Eu (prof) - Eu nunca vi uma escrita como a sua no ensino superior, estou muito preocupada consigo, é que não se percebe mesmo o que escreve.
Ele (aluno) - Eu sei professora...em tempos viram que eu tinha dislexia...
Eu (prof) - Então e onde está esse diagóstico?
Ele (aluno) - Não tenho, nunca me deram...
Eu (prof) - E nunca procurou ajuda? Tem que fazer alguma coisa...já foi aqui ao gabinete de Psicologia?
Ele (prof) - Sim, eles não fazem o teste. Levam 5 euros por cada consulta para outras coisas, eu não posso...
Eu (prof) - E uma colega que escreva bem? Alguém que pudesse estar consigo um bocadinho, fazer uns exercícios...
Ele (aluno) - Ninguém tem tempo professora...acha que alguém se vai importar?!
~CC~
segunda-feira, fevereiro 27, 2012
quinta-feira, fevereiro 23, 2012
terça-feira, fevereiro 21, 2012
Cinema em estado puro
A invenção de Hugo é a crença na magia humana e o cinema nasce nesse momento. Seria muito pobre o mundo sem essa tela onde nos vemos melhor.
Todas as coisas sem explicação têm afinal uma explicação, uma história. Sou assim, acredito nisso. A maior parte das vezes passamos pelas coisas sem ver, muitas vezes sem nada sentir. Isso também me acontece.
Por um segundo não vi o filme, quando percebi que era em 3D corri para a bilheteira, presa da imagem do último em que enjoei. Quando lá cheguei vi que já tinhas comprado os bilhetes, ainda te vi a pagá-los. Ainda bem que não cheguei a tempo.
Senti o frio e a neve. A esperança em alguma coisa, mesmo que não saiba exactamente o quê, talvez só mesmo essa palavra doce nos olhos daqueles dois miúdos, no velho que renasce, na mulher que se torna outra vez bela, no homem que ama o cinema.
Senti a companhia, esse calor de vos ter ali.
~CC~
Todas as coisas sem explicação têm afinal uma explicação, uma história. Sou assim, acredito nisso. A maior parte das vezes passamos pelas coisas sem ver, muitas vezes sem nada sentir. Isso também me acontece.
Por um segundo não vi o filme, quando percebi que era em 3D corri para a bilheteira, presa da imagem do último em que enjoei. Quando lá cheguei vi que já tinhas comprado os bilhetes, ainda te vi a pagá-los. Ainda bem que não cheguei a tempo.
Senti o frio e a neve. A esperança em alguma coisa, mesmo que não saiba exactamente o quê, talvez só mesmo essa palavra doce nos olhos daqueles dois miúdos, no velho que renasce, na mulher que se torna outra vez bela, no homem que ama o cinema.
Senti a companhia, esse calor de vos ter ali.
~CC~
sexta-feira, fevereiro 17, 2012
De fugida
Corro atrás do tempo sem o conseguir agarrar, sempre a fugir-me, a rir-se de mim. E agora que é Carnaval colocou uma máscara trocista, um sorrisinho miudinho, uma voz em surdina que diz: pensava ela que ia agarrar-me e sentar-se ao meu colo a olhar a paisagem...corre corre cabacinha.
~CC~
sexta-feira, fevereiro 10, 2012
Conversas inquietantes (V)
Casal (entre os trinta e os quarenta) com duas filhas pequenas, ao fim da tarde, no café.
- Pai, quero ali aquela bolachinha.
- Pede à tua mãe, ela é que sabe dessas coisas (sacundindo-a devagarinho).
A mãe, que já estava sentada na mesa, levanta-se para vir atender a criança, enquanto o pai se senta, indiferente.
~CC~
- Pai, quero ali aquela bolachinha.
- Pede à tua mãe, ela é que sabe dessas coisas (sacundindo-a devagarinho).
A mãe, que já estava sentada na mesa, levanta-se para vir atender a criança, enquanto o pai se senta, indiferente.
~CC~
quarta-feira, fevereiro 08, 2012
Palavrar
Palavrar, foi assim que ele chamou ao que fomos fazer hoje.
Nunca lhe daria esse nome, é certo. Para mim seria espraiar - um mar de letras onde eu poderia estender-me feliz.
Falar dos livros da minha vida para jovens - contar das histórias que correm dentro do meu sangue, circulam como o seu sal. Como é bom falarmos do que amamos, não há nada melhor. Estes momentos valem mil comunicações académicas, bem sei que tenho, terei sempre dificuldade em explicar isto. Adicionalmente outras coisas lindas: ser no Alentejo, coração quente e silencioso; ser o convite de uma ex.aluna.
Certeza é antes o que sinto dentro de mim - poderia fazer disto o meu ofício. Porém, já não vou a tempo. Resta-me respirar bem nestes bocadinhos.
~CC~
quarta-feira, fevereiro 01, 2012
Olhos secos
Os olhos que se foram secando. Ela foi-se queixando, dia para dia a ver menos. Os olhos, o bem maior. Lá ia retorquindo: então e os ouvidos para poderes dizer e ouvir, o gosto para poderes saborear, as pernas que te levam de casa...procurava ajudar a relativizar a sua dor.
Até que a vi assinar os papéis diante de mim na loja do cidadão, eu marcava com o dedo o lugar para ela ver "onde", mas ela começou a assinar por cima do meu dedo, simplesmente não o viu. Depois a assinatura grande, enorme, a sair da folha, como vi tantas vezes fazer às pessoas quando aprendem a ler tardiamente, mas não era o caso. Pela primeira vez apeteceu-me molhar de lágrimas os meus olhos por causa dos olhos secos dela.
~CC~
segunda-feira, janeiro 30, 2012
Da saudade (II)
Daquele tempo longo a estudar em cafés com um caderninho ao lado dos livros para rabiscar palavras poéticas soltas, acreditando que elas eram um caminho importante entre mim e os outros, ou chegariam mesmo a um potencial público.
~CC~
~CC~
quinta-feira, janeiro 26, 2012
terça-feira, janeiro 24, 2012
Estrela (III)
Madalena deitada na água num Domingo de Agosto, fechou os olhos por um momento, sorvendo a vertigem do azul para dentro de si. Quando os abriu, o barco estava muito perto e ela mal conseguia ver quem o levava. Mas ouviu a voz dele: sou eu, o pescador de sereias.
Madalena nadou o mais rapidamente que conseguia para fugir daquela voz de homem, uma voz forte e ao mesmo tempo doce. Madalena nadava muito bem, era mesmo o que ela sabia fazer melhor, superava mesmo o jeito para arranjar as flores nas jarras da Igreja.
Nos dias seguintes ouviu um sem número de vezes essa voz rasgar o seu silêncio. Pensou ir ao médico e dizer-lhe que estava a ouvir vozes, mas pensou manter por mais tempo intíma a sua loucura.
E foi nadar no Domingo seguinte.
~CC~
quinta-feira, janeiro 19, 2012
quarta-feira, janeiro 18, 2012
Conversas inquietantes (III)
Na escola x
Mãe cigana: O meu filho tem 16 anos e queria que ele viesse para cá para o 5º ano.
Funcionária: Não há vagas.
Mãe cigana: Ele também pode ir para o 4º ano...
Funcionária: Vou ali perguntar à Direcção...
Funcionária (um minuto depois): Não, também não há vagas, não as temos em ano nenhum.
Mãe cigana: não há aqui, não há na outra escola, não há...não querem! E por causa disso perdemos o rendimento social de inserção...sabia minha senhora, sabia que nos tiram?
Funcionária: Pois, não posso fazer nada, aqui não há vagas.
~CC~
Mãe cigana: O meu filho tem 16 anos e queria que ele viesse para cá para o 5º ano.
Funcionária: Não há vagas.
Mãe cigana: Ele também pode ir para o 4º ano...
Funcionária: Vou ali perguntar à Direcção...
Funcionária (um minuto depois): Não, também não há vagas, não as temos em ano nenhum.
Mãe cigana: não há aqui, não há na outra escola, não há...não querem! E por causa disso perdemos o rendimento social de inserção...sabia minha senhora, sabia que nos tiram?
Funcionária: Pois, não posso fazer nada, aqui não há vagas.
~CC~
segunda-feira, janeiro 16, 2012
Estrela (II)
Os Domingos de Agosto são os mais difíceis para Madalena. A aldeia agrupa-se aos molhinhos em torno de uma açorda, de um pernil de porco, de uma galinha de cabidela. Madalena enjoa todas as carnes. Mortos os pais, sem irmãos, sobram-lhe tantos primos de segunda que a convidam à vez, numa espécie de combinação atroz. Só uma sopa de cardos, por favor, diz Madalena de cada vez que aceita um convite.
Às vezes ela é corajosa e não aceita, vai logo pela manhã nadar nua no mar. Pela fresca não há turistas, não há meninos, não há pescadores. Ninguém é afinal tão livre e tão feliz como ela quando sai da água com a pele salgada. Madalena, faltando à missa de Domingo, aos almoços em família, Madalena fugindo aasim pelas manhãs é uma menina de vinte anos, nem uma ruga em torno dos poços azuis que são os seus olhos.
Nesses dias em que ela anda fugida do mundo é que a comentam como nunca nos almoços fartos, depois de bebido muito vinho. As crianças dizem que é uma fada, as mulheres que é uma bruxa, os homens que é uma virgem enlouquecida. Quantas palavras a ouviram dizer pela vida toda? E disputam entre eles: eu só a ouvi dizer bom dia, eu só a ouvi dizer obrigada, eu só a ouvi dizer com licença...E os meninos, eles que sabem tudo, dizem: vocês não sabem que ela é a mulher de Jesus?
~CC~
domingo, janeiro 15, 2012
Estrela (I)
Madalena sabia que tinha sido a mulher proscrita de Jesus, a que a história encerrara na categoria de prostituta. Outras versões líricas diziam outras coisas dela. Ela registara simplesmente que era uma mulher que não podia ser amada.
Madalena, tinha dito o padre em tom doce, desde que ela era menina, o teu nome é pertença da igreja, como tu. E Madalena, nascida na aldeia da Estrela, tinha aceite ser a mulher sozinha da aldeia. Era ela que cuidava dos velhos e os vestia bonitos para o enterro. Era ela que ensinava catequese às crianças. Era ela que enfeitava a igreja com flores e a abria para a mostrar aos visitantes. Não era Madalena, contudo, uma beata devota como as outras. No fundo dos seus olhos azuis havia um lago vazio onde ela nadava até se cansar nas tardes de Domingo. Madalena, onde vais, diziam as crianças? Onde vais Madalena se é tarde de Domingo, de estar em casa, de dormir a sesta, de ligar a TV e nada fazer? Vou andar, andar...e Madalena apanhava a estrada de terra do campo porque as ruas da Aldeia já não lhe cansavam o corpo e o ar fedia de velho e cansado. Vou andar entre as silvas, vou descalçar-me nas ervas, vou esconder-me na sombra.
Madalena, o teu nome consta de todas as bíblias de todos os tempos. Ela sabia que era prisioneira do seu nome, prisoneira do seu corpo virgem, do seu destino falhado.
Ela tirava lá longe no meio do mar o fato de banho e nadava nua, não ela não era inteiramente prisioneira, tinha umas asas que abria nas tardes de Domingo, quando todos dormiam e não davam por ela.
E foi assim que aconteceu. Aldeia da Estrela, quando o século se dobrou para nascer outro, Madalena também nasceu outra vez.
(continua)
~CC~
quarta-feira, janeiro 11, 2012
Frases singulares (I)
" Fecham uma escola lá no interior...e sabe o que abre a seguir? Um posto da GNR".
(Senhor de cerca de 65/70 anos numa conferência sobre Educação, soube depois que é artesão e que procurou toda a vida salvar umas das principais oficinas de azulejo cá da terra)
~CC~
segunda-feira, janeiro 09, 2012
Conversas inquietantes (II)
Área de serviço de Aljustrel
Na bomba
- Onde está a caixa multibanco?
- Já não temos.
- E ali na cafetaria/restaurante?
- Também havia, mas já não sei se há.
Na cafetaria/restaurante
- Aqui também já não há caixa multibanco?
- Já não!
- Mas agora não existe nem aqui, nem na bomba?
- Assaltaram as duas!
- E então, a solução é deixar de as ter?
- Sim, minha senhora, ter uma caixa multibanco tornou-se um perigo.
- Mas até a minha escola tem uma...
- Minha senhora, tirem-na de lá quanto antes!
~CC~
Na bomba
- Onde está a caixa multibanco?
- Já não temos.
- E ali na cafetaria/restaurante?
- Também havia, mas já não sei se há.
Na cafetaria/restaurante
- Aqui também já não há caixa multibanco?
- Já não!
- Mas agora não existe nem aqui, nem na bomba?
- Assaltaram as duas!
- E então, a solução é deixar de as ter?
- Sim, minha senhora, ter uma caixa multibanco tornou-se um perigo.
- Mas até a minha escola tem uma...
- Minha senhora, tirem-na de lá quanto antes!
~CC~
domingo, janeiro 08, 2012
A estrada
Há dias em que detesto estes caminhos de ida e volta. É uma estrada tão grande entre ti e mim. Mas hoje vi a lua nascer grande e redonda, ao mesmo tempo que o céu se tingia em laranjas múltiplos. De repente tudo estava certo e era belo. E não havia distância nem estrada entre ti e mim. A lua redonda e grande era um beijo teu a acompanhar-me.
~CC~
terça-feira, janeiro 03, 2012
Escutas inquietantes (I)
No café
Rapariga de leste (bonita) - É demais para mim, ele conhece-me há um mês e já diz que me ama.
Rapariga portuguesa (bonita) - Aproveita agora... com o passar do tempo deixa de te dizer essas coisas e não voltas a ouvi-las.
~CC~
quarta-feira, dezembro 28, 2011
A lista
Adoro listas para combinar com as passas, mas preciso de as fazer com tempo, não ali à boca de cena. Hoje, no blogue escrever é triste (um blogue sempre a merecer visita) lá estava uma bela lista, a aguçar-me o apetite.
É verdade que muitas das coisas que desejamos são quase impossíveis, roçam o abstracto filosófico contido num outro programa de mundo, ou para falar bem e depressa - o fim do capitalismo, deste capitalismo estúpido que conhecemos já demasiado bem. Não façam, contudo, mais perguntas. Não inventámos ainda a fórmula capaz de susbtituir o que está gasto. Há por aí contudo milhares de particulas milagrosas, a propor e a fazer coisas diferentes, resta-nos pensar que haverá um momento de fusão.
Podemos ainda diminuir a abertura da janela - ficar pelo país - outro governo, outros políticos, outro povo? Ora bolas, outro povo é que não. E mais uma vez tropeçamos, não é fácil fabricar sonhos, tudo o que queremos nos parece contaminado, dificil, problemático. Ainda nós e ainda assim outros seria a fórmula a dar ao desejo da lista, ainda assim complicado, nenhum génio da lâmpada poderia realizar tal vontade.
Deixemos assim o mundo, o país, regressemos a nós. Mas até nesta matéria os desejos simples que antes formulavámos com a maior legitimidade tais como um emprego melhor, até esses se nos afiguram pesados, como desejar um emprego mellhor se tantos não têm nem sequer um?
Quando perdemos a inocência, até desejar é difícil.
Fico-me assim por um desejo dois em um: ainda desejar, oh...ainda desejar fazer tantas coisas.
(Preparação do Pós Doc na América Latina, escrita daquele livro das histórias, estadia nas termas de Budapeste, meia maratona da ponte Vasco da Gama, retoques estéticos não invasivos, apoios para o projecto com P, n mais um passeios com J, n mais uma coisas para certas pessoas que amo tanto ou mais do que a mim própria).
~CC~
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