domingo, maio 13, 2012

Aparições


Tantos anos e eu sem conseguir ver nada e muito menos sentir.
Que luz ou escuridão é essa que lhes toca o corpo e os põe a andar para um dos lugares mais feios de Portugal? Aparições dizem. Uma aparição branca. luminosa, única. Quanto mais miséria, mais aparições. É um mistério não o que aconteceu há tantos e tantos anos mas o que acontece hoje. O mistério é o que os move, a esperança ter aquele nome. Os olhos deles devem ter luz mas eu só os vejo opacos.

Mistérios é o nome que os açorianos dão a esse lugares de lava perto do mar. Mas nas terras de bruma o espiríto santo é mesmo um menino a sério, quase o podemos ver a espraiar-se nas lagoas e a rir para nós, afinal estamos no meio do oceano e tudo é possível. Lá todos os olhos são luminosos, meio feitos de chuva, meio de sol. Se eu pudesse acreditar seria lá.

~CC~

quinta-feira, maio 03, 2012

Espelhos com lágrimas


É verdade que há muitos anos que é no gabinete que melhor conheço os alunos. Muito antes de Bolonha ter denominado como tutorias as minhas conversas com eles. No entanto, nunca vi tanta gente a chorar como este ano. Choram nas aulas a propósito de coisas tão triviais como falar dos livros de que gostamos. E aqui no espaço reservado do gabinete choram por vezes um choro solto, incapazes de se controlarem. Há um desespero nestes jovens, alguns já entrados na idade adulta, como nunca tinha visto antes.

Não é, contudo, nada consciente, muito menos são politizados ou se preocupam com o estado em que está o mundo. Choram em grande parte por si próprios, pelo confronto com verdades que não queriam ou não podiam ver. Choram porque lhes devolvo a escrita incompreensível, as passagens de copy-paste assinaladas, porque lhes sublinho os muitos sinais de linguagem oral nos textos, porque lhes mostro a folha de presenças onde as suas ausências são afinal o traço marcante. Choram porque os inquieto sem saber o quanto também me inquietam eles.

Choram também pelas vidas que em muitos casos foram recheadas de dificuldades que eles não conseguiram ver como desafios, não olham como pedras no caminho mas como injustiças, alguma coisa que só eles tiveram. É constante a comparação com aquilo que o outro é, aquilo que ele consegue e tem. Dizem amiúde: eu não posso ser como a) ou como b). Invariavelmente é no humor que me refugio, mesmo quando eles choram. Não pode ser como a princesa de Inglaterra nem ter o princípe William, mas...

Conto-lhes as histórias dos resilientes, dos que fizeram a diferença.  Digo-lhes: suba a escada mesmo que tenha medo. Nunca consigo medir o alcance, o efeito...umas vezes creio que é nulo tudo isto, outras vezes há palavras que chegam, às vezes muito tempo depois, sob a forma de um agradecimento sentido que me emociona. Não se formam profissionais sem se formarem também pessoas, pouco me importa que este pensamento esteja hoje tão fora de moda.

~CC~







terça-feira, maio 01, 2012

Primeiro

Esta é a cor primeira. Esta é a flor mais efémera. Este é o grito mais doce. Estas são todas as bandeiras.

Com este vermelho me manifesto interiormente, com estas flores. Não sei encontrar-me com os que se manifestando descem as avenidas. Estou com eles de um modo só meu que é ao mesmo tempo um modo de não estar com eles. Tem sido sempre assim.

Ficam as papoilas, fica o meu grito vermelho.
~CC~



Maio, maduro Maio...


É talvez um Maio triste, o Maio mais triste desde há muitos e muitos anos. Basta pensar nos que não têm trabalho para essa tristeza colar-se à nossa pele. Basta pensar nos supermercados a ensobrarem o dia com as suas promoções embutidas na nossa miséria. Basta vez como o dia acordou luminoso mas chegaram logo as cortinas cinzentas.

E, no entanto, Maio é o meu mês preferido do ano. A seguir Junho, também adoro Junho. Maio e Junho são meses de renascer, de ir junto do mar meio vestida, meio despida, de apanhar as conchas calmamente, antes que as enchentes de gente tomem todo o areal e o mar se empalideça. Maio e Junho são também os meses mais belos no verde dos campos, pintalgados de papoilas e malmequeres brancos e amarelos, são os meses da esteva, do rosmaninho florido e da tremocilha onde sonhámos deitar-nos a namorar.

É verdade que a tristeza me arrepia e que no momento seguinte a alegria me causa tonturas. São assim estes tempos, uma montanha russa de incertos sentimentos e angústias várias.

Ontem brilhou o Jazz, que bonito um teatro absolutamente cheio a ovacionar uma música.

É Maio o meu mês, não aquele em que nasci, não aquele em que nasceram os que mais amo, é meu porque o escolhi, por ser Maio, maduro Maio...

~CC~






segunda-feira, abril 23, 2012

Bichos e homens


Das coisas mais belas que há é ver um elefante a passear pela Savana. Eles andam devagar, baloiçando a tromba, brincam com pequenas coisas e raramente se zangam, têm tempo.

Das coisas mais belas que há é ver um golfinho assumar num estuário azul, as suas voltas e saltos são um hino ao próprio azul água.

Das coisas mais feias que há é ver um rei a caçar elefantes, por ser um acto inútil que não enobrece.

Das coisas mais feias que há é ver um golfinho arrastado por uma rede matreira, é uma morte que não matará a fome a ninguém.

Não acho os homens mais importantes que os animais, mas há sem dúvida animais mais importantes que certos homens.
~CC~


 

domingo, abril 22, 2012

Ricos tão pobres


Sábado de manhã na esplanada de um dos bairros melhores da cidade. A mesa está repleta de casais entre os cinquenta e sessenta, bem vestidos, eles e elas, como se fossem à missa. Se calhar até foram. Trocam jornais e revistas entre eles. Aproxima-se o casal de ciganos, muito jovens, vendem camisolas. Elas viram e reviram as camisolas levantando a voz como não era suposto na sua condição. Tratam o cigano jovem por tu e com enorme arrongância: Vai lá à carrinha e traz-me outra cor! Não te tinha dito que para a minha neta era um S?!
O cigano não é apenas bonito, bem arranjado, é também bem educado. Responde-lhes com suavidade, quase doçura, fazendo-lhe todas as vontades. O modo como elas lhe passam as notas para a mão sem sequer olhar para ele é ultrajante. A rapariga cigana, também muito bonita, não abre a boca, tem uns olhos grandes e doces e vai ajudando o rapaz.
Os homens não dizem nada, indiferentes à mercadoria e ao frenesim das mulheres.
São todos tão pobres.
A nobreza, essa está com o casal de ciganos.
~CC~



sexta-feira, abril 20, 2012

A metade de mim


A metade de mim que ama as cidades deixou-se tocar pelo entardecer doce de Lisboa. Essa metade pensou mesmo começar uma nova vida e perdeu tempo com alguns anúncios de aluguer de casas para arrendar. Alguns andares nas zonas mais antigas estão a preços acessiveis. As árvores do Princípe Real e as limonadas do quiosque prendem-me mais e mais e deixo-me ficar. Nem me importo de estar sozinha enquanto praticamente todos à minha volta estão em grupo, alguns são pares. Sou só eu e os meus olhos tontos a beber cada andorinha que volteia.

A outra metade só pensa numa casa branca no Alentejo, uma casa para envelhecer à lareira, absurdamente cheia de livros e com espaço para ampliar a colecção de caixas.

Serei apenas eu a única a ser feita de metades contraditórias em aparente harmonia?

~CC~

domingo, abril 15, 2012

Agenda de cheiros (1)

As laranjeiras em flor nas ruas de Sevilha. No fim da tarde, o odor tornava-se mais inebriante e intenso e sentia como boas as tonturas ligeiras que me aconteciam.
~CC~

sábado, abril 14, 2012

Coração parado.

Nada me intriga mais do que os corações que param de repente. É talvez uma morte rápida, sem tempo de lágrimas, sem medo, mas é brutal para todos os que ficam.


Nunca pensei que pudesse acontecer-me, sinto o meu coração incansável, quase nunca me salta do peito ou faz qualquer ameaça, bate apenas um pouco mais depressa quando sinto medo. Mas no outro dia o meu coração parou dentro de um pesadelo. Acordei nesse momento e estava viva mas o coração queria fugir-me do peito, ainda o sentia palpitante. No meu pesadelo morria quem eu amava e o meu coração parava. Soube então porque podia ele parar de repente.


~CC~

sábado, abril 07, 2012

900

Novencentas vezes aqui com os dedos.

E uma dor nas asas. Nasci com elas, que fazer? Quando não as uso tanto quanto devia, cresce a ansiedade, os olhos gastos pelas mesmas paisagens, o coração apertado, a cabeça cheia.

Novecentas vezes, muitas felizes e outras não tanto. Cabiando...

Livre sempre, não obstante não usar ainda o suficiente estas asas.

~CC~

sexta-feira, abril 06, 2012

Saudad(inha)



É aquela saudade sem dor.

~CC~

Primavera

O desafio dos dias escuros.




~CC~

quarta-feira, abril 04, 2012

Os mais velhos

O mundo tem abandonado mais e mais aqueles que envelhecem. Esses sem acesso à Internet, sem dedos para as máquinas que cospem bilhetes no metro, nos comboios e até nas portagens, sem olhos para ver nos écrans os horários das partidas e das chegadas, para consultar os mapas e avisos em letra pequenina que inundam as cidades. Só a publicidade usa letra grande. Ninguém se lembra que as capacidades mais correntes vão diminuindo com a idade. Os serviços do Estado são os primeiros a abandoná-los.


Ontem um senhor, na casa dos 65, queria obter uma declaração da caixa geral de aposentações na loja do cidadão de Faro. Mas só há duas lojas que têm delegações da CGA: Lisboa e Porto. A funcionária dizia que era simples obter a declaração via Internet, coisa que obviamente o senhor não tinha. Solução: ir a Lisboa, isto para obter uma simples declaração. Igual para a minha mãe, cuja pensão não chega há três meses. Tirando a Internet, existe a solução dos anos 1980 - ir a Lisboa. Parece simples, excepto quando a pensão é diminuta e se tem 83 anos. Para que lhes prolongámos a vida se a vida que lhes damos nada mais é do que um simulacro?

Não acabaria aqui esta história, tenho muito mais. No outro dia organizei com os meus estudantes um lanche com idosos. Disse-me o responsável pelo grupo que não poderia deixá-los chegar à mesa e tirar o que queriam. Teria que organizar mais ou menos uma merenda para cada um, como se faz com os miúdos muito pequenos. E disse-me em voz baixa e quase envergonhada que tiveram que aprender a fazer assim no Centro de Dia. Os problemas eram vários, entre eles, os idosos que levavam a mala/saco para colocar lá dentro a comida que tiravam da mesa e lhes servia depois de jantar. A contenda em torno do que cada um comia a mais do que o outro. A dureza da vida miserável a incentivar os sentimentos mais mesquinhos.

~

As pessoas vivem, contudo, em média, mais vinte anos do que antes viviam. Mas que vinte anos são esses?

~CC~

quinta-feira, março 29, 2012

Abraço

Gosto deste sentimento de que o amor, mesmo o de mãe, pode amadurecer dentro de nós. Abrir as mãos e deixar voar. Ainda assim pensamos tanto na capacidade das asas, na sua consistência, na sua qualidade. Não há no amor nada de mais belo do que a confiança.

Boa noite. Abraço-te.

~CC~

sábado, março 24, 2012

conversas inquietantes (VIII)

(ontem, final do dia, fim de aula, duas alunas de 18/19 anos)

- Enviaram-me uma sms, diz que um homem se atirou para a linha do comboio...
- Que chatice, agora como é que vamos para casa? (acrescente-se expressão zangada, com sobrolho franzido e tudo)

Eu - S, então?!...vou repetir o que disse a sua colega...estamos a falar de um homem que se atirou para a linha do comboio
Ela - Oh professora, se ele se matou foi porque quis, o que é que eu tenho a ver com isso...

~CC~

quinta-feira, março 22, 2012

O silêncio do corpo

O cansaço misturado com polén desta Primavera seca deixou-me sem voz e à beira da exaustão. E junto com ela veio esta secura de palavras, travadas, engolidas, presas. É pior que tristeza, é impossibilidade do corpo que arrasta a alma para a dormência. Só penso em sobreviver semana a semana a esta alergia-gripe, qualquer coisa terrível de que não sei o nome. Como teimo contra ela, continuo a trabalhar intensivamente.


À espera que o primeiro banho de mar me lave ou a chuva venha banhar a Primavera.


~CC~

domingo, março 11, 2012

As primeiras nêsperas

A sul um vento norte sopra ligeiro não deixando o calor subir além do que Março pode permitir. Vais até à árvore buscar as primeiras nêsperas, não obstante as minhas dúvidas sobre a possibilidade de as comer. Acho-as belas sem dúvida, amarelo sol entre folhas verdes, folhas grandes e escuras. Acho-as normalmente demasiado ácidas. Estas, contudo, descascadas e descaraçodas, deixadas com carinho num prato, eram doces como as manhãs lentas de Domingo, doces como são os Domingos quando não se precipitam depois do almoço nessa descida vertiginosa até à Segunda Feira. São felizes os Domingos antes da ansiedade do trabalho que se acumula e acumula nos puxar para o fundo.




~CC~

quinta-feira, março 08, 2012

Conversas inquietantes (VII)

Aluna - A professora R faltou de manhã...e temos aulas com ela à tarde...tem o telefone dela?
Professora - E então? Nao querem esperar? Percebo, mas dai a telefonar...
Aluna - Professora, a questão é o almoço...era menos um almoço aqui na escola...
Professora - Tentem pedir o telefone ali na portaria...

~CC~

segunda-feira, março 05, 2012

Manhãs

Manhã de dar um passeio a um jardim desconhecido, levar os nossos olhos e pintá-los de verde. Os brincos rosa de flores que apanhaste para mim, ainda os sinto nas orelhas. São também feitos de pele nua todos os dias bons, todas as verdadeiras manhãs do mundo. E é o único modo de sobreviver à passagem atónita dos dias.


~CC~