Gosto deste sentimento de que o amor, mesmo o de mãe, pode amadurecer dentro de nós. Abrir as mãos e deixar voar. Ainda assim pensamos tanto na capacidade das asas, na sua consistência, na sua qualidade. Não há no amor nada de mais belo do que a confiança.
Boa noite. Abraço-te.
~CC~
quinta-feira, março 29, 2012
sábado, março 24, 2012
conversas inquietantes (VIII)
(ontem, final do dia, fim de aula, duas alunas de 18/19 anos)
- Enviaram-me uma sms, diz que um homem se atirou para a linha do comboio...
- Que chatice, agora como é que vamos para casa? (acrescente-se expressão zangada, com sobrolho franzido e tudo)
Eu - S, então?!...vou repetir o que disse a sua colega...estamos a falar de um homem que se atirou para a linha do comboio
Ela - Oh professora, se ele se matou foi porque quis, o que é que eu tenho a ver com isso...
~CC~
- Enviaram-me uma sms, diz que um homem se atirou para a linha do comboio...
- Que chatice, agora como é que vamos para casa? (acrescente-se expressão zangada, com sobrolho franzido e tudo)
Eu - S, então?!...vou repetir o que disse a sua colega...estamos a falar de um homem que se atirou para a linha do comboio
Ela - Oh professora, se ele se matou foi porque quis, o que é que eu tenho a ver com isso...
~CC~
quinta-feira, março 22, 2012
O silêncio do corpo
O cansaço misturado com polén desta Primavera seca deixou-me sem voz e à beira da exaustão. E junto com ela veio esta secura de palavras, travadas, engolidas, presas. É pior que tristeza, é impossibilidade do corpo que arrasta a alma para a dormência. Só penso em sobreviver semana a semana a esta alergia-gripe, qualquer coisa terrível de que não sei o nome. Como teimo contra ela, continuo a trabalhar intensivamente.
À espera que o primeiro banho de mar me lave ou a chuva venha banhar a Primavera.
~CC~
sábado, março 17, 2012
Estarei na plateia...
Na praia na noite de sábado? Sim, aqui - http://cineteatro.cm-loule.pt/evento/3962/%E2%80%9Cparis-%E2%80%93-praia-do-hawai%E2%80%9D.aspx~CC~
domingo, março 11, 2012
As primeiras nêsperas
A sul um vento norte sopra ligeiro não deixando o calor subir além do que Março pode permitir. Vais até à árvore buscar as primeiras nêsperas, não obstante as minhas dúvidas sobre a possibilidade de as comer. Acho-as belas sem dúvida, amarelo sol entre folhas verdes, folhas grandes e escuras. Acho-as normalmente demasiado ácidas. Estas, contudo, descascadas e descaraçodas, deixadas com carinho num prato, eram doces como as manhãs lentas de Domingo, doces como são os Domingos quando não se precipitam depois do almoço nessa descida vertiginosa até à Segunda Feira. São felizes os Domingos antes da ansiedade do trabalho que se acumula e acumula nos puxar para o fundo.
~CC~
quinta-feira, março 08, 2012
Conversas inquietantes (VII)
Aluna - A professora R faltou de manhã...e temos aulas com ela à tarde...tem o telefone dela?
Professora - E então? Nao querem esperar? Percebo, mas dai a telefonar...
Aluna - Professora, a questão é o almoço...era menos um almoço aqui na escola...
Professora - Tentem pedir o telefone ali na portaria...
~CC~
Professora - E então? Nao querem esperar? Percebo, mas dai a telefonar...
Aluna - Professora, a questão é o almoço...era menos um almoço aqui na escola...
Professora - Tentem pedir o telefone ali na portaria...
~CC~
segunda-feira, março 05, 2012
Manhãs
Manhã de dar um passeio a um jardim desconhecido, levar os nossos olhos e pintá-los de verde. Os brincos rosa de flores que apanhaste para mim, ainda os sinto nas orelhas. São também feitos de pele nua todos os dias bons, todas as verdadeiras manhãs do mundo. E é o único modo de sobreviver à passagem atónita dos dias.
~CC~
segunda-feira, fevereiro 27, 2012
Conversas inquietantes (VI)
Eu (prof) - Eu nunca vi uma escrita como a sua no ensino superior, estou muito preocupada consigo, é que não se percebe mesmo o que escreve.
Ele (aluno) - Eu sei professora...em tempos viram que eu tinha dislexia...
Eu (prof) - Então e onde está esse diagóstico?
Ele (aluno) - Não tenho, nunca me deram...
Eu (prof) - E nunca procurou ajuda? Tem que fazer alguma coisa...já foi aqui ao gabinete de Psicologia?
Ele (prof) - Sim, eles não fazem o teste. Levam 5 euros por cada consulta para outras coisas, eu não posso...
Eu (prof) - E uma colega que escreva bem? Alguém que pudesse estar consigo um bocadinho, fazer uns exercícios...
Ele (aluno) - Ninguém tem tempo professora...acha que alguém se vai importar?!
~CC~
Ele (aluno) - Eu sei professora...em tempos viram que eu tinha dislexia...
Eu (prof) - Então e onde está esse diagóstico?
Ele (aluno) - Não tenho, nunca me deram...
Eu (prof) - E nunca procurou ajuda? Tem que fazer alguma coisa...já foi aqui ao gabinete de Psicologia?
Ele (prof) - Sim, eles não fazem o teste. Levam 5 euros por cada consulta para outras coisas, eu não posso...
Eu (prof) - E uma colega que escreva bem? Alguém que pudesse estar consigo um bocadinho, fazer uns exercícios...
Ele (aluno) - Ninguém tem tempo professora...acha que alguém se vai importar?!
~CC~
quinta-feira, fevereiro 23, 2012
terça-feira, fevereiro 21, 2012
Cinema em estado puro
A invenção de Hugo é a crença na magia humana e o cinema nasce nesse momento. Seria muito pobre o mundo sem essa tela onde nos vemos melhor.
Todas as coisas sem explicação têm afinal uma explicação, uma história. Sou assim, acredito nisso. A maior parte das vezes passamos pelas coisas sem ver, muitas vezes sem nada sentir. Isso também me acontece.
Por um segundo não vi o filme, quando percebi que era em 3D corri para a bilheteira, presa da imagem do último em que enjoei. Quando lá cheguei vi que já tinhas comprado os bilhetes, ainda te vi a pagá-los. Ainda bem que não cheguei a tempo.
Senti o frio e a neve. A esperança em alguma coisa, mesmo que não saiba exactamente o quê, talvez só mesmo essa palavra doce nos olhos daqueles dois miúdos, no velho que renasce, na mulher que se torna outra vez bela, no homem que ama o cinema.
Senti a companhia, esse calor de vos ter ali.
~CC~
Todas as coisas sem explicação têm afinal uma explicação, uma história. Sou assim, acredito nisso. A maior parte das vezes passamos pelas coisas sem ver, muitas vezes sem nada sentir. Isso também me acontece.
Por um segundo não vi o filme, quando percebi que era em 3D corri para a bilheteira, presa da imagem do último em que enjoei. Quando lá cheguei vi que já tinhas comprado os bilhetes, ainda te vi a pagá-los. Ainda bem que não cheguei a tempo.
Senti o frio e a neve. A esperança em alguma coisa, mesmo que não saiba exactamente o quê, talvez só mesmo essa palavra doce nos olhos daqueles dois miúdos, no velho que renasce, na mulher que se torna outra vez bela, no homem que ama o cinema.
Senti a companhia, esse calor de vos ter ali.
~CC~
sexta-feira, fevereiro 17, 2012
De fugida
Corro atrás do tempo sem o conseguir agarrar, sempre a fugir-me, a rir-se de mim. E agora que é Carnaval colocou uma máscara trocista, um sorrisinho miudinho, uma voz em surdina que diz: pensava ela que ia agarrar-me e sentar-se ao meu colo a olhar a paisagem...corre corre cabacinha.
~CC~
sexta-feira, fevereiro 10, 2012
Conversas inquietantes (V)
Casal (entre os trinta e os quarenta) com duas filhas pequenas, ao fim da tarde, no café.
- Pai, quero ali aquela bolachinha.
- Pede à tua mãe, ela é que sabe dessas coisas (sacundindo-a devagarinho).
A mãe, que já estava sentada na mesa, levanta-se para vir atender a criança, enquanto o pai se senta, indiferente.
~CC~
- Pai, quero ali aquela bolachinha.
- Pede à tua mãe, ela é que sabe dessas coisas (sacundindo-a devagarinho).
A mãe, que já estava sentada na mesa, levanta-se para vir atender a criança, enquanto o pai se senta, indiferente.
~CC~
quarta-feira, fevereiro 08, 2012
Palavrar
Palavrar, foi assim que ele chamou ao que fomos fazer hoje.
Nunca lhe daria esse nome, é certo. Para mim seria espraiar - um mar de letras onde eu poderia estender-me feliz.
Falar dos livros da minha vida para jovens - contar das histórias que correm dentro do meu sangue, circulam como o seu sal. Como é bom falarmos do que amamos, não há nada melhor. Estes momentos valem mil comunicações académicas, bem sei que tenho, terei sempre dificuldade em explicar isto. Adicionalmente outras coisas lindas: ser no Alentejo, coração quente e silencioso; ser o convite de uma ex.aluna.
Certeza é antes o que sinto dentro de mim - poderia fazer disto o meu ofício. Porém, já não vou a tempo. Resta-me respirar bem nestes bocadinhos.
~CC~
quarta-feira, fevereiro 01, 2012
Olhos secos
Os olhos que se foram secando. Ela foi-se queixando, dia para dia a ver menos. Os olhos, o bem maior. Lá ia retorquindo: então e os ouvidos para poderes dizer e ouvir, o gosto para poderes saborear, as pernas que te levam de casa...procurava ajudar a relativizar a sua dor.
Até que a vi assinar os papéis diante de mim na loja do cidadão, eu marcava com o dedo o lugar para ela ver "onde", mas ela começou a assinar por cima do meu dedo, simplesmente não o viu. Depois a assinatura grande, enorme, a sair da folha, como vi tantas vezes fazer às pessoas quando aprendem a ler tardiamente, mas não era o caso. Pela primeira vez apeteceu-me molhar de lágrimas os meus olhos por causa dos olhos secos dela.
~CC~
segunda-feira, janeiro 30, 2012
Da saudade (II)
Daquele tempo longo a estudar em cafés com um caderninho ao lado dos livros para rabiscar palavras poéticas soltas, acreditando que elas eram um caminho importante entre mim e os outros, ou chegariam mesmo a um potencial público.
~CC~
~CC~
quinta-feira, janeiro 26, 2012
terça-feira, janeiro 24, 2012
Estrela (III)
Madalena deitada na água num Domingo de Agosto, fechou os olhos por um momento, sorvendo a vertigem do azul para dentro de si. Quando os abriu, o barco estava muito perto e ela mal conseguia ver quem o levava. Mas ouviu a voz dele: sou eu, o pescador de sereias.
Madalena nadou o mais rapidamente que conseguia para fugir daquela voz de homem, uma voz forte e ao mesmo tempo doce. Madalena nadava muito bem, era mesmo o que ela sabia fazer melhor, superava mesmo o jeito para arranjar as flores nas jarras da Igreja.
Nos dias seguintes ouviu um sem número de vezes essa voz rasgar o seu silêncio. Pensou ir ao médico e dizer-lhe que estava a ouvir vozes, mas pensou manter por mais tempo intíma a sua loucura.
E foi nadar no Domingo seguinte.
~CC~
quinta-feira, janeiro 19, 2012
quarta-feira, janeiro 18, 2012
Conversas inquietantes (III)
Na escola x
Mãe cigana: O meu filho tem 16 anos e queria que ele viesse para cá para o 5º ano.
Funcionária: Não há vagas.
Mãe cigana: Ele também pode ir para o 4º ano...
Funcionária: Vou ali perguntar à Direcção...
Funcionária (um minuto depois): Não, também não há vagas, não as temos em ano nenhum.
Mãe cigana: não há aqui, não há na outra escola, não há...não querem! E por causa disso perdemos o rendimento social de inserção...sabia minha senhora, sabia que nos tiram?
Funcionária: Pois, não posso fazer nada, aqui não há vagas.
~CC~
Mãe cigana: O meu filho tem 16 anos e queria que ele viesse para cá para o 5º ano.
Funcionária: Não há vagas.
Mãe cigana: Ele também pode ir para o 4º ano...
Funcionária: Vou ali perguntar à Direcção...
Funcionária (um minuto depois): Não, também não há vagas, não as temos em ano nenhum.
Mãe cigana: não há aqui, não há na outra escola, não há...não querem! E por causa disso perdemos o rendimento social de inserção...sabia minha senhora, sabia que nos tiram?
Funcionária: Pois, não posso fazer nada, aqui não há vagas.
~CC~
segunda-feira, janeiro 16, 2012
Estrela (II)
Os Domingos de Agosto são os mais difíceis para Madalena. A aldeia agrupa-se aos molhinhos em torno de uma açorda, de um pernil de porco, de uma galinha de cabidela. Madalena enjoa todas as carnes. Mortos os pais, sem irmãos, sobram-lhe tantos primos de segunda que a convidam à vez, numa espécie de combinação atroz. Só uma sopa de cardos, por favor, diz Madalena de cada vez que aceita um convite.
Às vezes ela é corajosa e não aceita, vai logo pela manhã nadar nua no mar. Pela fresca não há turistas, não há meninos, não há pescadores. Ninguém é afinal tão livre e tão feliz como ela quando sai da água com a pele salgada. Madalena, faltando à missa de Domingo, aos almoços em família, Madalena fugindo aasim pelas manhãs é uma menina de vinte anos, nem uma ruga em torno dos poços azuis que são os seus olhos.
Nesses dias em que ela anda fugida do mundo é que a comentam como nunca nos almoços fartos, depois de bebido muito vinho. As crianças dizem que é uma fada, as mulheres que é uma bruxa, os homens que é uma virgem enlouquecida. Quantas palavras a ouviram dizer pela vida toda? E disputam entre eles: eu só a ouvi dizer bom dia, eu só a ouvi dizer obrigada, eu só a ouvi dizer com licença...E os meninos, eles que sabem tudo, dizem: vocês não sabem que ela é a mulher de Jesus?
~CC~
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