domingo, dezembro 18, 2011

Um



Palmela, Dezembro 2011

~CC~

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Reverso

As obras na estação duraram quase ano e meio, durante alguns meses nem de noite paravam, presos de uma urgência a todos imperceptível.


Sofremos com o barulho, pó, com a seguradora que nos bateu à porta para examinar se as paredes já tinham rachas antes das obras, para não irmos reclamar depois. Nunca lhes abri a porta, e olho agora para as pequenas fissuras que percorrem os azulezos da cozinha e o hall de entrada.


Suportámos a pensar no Intercidades que nos ligaria a todo o lado mais rápido e aqui mesmo à porta. Tu virias de Sul, eu iria, ambos podíamos ir para Norte, e foi assim que há bem pouco viajei até Viana.


Há uns dias soube que a CP cortará esta cidade da rota do Intercidades, justificando-o com a poupança de meia hora para Sul, seguindo assim a linha que o ALFA já percorre, igualzinha. Olho para a estação remodelada, ampliada, imponente. É assim um país sem planeamento, que risca as cidades médias do mapa, retirando-lhes estações, escolas, hospitais. Sempre foi uma céptica face aos arautos da regionalização, vendo bem como adornaram tudo de rotundas e pavilhões gigantescos...mas isto é demais!


Resumam o país a Porto e Lisboa, cidades ainda assim periféricas, onde se virá para contratar emigrantes para a Europa rica.


~CC~

terça-feira, dezembro 13, 2011

Verso

Pouco a pouco foi desaparecendo a venda de pinheiros a céu aberto nas ruas e nas praças. Frequentemente mal cortados e podendo provocar danos às árvores, ou mesmo arrancadas ainda jovens, esta actividade só nos envergonhava. É verdade que não há nada como o cheiro a pinheiro natural numa casa, e que é ele que ainda invoco nesta altura do ano, mas há que mudar as nossas práticas, e ser inventivos nas trocas.


Na minha infância eram as próprias árvores do Quintal que se invadiam de luzes, numa Àfrica em que a cor e a luz eram sinónimo de alegria e em que isso nada tinha de piroso. Hoje hesito quando olho para esses quintais enfeitados, ambígua nos meus gostos.


Eu tenho uma árvore muito pequenina, criada num quintal do sul, é sem dúvida um pinheiro infantil que por ora quase envergonha, mas tem o encanto de o termos vistos nascer e ainda poder vir a crescer e nos acompanhar a cada Natal. E já gosto dele.


~CC~


domingo, dezembro 11, 2011

Sublinhados nos dias (V)

Ainda ligo a televisão para ver as notícias num dos quatro canais portugueses, mas sou incapaz de me sentar a ver. É um desgosto tão grande.

~CC~

terça-feira, dezembro 06, 2011

Ganhei um pássaro azul

Cresceram-me as asas nestes anos
cada abraço
cada lágrima
cada dúvida
é uma soma feita de um vento agridoce
outra eu
a mesma eu

Ou fui eu que cresci
e agora já sei olhar as minhas asas?

Ou foi um pássaro que tinha preso cá dentro
que resolveu soltar-se
e pousar no dia 5 de Dezembro
resolvido a dizer-me segredos

amiga, diz ele baixinho
sê feliz
despacha isso
vai por aí

tem um ar malandro
mas grave
como uma formiga com voz de cigarra

um guarda rios atencioso

o mais belo pássaro azul

que às vezes faço voar dentro de mim.


~CC~

domingo, dezembro 04, 2011

Contagem decrescente (III)

Oficialmente são menos de 24 horas, ou seja, por esta hora deve estar a acabar. Mas ando a medir mal o tempo, tanto me parece que está a passar rápido, como excessivamente lento.

É também assim com o calor e o frio, que parecem alternar amiúde.

E os velhos fantasmas que resolvem aparecer nestas horas?

Sobra a gargalhada para o melhor conselho que ouvi: é fazer como os pinguins, sorrir e acenar, sorrir e acenar...

~CC~

sábado, dezembro 03, 2011

Contagem decrescente (II)

Imaginação nunca me faltou. Imaginem teses de doutoramento transformadas em temas de carros alegóricos num desfile de tipo carnavalesco e estarão no meio do meu sonho. Até tinha graça.


~CC~

quarta-feira, novembro 30, 2011

Contagem descrescente (I)

Sonhos regressivos face à ansiedade. Ontem respondia a um júri, mas era sobre a matéria de Matemática do Secundário. Hoje novamente o júri, o arguente era um moço louro estranhamente semelhante ao meu primeiro namorado, mas bastante mais prolixo. Freud explicaria, eu prefiro rir-me.


~CC~

terça-feira, novembro 29, 2011

Contagem decrescente

Os orientadores estão confiantes, resta-me assim confiar nos orientadores.

~CC~

domingo, novembro 27, 2011

Sublinhados nos dias (IV)

Discordo do título. O método não é perigoso. É verdade que o médico se apaixona pela doente e vice versa, como já aconteceu com outros médicos, professores e alunos, advogados e clientes...a proximidade gerada numa relação profissional é geradora de inúmeros casos de amor, uns de êxito e outros fracassados, quase sempre atravessados por muitos dilemas.


O método é fascinante, pela primeira vez alguém prescinde de químicos e usa a palavra, a livre associação, a metáfora. Mais, pela primeira vez o médico não cura o doente, é o doente que se cura a si próprio, tudo depende da capacidade e disponibilidade para a viagem. Jung vai mais longe que Freud nessa busca pela autodeterminação de quem se vê doente, e é simultaneamente o que mais erra, o que mais se fragiliza, o que mais duvida...mas, como diz, só alguém ferido pode compreender realmente outro ser ferido. Continuo a admirar a psicanálise, provavelmente o único método que não é perigoso.


Este sublinhado saiu longo, a condizer com os tratamentos analíticos, um dos seus mais proclamados defeitos.


~CC~



Nota: aliás o nome da peça de teatro que o filme se baseia é " The Talking cure"...do dramaturgo e argumentista inglês, nascido nos Açores, Christopher Hampton. É claro, quem nasceu homem das ilhas de bruma...






sábado, novembro 26, 2011

Este díficil colectivo (II)

- Professora, isso de cada um levar a sua loiça...usamos de plástico!
- Então mas não eram vocês que queriam fazer uma conferência sobre 2102 como ano internacional da energia e do planeta sustentável?
- Sim, mas é mais prático...eu não venho com um prato, um copo e um talher de casa?
- Então, pesa muito?
- Não dá jeito...

~CC~

quinta-feira, novembro 24, 2011

Sublinhados nos dias (III)

Geral, geral...é mesmo a desilusão, esse maldito mal, este Outono anda mais negro do que nunca. É preciso dar outros nomes às coisas.

~CC~

terça-feira, novembro 22, 2011

Este difícil colectivo (I)

- Professora, a turma tomou uma posição e não quer fazer o almoço colectivo tipo piquenique.
- Explique...
- Uns depois trazem coisas e outros não trazem...a folha para indicarmos o que trazíamos está vazia.
- Mas quem participa traz alguma coisa para partilhar...
- Estamos sem dinheiro...
- Então não vão comer?
- Sim, mas cada um traz a sua sandes ou vamos ao ...(abstenho-me de publicitar a coisa)
- Então e se você em vez de uma sandes trouxer um pão? Uma fruta...
- Um pão...e como só o pão?
- Só o pão? Não, outros trazem qualquer coisa para pôr no pão..
- Nã...eles não trazem.

~CC~

domingo, novembro 20, 2011

sublinhados nos dias (II)

Senti debaixo dos pés as folhas secas dos plátanos, com a ambivalência de quem se sente parte da matéria morta de um país, e ao mesmo tempo a asa de um voo de um país outro.

~CC~

sexta-feira, novembro 18, 2011

Singularidades masculinas (II)

O homem dos quatro cães pretos faz parte da paisagem da minha cidade. Nasceu já com sessenta anos, com aquele bigode, e com os quatro cães. Ele consegue percorrer com eles distâncias improváveis para qualquer pessoa, e por isso o encontro nos mais diversos sítios. Ele sozinho, outras vezes com a mulher magrinha pendurada no braço, outras com algum amigo que percorre com ele um pedaço do caminho. Esses amigos vão mudando, como se o apanhassem num ponto do percurso e o seguissem para depois virarem mais adiante.


Os quatro cães do homem são de uma raça perigosa e por isso ele leva-os numa trela de quatro, como se fossem ramos de uma mesma árvore. Os cães perigosos são imensamente pachorrentos, lentos, doces. Os quatro cães perigosos sentam-se muito quietos à porta dos cafés onde o homem toma um bagacinho, intimidam a entrada a quem não os conhece, por isso o homem tem amiúde problemas. Já vi quase a lutar com um dos meus vizinhos, batendo-se pelos cães como se fossem a sua dama, já o vi esconder-se (ele e os seus quatro) num segundo mal chamam a polícia, já o vi mudar estratégicamente o caminho para descruzar de outros cães.


Este homem não pode ter tido outra idade, nem feito mais nada na vida.


~CC~








quarta-feira, novembro 16, 2011

Sublinhados nos dias (I)


A inteligência brilha infitamente mais que o dinheiro. O seu sabor desfaz-se muito mais lentamente na boca e o seu calor é coisa que perdura.


~CC~

sábado, novembro 12, 2011

Singularidades masculinas (I)

Ele escolheu primeiro o ângulo do café onde podia vê-la dentro da loja. E ali esteve, o café a arrefecer na mesa, o corpo gelado, o olhar fixo. Mas ainda a via muito ao longe. Ele levantou-se e ficou em frente à montra da loja dela, disfarçando por breves momentos a sua fixação na rapariga com a análise das malas da estação. Mas ela não se mexia por trás do balcão, ignorando a sua presença. Ele colocou-se então bem no meio da porta da entrada, forçando quem queria entrar a contorná-lo. Era grande o rapaz, parecia um urso acossado, um bicho perdido. Não havia palavras, esta coreografia era vivida em silêncio.



Até que a rapariga se mexeu por trás do balcão e veio quase até à porta, fez o gesto de o enxotar, um pedido angustiado para que se fosse dali. As colegas evidenciaram um riso nervoso. O rapaz não se mexeu, parado à entrada da loja, o olhar fixo na rapariga.



De repente já não era romance o que se desenhava mas sim tragédia. Tive algum receio pela rapariga. Mais ainda por aquele rapaz cujos olhos tinham tanto vazio, quase loucura. Pensei nos seguranças, que talvez devesse chamá-los, alguma coisa não batia certo entre aquele rapaz e aquela rapariga.



Baixei os olhos por momentos para a minha leitura. Quando os levantei não o vi a ele, nem a ela dentro da loja. Ponderei a hipótese de estar com alucinações. Ou de me ter cruzado com mais uma história de que não saberia o fim.



Certo é o receio dos rapazes que amam em excesso, com aquele vazio dentro dos olhos, quase sempre desembocando numa faca, num tiro de pistola, na morte de uma mulher.




~CC~

sexta-feira, novembro 11, 2011

Singularidades masculinas

Ele dança, mesmo sem nunca ter dançado. Basta colocar o seu coração no sítio certo, e conseguirá ser uma das cinquenta pessoas, pessoas especiais.


Mais aqui: http://www.teatromunicipaldefaro.pt/teatro/programacao/evento.asp?id=1016


~CC~



quinta-feira, novembro 10, 2011

Aparência

O gmail insiste para que mude para a nova aparência e comente como é que me estou a sentir.

Resisto, estou habituada a ver-me assim ao espelho, não obstante as olheiras mais e mais extensas e um certo brilho no olhar que só aparece agora em dias mais luminosos e dentro de certos abraços.

~CC~

terça-feira, novembro 08, 2011

Neruda na minha aula

Às vezes perco-me um bocadinho nas aulas, justamente naquelas em que tenho segurança sobre os conteúdos a abordar. Viajo até lugares, até pessoas, histórias, projectos. Queria estender-lhes o mundo diante deles para perceberem que é muito grande, muito diverso, muito e infinitamente rico. Aparecem inadvertidamente umas poeiras nos olhos porque uma pessoa não chora nas aulas e por isso são só estrelas. Hoje uma aluna disse com admiração: como é que sabe tantas coisas...e eu olhei-a e era uma miúda.


E respondi-lhe que não era assim, que tinha apenas mais trinta anos que ela. Mas devia também ter dito: trinta anos de muito movimento, trinta anos de busca, de partidas e chegadas, de querer ver, de querer saber. Trinta anos a vencer dia a dia a timidez até me esquecer dela. E só me veio à cabeça a frase do Neruda na sua biografia: confesso que vivi.


Mas mal esta frase me ocorreu, apareceram ainda as coisas que estão por viver.


Desenhou-se diante de mim o oceano e esse continente além Atlântico em que nunca pisei. Fechei os olhos: Chile, Argentina, Equador, Brasil. Não se trata de turismo, mas de estar e conhecer as pessoas.


Confesso que ainda tenho que viver.


~CC~