terça-feira, novembro 29, 2011

Contagem decrescente

Os orientadores estão confiantes, resta-me assim confiar nos orientadores.

~CC~

domingo, novembro 27, 2011

Sublinhados nos dias (IV)

Discordo do título. O método não é perigoso. É verdade que o médico se apaixona pela doente e vice versa, como já aconteceu com outros médicos, professores e alunos, advogados e clientes...a proximidade gerada numa relação profissional é geradora de inúmeros casos de amor, uns de êxito e outros fracassados, quase sempre atravessados por muitos dilemas.


O método é fascinante, pela primeira vez alguém prescinde de químicos e usa a palavra, a livre associação, a metáfora. Mais, pela primeira vez o médico não cura o doente, é o doente que se cura a si próprio, tudo depende da capacidade e disponibilidade para a viagem. Jung vai mais longe que Freud nessa busca pela autodeterminação de quem se vê doente, e é simultaneamente o que mais erra, o que mais se fragiliza, o que mais duvida...mas, como diz, só alguém ferido pode compreender realmente outro ser ferido. Continuo a admirar a psicanálise, provavelmente o único método que não é perigoso.


Este sublinhado saiu longo, a condizer com os tratamentos analíticos, um dos seus mais proclamados defeitos.


~CC~



Nota: aliás o nome da peça de teatro que o filme se baseia é " The Talking cure"...do dramaturgo e argumentista inglês, nascido nos Açores, Christopher Hampton. É claro, quem nasceu homem das ilhas de bruma...






sábado, novembro 26, 2011

Este díficil colectivo (II)

- Professora, isso de cada um levar a sua loiça...usamos de plástico!
- Então mas não eram vocês que queriam fazer uma conferência sobre 2102 como ano internacional da energia e do planeta sustentável?
- Sim, mas é mais prático...eu não venho com um prato, um copo e um talher de casa?
- Então, pesa muito?
- Não dá jeito...

~CC~

quinta-feira, novembro 24, 2011

Sublinhados nos dias (III)

Geral, geral...é mesmo a desilusão, esse maldito mal, este Outono anda mais negro do que nunca. É preciso dar outros nomes às coisas.

~CC~

terça-feira, novembro 22, 2011

Este difícil colectivo (I)

- Professora, a turma tomou uma posição e não quer fazer o almoço colectivo tipo piquenique.
- Explique...
- Uns depois trazem coisas e outros não trazem...a folha para indicarmos o que trazíamos está vazia.
- Mas quem participa traz alguma coisa para partilhar...
- Estamos sem dinheiro...
- Então não vão comer?
- Sim, mas cada um traz a sua sandes ou vamos ao ...(abstenho-me de publicitar a coisa)
- Então e se você em vez de uma sandes trouxer um pão? Uma fruta...
- Um pão...e como só o pão?
- Só o pão? Não, outros trazem qualquer coisa para pôr no pão..
- Nã...eles não trazem.

~CC~

domingo, novembro 20, 2011

sublinhados nos dias (II)

Senti debaixo dos pés as folhas secas dos plátanos, com a ambivalência de quem se sente parte da matéria morta de um país, e ao mesmo tempo a asa de um voo de um país outro.

~CC~

sexta-feira, novembro 18, 2011

Singularidades masculinas (II)

O homem dos quatro cães pretos faz parte da paisagem da minha cidade. Nasceu já com sessenta anos, com aquele bigode, e com os quatro cães. Ele consegue percorrer com eles distâncias improváveis para qualquer pessoa, e por isso o encontro nos mais diversos sítios. Ele sozinho, outras vezes com a mulher magrinha pendurada no braço, outras com algum amigo que percorre com ele um pedaço do caminho. Esses amigos vão mudando, como se o apanhassem num ponto do percurso e o seguissem para depois virarem mais adiante.


Os quatro cães do homem são de uma raça perigosa e por isso ele leva-os numa trela de quatro, como se fossem ramos de uma mesma árvore. Os cães perigosos são imensamente pachorrentos, lentos, doces. Os quatro cães perigosos sentam-se muito quietos à porta dos cafés onde o homem toma um bagacinho, intimidam a entrada a quem não os conhece, por isso o homem tem amiúde problemas. Já vi quase a lutar com um dos meus vizinhos, batendo-se pelos cães como se fossem a sua dama, já o vi esconder-se (ele e os seus quatro) num segundo mal chamam a polícia, já o vi mudar estratégicamente o caminho para descruzar de outros cães.


Este homem não pode ter tido outra idade, nem feito mais nada na vida.


~CC~








quarta-feira, novembro 16, 2011

Sublinhados nos dias (I)


A inteligência brilha infitamente mais que o dinheiro. O seu sabor desfaz-se muito mais lentamente na boca e o seu calor é coisa que perdura.


~CC~

sábado, novembro 12, 2011

Singularidades masculinas (I)

Ele escolheu primeiro o ângulo do café onde podia vê-la dentro da loja. E ali esteve, o café a arrefecer na mesa, o corpo gelado, o olhar fixo. Mas ainda a via muito ao longe. Ele levantou-se e ficou em frente à montra da loja dela, disfarçando por breves momentos a sua fixação na rapariga com a análise das malas da estação. Mas ela não se mexia por trás do balcão, ignorando a sua presença. Ele colocou-se então bem no meio da porta da entrada, forçando quem queria entrar a contorná-lo. Era grande o rapaz, parecia um urso acossado, um bicho perdido. Não havia palavras, esta coreografia era vivida em silêncio.



Até que a rapariga se mexeu por trás do balcão e veio quase até à porta, fez o gesto de o enxotar, um pedido angustiado para que se fosse dali. As colegas evidenciaram um riso nervoso. O rapaz não se mexeu, parado à entrada da loja, o olhar fixo na rapariga.



De repente já não era romance o que se desenhava mas sim tragédia. Tive algum receio pela rapariga. Mais ainda por aquele rapaz cujos olhos tinham tanto vazio, quase loucura. Pensei nos seguranças, que talvez devesse chamá-los, alguma coisa não batia certo entre aquele rapaz e aquela rapariga.



Baixei os olhos por momentos para a minha leitura. Quando os levantei não o vi a ele, nem a ela dentro da loja. Ponderei a hipótese de estar com alucinações. Ou de me ter cruzado com mais uma história de que não saberia o fim.



Certo é o receio dos rapazes que amam em excesso, com aquele vazio dentro dos olhos, quase sempre desembocando numa faca, num tiro de pistola, na morte de uma mulher.




~CC~

sexta-feira, novembro 11, 2011

Singularidades masculinas

Ele dança, mesmo sem nunca ter dançado. Basta colocar o seu coração no sítio certo, e conseguirá ser uma das cinquenta pessoas, pessoas especiais.


Mais aqui: http://www.teatromunicipaldefaro.pt/teatro/programacao/evento.asp?id=1016


~CC~



quinta-feira, novembro 10, 2011

Aparência

O gmail insiste para que mude para a nova aparência e comente como é que me estou a sentir.

Resisto, estou habituada a ver-me assim ao espelho, não obstante as olheiras mais e mais extensas e um certo brilho no olhar que só aparece agora em dias mais luminosos e dentro de certos abraços.

~CC~

terça-feira, novembro 08, 2011

Neruda na minha aula

Às vezes perco-me um bocadinho nas aulas, justamente naquelas em que tenho segurança sobre os conteúdos a abordar. Viajo até lugares, até pessoas, histórias, projectos. Queria estender-lhes o mundo diante deles para perceberem que é muito grande, muito diverso, muito e infinitamente rico. Aparecem inadvertidamente umas poeiras nos olhos porque uma pessoa não chora nas aulas e por isso são só estrelas. Hoje uma aluna disse com admiração: como é que sabe tantas coisas...e eu olhei-a e era uma miúda.


E respondi-lhe que não era assim, que tinha apenas mais trinta anos que ela. Mas devia também ter dito: trinta anos de muito movimento, trinta anos de busca, de partidas e chegadas, de querer ver, de querer saber. Trinta anos a vencer dia a dia a timidez até me esquecer dela. E só me veio à cabeça a frase do Neruda na sua biografia: confesso que vivi.


Mas mal esta frase me ocorreu, apareceram ainda as coisas que estão por viver.


Desenhou-se diante de mim o oceano e esse continente além Atlântico em que nunca pisei. Fechei os olhos: Chile, Argentina, Equador, Brasil. Não se trata de turismo, mas de estar e conhecer as pessoas.


Confesso que ainda tenho que viver.


~CC~

domingo, novembro 06, 2011

Bom dia

Já ninguém diz bom dia quando entra no café, num transporte público, numa sala de aula. Já quase ninguém o diz em algum lado.

Sobram as aldeias e algumas vilas onde os velhotes nos cumprimentam amavelmente com os seus gestos lentos e gentis.

E agora que a C me convida para nos encontrarmos mais cedo com os Domingos caminhando, recebemos dúzias de bons dias dos ciclistas com os quais nos cruzamos. E é bom.

~CC~

sábado, novembro 05, 2011

O essencial (II)

Viajei com R há cerca de três anos para um seminário em Itália, ambas tínhamos participado num projecto comum de uma ONG portuguesa, em sintonia com outras ONG no mundo, no término desse trabalho tinham decidido partilhá-lo e traçar novos rumos. Guardei de R apenas o nome, a imagem de uma mulher empenhada, como tantas outras com quem nos cruzamos nessas rotas. Mais tarde, no início deste Verão, a mesma ONG convidou-me para ir a uma reunião deles. Vou porque gosto da forma como eles trabalham, se juntam e conversam. Geralmente não almoçam em restaurantes nem alugam salas em hoteis, é tudo muito caseirinho, com comida feita por ali e uma sede que se transforma num ápice num espaço de encontro. Andam com as cadeiras às costas entre a sala de reunião e a improvisada sala de refeições. E todos participam, todos falam, o que é espantoso para quem conhece o mundo académico como eu, e sabe qual é nível de participação que os seminários aí organizados costumam ter.




R escreveu-me há cerca de dois meses, propondo-me que fosse à escola dela apresentar um documento no qual eu tinha participado como elemento de uma equipa. Falei-lhe em dois caminhos, um o das inevitáveis burocracias, e outro informal, em que tudo se poderia desenhar mais velozmente. Escolheu o segundo. E foi assim que esta Quarta Feira fui a caminho do Alentejo. Esperava-me para um almoço acolhedor numa tasquinha no meio do campo, a preços módicos e com comida caseirinha. Ela e o marido (eu e o meu rapaz) , deixando assim que estas fronteiras que costumamos colocar entre a vida profissinal e a privada se possam esbater sem que fiquemos por isso menos profissionais.



E não necessitámos de qualquer tipo de transacção monetária, eles convidaram, eu fui porque quis, afinal o voluntariado que nos sai da alma não dói.



Tudo simples, verdadeiro, escorreito. É isso o essencial.




~CC~

terça-feira, novembro 01, 2011

O essencial

A crise ensina-nos algumas coisas. Não tudo como eles querem. Não para nos convencer que somos culpados de nos terem convencido que deveríamos entrar na categoria de proprietários das casas em que vivemos. Já os meus pais que praticamente toda a vida foram arrendentários, desejavam não o ser. Incentivaram-nos o mais possível ao consumo, agora criticam-nos. A verdade é que por causa da crise começamos a pensar melhor no dinheiro que temos e no modo como o gastamos, é talvez a única coisa positiva.


Um sábado no cinema em zona nobre Lisboeta. Eu comprei bilhete combinado, um almoço tardio com filme incluído, dois em um permitiu-me poupar nas duas coisas. Depois os avós e os netos. Um casal de avós ainda novos e quatro rapazinhos entre os 4 e os 11 anos. Sentaram-se ao meu lado, os avós com um chá para cada um e os meninos cada um com a sua sandes trazida de casa. A avó trazia ainda uns bolinhos secos. Só os sumos foram comprados ali, mas devidamente repartidos. Não houve pipocas. Quatro bilhetes de cinema, ou seja, seis, custam dinheiro. Mas mais ainda custam os pacotes de pipocas, os maiores são mais caros que os bilhetes. E o que importa é o cinema, não as pipocas.

A conversa saborosa: digam lá, valeu a pena virmos ao cinema? Os meninos em coro com voz fininha: siiiiimmm. Então e já conheciam este herói da BD: o pai tem os livros...E o avô conta histórias sobre a sua infância mergulhada nos livros do Timtim.

O cinema, ainda assim a preços exagerados, e que vão subir mediante a aplicação da nova taxa do IVA aos espectáculos. Encontrarei mais estes avós com os quatro netos?

~CC~

sábado, outubro 29, 2011

As marcas da areia preta (V)

Lembro-vos. Sou uma mulher na metade dos trinta, casada, dois filhos. Sou analista clínica há cerca de 17 anos. A empresa de análises onde sempre trabalhei resolveu abrir uma clínica no Faial, e eu fui destacada como a mais antiga funcionária para ajudar os mais novos por um período de três meses.


Amanhã faz um ano que estou aqui e fui apenas uma vez a Lisboa ver os meus filhos e o meu marido. A culpa é da areia preta da praia de Porto Pim e do mar tépido e quente. A culpa é deste céu sempre a mover-se durante o dia, não há desenhos de cinzento, branco e azul como este. A culpa é de M, um rapaz que me levou ao vulcão. A culpa é de M e da sua estranha forma de vida. Um rapaz livre que acompanha turistas de acordo com as vontades que lhes adivinha no olhar, esse quase menino que só tem presente e não tem futuro. A culpa é da família de M que não lhe desenha um trilho como os meus pais me desenharam, sem nunca me deixar escapar dele. A culpa é do meu presente que se tornou irrespirável. A culpa está nos almoços invariáveis de Domingo em casa da Sogra e das compras de rotina ao sábado de manhã. O meu corpo meio morto deitado ao lado do corpo meio morto do meu marido. Ainda assim sinto falta do corpo quente das minhas duas meninas, dos seus abraços longos na chegada a casa.


Mas a verdade é que nunca fui tão feliz como agora.


~CC~


(fim)






quarta-feira, outubro 26, 2011

Notas soltas numa tarde de chuva

Gosto de ver as pessoas nas conferências, não apenas os conferencistas. Mas desta vez a tempestade fez-me pensar duas vezes na travessia da ponte. Havia transmissão on-line. E mesmo sem ver os rostos, nem ouvir o burburinho, mesmo sem sentir a agitação da plateia, não dei o tempo por perdido. Sentei-me em frente ao computador a ouvir Júlio Machado Vaz (ele na Fundação Calouste Gulbenkian e eu na minha sala com a chuva a bater nas janelas) e com um bloquinho de notas ao lado. Não sei se sou suficientemente fiel às frases que cá ficaram, mas são com certeza muito aproximadas, algumas delas citações dele de outros autores.



" A consciência da morte e a imaginação são os aspectos que nos distinguem ds animais"



"O duplo padrão de socialização (rapazes/raparigas) ainda se mantém relativamente às questões sexuais"



" A internet apenas potencia o lado negro que nos habita" (muito mais sobre o tema como a redefinição que introduz nos conceitos de amizade e privacidade)



" Vivemos numa sociedade saturada de sexo e paupérrima em termos eróticos"



E linda a definição de amor que trouxe do Virgilio Ferreira:


" o amor é uma longa paciência"


Ao que eu li uma casa em permanente construção ou uma vida em perpétua arrumação...e combinando com a tarde: um vento forte que nos desalinha os cabelos.


~CC~


segunda-feira, outubro 24, 2011

Reduções

Primeiro desejamos flores, frescas, saídas do campo ou dos jardins, apanhadas à mão ainda com o orvalho a gotejar. Amanhã pode ser só um ramo comprado numa florista, ou apenas uma rosa. Depois de amanhã já não esperamos flores, sabemos que morrerão em poucos dias, é dinheiro que não valerá a pena. Risquemos as flores do mapa dos desejos. Aceitamos riscá-las.



Primeiro desejamos noites com lua cheia, ficar a vê-la um bocadinho entre dois beijos. Depois vamos esquecendo que ela existe, ligamos a televisão e depois dela a Internet, ou mesmo as duas. Primeiro vemos qualquer coisa juntos, depois e inevitavelmente separados. Lua, mas qual lua, isso é um astro morto, asfixiado entre rotinas. Lá se vão os tolos beijos junto de uma lua ainda mais tola. Aceitamos riscar a lua do mapa dos desejos.



Primeiro desejamos viajar, ver o mundo a quatro olhos, cruzar as ruas e os campos até desmaiar de cansaço num abraço. Mas depois as coisas ficam mais e mais longe, e as pernas já não querem ir, a gasolina é cara, e as noites em colchões desconhecidos matam o sono manso. O café da esquina serve, tem afinal um café igual a todos os outros. A nossa cama também serve, nela se pode fazer a mesma coisa do que em qualquer quarto de pousada ou hotel.



Nem damos conta, ou não queremos dar. E se vemos ao espelho uns olhos mais tristes dizemos que a paixão é coisa que passa e o amor sim, é esta certeza do outro estar ao nosso lado. Ao nosso lado, mesmo que não connosco. Ao nosso lado e chega. Reduzimos, amansamos, e aceitamos que o mapa dos desejos é um papelinho de uma só frase: não quero ficar só.



~CC~



sábado, outubro 22, 2011

E porque hoje é sábado

É de ler

http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.com/2011/10/uma-raiva-nascer-me-nos-dentes.html



~CC~

O rosto da cidade (I)

As cidades respiram com um rosto próprio.


Quando não sabemos das máquinas fotográficas, só podemos usar as palavras, pintá-las com letras ao nosso modo.


Viana tem olhos claros. É uma cidade do Norte que está a sul. É a luz dourada que se espalha nas praças e junto ao rio, não se fecha sobre si própria para se proteger dos ventos frios. É uma cidade de diálogos diversificados que quis, sem conseguir completamente, fugir do falso progresso. Lá está o prédio Coutinho: 5 andares a mais do que a lei permitia, e as fundações sem o suportarem. Um caco de 10 andares numa avenida em que as árvores se abraçam com os troncos para produzir um tunel de sombra.


A visita guiada à cidade, da qual pouco precisaria, mas se integrava no programa do encontro, foi feita a pé. Curiosamente orientada por um alemão inexpressivo, que nos mostrou sem um pingo de emoção, a mais bela biblioteca que existe em Portugal. Até agora a biblioteca de Alcochete estava no topo, mas a de Viana destronou-a, não apenas por ser Siza Vieira, mas por o ser no seu melhor. O edifício está deitado no rio que entra por todas as janelas e se mistura entre a madeira clara e os livros. Ficar aqui.


Sentei-me ali sossegada e deixei-os seguir. O guia alemão não conta as pessoas, aliás nem sei se as vê. Perdoem-me o estereótipo mas este cumpria-o na perfeição.


Dez minutos e a vida a passar-me à frente: e se eu ficasse aqui, e se eu me deixasse mesmo ficar para trás.


E assim começaria uma história.

~CC~

quarta-feira, outubro 19, 2011

Até Viana

Vou atravessar o país até bem longe do meu Sul. Quero ver como estão os rostos das pessoas além Tejo e além Douro. Que bom que o trabalho me conduz para fora das minhas próprias angústias, das minhas paredes.

Vamos ver se além das sombras deste tempo lhes passa também nos olhos a luz do Outono.

O resto vai comigo, a inevitável tristeza de ver o Verão findar.

~CC~

segunda-feira, outubro 17, 2011

canção de embalar para meninos tristes

Pudesse eu usar um trapézio
para me fazer voar

e comigo o dia inteiro
este vazio

é o bicho da seda
enrolado nessa teia de morrer no casulo
ou tecer futuros
romper dias sombrios

que bela borboleta.

~CC~

domingo, outubro 16, 2011

Outra forma de ser gente

Indigno-me todos os dias com o mundo que temos. Quero diferente, quero melhor.



A princípio emocionei-me a sério; a cor, as pessoas, os sorrisos. Desde Timor que não ia a uma manifestação. Depois senti resistência a algumas palavras de ordem um pouco tontas (quem não salta é do governo), depois ri abertamente com os mais jovens (até os meus pais vieram à manif) e depois orgulho pela praça cheia.



Isto é importante, isto não chega. A rua é um bom palco, mas é do trabalho construtivo e criativo que tem que nascer outra forma de se ser gente.




~CC~

quarta-feira, outubro 12, 2011

Serra mãe

Faço fintas às rotinas.

Deixo a miúda na escola e sigo em frente, apanho a estrada directa à Arrábida e paro para tomar um café na praia da Figueirinha.

Não me canso de amar esta serra e estas enseadas azuis, com um estuário tão manso.

Volto pela estrada do campo, o carro mal passa entre as veredas verdes, é quase toda à sombra das árvores. Venço o medo de andar por ali sozinha.

Demorei apenas uma hora, mas o que esta pausa não fez por mim. Volto para trabalhar com o sangue mais puro e um gosto tão grande nesta minha liberdade.

Serra mãe, diria o poeta. Dia 28 tenho um encontro com ele, e deverá estar presente a mais bela viúva que conheço, a única que se diz eternamente casada.

~CC~

domingo, outubro 09, 2011

A forma e o conteúdo

Gosto muito de cinema.

E de música ao vivo.
(sobre isto falarei mais tarde, ou seja, de como festejei o dia da música na casa do povo de St. Estevão)


Gosto destas coisas em sítios pequenos, de preferência fora de centros comerciais, filmes sem pipocas, concertos em que vemos o rosto de quem canta. A forma acaba por ser quase tão importante quanto o conteúdo.


Gostei também por isso bem menos do "Meia noite em Paris" do que do "Assim é o amor", o primeiro visto no cinema Londres em Lisboa(ainda assim, dos únicos livres de pipocas), o segundo no cinema pequenino da minha cidade, o meu cine-paraíso - o cinema Charlot. E o conteúdo de cada um deles combina com o lugar em que o vi. O filme do Woody Allen é um objecto mundano, previsível, que nos arranca gargalhadas combinadas com as dos espectadores do lado. Não repete a Rosa púrpura do Cairo, porque esse era genial e este é apenas interessante. O filme de Mike Mills parece um vídeo caseiro, alguém que resolve gravar as imagens da sua própria vida, da família, dos amigos, do amor, assume connosco a cumplicidade de um diálogo a sós, não rimos todos ao mesmo tempo nem nas mesmas cenas. Estou próxima das personagens de Assim é o Amor, e absolutamente distante daqueles tolos americanos em Paris, cada um mais tonto do que o outro, até a Carla Bruni que não é americana faz uma figurinha sem densidade alguma.


Ainda bem que não ando para aí a atribuir estrelas aos filmes, teria que juntar outros sinais, cuja natureza subjectiva, é um dado assumido. Ainda assim, experimentem o cinema Charlot (só é pena que depois das obras o pequenino café não tenha aberto mais, substituído por uma máquina sem alma).


~CC~

quarta-feira, outubro 05, 2011

5 de Outubro

Em vez de um beijo escarlate, chegou um texto para revisão de provas.

Feriado adiado.

Mas...coração republicano.

~CC~

terça-feira, outubro 04, 2011

Vida

Vê-se no espelho da Zara demoradamente, dentro dos provadores, já depois de experimentar uma blusa de tons avermelhados. Já a tirou mas ainda é preciso perceber se a roupa que hoje traz lhe fica bem, ajeita o cabelo, endireita os óculos, estica os folhos da blusa. Contempla-se como se tivesse 18 anos e fosse ainda a bela moça que já foi. Para ela essa moça ainda está ali.


Que vontade de viver aos 83 anos.


~CC~

sábado, outubro 01, 2011

As marcas da areia preta (IV)

Falei-vos de mim e do meu destino certo.


Falo-vos agora de M, que mal fez 16 anos. Conheci-o na praia de Porto Pim. Não estudava, tinha deixado a escola. Trabalhava às vezes, em coisas incertas. Pequenas coisas incertas. Levava-nos ao vulcão dos capelinhos, guiava-nos pelas ruas da cidade, sabia de caminhos pelo meio das hortênsias e das vacas, atravessava connosco os canais para o Pico e para a Terceira, e sobretudo tinha tempo. Ele vendia o seu tempo, a sua enorme candura, a paixão pelas suas ilhas, um amor tão estranho num jovem da sua idade.


Quando nos conhecia melhor, levava-nos a casa da família. E a mãe fritava filetes de Veja embrulhados em farinha de milho, que acompanhávamos com o vinho do Pico, e terminavámos com um bolo de ananás. Dizia: o meu filho às vezes traz visitas, turistas. No fim da refeição não aceitava dinheiro como pagamento, dizia simplesmente que essas actividades eram com o filho, ele é que tratava dos negócios. Conheci assim uma actividade turística que escapava a todas as catalogações possíveis. É certo que lhe paguei algumas vezes, como se faz a qualquer guia turístico no mundo árabe ou em certos lugares de África. Nunca foi capaz de estabelecer um preço, e dizia que só aceitava o que as pessoas quisessem dar. Nunca fui capaz de calcular se isso aumentava ou não os seus lucros, nem de perceber se ganhava o suficiente para viver. A princípio sentia-me mal, como se fosse uma mulher apanhada a contratar um serviço de acompanhantes masculinos, ainda por cima um adolescente. Depois fui-me esquecendo de tudo, como se despisse a pele dos meus próprios preconceitos.


~CC~



quarta-feira, setembro 28, 2011

Pesadelo

Estou velha.


Uso palavras tais como ritual de dominação e poder para falar das praxes.


Dominação?

Poder?


Eles não sabem o que é, quanto mais conjugar tais palavras medonhas com o divertimento das praxes.


As raparigas tratam-se pior umas às outras do que os rapazes as tratam, o uso da palavra gaja tornou-se corrente, quando era adolescente chorei quando ia a passar e um homem das obras me chamou assim, achei uma ofensa.

Amanhã estarão na minha sala e tenho que desfocar o olhar para não os ver cobertos de farinha, iogurte e outras matérias pegajosas com que andaram sujos e felizes.

Preocupo-me ainda, o que deve querer dizer que não estou velha o suficiente para olhar para o mundo com a indiferença que ele parece merecer. Não, tudo ainda me faz sofrer.

~CC~

quarta-feira, setembro 21, 2011

Fusos horários



Benguela, 2009.



Estas estranhezas do ser.

Amanhã vou nascer em Luanda, estão avisados, já que não tenho FB para anunciar ao mundo que nascem meninas louras e muito branquinhas do outro lado do mundo.

Hoje tocou o telefone, era um convite para ir para lá, de vez (ou quase). Conversas em torno da dupla nacionalidade, deixar tudo.

Não é desta, o coração não bate com aquela certeza. E o dinheiro não é coisa que me chame.

Tempos curtos talvez, será que já é possível tomar banho na praia em Benguela?

Uma cuca na esplanada, mas não tão só como da última vez.

~CC~

segunda-feira, setembro 19, 2011

Pequenas notas

A vertigem de Setembro.

A persistência da crise, menos gente a entrar na escola a cada ano.

Entre o desejo de mar que nunca me larga e os lugares da vindima que me chegam agora no rosto da tua gente.

Os cadernos a acumularem notas, esquemas, ideias para novos rumos, mesmo em tempos já velhos.

Muitos rabiscos de reuniões nos cadernos de capa roxa que comprei para este ano.

E as histórias à espera, tanto tempo penduradas, brancas como os brancos que espreitam mais e mais a cada Outono.

~CC~

terça-feira, setembro 13, 2011

As marcas da areia preta (III)



Quanto tempo temos que esperar para nos surpreendermos a nós próprios? Quando a vida se desalinha, o que fazemos?


Tudo estava arrumado e quieto na minha vida, um destino tão meticulosamente traçado desde a adolescência. Até que enterrei as mãos na areia e levantei os olhos muito devagar, e quando eles se cruzaram com o sol na linha do horizonte, o teu rosto estava ali. Ou talvez eu soubesse há muito o quanto dentro de mim tudo estava desarrumado. Não foste tu, fui mesmo eu. Tu foste apenas a borboleta que passou com as suas maravilhosas asas de mil cores.


~CC~








sexta-feira, setembro 09, 2011

As marcas da areia preta (II)

Alguns seres humanos são atraídos pela semelhança que sentem em relação a outros, uma sintonia que os faz virar o olhar na mesma direcção. Outros seres humanos são fatalmente atraídos pelo que é diferente deles, fascinados pelo olhar lançado em direcções opostas. Haverá cambiantes, matizes, mas são modos antagónicos de sentir o mundo.


Penso nisto na Praia de Porto Pim? Sim. É uma praia pequenina, encaixada entre um bocado de cidade e um morro alto, uma praia com duas entradas e uma enseada sem barcos. E a areia é preta, cola-se aos nossos pés e parece que os deixa sujos. A princípio não fui capaz de me deitar nela.


Mas eu sou atraída pela diferença, e esta praia não fazia parte do meu léxico de mar e sol. Prolonguei assim o curso de formação para uma licença sem vencimento e depois para um emprego temporário. Vim por 15 dias, estou aqui há um ano.


(continua)


~CC~



quarta-feira, setembro 07, 2011

As marcas da areia preta (I)

Os meus 38 anos pesavam de tal modo na minha pele que eu sentia que tinha 80. E foi assim até Porto Pim, não por causa da água tépida que no Verão é uma carícia e no Inverno uma Brisa. Leonor é nome de mulher triste, isso eu sempre soube. Mas a capacidade de inverter o destino tinha-me sempre parecido impossível. Quando começo a contar esta minha história de enamoramento, toda a gente pensa que me apaixonei por um homem em Porto Pim. E há logo quem acrescente ao estás mudada, o encontro com um marinheiro no Bar do Peter. Mas meus amigos não houve marinheiros, em gin tónico, nem passeios ao largo.

É verdade que houve alguém que me abanou o meu mundo, mas foi um rapaz. Não, não passem rapidamente para a fantasia "Morte em Veneza". Não falei em paixão, nem em amor, apenas do enamoramento que ronda as almas perdidas, os destinos estranhamente cruzados. Procuramos a substância capaz de nos salvar sem sabermos exactamente qual é, o sal ou ou açucar que estranhamente nos faltam, ou o potassio, o magnésio, aquela coisa em falta no nosso sangue que o faz adormecer como se para ele não houvesse esperança.


Eu explico-vos mais um pouco: sou técnica de análises clínicas, daí este vício de retratar a composição interna dos nossos fluídos humanos.

(continua)


~CC~

terça-feira, setembro 06, 2011

Segredo

Meu amor, tenho uma coisa importante a dizer-te.
Creio que te lembrarás da roseira anémica do vaso da minha varanda, aquela que sobreviveu com dificuldade a este Inverno e não teve grandes melhoras na Primavera. Reparei hoje que tem um botão, um botão pequenino que faz adivinhar uma rosa vermelha que virá com a lua cheia.
É assim o mundo que nos une.

~CC~

segunda-feira, setembro 05, 2011

Mais Setembro



Não me pesa verdadeiramente a tua ausência, mas lembro-te frequentemente. Este é também o mês em que farias anos, e no dia do teu aniversário pensei em todos os aniversários que não estive contigo. Esforcei-me sem êxito por recordar a última vez em que te vi nesse dia, mas nada, nenhuma memória. Nos últimos anos nem eu te ligava, nem tu me ligavas a mim. E no entanto recordo esta mágoa sem sentir dor, é como se os últimos seis meses da tua vida tivessem trazido anos de ausência, e fixo-me neles, e na paz que o sofrimento te trouxe. A tua mão abandonada na minha, já tão fraca, e esse último sorriso.


~CC~

sábado, setembro 03, 2011

É Setembro


Como pude eu nascer num mês em que o Verão se despede?

Nasci no hemisfério sul, logo estou perdoada, está tudo explicado. Em Setembro, por lá não há despedida do mar. Um banho de mar é um milagre.

Mas aqui e agora é a nostalgia da retoma dos dias, e esta sombra que teimam em impor-nos.

Nas ruas não há protestos, mas dentro de nós há uma agonia teimosa a inflitrar-se entre o aumento do IVA, o desconto dito solidário no 13º mês e o fim das deduções na área da Saúde e da Educação no IRS. Ainda fico a pensar no que terá o governo contra os solteiros...a bem da familia, pois. As reportagens da crise, todos os dias, a toda a hora. E essa pergunta teimosa a martelar-nos, o que vamos exactamente fazer, para onde estamos a ir? E ninguém a responder, nada de convicente.

O ano começa bem, reunião de emergência para análise dos cortes na área da Educação que afectarão o orçamento da escola. A minha empregada que se foi embora no final do Verão ao final de apenas um ano de estadia, depois de anos a fazer tudo sozinha. A miúda com aulas de tarde no 10º ano, a adivinhar uma curiosa luta pelas manhãs.

Não, nem pensem que vou despedir-me do Verão. Ou se for, é muito lentamente.

E ainda esta palavra de combinação com Outono : resiliência.

E esta outra: grito. Grito, mesmo baixinho. Depois respira-se melhor.

~CC~





terça-feira, agosto 23, 2011

Entardecer no final do Verão


Há muito vento a sul, apesar do sol. Um vento que varre a areia da praia e a levanta no ar para se colar às nossas costas e invadir as toalhas. Um vento que enrola ondas grandes no mar quente. Os chapéus de sol fecharam-se. Resistimos como podemos, ficarmos é um modo de não deixar o Verão acabar já, não queremos.

Do lado da ria o vento é mais fraco, sente-se apenas na força da corrente. Há muitos meninos e meninas fugidos à fúria das ondas da costa. Andam à procura de caranguejos com copos de plástico, e gritam a plenos pulmões quando conseguem finalmente aprisonar um deles no copo: caranguejooooo!!!! Levam aos adultos o produto do seu labor num grande entusiasmo, e eles espreitam para dentro dos copos para murmurar sérios: soltem-no.

A menina dos carrapitos louros com vestido vermelho às bolinhas brancas também gritou caranguejo na sua vozinha sumida de três anos ainda mal feitos, e segue os rapazes para todo o lado como uma sombra. Nenhum deles lhe mostrou o caranguejo, para eles é ainda uma bébé com a qual não se partilham tesouros. Ela fica a ver, e bate palmas quando eles ensaiam acrobacias.

- Vamos correr abraçados?
- Vamos até à água abraçados e depois mergulhamos...
- Ok

A mãe da menina veio tirar-lhe o vestido vermelho das bolinhas brancas, por baixo escondia-se um fato de banho quase tão branco como ela, a menina já pode molhar-se até ao joelho. Algum dia apanhará caranguejos?

~CC~

PS. Prolongar o Verão, eis onde ocupo a maior parte do meu tempo. Não me roubem um dia, uma hora, um minuto....









segunda-feira, agosto 15, 2011

Azul (2)

Angra, Agosto 2011




Azul, também no templo de bem rezar, sempre ao espírito santo, omnipresente feito pedra e cor em qualquer ilha.


~CC~


domingo, agosto 14, 2011

Azul (1)

Lugar da Fonte. Ilha do Pico


Olhos lavados de azul.


~CC~




sábado, agosto 13, 2011

Árvore





Os Dragoeiros crescem lentamente, absorvendo cada ondular do vento atlântico. Trazemos sementes, já a brisa marítima não coube em nenhum sítio, e sem ela...


~CC~



quinta-feira, agosto 11, 2011

Ainda a Cidade


Magma

uma história

(para ~A~ e *JJ*)

Ana e João, 14 anos, deitados nos muros altos que ladeiam a baía de Angra. Ana e João, para eles a sua amizade está inscrita nas coisas que o vento jamais pode levar, por mais forte que sopre.

- Vamos jogar a dizer o que mais detestamos nesta cidade
- Ok
- A loja de bordados da minha mãe.
- A areia preta da praia.
- Estas casinhas dos santos a que chamam Impérios e nem sei porquê.
- O Monte Brasil que não é uma montanha verdadeira como o Pico nem é um vulcão a sério como há no Faial, é só um montesinho de nada que nos faz subir metade da cidade
- Este maldito tempo sempre húmido
- Os sismos, o medo dos sismos!
- Dizem que somos namorados...
- Isso já não faz parte do jogo!
- Mas eu gosto da Rita
- E eu gosto do Rui
- Já viste...são RR...
- Pois...
- Se houver um sismo agora...
- Não vai haver!
- Vai sim, a qualquer momento!
- Onde nos encontramos se houver?
- No Império amarelo, o que fica no cimo desta rua, no início da Freguesia da Sé
- Vens mesmo?
- Apareço, espera-me.


E aconteceu, em 1980, meses depois desta conversa entre a Ana e o João. Poucas foram as casas de Angra que ficaram de pé. João conseguiu ir até ao Império, mas Ana nunca mais apareceu. João procurou-a por toda a cidade assim que pode. Da casa de bordados dos pais dela não sobrou nada, hoje é um café. Da casa onde Ana morava só o Dragoeiro podia falar dela. Assim que fez 18 anos João saiu para estudar, primeiro Lisboa, depois França. E ficou muito tempo sem voltar aos Açores, mas cedeu já adulto, a pedido de vários amigos franceses e das duas filhas pequenas.


Não esperava encontrar Ana no roteiro turistico, mas foi isso que aconteceu. Era geóloga, apaixonada pelos vulcanismo tinha feito a sua formação em Geologia e era responsável por um dos lugares mais procurados pelos Turistas na Ilha Terceira. Nunca tinha saído de Angra. João teve dificuldade em acreditar que nunca mais a tinha visto numa cidade tão pequena, mas ela tinha ido viver uns tempos para casa dos avós nas Doze Ribeiras. Uma amizade pode reatar-se intacta depois de tantos anos?


-Vamos jogar ao jogo onde ficámos?

- Achas que agora adultos conseguimos?

- Sim, não estamos aqui deitados na mesma pedra quente do muro?

- Então diz!

- Porto Pipas é dos mais belos lugares do mundo.

- Pois é.

- E amo esta praia pequenina de areia preta onde as cores das toalhas brilham

- Sem dúvida

- E a água entre o frio e o quente, tem a temperatura mais adequada que há.

- É óptima, as minhas miúdas adoraram.

- E aprendes sobre as plantas do mundo inteiro se subires lá acima ao jardim

- E vês as duas costas da Ilha

- Funcho, funcho em tudo, é do melhor

- Já nem me lembrava do sabor...mas é bom. Espera lá...e o teu medo dos sismos?

- Sim, ainda existe, nunca desaparece.

- Olha que a terra parece que está a tremer um bocadinho...

- Oh, estes é dos pequeninos.


~CC~

Uma cidade

A, primeira letra do alfabeto amor. Agosto 2011


Queres que escolha uma cidade para nascer outra vez? Nascer no meio da vida, já cheia de passado e ainda a balbuciar a palavra futuro. É esta, pode ser aqui.

É esta. Olha bem, vê se consegues qual é, diz-me que sabes porquê.

~CC~


segunda-feira, julho 25, 2011

No trilho do Atlântico








Lembro-me de um lugar onde o corpo se abandonou e o pensamento se encheu de uma tranquilidade sem igual. Dessas férias, há cerca de vinte anos em S. Miguel, trago ainda o travo do chá e o olhar preso de uma praia de areia preta bela e vazia em pleno Agosto. Dizem-me que todas as ilhas, embora tão próximas, são todas diferentes, e que é preciso descobrir cada uma delas com o coração limpo, pronto para se deixar possuir.


É assim que vou.


Saberei gravar as fotos na pele.


~CC~


(a todos os que por aqui passam umas boas férias)

(estarei absolutamente sem internet)


sexta-feira, julho 22, 2011

Terapêutica

Nem preciso de divã, chega um post de quanto em quando.

http://cc-mesfilhas.blogspot.com/

vou arrumá-lo ali na estante do lado, está a precisar de uma organização urgente (mas vou ainda adiar para mais uns tempos).

~CC~

No ligeiro ondular





Aquele dia

naquele dia

pedindo perdão pelas muitas folhas gastas

arrumadas a tinta em 12 exemplares

fotografei-as

altas, grandes, velhas

para me inundar

campo grande




no ligeiro ondular das vozes

que sopravam mansas

as folhas

fechei os olhos

tantas noites por dormir



embalei-me nelas

majestosas.


~CC~


quarta-feira, julho 20, 2011

Pulsação

O tempo interior é outra geografia de horas, minutos e segundos.

Oiço a minha pulsação para me sentir.

A tempestade do mundo envolve-me e arrasta-me sem me tocar. Já gastámos todas as palavras que rimam com crise. Já se escreveu quase tudo. Não sabemos como abrir as janelas.

É como se estivesse a voltar de uma viagem sem nunca ter partido.

E o vento tem estado tão forte, assobia nas noites que tardam a aquecer.

Penso nos livros a colocar na mala de viagem. Penso no mar.

Oiço de novo a minha pulsação, quero tanto sentir-me.

~CC~

sábado, julho 16, 2011

Cinco anos, meses dias, muitas horas...e ainda falta um bocadinho...

Acordei e adormeci nestes cinco anos pensando muitas vezes que não seria capaz, outras tantas determinada a chegar ao fim, obstinada. Na verdade tudo se assemelha a uma corrida de fundo, é preciso resistir. Daqui a um tempo saberei dizer o que ganhei, agora ainda não consigo.

Ontem depositei 12 exemplares na secretaria da Universidade e inscrevi-me para a prova oral.

E tive saudades da minha ardósia, dos dias a emergir na ponta dos dedos.

E muitas saudades do tempo ser tempo, tempo de estar.

Agora vamos ver.

~CC~

sexta-feira, julho 08, 2011

Em breve

Em breve
as palavras correrão lume
e o meu sangue acordará de tão longo sono.

Em breve
o sabor das coisas
que nenhum Verão chegue mais sem me dizer.

~CC~

segunda-feira, julho 04, 2011

ALMAR (XIII)

Quando a bebé nasceu, o meu olfacto foi completamente tomado pelo cheiro do leite. Foi através desse cheiro que encontrei a minha mãe. O cheiro mais primordial de todos, o do animal que nos resta. Não tinha nenhuma pista por onde começar a procurar. Do acampamento não restava nada.

Primeiro tracei o mapa dos rios do país, o que quer que fosse que restava de Almar não podia estar longe do leito de um rio. Com um círculo azul assinalei as povoações mais próximas desse rio. E depois o cheiro a leite, este cheiro. Os Almar nunca tinham sido pastores, por isso o cheiro a leite era um estranho sinal. Mas era fortíssimo, adocicado, maternal.

Os Almar estariam assim próximos de uma terra de leite, de pastagens, de pastores. Às vezes achava que esse cheiro que não me abandonava era realmente uma pista. Outras vezes que era apenas a minha condição de fêmea a falar. O mais forte dos chamamentos era a vontade de levar a minha menina para junto do meu povo, um tratado de dever imprimido na minha pele. De todas as povoações próximas dos rios, marquei aquelas em que se fabricava leite ou queijo.

Quando lá chegava não procurava pelos Almar, mas por uma ou mais mulheres de cabelos quase vermelhos.


~CC~

sábado, julho 02, 2011

rir contigo


...porque esta noite me apetece rir...


e isso tantas vezes me salvou do desespero.


~CC~

quarta-feira, junho 29, 2011

Um pingo de água

No abandono da ardósia está inscrito este eu em navegação interior pelo deserto de si.

Mais logo, um dia, aquela flor.

Mais além o abraço da palavra.

Mais além do além um banho de mar.

Esperança.

Mesmo no deserto deste mundo em que as estátuas gregas têm lágrimas só visiveis aos amantes da filosofia, esse berço onde nasceu o pensamento. Como se pinta de negro a imagem de um povo, eles hoje, amanhã outros. Gastadores, corruptos, ingeríveis. Será?

Eles, eu, vocês.

Não crescem flores no sangue, é verdade.

Mas basta um pingo de água.

~CC~

quinta-feira, junho 16, 2011

ALMAR (XII)

Somos capazes de esquecer durante muito tempo. O esforço diário de branquear a nossa vida anterior um dia deixa de ser um esforço. Depois queremos lembrar e já não conseguimos, fomos nós que abrimos esse buraco, esse vazio no interior das nossas células. Mudei o meu nome e o meu passado, fiz-me nascer com catorze anos. E do que antes era eu sobrou apenas um brilho avermelhado no cabelo. A transfiguração do eu exige que nos tornemos duplamente o que os outros são. É fácil sobreviver quando queremos muito pouco, apenas ver um dia a nascer atrás de outro dia.


Contornava os lugares onde os rios passavam, não olhava nunca para o mar, não me aproximava de todos os lugares onde se pudessem vender tapetes. E não sei contar-vos nada da minha vida até ao dia em que me encontrei numa cama de hospital, há seis meses atrás. Dizem que dormi cerca de quinze dias, e que não sabia dizer nada de mim, que estava num estado de profunda amnésia. Estava grávida, e tinha 26 anos.


Depois, as primeiras memórias foram as da infância. A velha guardiã das sementes Almar esteve muitas vezes sentada ao meu lado no hospital, silenciosa e sorridente.



Dos doze anos da minha vida fora de Almar não me lembrava de quase nada; apenas de alguns cheiros dos lugares por onde tinha passado.


~CC~

sexta-feira, junho 10, 2011

Vida

A Árvore da Vida, eis o cinema sublime. Afinal ainda não vimos tudo, ainda há coisas por inventar, absolutamente originais.

Seres humanos perdidos neste universo infinito. É verdade que inventamos Deus, como podia ser de outra forma perante tamanha solidão e incerteza? Como podia ser de outra maneira se morrem os que amamos tanto?

Não sendo crente, já o chamei com a mesma voz entre o doce e o desesperado que à vez o chamam os membros desta família.

Repararam que não há nomes próprios no filme?

Apenas

mãe
pai
filho
irmão

carne da nossa carne, parte da nossa parte
maior amor, maior dor.


Deus, eis quem os descrentes como eu chamam nos dias mais escuros, com o peso da traição e a irracionalidade mais pura que habita as nossas células.

Batem fortes as ondas do mar.
Nada sabemos.

Apenas que amamos.
É isso é o melhor de nós.

~CC~

segunda-feira, junho 06, 2011

ALMAR XI

O meu pai foi o primeiro a partir. E ele era alto e forte, mas sobretudo via muito longe. Ele e todos os homens Almar tinham sido treinados a olhar os rios, a olhar pelos rios. A mais pequena alteração na corrente, na coloração da água, nas curvas desenhadas na terra, a mais pequena alteração era anotada na íris. Depois era só mostrar os olhos bem abertos a todos os que ameaçavam os rios, era um olhar de meter medo, um olhar capaz de trazer tempestade a todos os que lhes faziam frente.


Os homens corajosos não deviam fugir, nem adoecer, e muito menos morrer. Era isso que eu pensava e, por isso, não podia compreender como é que todas essas coisas nos tinham acontecido, como é que os homens Almar tinham sido dizimados em vida pelo oídio da própria civilização. Não conseguia perceber como é que as mulheres Almar tinham deixado de ser altivas e de ter os cabelos da cor da tinta dos tapetes, e tinham ficado mortiças, tisnadas do trabalho dos campos ou brancas, da cor das casas dos senhores. Não percebia como é que depois dos primeiros tempos de resistência elas foram fazer o impensável, trabalhar na apanha da azeitona, estender a roupa nas casas alheias, pastar as ovelhas pelas manhãs de orvalho. Eu era uma adolescente e tinha começado a odiar o meu povo com o mesmo fervor que o tinha amado na minha infância.

A minha pirâmide era um mar de sombra e tumulto, e o meu coração batia descompassado. É verdade que ainda havia acampamento quando eu parti, mas não era mais um céu azul de lonas a brilhar nas noites de lua cheia, era apenas um monte de farrapos, incapaz de resistir ao vento.

domingo, maio 29, 2011

Da (tua) saudade

Pequena interrupção na história ALMAR apenas para vir falar de saudade.
(voltará, e depois dela, eu voltarei também um dia)

A saudade é matéria fisica, é coisa que ocupa corpo. É uma boca sem o seu beijo É um só rodando na pista do baile. É lá em baixo o largo da cidade vazio, por nós não estarmos lá.

Não quero parar para ver o crepúsculo porque não há com quem falar das cores.

A saudade é tão indefinida como de repente ganha voz e canta como tu me cantas quando acordas nas manhãs soalheiras do Sul e vais buscar a viola. É esse povo pequenino que sou eu, que és tu.

A saudade sou eu, uma boca sem o teu beijo.

~CC~

quarta-feira, maio 25, 2011

ALMAR (X)

Um homem Almar. Depois de eles terem morrido pouco a pouco de uma doença sem nome, procurei sempre encontrar um. Não, não é verdade. Às vezes esqueci-me eu própria da tribo a que pertenci e amei outros homens que em nada se assemelhavam ao que procurava. Ao que procurei sempre mesmo quando deixei de procurar.

Os homens Almar estavam longe da perfeição dos príncipes, mas eram alegremente como as árvores. Davam sombra, alojavam pássaros, viajavam sem sair do mesmo lugar, morriam sem água, tinham braços compridos, bons para o amor. Amar em Almar era procurar o melhor leito do rio para ver com o outro a limpidez da água. Havia também o crepúsculo, o modo de se esperar por ele, a melhor altura do dia para o amor na pele. Eu vi o amor em Almar, mas cresci já na sua perda, por dentro do seu fim. Mas tudo o que se inscreve na nossa memória tece dentro de nós a teia da qual não poderemos sair.


~CC~

sábado, maio 21, 2011

ALMAR (IX)

Menina Almar que eu fui até as roupas estalarem junto ao meu peito mulher, sonhei sempre. Sonhei com um espantalho de espantar a tristeza dos olhos da minha mãe. Hoje olho o meu rosto no espelho: é igual ao da minha mãe. Sonho na mesma com esse espantalho.

~CC~

sábado, maio 14, 2011

ALMAR VIII

A mulher mais velha que guardava as sementes dos Almar - o tesouro do meu povo - nas palavras que tinha dito em voz baixa anunciava a ruptura que chegaria mais tarde, no final da minha adolescência. Para ela cada um dos meus sonhos colado a cada uma das sementes Almar era apenas o meu sonho, tinha o valor ínfimo de uma entre muitas possíveis coisas.


Soube nesse dia que não era eu a arquitecta do destino Almar porque esse estaria nas mãos de quem soubesse ler e não de quem soubesse construir, não de quem, como eu, desenhava na areia com tanta inquietude. E eu não lia bem. Nesse tempo tinha essa dolorosa consciência de que me era mais importante escutar-me do que escutar os outros, mas não a generosidade suficiente para mudar. Mais, nesse tempo soube que a ruptura entre mim e o meu povo residia nesse modo de olhar o colectivo, na recusa em deixar moldar a forma do meu corpo pela do sangue quente que lhe tinha dado origem. No modo como ela, a mulher velha me reduziu a um ponto no universo dos pontos, começou aí a minha viagem. Mas eu não queria, nunca quis que o meu povo se tornasse fugitivo e mais transparente que o próprio vento.


O que me revoltava era eu ter e dizer quais os meus sonhos para as sementes enquanto muitas outras ficavam caladas quando se lhes perguntava ou diziam: não sei. Algumas das minhas companheiras usavam uma variante mais sábia: ainda não sei. E quando eu gritava: eu tenho sonhos, ideias para as sementes, era frequente que o riso nascesse entre as mulheres mais jovens. Mais realistas que eu, afirmavam que sonhar as sementes era apenas um modo da mulher velha nos por à prova, porque o que era cada semente e o que dela nasceria, isso já se sabia há muito.


Nos meus pesadelos de menina eu tomava as sementes com o resto da água de um rio, com a última água de alguma das nossas fontes, engolia-as todas numa noite escura e depois, mesmo querendo saber o que eram, eu já não podia.


~CC~


segunda-feira, maio 09, 2011

ALMAR VII

Eu, como todas as crianças Almar queria guardar um dia as sementes. Perguntei à mulher velha sobre os meus sonhos para as cinco sementes, queria saber se ela os tinha aprovado, se eles eram bons sonhos, se eles eram uma boa pele para o nosso povo. Ela respondeu que sim, que eu tinha chegado perto do que podia ser o tudo de que precisamos para viver, mas que não sabia se seria eu a guardá-las um dia.

Ela explicou então que quem guardava as sementes era quem melhor traduzia sonhos e não quem os tinha mais ou melhores. A mulher Almar que guarda as sementes é uma tradutora de sonhos. Eu não sabia o que queria dizer a palavra tradução, não entendia inteiramente o sentido dela. Traduzir, como as línguas, descobrir sentidos. Queria que me explicasse mais, mas ela recusou.

Esta conversa ocorreu cerca de três anos antes de os homens Almar terem começado a adoecer por terem perdido o seu emprego de Guarda Rios e, ainda que resistência à dissolução da nossa identidade tenha sido grande, é incerto o nosso destino.

~CC~

sábado, maio 07, 2011

quarta-feira, maio 04, 2011

ALMAR VI


Em Almar, a mulher mais velha de todas guarda o tesouro. Era uma caixa de madeira quase preta com a pirâmide gravada, a mesma que todos nós tínhamos tatuada na mão, logo abaixo do polegar. Esta tatuagem era feita no aniversário dos sete anos, um presente desejado como nenhum outro. E era aos sete por causa da palavra que estava dominada na oralidade e agora deixavam-nos partir para a escrita, a viagem da palavra escrita era a primeira para fora dos territórios da água. Por isso aos sete anos, em terra seca e na entrada para a escola onde nos misturaríamos com todas as outras crianças, era necessário que a pirâmide nos brilhasse no escuro das salas de aula, que nos fizesse companhia. Ganhei o hábito de a esfregar nos momentos difíceis, mas não era um gesto só meu, vi-o noutras crianças Almar. Já adolescente, pensei muitas vezes apagá-la, naquela idade em que só queremos ser diferentes de todos os legados que nos correm nas veias.

E quando esfregar a pirâmide não chega, tento ver com a mesma luz que vi pela primeira vez aos sete anos, o tesouro Almar. Eram sementes lisas e rugosas, escuras e coloridas. Vejo-as dispostas diante de mim perante o sorriso da mulher velha. Vejo o meu espanto por pensar que dentro da caixa só podia haver ouro. E da voz baixa dela e meio rouca a murmurar: das sementes tudo pode nascer. Sim, das sementes tudo pode nascer.

sábado, abril 30, 2011

ALMAR V

Uma criança Almar é como qualquer outra rasgada pelo desejo de saber. Por isso lembrou-me como a resposta da mulher velha não tinha saciado a menina que eu era. Ela indagava: diz-me, diz-me o que pode nascer destas sementes? E a sua voz baixa, quase monocórdica: o que tu quiseres, o que tu quiseres, diz-me o que queres tu. E a criança sem compreender a pensar que aquilo que era um tesouro não podia ser o nada, tinha que ser o tudo.

Uma semente devia dar origem a uma bananeira, porque a banana é como o pão a saciar a fome. Uma semente devia ser uma faísca eterna, capaz de atear o lume em qualquer circunstância, mesmo quando a lenha respira chuva. Uma semente devia ser um isco que atraísse sempre os peixes, mas que ao mesmo tempo nunca se gastasse, permitindo trazer para casa apenas os suficientes para que no mar ainda pudessem sobrar muitos. Uma semente devia dar origem a uma árvore tão grande, tão forte e tão frondosa como um embondeiro, uma árvore como uma casa ou uma casa árvore. E a última semente, a última devia dar a flor de maracujá, uma flor capaz de durar sempre, uma flor sem morte. A mulher velha disse: cada criança Almar tem um sonho para estas cinco sementes e elas são, elas são exactamente todos esses sonhos.


~CC~

terça-feira, abril 26, 2011

ALMAR IV

A tristeza começou nesse dia em que os homens Almar deixaram de ser Guarda-Rios e começaram a morrer de uma doença sem nome.

Ficámos sem terra embora a nossa terra fosse um lugar junto da água. Mas sobraram os panos, os panos das mulheres Almar. E, com eles, elas inventaram outra vez a vida. Levaram-nos para as feiras como sempre tinham feito, mas agora com mais flores, mais peixes, mais luas... eram cortinados, tapetes, colchas e vendiam-se como únicos que eram, cada um diferente do outro.

E nós, crianças Almar, começámos a usar os tecidos para bonecos grandes de espantar a passarada. Éramos nós que fazíamos nascer os espantalhos. Os donos das quintas chamavam-nos porque, por uns tostões, uma fruta, um caldo, um naco de pão com azeitonas, nós pintávamos a paisagem de cor e de poesia.

Cresci criança Almar, pobre como pensava que só nós éramos, mas rendida à mudança da cor da terra em cada estação. E ainda sonho com espantalhos que abrem os braços e dançam para espantar a passarada.


~CC~

domingo, abril 24, 2011

ALMAR III

Um dia a tempestade veio e tomou todo o céu. Lembro-me bem como tudo ficou escuro num instante. O chefe da comarca chamou o meu pai e depois disso nunca mais o vi. O meu pai não voltou mais, não teve coragem de nos vir dizer que os Guarda-Rios tinham que levantar as tendas e partir para sempre, não eram mais necessários, nem aqui, nem em lado nenhum. Os rios, dizia o chefe da comarca, correm sozinhos e não precisam que ninguém os guarde.


Depois disso uma doença foi tomando, um a um, os nossos homens. Só se salvaram os que eram meninos. E nós, as mulheres, embora nessa altura o meu tamanho e o meu coração fossem os de uma menina.


~CC~

sábado, abril 23, 2011

ALMAR II


Eu fui uma criança Almar. Passava horas a ver as formigas desenharem os seus carreiros, tinha as minhas mãos sempre sujas das tintas com que as mulheres tingiam os tecidos e com os restos delas pintava os troncos das árvores.

Eu acreditava que todas as coisas tinham uma alma e podiam falar comigo e achava que o seu silêncio era apenas porque deveria saber esperar os seus sinais. E falava-lhes, eu falava-lhes sempre. Eu sabia que as bonecas de pano só se podiam casar uma vez por mês porque a festa delas era de folhas e flores e eu não devia arrancá-las com frequência. Fecho os olhos e tenho em mim todos os cheiros e sabores da minha infância e quando os abro pergunto pelo que sobrou.

~CC~

sexta-feira, abril 22, 2011

ALMAR I



Eu fiz parte dos Almar. Os Almar são uma tribo simples cuja função é cuidar que os rios cheguem sempre ao mar, velar para que se dê a união necessária das espécies e a fusão do doce com o salgado. No momento em que vos escrevo, o meu povo está em vias de extinção, como uma qualquer outra espécie animal ameaçada. Digo-vos como éramos, como nos perdemos, como somos agora.

Os Almar viviam todos nas proximidades dos estuários, em grandes tendas de lona azul. Os olhos, de cor indistinta, eram líquidos e os cabelos quase vermelhos, por causa das cores de tingir os panos. As mulheres ocupavam muito do seu tempo neste ofício de tirar o branco dos tecidos e depois vendiam-nos como tapetes de flores nas feiras mais próximas. Uma criança Almar procura sempre o curso das linhas azuis nos mapas do futuro e tem na pele um triângulo desenhado com a seiva das árvores.



~CC~



Notas:


1. Uma primeira versão incompleta desta história foi publicada ainda no "ninguém lê" e depois uma parte aqui. Será agora publicada integralmente-um andamento em 22 partes.


2. Nunca fui de participar em concursos literários, mas enviei esta história ao concurso de contos da FNAC pelo enorme incentivo, sobretudo da minha filha. Não ficou entre os cinco primeiros, gostos são gostos e só temos que respeitar, e nada é capaz de tirar o prazer da escrita a alguém que gosta de escrever. Na verdade, a escrita é o outro lugar da minha vida, e nunca o vi como "o lugar" onde queria realmente morar.




quinta-feira, abril 14, 2011

Retiro

Cansaço extremo.

Até breve

~CC~

terça-feira, abril 12, 2011

Do absurdo de algumas tardes

O sol, esse mágico destino que me leva de casa. (antes ficasse)


Não consegui ler uma linha por causa da avaliação que se passava na mesa ao lado. Não, não se tratava da avaliação dos professores, nem tão pouco da avaliação dos alunos. Era apenas uma escala nova de avaliação das universidades inventada por uns machos jovens. Tudo se resume afinal a uma fórmula bem simples: quem tem as mais boas, mais bonitas, e que se deixam "comer" (e acrescentavam "se deixam comer sem serem porcas", e confesso que esta não percebi). Assim, do ISCTE, à Lusofona, ao ISPA, ao ISLA...todas foram avaliadas, sem qualquer juizo de valor entre o ensino público e o privado. Um enorme destaque foi dado a umas veteranas boas que coleccionavam caloiros, o que aumentava a percentagem dos moços desejosos de frequentar a dita universidade.


Já no que diz respeito aos rapazes, seus colegas, a escala também foi minimalista, tratou-se apenas de saber quem tinha "mais paneleiros", factor que obviamente descrescia em muito o mérito atribuído, embora aumentasse as chances com as raparigas.


Há muito que não ouvia nada tão mau. E é esta a nossa tragédia: material humano.


~CC~

sexta-feira, abril 08, 2011

Surpreendentes as manhãs

Os meus sonhos são assim, e por isso ele parecia vindo do meu sonho, apeteceu-me dizer-lhe: espere um bocadinho que quero ver se é real. Que diriam se ainda antes das 9 da manhã vos aparecesse um homem jovem, de cabelo comprido, todo vestido de preto, montado num cavalo branco? E ainda sorria, marchando lado a lado com os carros da maior avenida da cidade.


A mulher aperta o botão da blusa da frente, na qual o talhante está fixo. Fixa-lhe os olhos e desce até a blusa e faz novamente este percuro várias vezes. Ela, muito calma, trata-o pelo nome. Nnehum deles sorri, estão ali algum tempo numa espécie de hipnotismo mediado por costeletas de porco e bifes de perú. Eu assisto, mas na realidade sou transparente, nenhum deles olha para mim.


A caixa atrapalha-se com o código dos morangos, chama uma outra funcionária pelo telefone, mas a da padaria responde-lhe: eu vou! É que sei de cor o código dos morangos. E assim é, são só 7 numerozinhos que ela decorou. Um talento perdido provavelmente.


Uma grande algazarra no café, passo por perto, e vou ao multibanco paredes meias. Discutem muito alto, penso comigo que devem estar a discutir a situação do país, tenho um pensamento deveras positivo, penso que esta crise trouxe outra vez para a rua a discussão das políticas. Mas depois apuro o ouvido: ah, afinal discutem futebol. Está tudo como dantes.


~CC~






quinta-feira, abril 07, 2011

Breves os instantes




Atravesso o Alentejo presa pelas estevas, essa longa manta branca que me sabe a todos os abraços de que os meus olhos precisam.


São breves e feitos de nada os instantes felizes.


~CC~

segunda-feira, abril 04, 2011

Da Lezíria

(esta maldita falta de tempo que só me dá tempo para ir às coisas de quando em quando, e já pouco me deixa escrever sobre elas)


VALE (Teatro da Trindade, Domingo de há quinze dias)


Vi, sentada nas escadas do teatro a abarrotar, com os olhos abertos de espanto, que no fim estavam molhados, a lezíria inteira num palco.


Os bailarinos eram cavalos, bezerros, e bois, e estavam à solta no prado, em poses de zanga e namoro, mansos em dias de sol, e perturbados sempre que a tempestade lhes chegava ao sangue. Os corpos dos bailarinos eram a arte da transformação. E quando eles se vestiam, projectavam nas suas roupas, as imagens de uma terra toda ela um horizonte. Não estavam, porém, sós, os seus olhos que tinham ido ao vale, tinham deles trazido outras mãos, outros rostos, o verdadeiro povo da lezíria. Tinham dançado juntos, armando uma teia corpos perfeitos e corpos imperfeitos, num baile único pelo qual a banda puxava, como se de uma matiné de Domingo se tratasse.


E os que sempre dançaram no palco, juntos aos que sempre dançaram no vale, o suor pingado do esforço de moldar o corpo, e o suor da lida dos animais, tornaram-se gotas de água brilhando no escuro.

E quanto tudo acabou, a ovação do teatro foi gigantesca, tão grande que julguei que a partir da energia das palmas o mundo se poderia tornar outra coisa.


(Parabéns Madalena Vitorino

Parabéns ao Teatro da Trindade

Parabéns aos bailarinos e não bailarinos, todos eles um espanto)


(neste país equiparado a lixo, que coisas belissímas existem)


~CC~

sexta-feira, abril 01, 2011

Resgate

O país foi resgatado. Não haverá assim mais problemas com o cartão de cidadão nas próximas eleições. Permanece oculto o resgatador. Façam-se apostas para além da banalidade do FMI, sejam criativos.


~CC~

quarta-feira, março 30, 2011

Ainda há vida no quintal (resistindo às agências de rating)

Lírios a chamar sol
Nêsperas a amadurecer
Flores a anunciar pêssegos


~CC~

sábado, março 26, 2011

Praça do Brasil

Há uma semanas telefonaram-me. E a senhora dizia simplesmente: é da praça do Brasil. E repetia-o incansavelmente sempre que eu voltava a perguntar: sim, mas de onde?

Ela tinha razão, a praça Brasil é um universo inteiro. É este país no que ele tem de melhor e pior. É-o por causa das árvores velhas mas ainda belas, dos sem abrigo que povoam os bancos, dos muitos pombos que ajudam à decrepitude dos prédios dos anos 60, metade deles habitados por reformados, e a outra metade alugados a quem não pode comprar casa, muita gente de outros lugares, mescla de chineses, brasileiros e países do leste. As casas perderam valor, e não se vendem. As lojas da zona são exemplares do momento que atravessamos, um minipreço, uma merceeria antiga, três lojas dos chineses que antes apregoavam ser dos trezentos e agora passaram a ter nome de boutiques, e muitos cafés de bairro, três na própria praça e mais uns três ou quatro nas proximidades. A pobreza tem aqui inteiros todos os seus rostos. E no entanto, este é o meu povo no seu melhor.

As velhas senhoras do Minipreço cumprimentam as empregadas por minha menina está tão linda esta manhã. E elas devolvem o cumprimento com um sorriso perguntando pela saúde e pelos netos enquanto lhes arrumam as compras no saco que elas trazem de casa e enfiam os talões de desconto numa carteirinha à parte que deve trazer sempre. Na merceeria os morangos ainda sabem a terra de Palmela, porque aqui não há dos que parece que foram injectados com ar e não sabem a nada. E enquanto a senhora de cara redonda arruma os morangos, a neta chinesa, dois olhos pretos lindos, diz-nos olá, e puxa conversa falando um português sem mácula. Eu vim com a minha avó, diz sorrindo.

E a senhora que liga da praça Brasil como quem liga do universo, ligou para me dizer que embora com um mês de atraso, lá estava o DVD que o Pialat fez sobre o Van Gogh, e que não devemos desitir nunca do que queremos. Nunca, minha senhora.
~CC~

sexta-feira, março 25, 2011

Fora de moda

Chamam heróis àqueles homens do fatos brancos, despidos de tudo, a apagar as chamas das centrais nucleares. Anos antes nem fatos, no Verão quente da Ucrania, foram obrigados a estar ali de pele nua, morrendo lentamente.

Dizem às mulheres que não irão dormir a casa nessa noite, nem nas próximas. E quando voltarem, os seus olhos contaminados não contarão as histórias antigas, habitadas por monstros de duas cabeças, mas histórias modernas de terror em versão de reactores nucleares. Cresci a lutar contra isto, até que desisti por já ter crescido tanto que ficou fora de moda lutar contra isto, e também contra quase tudo o resto.

Parece que na Alemanha suspenderam as centrais nuclares. Tarde demais e ainda assim a tempo. Deixem de vez os átomos nos seus berços, não os bombardeiem mais.
~CC~

quarta-feira, março 23, 2011

Tons

É este o país

em que o negro tem tons
e nos querem dizer que somos
as borboletas presas no casulo

e é só isso que está no semi círculo das gravatas
cinzento alinhado
variante de negro carregado

descemos e subimos avenidas
todas elas acabadas como rotundas
adornadas pelo artista da terra

se ao menos o teu grito e o meu
se tornassem esta primavera de papoilas
capaz de tingir meio universo

se ao menos o meu sonho e o teu
rasgassem a quietude das cores sufocantes
para trazer a lua a morar na terra

procuram-se horizontes
boletins de voto a tons de azul
sem partido e sem dono

outra casa.


~CC~

segunda-feira, março 21, 2011

Recado


Rasga da árvore o fresco do seu verde. Arranca do mar aquele sal que nos fica a cada banho. Deixa cair as lágrimas a cada negrume. E deixa o teu riso ser lume em certas manhãs. E até à tua morte nunca deixes de dar um beijo. Cola a tua alma as coisas. E festeja hoje a poesia.
~CC~

domingo, março 20, 2011

Domingo no mundo

É preciso deixar que cada bocadinho de sol possa fazer nascer as flores na minha pele.

Assim enfrentarei melhor as tempestades dos dias, e as feridas que se abrem diante de mim, por vezes expostas nos olhos que quem passa, e de outras escancarada nos olhos de quem não nos vê do outro lado do mundo, mas que nós vemos ali, como se acordasse ao nosso lado. A dor é a dor, mesmo quando ela aparece em rostos japoneses sem lágrimas. De repente, eu sou a jovem que usou durante anos o crachá a dizer nuclear, não obrigado.

Somos esse pânico diário de um país à beira do nada, e somos também quem se esquece dele rapidamente, basta que seja Domingo de Primavera perto do mar. Basta que uma mão não nos deixe ir com o vento.
~CC~

quarta-feira, março 16, 2011

Gemido no mundo

Se ando esquecida de mim, como é que me posso lembrar do blogue?

Os dias, de tão cheios de matéria, secam-me o interior até restar apenas uma línguazinha de terra a salvar-se do mar.

Eu, uma línguazinha de terra a tentar salvar-se e não só de si própria.

É tudo ao redor. O Japão a asfixiar entre o terror da terra a tremer e a onda gigante. Portugal engasgado entre o zero e o nada dos partidos que aspiram ao poder. A Itália esmagada entre o puro marialvismo e as mães de Bragança. E os árabes, que a tantos inspiraram prosa e poesia e que a mim me congelam as palavras, presos entre várias ditaduras possíveis, uma já existentes e outras por vir, a tentar gritar liberdade.

Que será de nós agora que o mundo geme assim?
~CC~

sábado, março 12, 2011

Quinze


Faz já quinze anos. E ainda gosto dela como no primeiro dia em que a vi.

Parabéns ~AF~

quinta-feira, março 10, 2011

O beijo da morte

O beijo da morte é pura literatura, eu sei. Mas aconteceu-me esta noite. E foi tão intenso e tão aterrador que me deixou acordada a partir das cinco da manhã.

Parecia ser um beijo inocente e bom, de alguém cujo rosto não lembro. Queria-o e desejava-o. Mas em vez de parar o beijo continuava e continuava como um selo que não me deixava respirar.
E eu tentava sem êxito separar-me daquela boca mortal.

Acordar foi o modo de não morrer.

~CC~

PS. Psicanalista precisa-se.

terça-feira, março 08, 2011

OIto


Todos os dias são meus.
Mas agradeço comovidamente a todas as mulheres que tornaram possível dizer esta frase.
E junto a minha voz contra o silêncio de todas aquelas que ainda não a podem dizer.
~CC~

segunda-feira, março 07, 2011

Perguntas inocentes (I)

Já vos aconteceu sentir que quanto mais perto estão da meta, mais ela foge de vós?
~CC~

sábado, março 05, 2011

Dia teu

Imagino que estava sol no dia em que nasceste, que contigo chegou a Primavera aos campos.

E isto porque imitas na perfeição as rolas em cantos chamativos.

E isto porque é pelas tuas mãos que o calor chega tantas vezes.

E isto porque com esse calor se afastam sombras.

E fica um um dia mais claro.

Nasceste é é início de Primavera outra e outra vez.

~CC~

quarta-feira, março 02, 2011

Final incerto

Ontem a noite foi triste, mas por fim lá consegui adormecer. Motivo sem nada de mais, é a dor (ou o seu contrário) de quem cresce certamente, mas também a de quem vê crescer. Espinhos da maternidade. Mas não tive pesadelos, bem pelo contrário.

Tive um sonho muito bonito, cuidava de velhos numa instituição, e fazia-o com uma ternura, um desvelo que desconhecia em mim. E o mais engraçado é que a eu que dormia falava com a minha outra eu que estava no sonho, mostrando essa mesma supresa.

Tenho sentido o mesmo com uma das turmas que lecciono- ouvi deles o pior- e sei que é verdade. Mas tento esquecer-me disso, agir com eles ao contrário do que esperam. Ser alegre, ser carinhosa, incentivá-los. E não sei se conseguirei manter esse rumo. O desfecho está por ver, ainda é cedo, mas apetecia-me um final feliz.
~CC~

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Contas

Aprendi lentamente a conseguir esquecer metade das coisas que doem. Assim só fico com uma metade a doer.

E com essa metade consigo evitar o afogamento.

Cerca de metade dessa metade desfaz-se perdida no modo como o sol vem acordar as flores.

E apenas com um quarto de dor até consigo uns belos sorrisos a cada manhã. E isso é muito mais que evitar o afogamento.

~CC~

sábado, fevereiro 26, 2011

Dúvida metódica

Na crónica de hoje, no Expresso, Clara Ferreira Alves conta-nos o drama de Lara Logan, repórter de Guerra americana que foi violada no Egipto, no meio da confusão entre manifestações a favor e contra Mubarak. Parece ser duvidosa a atribuição da responsabilidade a uns ou a outros, embora do que se depreende do texto, tenham sido os mesmos homens que gritavam por Liberdade, e que nós aplaudimos com entusiasmo, porque a palavras Liberdade é tão mágica para a vida como o ar que respiramos.

O tempo parece ser de festa, e todos aplaudem. E no entanto, há qualquer coisa que congela os meus aplausos, e isso não é certamente admiração pelos ditadores. É o medo pelas mulheres, este mesmo medo que agora enche para sempre a vida de Lara Logan.

Espectadora de teatro como do mundo, eu nunca bato palmas a meio de qualquer coisa, só a comoção final me faz levantar da cadeira, e aí sim, se for preciso aplaudir, com comoção.
~CC~

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Curtas (VI)

O dia acordou na minha alma ambivalente. Está sol e passei desde há uma semana a contar quantos minutos de dia há a mais, a conquista da noite é o meu rumo até à Primavera, e quando ela chegar terei sobrevivido a mais um Inverno. Não sei até quando os conseguirei suportar.

Tu não estás e não virás. Há uma parte de mim que compreende tudo, e outra que nada compreende.

Mesmo certa é apenas a falta de um beijo.

~CC~

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Curtas (V)

Os índios da meia praia são os meus primos a correr descalços pelas ruas de Olhão.

Andavam também à solta nos olhos do Zeca, e habitavam o seu coração salgado. A única coisa possível a dizer é que são vinte e quatro anos de saudade, se podemos dizer saudade de alguém que não sendo nosso, foi de todos nós.
~CC~

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Curtas (IV)

Com dez anos subiu ao telhado da escola e disse que se ia atirar de lá. Dias antes a mãe tinha dito que não o queria mais, e foi pedir a uma instituição que ficasse com ele. Podemos condená-la, mas não antes de ouvir a história triste que também terá para contar. Condenar é tão simples.
Fiquei apenas a pensar nos abraços que faltaram. À mãe, ao filho.

E nas aulas que fizeste hoje, à base de abraços.

Nas aulas que também farei com muitos abraços.

É preciso acreditar, pedir aos meninos que desçam dos telhados, abraçá-los.

~CC~

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Curtas (III)


As mulheres, todas elas em sonhos flores voadoras.
~CC~

(e quando as vejo gritarem liberdade nas praças de belos nomes árabes, quando as vejo vestidas com burkas, abro os meus olhos de espanto, pensando como será possível voar com panos tão escuros, tão pesados.)

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Curtas (II)

Se nascesse outra vez, talvez pudesse desenhar com esta precisão geométrica os caminhos. Não andaria tantas vezes às voltas, a maior parte das vezes sempre à procura do sol, ainda que em diversas formas de gente.

~CC~


terça-feira, fevereiro 15, 2011

Curtas (I)

Nem sempre sabemos que aquele é um momento feliz. Só sabemos depois, já cobertos de saudade.
~CC~



sábado, fevereiro 05, 2011

Final Tese (III)

Até breve
~CC~

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Final Tese(II)

Desde o Verão que não leio um livro de um autor fora do campo técnico ou científico. É verdade que leio muito, contudo, nada do que leio me abana, me leva, me muda.

(ai se os meus professores lessem este blogue!)

~CC~

Final Tese (I)



Passar pelas lojas e não me apetecer comprar nada. As coisas, se as toco, parecem-me vazias, como se as minhas mãos não as pudessem agarrar. Não querermos nada, haverá melhor modo de poupar.

~CC~

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Final tese



Os amigos ligam cada vez menos. E sentimos como dolorosa a sua falta, enquanto nos sabemos praticamente indisponíveis.

~CC~

Ética adolescente (II)

- O teu namorado é mesmo bonito, porra!
- É bonito é...infelizmente!
- Então porquê? Preferias que fosse feio?
- Queria era que fosse bonito só para mim!

~CC~

(Fertagus, ainda há pouco)

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Ética adolescente

- De quem eu gosto mesmo é daquela miúda que anda com o F.
- É pá...tens é que saber se eles são namorados ou só curtem!
- Achas que faz diferença?
- Então não...se só curtem podes avançar, és só mais um.

~CC~

(À porta da escola)