domingo, abril 24, 2011

ALMAR III

Um dia a tempestade veio e tomou todo o céu. Lembro-me bem como tudo ficou escuro num instante. O chefe da comarca chamou o meu pai e depois disso nunca mais o vi. O meu pai não voltou mais, não teve coragem de nos vir dizer que os Guarda-Rios tinham que levantar as tendas e partir para sempre, não eram mais necessários, nem aqui, nem em lado nenhum. Os rios, dizia o chefe da comarca, correm sozinhos e não precisam que ninguém os guarde.


Depois disso uma doença foi tomando, um a um, os nossos homens. Só se salvaram os que eram meninos. E nós, as mulheres, embora nessa altura o meu tamanho e o meu coração fossem os de uma menina.


~CC~

sábado, abril 23, 2011

ALMAR II


Eu fui uma criança Almar. Passava horas a ver as formigas desenharem os seus carreiros, tinha as minhas mãos sempre sujas das tintas com que as mulheres tingiam os tecidos e com os restos delas pintava os troncos das árvores.

Eu acreditava que todas as coisas tinham uma alma e podiam falar comigo e achava que o seu silêncio era apenas porque deveria saber esperar os seus sinais. E falava-lhes, eu falava-lhes sempre. Eu sabia que as bonecas de pano só se podiam casar uma vez por mês porque a festa delas era de folhas e flores e eu não devia arrancá-las com frequência. Fecho os olhos e tenho em mim todos os cheiros e sabores da minha infância e quando os abro pergunto pelo que sobrou.

~CC~

sexta-feira, abril 22, 2011

ALMAR I



Eu fiz parte dos Almar. Os Almar são uma tribo simples cuja função é cuidar que os rios cheguem sempre ao mar, velar para que se dê a união necessária das espécies e a fusão do doce com o salgado. No momento em que vos escrevo, o meu povo está em vias de extinção, como uma qualquer outra espécie animal ameaçada. Digo-vos como éramos, como nos perdemos, como somos agora.

Os Almar viviam todos nas proximidades dos estuários, em grandes tendas de lona azul. Os olhos, de cor indistinta, eram líquidos e os cabelos quase vermelhos, por causa das cores de tingir os panos. As mulheres ocupavam muito do seu tempo neste ofício de tirar o branco dos tecidos e depois vendiam-nos como tapetes de flores nas feiras mais próximas. Uma criança Almar procura sempre o curso das linhas azuis nos mapas do futuro e tem na pele um triângulo desenhado com a seiva das árvores.



~CC~



Notas:


1. Uma primeira versão incompleta desta história foi publicada ainda no "ninguém lê" e depois uma parte aqui. Será agora publicada integralmente-um andamento em 22 partes.


2. Nunca fui de participar em concursos literários, mas enviei esta história ao concurso de contos da FNAC pelo enorme incentivo, sobretudo da minha filha. Não ficou entre os cinco primeiros, gostos são gostos e só temos que respeitar, e nada é capaz de tirar o prazer da escrita a alguém que gosta de escrever. Na verdade, a escrita é o outro lugar da minha vida, e nunca o vi como "o lugar" onde queria realmente morar.




quinta-feira, abril 14, 2011

Retiro

Cansaço extremo.

Até breve

~CC~

terça-feira, abril 12, 2011

Do absurdo de algumas tardes

O sol, esse mágico destino que me leva de casa. (antes ficasse)


Não consegui ler uma linha por causa da avaliação que se passava na mesa ao lado. Não, não se tratava da avaliação dos professores, nem tão pouco da avaliação dos alunos. Era apenas uma escala nova de avaliação das universidades inventada por uns machos jovens. Tudo se resume afinal a uma fórmula bem simples: quem tem as mais boas, mais bonitas, e que se deixam "comer" (e acrescentavam "se deixam comer sem serem porcas", e confesso que esta não percebi). Assim, do ISCTE, à Lusofona, ao ISPA, ao ISLA...todas foram avaliadas, sem qualquer juizo de valor entre o ensino público e o privado. Um enorme destaque foi dado a umas veteranas boas que coleccionavam caloiros, o que aumentava a percentagem dos moços desejosos de frequentar a dita universidade.


Já no que diz respeito aos rapazes, seus colegas, a escala também foi minimalista, tratou-se apenas de saber quem tinha "mais paneleiros", factor que obviamente descrescia em muito o mérito atribuído, embora aumentasse as chances com as raparigas.


Há muito que não ouvia nada tão mau. E é esta a nossa tragédia: material humano.


~CC~

sexta-feira, abril 08, 2011

Surpreendentes as manhãs

Os meus sonhos são assim, e por isso ele parecia vindo do meu sonho, apeteceu-me dizer-lhe: espere um bocadinho que quero ver se é real. Que diriam se ainda antes das 9 da manhã vos aparecesse um homem jovem, de cabelo comprido, todo vestido de preto, montado num cavalo branco? E ainda sorria, marchando lado a lado com os carros da maior avenida da cidade.


A mulher aperta o botão da blusa da frente, na qual o talhante está fixo. Fixa-lhe os olhos e desce até a blusa e faz novamente este percuro várias vezes. Ela, muito calma, trata-o pelo nome. Nnehum deles sorri, estão ali algum tempo numa espécie de hipnotismo mediado por costeletas de porco e bifes de perú. Eu assisto, mas na realidade sou transparente, nenhum deles olha para mim.


A caixa atrapalha-se com o código dos morangos, chama uma outra funcionária pelo telefone, mas a da padaria responde-lhe: eu vou! É que sei de cor o código dos morangos. E assim é, são só 7 numerozinhos que ela decorou. Um talento perdido provavelmente.


Uma grande algazarra no café, passo por perto, e vou ao multibanco paredes meias. Discutem muito alto, penso comigo que devem estar a discutir a situação do país, tenho um pensamento deveras positivo, penso que esta crise trouxe outra vez para a rua a discussão das políticas. Mas depois apuro o ouvido: ah, afinal discutem futebol. Está tudo como dantes.


~CC~






quinta-feira, abril 07, 2011

Breves os instantes




Atravesso o Alentejo presa pelas estevas, essa longa manta branca que me sabe a todos os abraços de que os meus olhos precisam.


São breves e feitos de nada os instantes felizes.


~CC~

segunda-feira, abril 04, 2011

Da Lezíria

(esta maldita falta de tempo que só me dá tempo para ir às coisas de quando em quando, e já pouco me deixa escrever sobre elas)


VALE (Teatro da Trindade, Domingo de há quinze dias)


Vi, sentada nas escadas do teatro a abarrotar, com os olhos abertos de espanto, que no fim estavam molhados, a lezíria inteira num palco.


Os bailarinos eram cavalos, bezerros, e bois, e estavam à solta no prado, em poses de zanga e namoro, mansos em dias de sol, e perturbados sempre que a tempestade lhes chegava ao sangue. Os corpos dos bailarinos eram a arte da transformação. E quando eles se vestiam, projectavam nas suas roupas, as imagens de uma terra toda ela um horizonte. Não estavam, porém, sós, os seus olhos que tinham ido ao vale, tinham deles trazido outras mãos, outros rostos, o verdadeiro povo da lezíria. Tinham dançado juntos, armando uma teia corpos perfeitos e corpos imperfeitos, num baile único pelo qual a banda puxava, como se de uma matiné de Domingo se tratasse.


E os que sempre dançaram no palco, juntos aos que sempre dançaram no vale, o suor pingado do esforço de moldar o corpo, e o suor da lida dos animais, tornaram-se gotas de água brilhando no escuro.

E quanto tudo acabou, a ovação do teatro foi gigantesca, tão grande que julguei que a partir da energia das palmas o mundo se poderia tornar outra coisa.


(Parabéns Madalena Vitorino

Parabéns ao Teatro da Trindade

Parabéns aos bailarinos e não bailarinos, todos eles um espanto)


(neste país equiparado a lixo, que coisas belissímas existem)


~CC~

sexta-feira, abril 01, 2011

Resgate

O país foi resgatado. Não haverá assim mais problemas com o cartão de cidadão nas próximas eleições. Permanece oculto o resgatador. Façam-se apostas para além da banalidade do FMI, sejam criativos.


~CC~

quarta-feira, março 30, 2011

Ainda há vida no quintal (resistindo às agências de rating)

Lírios a chamar sol
Nêsperas a amadurecer
Flores a anunciar pêssegos


~CC~

sábado, março 26, 2011

Praça do Brasil

Há uma semanas telefonaram-me. E a senhora dizia simplesmente: é da praça do Brasil. E repetia-o incansavelmente sempre que eu voltava a perguntar: sim, mas de onde?

Ela tinha razão, a praça Brasil é um universo inteiro. É este país no que ele tem de melhor e pior. É-o por causa das árvores velhas mas ainda belas, dos sem abrigo que povoam os bancos, dos muitos pombos que ajudam à decrepitude dos prédios dos anos 60, metade deles habitados por reformados, e a outra metade alugados a quem não pode comprar casa, muita gente de outros lugares, mescla de chineses, brasileiros e países do leste. As casas perderam valor, e não se vendem. As lojas da zona são exemplares do momento que atravessamos, um minipreço, uma merceeria antiga, três lojas dos chineses que antes apregoavam ser dos trezentos e agora passaram a ter nome de boutiques, e muitos cafés de bairro, três na própria praça e mais uns três ou quatro nas proximidades. A pobreza tem aqui inteiros todos os seus rostos. E no entanto, este é o meu povo no seu melhor.

As velhas senhoras do Minipreço cumprimentam as empregadas por minha menina está tão linda esta manhã. E elas devolvem o cumprimento com um sorriso perguntando pela saúde e pelos netos enquanto lhes arrumam as compras no saco que elas trazem de casa e enfiam os talões de desconto numa carteirinha à parte que deve trazer sempre. Na merceeria os morangos ainda sabem a terra de Palmela, porque aqui não há dos que parece que foram injectados com ar e não sabem a nada. E enquanto a senhora de cara redonda arruma os morangos, a neta chinesa, dois olhos pretos lindos, diz-nos olá, e puxa conversa falando um português sem mácula. Eu vim com a minha avó, diz sorrindo.

E a senhora que liga da praça Brasil como quem liga do universo, ligou para me dizer que embora com um mês de atraso, lá estava o DVD que o Pialat fez sobre o Van Gogh, e que não devemos desitir nunca do que queremos. Nunca, minha senhora.
~CC~

sexta-feira, março 25, 2011

Fora de moda

Chamam heróis àqueles homens do fatos brancos, despidos de tudo, a apagar as chamas das centrais nucleares. Anos antes nem fatos, no Verão quente da Ucrania, foram obrigados a estar ali de pele nua, morrendo lentamente.

Dizem às mulheres que não irão dormir a casa nessa noite, nem nas próximas. E quando voltarem, os seus olhos contaminados não contarão as histórias antigas, habitadas por monstros de duas cabeças, mas histórias modernas de terror em versão de reactores nucleares. Cresci a lutar contra isto, até que desisti por já ter crescido tanto que ficou fora de moda lutar contra isto, e também contra quase tudo o resto.

Parece que na Alemanha suspenderam as centrais nuclares. Tarde demais e ainda assim a tempo. Deixem de vez os átomos nos seus berços, não os bombardeiem mais.
~CC~

quarta-feira, março 23, 2011

Tons

É este o país

em que o negro tem tons
e nos querem dizer que somos
as borboletas presas no casulo

e é só isso que está no semi círculo das gravatas
cinzento alinhado
variante de negro carregado

descemos e subimos avenidas
todas elas acabadas como rotundas
adornadas pelo artista da terra

se ao menos o teu grito e o meu
se tornassem esta primavera de papoilas
capaz de tingir meio universo

se ao menos o meu sonho e o teu
rasgassem a quietude das cores sufocantes
para trazer a lua a morar na terra

procuram-se horizontes
boletins de voto a tons de azul
sem partido e sem dono

outra casa.


~CC~

segunda-feira, março 21, 2011

Recado


Rasga da árvore o fresco do seu verde. Arranca do mar aquele sal que nos fica a cada banho. Deixa cair as lágrimas a cada negrume. E deixa o teu riso ser lume em certas manhãs. E até à tua morte nunca deixes de dar um beijo. Cola a tua alma as coisas. E festeja hoje a poesia.
~CC~

domingo, março 20, 2011

Domingo no mundo

É preciso deixar que cada bocadinho de sol possa fazer nascer as flores na minha pele.

Assim enfrentarei melhor as tempestades dos dias, e as feridas que se abrem diante de mim, por vezes expostas nos olhos que quem passa, e de outras escancarada nos olhos de quem não nos vê do outro lado do mundo, mas que nós vemos ali, como se acordasse ao nosso lado. A dor é a dor, mesmo quando ela aparece em rostos japoneses sem lágrimas. De repente, eu sou a jovem que usou durante anos o crachá a dizer nuclear, não obrigado.

Somos esse pânico diário de um país à beira do nada, e somos também quem se esquece dele rapidamente, basta que seja Domingo de Primavera perto do mar. Basta que uma mão não nos deixe ir com o vento.
~CC~

quarta-feira, março 16, 2011

Gemido no mundo

Se ando esquecida de mim, como é que me posso lembrar do blogue?

Os dias, de tão cheios de matéria, secam-me o interior até restar apenas uma línguazinha de terra a salvar-se do mar.

Eu, uma línguazinha de terra a tentar salvar-se e não só de si própria.

É tudo ao redor. O Japão a asfixiar entre o terror da terra a tremer e a onda gigante. Portugal engasgado entre o zero e o nada dos partidos que aspiram ao poder. A Itália esmagada entre o puro marialvismo e as mães de Bragança. E os árabes, que a tantos inspiraram prosa e poesia e que a mim me congelam as palavras, presos entre várias ditaduras possíveis, uma já existentes e outras por vir, a tentar gritar liberdade.

Que será de nós agora que o mundo geme assim?
~CC~

sábado, março 12, 2011

Quinze


Faz já quinze anos. E ainda gosto dela como no primeiro dia em que a vi.

Parabéns ~AF~

quinta-feira, março 10, 2011

O beijo da morte

O beijo da morte é pura literatura, eu sei. Mas aconteceu-me esta noite. E foi tão intenso e tão aterrador que me deixou acordada a partir das cinco da manhã.

Parecia ser um beijo inocente e bom, de alguém cujo rosto não lembro. Queria-o e desejava-o. Mas em vez de parar o beijo continuava e continuava como um selo que não me deixava respirar.
E eu tentava sem êxito separar-me daquela boca mortal.

Acordar foi o modo de não morrer.

~CC~

PS. Psicanalista precisa-se.

terça-feira, março 08, 2011

OIto


Todos os dias são meus.
Mas agradeço comovidamente a todas as mulheres que tornaram possível dizer esta frase.
E junto a minha voz contra o silêncio de todas aquelas que ainda não a podem dizer.
~CC~

segunda-feira, março 07, 2011

Perguntas inocentes (I)

Já vos aconteceu sentir que quanto mais perto estão da meta, mais ela foge de vós?
~CC~

sábado, março 05, 2011

Dia teu

Imagino que estava sol no dia em que nasceste, que contigo chegou a Primavera aos campos.

E isto porque imitas na perfeição as rolas em cantos chamativos.

E isto porque é pelas tuas mãos que o calor chega tantas vezes.

E isto porque com esse calor se afastam sombras.

E fica um um dia mais claro.

Nasceste é é início de Primavera outra e outra vez.

~CC~

quarta-feira, março 02, 2011

Final incerto

Ontem a noite foi triste, mas por fim lá consegui adormecer. Motivo sem nada de mais, é a dor (ou o seu contrário) de quem cresce certamente, mas também a de quem vê crescer. Espinhos da maternidade. Mas não tive pesadelos, bem pelo contrário.

Tive um sonho muito bonito, cuidava de velhos numa instituição, e fazia-o com uma ternura, um desvelo que desconhecia em mim. E o mais engraçado é que a eu que dormia falava com a minha outra eu que estava no sonho, mostrando essa mesma supresa.

Tenho sentido o mesmo com uma das turmas que lecciono- ouvi deles o pior- e sei que é verdade. Mas tento esquecer-me disso, agir com eles ao contrário do que esperam. Ser alegre, ser carinhosa, incentivá-los. E não sei se conseguirei manter esse rumo. O desfecho está por ver, ainda é cedo, mas apetecia-me um final feliz.
~CC~

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Contas

Aprendi lentamente a conseguir esquecer metade das coisas que doem. Assim só fico com uma metade a doer.

E com essa metade consigo evitar o afogamento.

Cerca de metade dessa metade desfaz-se perdida no modo como o sol vem acordar as flores.

E apenas com um quarto de dor até consigo uns belos sorrisos a cada manhã. E isso é muito mais que evitar o afogamento.

~CC~

sábado, fevereiro 26, 2011

Dúvida metódica

Na crónica de hoje, no Expresso, Clara Ferreira Alves conta-nos o drama de Lara Logan, repórter de Guerra americana que foi violada no Egipto, no meio da confusão entre manifestações a favor e contra Mubarak. Parece ser duvidosa a atribuição da responsabilidade a uns ou a outros, embora do que se depreende do texto, tenham sido os mesmos homens que gritavam por Liberdade, e que nós aplaudimos com entusiasmo, porque a palavras Liberdade é tão mágica para a vida como o ar que respiramos.

O tempo parece ser de festa, e todos aplaudem. E no entanto, há qualquer coisa que congela os meus aplausos, e isso não é certamente admiração pelos ditadores. É o medo pelas mulheres, este mesmo medo que agora enche para sempre a vida de Lara Logan.

Espectadora de teatro como do mundo, eu nunca bato palmas a meio de qualquer coisa, só a comoção final me faz levantar da cadeira, e aí sim, se for preciso aplaudir, com comoção.
~CC~

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Curtas (VI)

O dia acordou na minha alma ambivalente. Está sol e passei desde há uma semana a contar quantos minutos de dia há a mais, a conquista da noite é o meu rumo até à Primavera, e quando ela chegar terei sobrevivido a mais um Inverno. Não sei até quando os conseguirei suportar.

Tu não estás e não virás. Há uma parte de mim que compreende tudo, e outra que nada compreende.

Mesmo certa é apenas a falta de um beijo.

~CC~

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Curtas (V)

Os índios da meia praia são os meus primos a correr descalços pelas ruas de Olhão.

Andavam também à solta nos olhos do Zeca, e habitavam o seu coração salgado. A única coisa possível a dizer é que são vinte e quatro anos de saudade, se podemos dizer saudade de alguém que não sendo nosso, foi de todos nós.
~CC~

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Curtas (IV)

Com dez anos subiu ao telhado da escola e disse que se ia atirar de lá. Dias antes a mãe tinha dito que não o queria mais, e foi pedir a uma instituição que ficasse com ele. Podemos condená-la, mas não antes de ouvir a história triste que também terá para contar. Condenar é tão simples.
Fiquei apenas a pensar nos abraços que faltaram. À mãe, ao filho.

E nas aulas que fizeste hoje, à base de abraços.

Nas aulas que também farei com muitos abraços.

É preciso acreditar, pedir aos meninos que desçam dos telhados, abraçá-los.

~CC~

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Curtas (III)


As mulheres, todas elas em sonhos flores voadoras.
~CC~

(e quando as vejo gritarem liberdade nas praças de belos nomes árabes, quando as vejo vestidas com burkas, abro os meus olhos de espanto, pensando como será possível voar com panos tão escuros, tão pesados.)

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Curtas (II)

Se nascesse outra vez, talvez pudesse desenhar com esta precisão geométrica os caminhos. Não andaria tantas vezes às voltas, a maior parte das vezes sempre à procura do sol, ainda que em diversas formas de gente.

~CC~


terça-feira, fevereiro 15, 2011

Curtas (I)

Nem sempre sabemos que aquele é um momento feliz. Só sabemos depois, já cobertos de saudade.
~CC~



sábado, fevereiro 05, 2011

Final Tese (III)

Até breve
~CC~

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Final Tese(II)

Desde o Verão que não leio um livro de um autor fora do campo técnico ou científico. É verdade que leio muito, contudo, nada do que leio me abana, me leva, me muda.

(ai se os meus professores lessem este blogue!)

~CC~

Final Tese (I)



Passar pelas lojas e não me apetecer comprar nada. As coisas, se as toco, parecem-me vazias, como se as minhas mãos não as pudessem agarrar. Não querermos nada, haverá melhor modo de poupar.

~CC~

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Final tese



Os amigos ligam cada vez menos. E sentimos como dolorosa a sua falta, enquanto nos sabemos praticamente indisponíveis.

~CC~

Ética adolescente (II)

- O teu namorado é mesmo bonito, porra!
- É bonito é...infelizmente!
- Então porquê? Preferias que fosse feio?
- Queria era que fosse bonito só para mim!

~CC~

(Fertagus, ainda há pouco)

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Ética adolescente

- De quem eu gosto mesmo é daquela miúda que anda com o F.
- É pá...tens é que saber se eles são namorados ou só curtem!
- Achas que faz diferença?
- Então não...se só curtem podes avançar, és só mais um.

~CC~

(À porta da escola)

segunda-feira, janeiro 31, 2011

Esta vida

Entre os doze e os quinze falei com fantasmas, tratando-os por tu. Se me deitasse no escuro conseguia ouvir vozes que não sabia de onde vinham. Se me concentrasse muito em alguém conseguia saber o que estava a pensar. Vivia nesse limbo entre a sanidade e a pura loucura, ou seja, crente nos meus dons especiais. Precisava trabalhá-los, era o que me diziam.

Um dia esse mundo febril em que a minha pele era apenas o ecoar dos deuses e o meu coração a busca infinita da razão de estarmos aqui foi atravessado por doses extra de Marx, Reich, Bakunin, testando com o fogo da paixão uma religiosidade tecida com fios sobrenaturais e bebida da nobre herança paterna. O que não fazemos por um amor aos dezasseis anos. Foram-se os diálogos com os fantasmas e um futuro brilhante como sensitiva, tudo apagado pelas carícias terrenas nos jardins públicos da cidade.

Ainda assim sobrou-me o suficiente da loucura adolescente para deixar-me tocar por Hereafter, para perceber que o amor na sua força máxima só pode rejeitar a morte. E, contudo, os mortos pedem o seu descanso, nós é que não podemos, não conseguimos.
~CC~

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Bom fim de semana


Para Sul, à procura de um beijo.
~CC~

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Da loucura

Vendo bem a casa Pia nem existe, nunca existiu.
(ou entre o nojo e a fúria)
~CC~

terça-feira, janeiro 25, 2011

Ver

Diz-me o que vês nesse espelho.

(Dou-lhes o espelho)

E eles respondem: vejo que os outros são feios.

(Os outros, mas como os vês nesse espelho onde está o teu rosto? É de ti que te peço para falar)

E eles respondem: o meu rosto, sim, tem uns pequenos defeitos

(Abre mais os olhos, fala-me também da tua beleza, e do que que não é belo, mas podes torná-lo belo, é essa a arte mais bela, a da transformação)

E continuamos um difícil diálogo sobre os sentidos.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Cafés (I)

-Todos os transportes públicos são bons para a aprendizagem da vida. Os cafés também-

Ela casou com ele porque queria alguém para passear, já tinha perto de 70 anos mas ninguém a segurava em casa. Veja você ou eu. Nós somos capazes de ficar em casa a bordar, a fazer uma costura, a ver televisão. Ela não, ela só pensava em viajar, e não era para sítios baratos.

(espanto da outra mulher, num "aí era?)

Mas ele era mais novo, queria outras coisas. E ela era rica e ele pobre. E ela não se deixou ir na conversa e casou com total separação de bens, eu nunca tinha ido a um casamento assim, com separação total de bens. E quando começou a perceber que ele a roubava, custou-lhe muito. Custou-lhe muito, mas não demorou a pôr-lhe as malas à porta. Ela com 70 anos mandou embora um homem com menos vinte!


(ai sim?)

~CC~

domingo, janeiro 23, 2011

Ao engano

A erosão da nossa implicação na vida social e política leva a que até a tristeza já não seja a mesma nas noites em que os outros vencem. Esta era, aliás, tristeza anunciada, e talvez por isso me chegou como uma gripe depois da vacina tomada.

Ainda assim, não deixo de me perguntar sobre quem é este povo, que distrito a distrito, sem nenhuma excepção, se deixa enganar.

~CC~

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Produto apreendido

São raras as vezes que os cidadãos se sentem protegidos pelo Estado, sobretudo quando o nome do cidadão é um nome vulgar, cujo apelido não se conjuga com os verbos do poder. Não é portanto pelo prejuizo que a empresa de parquímetros da minha cidade terá que estou satisfeita, mas sim pelo facto de o querem ganhar de forma ilegítima, taxando o valor minímo da cobrança acima do que a lei permitia. Desconheço quem o fez, mas quem quer que seja demostrou que por vezes protestar vale a pena. E por cada protesto válido e ganho deviam nascer mais vinte.

Nunca tinha visto parquímetros cobertos de plástico preto com uma fita amarela a dizer: produto apreendido. E estão assim por toda a baixa da cidade, vale a pena a visita cívica. E há ainda este estuário, quando chega um pouqinho de sol, é um dos mais belos.
~CC~

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Em observação (II)


Aveiro, Novembro de 2010

Será por causa da tristeza? Morar numa casa amarela será um modo de se ser menos triste?

~CC~

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Pequenos nadas

Aparentemente tudo normal. Saio do carro manhã cedo e procuro o casaco. Olho para o banco de lado e para o banco de trás e nada. Saí sem casaco e nem dei por isso. Agora só me resta atravessar o nevoeiro assim. Aparentemente tudo normal.
(repara que é bem diferente de o vestir ao contrário, como é hábito)

É estranho mas nem tenho frio, aliás nem me sinto. Qualquer dia saio fora de água, dou à costa numa praia do sul, e deixo-me estar quieta ao sol. Qualquer dia sinto-me, paro para escutar o meu coração, arrisco o perigo.
~CC~

segunda-feira, janeiro 17, 2011

Poeira quente

Apetecia poder viajar como uma poeira nocturna capaz de se transformar em beijo nos teus lábios, aquecer o teu corpo com a nudez do meu, limpar-te o cansaço nostálgico que habita o primeiro dia de trabalho da semana. Pergunto-me tantas vezes, contudo, se teria abraços todas as Segundas. Mas hoje tenho. E também este desejo de transporte do meu calor por este rio da minha cidade até à maré daquela praia, a praia mais pobre e mais triste desse Algarve quase todo assim. E não obstante, um dia a nossa praia.
~CC~

domingo, janeiro 16, 2011

Em observação (I)

Para leitura. Aceitam-se sugestões.
~CC~

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Há mais de vinte anos

Devemos pensar duas vezes quando alguém nos propõe regressar aos nossos vinte anos. Quando alguém nos propõe falar do nosso mestre e do que a sua voz nos fez quando ainda não tínhamos acabado de crescer, quando o nosso corpo era um vime, o nosso coração um peso superior a nós e a nossa cabeça um turbilhão por minuto.

Fui inocente, fui sem pensar.

E só agora que a tarde já dá lugar à noite me apetece chorar.

Dizes que chegámos lá pelo acaso, que os dez que entrevistaste para a tua investigação te disseram isso. E que todos disseram que depois daquilo não voltaram a ser os mesmos.


Eu era a miúda triste e pobre, com duas tranças e os dentes já a apodrecer, um destino nada azul pela frente. Ninguém hoje acredita que eu era assim, mas era.

Mas explodia cá dentro, como ainda hoje.
~CC~

terça-feira, janeiro 11, 2011

Tarde interrompida

Dia cronometrado ao segundo, uma quase impossibilidade de tudo cumprir. Andando rápido por estradas secundárias, o coração preso a tudo o que não consigo fazer. Mais adiante um carro parado, nenhum sinal à vista, problemas por certo.

Mas era apenas um enorme rebanho de ovelhas silenciosas, calmas, enormes, rompendo a estrada que tinha cortado em dois o seu pasto antigo. E um moço novo, bonito, igualmente calmo, e dois cães a sorrir. Exceptuando o facto de seguirem sem hesitar o caminho uns dos outros, são eles que estão certos.

~CC~

domingo, janeiro 09, 2011

Resistência

A chuva foi-se, menos um contributo para o desalento. Há ainda o chão repleto de livros e artigos, o nome dos autores a enrolar-se na garganta de tanto ser repetido. E a luta contra este Inverno longo, uma virose que ontem procurei afastar comendo tangerinas directamente apanhadas da árvore. Ganharei? Ou espero a Primavera chegar, ser outra eu.
~CC~

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Estas coisas que se desejam (II)

A paz no mundo é uma coisa vaga. O fim da fome uma dor só de pensar. A revolução um fogo impossível na matéria de que são feitas as pessoas. Gostaria de ter a simplicidade de as desejar, mas é como acreditar na existência dos anjos.

Ainda assim desejo coisas simples. Que o Sr. Simões, em Faro, que se diz alfarrabista, mas é um guardador de livros e de sonhos deixe de dizer com o olhar triste que o seu negócio está no fim. Andei por tanto lado à procura de um livro editado há apenas 6 anos e só ele o conseguiu arranjar. Olho para o seu marcador de livros que diz: não deite nada fora, telefone-me. E mais adiante: Para quem ensina e estuda e investiga...e para quem não se limita às fotocópias, para os melhores! Já ninguém o diz e escreve assim. Longa vida Sr. Simões.

~CC~

segunda-feira, janeiro 03, 2011

Estas coisas que se desejam (I)

Do princípio ao fim eu sou só desejos, não necessito de passas para desejar, nem de novos anos. Eu precisava era de não desejar, o desejar é que é o mal que me habita. Tenho inveja de quem não deseja e só plana em paz, tranquilamente vendo cada dia que passa como uma luz que nasce e se apaga.

Vejo a lista dos desejos dos outros e acrescento mais à minha, afinal ainda havia mais alguma coisa para querer. Do princípio ao fim eu sou só desejos, grande parte deles imateriais, esquivos, escorregadios. Invento desejos para os outros quando eles não conseguem esgotar as doze passas, há sempre mais uma ideia em mim, qualquer coisa de querer. E não são carros, nem barcos, nem jóias, nem vivendas com um quintalinho e um cão de raça.

Eu tenho muitas reclamações para o Instituto dos desejos, anos e anos a cobrar-lhe de insatisfação. Toneladas de passas desperdiçadas.

Pedi para não desejar tanto.
~CC~

domingo, janeiro 02, 2011

Regresso

Regressou o silêncio, o meu amigo mais antigo.

(cresci com ele como uma segunda pele).

Regressou e não sei que vos dizer dele, parece cansado e aninho-o em mim. Regressou e não sei que vos dizer dele, parece um fardo que se soterra em mim.

~CC~

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Um a sumir-se, outro a aparecer

Um desejo de ganhar asas percorre-me enquanto os olhos pasmam pelos aeroportos cheios de neve. É tão impossível ir, tão louco ir, é tão impensável. E enquanto a razão percorre o lado direito do meu corpo, o desejo percorre todo o lado esquerdo. Há muito que lutam um contra o outro. Esta festa do fim do ano é mais aterradora que o Natal. O Natal é inofensivo, é igual ao homem das barbas brancas que só parece aterrador ao longe, mas ao perto é um velhote simpatico. Nada no Natal me assusta, tudo nesta ideia de um novo ano me aterroriza. E isso não dizer que não adore viver.

Ganhar asas, ou ir pela estrada, sem destino. Estar noutro lugar, não conhecer nada, ter tudo por descobrir. A festa não existir, apenas uma paz mansa numa paisagem bela, marcada a água e a verde. Um hotel, uma cabana, uma tenda, não o meu quarto, não a minha cama. Uma cidade, uma vila, uma aldeia que não seja minha. Trazer comigo uma, duas, três pessoas. Essas pessoas que não querem ir, pessoas com pés de raízes e não com pés de vento. É dolorosa a diferença, por melhor que ela seja tantas vezes, outras é desencontro. Fazer o esforço de ficar, de estar, de sorrir. A felicidade quando se puxa por ela, acaba por aparecer, uma luzinha nos olhos de quem se gosta, por eles, para eles. Custou-me, mas aprendi a extrair a felicidade da felicidade dos outros. Não sempre claro. Às vezes quero uma felicidade só para mim.

Um ano inteiro a sumir-se pelo calendário, outro a aparecer. Tantos dias, tantas noites. Tantos sonhos e tantos pesadelos possíveis. Passar o ano, anda cá ajudar-me a varrer o medo, tive um pesadelo terrível ontem à noite, mais uma vez. Essa malvada da morte a aparecer. Anda cá chamar o lume, assobiar aos pássaros, afastar as bruxas, fazer arder os beijos, tornar o mundo um lugar habitável.
~CC~

PS. A todos os que passam, bom 2011, e façam os sonhos ter a vitória sobre os pesadelos.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Cheiro a canela

Uns gostam e outros detestam o Natal. Fico-me a meio, hesitante entre as coisas que destesto e as que gosto.

O pior é a propaganda da solidariedade, repetida até à exaustão como a cantilena dos pobres e desvalidos cuja existência só ganha contornos no Natal, o resto do ano eles são apenas sombras, podemos passar por elas como se nada fosse. Se quisesse contribuir para algum projecto em que verdadeiramente acreditasse (poucos, muito poucos) nunca o faria no Natal. Tenho o coração repentinamente frio, surdo a estes apelos.

O melhor é a desculpa que isto me dá para não fazer nada uns dias. Só temos que alinhar no receituário mais nobre, e esse é dos abraços de quem se gosta, bem polvilhados a canela. E tudo o que me cheira a canela me sabe bem.

Agarrem-se assim a quem puderem, e misturem bem beijos e canela, e ficarão a salvo do horror a que se assemelha tantas vezes esta quadra.
~CC~

terça-feira, dezembro 21, 2010

Manhã

Manhã de Dezembro, um arco-irís enorme no céu, e inteiro como já poucas coisas são.

~CC~

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Baloiço, balanço...

Este foi o ano
em que morreu uma parte de mim
que ainda desconhecia
um pai acabado de chegar

Foi este em que por quase nada
te perdi no sufoco
de seres gato e eu lebre e eu cabra
no Agosto mais quente da memória

Este foi o ano
em que o quase foi sempre
a palavra ao pé da boca
trava-línguas amargo-doce

Quase arranjei um amigo
suave e sensível
uma noite de Verão que prometia estrelas
mas se escondia delas se fossem cadentes

Quase acabei uma tese
mas mastiguei-a demais
e está enroscada entre o coração pardo
e a garganta rouca

Este foi o ano
do seu crescimento maior
a minha roupa deixou de servir
e a dela é sempre pouca

Soube também dessa fatalidade
O mundo está em crise
e ela é bem maior que a minha
cujas sombras sucumbem na Primavera

Foi este em que quase fui feliz
mas nisso foi igual a tantos outros
um quase brilho sempre a fugir
e eu em mergulho atrás dele

E é cedo ainda
nem chegámos ao Natal
e eu já de volta das passas.
Deve ser essa explicaçao do quase.

~CC~

PS. Sabias que as estrelas cadentes são também conhecidas como “lágrimas de São Lourenço”?
(ver aqui)

quarta-feira, dezembro 15, 2010

O frio a sul

O frio congela as minhas mãos sobre o teclado. Penso nas consequências que isso terá nos textos que produzo. Pode ser que a consequência neles depositada seja a frieza -o uso dominante dos substantivos e a quase purga de adjectivos- um critério que a academia mais pura gosta de nos colocar como matriz. O frio no Sul é mais cortante, mais doloroso, não lhe conhecemos o rosto.

Haverá grandes pianistas clássicos a sul? Ou será que lhes faltou o rigor dos Invernos?
~CC~

segunda-feira, dezembro 13, 2010

As três vidas


Uma mulher e três vidas, só na última um sopro de amor. Marcada pelos maus olhados cunhados nos mistérios com que o mundo rural olha para a vida, o azar chega-lhe pelo nascimento. Será a única rapariga entre rapazes, e apesar de muito pequena, é forte como uma vara que o vento é incapaz de quebrar. A tudo resistirá e ainda fará fortuna.


É espantosa a forma como o Teatro Mosca conta a história dela, com elementos cenográficos simples mas eficazes, um conjunto de bocados de madeira que se articulam para fazer mesas, montes, casas, abrigos. Actores muito novos, muito bons. Uma actriz a registar, de uma segurança absoluta na contenção da dor, um rosto permeável, capaz de se deixar escrever a todas as emoções. Dizem que ganharam um prémio em França, fico a pensar como será mais difícil que o ganhem aqui.

De Sintra para Faro, da Mosca para o CAPA, fora dos roteiros onde a mundanidade se constrói em círculo. É como ir ao cineclube em vez de ir ao cinema do centro comercial. É respirar outro ar. Infelizmente são estes, os melhores, os menos conhecidos, que costuma tombar com as crises. As telenovelas essas continuam. O bairro alto também.


Mas há mais vidas, como com Lucie, um dia as pequenas coisas trinfurão, não por serem pequenas, mas por habitarem a singularidade do espectáculo fora do espectáculo.
~CC~

domingo, dezembro 12, 2010

Vitamina certa

Foi na semana passada que as consequências do seu quotidiano sem casacos compridos, blusões de penas e guarda chuvas, lhe valeu uma gripe forte, vivida bem perto de mim. A explicação dela, porém, era outra. Tratava-se da gripe do liceu, uma vez que lá praticamente todos a tinham. Fiquei esclarecida, e sendo uma gripe que afectava só os rapazes e raparigas do liceu, eu estava, pela idade e ausência do contexto, imune.

No entanto, há dias começou uma dor de garganta que se tornou cada vez mais aguda, e agora os espirros abundantes e um mal estar que me tira a vontade de quase tudo. Hesito entre a felicidade de afinal as minhas células possuirem a juventude suficiente para este contágio, ou a tristeza do espelho me devolver um simples nariz vermelho, lábios inchados e olhos mortiços.

A esperança reside nos teus limões possuirem a vitamina certa para fazer face a qualquer gripe, até à do liceu, não obstante a distância que medeia o teu quintal das ruas da minha cidade.
~CC~

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Resistir, ainda crescer

Saíram manhã cedo em direcção ao bairro cigano, um Técnico de Serviço Social e um Educador Social, parte integrante de um agrupamento que dados os seus resultados desastrosos em termos de sucesso escolar, passou a ser um território educativo de intervenção prioritária(TEIP). A directora de turma tinha dado o primeiro alarme: a menina cigana de 12 anos que o ano passado já ameaçara desistir, estava a faltar outra vez. E foram recebidos de braços abertos pela comunidade que lhes explicou que a menina tinha passado a frequentar a escola da Igreja porque essa era dentro do bairro. E a informação à escola, perguntaram? E a legalidade da situação? E lá foram falar com o pastor. Antes disso, já tínhamos estado a conversar sobre os alunos ciganos que estão no Curso de Educação e Formação de Jardinagem, mas gostam é de música, e são bons. Algo está mal quando não os encaminhamos bem, porque é que a jardinagem terá mais saída profissional do que a música?

Falo pelas escolas onde ando, por aquelas com quem colaboro, por quem vou tecendo a admiração que nasce de muitos buracos negros, que sobrevive do desespero, e quantas vezes do meu próprio desespero. O que é diferente agora? O que é diferente do tempo em que eu andei na escola? Diferente é apenas isto: juntamo-nos, fazemos perguntas, não aceitamos o abandono, a desistência, o insucesso. E se sabemos que a escola não pode fazer tudo, pensamos sempre que pode fazer alguma coisa.

E são assim as escolas e os professores que contribuíram activamente para melhorar os resultados dos nossos alunos no PISA, não foram os ministros, nem os secretários de estado. É a mensagem, a força com que a mensagem nos entra no sangue e nos faz ter garra. E mesmo se por vezes desistimos, cansados, fartos, exaustos. Venham os arautos do ensino de elite dizer que eles agora não aprendem nada. Mas os testes não avaliam os saberes? Não têm a legitimidade do "teste internacional"? Não é a mesma entidade que antes nos colocava na cauda da Europa?

Emociono-me sempre que um professor não desiste, e é verdade, às vezes é só o que apetece.

~CC~
Nota: Tenho algumas reticências quanto aos resultados escolares medidos por testes como o PISA, caso eles sejam os únicos instrumentos para nos vermos. E por isso, relativizo-os de algum modo, mas não os anulo ou ponho totalmente de parte. Valem o que valem, e valem alguma coisa.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

A melhor fuga

Fechar os olhos e ir pelos dedos da chuva, criando asas. Depressa estou nas termas de Budapeste, e despreende-se do vapor uma textura de baunilha e amoras. Mais um bocadinho de olhos fechados. Depressa chego à praça de Marraquexe, e despreende-se do ar o barulho dos vendedores de objectos, e de sonhos, e o ar quente traz areia vinda do deserto. Mais um bocadinho sem acordar. Estou na cidade do Cabo, e diante de mim o mar revolto do fim e do começo do mundo, peixes grandes e conchas que andam sozinhas no vento. E depois Buenos Aires, esse tango que jamais saberei dançar, mas que me ecoa na pele. E há ainda a esperança de em todos estes lugares estar um abraço teu.

Passei tempo demais escrevendo, frente a um computador, tenho a sensação que metade do meu tempo foi feito a tricotar palavras para ninguém. Por isso anotar roteiros é uma prática antiga de me fazer feliz. Qualquer dia vão vender isto como mais uma terapia.
~CC~

terça-feira, dezembro 07, 2010

A suster as marés

Tenho tudo a mais. Tenho a mais a ZON, com o seu conjunto de três equipamentos que avariam à vez, tenho a mais a água canalizada com os seus tubos PEC que debitam um cauldal mínimo, tenho a mais cartas registadas que não consigo ir levantar aos correios e trazem por certa problemas adicionais, tenho a mais o fisco que me escreve por carta e por e.mail seja porque motivo for, tenho a mais os jornais da semana que não consigo ler, e livros tão interessantes que deixo a meio.

Tenho tudo a mais numa casa pequena, numa pessoa pequena, numa vida com limite. E apesar de ter energia para fazer girar algumas ventoinhas, caso tivesse modo de a transformar em vento, não é suficiente, não chega para colocar tudo no lugar e a horas e bem feito.

E às vezes apetece-me fazer uma birra grande como os putos, cruzar os braços, e deixar o tempo passar enfiada num cobertor quente, deixar avançar todos os desastres. Outras vezes rio-me de tudo isto, e até de mim, do meu modo de andar a fazer barragens contra a força das marés. E descobri que consigo tomar banho com um alguidar de água, apenas um.
~CC~

domingo, dezembro 05, 2010

Livro do futuro

As pedras estão lá, e atrapalham o meu andar. Uso diferentes métodos para as ultrapassar. Contorno-as, pego-lhes com as mãos, sento-me nelas até se enterrarem na terra. Uso a energia dos beijos, a única verdadeiramente alternativa. Quando me faltam as forças faço desenhos no livro do futuro. Desenho com dedos sol até dormir.
~CC~

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Ela e Ele



Ela veio revolucionar tudo com o seu ar matreiro de quem gosta não só de cozinhar mas também de comer. Conseguiu que os homens passassem a ver programas de culinária, não sei se verdadeiramente atentos às receitas, se presos ao charme da cozinheira. Também lhe acho piada. Parece que a acusam de ganhar milhões, está bem no centro do sistema, mas também já não sabemos bem o que é a margem e o que é o centro. Mas revolucionário e ousado é o chefe Chakal que há muito admirava, desde que fiquei presa à imagem dele a cozinhar com os miúdos dele, todos enfarinhados e bem dispostos. Atentem bem na imagem seguinte e tornemos a falar de charme.

Imagem retirada de: http://sic.sapo.pt/online/entretenimento/chakall-e-pulga

Bem mais ousado do que a Nigella, o Chakal tornou uma carripana uma cozinha ambulante movida a energia solar e deixou-se de lugares televisivos imaculados. Ele aí vai por essa estrada fora à procura dos produtores locais, e do que cada região tem de melhor, não para imitar as receitas antigas mas para as transformar com o toque de quem mistura antigo e moderno em banho-maria. Uma galinha cerejada na serra do Caldeirão é galinha com figos e amêndoas e uma tarte de maçã passa a ser de medronho. Para quem tem no sangue a nostalgia dos anos 60 mas sabe que a vida já não se coaduna com uma carrinha e meia dúzia de trapos em viagem permanente pelo mundo, o Chakal resgata-nos e arrebata-nos. O rapaz é lindo e fala com cães, aliás com uma cadelinha à qual chama pulga. Tem humor que se farta. Qual Nigella....


~CC~

segunda-feira, novembro 29, 2010

Saltar uma estação

Podia ser um urso, desses que hibernam no branco da neve, enrolados em si mesmo, dormindo um sono brando e lento. Podia ser um urso, entre muitos motivos outros, um deles seria para não viver o Inverno, saltar o lirismo de uma estação.
~CC~

domingo, novembro 28, 2010

Manhã de Domingo

É um jardim pequenino a beira do antigo aqueduto, aproveitaram bem um canto da cidade ao abandono. Mas hoje não vim à hora do riso dos meninos, mas à hora das almas errantes.

O homem de meia idade absorto dando pão aos patos, demasiado novo para tal ofício de que se ocupam os velhos e as velhas a quem o abandono chegou. Verá no alimento dado o pouco que lhe resta da utilidade de estar vivo?

A mulher oriental, sentada no banco, falando sózinha, também longe de ser velha, pelo contrário armada de uma beleza tranquila de um ser do outro mundo. Senti frio ao passar por ela, não obstante o brilho do sol.

E o rapaz sem abrigo que leva a casa na bicicleta, e a mochila às costas, e vai a pé, porque o peso que a bicicleta transporta em sacos e mantas e velhos guarda chuvas (para que quererá tantos?) já não comporta os parcos quilos da sua magreza.

Não, esta não é ainda a hora dos meninos pelas mãos jovens das suas mães risonhas, nem dos homens divorciados empurrando baloiços pela manhã fora, nem tão pouco dos cães que terão que aguentar mais o sono domingueiro dos donos. Esta é a hora matutina de quem não sabe o que Domingo é dia de acordar mais tarde, e cujas horas se confundem fora de todas as rotinas.

E não sei porquê, são eles as personagens das histórias que ainda não escrevi, que não sei se algum dia escreverei.
~CC~

sexta-feira, novembro 26, 2010

Oficina das letras

Tinhas saudades deste canto de silêncio e solidão onde bordo a linhas de cor, onde pego em farrapos e faço mantas. As vezes tropeço e o bordado fica torto, a manta com um trapo mal combinado. Momentos há em que sei que a renda para o altar jamais o cobrirá a tempo, deve ser o diabo a querer impedir a missa. Noutros momentos tudo se parece estender como as noites de Verão iluminadas a estrelas, e a alma fica limpa e as palavras saborosas como beijos pequeninos.

É claro que a academia jamais pode saber que para mim a tese de doutoramento é apenas artesanato. Para eles não sou bordadeira, nem tecedeira, nem fiadeira, nem nada que se pareça a um oficio feito mais com as mãos do que com a cabeça. A academia não pode saber que a piada disto só está no desenho possível que as linhas podem ter.

~CC~

quinta-feira, novembro 25, 2010

Um risco

Supermercado com café pela manhã cedo. Sou quase sempre a primeira, gosto destes territórios vazios, de ver as coisas a abrir.

A rapariga do balcão a quem peço o café: tão jovem, tão frágil, tão loura. Os olhos amarrotados de vermelho interior, adornados pelos riscos pretos da maquilhagem. A outra colega mais velha, falando com ela de outro balcão.

- A minha mãe ainda esta manhã me esteve a chatear.
- Com razão, tu dizes sempre que o vais deixar, que acabou, que não voltas. Mas não consegues.
(longo silêncio, pesado)

- Gosto dele.
(voz trêmula, tão doce, olhos a encherem-se de água)

Quando é que as mulheres deixarão de amar os homens que lhes fazem mal?

~CC~
Nota: Sou pouco dada aos dias disto e daquilo, mas a verdade é que este episódio aconteceu ontem, e podia ter sido hoje. Se os dias têm algum efeito, que seja pelo menos o de riscar a poeira do tempo, essa que tudo cobre e quer apagar. E hoje é dia Dia Internacional para a Erradicação da Violência Contra a Mulher, parece que se comemora em todo o mundo. Texto muito bonito sobre o assunto aqui.

quarta-feira, novembro 24, 2010

Pilar e José

Bom, troco-lhes os nomes a preceito. Ele é famoso, ela é poderosa. E como ela defende as mulheres com a garra com que tenho procurado ao longo destes anos defender, dou-lhe a primazia. Ele é interessante como homem, escritor e, sobretudo, como livre pensador. Mas gosto mais dela, da razão do seu calor. A conversa com o jornalista do DN é todo um projecto de ser mulher.

Mas o que fica é a fusão, esse lugar de guarida do amor. Esse lugar onde cada um é um diferente do outro, mas é do outro, é inteiramente dele, sem reserva nem medo e mostra tudo porque não há nada que mereça ser escondido de quem está em nós. Ele chama por ela a todas as horas do dia, e é impressionante a cena em que desprotegido, no meio da multidão, em cansaço absoluto, chama por ela. E ela responde sempre Mi amor. A obra dele é em parte obra dela e a obra dela é em parte ele.

É uma história de amor, por isso as lágrimas correram em determinados momentos.

E meus caros, não há com frequência distribuição comercial de documentários, por isso é preciso correr, passar a palavra, ir.
~CC~

terça-feira, novembro 23, 2010

SPA dois castelos

Há muito que o caudal da água é apenas um fio a desencorajar o esquentador de funcionar. Ontem morreu de vez, calado o piloto automático, dizendo um adeus que nos soube só a frio. E hoje a frase mais cortante que pode haver: isto não tem solução. De repente, a frase mais cinzenta, esse arrepio perante a injustiça inteira do mundo. Senhor eu formei-me na escola das crenças humanas, essa em que a solução é a bandeira que aquece o sangue e o põe a funcionar em cada madrugada.

Não sei arranjar esquentadores, nem ele, que é o especialista.

Pela positiva tornarei a banheira num SPA aquecido a panelas de água, à qual poderei misturar essência de madeira, baunilha e canela. Pela negativa, arrepio-me a cada manhã que com o tempo será manhã escura, quase noite a caminho. Há soluções intermédias que o desespero nao me deixa ver perante os olhos pautados pela desilusão do senhor: não há solução minha senhora, mude de casa.

Tamanha irracionalidade a minha, porque é que eu comprei uma casa só por ter vista para dois castelos. Nunca a conseguirei vender invocando o mesmo motivo.
~CC~

segunda-feira, novembro 22, 2010

Dias que fogem



Passeiam os olhos na água dos canais, nessa luz queria dissolver todas as sombras, guardar certos brindes a vinho vermelho e abraços quentes pela manhã fria.

O tempo, esse maldito, escorrega ligeiro entre as mãos, e há segundos tão bons como os doces de ovos da cidade dos últimos dias, fica na boca o seu sabor.

Outros segundos são como o próprio céu, carregam-se de repente de negro. São esses todos os segundos das coisas por fazer, das coisas já feitas que aparecem desfeitas, da incerteza que certas coisas transportam para dentro do nosso sangue.

Da água dos canais, dos barcos ligeiros de muita cor, das aprendizagens sobre bacalhoeiros, dos filhos dos amigos já tão crescidos, do olhar de Pilar e José, pela ordem inversa, ou pela ordem importante da desordem que é o que mais me transborda.
~CC~


segunda-feira, novembro 15, 2010

Erros meus...

Errei muito. Fui presidente de uma associação de pais, coordenadora de curso, gestora de condomínio, representante dos encarregados de educação, militante de associações várias, sindicalizada desde o primeiro dia. Fundei ou ajudei a fundar várias associações de ex.estudantes de das várias escolas onde andei e daquelas onde tive alunos, prolongando vínculos que me tinham abanado o coração.

Errei muito, fui de todos os poderes pequenos, aqueles das vozes altas, dos olhos molhados, das crenças ingénuas, das noites mal dormidas. Aqueles poderes pequenos de dar o rosto. Guardei de todos eles pós de ouro e pós negros. Pelo último dos poderes pequenos, tornei-me réu, título que parece que só pertence a gente importante.

Esqueci-me de militar num partido político, ou melhor, esse erro felizmente não cometi. Faltou-me ingenuidade suficiente. Ou descaramento.
~CC~

domingo, novembro 14, 2010

Esperança

Um pensamento mau é como uma coisa viral que nos toma cada célula. Fumigar, de fumigações, do tempo em que se deitava fumo às tocas onde os bichos se escondiam. Fumigar os meus pensamentos maus, deitar-lhes fogo, fumo, água. Fazer o mesmo ao cinzento que circula no ar como uma peste.

É preciso que cada semente transporte o mundo por nascer e não uma hipótese de morte. Por todo o lado nos falam da segunda, já quase ninguém nos fala da primeira.
~CC~

quinta-feira, novembro 11, 2010

Novembro.11

Viajámos, não sei bem porquê, nem exactamente para onde. Acontece-me não me lembrar das coisas a não ser em microfilme. É um excerto de qualquer coisa maior, mas só me lembro dessa mais pequena. Apanhámos uma estradinha pequeninha de terra sem qualquer indicação de destino. Eu e ele temos em comum esta vertigem do mergulho, de repente só queremos ver verde, sair dos eixos.

Viajámos e foi para Norte. Lembro-me que corria um rio, e que havia uma encosta cheia de castanheiros. E havia por ali uma data de filhotes dessas árvores que dão ouriços. Só a natureza é capaz de criar espinhos para proteger o que tem de mais precioso, quantas vezes eu o quis fazer sem conseguir. Imagino a minha cria dentro de um ouriço, protegido o meu amor.

Ele, o meu rapaz, foi buscar ao carro as suas pás de roubar árvores, arbustos, flores. E trouxemos daquele lugar sem nome um pequenino castanheiro, na ilusão de o ver crescer perto de nós, e de eu poder aprender com ele a criar ouriços. Mas algumas árvores são especialmente sensíveis, se lhes falta o grau adequado de humidade e de temperatura, desistem de viver. Ou talvez seja só saudade.

Reparem bem nos ouriços que escondem as castanhas, e depois nesse aveludado casca, e na polpa rija que o interior esconde. Podemos comê-las cruas, cozidas, assadas. A natureza é perfeita, podia viver só da recolha dos seus frutos.

~CC~

quarta-feira, novembro 10, 2010

Irmãs

Tenho irmãs a sério, dessas que têm genes oriundos da Mangueira que enchia o quintal das nossas infâncias. E tenho outras que ganhei. Arranjei-as algures no lugar onde o olhar se cruzou e estendeu uma mão que ainda está lá.

Tenho uma irmã, uma dessas que não vi nascer, mas que vejo há anos a nascer, a mudar, a crescer. Não há nada de melhor que ver uma irmã a mudar por dentro, enchendo pouco a pouco de rosas os lugares escuros do seu coração, amansando espinhos, secando lágrimos. Tenho uma irmã que nasce hoje outra vez, e nasce diferente, deve ser algum defeito dos meus olhos, porque todos os anos eu acho que ela nasce mais bela do que no ano anterior.
~CC~

segunda-feira, novembro 08, 2010

Das cidades e das serras

As cidades arruinam-se neste Outono. Os dois cinemas da minha cidade estão fechados para obras. O parque enorme para automóveis que construíram junto à minha casa, em plena zona residencial mas junto da estação de comboio, pejado de parquímetros, mostra como pode falhar a estratégia comercial pública, está deserto. Em cada quarteirão, o edificío mais antigo e mais belo, está a cair aos bocados. A cidade cresce em direcções aparentemente insuspeitas nos terrenos baldios que restam, fazendo minguar as hortas circundantes, mas as tabuletas de venda e aluguer são tantas que parecem anunciar mais desespero que belas casas à venda.

Salvam-se os plátanos enormes e absolutamente deslubrantes de amarelo e laranja, como se os seus cabelos esplenderosos tocando o céu soltassem melodias baxinhas em cravo, para fazer explodir o que resta de beleza nos corações já gastos.
~CC~

sábado, novembro 06, 2010

Beber gota a gota

A água que pouco desce do céu, quando o faz, deixa-se escorregar pelas encostas. É precioso aproveitar cada gota. Escavo-me na terra à espera de as guardar, reter cada momento, apreciar. Beber vida gota a gota.
~CC~


terça-feira, novembro 02, 2010

Adeus

À memória do meu pai
(que partiu a 31 de Outubro, pela mão das bruxas, espero que bruxas belas e fantásticas)

Eram as letras
dentro dos livros
onde segui pelos teus dedos
até à a montanha mágica, olhai os lírios no campo
toda a colecção Dois mundos
da editora Brasil,
RTP
e o dicionário ilustrado
com todas as palavras desta língua

esta que tão pouco usaríamos para dizer
amor
deixada feita silêncio
tantos e tantos anos
nas bocas cosidas de distância
algum ressentimento

passar o sal, o piri-piri, o açúcar
deixar os olhos lamber as mulheres roliças
fumar muito
mostrar a arma e a farda
amarrotá-la
sonhar-se em religiões alternativas
e como mestre de todas as multidões perdidas

e acabar como todos
pobre, humilde, triste
infinitamente carente e de todos dependente
e ainda assim melhor
mais sereno, mais doce, mais próximo

senhora morte que se aproximava
direi que o meu pai é aquele
que num lugar qualquer lá longe
estará disposto a traçar o horóscopo
a qualquer mulher bonita
preferencialmente loira

sim, era nosso pai
não, não deixou bens nem dinheiro
tinha o IRS feito e era já muito
e o que deixou é ar
a circular dentro do sangue
do nosso
mas ar de qualidade muito boa
apesar dos pulmões falidos

se é que pai é o nome que lhe posso chamar
mas sim deu-me o meu nome
este nome que gosto de dizer por ser belo
e ser a coisa mais minha que tenho

e sim porque a memória
tem lá dentro um colo perdido
que me deu na infância
e outro colo
que fui eu
a dar-lhe agora.

E adeus era na boca dele
uma passagem entre as vidas passadas
e as vidas futuras
pelo que voltará em breve
para piscar o olho
às mulheres loiras, um pouco roliças.

~CC~

sexta-feira, outubro 29, 2010

O melhor remédio

Ela tinha uma saia de flores brilhantes exactamente igual a uma que tenho e de que não gosto particularmente, por isso olhei. A mim a saia faz-me mais gorda e por isso não a visto, mas ela era realmente mais gorda e a saia ficava-lhe bem. Era alta, redonda e risonha, entre os quarenta e os cinquenta. É raro alguém sorrir assim manhã tão cedo, num café meio tristonho e sem graça. E todos a cumprimentavam com afabilidade.

A mulher dos envelopes aproximou-se dela delicadamente para tirar lá de dentro os papéis e mostrar-lhe. E ela sorriu mais: dê-lhe mimos! A outra nada dizia, espantada com a papelada a mostrar o tamanho da infeccção. E então ela disse mais perto, mais baixo: sexo, faça sexo com ele, vai ver que ajuda. Não, psicóloga não era, essas não recomedam assim abertamente o que os doentes precisam, é preciso que eles cheguem lá uma quantas sessões depois, e por si próprios. A mulher dos envelopes não pareceu nada satisfeita com ao remédio recomendado, impossível comprar em qualquer farmácia e sem custos.~

E chegou outra mais nova a falar da vacina contra a gripe, e se devia tomá-la. E ela riu-se e recomendou-lhe laranjas, sol, e muitos espinafres. Desta vez o sexo ficou de fora, ainda que a mistura de ingredientes recomendada lhe fosse muito favorável.

Tudo se configurava para um retrato de médica de clínica geral, esta saída de uma escola que não conheço, pois não mandou ninguém à farmácia que ficava mesmo ao lado.

E pensar que 20% anda a antidepressivos.
~CC~

Mariposa

(com mariposas nos olhos ao ler)

amo-te
te quiero
je t'aime
i love you
te amoich lieberdich
cretcheu di meu
ahabib

(e em Quimbudo por saber dizer, algures na memória da minha infância deve existir um par abraçado).

~CC~

quarta-feira, outubro 27, 2010

Formigas, quem sabe cigarras escondidas

Duas mulheres passeando entre as hortaliças e as frutas mal a manhã acorda são capazes de passar da crise do país às maleitas do seu corpo e aos aparelhos dos dentes para os filhos. Sao duas formigas amealhando o pão, ciosas do seu mundo, capazes de o defender contra as tempestades, todas elas e até a crise, esse bicho escuro que já tratam por tu. Discutem como poupar como se estivessem nas Tardes da Júlia (é assim que isto existe, ainda existe?)

Olho-as a pensar como amam elas, olho os seus corpos a pensar nas carícias que eles podem receber e não consigo imaginar. Talvez afinal se transfigurem e cantem como cigarras. Talvez não amem, fechem só os olhos no escuro da noite, como se estivessem afinal na mesma função que cumprem tão escrupulosamente manhã cedo, no supermercado.

Formigas, quem sabe cigarras escondidas.
~CC~

segunda-feira, outubro 25, 2010

Em mudança

As delas amarelas e laranjas, os meus brancos.
Da cor da seiva que nos corre dentro, e das suas mudanças, nada se vê.
~CC~

domingo, outubro 24, 2010

Domingo mais

A menina procura na praia os caranguejos já mortos, esses que não a assustam. O rapaz pequenino empurra o seu grande camião e enche-o de areia muito devagar, desistirá a meio porque logo se levanta o avião, o barco arranca com barulho, e a sua atenção flutua pelo mundo. Os jornais ficam por ler sobre a mesa dos adultos, porque o sol é mais forte e teima em nos abençoar com a sua luz, soltando palavras triviais. Ser feliz é por momentos este não dar conta de nada, só da carícia de uma mão, ora grande, ora pequenina, agarrada à nossa.

Tudo parece estar às vezes no lugar certo, como se a tranquilidade fosse chegar assim suave para me trazer descanso de todas, de tantas lutas.
~CC~

sexta-feira, outubro 22, 2010

Assombro

Assombram-nos o Inverno, já não basta saber que os dias serão mais pequenos e a pele mal respirará abafada nos casacos, ainda nos turvam os olhos com as suas imagens vazias, mas gravatas ainda brilhantes. Há no fundo dos seus olhos o que as palavras não conseguem traduzir: eles nada sabem do futuro. Esgotaram o planeamento dos planos. Fingem que acreditam, mas já não acreditam verdadeiramente no rumo, sabem do desgoverno.

Assombram-nos o Inverno e já não é o salário a diminuir, o fantasma do desemprego que em algumas casas já se tornou de carne e osso, é já o que temos para deixar aos filhos, um mundo a desfazer-se.

Para alguns haverá Deus, para outros Revolução, para mim apenas o aconchego das mãos, alguma imaginação.

~CC~

quarta-feira, outubro 20, 2010

Amargo(s)


Discutia-se, entre professores, os prémios que se atribuem aos alunos como forma de os distinguir por esta ou aquela coisa boa. E um deles diz: temos é que lhes dizer que o prémio não é um livro! Gargalhada geral.

E depois cada sorriso a desfazer-se amargo.
~CC~

terça-feira, outubro 19, 2010

Fragmentos

Os teus dedos fazem lume brando e eu posso aquecer-me. As noites sem frio são mais pequenas.

O olhar dele é o derradeiro lugar onde a minha tristeza é pequena se comparada com a dele. Não consigo evitar desorientar-me com a vida a fechar-se.

O medo diminui devagarinho mas ainda enche os meus sonos. Amachuco o medo enchendo-o com a esperança dos olhos amados. Encho o meu coração de viagens a dois, a três, a muitos.

O Outono tem este sol manso, não é o mesmo da festa do mar, mas lugar de enrolar, se pudesse fazia como os gatos, ia pelos muros miando a vida. Fugia de quando em quando a todas as minhas obrigações, já era tempo de serem menos, de me encherem menos o tempo. Devia poder dormir ao sol como as gatas.

~CC~

domingo, outubro 17, 2010

Ouro azul

Cabo Verde, Ilha de S. Nicolau. 2007



A sem se ver avisou, o dia certo já passou, mas nunca é tarde para lembrar.

Domingo luz e sombra

A sombra pode ser qualquer coisa que nos aparece no momento em que nos sentimos felizes. Uma mancha que começa por ser pequenina e quer aumentar. E nós lutamos com ela. A vida é, para alguns, um lugar de muita luta.

O receio é baixar os braços, desistir. As insónias insinuam-se.

É Outono, já há fumo de castanhas pela rua, um manto de friozinho que ainda não corta a pele, cheiro a mosto que vem do campo. E cá dentro a força dos teus abraços. Uma luz nas letras com que bordo o trabalho. Os sorrisos da miúda tão vivos. Não pode a sombra apanhar-me neste momento. Afasto-a. Mas ela não parece ser só sombra, quer ganhar contornos, ser matéria, insinuar-me no meu corpo. A sombra não pretende ser só melancolia, tristeza, parece querer ser real, avançar pelo lado mais frágil de mim.

Não pode, não pode.
~CC~

sexta-feira, outubro 15, 2010

quinta-feira, outubro 14, 2010

Observação dos dias (III)

Pagava o café a umas ex.alunas que tinham vindo a convite meu. E a empregada do bar comentou: aproveitem meninas que é a professora que paga, aproveitem quanto antes porque vai ficar sem mais um dinheirinho no final do mês. E acha bem? Perguntei-lhe eu. Claro que acho, é muito bem feito. A empresa que gere o bar é obviamente privada, há muito que tudo se entregou ao mercado.

E ela (de quem gosto) continuou num chorilho de ofensas aos funcionários públicos. Conclui que afinal o governo escolheu bem o alvo, são vítimas desde sempre pouco amadas, presas fáceis de uma inveja sem qualquer sentido. Talvez alguns possam merecer este desdém, mas estou certa que há muito quem não o mereça.
~CC~

quarta-feira, outubro 13, 2010

700.13

Auditório do Museu do NEO-REALISMO. Vila Franca de Xira

MÚSICA DE INTERVENÇÃO E NEO-REALISMO
Lançamento do CD 13, de Afonso Dias com Afonso Dias, Manuel Freire, Francisco Fanhais, Tino Flores e Pedro Lobo Antunes
Sábado, 16 de Outubro de 2010 Hora: 16h00


"que se chama 13 porque sim - e também porque tem nele 13 canções - porque 13 é número de magias negras e brancas , associadas à sorte e ao azar - porque o azar é como a água benta: cada qual toma a que quer, embora haja acidentes e quanto a isso paciência, pá - porque a sorte é como a vida: melhora se a gente puxa por ela - e porque as cantigas continuam a ser precisas para mostrar as nossas zangas, partilhar os nossos afectos, esbanjar a nossa solidariedade e para denunciar a mentira e a iniquidade – sempre!"

Afonso Dias

ver mais em: http://www3.cm-vfxira.pt/PageGen.aspx?WMCM_PaginaId=30638


Nota: foram 700 as vezes que me apeteceu escrever aqui.

terça-feira, outubro 12, 2010

Observação dos dias (II)



Os dias passam demasiado rápido. Só isso explica que tenha deixado passar Voando nos Equinócios. Nada afinal me apeteceria mais. E nenhuma coisa me causaria mais medo, esse medo que habita o desejo do impossível.

~CC~

Nota: Para os curiosos espreitar aqui. (ver Desporto, 9 e 10 Outubro)

Observação dos dias (I)


Saio muito cedo pela manhã. A paisagem é inevitavelmente composta por homens e mulheres que passeiam os seus cães. As ruas ficam logo imundas pela manhã cedo.

~CC~

segunda-feira, outubro 11, 2010

Laços apertados e deslaçados

O nó, esse cimento de anos. Um grito e os amigos acordam, mesmo distantes. Um olhar e somos os miúdos de antigamente, os adolescentes que já fomos, os adultos nas veredas iniciais, as primeiras crianças que nasceram de nós. Estamos ainda aqui.


Outros chegados ainda há pouco, e no entanto um lume já capaz de aquecer, fulgor de palavras trocadas, lágrimas pelo mundo. A fotografia do nó ali a olhar-me (obrigado J.)


Outros chegaram ainda há pouco e já parecem ter partido. Eram fumo, vento, simulacro. Não devia trazer nenhuma dor, e no entanto dói. Porque vieram, porque se foram, talvez nunca venha a saber.

Talvez estejam outros para chegar, talvez possam ficar.
~CC~

domingo, outubro 10, 2010

Domingo de volta

Tenho-me. Tenho-te. O mundo parece acordar de um sono triste.

Toquem os sinos porque o Domingo é de água e Deus é o sangue que nos corre por dentro a pedir felicidade. Há uma fina película de luz a entrar nas janelas que acabei de abrir.

Apanhei mais do que um comboio para acordar noutros lugares e poder saber como é a manhã quando acordamos longe de casa e não sabemos onde se pode ir beber café. E Aveiro é uma cidade entre a água doce e a água salgada, num equilibrio instável. Tem a serenidade dos lugares instáveis, a mesma que eu procuro. A beleza dos lugares em movimento.

É tão bom como ir é poder no regresso enrolar-me naquele sorriso alegre da adolescente que me espera na volta. É observar até que ponto as plantas cresceram na minha ausência. É deixar-me cair no sofá de todos os dias. O melhor das rotinas é sabermos que as podermos romper, é conseguir fazê-lo.


Que em mim não morra esta vontade de ir, mesmo quando o peso das pernas parece ter aumentado e a vontade de dizer palavras parece ter desmaiado no fundo da minha garganta. Mas não é assim, eu sou ainda a vontade de ir. A minha viagem interior cresce nas viagens reais da terra, sou mais eu de cada vez que acordo noutro lugar.
~CC~

quinta-feira, outubro 07, 2010

Terra

Imagino que és tu a terra onde posso morar. Se abrires bem os braços e me puderes abrigar de todos os vendavais, talvez possa adormecer tranquilamente dentro do teu calor. Estou cansada.

E não é um rosto perfeito, um corpo bonito, um arquitecto do saber, um encantador de palavras. É apenas uma alma grande, aberta ao mundo, tombando no equilibrio precário das coisas para se erguer árvore em qualquer Primavera. O que é forte e pode ser também frágil. O que sabe rir sabe chorar. Deixa-te ir, ser. Deixa-me ir, ser.

Imagino que sou terra onde podes morar. Se abrir bem os braços talvez te possa acordar para esses rios que te correm dentro, às vezes presos e outras fluindo a campo aberto, fertilizando as searas. Talvez te possa adormercer tranquilamente dentro do meu calor. Estás cansado.

Beijos primeiros. Beijos em primeiro.

Terra, este existir para existir mar.

~CC~

quarta-feira, outubro 06, 2010

Pessoas luz

Passei a frequentar amiúde o bar do hospital, um lugar triste animado por dois vasos de plantas grandes e verdes e paredes pintadas com muita cor. E se é verdade que a estética das paredes, dos quadros, das plantas, lhe traz uma luz menos difusa, é a senhora cinquentona que de quando em quando atende ao balcão que o ilumina.

Chama-me meu amor com uma doçura que me deixa sem palavras para lhe responder. Aquele meu amor já me trouxe uma lágrima (meu amor, hoje traz cara triste), mas a maior parte das vezes deixa-me sorridente (meu amor, não há água com gaz, beba da outra que lhe faz melhor). Já a vi sair do balcão para vir abraçar uma moça que chorava convulsivamente porque tinha vindo do Porto e não estava à espera de ver o pai inanimado nos cuidados intensivos. E esteve muito tempo abraçada a ela esquecida do balcão e nós à espera, mas numa espera solidária, silenciosa.

Neste tempo que foi vazio e triste, meu amor era um tratamento tão distante de mim e do meu mundo, que quase só facto de ela o usar me possibilitava amar-me.
~CC~

Brasil

Depois de Nelson Mandela não houve mais ninguém, depois dele deu-se a morte dos políticos.

Agora aparece Lula, sendo que este agora é tardio. Agora damos conta que ele existia porque está de saída e quer passar um legado. Dizem que o Brasil cresceu economicamente tendo como horizonte o povo e isso parece-nos impossível na era do capitalismo global. Ninguém pensa nos mais pobres em Angola ou na China, países que até há pouco ninguém colocava na esfera do capitalismo puro e duro. E Lula tinha elos duvidosos, deixava-se seduzir por ditadores com perfil revolucionário.

Não queria acreditar no brasileiro, homem de meia idade que dizia olhos colados na televisão que ia votar Lula (apesar de não ser ele, é como se fosse) porque muitas tinham sido as melhorias na sua comunidade. Na sua comunidade, já ninguém diz palavras destas. Os políticos não interferem nas comunidades, quando chegam ao poder já perderam todos os laços, forjam-se nessa perca. Há alguma coisa de estranho neste Brasil, ou então é mero embuste, uma ilusão.

O Brasil é metade da minha imaginação, um bocado do meu sangue. Agora mais.
~CC~

segunda-feira, outubro 04, 2010

Praia

O meu corpo sabe dizer-me. Posso assim segui-lo como quem segue um mapa traçado pelos sentidos. Encontrar-te. Depois é deixar que os beijos possam ser maré.

Saber sacudir a areia, ainda guardar as conchas.

~CC~