que não é perigoso.


Este sublinhado saiu longo, a condizer com os tratamentos analíticos, um dos seus mais proclamados defeitos.


~CC~



Nota: aliás o nome da peça de teatro que o filme se baseia é " The Talking cure"...do dramaturgo e argumentista inglês, nascido nos Açores, Christopher Hampton. É claro, quem nasceu homem das ilhas de bruma...






sábado, novembro 26, 2011

Este díficil colectivo (II)

- Professora, isso de cada um levar a sua loiça...usamos de plástico!
- Então mas não eram vocês que queriam fazer uma conferência sobre 2102 como ano internacional da energia e do planeta sustentável?
- Sim, mas é mais prático...eu não venho com um prato, um copo e um talher de casa?
- Então, pesa muito?
- Não dá jeito...

~CC~

quinta-feira, novembro 24, 2011

Sublinhados nos dias (III)

Geral, geral...é mesmo a desilusão, esse maldito mal, este Outono anda mais negro do que nunca. É preciso dar outros nomes às coisas.

~CC~

terça-feira, novembro 22, 2011

Este difícil colectivo (I)

- Professora, a turma tomou uma posição e não quer fazer o almoço colectivo tipo piquenique.
- Explique...
- Uns depois trazem coisas e outros não trazem...a folha para indicarmos o que trazíamos está vazia.
- Mas quem participa traz alguma coisa para partilhar...
- Estamos sem dinheiro...
- Então não vão comer?
- Sim, mas cada um traz a sua sandes ou vamos ao ...(abstenho-me de publicitar a coisa)
- Então e se você em vez de uma sandes trouxer um pão? Uma fruta...
- Um pão...e como só o pão?
- Só o pão? Não, outros trazem qualquer coisa para pôr no pão..
- Nã...eles não trazem.

~CC~

domingo, novembro 20, 2011

sublinhados nos dias (II)

Senti debaixo dos pés as folhas secas dos plátanos, com a ambivalência de quem se sente parte da matéria morta de um país, e ao mesmo tempo a asa de um voo de um país outro.

~CC~

sexta-feira, novembro 18, 2011

Singularidades masculinas (II)

O homem dos quatro cães pretos faz parte da paisagem da minha cidade. Nasceu já com sessenta anos, com aquele bigode, e com os quatro cães. Ele consegue percorrer com eles distâncias improváveis para qualquer pessoa, e por isso o encontro nos mais diversos sítios. Ele sozinho, outras vezes com a mulher magrinha pendurada no braço, outras com algum amigo que percorre com ele um pedaço do caminho. Esses amigos vão mudando, como se o apanhassem num ponto do percurso e o seguissem para depois virarem mais adiante.


Os quatro cães do homem são de uma raça perigosa e por isso ele leva-os numa trela de quatro, como se fossem ramos de uma mesma árvore. Os cães perigosos são imensamente pachorrentos, lentos, doces. Os quatro cães perigosos sentam-se muito quietos à porta dos cafés onde o homem toma um bagacinho, intimidam a entrada a quem não os conhece, por isso o homem tem amiúde problemas. Já vi quase a lutar com um dos meus vizinhos, batendo-se pelos cães como se fossem a sua dama, já o vi esconder-se (ele e os seus quatro) num segundo mal chamam a polícia, já o vi mudar estratégicamente o caminho para descruzar de outros cães.


Este homem não pode ter tido outra idade, nem feito mais nada na vida.


~CC~








quarta-feira, novembro 16, 2011

Sublinhados nos dias (I)


A inteligência brilha infitamente mais que o dinheiro. O seu sabor desfaz-se muito mais lentamente na boca e o seu calor é coisa que perdura.


~CC~

sábado, novembro 12, 2011

Singularidades masculinas (I)

Ele escolheu primeiro o ângulo do café onde podia vê-la dentro da loja. E ali esteve, o café a arrefecer na mesa, o corpo gelado, o olhar fixo. Mas ainda a via muito ao longe. Ele levantou-se e ficou em frente à montra da loja dela, disfarçando por breves momentos a sua fixação na rapariga com a análise das malas da estação. Mas ela não se mexia por trás do balcão, ignorando a sua presença. Ele colocou-se então bem no meio da porta da entrada, forçando quem queria entrar a contorná-lo. Era grande o rapaz, parecia um urso acossado, um bicho perdido. Não havia palavras, esta coreografia era vivida em silêncio.



Até que a rapariga se mexeu por trás do balcão e veio quase até à porta, fez o gesto de o enxotar, um pedido angustiado para que se fosse dali. As colegas evidenciaram um riso nervoso. O rapaz não se mexeu, parado à entrada da loja, o olhar fixo na rapariga.



De repente já não era romance o que se desenhava mas sim tragédia. Tive algum receio pela rapariga. Mais ainda por aquele rapaz cujos olhos tinham tanto vazio, quase loucura. Pensei nos seguranças, que talvez devesse chamá-los, alguma coisa não batia certo entre aquele rapaz e aquela rapariga.



Baixei os olhos por momentos para a minha leitura. Quando os levantei não o vi a ele, nem a ela dentro da loja. Ponderei a hipótese de estar com alucinações. Ou de me ter cruzado com mais uma história de que não saberia o fim.



Certo é o receio dos rapazes que amam em excesso, com aquele vazio dentro dos olhos, quase sempre desembocando numa faca, num tiro de pistola, na morte de uma mulher.




~CC~

sexta-feira, novembro 11, 2011

Singularidades masculinas

Ele dança, mesmo sem nunca ter dançado. Basta colocar o seu coração no sítio certo, e conseguirá ser uma das cinquenta pessoas, pessoas especiais.


Mais aqui: http://www.teatromunicipaldefaro.pt/teatro/programacao/evento.asp?id=1016


~CC~



quinta-feira, novembro 10, 2011

Aparência

O gmail insiste para que mude para a nova aparência e comente como é que me estou a sentir.

Resisto, estou habituada a ver-me assim ao espelho, não obstante as olheiras mais e mais extensas e um certo brilho no olhar que só aparece agora em dias mais luminosos e dentro de certos abraços.

~CC~

terça-feira, novembro 08, 2011

Neruda na minha aula

Às vezes perco-me um bocadinho nas aulas, justamente naquelas em que tenho segurança sobre os conteúdos a abordar. Viajo até lugares, até pessoas, histórias, projectos. Queria estender-lhes o mundo diante deles para perceberem que é muito grande, muito diverso, muito e infinitamente rico. Aparecem inadvertidamente umas poeiras nos olhos porque uma pessoa não chora nas aulas e por isso são só estrelas. Hoje uma aluna disse com admiração: como é que sabe tantas coisas...e eu olhei-a e era uma miúda.


E respondi-lhe que não era assim, que tinha apenas mais trinta anos que ela. Mas devia também ter dito: trinta anos de muito movimento, trinta anos de busca, de partidas e chegadas, de querer ver, de querer saber. Trinta anos a vencer dia a dia a timidez até me esquecer dela. E só me veio à cabeça a frase do Neruda na sua biografia: confesso que vivi.


Mas mal esta frase me ocorreu, apareceram ainda as coisas que estão por viver.


Desenhou-se diante de mim o oceano e esse continente além Atlântico em que nunca pisei. Fechei os olhos: Chile, Argentina, Equador, Brasil. Não se trata de turismo, mas de estar e conhecer as pessoas.


Confesso que ainda tenho que viver.


~CC~

domingo, novembro 06, 2011

Bom dia

Já ninguém diz bom dia quando entra no café, num transporte público, numa sala de aula. Já quase ninguém o diz em algum lado.

Sobram as aldeias e algumas vilas onde os velhotes nos cumprimentam amavelmente com os seus gestos lentos e gentis.

E agora que a C me convida para nos encontrarmos mais cedo com os Domingos caminhando, recebemos dúzias de bons dias dos ciclistas com os quais nos cruzamos. E é bom.

~CC~

sábado, novembro 05, 2011

O essencial (II)

Viajei com R há cerca de três anos para um seminário em Itália, ambas tínhamos participado num projecto comum de uma ONG portuguesa, em sintonia com outras ONG no mundo, no término desse trabalho tinham decidido partilhá-lo e traçar novos rumos. Guardei de R apenas o nome, a imagem de uma mulher empenhada, como tantas outras com quem nos cruzamos nessas rotas. Mais tarde, no início deste Verão, a mesma ONG convidou-me para ir a uma reunião deles. Vou porque gosto da forma como eles trabalham, se juntam e conversam. Geralmente não almoçam em restaurantes nem alugam salas em hoteis, é tudo muito caseirinho, com comida feita por ali e uma sede que se transforma num ápice num espaço de encontro. Andam com as cadeiras às costas entre a sala de reunião e a improvisada sala de refeições. E todos participam, todos falam, o que é espantoso para quem conhece o mundo académico como eu, e sabe qual é nível de participação que os seminários aí organizados costumam ter.




R escreveu-me há cerca de dois meses, propondo-me que fosse à escola dela apresentar um documento no qual eu tinha participado como elemento de uma equipa. Falei-lhe em dois caminhos, um o das inevitáveis burocracias, e outro informal, em que tudo se poderia desenhar mais velozmente. Escolheu o segundo. E foi assim que esta Quarta Feira fui a caminho do Alentejo. Esperava-me para um almoço acolhedor numa tasquinha no meio do campo, a preços módicos e com comida caseirinha. Ela e o marido (eu e o meu rapaz) , deixando assim que estas fronteiras que costumamos colocar entre a vida profissinal e a privada se possam esbater sem que fiquemos por isso menos profissionais.



E não necessitámos de qualquer tipo de transacção monetária, eles convidaram, eu fui porque quis, afinal o voluntariado que nos sai da alma não dói.



Tudo simples, verdadeiro, escorreito. É isso o essencial.




~CC~

terça-feira, novembro 01, 2011

O essencial

A crise ensina-nos algumas coisas. Não tudo como eles querem. Não para nos convencer que somos culpados de nos terem convencido que deveríamos entrar na categoria de proprietários das casas em que vivemos. Já os meus pais que praticamente toda a vida foram arrendentários, desejavam não o ser. Incentivaram-nos o mais possível ao consumo, agora criticam-nos. A verdade é que por causa da crise começamos a pensar melhor no dinheiro que temos e no modo como o gastamos, é talvez a única coisa positiva.


Um sábado no cinema em zona nobre Lisboeta. Eu comprei bilhete combinado, um almoço tardio com filme incluído, dois em um permitiu-me poupar nas duas coisas. Depois os avós e os netos. Um casal de avós ainda novos e quatro rapazinhos entre os 4 e os 11 anos. Sentaram-se ao meu lado, os avós com um chá para cada um e os meninos cada um com a sua sandes trazida de casa. A avó trazia ainda uns bolinhos secos. Só os sumos foram comprados ali, mas devidamente repartidos. Não houve pipocas. Quatro bilhetes de cinema, ou seja, seis, custam dinheiro. Mas mais ainda custam os pacotes de pipocas, os maiores são mais caros que os bilhetes. E o que importa é o cinema, não as pipocas.

A conversa saborosa: digam lá, valeu a pena virmos ao cinema? Os meninos em coro com voz fininha: siiiiimmm. Então e já conheciam este herói da BD: o pai tem os livros...E o avô conta histórias sobre a sua infância mergulhada nos livros do Timtim.

O cinema, ainda assim a preços exagerados, e que vão subir mediante a aplicação da nova taxa do IVA aos espectáculos. Encontrarei mais estes avós com os quatro netos?

~CC~