sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Curtas (VI)

O dia acordou na minha alma ambivalente. Está sol e passei desde há uma semana a contar quantos minutos de dia há a mais, a conquista da noite é o meu rumo até à Primavera, e quando ela chegar terei sobrevivido a mais um Inverno. Não sei até quando os conseguirei suportar.

Tu não estás e não virás. Há uma parte de mim que compreende tudo, e outra que nada compreende.

Mesmo certa é apenas a falta de um beijo.

~CC~

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Curtas (V)

Os índios da meia praia são os meus primos a correr descalços pelas ruas de Olhão.

Andavam também à solta nos olhos do Zeca, e habitavam o seu coração salgado. A única coisa possível a dizer é que são vinte e quatro anos de saudade, se podemos dizer saudade de alguém que não sendo nosso, foi de todos nós.
~CC~

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Curtas (IV)

Com dez anos subiu ao telhado da escola e disse que se ia atirar de lá. Dias antes a mãe tinha dito que não o queria mais, e foi pedir a uma instituição que ficasse com ele. Podemos condená-la, mas não antes de ouvir a história triste que também terá para contar. Condenar é tão simples.
Fiquei apenas a pensar nos abraços que faltaram. À mãe, ao filho.

E nas aulas que fizeste hoje, à base de abraços.

Nas aulas que também farei com muitos abraços.

É preciso acreditar, pedir aos meninos que desçam dos telhados, abraçá-los.

~CC~

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Curtas (III)


As mulheres, todas elas em sonhos flores voadoras.
~CC~

(e quando as vejo gritarem liberdade nas praças de belos nomes árabes, quando as vejo vestidas com burkas, abro os meus olhos de espanto, pensando como será possível voar com panos tão escuros, tão pesados.)

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Curtas (II)

Se nascesse outra vez, talvez pudesse desenhar com esta precisão geométrica os caminhos. Não andaria tantas vezes às voltas, a maior parte das vezes sempre à procura do sol, ainda que em diversas formas de gente.

~CC~


terça-feira, fevereiro 15, 2011

Curtas (I)

Nem sempre sabemos que aquele é um momento feliz. Só sabemos depois, já cobertos de saudade.
~CC~



sábado, fevereiro 05, 2011

Final Tese (III)

Até breve
~CC~

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Final Tese(II)

Desde o Verão que não leio um livro de um autor fora do campo técnico ou científico. É verdade que leio muito, contudo, nada do que leio me abana, me leva, me muda.

(ai se os meus professores lessem este blogue!)

~CC~

Final Tese (I)



Passar pelas lojas e não me apetecer comprar nada. As coisas, se as toco, parecem-me vazias, como se as minhas mãos não as pudessem agarrar. Não querermos nada, haverá melhor modo de poupar.

~CC~

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Final tese



Os amigos ligam cada vez menos. E sentimos como dolorosa a sua falta, enquanto nos sabemos praticamente indisponíveis.

~CC~

Ética adolescente (II)

- O teu namorado é mesmo bonito, porra!
- É bonito é...infelizmente!
- Então porquê? Preferias que fosse feio?
- Queria era que fosse bonito só para mim!

~CC~

(Fertagus, ainda há pouco)

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Ética adolescente

- De quem eu gosto mesmo é daquela miúda que anda com o F.
- É pá...tens é que saber se eles são namorados ou só curtem!
- Achas que faz diferença?
- Então não...se só curtem podes avançar, és só mais um.

~CC~

(À porta da escola)

segunda-feira, janeiro 31, 2011

Esta vida

Entre os doze e os quinze falei com fantasmas, tratando-os por tu. Se me deitasse no escuro conseguia ouvir vozes que não sabia de onde vinham. Se me concentrasse muito em alguém conseguia saber o que estava a pensar. Vivia nesse limbo entre a sanidade e a pura loucura, ou seja, crente nos meus dons especiais. Precisava trabalhá-los, era o que me diziam.

Um dia esse mundo febril em que a minha pele era apenas o ecoar dos deuses e o meu coração a busca infinita da razão de estarmos aqui foi atravessado por doses extra de Marx, Reich, Bakunin, testando com o fogo da paixão uma religiosidade tecida com fios sobrenaturais e bebida da nobre herança paterna. O que não fazemos por um amor aos dezasseis anos. Foram-se os diálogos com os fantasmas e um futuro brilhante como sensitiva, tudo apagado pelas carícias terrenas nos jardins públicos da cidade.

Ainda assim sobrou-me o suficiente da loucura adolescente para deixar-me tocar por Hereafter, para perceber que o amor na sua força máxima só pode rejeitar a morte. E, contudo, os mortos pedem o seu descanso, nós é que não podemos, não conseguimos.
~CC~

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Bom fim de semana


Para Sul, à procura de um beijo.
~CC~

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Da loucura

Vendo bem a casa Pia nem existe, nunca existiu.
(ou entre o nojo e a fúria)
~CC~

terça-feira, janeiro 25, 2011

Ver

Diz-me o que vês nesse espelho.

(Dou-lhes o espelho)

E eles respondem: vejo que os outros são feios.

(Os outros, mas como os vês nesse espelho onde está o teu rosto? É de ti que te peço para falar)

E eles respondem: o meu rosto, sim, tem uns pequenos defeitos

(Abre mais os olhos, fala-me também da tua beleza, e do que que não é belo, mas podes torná-lo belo, é essa a arte mais bela, a da transformação)

E continuamos um difícil diálogo sobre os sentidos.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Cafés (I)

-Todos os transportes públicos são bons para a aprendizagem da vida. Os cafés também-

Ela casou com ele porque queria alguém para passear, já tinha perto de 70 anos mas ninguém a segurava em casa. Veja você ou eu. Nós somos capazes de ficar em casa a bordar, a fazer uma costura, a ver televisão. Ela não, ela só pensava em viajar, e não era para sítios baratos.

(espanto da outra mulher, num "aí era?)

Mas ele era mais novo, queria outras coisas. E ela era rica e ele pobre. E ela não se deixou ir na conversa e casou com total separação de bens, eu nunca tinha ido a um casamento assim, com separação total de bens. E quando começou a perceber que ele a roubava, custou-lhe muito. Custou-lhe muito, mas não demorou a pôr-lhe as malas à porta. Ela com 70 anos mandou embora um homem com menos vinte!


(ai sim?)

~CC~

domingo, janeiro 23, 2011

Ao engano

A erosão da nossa implicação na vida social e política leva a que até a tristeza já não seja a mesma nas noites em que os outros vencem. Esta era, aliás, tristeza anunciada, e talvez por isso me chegou como uma gripe depois da vacina tomada.

Ainda assim, não deixo de me perguntar sobre quem é este povo, que distrito a distrito, sem nenhuma excepção, se deixa enganar.

~CC~

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Produto apreendido

São raras as vezes que os cidadãos se sentem protegidos pelo Estado, sobretudo quando o nome do cidadão é um nome vulgar, cujo apelido não se conjuga com os verbos do poder. Não é portanto pelo prejuizo que a empresa de parquímetros da minha cidade terá que estou satisfeita, mas sim pelo facto de o querem ganhar de forma ilegítima, taxando o valor minímo da cobrança acima do que a lei permitia. Desconheço quem o fez, mas quem quer que seja demostrou que por vezes protestar vale a pena. E por cada protesto válido e ganho deviam nascer mais vinte.

Nunca tinha visto parquímetros cobertos de plástico preto com uma fita amarela a dizer: produto apreendido. E estão assim por toda a baixa da cidade, vale a pena a visita cívica. E há ainda este estuário, quando chega um pouqinho de sol, é um dos mais belos.
~CC~

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Em observação (II)


Aveiro, Novembro de 2010

Será por causa da tristeza? Morar numa casa amarela será um modo de se ser menos triste?

~CC~