quarta-feira, dezembro 28, 2011

A lista

Adoro listas para combinar com as passas, mas preciso de as fazer com tempo, não ali à boca de cena. Hoje, no blogue escrever é triste (um blogue sempre a merecer visita) lá estava uma bela lista, a aguçar-me o apetite.


É verdade que muitas das coisas que desejamos são quase impossíveis, roçam o abstracto filosófico contido num outro programa de mundo, ou para falar bem e depressa - o fim do capitalismo, deste capitalismo estúpido que conhecemos já demasiado bem. Não façam, contudo, mais perguntas. Não inventámos ainda a fórmula capaz de susbtituir o que está gasto. Há por aí contudo milhares de particulas milagrosas, a propor e a fazer coisas diferentes, resta-nos pensar que haverá um momento de fusão.


Podemos ainda diminuir a abertura da janela - ficar pelo país - outro governo, outros políticos, outro povo? Ora bolas, outro povo é que não. E mais uma vez tropeçamos, não é fácil fabricar sonhos, tudo o que queremos nos parece contaminado, dificil, problemático. Ainda nós e ainda assim outros seria a fórmula a dar ao desejo da lista, ainda assim complicado, nenhum génio da lâmpada poderia realizar tal vontade.


Deixemos assim o mundo, o país, regressemos a nós. Mas até nesta matéria os desejos simples que antes formulavámos com a maior legitimidade tais como um emprego melhor, até esses se nos afiguram pesados, como desejar um emprego mellhor se tantos não têm nem sequer um?


Quando perdemos a inocência, até desejar é difícil.


Fico-me assim por um desejo dois em um: ainda desejar, oh...ainda desejar fazer tantas coisas.


(Preparação do Pós Doc na América Latina, escrita daquele livro das histórias, estadia nas termas de Budapeste, meia maratona da ponte Vasco da Gama, retoques estéticos não invasivos, apoios para o projecto com P, n mais um passeios com J, n mais uma coisas para certas pessoas que amo tanto ou mais do que a mim própria).


~CC~

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Dois

Dois é quanto basta para fazer calor, mas se mais, melhor. E calor é tudo quanto precisamos para germinar. É o que vos desejo nestes tempos de festa, de fazer festas.


~CC~

terça-feira, dezembro 20, 2011

Um(a)



Palmela, Dezembro de 2012




Às vezes é difícil saber. Saber sim, saber a direcção. Mais fácil é saber dizer não, saber o que recusamos.




~CC~


domingo, dezembro 18, 2011

Dois

Cabo Verde, 2008



Ilha de S. Nicolau (a lembrar Cesária)






~CC~

Um



Palmela, Dezembro 2011

~CC~

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Reverso

As obras na estação duraram quase ano e meio, durante alguns meses nem de noite paravam, presos de uma urgência a todos imperceptível.


Sofremos com o barulho, pó, com a seguradora que nos bateu à porta para examinar se as paredes já tinham rachas antes das obras, para não irmos reclamar depois. Nunca lhes abri a porta, e olho agora para as pequenas fissuras que percorrem os azulezos da cozinha e o hall de entrada.


Suportámos a pensar no Intercidades que nos ligaria a todo o lado mais rápido e aqui mesmo à porta. Tu virias de Sul, eu iria, ambos podíamos ir para Norte, e foi assim que há bem pouco viajei até Viana.


Há uns dias soube que a CP cortará esta cidade da rota do Intercidades, justificando-o com a poupança de meia hora para Sul, seguindo assim a linha que o ALFA já percorre, igualzinha. Olho para a estação remodelada, ampliada, imponente. É assim um país sem planeamento, que risca as cidades médias do mapa, retirando-lhes estações, escolas, hospitais. Sempre foi uma céptica face aos arautos da regionalização, vendo bem como adornaram tudo de rotundas e pavilhões gigantescos...mas isto é demais!


Resumam o país a Porto e Lisboa, cidades ainda assim periféricas, onde se virá para contratar emigrantes para a Europa rica.


~CC~

terça-feira, dezembro 13, 2011

Verso

Pouco a pouco foi desaparecendo a venda de pinheiros a céu aberto nas ruas e nas praças. Frequentemente mal cortados e podendo provocar danos às árvores, ou mesmo arrancadas ainda jovens, esta actividade só nos envergonhava. É verdade que não há nada como o cheiro a pinheiro natural numa casa, e que é ele que ainda invoco nesta altura do ano, mas há que mudar as nossas práticas, e ser inventivos nas trocas.


Na minha infância eram as próprias árvores do Quintal que se invadiam de luzes, numa Àfrica em que a cor e a luz eram sinónimo de alegria e em que isso nada tinha de piroso. Hoje hesito quando olho para esses quintais enfeitados, ambígua nos meus gostos.


Eu tenho uma árvore muito pequenina, criada num quintal do sul, é sem dúvida um pinheiro infantil que por ora quase envergonha, mas tem o encanto de o termos vistos nascer e ainda poder vir a crescer e nos acompanhar a cada Natal. E já gosto dele.


~CC~


domingo, dezembro 11, 2011

Sublinhados nos dias (V)

Ainda ligo a televisão para ver as notícias num dos quatro canais portugueses, mas sou incapaz de me sentar a ver. É um desgosto tão grande.

~CC~

terça-feira, dezembro 06, 2011

Ganhei um pássaro azul

Cresceram-me as asas nestes anos
cada abraço
cada lágrima
cada dúvida
é uma soma feita de um vento agridoce
outra eu
a mesma eu

Ou fui eu que cresci
e agora já sei olhar as minhas asas?

Ou foi um pássaro que tinha preso cá dentro
que resolveu soltar-se
e pousar no dia 5 de Dezembro
resolvido a dizer-me segredos

amiga, diz ele baixinho
sê feliz
despacha isso
vai por aí

tem um ar malandro
mas grave
como uma formiga com voz de cigarra

um guarda rios atencioso

o mais belo pássaro azul

que às vezes faço voar dentro de mim.


~CC~

domingo, dezembro 04, 2011

Contagem decrescente (III)

Oficialmente são menos de 24 horas, ou seja, por esta hora deve estar a acabar. Mas ando a medir mal o tempo, tanto me parece que está a passar rápido, como excessivamente lento.

É também assim com o calor e o frio, que parecem alternar amiúde.

E os velhos fantasmas que resolvem aparecer nestas horas?

Sobra a gargalhada para o melhor conselho que ouvi: é fazer como os pinguins, sorrir e acenar, sorrir e acenar...

~CC~

sábado, dezembro 03, 2011

Contagem decrescente (II)

Imaginação nunca me faltou. Imaginem teses de doutoramento transformadas em temas de carros alegóricos num desfile de tipo carnavalesco e estarão no meio do meu sonho. Até tinha graça.


~CC~

quarta-feira, novembro 30, 2011

Contagem descrescente (I)

Sonhos regressivos face à ansiedade. Ontem respondia a um júri, mas era sobre a matéria de Matemática do Secundário. Hoje novamente o júri, o arguente era um moço louro estranhamente semelhante ao meu primeiro namorado, mas bastante mais prolixo. Freud explicaria, eu prefiro rir-me.


~CC~

terça-feira, novembro 29, 2011

Contagem decrescente

Os orientadores estão confiantes, resta-me assim confiar nos orientadores.

~CC~

domingo, novembro 27, 2011

Sublinhados nos dias (IV)

Discordo do título. O método não é perigoso. É verdade que o médico se apaixona pela doente e vice versa, como já aconteceu com outros médicos, professores e alunos, advogados e clientes...a proximidade gerada numa relação profissional é geradora de inúmeros casos de amor, uns de êxito e outros fracassados, quase sempre atravessados por muitos dilemas.


O método é fascinante, pela primeira vez alguém prescinde de químicos e usa a palavra, a livre associação, a metáfora. Mais, pela primeira vez o médico não cura o doente, é o doente que se cura a si próprio, tudo depende da capacidade e disponibilidade para a viagem. Jung vai mais longe que Freud nessa busca pela autodeterminação de quem se vê doente, e é simultaneamente o que mais erra, o que mais se fragiliza, o que mais duvida...mas, como diz, só alguém ferido pode compreender realmente outro ser ferido. Continuo a admirar a psicanálise, provavelmente o único método que não é perigoso.


Este sublinhado saiu longo, a condizer com os tratamentos analíticos, um dos seus mais proclamados defeitos.


~CC~



Nota: aliás o nome da peça de teatro que o filme se baseia é " The Talking cure"...do dramaturgo e argumentista inglês, nascido nos Açores, Christopher Hampton. É claro, quem nasceu homem das ilhas de bruma...






sábado, novembro 26, 2011

Este díficil colectivo (II)

- Professora, isso de cada um levar a sua loiça...usamos de plástico!
- Então mas não eram vocês que queriam fazer uma conferência sobre 2102 como ano internacional da energia e do planeta sustentável?
- Sim, mas é mais prático...eu não venho com um prato, um copo e um talher de casa?
- Então, pesa muito?
- Não dá jeito...

~CC~

quinta-feira, novembro 24, 2011

Sublinhados nos dias (III)

Geral, geral...é mesmo a desilusão, esse maldito mal, este Outono anda mais negro do que nunca. É preciso dar outros nomes às coisas.

~CC~

terça-feira, novembro 22, 2011

Este difícil colectivo (I)

- Professora, a turma tomou uma posição e não quer fazer o almoço colectivo tipo piquenique.
- Explique...
- Uns depois trazem coisas e outros não trazem...a folha para indicarmos o que trazíamos está vazia.
- Mas quem participa traz alguma coisa para partilhar...
- Estamos sem dinheiro...
- Então não vão comer?
- Sim, mas cada um traz a sua sandes ou vamos ao ...(abstenho-me de publicitar a coisa)
- Então e se você em vez de uma sandes trouxer um pão? Uma fruta...
- Um pão...e como só o pão?
- Só o pão? Não, outros trazem qualquer coisa para pôr no pão..
- Nã...eles não trazem.

~CC~

domingo, novembro 20, 2011

sublinhados nos dias (II)

Senti debaixo dos pés as folhas secas dos plátanos, com a ambivalência de quem se sente parte da matéria morta de um país, e ao mesmo tempo a asa de um voo de um país outro.

~CC~

sexta-feira, novembro 18, 2011

Singularidades masculinas (II)

O homem dos quatro cães pretos faz parte da paisagem da minha cidade. Nasceu já com sessenta anos, com aquele bigode, e com os quatro cães. Ele consegue percorrer com eles distâncias improváveis para qualquer pessoa, e por isso o encontro nos mais diversos sítios. Ele sozinho, outras vezes com a mulher magrinha pendurada no braço, outras com algum amigo que percorre com ele um pedaço do caminho. Esses amigos vão mudando, como se o apanhassem num ponto do percurso e o seguissem para depois virarem mais adiante.


Os quatro cães do homem são de uma raça perigosa e por isso ele leva-os numa trela de quatro, como se fossem ramos de uma mesma árvore. Os cães perigosos são imensamente pachorrentos, lentos, doces. Os quatro cães perigosos sentam-se muito quietos à porta dos cafés onde o homem toma um bagacinho, intimidam a entrada a quem não os conhece, por isso o homem tem amiúde problemas. Já vi quase a lutar com um dos meus vizinhos, batendo-se pelos cães como se fossem a sua dama, já o vi esconder-se (ele e os seus quatro) num segundo mal chamam a polícia, já o vi mudar estratégicamente o caminho para descruzar de outros cães.


Este homem não pode ter tido outra idade, nem feito mais nada na vida.


~CC~








quarta-feira, novembro 16, 2011

Sublinhados nos dias (I)


A inteligência brilha infitamente mais que o dinheiro. O seu sabor desfaz-se muito mais lentamente na boca e o seu calor é coisa que perdura.


~CC~