quarta-feira, dezembro 28, 2011
A lista
sexta-feira, dezembro 23, 2011
Dois
terça-feira, dezembro 20, 2011
Um(a)
domingo, dezembro 18, 2011
quarta-feira, dezembro 14, 2011
Reverso
terça-feira, dezembro 13, 2011
Verso
domingo, dezembro 11, 2011
Sublinhados nos dias (V)
~CC~
terça-feira, dezembro 06, 2011
Ganhei um pássaro azul
cada abraço
cada lágrima
cada dúvida
é uma soma feita de um vento agridoce
outra eu
a mesma eu
Ou fui eu que cresci
e agora já sei olhar as minhas asas?
Ou foi um pássaro que tinha preso cá dentro
que resolveu soltar-se
e pousar no dia 5 de Dezembro
resolvido a dizer-me segredos
amiga, diz ele baixinho
sê feliz
despacha isso
vai por aí
tem um ar malandro
mas grave
como uma formiga com voz de cigarra
um guarda rios atencioso
domingo, dezembro 04, 2011
Contagem decrescente (III)
É também assim com o calor e o frio, que parecem alternar amiúde.
E os velhos fantasmas que resolvem aparecer nestas horas?
Sobra a gargalhada para o melhor conselho que ouvi: é fazer como os pinguins, sorrir e acenar, sorrir e acenar...
~CC~
sábado, dezembro 03, 2011
Contagem decrescente (II)
quarta-feira, novembro 30, 2011
Contagem descrescente (I)
terça-feira, novembro 29, 2011
domingo, novembro 27, 2011
Sublinhados nos dias (IV)
sábado, novembro 26, 2011
Este díficil colectivo (II)
- Então mas não eram vocês que queriam fazer uma conferência sobre 2102 como ano internacional da energia e do planeta sustentável?
- Sim, mas é mais prático...eu não venho com um prato, um copo e um talher de casa?
- Então, pesa muito?
- Não dá jeito...
~CC~
quinta-feira, novembro 24, 2011
Sublinhados nos dias (III)
~CC~
terça-feira, novembro 22, 2011
Este difícil colectivo (I)
- Explique...
- Uns depois trazem coisas e outros não trazem...a folha para indicarmos o que trazíamos está vazia.
- Mas quem participa traz alguma coisa para partilhar...
- Estamos sem dinheiro...
- Então não vão comer?
- Sim, mas cada um traz a sua sandes ou vamos ao ...(abstenho-me de publicitar a coisa)
- Então e se você em vez de uma sandes trouxer um pão? Uma fruta...
- Um pão...e como só o pão?
- Só o pão? Não, outros trazem qualquer coisa para pôr no pão..
- Nã...eles não trazem.
~CC~
domingo, novembro 20, 2011
sublinhados nos dias (II)
~CC~
sexta-feira, novembro 18, 2011
Singularidades masculinas (II)
quarta-feira, novembro 16, 2011
Sublinhados nos dias (I)
sábado, novembro 12, 2011
Singularidades masculinas (I)
sexta-feira, novembro 11, 2011
Singularidades masculinas
Ele dança, mesmo sem nunca ter dançado. Basta colocar o seu coração no sítio certo, e conseguirá ser uma das cinquenta pessoas, pessoas especiais.Mais aqui: http://www.teatromunicipaldefaro.pt/teatro/programacao/evento.asp?id=1016
quinta-feira, novembro 10, 2011
Aparência
Resisto, estou habituada a ver-me assim ao espelho, não obstante as olheiras mais e mais extensas e um certo brilho no olhar que só aparece agora em dias mais luminosos e dentro de certos abraços.
~CC~
terça-feira, novembro 08, 2011
Neruda na minha aula
domingo, novembro 06, 2011
Bom dia
Sobram as aldeias e algumas vilas onde os velhotes nos cumprimentam amavelmente com os seus gestos lentos e gentis.
E agora que a C me convida para nos encontrarmos mais cedo com os Domingos caminhando, recebemos dúzias de bons dias dos ciclistas com os quais nos cruzamos. E é bom.
~CC~
sábado, novembro 05, 2011
O essencial (II)
terça-feira, novembro 01, 2011
O essencial
A conversa saborosa: digam lá, valeu a pena virmos ao cinema? Os meninos em coro com voz fininha: siiiiimmm. Então e já conheciam este herói da BD: o pai tem os livros...E o avô conta histórias sobre a sua infância mergulhada nos livros do Timtim.
O cinema, ainda assim a preços exagerados, e que vão subir mediante a aplicação da nova taxa do IVA aos espectáculos. Encontrarei mais estes avós com os quatro netos?
~CC~
sábado, outubro 29, 2011
As marcas da areia preta (V)
quarta-feira, outubro 26, 2011
Notas soltas numa tarde de chuva
segunda-feira, outubro 24, 2011
Reduções
sábado, outubro 22, 2011
O rosto da cidade (I)
~CC~
quarta-feira, outubro 19, 2011
Até Viana
Vamos ver se além das sombras deste tempo lhes passa também nos olhos a luz do Outono.
O resto vai comigo, a inevitável tristeza de ver o Verão findar.
~CC~
segunda-feira, outubro 17, 2011
canção de embalar para meninos tristes
para me fazer voar
e comigo o dia inteiro
este vazio
é o bicho da seda
enrolado nessa teia de morrer no casulo
ou tecer futuros
romper dias sombrios
que bela borboleta.
~CC~
domingo, outubro 16, 2011
Outra forma de ser gente
quarta-feira, outubro 12, 2011
Serra mãe
Deixo a miúda na escola e sigo em frente, apanho a estrada directa à Arrábida e paro para tomar um café na praia da Figueirinha.
Não me canso de amar esta serra e estas enseadas azuis, com um estuário tão manso.
Volto pela estrada do campo, o carro mal passa entre as veredas verdes, é quase toda à sombra das árvores. Venço o medo de andar por ali sozinha.
Demorei apenas uma hora, mas o que esta pausa não fez por mim. Volto para trabalhar com o sangue mais puro e um gosto tão grande nesta minha liberdade.
Serra mãe, diria o poeta. Dia 28 tenho um encontro com ele, e deverá estar presente a mais bela viúva que conheço, a única que se diz eternamente casada.
~CC~
domingo, outubro 09, 2011
A forma e o conteúdo
E de música ao vivo.
(sobre isto falarei mais tarde, ou seja, de como festejei o dia da música na casa do povo de St. Estevão)
quarta-feira, outubro 05, 2011
5 de Outubro
Feriado adiado.
Mas...coração republicano.
~CC~
terça-feira, outubro 04, 2011
Vida
sábado, outubro 01, 2011
As marcas da areia preta (IV)
quarta-feira, setembro 28, 2011
Pesadelo
Amanhã estarão na minha sala e tenho que desfocar o olhar para não os ver cobertos de farinha, iogurte e outras matérias pegajosas com que andaram sujos e felizes.
Preocupo-me ainda, o que deve querer dizer que não estou velha o suficiente para olhar para o mundo com a indiferença que ele parece merecer. Não, tudo ainda me faz sofrer.
~CC~
quarta-feira, setembro 21, 2011
Fusos horários
Amanhã vou nascer em Luanda, estão avisados, já que não tenho FB para anunciar ao mundo que nascem meninas louras e muito branquinhas do outro lado do mundo.
Hoje tocou o telefone, era um convite para ir para lá, de vez (ou quase). Conversas em torno da dupla nacionalidade, deixar tudo.
Não é desta, o coração não bate com aquela certeza. E o dinheiro não é coisa que me chame.
Tempos curtos talvez, será que já é possível tomar banho na praia em Benguela?
Uma cuca na esplanada, mas não tão só como da última vez.
~CC~
segunda-feira, setembro 19, 2011
Pequenas notas
A persistência da crise, menos gente a entrar na escola a cada ano.
Entre o desejo de mar que nunca me larga e os lugares da vindima que me chegam agora no rosto da tua gente.
Os cadernos a acumularem notas, esquemas, ideias para novos rumos, mesmo em tempos já velhos.
Muitos rabiscos de reuniões nos cadernos de capa roxa que comprei para este ano.
E as histórias à espera, tanto tempo penduradas, brancas como os brancos que espreitam mais e mais a cada Outono.
~CC~
terça-feira, setembro 13, 2011
As marcas da areia preta (III)
sexta-feira, setembro 09, 2011
As marcas da areia preta (II)
quarta-feira, setembro 07, 2011
As marcas da areia preta (I)
É verdade que houve alguém que me abanou o meu mundo, mas foi um rapaz. Não, não passem rapidamente para a fantasia "Morte em Veneza". Não falei em paixão, nem em amor, apenas do enamoramento que ronda as almas perdidas, os destinos estranhamente cruzados. Procuramos a substância capaz de nos salvar sem sabermos exactamente qual é, o sal ou ou açucar que estranhamente nos faltam, ou o potassio, o magnésio, aquela coisa em falta no nosso sangue que o faz adormecer como se para ele não houvesse esperança.
terça-feira, setembro 06, 2011
Segredo
Creio que te lembrarás da roseira anémica do vaso da minha varanda, aquela que sobreviveu com dificuldade a este Inverno e não teve grandes melhoras na Primavera. Reparei hoje que tem um botão, um botão pequenino que faz adivinhar uma rosa vermelha que virá com a lua cheia.
É assim o mundo que nos une.
~CC~
segunda-feira, setembro 05, 2011
Mais Setembro
sábado, setembro 03, 2011
É Setembro
Como pude eu nascer num mês em que o Verão se despede?
Nasci no hemisfério sul, logo estou perdoada, está tudo explicado. Em Setembro, por lá não há despedida do mar. Um banho de mar é um milagre.
Mas aqui e agora é a nostalgia da retoma dos dias, e esta sombra que teimam em impor-nos.
Nas ruas não há protestos, mas dentro de nós há uma agonia teimosa a inflitrar-se entre o aumento do IVA, o desconto dito solidário no 13º mês e o fim das deduções na área da Saúde e da Educação no IRS. Ainda fico a pensar no que terá o governo contra os solteiros...a bem da familia, pois. As reportagens da crise, todos os dias, a toda a hora. E essa pergunta teimosa a martelar-nos, o que vamos exactamente fazer, para onde estamos a ir? E ninguém a responder, nada de convicente.
O ano começa bem, reunião de emergência para análise dos cortes na área da Educação que afectarão o orçamento da escola. A minha empregada que se foi embora no final do Verão ao final de apenas um ano de estadia, depois de anos a fazer tudo sozinha. A miúda com aulas de tarde no 10º ano, a adivinhar uma curiosa luta pelas manhãs.
Não, nem pensem que vou despedir-me do Verão. Ou se for, é muito lentamente.
E ainda esta palavra de combinação com Outono : resiliência.
E esta outra: grito. Grito, mesmo baixinho. Depois respira-se melhor.
~CC~
terça-feira, agosto 23, 2011
Entardecer no final do Verão
Há muito vento a sul, apesar do sol. Um vento que varre a areia da praia e a levanta no ar para se colar às nossas costas e invadir as toalhas. Um vento que enrola ondas grandes no mar quente. Os chapéus de sol fecharam-se. Resistimos como podemos, ficarmos é um modo de não deixar o Verão acabar já, não queremos.
Do lado da ria o vento é mais fraco, sente-se apenas na força da corrente. Há muitos meninos e meninas fugidos à fúria das ondas da costa. Andam à procura de caranguejos com copos de plástico, e gritam a plenos pulmões quando conseguem finalmente aprisonar um deles no copo: caranguejooooo!!!! Levam aos adultos o produto do seu labor num grande entusiasmo, e eles espreitam para dentro dos copos para murmurar sérios: soltem-no.
A menina dos carrapitos louros com vestido vermelho às bolinhas brancas também gritou caranguejo na sua vozinha sumida de três anos ainda mal feitos, e segue os rapazes para todo o lado como uma sombra. Nenhum deles lhe mostrou o caranguejo, para eles é ainda uma bébé com a qual não se partilham tesouros. Ela fica a ver, e bate palmas quando eles ensaiam acrobacias.
- Vamos correr abraçados?
- Vamos até à água abraçados e depois mergulhamos...
- Ok
A mãe da menina veio tirar-lhe o vestido vermelho das bolinhas brancas, por baixo escondia-se um fato de banho quase tão branco como ela, a menina já pode molhar-se até ao joelho. Algum dia apanhará caranguejos?
~CC~
PS. Prolongar o Verão, eis onde ocupo a maior parte do meu tempo. Não me roubem um dia, uma hora, um minuto....
segunda-feira, agosto 15, 2011
Azul (2)
domingo, agosto 14, 2011
sábado, agosto 13, 2011
Árvore
quinta-feira, agosto 11, 2011
Ainda a Cidade
Magma
uma história
(para ~A~ e *JJ*)
Ana e João, 14 anos, deitados nos muros altos que ladeiam a baía de Angra. Ana e João, para eles a sua amizade está inscrita nas coisas que o vento jamais pode levar, por mais forte que sopre.
- Vamos jogar a dizer o que mais detestamos nesta cidade
- Ok
- A loja de bordados da minha mãe.
- A areia preta da praia.
- Estas casinhas dos santos a que chamam Impérios e nem sei porquê.
- O Monte Brasil que não é uma montanha verdadeira como o Pico nem é um vulcão a sério como há no Faial, é só um montesinho de nada que nos faz subir metade da cidade
- Este maldito tempo sempre húmido
- Os sismos, o medo dos sismos!
- Dizem que somos namorados...
- Isso já não faz parte do jogo!
- Mas eu gosto da Rita
- E eu gosto do Rui
- Já viste...são RR...
- Pois...
- Se houver um sismo agora...
- Não vai haver!
- Vai sim, a qualquer momento!
- Onde nos encontramos se houver?
- No Império amarelo, o que fica no cimo desta rua, no início da Freguesia da Sé
- Vens mesmo?
- Apareço, espera-me.
segunda-feira, julho 25, 2011
No trilho do Atlântico

(a todos os que por aqui passam umas boas férias)
sexta-feira, julho 22, 2011
Terapêutica
http://cc-mesfilhas.blogspot.com/
vou arrumá-lo ali na estante do lado, está a precisar de uma organização urgente (mas vou ainda adiar para mais uns tempos).
~CC~
No ligeiro ondular
quarta-feira, julho 20, 2011
Pulsação
Oiço a minha pulsação para me sentir.
A tempestade do mundo envolve-me e arrasta-me sem me tocar. Já gastámos todas as palavras que rimam com crise. Já se escreveu quase tudo. Não sabemos como abrir as janelas.
É como se estivesse a voltar de uma viagem sem nunca ter partido.
E o vento tem estado tão forte, assobia nas noites que tardam a aquecer.
Penso nos livros a colocar na mala de viagem. Penso no mar.
Oiço de novo a minha pulsação, quero tanto sentir-me.
~CC~
sábado, julho 16, 2011
Cinco anos, meses dias, muitas horas...e ainda falta um bocadinho...
Ontem depositei 12 exemplares na secretaria da Universidade e inscrevi-me para a prova oral.
E tive saudades da minha ardósia, dos dias a emergir na ponta dos dedos.
E muitas saudades do tempo ser tempo, tempo de estar.
Agora vamos ver.
~CC~
sexta-feira, julho 08, 2011
Em breve
as palavras correrão lume
e o meu sangue acordará de tão longo sono.
Em breve
o sabor das coisas
que nenhum Verão chegue mais sem me dizer.
~CC~
segunda-feira, julho 04, 2011
ALMAR (XIII)
Primeiro tracei o mapa dos rios do país, o que quer que fosse que restava de Almar não podia estar longe do leito de um rio. Com um círculo azul assinalei as povoações mais próximas desse rio. E depois o cheiro a leite, este cheiro. Os Almar nunca tinham sido pastores, por isso o cheiro a leite era um estranho sinal. Mas era fortíssimo, adocicado, maternal.
Os Almar estariam assim próximos de uma terra de leite, de pastagens, de pastores. Às vezes achava que esse cheiro que não me abandonava era realmente uma pista. Outras vezes que era apenas a minha condição de fêmea a falar. O mais forte dos chamamentos era a vontade de levar a minha menina para junto do meu povo, um tratado de dever imprimido na minha pele. De todas as povoações próximas dos rios, marquei aquelas em que se fabricava leite ou queijo.
Quando lá chegava não procurava pelos Almar, mas por uma ou mais mulheres de cabelos quase vermelhos.
sábado, julho 02, 2011
quarta-feira, junho 29, 2011
Um pingo de água
Mais logo, um dia, aquela flor.
Mais além o abraço da palavra.
Mais além do além um banho de mar.
Esperança.
Mesmo no deserto deste mundo em que as estátuas gregas têm lágrimas só visiveis aos amantes da filosofia, esse berço onde nasceu o pensamento. Como se pinta de negro a imagem de um povo, eles hoje, amanhã outros. Gastadores, corruptos, ingeríveis. Será?
Eles, eu, vocês.
Não crescem flores no sangue, é verdade.
Mas basta um pingo de água.
~CC~
quinta-feira, junho 16, 2011
ALMAR (XII)
Dos doze anos da minha vida fora de Almar não me lembrava de quase nada; apenas de alguns cheiros dos lugares por onde tinha passado.
sexta-feira, junho 10, 2011
Vida
Seres humanos perdidos neste universo infinito. É verdade que inventamos Deus, como podia ser de outra forma perante tamanha solidão e incerteza? Como podia ser de outra maneira se morrem os que amamos tanto?
Não sendo crente, já o chamei com a mesma voz entre o doce e o desesperado que à vez o chamam os membros desta família.
Repararam que não há nomes próprios no filme?
Apenas
mãe
pai
filho
irmão
carne da nossa carne, parte da nossa parte
maior amor, maior dor.
Deus, eis quem os descrentes como eu chamam nos dias mais escuros, com o peso da traição e a irracionalidade mais pura que habita as nossas células.
Batem fortes as ondas do mar.
Nada sabemos.
Apenas que amamos.
É isso é o melhor de nós.
~CC~
segunda-feira, junho 06, 2011
ALMAR XI
A minha pirâmide era um mar de sombra e tumulto, e o meu coração batia descompassado. É verdade que ainda havia acampamento quando eu parti, mas não era mais um céu azul de lonas a brilhar nas noites de lua cheia, era apenas um monte de farrapos, incapaz de resistir ao vento.
domingo, maio 29, 2011
Da (tua) saudade
(voltará, e depois dela, eu voltarei também um dia)
A saudade é matéria fisica, é coisa que ocupa corpo. É uma boca sem o seu beijo É um só rodando na pista do baile. É lá em baixo o largo da cidade vazio, por nós não estarmos lá.
Não quero parar para ver o crepúsculo porque não há com quem falar das cores.
A saudade é tão indefinida como de repente ganha voz e canta como tu me cantas quando acordas nas manhãs soalheiras do Sul e vais buscar a viola. É esse povo pequenino que sou eu, que és tu.
A saudade sou eu, uma boca sem o teu beijo.
~CC~
quarta-feira, maio 25, 2011
ALMAR (X)
Os homens Almar estavam longe da perfeição dos príncipes, mas eram alegremente como as árvores. Davam sombra, alojavam pássaros, viajavam sem sair do mesmo lugar, morriam sem água, tinham braços compridos, bons para o amor. Amar em Almar era procurar o melhor leito do rio para ver com o outro a limpidez da água. Havia também o crepúsculo, o modo de se esperar por ele, a melhor altura do dia para o amor na pele. Eu vi o amor em Almar, mas cresci já na sua perda, por dentro do seu fim. Mas tudo o que se inscreve na nossa memória tece dentro de nós a teia da qual não poderemos sair.
sábado, maio 21, 2011
ALMAR (IX)
~CC~
sábado, maio 14, 2011
ALMAR VIII
Soube nesse dia que não era eu a arquitecta do destino Almar porque esse estaria nas mãos de quem soubesse ler e não de quem soubesse construir, não de quem, como eu, desenhava na areia com tanta inquietude. E eu não lia bem. Nesse tempo tinha essa dolorosa consciência de que me era mais importante escutar-me do que escutar os outros, mas não a generosidade suficiente para mudar. Mais, nesse tempo soube que a ruptura entre mim e o meu povo residia nesse modo de olhar o colectivo, na recusa em deixar moldar a forma do meu corpo pela do sangue quente que lhe tinha dado origem. No modo como ela, a mulher velha me reduziu a um ponto no universo dos pontos, começou aí a minha viagem. Mas eu não queria, nunca quis que o meu povo se tornasse fugitivo e mais transparente que o próprio vento.
O que me revoltava era eu ter e dizer quais os meus sonhos para as sementes enquanto muitas outras ficavam caladas quando se lhes perguntava ou diziam: não sei. Algumas das minhas companheiras usavam uma variante mais sábia: ainda não sei. E quando eu gritava: eu tenho sonhos, ideias para as sementes, era frequente que o riso nascesse entre as mulheres mais jovens. Mais realistas que eu, afirmavam que sonhar as sementes era apenas um modo da mulher velha nos por à prova, porque o que era cada semente e o que dela nasceria, isso já se sabia há muito.
Nos meus pesadelos de menina eu tomava as sementes com o resto da água de um rio, com a última água de alguma das nossas fontes, engolia-as todas numa noite escura e depois, mesmo querendo saber o que eram, eu já não podia.
segunda-feira, maio 09, 2011
ALMAR VII
Ela explicou então que quem guardava as sementes era quem melhor traduzia sonhos e não quem os tinha mais ou melhores. A mulher Almar que guarda as sementes é uma tradutora de sonhos. Eu não sabia o que queria dizer a palavra tradução, não entendia inteiramente o sentido dela. Traduzir, como as línguas, descobrir sentidos. Queria que me explicasse mais, mas ela recusou.
Esta conversa ocorreu cerca de três anos antes de os homens Almar terem começado a adoecer por terem perdido o seu emprego de Guarda Rios e, ainda que resistência à dissolução da nossa identidade tenha sido grande, é incerto o nosso destino.
~CC~
sábado, maio 07, 2011
quarta-feira, maio 04, 2011
ALMAR VI
E quando esfregar a pirâmide não chega, tento ver com a mesma luz que vi pela primeira vez aos sete anos, o tesouro Almar. Eram sementes lisas e rugosas, escuras e coloridas. Vejo-as dispostas diante de mim perante o sorriso da mulher velha. Vejo o meu espanto por pensar que dentro da caixa só podia haver ouro. E da voz baixa dela e meio rouca a murmurar: das sementes tudo pode nascer. Sim, das sementes tudo pode nascer.
sábado, abril 30, 2011
ALMAR V
Uma semente devia dar origem a uma bananeira, porque a banana é como o pão a saciar a fome. Uma semente devia ser uma faísca eterna, capaz de atear o lume em qualquer circunstância, mesmo quando a lenha respira chuva. Uma semente devia ser um isco que atraísse sempre os peixes, mas que ao mesmo tempo nunca se gastasse, permitindo trazer para casa apenas os suficientes para que no mar ainda pudessem sobrar muitos. Uma semente devia dar origem a uma árvore tão grande, tão forte e tão frondosa como um embondeiro, uma árvore como uma casa ou uma casa árvore. E a última semente, a última devia dar a flor de maracujá, uma flor capaz de durar sempre, uma flor sem morte. A mulher velha disse: cada criança Almar tem um sonho para estas cinco sementes e elas são, elas são exactamente todos esses sonhos.
terça-feira, abril 26, 2011
ALMAR IV
Ficámos sem terra embora a nossa terra fosse um lugar junto da água. Mas sobraram os panos, os panos das mulheres Almar. E, com eles, elas inventaram outra vez a vida. Levaram-nos para as feiras como sempre tinham feito, mas agora com mais flores, mais peixes, mais luas... eram cortinados, tapetes, colchas e vendiam-se como únicos que eram, cada um diferente do outro.
E nós, crianças Almar, começámos a usar os tecidos para bonecos grandes de espantar a passarada. Éramos nós que fazíamos nascer os espantalhos. Os donos das quintas chamavam-nos porque, por uns tostões, uma fruta, um caldo, um naco de pão com azeitonas, nós pintávamos a paisagem de cor e de poesia.
Cresci criança Almar, pobre como pensava que só nós éramos, mas rendida à mudança da cor da terra em cada estação. E ainda sonho com espantalhos que abrem os braços e dançam para espantar a passarada.
domingo, abril 24, 2011
ALMAR III
Depois disso uma doença foi tomando, um a um, os nossos homens. Só se salvaram os que eram meninos. E nós, as mulheres, embora nessa altura o meu tamanho e o meu coração fossem os de uma menina.
sábado, abril 23, 2011
ALMAR II
Eu fui uma criança Almar. Passava horas a ver as formigas desenharem os seus carreiros, tinha as minhas mãos sempre sujas das tintas com que as mulheres tingiam os tecidos e com os restos delas pintava os troncos das árvores.
Eu acreditava que todas as coisas tinham uma alma e podiam falar comigo e achava que o seu silêncio era apenas porque deveria saber esperar os seus sinais. E falava-lhes, eu falava-lhes sempre. Eu sabia que as bonecas de pano só se podiam casar uma vez por mês porque a festa delas era de folhas e flores e eu não devia arrancá-las com frequência. Fecho os olhos e tenho em mim todos os cheiros e sabores da minha infância e quando os abro pergunto pelo que sobrou.
~CC~
sexta-feira, abril 22, 2011
ALMAR I
Eu fiz parte dos Almar. Os Almar são uma tribo simples cuja função é cuidar que os rios cheguem sempre ao mar, velar para que se dê a união necessária das espécies e a fusão do doce com o salgado. No momento em que vos escrevo, o meu povo está em vias de extinção, como uma qualquer outra espécie animal ameaçada. Digo-vos como éramos, como nos perdemos, como somos agora.
Os Almar viviam todos nas proximidades dos estuários, em grandes tendas de lona azul. Os olhos, de cor indistinta, eram líquidos e os cabelos quase vermelhos, por causa das cores de tingir os panos. As mulheres ocupavam muito do seu tempo neste ofício de tirar o branco dos tecidos e depois vendiam-nos como tapetes de flores nas feiras mais próximas. Uma criança Almar procura sempre o curso das linhas azuis nos mapas do futuro e tem na pele um triângulo desenhado com a seiva das árvores.
quinta-feira, abril 14, 2011
terça-feira, abril 12, 2011
Do absurdo de algumas tardes
Não consegui ler uma linha por causa da avaliação que se passava na mesa ao lado. Não, não se tratava da avaliação dos professores, nem tão pouco da avaliação dos alunos. Era apenas uma escala nova de avaliação das universidades inventada por uns machos jovens. Tudo se resume afinal a uma fórmula bem simples: quem tem as mais boas, mais bonitas, e que se deixam "comer" (e acrescentavam "se deixam comer sem serem porcas", e confesso que esta não percebi). Assim, do ISCTE, à Lusofona, ao ISPA, ao ISLA...todas foram avaliadas, sem qualquer juizo de valor entre o ensino público e o privado. Um enorme destaque foi dado a umas veteranas boas que coleccionavam caloiros, o que aumentava a percentagem dos moços desejosos de frequentar a dita universidade.
sexta-feira, abril 08, 2011
Surpreendentes as manhãs
quinta-feira, abril 07, 2011
Breves os instantes
segunda-feira, abril 04, 2011
Da Lezíria
VALE (Teatro da Trindade, Domingo de há quinze dias)
Vi, sentada nas escadas do teatro a abarrotar, com os olhos abertos de espanto, que no fim estavam molhados, a lezíria inteira num palco.
Os bailarinos eram cavalos, bezerros, e bois, e estavam à solta no prado, em poses de zanga e namoro, mansos em dias de sol, e perturbados sempre que a tempestade lhes chegava ao sangue. Os corpos dos bailarinos eram a arte da transformação. E quando eles se vestiam, projectavam nas suas roupas, as imagens de uma terra toda ela um horizonte. Não estavam, porém, sós, os seus olhos que tinham ido ao vale, tinham deles trazido outras mãos, outros rostos, o verdadeiro povo da lezíria. Tinham dançado juntos, armando uma teia corpos perfeitos e corpos imperfeitos, num baile único pelo qual a banda puxava, como se de uma matiné de Domingo se tratasse.
sexta-feira, abril 01, 2011
Resgate
quarta-feira, março 30, 2011
sábado, março 26, 2011
Praça do Brasil
sexta-feira, março 25, 2011
Fora de moda
quarta-feira, março 23, 2011
Tons
em que o negro tem tons
e nos querem dizer que somos
as borboletas presas no casulo
e é só isso que está no semi círculo das gravatas
cinzento alinhado
variante de negro carregado
descemos e subimos avenidas
todas elas acabadas como rotundas
adornadas pelo artista da terra
se ao menos o teu grito e o meu
se tornassem esta primavera de papoilas
capaz de tingir meio universo
se ao menos o meu sonho e o teu
rasgassem a quietude das cores sufocantes
para trazer a lua a morar na terra
procuram-se horizontes
boletins de voto a tons de azul
sem partido e sem dono
outra casa.
~CC~
segunda-feira, março 21, 2011
Recado
Rasga da árvore o fresco do seu verde. Arranca do mar aquele sal que nos fica a cada banho. Deixa cair as lágrimas a cada negrume. E deixa o teu riso ser lume em certas manhãs. E até à tua morte nunca deixes de dar um beijo. Cola a tua alma as coisas. E festeja hoje a poesia.
domingo, março 20, 2011
Domingo no mundo
Assim enfrentarei melhor as tempestades dos dias, e as feridas que se abrem diante de mim, por vezes expostas nos olhos que quem passa, e de outras escancarada nos olhos de quem não nos vê do outro lado do mundo, mas que nós vemos ali, como se acordasse ao nosso lado. A dor é a dor, mesmo quando ela aparece em rostos japoneses sem lágrimas. De repente, eu sou a jovem que usou durante anos o crachá a dizer nuclear, não obrigado.
quarta-feira, março 16, 2011
Gemido no mundo
sábado, março 12, 2011
quinta-feira, março 10, 2011
O beijo da morte
Parecia ser um beijo inocente e bom, de alguém cujo rosto não lembro. Queria-o e desejava-o. Mas em vez de parar o beijo continuava e continuava como um selo que não me deixava respirar.
E eu tentava sem êxito separar-me daquela boca mortal.
Acordar foi o modo de não morrer.
~CC~
PS. Psicanalista precisa-se.
terça-feira, março 08, 2011
OIto
Todos os dias são meus.
segunda-feira, março 07, 2011
Perguntas inocentes (I)
sábado, março 05, 2011
Dia teu
E isto porque imitas na perfeição as rolas em cantos chamativos.
E isto porque é pelas tuas mãos que o calor chega tantas vezes.
E isto porque com esse calor se afastam sombras.
E fica um um dia mais claro.
Nasceste é é início de Primavera outra e outra vez.
~CC~
