Gosto deste sentimento de que o amor, mesmo o de mãe, pode amadurecer dentro de nós. Abrir as mãos e deixar voar. Ainda assim pensamos tanto na capacidade das asas, na sua consistência, na sua qualidade. Não há no amor nada de mais belo do que a confiança.
Boa noite. Abraço-te.
~CC~
quinta-feira, março 29, 2012
sábado, março 24, 2012
conversas inquietantes (VIII)
(ontem, final do dia, fim de aula, duas alunas de 18/19 anos)
- Enviaram-me uma sms, diz que um homem se atirou para a linha do comboio...
- Que chatice, agora como é que vamos para casa? (acrescente-se expressão zangada, com sobrolho franzido e tudo)
Eu - S, então?!...vou repetir o que disse a sua colega...estamos a falar de um homem que se atirou para a linha do comboio
Ela - Oh professora, se ele se matou foi porque quis, o que é que eu tenho a ver com isso...
~CC~
- Enviaram-me uma sms, diz que um homem se atirou para a linha do comboio...
- Que chatice, agora como é que vamos para casa? (acrescente-se expressão zangada, com sobrolho franzido e tudo)
Eu - S, então?!...vou repetir o que disse a sua colega...estamos a falar de um homem que se atirou para a linha do comboio
Ela - Oh professora, se ele se matou foi porque quis, o que é que eu tenho a ver com isso...
~CC~
quinta-feira, março 22, 2012
O silêncio do corpo
O cansaço misturado com polén desta Primavera seca deixou-me sem voz e à beira da exaustão. E junto com ela veio esta secura de palavras, travadas, engolidas, presas. É pior que tristeza, é impossibilidade do corpo que arrasta a alma para a dormência. Só penso em sobreviver semana a semana a esta alergia-gripe, qualquer coisa terrível de que não sei o nome. Como teimo contra ela, continuo a trabalhar intensivamente.
À espera que o primeiro banho de mar me lave ou a chuva venha banhar a Primavera.
~CC~
sábado, março 17, 2012
Estarei na plateia...
Na praia na noite de sábado? Sim, aqui - http://cineteatro.cm-loule.pt/evento/3962/%E2%80%9Cparis-%E2%80%93-praia-do-hawai%E2%80%9D.aspx~CC~
domingo, março 11, 2012
As primeiras nêsperas
A sul um vento norte sopra ligeiro não deixando o calor subir além do que Março pode permitir. Vais até à árvore buscar as primeiras nêsperas, não obstante as minhas dúvidas sobre a possibilidade de as comer. Acho-as belas sem dúvida, amarelo sol entre folhas verdes, folhas grandes e escuras. Acho-as normalmente demasiado ácidas. Estas, contudo, descascadas e descaraçodas, deixadas com carinho num prato, eram doces como as manhãs lentas de Domingo, doces como são os Domingos quando não se precipitam depois do almoço nessa descida vertiginosa até à Segunda Feira. São felizes os Domingos antes da ansiedade do trabalho que se acumula e acumula nos puxar para o fundo.
~CC~
quinta-feira, março 08, 2012
Conversas inquietantes (VII)
Aluna - A professora R faltou de manhã...e temos aulas com ela à tarde...tem o telefone dela?
Professora - E então? Nao querem esperar? Percebo, mas dai a telefonar...
Aluna - Professora, a questão é o almoço...era menos um almoço aqui na escola...
Professora - Tentem pedir o telefone ali na portaria...
~CC~
Professora - E então? Nao querem esperar? Percebo, mas dai a telefonar...
Aluna - Professora, a questão é o almoço...era menos um almoço aqui na escola...
Professora - Tentem pedir o telefone ali na portaria...
~CC~
segunda-feira, março 05, 2012
Manhãs
Manhã de dar um passeio a um jardim desconhecido, levar os nossos olhos e pintá-los de verde. Os brincos rosa de flores que apanhaste para mim, ainda os sinto nas orelhas. São também feitos de pele nua todos os dias bons, todas as verdadeiras manhãs do mundo. E é o único modo de sobreviver à passagem atónita dos dias.
~CC~
segunda-feira, fevereiro 27, 2012
Conversas inquietantes (VI)
Eu (prof) - Eu nunca vi uma escrita como a sua no ensino superior, estou muito preocupada consigo, é que não se percebe mesmo o que escreve.
Ele (aluno) - Eu sei professora...em tempos viram que eu tinha dislexia...
Eu (prof) - Então e onde está esse diagóstico?
Ele (aluno) - Não tenho, nunca me deram...
Eu (prof) - E nunca procurou ajuda? Tem que fazer alguma coisa...já foi aqui ao gabinete de Psicologia?
Ele (prof) - Sim, eles não fazem o teste. Levam 5 euros por cada consulta para outras coisas, eu não posso...
Eu (prof) - E uma colega que escreva bem? Alguém que pudesse estar consigo um bocadinho, fazer uns exercícios...
Ele (aluno) - Ninguém tem tempo professora...acha que alguém se vai importar?!
~CC~
Ele (aluno) - Eu sei professora...em tempos viram que eu tinha dislexia...
Eu (prof) - Então e onde está esse diagóstico?
Ele (aluno) - Não tenho, nunca me deram...
Eu (prof) - E nunca procurou ajuda? Tem que fazer alguma coisa...já foi aqui ao gabinete de Psicologia?
Ele (prof) - Sim, eles não fazem o teste. Levam 5 euros por cada consulta para outras coisas, eu não posso...
Eu (prof) - E uma colega que escreva bem? Alguém que pudesse estar consigo um bocadinho, fazer uns exercícios...
Ele (aluno) - Ninguém tem tempo professora...acha que alguém se vai importar?!
~CC~
quinta-feira, fevereiro 23, 2012
terça-feira, fevereiro 21, 2012
Cinema em estado puro
A invenção de Hugo é a crença na magia humana e o cinema nasce nesse momento. Seria muito pobre o mundo sem essa tela onde nos vemos melhor.
Todas as coisas sem explicação têm afinal uma explicação, uma história. Sou assim, acredito nisso. A maior parte das vezes passamos pelas coisas sem ver, muitas vezes sem nada sentir. Isso também me acontece.
Por um segundo não vi o filme, quando percebi que era em 3D corri para a bilheteira, presa da imagem do último em que enjoei. Quando lá cheguei vi que já tinhas comprado os bilhetes, ainda te vi a pagá-los. Ainda bem que não cheguei a tempo.
Senti o frio e a neve. A esperança em alguma coisa, mesmo que não saiba exactamente o quê, talvez só mesmo essa palavra doce nos olhos daqueles dois miúdos, no velho que renasce, na mulher que se torna outra vez bela, no homem que ama o cinema.
Senti a companhia, esse calor de vos ter ali.
~CC~
Todas as coisas sem explicação têm afinal uma explicação, uma história. Sou assim, acredito nisso. A maior parte das vezes passamos pelas coisas sem ver, muitas vezes sem nada sentir. Isso também me acontece.
Por um segundo não vi o filme, quando percebi que era em 3D corri para a bilheteira, presa da imagem do último em que enjoei. Quando lá cheguei vi que já tinhas comprado os bilhetes, ainda te vi a pagá-los. Ainda bem que não cheguei a tempo.
Senti o frio e a neve. A esperança em alguma coisa, mesmo que não saiba exactamente o quê, talvez só mesmo essa palavra doce nos olhos daqueles dois miúdos, no velho que renasce, na mulher que se torna outra vez bela, no homem que ama o cinema.
Senti a companhia, esse calor de vos ter ali.
~CC~
sexta-feira, fevereiro 17, 2012
De fugida
Corro atrás do tempo sem o conseguir agarrar, sempre a fugir-me, a rir-se de mim. E agora que é Carnaval colocou uma máscara trocista, um sorrisinho miudinho, uma voz em surdina que diz: pensava ela que ia agarrar-me e sentar-se ao meu colo a olhar a paisagem...corre corre cabacinha.
~CC~
sexta-feira, fevereiro 10, 2012
Conversas inquietantes (V)
Casal (entre os trinta e os quarenta) com duas filhas pequenas, ao fim da tarde, no café.
- Pai, quero ali aquela bolachinha.
- Pede à tua mãe, ela é que sabe dessas coisas (sacundindo-a devagarinho).
A mãe, que já estava sentada na mesa, levanta-se para vir atender a criança, enquanto o pai se senta, indiferente.
~CC~
- Pai, quero ali aquela bolachinha.
- Pede à tua mãe, ela é que sabe dessas coisas (sacundindo-a devagarinho).
A mãe, que já estava sentada na mesa, levanta-se para vir atender a criança, enquanto o pai se senta, indiferente.
~CC~
quarta-feira, fevereiro 08, 2012
Palavrar
Palavrar, foi assim que ele chamou ao que fomos fazer hoje.
Nunca lhe daria esse nome, é certo. Para mim seria espraiar - um mar de letras onde eu poderia estender-me feliz.
Falar dos livros da minha vida para jovens - contar das histórias que correm dentro do meu sangue, circulam como o seu sal. Como é bom falarmos do que amamos, não há nada melhor. Estes momentos valem mil comunicações académicas, bem sei que tenho, terei sempre dificuldade em explicar isto. Adicionalmente outras coisas lindas: ser no Alentejo, coração quente e silencioso; ser o convite de uma ex.aluna.
Certeza é antes o que sinto dentro de mim - poderia fazer disto o meu ofício. Porém, já não vou a tempo. Resta-me respirar bem nestes bocadinhos.
~CC~
quarta-feira, fevereiro 01, 2012
Olhos secos
Os olhos que se foram secando. Ela foi-se queixando, dia para dia a ver menos. Os olhos, o bem maior. Lá ia retorquindo: então e os ouvidos para poderes dizer e ouvir, o gosto para poderes saborear, as pernas que te levam de casa...procurava ajudar a relativizar a sua dor.
Até que a vi assinar os papéis diante de mim na loja do cidadão, eu marcava com o dedo o lugar para ela ver "onde", mas ela começou a assinar por cima do meu dedo, simplesmente não o viu. Depois a assinatura grande, enorme, a sair da folha, como vi tantas vezes fazer às pessoas quando aprendem a ler tardiamente, mas não era o caso. Pela primeira vez apeteceu-me molhar de lágrimas os meus olhos por causa dos olhos secos dela.
~CC~
segunda-feira, janeiro 30, 2012
Da saudade (II)
Daquele tempo longo a estudar em cafés com um caderninho ao lado dos livros para rabiscar palavras poéticas soltas, acreditando que elas eram um caminho importante entre mim e os outros, ou chegariam mesmo a um potencial público.
~CC~
~CC~
quinta-feira, janeiro 26, 2012
terça-feira, janeiro 24, 2012
Estrela (III)
Madalena deitada na água num Domingo de Agosto, fechou os olhos por um momento, sorvendo a vertigem do azul para dentro de si. Quando os abriu, o barco estava muito perto e ela mal conseguia ver quem o levava. Mas ouviu a voz dele: sou eu, o pescador de sereias.
Madalena nadou o mais rapidamente que conseguia para fugir daquela voz de homem, uma voz forte e ao mesmo tempo doce. Madalena nadava muito bem, era mesmo o que ela sabia fazer melhor, superava mesmo o jeito para arranjar as flores nas jarras da Igreja.
Nos dias seguintes ouviu um sem número de vezes essa voz rasgar o seu silêncio. Pensou ir ao médico e dizer-lhe que estava a ouvir vozes, mas pensou manter por mais tempo intíma a sua loucura.
E foi nadar no Domingo seguinte.
~CC~
quinta-feira, janeiro 19, 2012
quarta-feira, janeiro 18, 2012
Conversas inquietantes (III)
Na escola x
Mãe cigana: O meu filho tem 16 anos e queria que ele viesse para cá para o 5º ano.
Funcionária: Não há vagas.
Mãe cigana: Ele também pode ir para o 4º ano...
Funcionária: Vou ali perguntar à Direcção...
Funcionária (um minuto depois): Não, também não há vagas, não as temos em ano nenhum.
Mãe cigana: não há aqui, não há na outra escola, não há...não querem! E por causa disso perdemos o rendimento social de inserção...sabia minha senhora, sabia que nos tiram?
Funcionária: Pois, não posso fazer nada, aqui não há vagas.
~CC~
Mãe cigana: O meu filho tem 16 anos e queria que ele viesse para cá para o 5º ano.
Funcionária: Não há vagas.
Mãe cigana: Ele também pode ir para o 4º ano...
Funcionária: Vou ali perguntar à Direcção...
Funcionária (um minuto depois): Não, também não há vagas, não as temos em ano nenhum.
Mãe cigana: não há aqui, não há na outra escola, não há...não querem! E por causa disso perdemos o rendimento social de inserção...sabia minha senhora, sabia que nos tiram?
Funcionária: Pois, não posso fazer nada, aqui não há vagas.
~CC~
segunda-feira, janeiro 16, 2012
Estrela (II)
Os Domingos de Agosto são os mais difíceis para Madalena. A aldeia agrupa-se aos molhinhos em torno de uma açorda, de um pernil de porco, de uma galinha de cabidela. Madalena enjoa todas as carnes. Mortos os pais, sem irmãos, sobram-lhe tantos primos de segunda que a convidam à vez, numa espécie de combinação atroz. Só uma sopa de cardos, por favor, diz Madalena de cada vez que aceita um convite.
Às vezes ela é corajosa e não aceita, vai logo pela manhã nadar nua no mar. Pela fresca não há turistas, não há meninos, não há pescadores. Ninguém é afinal tão livre e tão feliz como ela quando sai da água com a pele salgada. Madalena, faltando à missa de Domingo, aos almoços em família, Madalena fugindo aasim pelas manhãs é uma menina de vinte anos, nem uma ruga em torno dos poços azuis que são os seus olhos.
Nesses dias em que ela anda fugida do mundo é que a comentam como nunca nos almoços fartos, depois de bebido muito vinho. As crianças dizem que é uma fada, as mulheres que é uma bruxa, os homens que é uma virgem enlouquecida. Quantas palavras a ouviram dizer pela vida toda? E disputam entre eles: eu só a ouvi dizer bom dia, eu só a ouvi dizer obrigada, eu só a ouvi dizer com licença...E os meninos, eles que sabem tudo, dizem: vocês não sabem que ela é a mulher de Jesus?
~CC~
domingo, janeiro 15, 2012
Estrela (I)
Madalena sabia que tinha sido a mulher proscrita de Jesus, a que a história encerrara na categoria de prostituta. Outras versões líricas diziam outras coisas dela. Ela registara simplesmente que era uma mulher que não podia ser amada.
Madalena, tinha dito o padre em tom doce, desde que ela era menina, o teu nome é pertença da igreja, como tu. E Madalena, nascida na aldeia da Estrela, tinha aceite ser a mulher sozinha da aldeia. Era ela que cuidava dos velhos e os vestia bonitos para o enterro. Era ela que ensinava catequese às crianças. Era ela que enfeitava a igreja com flores e a abria para a mostrar aos visitantes. Não era Madalena, contudo, uma beata devota como as outras. No fundo dos seus olhos azuis havia um lago vazio onde ela nadava até se cansar nas tardes de Domingo. Madalena, onde vais, diziam as crianças? Onde vais Madalena se é tarde de Domingo, de estar em casa, de dormir a sesta, de ligar a TV e nada fazer? Vou andar, andar...e Madalena apanhava a estrada de terra do campo porque as ruas da Aldeia já não lhe cansavam o corpo e o ar fedia de velho e cansado. Vou andar entre as silvas, vou descalçar-me nas ervas, vou esconder-me na sombra.
Madalena, o teu nome consta de todas as bíblias de todos os tempos. Ela sabia que era prisioneira do seu nome, prisoneira do seu corpo virgem, do seu destino falhado.
Ela tirava lá longe no meio do mar o fato de banho e nadava nua, não ela não era inteiramente prisioneira, tinha umas asas que abria nas tardes de Domingo, quando todos dormiam e não davam por ela.
E foi assim que aconteceu. Aldeia da Estrela, quando o século se dobrou para nascer outro, Madalena também nasceu outra vez.
(continua)
~CC~
quarta-feira, janeiro 11, 2012
Frases singulares (I)
" Fecham uma escola lá no interior...e sabe o que abre a seguir? Um posto da GNR".
(Senhor de cerca de 65/70 anos numa conferência sobre Educação, soube depois que é artesão e que procurou toda a vida salvar umas das principais oficinas de azulejo cá da terra)
~CC~
segunda-feira, janeiro 09, 2012
Conversas inquietantes (II)
Área de serviço de Aljustrel
Na bomba
- Onde está a caixa multibanco?
- Já não temos.
- E ali na cafetaria/restaurante?
- Também havia, mas já não sei se há.
Na cafetaria/restaurante
- Aqui também já não há caixa multibanco?
- Já não!
- Mas agora não existe nem aqui, nem na bomba?
- Assaltaram as duas!
- E então, a solução é deixar de as ter?
- Sim, minha senhora, ter uma caixa multibanco tornou-se um perigo.
- Mas até a minha escola tem uma...
- Minha senhora, tirem-na de lá quanto antes!
~CC~
Na bomba
- Onde está a caixa multibanco?
- Já não temos.
- E ali na cafetaria/restaurante?
- Também havia, mas já não sei se há.
Na cafetaria/restaurante
- Aqui também já não há caixa multibanco?
- Já não!
- Mas agora não existe nem aqui, nem na bomba?
- Assaltaram as duas!
- E então, a solução é deixar de as ter?
- Sim, minha senhora, ter uma caixa multibanco tornou-se um perigo.
- Mas até a minha escola tem uma...
- Minha senhora, tirem-na de lá quanto antes!
~CC~
domingo, janeiro 08, 2012
A estrada
Há dias em que detesto estes caminhos de ida e volta. É uma estrada tão grande entre ti e mim. Mas hoje vi a lua nascer grande e redonda, ao mesmo tempo que o céu se tingia em laranjas múltiplos. De repente tudo estava certo e era belo. E não havia distância nem estrada entre ti e mim. A lua redonda e grande era um beijo teu a acompanhar-me.
~CC~
terça-feira, janeiro 03, 2012
Escutas inquietantes (I)
No café
Rapariga de leste (bonita) - É demais para mim, ele conhece-me há um mês e já diz que me ama.
Rapariga portuguesa (bonita) - Aproveita agora... com o passar do tempo deixa de te dizer essas coisas e não voltas a ouvi-las.
~CC~
quarta-feira, dezembro 28, 2011
A lista
Adoro listas para combinar com as passas, mas preciso de as fazer com tempo, não ali à boca de cena. Hoje, no blogue escrever é triste (um blogue sempre a merecer visita) lá estava uma bela lista, a aguçar-me o apetite.
É verdade que muitas das coisas que desejamos são quase impossíveis, roçam o abstracto filosófico contido num outro programa de mundo, ou para falar bem e depressa - o fim do capitalismo, deste capitalismo estúpido que conhecemos já demasiado bem. Não façam, contudo, mais perguntas. Não inventámos ainda a fórmula capaz de susbtituir o que está gasto. Há por aí contudo milhares de particulas milagrosas, a propor e a fazer coisas diferentes, resta-nos pensar que haverá um momento de fusão.
Podemos ainda diminuir a abertura da janela - ficar pelo país - outro governo, outros políticos, outro povo? Ora bolas, outro povo é que não. E mais uma vez tropeçamos, não é fácil fabricar sonhos, tudo o que queremos nos parece contaminado, dificil, problemático. Ainda nós e ainda assim outros seria a fórmula a dar ao desejo da lista, ainda assim complicado, nenhum génio da lâmpada poderia realizar tal vontade.
Deixemos assim o mundo, o país, regressemos a nós. Mas até nesta matéria os desejos simples que antes formulavámos com a maior legitimidade tais como um emprego melhor, até esses se nos afiguram pesados, como desejar um emprego mellhor se tantos não têm nem sequer um?
Quando perdemos a inocência, até desejar é difícil.
Fico-me assim por um desejo dois em um: ainda desejar, oh...ainda desejar fazer tantas coisas.
(Preparação do Pós Doc na América Latina, escrita daquele livro das histórias, estadia nas termas de Budapeste, meia maratona da ponte Vasco da Gama, retoques estéticos não invasivos, apoios para o projecto com P, n mais um passeios com J, n mais uma coisas para certas pessoas que amo tanto ou mais do que a mim própria).
~CC~
sexta-feira, dezembro 23, 2011
Dois
terça-feira, dezembro 20, 2011
Um(a)
Palmela, Dezembro de 2012
Às vezes é difícil saber. Saber sim, saber a direcção. Mais fácil é saber dizer não, saber o que recusamos.
~CC~
domingo, dezembro 18, 2011
quarta-feira, dezembro 14, 2011
Reverso
As obras na estação duraram quase ano e meio, durante alguns meses nem de noite paravam, presos de uma urgência a todos imperceptível.
Sofremos com o barulho, pó, com a seguradora que nos bateu à porta para examinar se as paredes já tinham rachas antes das obras, para não irmos reclamar depois. Nunca lhes abri a porta, e olho agora para as pequenas fissuras que percorrem os azulezos da cozinha e o hall de entrada.
Suportámos a pensar no Intercidades que nos ligaria a todo o lado mais rápido e aqui mesmo à porta. Tu virias de Sul, eu iria, ambos podíamos ir para Norte, e foi assim que há bem pouco viajei até Viana.
Há uns dias soube que a CP cortará esta cidade da rota do Intercidades, justificando-o com a poupança de meia hora para Sul, seguindo assim a linha que o ALFA já percorre, igualzinha. Olho para a estação remodelada, ampliada, imponente. É assim um país sem planeamento, que risca as cidades médias do mapa, retirando-lhes estações, escolas, hospitais. Sempre foi uma céptica face aos arautos da regionalização, vendo bem como adornaram tudo de rotundas e pavilhões gigantescos...mas isto é demais!
Resumam o país a Porto e Lisboa, cidades ainda assim periféricas, onde se virá para contratar emigrantes para a Europa rica.
~CC~
terça-feira, dezembro 13, 2011
Verso
Pouco a pouco foi desaparecendo a venda de pinheiros a céu aberto nas ruas e nas praças. Frequentemente mal cortados e podendo provocar danos às árvores, ou mesmo arrancadas ainda jovens, esta actividade só nos envergonhava. É verdade que não há nada como o cheiro a pinheiro natural numa casa, e que é ele que ainda invoco nesta altura do ano, mas há que mudar as nossas práticas, e ser inventivos nas trocas.
Na minha infância eram as próprias árvores do Quintal que se invadiam de luzes, numa Àfrica em que a cor e a luz eram sinónimo de alegria e em que isso nada tinha de piroso. Hoje hesito quando olho para esses quintais enfeitados, ambígua nos meus gostos.
Eu tenho uma árvore muito pequenina, criada num quintal do sul, é sem dúvida um pinheiro infantil que por ora quase envergonha, mas tem o encanto de o termos vistos nascer e ainda poder vir a crescer e nos acompanhar a cada Natal. E já gosto dele.
~CC~
domingo, dezembro 11, 2011
Sublinhados nos dias (V)
Ainda ligo a televisão para ver as notícias num dos quatro canais portugueses, mas sou incapaz de me sentar a ver. É um desgosto tão grande.
~CC~
~CC~
terça-feira, dezembro 06, 2011
Ganhei um pássaro azul
Cresceram-me as asas nestes anos
cada abraço
cada lágrima
cada dúvida
é uma soma feita de um vento agridoce
outra eu
a mesma eu
Ou fui eu que cresci
e agora já sei olhar as minhas asas?
Ou foi um pássaro que tinha preso cá dentro
que resolveu soltar-se
e pousar no dia 5 de Dezembro
resolvido a dizer-me segredos
amiga, diz ele baixinho
sê feliz
despacha isso
vai por aí
tem um ar malandro
mas grave
como uma formiga com voz de cigarra
um guarda rios atencioso
cada abraço
cada lágrima
cada dúvida
é uma soma feita de um vento agridoce
outra eu
a mesma eu
Ou fui eu que cresci
e agora já sei olhar as minhas asas?
Ou foi um pássaro que tinha preso cá dentro
que resolveu soltar-se
e pousar no dia 5 de Dezembro
resolvido a dizer-me segredos
amiga, diz ele baixinho
sê feliz
despacha isso
vai por aí
tem um ar malandro
mas grave
como uma formiga com voz de cigarra
um guarda rios atencioso
o mais belo pássaro azul
que às vezes faço voar dentro de mim.
~CC~
domingo, dezembro 04, 2011
Contagem decrescente (III)
Oficialmente são menos de 24 horas, ou seja, por esta hora deve estar a acabar. Mas ando a medir mal o tempo, tanto me parece que está a passar rápido, como excessivamente lento.
É também assim com o calor e o frio, que parecem alternar amiúde.
E os velhos fantasmas que resolvem aparecer nestas horas?
Sobra a gargalhada para o melhor conselho que ouvi: é fazer como os pinguins, sorrir e acenar, sorrir e acenar...
~CC~
É também assim com o calor e o frio, que parecem alternar amiúde.
E os velhos fantasmas que resolvem aparecer nestas horas?
Sobra a gargalhada para o melhor conselho que ouvi: é fazer como os pinguins, sorrir e acenar, sorrir e acenar...
~CC~
sábado, dezembro 03, 2011
Contagem decrescente (II)
Imaginação nunca me faltou. Imaginem teses de doutoramento transformadas em temas de carros alegóricos num desfile de tipo carnavalesco e estarão no meio do meu sonho. Até tinha graça.
~CC~
quarta-feira, novembro 30, 2011
Contagem descrescente (I)
Sonhos regressivos face à ansiedade. Ontem respondia a um júri, mas era sobre a matéria de Matemática do Secundário. Hoje novamente o júri, o arguente era um moço louro estranhamente semelhante ao meu primeiro namorado, mas bastante mais prolixo. Freud explicaria, eu prefiro rir-me.
~CC~
terça-feira, novembro 29, 2011
domingo, novembro 27, 2011
Sublinhados nos dias (IV)
Discordo do título. O método não é perigoso. É verdade que o médico se apaixona pela doente e vice versa, como já aconteceu com outros médicos, professores e alunos, advogados e clientes...a proximidade gerada numa relação profissional é geradora de inúmeros casos de amor, uns de êxito e outros fracassados, quase sempre atravessados por muitos dilemas.
O método é fascinante, pela primeira vez alguém prescinde de químicos e usa a palavra, a livre associação, a metáfora. Mais, pela primeira vez o médico não cura o doente, é o doente que se cura a si próprio, tudo depende da capacidade e disponibilidade para a viagem. Jung vai mais longe que Freud nessa busca pela autodeterminação de quem se vê doente, e é simultaneamente o que mais erra, o que mais se fragiliza, o que mais duvida...mas, como diz, só alguém ferido pode compreender realmente outro ser ferido. Continuo a admirar a psicanálise, provavelmente o único método que não é perigoso.
Este sublinhado saiu longo, a condizer com os tratamentos analíticos, um dos seus mais proclamados defeitos.
~CC~
Nota: aliás o nome da peça de teatro que o filme se baseia é " The Talking cure"...do dramaturgo e argumentista inglês, nascido nos Açores, Christopher Hampton. É claro, quem nasceu homem das ilhas de bruma...
sábado, novembro 26, 2011
Este díficil colectivo (II)
- Professora, isso de cada um levar a sua loiça...usamos de plástico!
- Então mas não eram vocês que queriam fazer uma conferência sobre 2102 como ano internacional da energia e do planeta sustentável?
- Sim, mas é mais prático...eu não venho com um prato, um copo e um talher de casa?
- Então, pesa muito?
- Não dá jeito...
~CC~
- Então mas não eram vocês que queriam fazer uma conferência sobre 2102 como ano internacional da energia e do planeta sustentável?
- Sim, mas é mais prático...eu não venho com um prato, um copo e um talher de casa?
- Então, pesa muito?
- Não dá jeito...
~CC~
quinta-feira, novembro 24, 2011
Sublinhados nos dias (III)
Geral, geral...é mesmo a desilusão, esse maldito mal, este Outono anda mais negro do que nunca. É preciso dar outros nomes às coisas.
~CC~
~CC~
terça-feira, novembro 22, 2011
Este difícil colectivo (I)
- Professora, a turma tomou uma posição e não quer fazer o almoço colectivo tipo piquenique.
- Explique...
- Uns depois trazem coisas e outros não trazem...a folha para indicarmos o que trazíamos está vazia.
- Mas quem participa traz alguma coisa para partilhar...
- Estamos sem dinheiro...
- Então não vão comer?
- Sim, mas cada um traz a sua sandes ou vamos ao ...(abstenho-me de publicitar a coisa)
- Então e se você em vez de uma sandes trouxer um pão? Uma fruta...
- Um pão...e como só o pão?
- Só o pão? Não, outros trazem qualquer coisa para pôr no pão..
- Nã...eles não trazem.
~CC~
- Explique...
- Uns depois trazem coisas e outros não trazem...a folha para indicarmos o que trazíamos está vazia.
- Mas quem participa traz alguma coisa para partilhar...
- Estamos sem dinheiro...
- Então não vão comer?
- Sim, mas cada um traz a sua sandes ou vamos ao ...(abstenho-me de publicitar a coisa)
- Então e se você em vez de uma sandes trouxer um pão? Uma fruta...
- Um pão...e como só o pão?
- Só o pão? Não, outros trazem qualquer coisa para pôr no pão..
- Nã...eles não trazem.
~CC~
domingo, novembro 20, 2011
sublinhados nos dias (II)
Senti debaixo dos pés as folhas secas dos plátanos, com a ambivalência de quem se sente parte da matéria morta de um país, e ao mesmo tempo a asa de um voo de um país outro.
~CC~
~CC~
sexta-feira, novembro 18, 2011
Singularidades masculinas (II)
O homem dos quatro cães pretos faz parte da paisagem da minha cidade. Nasceu já com sessenta anos, com aquele bigode, e com os quatro cães. Ele consegue percorrer com eles distâncias improváveis para qualquer pessoa, e por isso o encontro nos mais diversos sítios. Ele sozinho, outras vezes com a mulher magrinha pendurada no braço, outras com algum amigo que percorre com ele um pedaço do caminho. Esses amigos vão mudando, como se o apanhassem num ponto do percurso e o seguissem para depois virarem mais adiante.
Os quatro cães do homem são de uma raça perigosa e por isso ele leva-os numa trela de quatro, como se fossem ramos de uma mesma árvore. Os cães perigosos são imensamente pachorrentos, lentos, doces. Os quatro cães perigosos sentam-se muito quietos à porta dos cafés onde o homem toma um bagacinho, intimidam a entrada a quem não os conhece, por isso o homem tem amiúde problemas. Já vi quase a lutar com um dos meus vizinhos, batendo-se pelos cães como se fossem a sua dama, já o vi esconder-se (ele e os seus quatro) num segundo mal chamam a polícia, já o vi mudar estratégicamente o caminho para descruzar de outros cães.
Este homem não pode ter tido outra idade, nem feito mais nada na vida.
~CC~
quarta-feira, novembro 16, 2011
Sublinhados nos dias (I)
A inteligência brilha infitamente mais que o dinheiro. O seu sabor desfaz-se muito mais lentamente na boca e o seu calor é coisa que perdura.
~CC~
sábado, novembro 12, 2011
Singularidades masculinas (I)
Ele escolheu primeiro o ângulo do café onde podia vê-la dentro da loja. E ali esteve, o café a arrefecer na mesa, o corpo gelado, o olhar fixo. Mas ainda a via muito ao longe. Ele levantou-se e ficou em frente à montra da loja dela, disfarçando por breves momentos a sua fixação na rapariga com a análise das malas da estação. Mas ela não se mexia por trás do balcão, ignorando a sua presença. Ele colocou-se então bem no meio da porta da entrada, forçando quem queria entrar a contorná-lo. Era grande o rapaz, parecia um urso acossado, um bicho perdido. Não havia palavras, esta coreografia era vivida em silêncio.
Até que a rapariga se mexeu por trás do balcão e veio quase até à porta, fez o gesto de o enxotar, um pedido angustiado para que se fosse dali. As colegas evidenciaram um riso nervoso. O rapaz não se mexeu, parado à entrada da loja, o olhar fixo na rapariga.
De repente já não era romance o que se desenhava mas sim tragédia. Tive algum receio pela rapariga. Mais ainda por aquele rapaz cujos olhos tinham tanto vazio, quase loucura. Pensei nos seguranças, que talvez devesse chamá-los, alguma coisa não batia certo entre aquele rapaz e aquela rapariga.
Baixei os olhos por momentos para a minha leitura. Quando os levantei não o vi a ele, nem a ela dentro da loja. Ponderei a hipótese de estar com alucinações. Ou de me ter cruzado com mais uma história de que não saberia o fim.
Certo é o receio dos rapazes que amam em excesso, com aquele vazio dentro dos olhos, quase sempre desembocando numa faca, num tiro de pistola, na morte de uma mulher.
~CC~
sexta-feira, novembro 11, 2011
Singularidades masculinas
Ele dança, mesmo sem nunca ter dançado. Basta colocar o seu coração no sítio certo, e conseguirá ser uma das cinquenta pessoas, pessoas especiais.Mais aqui: http://www.teatromunicipaldefaro.pt/teatro/programacao/evento.asp?id=1016
~CC~
quinta-feira, novembro 10, 2011
Aparência
O gmail insiste para que mude para a nova aparência e comente como é que me estou a sentir.
Resisto, estou habituada a ver-me assim ao espelho, não obstante as olheiras mais e mais extensas e um certo brilho no olhar que só aparece agora em dias mais luminosos e dentro de certos abraços.
~CC~
Resisto, estou habituada a ver-me assim ao espelho, não obstante as olheiras mais e mais extensas e um certo brilho no olhar que só aparece agora em dias mais luminosos e dentro de certos abraços.
~CC~
terça-feira, novembro 08, 2011
Neruda na minha aula
Às vezes perco-me um bocadinho nas aulas, justamente naquelas em que tenho segurança sobre os conteúdos a abordar. Viajo até lugares, até pessoas, histórias, projectos. Queria estender-lhes o mundo diante deles para perceberem que é muito grande, muito diverso, muito e infinitamente rico. Aparecem inadvertidamente umas poeiras nos olhos porque uma pessoa não chora nas aulas e por isso são só estrelas. Hoje uma aluna disse com admiração: como é que sabe tantas coisas...e eu olhei-a e era uma miúda.
E respondi-lhe que não era assim, que tinha apenas mais trinta anos que ela. Mas devia também ter dito: trinta anos de muito movimento, trinta anos de busca, de partidas e chegadas, de querer ver, de querer saber. Trinta anos a vencer dia a dia a timidez até me esquecer dela. E só me veio à cabeça a frase do Neruda na sua biografia: confesso que vivi.
Mas mal esta frase me ocorreu, apareceram ainda as coisas que estão por viver.
Desenhou-se diante de mim o oceano e esse continente além Atlântico em que nunca pisei. Fechei os olhos: Chile, Argentina, Equador, Brasil. Não se trata de turismo, mas de estar e conhecer as pessoas.
Confesso que ainda tenho que viver.
~CC~
domingo, novembro 06, 2011
Bom dia
Já ninguém diz bom dia quando entra no café, num transporte público, numa sala de aula. Já quase ninguém o diz em algum lado.
Sobram as aldeias e algumas vilas onde os velhotes nos cumprimentam amavelmente com os seus gestos lentos e gentis.
E agora que a C me convida para nos encontrarmos mais cedo com os Domingos caminhando, recebemos dúzias de bons dias dos ciclistas com os quais nos cruzamos. E é bom.
~CC~
Sobram as aldeias e algumas vilas onde os velhotes nos cumprimentam amavelmente com os seus gestos lentos e gentis.
E agora que a C me convida para nos encontrarmos mais cedo com os Domingos caminhando, recebemos dúzias de bons dias dos ciclistas com os quais nos cruzamos. E é bom.
~CC~
sábado, novembro 05, 2011
O essencial (II)
Viajei com R há cerca de três anos para um seminário em Itália, ambas tínhamos participado num projecto comum de uma ONG portuguesa, em sintonia com outras ONG no mundo, no término desse trabalho tinham decidido partilhá-lo e traçar novos rumos. Guardei de R apenas o nome, a imagem de uma mulher empenhada, como tantas outras com quem nos cruzamos nessas rotas. Mais tarde, no início deste Verão, a mesma ONG convidou-me para ir a uma reunião deles. Vou porque gosto da forma como eles trabalham, se juntam e conversam. Geralmente não almoçam em restaurantes nem alugam salas em hoteis, é tudo muito caseirinho, com comida feita por ali e uma sede que se transforma num ápice num espaço de encontro. Andam com as cadeiras às costas entre a sala de reunião e a improvisada sala de refeições. E todos participam, todos falam, o que é espantoso para quem conhece o mundo académico como eu, e sabe qual é nível de participação que os seminários aí organizados costumam ter.
R escreveu-me há cerca de dois meses, propondo-me que fosse à escola dela apresentar um documento no qual eu tinha participado como elemento de uma equipa. Falei-lhe em dois caminhos, um o das inevitáveis burocracias, e outro informal, em que tudo se poderia desenhar mais velozmente. Escolheu o segundo. E foi assim que esta Quarta Feira fui a caminho do Alentejo. Esperava-me para um almoço acolhedor numa tasquinha no meio do campo, a preços módicos e com comida caseirinha. Ela e o marido (eu e o meu rapaz) , deixando assim que estas fronteiras que costumamos colocar entre a vida profissinal e a privada se possam esbater sem que fiquemos por isso menos profissionais.
E não necessitámos de qualquer tipo de transacção monetária, eles convidaram, eu fui porque quis, afinal o voluntariado que nos sai da alma não dói.
Tudo simples, verdadeiro, escorreito. É isso o essencial.
~CC~
terça-feira, novembro 01, 2011
O essencial
A crise ensina-nos algumas coisas. Não tudo como eles querem. Não para nos convencer que somos culpados de nos terem convencido que deveríamos entrar na categoria de proprietários das casas em que vivemos. Já os meus pais que praticamente toda a vida foram arrendentários, desejavam não o ser. Incentivaram-nos o mais possível ao consumo, agora criticam-nos. A verdade é que por causa da crise começamos a pensar melhor no dinheiro que temos e no modo como o gastamos, é talvez a única coisa positiva.
Um sábado no cinema em zona nobre Lisboeta. Eu comprei bilhete combinado, um almoço tardio com filme incluído, dois em um permitiu-me poupar nas duas coisas. Depois os avós e os netos. Um casal de avós ainda novos e quatro rapazinhos entre os 4 e os 11 anos. Sentaram-se ao meu lado, os avós com um chá para cada um e os meninos cada um com a sua sandes trazida de casa. A avó trazia ainda uns bolinhos secos. Só os sumos foram comprados ali, mas devidamente repartidos. Não houve pipocas. Quatro bilhetes de cinema, ou seja, seis, custam dinheiro. Mas mais ainda custam os pacotes de pipocas, os maiores são mais caros que os bilhetes. E o que importa é o cinema, não as pipocas.
A conversa saborosa: digam lá, valeu a pena virmos ao cinema? Os meninos em coro com voz fininha: siiiiimmm. Então e já conheciam este herói da BD: o pai tem os livros...E o avô conta histórias sobre a sua infância mergulhada nos livros do Timtim.
O cinema, ainda assim a preços exagerados, e que vão subir mediante a aplicação da nova taxa do IVA aos espectáculos. Encontrarei mais estes avós com os quatro netos?
~CC~
sábado, outubro 29, 2011
As marcas da areia preta (V)
Lembro-vos. Sou uma mulher na metade dos trinta, casada, dois filhos. Sou analista clínica há cerca de 17 anos. A empresa de análises onde sempre trabalhei resolveu abrir uma clínica no Faial, e eu fui destacada como a mais antiga funcionária para ajudar os mais novos por um período de três meses.
Amanhã faz um ano que estou aqui e fui apenas uma vez a Lisboa ver os meus filhos e o meu marido. A culpa é da areia preta da praia de Porto Pim e do mar tépido e quente. A culpa é deste céu sempre a mover-se durante o dia, não há desenhos de cinzento, branco e azul como este. A culpa é de M, um rapaz que me levou ao vulcão. A culpa é de M e da sua estranha forma de vida. Um rapaz livre que acompanha turistas de acordo com as vontades que lhes adivinha no olhar, esse quase menino que só tem presente e não tem futuro. A culpa é da família de M que não lhe desenha um trilho como os meus pais me desenharam, sem nunca me deixar escapar dele. A culpa é do meu presente que se tornou irrespirável. A culpa está nos almoços invariáveis de Domingo em casa da Sogra e das compras de rotina ao sábado de manhã. O meu corpo meio morto deitado ao lado do corpo meio morto do meu marido. Ainda assim sinto falta do corpo quente das minhas duas meninas, dos seus abraços longos na chegada a casa.
Mas a verdade é que nunca fui tão feliz como agora.
~CC~
(fim)
quarta-feira, outubro 26, 2011
Notas soltas numa tarde de chuva
Gosto de ver as pessoas nas conferências, não apenas os conferencistas. Mas desta vez a tempestade fez-me pensar duas vezes na travessia da ponte. Havia transmissão on-line. E mesmo sem ver os rostos, nem ouvir o burburinho, mesmo sem sentir a agitação da plateia, não dei o tempo por perdido. Sentei-me em frente ao computador a ouvir Júlio Machado Vaz (ele na Fundação Calouste Gulbenkian e eu na minha sala com a chuva a bater nas janelas) e com um bloquinho de notas ao lado. Não sei se sou suficientemente fiel às frases que cá ficaram, mas são com certeza muito aproximadas, algumas delas citações dele de outros autores.
" A consciência da morte e a imaginação são os aspectos que nos distinguem ds animais"
"O duplo padrão de socialização (rapazes/raparigas) ainda se mantém relativamente às questões sexuais"
" A internet apenas potencia o lado negro que nos habita" (muito mais sobre o tema como a redefinição que introduz nos conceitos de amizade e privacidade)
" Vivemos numa sociedade saturada de sexo e paupérrima em termos eróticos"
E linda a definição de amor que trouxe do Virgilio Ferreira:
" o amor é uma longa paciência"
Ao que eu li uma casa em permanente construção ou uma vida em perpétua arrumação...e combinando com a tarde: um vento forte que nos desalinha os cabelos.
~CC~
segunda-feira, outubro 24, 2011
Reduções
Primeiro desejamos flores, frescas, saídas do campo ou dos jardins, apanhadas à mão ainda com o orvalho a gotejar. Amanhã pode ser só um ramo comprado numa florista, ou apenas uma rosa. Depois de amanhã já não esperamos flores, sabemos que morrerão em poucos dias, é dinheiro que não valerá a pena. Risquemos as flores do mapa dos desejos. Aceitamos riscá-las.
Primeiro desejamos noites com lua cheia, ficar a vê-la um bocadinho entre dois beijos. Depois vamos esquecendo que ela existe, ligamos a televisão e depois dela a Internet, ou mesmo as duas. Primeiro vemos qualquer coisa juntos, depois e inevitavelmente separados. Lua, mas qual lua, isso é um astro morto, asfixiado entre rotinas. Lá se vão os tolos beijos junto de uma lua ainda mais tola. Aceitamos riscar a lua do mapa dos desejos.
Primeiro desejamos viajar, ver o mundo a quatro olhos, cruzar as ruas e os campos até desmaiar de cansaço num abraço. Mas depois as coisas ficam mais e mais longe, e as pernas já não querem ir, a gasolina é cara, e as noites em colchões desconhecidos matam o sono manso. O café da esquina serve, tem afinal um café igual a todos os outros. A nossa cama também serve, nela se pode fazer a mesma coisa do que em qualquer quarto de pousada ou hotel.
Nem damos conta, ou não queremos dar. E se vemos ao espelho uns olhos mais tristes dizemos que a paixão é coisa que passa e o amor sim, é esta certeza do outro estar ao nosso lado. Ao nosso lado, mesmo que não connosco. Ao nosso lado e chega. Reduzimos, amansamos, e aceitamos que o mapa dos desejos é um papelinho de uma só frase: não quero ficar só.
~CC~
sábado, outubro 22, 2011
O rosto da cidade (I)
As cidades respiram com um rosto próprio.
Quando não sabemos das máquinas fotográficas, só podemos usar as palavras, pintá-las com letras ao nosso modo.
Viana tem olhos claros. É uma cidade do Norte que está a sul. É a luz dourada que se espalha nas praças e junto ao rio, não se fecha sobre si própria para se proteger dos ventos frios. É uma cidade de diálogos diversificados que quis, sem conseguir completamente, fugir do falso progresso. Lá está o prédio Coutinho: 5 andares a mais do que a lei permitia, e as fundações sem o suportarem. Um caco de 10 andares numa avenida em que as árvores se abraçam com os troncos para produzir um tunel de sombra.
A visita guiada à cidade, da qual pouco precisaria, mas se integrava no programa do encontro, foi feita a pé. Curiosamente orientada por um alemão inexpressivo, que nos mostrou sem um pingo de emoção, a mais bela biblioteca que existe em Portugal. Até agora a biblioteca de Alcochete estava no topo, mas a de Viana destronou-a, não apenas por ser Siza Vieira, mas por o ser no seu melhor. O edifício está deitado no rio que entra por todas as janelas e se mistura entre a madeira clara e os livros. Ficar aqui.
Sentei-me ali sossegada e deixei-os seguir. O guia alemão não conta as pessoas, aliás nem sei se as vê. Perdoem-me o estereótipo mas este cumpria-o na perfeição.
Dez minutos e a vida a passar-me à frente: e se eu ficasse aqui, e se eu me deixasse mesmo ficar para trás.
E assim começaria uma história.
~CC~
quarta-feira, outubro 19, 2011
Até Viana
Vou atravessar o país até bem longe do meu Sul. Quero ver como estão os rostos das pessoas além Tejo e além Douro. Que bom que o trabalho me conduz para fora das minhas próprias angústias, das minhas paredes.
Vamos ver se além das sombras deste tempo lhes passa também nos olhos a luz do Outono.
O resto vai comigo, a inevitável tristeza de ver o Verão findar.
~CC~
Vamos ver se além das sombras deste tempo lhes passa também nos olhos a luz do Outono.
O resto vai comigo, a inevitável tristeza de ver o Verão findar.
~CC~
segunda-feira, outubro 17, 2011
canção de embalar para meninos tristes
Pudesse eu usar um trapézio
para me fazer voar
e comigo o dia inteiro
este vazio
é o bicho da seda
enrolado nessa teia de morrer no casulo
ou tecer futuros
romper dias sombrios
que bela borboleta.
~CC~
para me fazer voar
e comigo o dia inteiro
este vazio
é o bicho da seda
enrolado nessa teia de morrer no casulo
ou tecer futuros
romper dias sombrios
que bela borboleta.
~CC~
domingo, outubro 16, 2011
Outra forma de ser gente
A princípio emocionei-me a sério; a cor, as pessoas, os sorrisos. Desde Timor que não ia a uma manifestação. Depois senti resistência a algumas palavras de ordem um pouco tontas (quem não salta é do governo), depois ri abertamente com os mais jovens (até os meus pais vieram à manif) e depois orgulho pela praça cheia.
Isto é importante, isto não chega. A rua é um bom palco, mas é do trabalho construtivo e criativo que tem que nascer outra forma de se ser gente.
~CC~
quarta-feira, outubro 12, 2011
Serra mãe
Faço fintas às rotinas.
Deixo a miúda na escola e sigo em frente, apanho a estrada directa à Arrábida e paro para tomar um café na praia da Figueirinha.
Não me canso de amar esta serra e estas enseadas azuis, com um estuário tão manso.
Volto pela estrada do campo, o carro mal passa entre as veredas verdes, é quase toda à sombra das árvores. Venço o medo de andar por ali sozinha.
Demorei apenas uma hora, mas o que esta pausa não fez por mim. Volto para trabalhar com o sangue mais puro e um gosto tão grande nesta minha liberdade.
Serra mãe, diria o poeta. Dia 28 tenho um encontro com ele, e deverá estar presente a mais bela viúva que conheço, a única que se diz eternamente casada.
~CC~
Deixo a miúda na escola e sigo em frente, apanho a estrada directa à Arrábida e paro para tomar um café na praia da Figueirinha.
Não me canso de amar esta serra e estas enseadas azuis, com um estuário tão manso.
Volto pela estrada do campo, o carro mal passa entre as veredas verdes, é quase toda à sombra das árvores. Venço o medo de andar por ali sozinha.
Demorei apenas uma hora, mas o que esta pausa não fez por mim. Volto para trabalhar com o sangue mais puro e um gosto tão grande nesta minha liberdade.
Serra mãe, diria o poeta. Dia 28 tenho um encontro com ele, e deverá estar presente a mais bela viúva que conheço, a única que se diz eternamente casada.
~CC~
domingo, outubro 09, 2011
A forma e o conteúdo
Gosto muito de cinema.
E de música ao vivo.
(sobre isto falarei mais tarde, ou seja, de como festejei o dia da música na casa do povo de St. Estevão)
E de música ao vivo.
(sobre isto falarei mais tarde, ou seja, de como festejei o dia da música na casa do povo de St. Estevão)
Gosto destas coisas em sítios pequenos, de preferência fora de centros comerciais, filmes sem pipocas, concertos em que vemos o rosto de quem canta. A forma acaba por ser quase tão importante quanto o conteúdo.
Gostei também por isso bem menos do "Meia noite em Paris" do que do "Assim é o amor", o primeiro visto no cinema Londres em Lisboa(ainda assim, dos únicos livres de pipocas), o segundo no cinema pequenino da minha cidade, o meu cine-paraíso - o cinema Charlot. E o conteúdo de cada um deles combina com o lugar em que o vi. O filme do Woody Allen é um objecto mundano, previsível, que nos arranca gargalhadas combinadas com as dos espectadores do lado. Não repete a Rosa púrpura do Cairo, porque esse era genial e este é apenas interessante. O filme de Mike Mills parece um vídeo caseiro, alguém que resolve gravar as imagens da sua própria vida, da família, dos amigos, do amor, assume connosco a cumplicidade de um diálogo a sós, não rimos todos ao mesmo tempo nem nas mesmas cenas. Estou próxima das personagens de Assim é o Amor, e absolutamente distante daqueles tolos americanos em Paris, cada um mais tonto do que o outro, até a Carla Bruni que não é americana faz uma figurinha sem densidade alguma.
Ainda bem que não ando para aí a atribuir estrelas aos filmes, teria que juntar outros sinais, cuja natureza subjectiva, é um dado assumido. Ainda assim, experimentem o cinema Charlot (só é pena que depois das obras o pequenino café não tenha aberto mais, substituído por uma máquina sem alma).
~CC~
quarta-feira, outubro 05, 2011
5 de Outubro
Em vez de um beijo escarlate, chegou um texto para revisão de provas.
Feriado adiado.
Mas...coração republicano.
~CC~
Feriado adiado.
Mas...coração republicano.
~CC~
terça-feira, outubro 04, 2011
Vida
Vê-se no espelho da Zara demoradamente, dentro dos provadores, já depois de experimentar uma blusa de tons avermelhados. Já a tirou mas ainda é preciso perceber se a roupa que hoje traz lhe fica bem, ajeita o cabelo, endireita os óculos, estica os folhos da blusa. Contempla-se como se tivesse 18 anos e fosse ainda a bela moça que já foi. Para ela essa moça ainda está ali.
Que vontade de viver aos 83 anos.
~CC~
sábado, outubro 01, 2011
As marcas da areia preta (IV)
Falei-vos de mim e do meu destino certo.
Falo-vos agora de M, que mal fez 16 anos. Conheci-o na praia de Porto Pim. Não estudava, tinha deixado a escola. Trabalhava às vezes, em coisas incertas. Pequenas coisas incertas. Levava-nos ao vulcão dos capelinhos, guiava-nos pelas ruas da cidade, sabia de caminhos pelo meio das hortênsias e das vacas, atravessava connosco os canais para o Pico e para a Terceira, e sobretudo tinha tempo. Ele vendia o seu tempo, a sua enorme candura, a paixão pelas suas ilhas, um amor tão estranho num jovem da sua idade.
Quando nos conhecia melhor, levava-nos a casa da família. E a mãe fritava filetes de Veja embrulhados em farinha de milho, que acompanhávamos com o vinho do Pico, e terminavámos com um bolo de ananás. Dizia: o meu filho às vezes traz visitas, turistas. No fim da refeição não aceitava dinheiro como pagamento, dizia simplesmente que essas actividades eram com o filho, ele é que tratava dos negócios. Conheci assim uma actividade turística que escapava a todas as catalogações possíveis. É certo que lhe paguei algumas vezes, como se faz a qualquer guia turístico no mundo árabe ou em certos lugares de África. Nunca foi capaz de estabelecer um preço, e dizia que só aceitava o que as pessoas quisessem dar. Nunca fui capaz de calcular se isso aumentava ou não os seus lucros, nem de perceber se ganhava o suficiente para viver. A princípio sentia-me mal, como se fosse uma mulher apanhada a contratar um serviço de acompanhantes masculinos, ainda por cima um adolescente. Depois fui-me esquecendo de tudo, como se despisse a pele dos meus próprios preconceitos.
~CC~
quarta-feira, setembro 28, 2011
Pesadelo
Estou velha.
Amanhã estarão na minha sala e tenho que desfocar o olhar para não os ver cobertos de farinha, iogurte e outras matérias pegajosas com que andaram sujos e felizes.
Preocupo-me ainda, o que deve querer dizer que não estou velha o suficiente para olhar para o mundo com a indiferença que ele parece merecer. Não, tudo ainda me faz sofrer.
~CC~
Uso palavras tais como ritual de dominação e poder para falar das praxes.
Dominação?
Poder?
Eles não sabem o que é, quanto mais conjugar tais palavras medonhas com o divertimento das praxes.
As raparigas tratam-se pior umas às outras do que os rapazes as tratam, o uso da palavra gaja tornou-se corrente, quando era adolescente chorei quando ia a passar e um homem das obras me chamou assim, achei uma ofensa.
Amanhã estarão na minha sala e tenho que desfocar o olhar para não os ver cobertos de farinha, iogurte e outras matérias pegajosas com que andaram sujos e felizes.
Preocupo-me ainda, o que deve querer dizer que não estou velha o suficiente para olhar para o mundo com a indiferença que ele parece merecer. Não, tudo ainda me faz sofrer.
~CC~
quarta-feira, setembro 21, 2011
Fusos horários
Estas estranhezas do ser.
Amanhã vou nascer em Luanda, estão avisados, já que não tenho FB para anunciar ao mundo que nascem meninas louras e muito branquinhas do outro lado do mundo.
Hoje tocou o telefone, era um convite para ir para lá, de vez (ou quase). Conversas em torno da dupla nacionalidade, deixar tudo.
Não é desta, o coração não bate com aquela certeza. E o dinheiro não é coisa que me chame.
Tempos curtos talvez, será que já é possível tomar banho na praia em Benguela?
Uma cuca na esplanada, mas não tão só como da última vez.
~CC~
Amanhã vou nascer em Luanda, estão avisados, já que não tenho FB para anunciar ao mundo que nascem meninas louras e muito branquinhas do outro lado do mundo.
Hoje tocou o telefone, era um convite para ir para lá, de vez (ou quase). Conversas em torno da dupla nacionalidade, deixar tudo.
Não é desta, o coração não bate com aquela certeza. E o dinheiro não é coisa que me chame.
Tempos curtos talvez, será que já é possível tomar banho na praia em Benguela?
Uma cuca na esplanada, mas não tão só como da última vez.
~CC~
segunda-feira, setembro 19, 2011
Pequenas notas
A vertigem de Setembro.
A persistência da crise, menos gente a entrar na escola a cada ano.
Entre o desejo de mar que nunca me larga e os lugares da vindima que me chegam agora no rosto da tua gente.
Os cadernos a acumularem notas, esquemas, ideias para novos rumos, mesmo em tempos já velhos.
Muitos rabiscos de reuniões nos cadernos de capa roxa que comprei para este ano.
E as histórias à espera, tanto tempo penduradas, brancas como os brancos que espreitam mais e mais a cada Outono.
~CC~
A persistência da crise, menos gente a entrar na escola a cada ano.
Entre o desejo de mar que nunca me larga e os lugares da vindima que me chegam agora no rosto da tua gente.
Os cadernos a acumularem notas, esquemas, ideias para novos rumos, mesmo em tempos já velhos.
Muitos rabiscos de reuniões nos cadernos de capa roxa que comprei para este ano.
E as histórias à espera, tanto tempo penduradas, brancas como os brancos que espreitam mais e mais a cada Outono.
~CC~
terça-feira, setembro 13, 2011
As marcas da areia preta (III)
Quanto tempo temos que esperar para nos surpreendermos a nós próprios? Quando a vida se desalinha, o que fazemos?
Tudo estava arrumado e quieto na minha vida, um destino tão meticulosamente traçado desde a adolescência. Até que enterrei as mãos na areia e levantei os olhos muito devagar, e quando eles se cruzaram com o sol na linha do horizonte, o teu rosto estava ali. Ou talvez eu soubesse há muito o quanto dentro de mim tudo estava desarrumado. Não foste tu, fui mesmo eu. Tu foste apenas a borboleta que passou com as suas maravilhosas asas de mil cores.
~CC~
sexta-feira, setembro 09, 2011
As marcas da areia preta (II)
Alguns seres humanos são atraídos pela semelhança que sentem em relação a outros, uma sintonia que os faz virar o olhar na mesma direcção. Outros seres humanos são fatalmente atraídos pelo que é diferente deles, fascinados pelo olhar lançado em direcções opostas. Haverá cambiantes, matizes, mas são modos antagónicos de sentir o mundo.
Penso nisto na Praia de Porto Pim? Sim. É uma praia pequenina, encaixada entre um bocado de cidade e um morro alto, uma praia com duas entradas e uma enseada sem barcos. E a areia é preta, cola-se aos nossos pés e parece que os deixa sujos. A princípio não fui capaz de me deitar nela.
Mas eu sou atraída pela diferença, e esta praia não fazia parte do meu léxico de mar e sol. Prolonguei assim o curso de formação para uma licença sem vencimento e depois para um emprego temporário. Vim por 15 dias, estou aqui há um ano.
(continua)
~CC~
quarta-feira, setembro 07, 2011
As marcas da areia preta (I)
É verdade que houve alguém que me abanou o meu mundo, mas foi um rapaz. Não, não passem rapidamente para a fantasia "Morte em Veneza". Não falei em paixão, nem em amor, apenas do enamoramento que ronda as almas perdidas, os destinos estranhamente cruzados. Procuramos a substância capaz de nos salvar sem sabermos exactamente qual é, o sal ou ou açucar que estranhamente nos faltam, ou o potassio, o magnésio, aquela coisa em falta no nosso sangue que o faz adormecer como se para ele não houvesse esperança.
Eu explico-vos mais um pouco: sou técnica de análises clínicas, daí este vício de retratar a composição interna dos nossos fluídos humanos.
(continua)
~CC~
terça-feira, setembro 06, 2011
Segredo
Meu amor, tenho uma coisa importante a dizer-te.
Creio que te lembrarás da roseira anémica do vaso da minha varanda, aquela que sobreviveu com dificuldade a este Inverno e não teve grandes melhoras na Primavera. Reparei hoje que tem um botão, um botão pequenino que faz adivinhar uma rosa vermelha que virá com a lua cheia.
É assim o mundo que nos une.
~CC~
Creio que te lembrarás da roseira anémica do vaso da minha varanda, aquela que sobreviveu com dificuldade a este Inverno e não teve grandes melhoras na Primavera. Reparei hoje que tem um botão, um botão pequenino que faz adivinhar uma rosa vermelha que virá com a lua cheia.
É assim o mundo que nos une.
~CC~
segunda-feira, setembro 05, 2011
Mais Setembro
Não me pesa verdadeiramente a tua ausência, mas lembro-te frequentemente. Este é também o mês em que farias anos, e no dia do teu aniversário pensei em todos os aniversários que não estive contigo. Esforcei-me sem êxito por recordar a última vez em que te vi nesse dia, mas nada, nenhuma memória. Nos últimos anos nem eu te ligava, nem tu me ligavas a mim. E no entanto recordo esta mágoa sem sentir dor, é como se os últimos seis meses da tua vida tivessem trazido anos de ausência, e fixo-me neles, e na paz que o sofrimento te trouxe. A tua mão abandonada na minha, já tão fraca, e esse último sorriso.
~CC~
sábado, setembro 03, 2011
É Setembro
Como pude eu nascer num mês em que o Verão se despede?
Nasci no hemisfério sul, logo estou perdoada, está tudo explicado. Em Setembro, por lá não há despedida do mar. Um banho de mar é um milagre.
Mas aqui e agora é a nostalgia da retoma dos dias, e esta sombra que teimam em impor-nos.
Nas ruas não há protestos, mas dentro de nós há uma agonia teimosa a inflitrar-se entre o aumento do IVA, o desconto dito solidário no 13º mês e o fim das deduções na área da Saúde e da Educação no IRS. Ainda fico a pensar no que terá o governo contra os solteiros...a bem da familia, pois. As reportagens da crise, todos os dias, a toda a hora. E essa pergunta teimosa a martelar-nos, o que vamos exactamente fazer, para onde estamos a ir? E ninguém a responder, nada de convicente.
O ano começa bem, reunião de emergência para análise dos cortes na área da Educação que afectarão o orçamento da escola. A minha empregada que se foi embora no final do Verão ao final de apenas um ano de estadia, depois de anos a fazer tudo sozinha. A miúda com aulas de tarde no 10º ano, a adivinhar uma curiosa luta pelas manhãs.
Não, nem pensem que vou despedir-me do Verão. Ou se for, é muito lentamente.
E ainda esta palavra de combinação com Outono : resiliência.
E esta outra: grito. Grito, mesmo baixinho. Depois respira-se melhor.
~CC~
terça-feira, agosto 23, 2011
Entardecer no final do Verão
Há muito vento a sul, apesar do sol. Um vento que varre a areia da praia e a levanta no ar para se colar às nossas costas e invadir as toalhas. Um vento que enrola ondas grandes no mar quente. Os chapéus de sol fecharam-se. Resistimos como podemos, ficarmos é um modo de não deixar o Verão acabar já, não queremos.
Do lado da ria o vento é mais fraco, sente-se apenas na força da corrente. Há muitos meninos e meninas fugidos à fúria das ondas da costa. Andam à procura de caranguejos com copos de plástico, e gritam a plenos pulmões quando conseguem finalmente aprisonar um deles no copo: caranguejooooo!!!! Levam aos adultos o produto do seu labor num grande entusiasmo, e eles espreitam para dentro dos copos para murmurar sérios: soltem-no.
A menina dos carrapitos louros com vestido vermelho às bolinhas brancas também gritou caranguejo na sua vozinha sumida de três anos ainda mal feitos, e segue os rapazes para todo o lado como uma sombra. Nenhum deles lhe mostrou o caranguejo, para eles é ainda uma bébé com a qual não se partilham tesouros. Ela fica a ver, e bate palmas quando eles ensaiam acrobacias.
- Vamos correr abraçados?
- Vamos até à água abraçados e depois mergulhamos...
- Ok
A mãe da menina veio tirar-lhe o vestido vermelho das bolinhas brancas, por baixo escondia-se um fato de banho quase tão branco como ela, a menina já pode molhar-se até ao joelho. Algum dia apanhará caranguejos?
~CC~
PS. Prolongar o Verão, eis onde ocupo a maior parte do meu tempo. Não me roubem um dia, uma hora, um minuto....
segunda-feira, agosto 15, 2011
Azul (2)
Azul, também no templo de bem rezar, sempre ao espírito santo, omnipresente feito pedra e cor em qualquer ilha.
~CC~
domingo, agosto 14, 2011
sábado, agosto 13, 2011
Árvore
quinta-feira, agosto 11, 2011
Ainda a Cidade
Magma
uma história
(para ~A~ e *JJ*)
Ana e João, 14 anos, deitados nos muros altos que ladeiam a baía de Angra. Ana e João, para eles a sua amizade está inscrita nas coisas que o vento jamais pode levar, por mais forte que sopre.
- Vamos jogar a dizer o que mais detestamos nesta cidade
- Ok
- A loja de bordados da minha mãe.
- A areia preta da praia.
- Estas casinhas dos santos a que chamam Impérios e nem sei porquê.
- O Monte Brasil que não é uma montanha verdadeira como o Pico nem é um vulcão a sério como há no Faial, é só um montesinho de nada que nos faz subir metade da cidade
- Este maldito tempo sempre húmido
- Os sismos, o medo dos sismos!
- Dizem que somos namorados...
- Isso já não faz parte do jogo!
- Mas eu gosto da Rita
- E eu gosto do Rui
- Já viste...são RR...
- Pois...
- Se houver um sismo agora...
- Não vai haver!
- Vai sim, a qualquer momento!
- Onde nos encontramos se houver?
- No Império amarelo, o que fica no cimo desta rua, no início da Freguesia da Sé
- Vens mesmo?
- Apareço, espera-me.
E aconteceu, em 1980, meses depois desta conversa entre a Ana e o João. Poucas foram as casas de Angra que ficaram de pé. João conseguiu ir até ao Império, mas Ana nunca mais apareceu. João procurou-a por toda a cidade assim que pode. Da casa de bordados dos pais dela não sobrou nada, hoje é um café. Da casa onde Ana morava só o Dragoeiro podia falar dela. Assim que fez 18 anos João saiu para estudar, primeiro Lisboa, depois França. E ficou muito tempo sem voltar aos Açores, mas cedeu já adulto, a pedido de vários amigos franceses e das duas filhas pequenas.
Não esperava encontrar Ana no roteiro turistico, mas foi isso que aconteceu. Era geóloga, apaixonada pelos vulcanismo tinha feito a sua formação em Geologia e era responsável por um dos lugares mais procurados pelos Turistas na Ilha Terceira. Nunca tinha saído de Angra. João teve dificuldade em acreditar que nunca mais a tinha visto numa cidade tão pequena, mas ela tinha ido viver uns tempos para casa dos avós nas Doze Ribeiras. Uma amizade pode reatar-se intacta depois de tantos anos?
-Vamos jogar ao jogo onde ficámos?
- Achas que agora adultos conseguimos?
- Sim, não estamos aqui deitados na mesma pedra quente do muro?
- Então diz!
- Porto Pipas é dos mais belos lugares do mundo.
- Pois é.
- E amo esta praia pequenina de areia preta onde as cores das toalhas brilham
- Sem dúvida
- E a água entre o frio e o quente, tem a temperatura mais adequada que há.
- É óptima, as minhas miúdas adoraram.
- E aprendes sobre as plantas do mundo inteiro se subires lá acima ao jardim
- E vês as duas costas da Ilha
- Funcho, funcho em tudo, é do melhor
- Já nem me lembrava do sabor...mas é bom. Espera lá...e o teu medo dos sismos?
- Sim, ainda existe, nunca desaparece.
- Olha que a terra parece que está a tremer um bocadinho...
- Oh, estes é dos pequeninos.
~CC~
segunda-feira, julho 25, 2011
No trilho do Atlântico

mapa retirado de http://www.eccn.edu.pt/alunos/nicole_carla/
Lembro-me de um lugar onde o corpo se abandonou e o pensamento se encheu de uma tranquilidade sem igual. Dessas férias, há cerca de vinte anos em S. Miguel, trago ainda o travo do chá e o olhar preso de uma praia de areia preta bela e vazia em pleno Agosto. Dizem-me que todas as ilhas, embora tão próximas, são todas diferentes, e que é preciso descobrir cada uma delas com o coração limpo, pronto para se deixar possuir.
É assim que vou.
Saberei gravar as fotos na pele.
~CC~
(a todos os que por aqui passam umas boas férias)
(estarei absolutamente sem internet)
sexta-feira, julho 22, 2011
Terapêutica
Nem preciso de divã, chega um post de quanto em quando.
http://cc-mesfilhas.blogspot.com/
vou arrumá-lo ali na estante do lado, está a precisar de uma organização urgente (mas vou ainda adiar para mais uns tempos).
~CC~
http://cc-mesfilhas.blogspot.com/
vou arrumá-lo ali na estante do lado, está a precisar de uma organização urgente (mas vou ainda adiar para mais uns tempos).
~CC~
No ligeiro ondular
quarta-feira, julho 20, 2011
Pulsação
O tempo interior é outra geografia de horas, minutos e segundos.
Oiço a minha pulsação para me sentir.
A tempestade do mundo envolve-me e arrasta-me sem me tocar. Já gastámos todas as palavras que rimam com crise. Já se escreveu quase tudo. Não sabemos como abrir as janelas.
É como se estivesse a voltar de uma viagem sem nunca ter partido.
E o vento tem estado tão forte, assobia nas noites que tardam a aquecer.
Penso nos livros a colocar na mala de viagem. Penso no mar.
Oiço de novo a minha pulsação, quero tanto sentir-me.
~CC~
Oiço a minha pulsação para me sentir.
A tempestade do mundo envolve-me e arrasta-me sem me tocar. Já gastámos todas as palavras que rimam com crise. Já se escreveu quase tudo. Não sabemos como abrir as janelas.
É como se estivesse a voltar de uma viagem sem nunca ter partido.
E o vento tem estado tão forte, assobia nas noites que tardam a aquecer.
Penso nos livros a colocar na mala de viagem. Penso no mar.
Oiço de novo a minha pulsação, quero tanto sentir-me.
~CC~
sábado, julho 16, 2011
Cinco anos, meses dias, muitas horas...e ainda falta um bocadinho...
Ontem depositei 12 exemplares na secretaria da Universidade e inscrevi-me para a prova oral.
E tive saudades da minha ardósia, dos dias a emergir na ponta dos dedos.
E muitas saudades do tempo ser tempo, tempo de estar.
Agora vamos ver.
~CC~
sexta-feira, julho 08, 2011
Em breve
Em breve
as palavras correrão lume
e o meu sangue acordará de tão longo sono.
Em breve
o sabor das coisas
que nenhum Verão chegue mais sem me dizer.
~CC~
as palavras correrão lume
e o meu sangue acordará de tão longo sono.
Em breve
o sabor das coisas
que nenhum Verão chegue mais sem me dizer.
~CC~
segunda-feira, julho 04, 2011
ALMAR (XIII)
Quando a bebé nasceu, o meu olfacto foi completamente tomado pelo cheiro do leite. Foi através desse cheiro que encontrei a minha mãe. O cheiro mais primordial de todos, o do animal que nos resta. Não tinha nenhuma pista por onde começar a procurar. Do acampamento não restava nada.
Primeiro tracei o mapa dos rios do país, o que quer que fosse que restava de Almar não podia estar longe do leito de um rio. Com um círculo azul assinalei as povoações mais próximas desse rio. E depois o cheiro a leite, este cheiro. Os Almar nunca tinham sido pastores, por isso o cheiro a leite era um estranho sinal. Mas era fortíssimo, adocicado, maternal.
Os Almar estariam assim próximos de uma terra de leite, de pastagens, de pastores. Às vezes achava que esse cheiro que não me abandonava era realmente uma pista. Outras vezes que era apenas a minha condição de fêmea a falar. O mais forte dos chamamentos era a vontade de levar a minha menina para junto do meu povo, um tratado de dever imprimido na minha pele. De todas as povoações próximas dos rios, marquei aquelas em que se fabricava leite ou queijo.
Quando lá chegava não procurava pelos Almar, mas por uma ou mais mulheres de cabelos quase vermelhos.
Primeiro tracei o mapa dos rios do país, o que quer que fosse que restava de Almar não podia estar longe do leito de um rio. Com um círculo azul assinalei as povoações mais próximas desse rio. E depois o cheiro a leite, este cheiro. Os Almar nunca tinham sido pastores, por isso o cheiro a leite era um estranho sinal. Mas era fortíssimo, adocicado, maternal.
Os Almar estariam assim próximos de uma terra de leite, de pastagens, de pastores. Às vezes achava que esse cheiro que não me abandonava era realmente uma pista. Outras vezes que era apenas a minha condição de fêmea a falar. O mais forte dos chamamentos era a vontade de levar a minha menina para junto do meu povo, um tratado de dever imprimido na minha pele. De todas as povoações próximas dos rios, marquei aquelas em que se fabricava leite ou queijo.
Quando lá chegava não procurava pelos Almar, mas por uma ou mais mulheres de cabelos quase vermelhos.
~CC~
sábado, julho 02, 2011
quarta-feira, junho 29, 2011
Um pingo de água
No abandono da ardósia está inscrito este eu em navegação interior pelo deserto de si.
Mais logo, um dia, aquela flor.
Mais além o abraço da palavra.
Mais além do além um banho de mar.
Esperança.
Mesmo no deserto deste mundo em que as estátuas gregas têm lágrimas só visiveis aos amantes da filosofia, esse berço onde nasceu o pensamento. Como se pinta de negro a imagem de um povo, eles hoje, amanhã outros. Gastadores, corruptos, ingeríveis. Será?
Eles, eu, vocês.
Não crescem flores no sangue, é verdade.
Mas basta um pingo de água.
~CC~
Mais logo, um dia, aquela flor.
Mais além o abraço da palavra.
Mais além do além um banho de mar.
Esperança.
Mesmo no deserto deste mundo em que as estátuas gregas têm lágrimas só visiveis aos amantes da filosofia, esse berço onde nasceu o pensamento. Como se pinta de negro a imagem de um povo, eles hoje, amanhã outros. Gastadores, corruptos, ingeríveis. Será?
Eles, eu, vocês.
Não crescem flores no sangue, é verdade.
Mas basta um pingo de água.
~CC~
quinta-feira, junho 16, 2011
ALMAR (XII)
Somos capazes de esquecer durante muito tempo. O esforço diário de branquear a nossa vida anterior um dia deixa de ser um esforço. Depois queremos lembrar e já não conseguimos, fomos nós que abrimos esse buraco, esse vazio no interior das nossas células. Mudei o meu nome e o meu passado, fiz-me nascer com catorze anos. E do que antes era eu sobrou apenas um brilho avermelhado no cabelo. A transfiguração do eu exige que nos tornemos duplamente o que os outros são. É fácil sobreviver quando queremos muito pouco, apenas ver um dia a nascer atrás de outro dia.
Contornava os lugares onde os rios passavam, não olhava nunca para o mar, não me aproximava de todos os lugares onde se pudessem vender tapetes. E não sei contar-vos nada da minha vida até ao dia em que me encontrei numa cama de hospital, há seis meses atrás. Dizem que dormi cerca de quinze dias, e que não sabia dizer nada de mim, que estava num estado de profunda amnésia. Estava grávida, e tinha 26 anos.
Depois, as primeiras memórias foram as da infância. A velha guardiã das sementes Almar esteve muitas vezes sentada ao meu lado no hospital, silenciosa e sorridente.
Dos doze anos da minha vida fora de Almar não me lembrava de quase nada; apenas de alguns cheiros dos lugares por onde tinha passado.
~CC~
sexta-feira, junho 10, 2011
Vida
A Árvore da Vida, eis o cinema sublime. Afinal ainda não vimos tudo, ainda há coisas por inventar, absolutamente originais.
Seres humanos perdidos neste universo infinito. É verdade que inventamos Deus, como podia ser de outra forma perante tamanha solidão e incerteza? Como podia ser de outra maneira se morrem os que amamos tanto?
Não sendo crente, já o chamei com a mesma voz entre o doce e o desesperado que à vez o chamam os membros desta família.
Repararam que não há nomes próprios no filme?
Apenas
mãe
pai
filho
irmão
carne da nossa carne, parte da nossa parte
maior amor, maior dor.
Deus, eis quem os descrentes como eu chamam nos dias mais escuros, com o peso da traição e a irracionalidade mais pura que habita as nossas células.
Batem fortes as ondas do mar.
Nada sabemos.
Apenas que amamos.
É isso é o melhor de nós.
~CC~
Seres humanos perdidos neste universo infinito. É verdade que inventamos Deus, como podia ser de outra forma perante tamanha solidão e incerteza? Como podia ser de outra maneira se morrem os que amamos tanto?
Não sendo crente, já o chamei com a mesma voz entre o doce e o desesperado que à vez o chamam os membros desta família.
Repararam que não há nomes próprios no filme?
Apenas
mãe
pai
filho
irmão
carne da nossa carne, parte da nossa parte
maior amor, maior dor.
Deus, eis quem os descrentes como eu chamam nos dias mais escuros, com o peso da traição e a irracionalidade mais pura que habita as nossas células.
Batem fortes as ondas do mar.
Nada sabemos.
Apenas que amamos.
É isso é o melhor de nós.
~CC~
segunda-feira, junho 06, 2011
ALMAR XI
O meu pai foi o primeiro a partir. E ele era alto e forte, mas sobretudo via muito longe. Ele e todos os homens Almar tinham sido treinados a olhar os rios, a olhar pelos rios. A mais pequena alteração na corrente, na coloração da água, nas curvas desenhadas na terra, a mais pequena alteração era anotada na íris. Depois era só mostrar os olhos bem abertos a todos os que ameaçavam os rios, era um olhar de meter medo, um olhar capaz de trazer tempestade a todos os que lhes faziam frente.
Os homens corajosos não deviam fugir, nem adoecer, e muito menos morrer. Era isso que eu pensava e, por isso, não podia compreender como é que todas essas coisas nos tinham acontecido, como é que os homens Almar tinham sido dizimados em vida pelo oídio da própria civilização. Não conseguia perceber como é que as mulheres Almar tinham deixado de ser altivas e de ter os cabelos da cor da tinta dos tapetes, e tinham ficado mortiças, tisnadas do trabalho dos campos ou brancas, da cor das casas dos senhores. Não percebia como é que depois dos primeiros tempos de resistência elas foram fazer o impensável, trabalhar na apanha da azeitona, estender a roupa nas casas alheias, pastar as ovelhas pelas manhãs de orvalho. Eu era uma adolescente e tinha começado a odiar o meu povo com o mesmo fervor que o tinha amado na minha infância.
A minha pirâmide era um mar de sombra e tumulto, e o meu coração batia descompassado. É verdade que ainda havia acampamento quando eu parti, mas não era mais um céu azul de lonas a brilhar nas noites de lua cheia, era apenas um monte de farrapos, incapaz de resistir ao vento.
A minha pirâmide era um mar de sombra e tumulto, e o meu coração batia descompassado. É verdade que ainda havia acampamento quando eu parti, mas não era mais um céu azul de lonas a brilhar nas noites de lua cheia, era apenas um monte de farrapos, incapaz de resistir ao vento.
domingo, maio 29, 2011
Da (tua) saudade
Pequena interrupção na história ALMAR apenas para vir falar de saudade.
(voltará, e depois dela, eu voltarei também um dia)
A saudade é matéria fisica, é coisa que ocupa corpo. É uma boca sem o seu beijo É um só rodando na pista do baile. É lá em baixo o largo da cidade vazio, por nós não estarmos lá.
Não quero parar para ver o crepúsculo porque não há com quem falar das cores.
A saudade é tão indefinida como de repente ganha voz e canta como tu me cantas quando acordas nas manhãs soalheiras do Sul e vais buscar a viola. É esse povo pequenino que sou eu, que és tu.
A saudade sou eu, uma boca sem o teu beijo.
~CC~
(voltará, e depois dela, eu voltarei também um dia)
A saudade é matéria fisica, é coisa que ocupa corpo. É uma boca sem o seu beijo É um só rodando na pista do baile. É lá em baixo o largo da cidade vazio, por nós não estarmos lá.
Não quero parar para ver o crepúsculo porque não há com quem falar das cores.
A saudade é tão indefinida como de repente ganha voz e canta como tu me cantas quando acordas nas manhãs soalheiras do Sul e vais buscar a viola. É esse povo pequenino que sou eu, que és tu.
A saudade sou eu, uma boca sem o teu beijo.
~CC~
quarta-feira, maio 25, 2011
ALMAR (X)
Um homem Almar. Depois de eles terem morrido pouco a pouco de uma doença sem nome, procurei sempre encontrar um. Não, não é verdade. Às vezes esqueci-me eu própria da tribo a que pertenci e amei outros homens que em nada se assemelhavam ao que procurava. Ao que procurei sempre mesmo quando deixei de procurar.
Os homens Almar estavam longe da perfeição dos príncipes, mas eram alegremente como as árvores. Davam sombra, alojavam pássaros, viajavam sem sair do mesmo lugar, morriam sem água, tinham braços compridos, bons para o amor. Amar em Almar era procurar o melhor leito do rio para ver com o outro a limpidez da água. Havia também o crepúsculo, o modo de se esperar por ele, a melhor altura do dia para o amor na pele. Eu vi o amor em Almar, mas cresci já na sua perda, por dentro do seu fim. Mas tudo o que se inscreve na nossa memória tece dentro de nós a teia da qual não poderemos sair.
Os homens Almar estavam longe da perfeição dos príncipes, mas eram alegremente como as árvores. Davam sombra, alojavam pássaros, viajavam sem sair do mesmo lugar, morriam sem água, tinham braços compridos, bons para o amor. Amar em Almar era procurar o melhor leito do rio para ver com o outro a limpidez da água. Havia também o crepúsculo, o modo de se esperar por ele, a melhor altura do dia para o amor na pele. Eu vi o amor em Almar, mas cresci já na sua perda, por dentro do seu fim. Mas tudo o que se inscreve na nossa memória tece dentro de nós a teia da qual não poderemos sair.
~CC~
sábado, maio 21, 2011
ALMAR (IX)
Menina Almar que eu fui até as roupas estalarem junto ao meu peito mulher, sonhei sempre. Sonhei com um espantalho de espantar a tristeza dos olhos da minha mãe. Hoje olho o meu rosto no espelho: é igual ao da minha mãe. Sonho na mesma com esse espantalho.
~CC~
sábado, maio 14, 2011
ALMAR VIII
A mulher mais velha que guardava as sementes dos Almar - o tesouro do meu povo - nas palavras que tinha dito em voz baixa anunciava a ruptura que chegaria mais tarde, no final da minha adolescência. Para ela cada um dos meus sonhos colado a cada uma das sementes Almar era apenas o meu sonho, tinha o valor ínfimo de uma entre muitas possíveis coisas.
Soube nesse dia que não era eu a arquitecta do destino Almar porque esse estaria nas mãos de quem soubesse ler e não de quem soubesse construir, não de quem, como eu, desenhava na areia com tanta inquietude. E eu não lia bem. Nesse tempo tinha essa dolorosa consciência de que me era mais importante escutar-me do que escutar os outros, mas não a generosidade suficiente para mudar. Mais, nesse tempo soube que a ruptura entre mim e o meu povo residia nesse modo de olhar o colectivo, na recusa em deixar moldar a forma do meu corpo pela do sangue quente que lhe tinha dado origem. No modo como ela, a mulher velha me reduziu a um ponto no universo dos pontos, começou aí a minha viagem. Mas eu não queria, nunca quis que o meu povo se tornasse fugitivo e mais transparente que o próprio vento.
O que me revoltava era eu ter e dizer quais os meus sonhos para as sementes enquanto muitas outras ficavam caladas quando se lhes perguntava ou diziam: não sei. Algumas das minhas companheiras usavam uma variante mais sábia: ainda não sei. E quando eu gritava: eu tenho sonhos, ideias para as sementes, era frequente que o riso nascesse entre as mulheres mais jovens. Mais realistas que eu, afirmavam que sonhar as sementes era apenas um modo da mulher velha nos por à prova, porque o que era cada semente e o que dela nasceria, isso já se sabia há muito.
Nos meus pesadelos de menina eu tomava as sementes com o resto da água de um rio, com a última água de alguma das nossas fontes, engolia-as todas numa noite escura e depois, mesmo querendo saber o que eram, eu já não podia.
Soube nesse dia que não era eu a arquitecta do destino Almar porque esse estaria nas mãos de quem soubesse ler e não de quem soubesse construir, não de quem, como eu, desenhava na areia com tanta inquietude. E eu não lia bem. Nesse tempo tinha essa dolorosa consciência de que me era mais importante escutar-me do que escutar os outros, mas não a generosidade suficiente para mudar. Mais, nesse tempo soube que a ruptura entre mim e o meu povo residia nesse modo de olhar o colectivo, na recusa em deixar moldar a forma do meu corpo pela do sangue quente que lhe tinha dado origem. No modo como ela, a mulher velha me reduziu a um ponto no universo dos pontos, começou aí a minha viagem. Mas eu não queria, nunca quis que o meu povo se tornasse fugitivo e mais transparente que o próprio vento.
O que me revoltava era eu ter e dizer quais os meus sonhos para as sementes enquanto muitas outras ficavam caladas quando se lhes perguntava ou diziam: não sei. Algumas das minhas companheiras usavam uma variante mais sábia: ainda não sei. E quando eu gritava: eu tenho sonhos, ideias para as sementes, era frequente que o riso nascesse entre as mulheres mais jovens. Mais realistas que eu, afirmavam que sonhar as sementes era apenas um modo da mulher velha nos por à prova, porque o que era cada semente e o que dela nasceria, isso já se sabia há muito.
Nos meus pesadelos de menina eu tomava as sementes com o resto da água de um rio, com a última água de alguma das nossas fontes, engolia-as todas numa noite escura e depois, mesmo querendo saber o que eram, eu já não podia.
~CC~
segunda-feira, maio 09, 2011
ALMAR VII
Eu, como todas as crianças Almar queria guardar um dia as sementes. Perguntei à mulher velha sobre os meus sonhos para as cinco sementes, queria saber se ela os tinha aprovado, se eles eram bons sonhos, se eles eram uma boa pele para o nosso povo. Ela respondeu que sim, que eu tinha chegado perto do que podia ser o tudo de que precisamos para viver, mas que não sabia se seria eu a guardá-las um dia.
Ela explicou então que quem guardava as sementes era quem melhor traduzia sonhos e não quem os tinha mais ou melhores. A mulher Almar que guarda as sementes é uma tradutora de sonhos. Eu não sabia o que queria dizer a palavra tradução, não entendia inteiramente o sentido dela. Traduzir, como as línguas, descobrir sentidos. Queria que me explicasse mais, mas ela recusou.
Esta conversa ocorreu cerca de três anos antes de os homens Almar terem começado a adoecer por terem perdido o seu emprego de Guarda Rios e, ainda que resistência à dissolução da nossa identidade tenha sido grande, é incerto o nosso destino.
Ela explicou então que quem guardava as sementes era quem melhor traduzia sonhos e não quem os tinha mais ou melhores. A mulher Almar que guarda as sementes é uma tradutora de sonhos. Eu não sabia o que queria dizer a palavra tradução, não entendia inteiramente o sentido dela. Traduzir, como as línguas, descobrir sentidos. Queria que me explicasse mais, mas ela recusou.
Esta conversa ocorreu cerca de três anos antes de os homens Almar terem começado a adoecer por terem perdido o seu emprego de Guarda Rios e, ainda que resistência à dissolução da nossa identidade tenha sido grande, é incerto o nosso destino.
~CC~
sábado, maio 07, 2011
quarta-feira, maio 04, 2011
ALMAR VI
Em Almar, a mulher mais velha de todas guarda o tesouro. Era uma caixa de madeira quase preta com a pirâmide gravada, a mesma que todos nós tínhamos tatuada na mão, logo abaixo do polegar. Esta tatuagem era feita no aniversário dos sete anos, um presente desejado como nenhum outro. E era aos sete por causa da palavra que estava dominada na oralidade e agora deixavam-nos partir para a escrita, a viagem da palavra escrita era a primeira para fora dos territórios da água. Por isso aos sete anos, em terra seca e na entrada para a escola onde nos misturaríamos com todas as outras crianças, era necessário que a pirâmide nos brilhasse no escuro das salas de aula, que nos fizesse companhia. Ganhei o hábito de a esfregar nos momentos difíceis, mas não era um gesto só meu, vi-o noutras crianças Almar. Já adolescente, pensei muitas vezes apagá-la, naquela idade em que só queremos ser diferentes de todos os legados que nos correm nas veias.
E quando esfregar a pirâmide não chega, tento ver com a mesma luz que vi pela primeira vez aos sete anos, o tesouro Almar. Eram sementes lisas e rugosas, escuras e coloridas. Vejo-as dispostas diante de mim perante o sorriso da mulher velha. Vejo o meu espanto por pensar que dentro da caixa só podia haver ouro. E da voz baixa dela e meio rouca a murmurar: das sementes tudo pode nascer. Sim, das sementes tudo pode nascer.
E quando esfregar a pirâmide não chega, tento ver com a mesma luz que vi pela primeira vez aos sete anos, o tesouro Almar. Eram sementes lisas e rugosas, escuras e coloridas. Vejo-as dispostas diante de mim perante o sorriso da mulher velha. Vejo o meu espanto por pensar que dentro da caixa só podia haver ouro. E da voz baixa dela e meio rouca a murmurar: das sementes tudo pode nascer. Sim, das sementes tudo pode nascer.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
