(esta maldita falta de tempo que só me dá tempo para ir às coisas de quando em quando, e já pouco me deixa escrever sobre elas)
VALE (Teatro da Trindade, Domingo de há quinze dias)
Vi, sentada nas escadas do teatro a abarrotar, com os olhos abertos de espanto, que no fim estavam molhados, a lezíria inteira num palco.
Os bailarinos eram cavalos, bezerros, e bois, e estavam à solta no prado, em poses de zanga e namoro, mansos em dias de sol, e perturbados sempre que a tempestade lhes chegava ao sangue. Os corpos dos bailarinos eram a arte da transformação. E quando eles se vestiam, projectavam nas suas roupas, as imagens de uma terra toda ela um horizonte. Não estavam, porém, sós, os seus olhos que tinham ido ao vale, tinham deles trazido outras mãos, outros rostos, o verdadeiro povo da lezíria. Tinham dançado juntos, armando uma teia corpos perfeitos e corpos imperfeitos, num baile único pelo qual a banda puxava, como se de uma matiné de Domingo se tratasse.
E os que sempre dançaram no palco, juntos aos que sempre dançaram no vale, o suor pingado do esforço de moldar o corpo, e o suor da lida dos animais, tornaram-se gotas de água brilhando no escuro.
E quanto tudo acabou, a ovação do teatro foi gigantesca, tão grande que julguei que a partir da energia das palmas o mundo se poderia tornar outra coisa.
(Parabéns Madalena Vitorino
Parabéns ao Teatro da Trindade
Parabéns aos bailarinos e não bailarinos, todos eles um espanto)
(neste país equiparado a lixo, que coisas belissímas existem)
~CC~