quinta-feira, dezembro 16, 2010

Baloiço, balanço...

Este foi o ano
em que morreu uma parte de mim
que ainda desconhecia
um pai acabado de chegar

Foi este em que por quase nada
te perdi no sufoco
de seres gato e eu lebre e eu cabra
no Agosto mais quente da memória

Este foi o ano
em que o quase foi sempre
a palavra ao pé da boca
trava-línguas amargo-doce

Quase arranjei um amigo
suave e sensível
uma noite de Verão que prometia estrelas
mas se escondia delas se fossem cadentes

Quase acabei uma tese
mas mastiguei-a demais
e está enroscada entre o coração pardo
e a garganta rouca

Este foi o ano
do seu crescimento maior
a minha roupa deixou de servir
e a dela é sempre pouca

Soube também dessa fatalidade
O mundo está em crise
e ela é bem maior que a minha
cujas sombras sucumbem na Primavera

Foi este em que quase fui feliz
mas nisso foi igual a tantos outros
um quase brilho sempre a fugir
e eu em mergulho atrás dele

E é cedo ainda
nem chegámos ao Natal
e eu já de volta das passas.
Deve ser essa explicaçao do quase.

~CC~

PS. Sabias que as estrelas cadentes são também conhecidas como “lágrimas de São Lourenço”?
(ver aqui)

quarta-feira, dezembro 15, 2010

O frio a sul

O frio congela as minhas mãos sobre o teclado. Penso nas consequências que isso terá nos textos que produzo. Pode ser que a consequência neles depositada seja a frieza -o uso dominante dos substantivos e a quase purga de adjectivos- um critério que a academia mais pura gosta de nos colocar como matriz. O frio no Sul é mais cortante, mais doloroso, não lhe conhecemos o rosto.

Haverá grandes pianistas clássicos a sul? Ou será que lhes faltou o rigor dos Invernos?
~CC~

segunda-feira, dezembro 13, 2010

As três vidas


Uma mulher e três vidas, só na última um sopro de amor. Marcada pelos maus olhados cunhados nos mistérios com que o mundo rural olha para a vida, o azar chega-lhe pelo nascimento. Será a única rapariga entre rapazes, e apesar de muito pequena, é forte como uma vara que o vento é incapaz de quebrar. A tudo resistirá e ainda fará fortuna.


É espantosa a forma como o Teatro Mosca conta a história dela, com elementos cenográficos simples mas eficazes, um conjunto de bocados de madeira que se articulam para fazer mesas, montes, casas, abrigos. Actores muito novos, muito bons. Uma actriz a registar, de uma segurança absoluta na contenção da dor, um rosto permeável, capaz de se deixar escrever a todas as emoções. Dizem que ganharam um prémio em França, fico a pensar como será mais difícil que o ganhem aqui.

De Sintra para Faro, da Mosca para o CAPA, fora dos roteiros onde a mundanidade se constrói em círculo. É como ir ao cineclube em vez de ir ao cinema do centro comercial. É respirar outro ar. Infelizmente são estes, os melhores, os menos conhecidos, que costuma tombar com as crises. As telenovelas essas continuam. O bairro alto também.


Mas há mais vidas, como com Lucie, um dia as pequenas coisas trinfurão, não por serem pequenas, mas por habitarem a singularidade do espectáculo fora do espectáculo.
~CC~

domingo, dezembro 12, 2010

Vitamina certa

Foi na semana passada que as consequências do seu quotidiano sem casacos compridos, blusões de penas e guarda chuvas, lhe valeu uma gripe forte, vivida bem perto de mim. A explicação dela, porém, era outra. Tratava-se da gripe do liceu, uma vez que lá praticamente todos a tinham. Fiquei esclarecida, e sendo uma gripe que afectava só os rapazes e raparigas do liceu, eu estava, pela idade e ausência do contexto, imune.

No entanto, há dias começou uma dor de garganta que se tornou cada vez mais aguda, e agora os espirros abundantes e um mal estar que me tira a vontade de quase tudo. Hesito entre a felicidade de afinal as minhas células possuirem a juventude suficiente para este contágio, ou a tristeza do espelho me devolver um simples nariz vermelho, lábios inchados e olhos mortiços.

A esperança reside nos teus limões possuirem a vitamina certa para fazer face a qualquer gripe, até à do liceu, não obstante a distância que medeia o teu quintal das ruas da minha cidade.
~CC~

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Resistir, ainda crescer

Saíram manhã cedo em direcção ao bairro cigano, um Técnico de Serviço Social e um Educador Social, parte integrante de um agrupamento que dados os seus resultados desastrosos em termos de sucesso escolar, passou a ser um território educativo de intervenção prioritária(TEIP). A directora de turma tinha dado o primeiro alarme: a menina cigana de 12 anos que o ano passado já ameaçara desistir, estava a faltar outra vez. E foram recebidos de braços abertos pela comunidade que lhes explicou que a menina tinha passado a frequentar a escola da Igreja porque essa era dentro do bairro. E a informação à escola, perguntaram? E a legalidade da situação? E lá foram falar com o pastor. Antes disso, já tínhamos estado a conversar sobre os alunos ciganos que estão no Curso de Educação e Formação de Jardinagem, mas gostam é de música, e são bons. Algo está mal quando não os encaminhamos bem, porque é que a jardinagem terá mais saída profissional do que a música?

Falo pelas escolas onde ando, por aquelas com quem colaboro, por quem vou tecendo a admiração que nasce de muitos buracos negros, que sobrevive do desespero, e quantas vezes do meu próprio desespero. O que é diferente agora? O que é diferente do tempo em que eu andei na escola? Diferente é apenas isto: juntamo-nos, fazemos perguntas, não aceitamos o abandono, a desistência, o insucesso. E se sabemos que a escola não pode fazer tudo, pensamos sempre que pode fazer alguma coisa.

E são assim as escolas e os professores que contribuíram activamente para melhorar os resultados dos nossos alunos no PISA, não foram os ministros, nem os secretários de estado. É a mensagem, a força com que a mensagem nos entra no sangue e nos faz ter garra. E mesmo se por vezes desistimos, cansados, fartos, exaustos. Venham os arautos do ensino de elite dizer que eles agora não aprendem nada. Mas os testes não avaliam os saberes? Não têm a legitimidade do "teste internacional"? Não é a mesma entidade que antes nos colocava na cauda da Europa?

Emociono-me sempre que um professor não desiste, e é verdade, às vezes é só o que apetece.

~CC~
Nota: Tenho algumas reticências quanto aos resultados escolares medidos por testes como o PISA, caso eles sejam os únicos instrumentos para nos vermos. E por isso, relativizo-os de algum modo, mas não os anulo ou ponho totalmente de parte. Valem o que valem, e valem alguma coisa.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

A melhor fuga

Fechar os olhos e ir pelos dedos da chuva, criando asas. Depressa estou nas termas de Budapeste, e despreende-se do vapor uma textura de baunilha e amoras. Mais um bocadinho de olhos fechados. Depressa chego à praça de Marraquexe, e despreende-se do ar o barulho dos vendedores de objectos, e de sonhos, e o ar quente traz areia vinda do deserto. Mais um bocadinho sem acordar. Estou na cidade do Cabo, e diante de mim o mar revolto do fim e do começo do mundo, peixes grandes e conchas que andam sozinhas no vento. E depois Buenos Aires, esse tango que jamais saberei dançar, mas que me ecoa na pele. E há ainda a esperança de em todos estes lugares estar um abraço teu.

Passei tempo demais escrevendo, frente a um computador, tenho a sensação que metade do meu tempo foi feito a tricotar palavras para ninguém. Por isso anotar roteiros é uma prática antiga de me fazer feliz. Qualquer dia vão vender isto como mais uma terapia.
~CC~

terça-feira, dezembro 07, 2010

A suster as marés

Tenho tudo a mais. Tenho a mais a ZON, com o seu conjunto de três equipamentos que avariam à vez, tenho a mais a água canalizada com os seus tubos PEC que debitam um cauldal mínimo, tenho a mais cartas registadas que não consigo ir levantar aos correios e trazem por certa problemas adicionais, tenho a mais o fisco que me escreve por carta e por e.mail seja porque motivo for, tenho a mais os jornais da semana que não consigo ler, e livros tão interessantes que deixo a meio.

Tenho tudo a mais numa casa pequena, numa pessoa pequena, numa vida com limite. E apesar de ter energia para fazer girar algumas ventoinhas, caso tivesse modo de a transformar em vento, não é suficiente, não chega para colocar tudo no lugar e a horas e bem feito.

E às vezes apetece-me fazer uma birra grande como os putos, cruzar os braços, e deixar o tempo passar enfiada num cobertor quente, deixar avançar todos os desastres. Outras vezes rio-me de tudo isto, e até de mim, do meu modo de andar a fazer barragens contra a força das marés. E descobri que consigo tomar banho com um alguidar de água, apenas um.
~CC~

domingo, dezembro 05, 2010

Livro do futuro

As pedras estão lá, e atrapalham o meu andar. Uso diferentes métodos para as ultrapassar. Contorno-as, pego-lhes com as mãos, sento-me nelas até se enterrarem na terra. Uso a energia dos beijos, a única verdadeiramente alternativa. Quando me faltam as forças faço desenhos no livro do futuro. Desenho com dedos sol até dormir.
~CC~

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Ela e Ele



Ela veio revolucionar tudo com o seu ar matreiro de quem gosta não só de cozinhar mas também de comer. Conseguiu que os homens passassem a ver programas de culinária, não sei se verdadeiramente atentos às receitas, se presos ao charme da cozinheira. Também lhe acho piada. Parece que a acusam de ganhar milhões, está bem no centro do sistema, mas também já não sabemos bem o que é a margem e o que é o centro. Mas revolucionário e ousado é o chefe Chakal que há muito admirava, desde que fiquei presa à imagem dele a cozinhar com os miúdos dele, todos enfarinhados e bem dispostos. Atentem bem na imagem seguinte e tornemos a falar de charme.

Imagem retirada de: http://sic.sapo.pt/online/entretenimento/chakall-e-pulga

Bem mais ousado do que a Nigella, o Chakal tornou uma carripana uma cozinha ambulante movida a energia solar e deixou-se de lugares televisivos imaculados. Ele aí vai por essa estrada fora à procura dos produtores locais, e do que cada região tem de melhor, não para imitar as receitas antigas mas para as transformar com o toque de quem mistura antigo e moderno em banho-maria. Uma galinha cerejada na serra do Caldeirão é galinha com figos e amêndoas e uma tarte de maçã passa a ser de medronho. Para quem tem no sangue a nostalgia dos anos 60 mas sabe que a vida já não se coaduna com uma carrinha e meia dúzia de trapos em viagem permanente pelo mundo, o Chakal resgata-nos e arrebata-nos. O rapaz é lindo e fala com cães, aliás com uma cadelinha à qual chama pulga. Tem humor que se farta. Qual Nigella....


~CC~

segunda-feira, novembro 29, 2010

Saltar uma estação

Podia ser um urso, desses que hibernam no branco da neve, enrolados em si mesmo, dormindo um sono brando e lento. Podia ser um urso, entre muitos motivos outros, um deles seria para não viver o Inverno, saltar o lirismo de uma estação.
~CC~

domingo, novembro 28, 2010

Manhã de Domingo

É um jardim pequenino a beira do antigo aqueduto, aproveitaram bem um canto da cidade ao abandono. Mas hoje não vim à hora do riso dos meninos, mas à hora das almas errantes.

O homem de meia idade absorto dando pão aos patos, demasiado novo para tal ofício de que se ocupam os velhos e as velhas a quem o abandono chegou. Verá no alimento dado o pouco que lhe resta da utilidade de estar vivo?

A mulher oriental, sentada no banco, falando sózinha, também longe de ser velha, pelo contrário armada de uma beleza tranquila de um ser do outro mundo. Senti frio ao passar por ela, não obstante o brilho do sol.

E o rapaz sem abrigo que leva a casa na bicicleta, e a mochila às costas, e vai a pé, porque o peso que a bicicleta transporta em sacos e mantas e velhos guarda chuvas (para que quererá tantos?) já não comporta os parcos quilos da sua magreza.

Não, esta não é ainda a hora dos meninos pelas mãos jovens das suas mães risonhas, nem dos homens divorciados empurrando baloiços pela manhã fora, nem tão pouco dos cães que terão que aguentar mais o sono domingueiro dos donos. Esta é a hora matutina de quem não sabe o que Domingo é dia de acordar mais tarde, e cujas horas se confundem fora de todas as rotinas.

E não sei porquê, são eles as personagens das histórias que ainda não escrevi, que não sei se algum dia escreverei.
~CC~

sexta-feira, novembro 26, 2010

Oficina das letras

Tinhas saudades deste canto de silêncio e solidão onde bordo a linhas de cor, onde pego em farrapos e faço mantas. As vezes tropeço e o bordado fica torto, a manta com um trapo mal combinado. Momentos há em que sei que a renda para o altar jamais o cobrirá a tempo, deve ser o diabo a querer impedir a missa. Noutros momentos tudo se parece estender como as noites de Verão iluminadas a estrelas, e a alma fica limpa e as palavras saborosas como beijos pequeninos.

É claro que a academia jamais pode saber que para mim a tese de doutoramento é apenas artesanato. Para eles não sou bordadeira, nem tecedeira, nem fiadeira, nem nada que se pareça a um oficio feito mais com as mãos do que com a cabeça. A academia não pode saber que a piada disto só está no desenho possível que as linhas podem ter.

~CC~

quinta-feira, novembro 25, 2010

Um risco

Supermercado com café pela manhã cedo. Sou quase sempre a primeira, gosto destes territórios vazios, de ver as coisas a abrir.

A rapariga do balcão a quem peço o café: tão jovem, tão frágil, tão loura. Os olhos amarrotados de vermelho interior, adornados pelos riscos pretos da maquilhagem. A outra colega mais velha, falando com ela de outro balcão.

- A minha mãe ainda esta manhã me esteve a chatear.
- Com razão, tu dizes sempre que o vais deixar, que acabou, que não voltas. Mas não consegues.
(longo silêncio, pesado)

- Gosto dele.
(voz trêmula, tão doce, olhos a encherem-se de água)

Quando é que as mulheres deixarão de amar os homens que lhes fazem mal?

~CC~
Nota: Sou pouco dada aos dias disto e daquilo, mas a verdade é que este episódio aconteceu ontem, e podia ter sido hoje. Se os dias têm algum efeito, que seja pelo menos o de riscar a poeira do tempo, essa que tudo cobre e quer apagar. E hoje é dia Dia Internacional para a Erradicação da Violência Contra a Mulher, parece que se comemora em todo o mundo. Texto muito bonito sobre o assunto aqui.

quarta-feira, novembro 24, 2010

Pilar e José

Bom, troco-lhes os nomes a preceito. Ele é famoso, ela é poderosa. E como ela defende as mulheres com a garra com que tenho procurado ao longo destes anos defender, dou-lhe a primazia. Ele é interessante como homem, escritor e, sobretudo, como livre pensador. Mas gosto mais dela, da razão do seu calor. A conversa com o jornalista do DN é todo um projecto de ser mulher.

Mas o que fica é a fusão, esse lugar de guarida do amor. Esse lugar onde cada um é um diferente do outro, mas é do outro, é inteiramente dele, sem reserva nem medo e mostra tudo porque não há nada que mereça ser escondido de quem está em nós. Ele chama por ela a todas as horas do dia, e é impressionante a cena em que desprotegido, no meio da multidão, em cansaço absoluto, chama por ela. E ela responde sempre Mi amor. A obra dele é em parte obra dela e a obra dela é em parte ele.

É uma história de amor, por isso as lágrimas correram em determinados momentos.

E meus caros, não há com frequência distribuição comercial de documentários, por isso é preciso correr, passar a palavra, ir.
~CC~

terça-feira, novembro 23, 2010

SPA dois castelos

Há muito que o caudal da água é apenas um fio a desencorajar o esquentador de funcionar. Ontem morreu de vez, calado o piloto automático, dizendo um adeus que nos soube só a frio. E hoje a frase mais cortante que pode haver: isto não tem solução. De repente, a frase mais cinzenta, esse arrepio perante a injustiça inteira do mundo. Senhor eu formei-me na escola das crenças humanas, essa em que a solução é a bandeira que aquece o sangue e o põe a funcionar em cada madrugada.

Não sei arranjar esquentadores, nem ele, que é o especialista.

Pela positiva tornarei a banheira num SPA aquecido a panelas de água, à qual poderei misturar essência de madeira, baunilha e canela. Pela negativa, arrepio-me a cada manhã que com o tempo será manhã escura, quase noite a caminho. Há soluções intermédias que o desespero nao me deixa ver perante os olhos pautados pela desilusão do senhor: não há solução minha senhora, mude de casa.

Tamanha irracionalidade a minha, porque é que eu comprei uma casa só por ter vista para dois castelos. Nunca a conseguirei vender invocando o mesmo motivo.
~CC~

segunda-feira, novembro 22, 2010

Dias que fogem



Passeiam os olhos na água dos canais, nessa luz queria dissolver todas as sombras, guardar certos brindes a vinho vermelho e abraços quentes pela manhã fria.

O tempo, esse maldito, escorrega ligeiro entre as mãos, e há segundos tão bons como os doces de ovos da cidade dos últimos dias, fica na boca o seu sabor.

Outros segundos são como o próprio céu, carregam-se de repente de negro. São esses todos os segundos das coisas por fazer, das coisas já feitas que aparecem desfeitas, da incerteza que certas coisas transportam para dentro do nosso sangue.

Da água dos canais, dos barcos ligeiros de muita cor, das aprendizagens sobre bacalhoeiros, dos filhos dos amigos já tão crescidos, do olhar de Pilar e José, pela ordem inversa, ou pela ordem importante da desordem que é o que mais me transborda.
~CC~


segunda-feira, novembro 15, 2010

Erros meus...

Errei muito. Fui presidente de uma associação de pais, coordenadora de curso, gestora de condomínio, representante dos encarregados de educação, militante de associações várias, sindicalizada desde o primeiro dia. Fundei ou ajudei a fundar várias associações de ex.estudantes de das várias escolas onde andei e daquelas onde tive alunos, prolongando vínculos que me tinham abanado o coração.

Errei muito, fui de todos os poderes pequenos, aqueles das vozes altas, dos olhos molhados, das crenças ingénuas, das noites mal dormidas. Aqueles poderes pequenos de dar o rosto. Guardei de todos eles pós de ouro e pós negros. Pelo último dos poderes pequenos, tornei-me réu, título que parece que só pertence a gente importante.

Esqueci-me de militar num partido político, ou melhor, esse erro felizmente não cometi. Faltou-me ingenuidade suficiente. Ou descaramento.
~CC~

domingo, novembro 14, 2010

Esperança

Um pensamento mau é como uma coisa viral que nos toma cada célula. Fumigar, de fumigações, do tempo em que se deitava fumo às tocas onde os bichos se escondiam. Fumigar os meus pensamentos maus, deitar-lhes fogo, fumo, água. Fazer o mesmo ao cinzento que circula no ar como uma peste.

É preciso que cada semente transporte o mundo por nascer e não uma hipótese de morte. Por todo o lado nos falam da segunda, já quase ninguém nos fala da primeira.
~CC~

quinta-feira, novembro 11, 2010

Novembro.11

Viajámos, não sei bem porquê, nem exactamente para onde. Acontece-me não me lembrar das coisas a não ser em microfilme. É um excerto de qualquer coisa maior, mas só me lembro dessa mais pequena. Apanhámos uma estradinha pequeninha de terra sem qualquer indicação de destino. Eu e ele temos em comum esta vertigem do mergulho, de repente só queremos ver verde, sair dos eixos.

Viajámos e foi para Norte. Lembro-me que corria um rio, e que havia uma encosta cheia de castanheiros. E havia por ali uma data de filhotes dessas árvores que dão ouriços. Só a natureza é capaz de criar espinhos para proteger o que tem de mais precioso, quantas vezes eu o quis fazer sem conseguir. Imagino a minha cria dentro de um ouriço, protegido o meu amor.

Ele, o meu rapaz, foi buscar ao carro as suas pás de roubar árvores, arbustos, flores. E trouxemos daquele lugar sem nome um pequenino castanheiro, na ilusão de o ver crescer perto de nós, e de eu poder aprender com ele a criar ouriços. Mas algumas árvores são especialmente sensíveis, se lhes falta o grau adequado de humidade e de temperatura, desistem de viver. Ou talvez seja só saudade.

Reparem bem nos ouriços que escondem as castanhas, e depois nesse aveludado casca, e na polpa rija que o interior esconde. Podemos comê-las cruas, cozidas, assadas. A natureza é perfeita, podia viver só da recolha dos seus frutos.

~CC~

quarta-feira, novembro 10, 2010

Irmãs

Tenho irmãs a sério, dessas que têm genes oriundos da Mangueira que enchia o quintal das nossas infâncias. E tenho outras que ganhei. Arranjei-as algures no lugar onde o olhar se cruzou e estendeu uma mão que ainda está lá.

Tenho uma irmã, uma dessas que não vi nascer, mas que vejo há anos a nascer, a mudar, a crescer. Não há nada de melhor que ver uma irmã a mudar por dentro, enchendo pouco a pouco de rosas os lugares escuros do seu coração, amansando espinhos, secando lágrimos. Tenho uma irmã que nasce hoje outra vez, e nasce diferente, deve ser algum defeito dos meus olhos, porque todos os anos eu acho que ela nasce mais bela do que no ano anterior.
~CC~

segunda-feira, novembro 08, 2010

Das cidades e das serras

As cidades arruinam-se neste Outono. Os dois cinemas da minha cidade estão fechados para obras. O parque enorme para automóveis que construíram junto à minha casa, em plena zona residencial mas junto da estação de comboio, pejado de parquímetros, mostra como pode falhar a estratégia comercial pública, está deserto. Em cada quarteirão, o edificío mais antigo e mais belo, está a cair aos bocados. A cidade cresce em direcções aparentemente insuspeitas nos terrenos baldios que restam, fazendo minguar as hortas circundantes, mas as tabuletas de venda e aluguer são tantas que parecem anunciar mais desespero que belas casas à venda.

Salvam-se os plátanos enormes e absolutamente deslubrantes de amarelo e laranja, como se os seus cabelos esplenderosos tocando o céu soltassem melodias baxinhas em cravo, para fazer explodir o que resta de beleza nos corações já gastos.
~CC~

sábado, novembro 06, 2010

Beber gota a gota

A água que pouco desce do céu, quando o faz, deixa-se escorregar pelas encostas. É precioso aproveitar cada gota. Escavo-me na terra à espera de as guardar, reter cada momento, apreciar. Beber vida gota a gota.
~CC~


terça-feira, novembro 02, 2010

Adeus

À memória do meu pai
(que partiu a 31 de Outubro, pela mão das bruxas, espero que bruxas belas e fantásticas)

Eram as letras
dentro dos livros
onde segui pelos teus dedos
até à a montanha mágica, olhai os lírios no campo
toda a colecção Dois mundos
da editora Brasil,
RTP
e o dicionário ilustrado
com todas as palavras desta língua

esta que tão pouco usaríamos para dizer
amor
deixada feita silêncio
tantos e tantos anos
nas bocas cosidas de distância
algum ressentimento

passar o sal, o piri-piri, o açúcar
deixar os olhos lamber as mulheres roliças
fumar muito
mostrar a arma e a farda
amarrotá-la
sonhar-se em religiões alternativas
e como mestre de todas as multidões perdidas

e acabar como todos
pobre, humilde, triste
infinitamente carente e de todos dependente
e ainda assim melhor
mais sereno, mais doce, mais próximo

senhora morte que se aproximava
direi que o meu pai é aquele
que num lugar qualquer lá longe
estará disposto a traçar o horóscopo
a qualquer mulher bonita
preferencialmente loira

sim, era nosso pai
não, não deixou bens nem dinheiro
tinha o IRS feito e era já muito
e o que deixou é ar
a circular dentro do sangue
do nosso
mas ar de qualidade muito boa
apesar dos pulmões falidos

se é que pai é o nome que lhe posso chamar
mas sim deu-me o meu nome
este nome que gosto de dizer por ser belo
e ser a coisa mais minha que tenho

e sim porque a memória
tem lá dentro um colo perdido
que me deu na infância
e outro colo
que fui eu
a dar-lhe agora.

E adeus era na boca dele
uma passagem entre as vidas passadas
e as vidas futuras
pelo que voltará em breve
para piscar o olho
às mulheres loiras, um pouco roliças.

~CC~

sexta-feira, outubro 29, 2010

O melhor remédio

Ela tinha uma saia de flores brilhantes exactamente igual a uma que tenho e de que não gosto particularmente, por isso olhei. A mim a saia faz-me mais gorda e por isso não a visto, mas ela era realmente mais gorda e a saia ficava-lhe bem. Era alta, redonda e risonha, entre os quarenta e os cinquenta. É raro alguém sorrir assim manhã tão cedo, num café meio tristonho e sem graça. E todos a cumprimentavam com afabilidade.

A mulher dos envelopes aproximou-se dela delicadamente para tirar lá de dentro os papéis e mostrar-lhe. E ela sorriu mais: dê-lhe mimos! A outra nada dizia, espantada com a papelada a mostrar o tamanho da infeccção. E então ela disse mais perto, mais baixo: sexo, faça sexo com ele, vai ver que ajuda. Não, psicóloga não era, essas não recomedam assim abertamente o que os doentes precisam, é preciso que eles cheguem lá uma quantas sessões depois, e por si próprios. A mulher dos envelopes não pareceu nada satisfeita com ao remédio recomendado, impossível comprar em qualquer farmácia e sem custos.~

E chegou outra mais nova a falar da vacina contra a gripe, e se devia tomá-la. E ela riu-se e recomendou-lhe laranjas, sol, e muitos espinafres. Desta vez o sexo ficou de fora, ainda que a mistura de ingredientes recomendada lhe fosse muito favorável.

Tudo se configurava para um retrato de médica de clínica geral, esta saída de uma escola que não conheço, pois não mandou ninguém à farmácia que ficava mesmo ao lado.

E pensar que 20% anda a antidepressivos.
~CC~

Mariposa

(com mariposas nos olhos ao ler)

amo-te
te quiero
je t'aime
i love you
te amoich lieberdich
cretcheu di meu
ahabib

(e em Quimbudo por saber dizer, algures na memória da minha infância deve existir um par abraçado).

~CC~

quarta-feira, outubro 27, 2010

Formigas, quem sabe cigarras escondidas

Duas mulheres passeando entre as hortaliças e as frutas mal a manhã acorda são capazes de passar da crise do país às maleitas do seu corpo e aos aparelhos dos dentes para os filhos. Sao duas formigas amealhando o pão, ciosas do seu mundo, capazes de o defender contra as tempestades, todas elas e até a crise, esse bicho escuro que já tratam por tu. Discutem como poupar como se estivessem nas Tardes da Júlia (é assim que isto existe, ainda existe?)

Olho-as a pensar como amam elas, olho os seus corpos a pensar nas carícias que eles podem receber e não consigo imaginar. Talvez afinal se transfigurem e cantem como cigarras. Talvez não amem, fechem só os olhos no escuro da noite, como se estivessem afinal na mesma função que cumprem tão escrupulosamente manhã cedo, no supermercado.

Formigas, quem sabe cigarras escondidas.
~CC~

segunda-feira, outubro 25, 2010

Em mudança

As delas amarelas e laranjas, os meus brancos.
Da cor da seiva que nos corre dentro, e das suas mudanças, nada se vê.
~CC~

domingo, outubro 24, 2010

Domingo mais

A menina procura na praia os caranguejos já mortos, esses que não a assustam. O rapaz pequenino empurra o seu grande camião e enche-o de areia muito devagar, desistirá a meio porque logo se levanta o avião, o barco arranca com barulho, e a sua atenção flutua pelo mundo. Os jornais ficam por ler sobre a mesa dos adultos, porque o sol é mais forte e teima em nos abençoar com a sua luz, soltando palavras triviais. Ser feliz é por momentos este não dar conta de nada, só da carícia de uma mão, ora grande, ora pequenina, agarrada à nossa.

Tudo parece estar às vezes no lugar certo, como se a tranquilidade fosse chegar assim suave para me trazer descanso de todas, de tantas lutas.
~CC~

sexta-feira, outubro 22, 2010

Assombro

Assombram-nos o Inverno, já não basta saber que os dias serão mais pequenos e a pele mal respirará abafada nos casacos, ainda nos turvam os olhos com as suas imagens vazias, mas gravatas ainda brilhantes. Há no fundo dos seus olhos o que as palavras não conseguem traduzir: eles nada sabem do futuro. Esgotaram o planeamento dos planos. Fingem que acreditam, mas já não acreditam verdadeiramente no rumo, sabem do desgoverno.

Assombram-nos o Inverno e já não é o salário a diminuir, o fantasma do desemprego que em algumas casas já se tornou de carne e osso, é já o que temos para deixar aos filhos, um mundo a desfazer-se.

Para alguns haverá Deus, para outros Revolução, para mim apenas o aconchego das mãos, alguma imaginação.

~CC~

quarta-feira, outubro 20, 2010

Amargo(s)


Discutia-se, entre professores, os prémios que se atribuem aos alunos como forma de os distinguir por esta ou aquela coisa boa. E um deles diz: temos é que lhes dizer que o prémio não é um livro! Gargalhada geral.

E depois cada sorriso a desfazer-se amargo.
~CC~

terça-feira, outubro 19, 2010

Fragmentos

Os teus dedos fazem lume brando e eu posso aquecer-me. As noites sem frio são mais pequenas.

O olhar dele é o derradeiro lugar onde a minha tristeza é pequena se comparada com a dele. Não consigo evitar desorientar-me com a vida a fechar-se.

O medo diminui devagarinho mas ainda enche os meus sonos. Amachuco o medo enchendo-o com a esperança dos olhos amados. Encho o meu coração de viagens a dois, a três, a muitos.

O Outono tem este sol manso, não é o mesmo da festa do mar, mas lugar de enrolar, se pudesse fazia como os gatos, ia pelos muros miando a vida. Fugia de quando em quando a todas as minhas obrigações, já era tempo de serem menos, de me encherem menos o tempo. Devia poder dormir ao sol como as gatas.

~CC~

domingo, outubro 17, 2010

Ouro azul

Cabo Verde, Ilha de S. Nicolau. 2007



A sem se ver avisou, o dia certo já passou, mas nunca é tarde para lembrar.

Domingo luz e sombra

A sombra pode ser qualquer coisa que nos aparece no momento em que nos sentimos felizes. Uma mancha que começa por ser pequenina e quer aumentar. E nós lutamos com ela. A vida é, para alguns, um lugar de muita luta.

O receio é baixar os braços, desistir. As insónias insinuam-se.

É Outono, já há fumo de castanhas pela rua, um manto de friozinho que ainda não corta a pele, cheiro a mosto que vem do campo. E cá dentro a força dos teus abraços. Uma luz nas letras com que bordo o trabalho. Os sorrisos da miúda tão vivos. Não pode a sombra apanhar-me neste momento. Afasto-a. Mas ela não parece ser só sombra, quer ganhar contornos, ser matéria, insinuar-me no meu corpo. A sombra não pretende ser só melancolia, tristeza, parece querer ser real, avançar pelo lado mais frágil de mim.

Não pode, não pode.
~CC~

sexta-feira, outubro 15, 2010

quinta-feira, outubro 14, 2010

Observação dos dias (III)

Pagava o café a umas ex.alunas que tinham vindo a convite meu. E a empregada do bar comentou: aproveitem meninas que é a professora que paga, aproveitem quanto antes porque vai ficar sem mais um dinheirinho no final do mês. E acha bem? Perguntei-lhe eu. Claro que acho, é muito bem feito. A empresa que gere o bar é obviamente privada, há muito que tudo se entregou ao mercado.

E ela (de quem gosto) continuou num chorilho de ofensas aos funcionários públicos. Conclui que afinal o governo escolheu bem o alvo, são vítimas desde sempre pouco amadas, presas fáceis de uma inveja sem qualquer sentido. Talvez alguns possam merecer este desdém, mas estou certa que há muito quem não o mereça.
~CC~

quarta-feira, outubro 13, 2010

700.13

Auditório do Museu do NEO-REALISMO. Vila Franca de Xira

MÚSICA DE INTERVENÇÃO E NEO-REALISMO
Lançamento do CD 13, de Afonso Dias com Afonso Dias, Manuel Freire, Francisco Fanhais, Tino Flores e Pedro Lobo Antunes
Sábado, 16 de Outubro de 2010 Hora: 16h00


"que se chama 13 porque sim - e também porque tem nele 13 canções - porque 13 é número de magias negras e brancas , associadas à sorte e ao azar - porque o azar é como a água benta: cada qual toma a que quer, embora haja acidentes e quanto a isso paciência, pá - porque a sorte é como a vida: melhora se a gente puxa por ela - e porque as cantigas continuam a ser precisas para mostrar as nossas zangas, partilhar os nossos afectos, esbanjar a nossa solidariedade e para denunciar a mentira e a iniquidade – sempre!"

Afonso Dias

ver mais em: http://www3.cm-vfxira.pt/PageGen.aspx?WMCM_PaginaId=30638


Nota: foram 700 as vezes que me apeteceu escrever aqui.

terça-feira, outubro 12, 2010

Observação dos dias (II)



Os dias passam demasiado rápido. Só isso explica que tenha deixado passar Voando nos Equinócios. Nada afinal me apeteceria mais. E nenhuma coisa me causaria mais medo, esse medo que habita o desejo do impossível.

~CC~

Nota: Para os curiosos espreitar aqui. (ver Desporto, 9 e 10 Outubro)

Observação dos dias (I)


Saio muito cedo pela manhã. A paisagem é inevitavelmente composta por homens e mulheres que passeiam os seus cães. As ruas ficam logo imundas pela manhã cedo.

~CC~

segunda-feira, outubro 11, 2010

Laços apertados e deslaçados

O nó, esse cimento de anos. Um grito e os amigos acordam, mesmo distantes. Um olhar e somos os miúdos de antigamente, os adolescentes que já fomos, os adultos nas veredas iniciais, as primeiras crianças que nasceram de nós. Estamos ainda aqui.


Outros chegados ainda há pouco, e no entanto um lume já capaz de aquecer, fulgor de palavras trocadas, lágrimas pelo mundo. A fotografia do nó ali a olhar-me (obrigado J.)


Outros chegaram ainda há pouco e já parecem ter partido. Eram fumo, vento, simulacro. Não devia trazer nenhuma dor, e no entanto dói. Porque vieram, porque se foram, talvez nunca venha a saber.

Talvez estejam outros para chegar, talvez possam ficar.
~CC~

domingo, outubro 10, 2010

Domingo de volta

Tenho-me. Tenho-te. O mundo parece acordar de um sono triste.

Toquem os sinos porque o Domingo é de água e Deus é o sangue que nos corre por dentro a pedir felicidade. Há uma fina película de luz a entrar nas janelas que acabei de abrir.

Apanhei mais do que um comboio para acordar noutros lugares e poder saber como é a manhã quando acordamos longe de casa e não sabemos onde se pode ir beber café. E Aveiro é uma cidade entre a água doce e a água salgada, num equilibrio instável. Tem a serenidade dos lugares instáveis, a mesma que eu procuro. A beleza dos lugares em movimento.

É tão bom como ir é poder no regresso enrolar-me naquele sorriso alegre da adolescente que me espera na volta. É observar até que ponto as plantas cresceram na minha ausência. É deixar-me cair no sofá de todos os dias. O melhor das rotinas é sabermos que as podermos romper, é conseguir fazê-lo.


Que em mim não morra esta vontade de ir, mesmo quando o peso das pernas parece ter aumentado e a vontade de dizer palavras parece ter desmaiado no fundo da minha garganta. Mas não é assim, eu sou ainda a vontade de ir. A minha viagem interior cresce nas viagens reais da terra, sou mais eu de cada vez que acordo noutro lugar.
~CC~

quinta-feira, outubro 07, 2010

Terra

Imagino que és tu a terra onde posso morar. Se abrires bem os braços e me puderes abrigar de todos os vendavais, talvez possa adormecer tranquilamente dentro do teu calor. Estou cansada.

E não é um rosto perfeito, um corpo bonito, um arquitecto do saber, um encantador de palavras. É apenas uma alma grande, aberta ao mundo, tombando no equilibrio precário das coisas para se erguer árvore em qualquer Primavera. O que é forte e pode ser também frágil. O que sabe rir sabe chorar. Deixa-te ir, ser. Deixa-me ir, ser.

Imagino que sou terra onde podes morar. Se abrir bem os braços talvez te possa acordar para esses rios que te correm dentro, às vezes presos e outras fluindo a campo aberto, fertilizando as searas. Talvez te possa adormercer tranquilamente dentro do meu calor. Estás cansado.

Beijos primeiros. Beijos em primeiro.

Terra, este existir para existir mar.

~CC~

quarta-feira, outubro 06, 2010

Pessoas luz

Passei a frequentar amiúde o bar do hospital, um lugar triste animado por dois vasos de plantas grandes e verdes e paredes pintadas com muita cor. E se é verdade que a estética das paredes, dos quadros, das plantas, lhe traz uma luz menos difusa, é a senhora cinquentona que de quando em quando atende ao balcão que o ilumina.

Chama-me meu amor com uma doçura que me deixa sem palavras para lhe responder. Aquele meu amor já me trouxe uma lágrima (meu amor, hoje traz cara triste), mas a maior parte das vezes deixa-me sorridente (meu amor, não há água com gaz, beba da outra que lhe faz melhor). Já a vi sair do balcão para vir abraçar uma moça que chorava convulsivamente porque tinha vindo do Porto e não estava à espera de ver o pai inanimado nos cuidados intensivos. E esteve muito tempo abraçada a ela esquecida do balcão e nós à espera, mas numa espera solidária, silenciosa.

Neste tempo que foi vazio e triste, meu amor era um tratamento tão distante de mim e do meu mundo, que quase só facto de ela o usar me possibilitava amar-me.
~CC~

Brasil

Depois de Nelson Mandela não houve mais ninguém, depois dele deu-se a morte dos políticos.

Agora aparece Lula, sendo que este agora é tardio. Agora damos conta que ele existia porque está de saída e quer passar um legado. Dizem que o Brasil cresceu economicamente tendo como horizonte o povo e isso parece-nos impossível na era do capitalismo global. Ninguém pensa nos mais pobres em Angola ou na China, países que até há pouco ninguém colocava na esfera do capitalismo puro e duro. E Lula tinha elos duvidosos, deixava-se seduzir por ditadores com perfil revolucionário.

Não queria acreditar no brasileiro, homem de meia idade que dizia olhos colados na televisão que ia votar Lula (apesar de não ser ele, é como se fosse) porque muitas tinham sido as melhorias na sua comunidade. Na sua comunidade, já ninguém diz palavras destas. Os políticos não interferem nas comunidades, quando chegam ao poder já perderam todos os laços, forjam-se nessa perca. Há alguma coisa de estranho neste Brasil, ou então é mero embuste, uma ilusão.

O Brasil é metade da minha imaginação, um bocado do meu sangue. Agora mais.
~CC~

segunda-feira, outubro 04, 2010

Praia

O meu corpo sabe dizer-me. Posso assim segui-lo como quem segue um mapa traçado pelos sentidos. Encontrar-te. Depois é deixar que os beijos possam ser maré.

Saber sacudir a areia, ainda guardar as conchas.

~CC~

quinta-feira, setembro 30, 2010

Banhos de silêncio

Tomo banhos de silêncio. Ele é floresta escura em que me perco. Ele é uma ponte romana nos confins da Beira Alta, onde encosto as mãos nas pedras e vou delas ao meu corpo e do meu corpo a elas, e concluo que somos matéria porosa do tempo, daqui a pouco seremos pó, mais eu que elas.

Há tanto ruído no mundo, tanta gente a falar. Anunciados os precípicios não sabemos como não cair, não nos dizem. E pouco percebemos já do que o mundo é. Escapam-nos os sentidos de todas as crises que nos inventaram.

Há ruído a mais em todo o lado, música estridente, conversas ao telemóvel, redes virtuais, discussões entre vizinhos, políticos de boca aberta. E tão pouca coisa a fazer sentido.

Apetecia-me fazer greve. Seria apenas o corpo a falar a sua linguagem para quem o quisesse escutar. Digo-me melhor com a pele.

~CC~

quarta-feira, setembro 29, 2010

Das cores

Imagem retirada de: http://www.topearl.com/pimages/Coral_Color_shell%20pearls.jpg

Sentadas à mesa de Domingo, com o cansaço colado manso na pele, falamos de coisas simples como as cores da moda deste Outono. Interessa-me invugarmente este ano o assunto, isto porque tenho a teoria de que as cores que gosto mais dia menos dia estão na moda, como o roxo e o lilás, finalmente em abundância pelas montras. E há algumas que nunca visto como o verde, porque jamais poderemos imitar a beleza do verde da natureza, e quando o vestimos parecemos plantas sem graça.

Esta ano, qual alquimistas, os estilistas entraram em devaneio, resolveram trazer-nos cores sem nome, investiram de tal modo em cambiantes dos vários tons, que nos deixam confusos na nomeação, e assim aumentaram o léxico das vendedoras das lojas. A minha mãe, de (+) 80 anos, resolveu bem a coisa, disse que este ano a moda eram as cores abstractas.

Penso que é assim também a saudade quando ela começa a perder o rosto, torna-se uma saudade em abstracto em vez de ser concreta, de ter rosto. É uma saudade de uma cor sem nome, tem lá dentro apenas um sentimento de nostalgia, de uma coisa perdida. É a saudade do amor, em vez de ser a saudade de um amor.

Este Outono as cores não têm já os nomes antigos, andam em demanda à procura de nomes novos, reinventando-se dentro do que é velho e parece gasto. Se assim fosse com todas as coisas.


~CC~

Veja-se o que se diz do coral: "Coral é uma cor vermelho ligeiramente aclarado com branco, sem chegar a ser rosa, que deve seu nome a um tipo de cnidarias chamadas coralé. Em mistura sustractiva obtém-se suavizando com alvo um vermelho intenso, podendo desviar-se minimamente para o magenta ou para a laranja. Em mistura aditiva, seria o resultado de somar um pouco de luz azul e um pouco de luz verde a luz vermelha ao máximo" (in http://pt.wikilingue.com/es/Coral_(cor)





terça-feira, setembro 28, 2010

Da minha árvore

Uma frase curta, a medo ainda. Sabe se há uma casa à venda, mesmo pequenina, tem que ser é perto do chão, e tem que ter quintal. E não se esqueça de uma árvore no quintal, daquelas que falam com a nossa solidão. E não quero prédios em volta, apenas o silêncio do céu grande e azul.

Devia pensar na vida, mas é na morte que penso. Não lhe posso dizer mais, muito mais. Não lhe posso dizer da dolorosa consciência do que é a morte a aproximar-se num hospital público. Das lágrimas que só por momentos cairam grandes e grossas. Da forma como a morte ronda as camas e se infiltra a cada momento nos olhares tristes daqueles que ainda abrem os olhos. Olhamos todos a nossa própria morte quando se aproxima a daqueles que nos são próximos. Preciso assim de uma árvore e de um quintal. E de umas mãos que me possam tocar até ao fim sem medo da pele gasta e velha que terei.

Poderei trabalhar mais e mais, mais e mais. A bem da árvore, dos diálogos que terei com ela. Por momentos imagino tambem o riso das miúdas, e um sabor a manjericão, como se um resto de alegria pudesse infiltrar-se em toda a minha tristeza.
~CC~

segunda-feira, setembro 27, 2010

Nada menos que muito

Podia vir a correr, mas veio ao pé coxinho. Podia vir a dançar, mas veio de passo hesitante. Podia ter vindo de riso aberto, mas esboçou meio sorriso. Podia ter dito uma frase redonda e quente, mas disse frases confusas, atrapalhadas, mornas.

Do amor eu não quero nada menos que muito.

Os outros que fiquem com o resto.

~CC~

domingo, setembro 26, 2010

Domingo

O Domingo chega tão cedo, tão triste. Sacudo partículas finas que parecem lágrimas coladas à pele, sopro-as com tanta esperança de que se vão. Mas ainda se demoram, ainda ficam.

Aqueles que agora se encostam mesmo sabendo que o sabor das lágrimas é só sal, esses são os que ficam. Esses a quem a nossa tristeza não pesa. Esses para quem o nosso sorriso é uma luz pela qual lutam ao nosso lado. Esses para quem ao nosso lado é tudo, esses que não fazem perguntas, esses que ficam.
~CC~

Para uma flor


De todas as horas, as mais felizes, as mais infelizes, aquelas em que nos rimos, aquelas em que chorámos. De todos os minutos, aqueles em que nos levantámos, aqueles em que tombámos. De todos os segundos, aqueles que foram secos e em terra, aqueles que foram molhados e salgados.


É assim a amizade que sinto por ti, ela é feita de tudo o que construimos passo a passo, ela é sobretudo esse agarrar o outro quando ele tropeça. É saber que estás ali do lado do telefone, do sms, do mail. É saber que há um capuccino do Magnólia sempre à nossa espera e por trás do seu fumo uns olhos transparentes onde me posso e te posso olhar.

Estou aqui, estarei aqui.
Gosto muito de ti.

Parabéns flor.

~CC~

sexta-feira, setembro 24, 2010

Ausência

Quando as estrelas do mar
passavam laranjas leves doces
voando pelo azul da praia de Pemba
estavas longe e eu tinha-te

Tinham sumo os teus lábios
um doce sussurrar
que parecia um manto
que vinha levar-me os meus anjos negros

Nem te tocava
Mas a tua voz chegava
para enrolar as insónias
levá-las de mim

Esse era outro de ti
alguém que já partiu
como se alguém agora usasse o teu corpo
e a tua voz
e não és já tu

E se voltas ao teu corpo
e usas a voz que tinhas
é só por um instante
é um breve atear de sorrisos
uma chama que não se aguenta no pavio
e não consigo soprar mais
dar-lhe gás

e na tua presença
tenho saudades de ti
o amor pode assim partir
quando alguém parte de si.

arrepio-me sozinha com a palavra rapaz.

~CC~

quarta-feira, setembro 22, 2010

A loiça

Parece que foi apenas momentinhos antes de eu dar sinal de que queria pular para este lado do mundo, consta que tinha acabado de embrulhar o serviço de loiça das flores verdes e azuis estilizadas, nada que se assemelhasse aos serviços de loiça antiga, era já verdadeiramente um design anos 60, hoje meio estranho porque não é antigo nem moderno, é uma coisa assim a meio caminho.

Parece que foi o primeiro serviço de loiça completo, com pratos e pratinhos de todo o tipo, e até pires específicos para azeitonas, molheira e sopeira. Por se ter casado por procuração, isto é, está nas fotos com outro que não o seu marido, e não ter podido levar arcas de enxoval para a Índia, esta mulher foi-se desenhando diferente do que as suas origens faziam pensar. E este serviço de loiça foi das poucas coisas que viajou com ela por estes cantos do mundo onde nos fomos encostando a procurar ser família. E o serviço é como nós, já resta pouca coisa dele, apesar de pouco se ter partido, a sua resistência fez com que se encontre disseminado por muitas casas e sitios, e ainda há pouco a minha mãe encontrou uns quantos pratos na casa de uma amiga.

Todos os anos nesta data digo que vou guardar o que dele resta como memória preciosa do dia do meu nascimento. Mas depois penso que o melhor é deixá-lo por aí, porque o que dele restar já não é só o vidro de que é feito, mas a prova do tempo. Como ele, também prefiro pensar em mim como alguém que o vento levou até ao coração de algumas pessas, e que os pedaços que repousam são sementes que a seu modo próprio modo germinarão.
~CC~

terça-feira, setembro 21, 2010

Noites brancas

Penso invariavelmente nas suas noites de solidão dentro do hospital, mais ou menos iguais aos seus dias. Só me interessa que por alguns momentos dê conta de estamos ali, de que não o abandonámos. Tu não o fizeste, mesmo quando a retribuição que te deu foi pequena. O melhor de nós é superarmos o pior de nós, o escuro que se esconde cá dentro. Preciso ir, preciso estar.

O tempo está a escoar-se, a fugir-lhe. E as minhas noites ficam brancas, quase iguais aos meus dias. Às vezes parece não haver lugar onde ir buscar mais força, outras vezes pareço alimentar-me da energia da lua que teima em brilhar nestas noites em que se vai enchendo até atingir o máximo do seu esplendor. Se eu pudesse deixar tudo, acompanhá-lo.

São as trevas e a luz que dançam comigo por estes dias, uma e outra batalhando em segundos, minutos e horas para ver quem ganha.
~CC~

segunda-feira, setembro 20, 2010

Luz

Ela disse: nesta aldeia nova não podemos falar com os nossos mortos. Eles estão lá na outra, na que está debaixo de água.

E eu percebi como se estivesse dentro dela com os mesmos 80 anos e toda uma vida a morar numa aldeia alentejana. Deve haver qualquer coisa de errado comigo pois nunca sequer estive uma aldeia, um lugar, uma terra, uma festa de aldeia da qual me pudesse rir até às lágrimas. Qualquer coisa de errado, pois sei que os mortos não são mais que ossos, bocados de carne arruinada, quase pó.

Eventualmente o problema pode ter sido o de ter devorado o Meu pé de laranja lima aos dez e os Cem anos de solidão por volta dos dezassete. A minha educação afectiva foi feita à custa de formigas gigantes, famílias de sangue, árvores falantes.

Fiquei assim, a pensar que também posso falar com os mortos. A chorar as aldeias perdidas que não tive. A imaginar casas térras cheias de osgas na parede assim que o sol se põe. A imaginar que deixo uma grande e bonita azinheira como legado aos meus filhos, mesmo tendo só uma, fico a pensar que todos os outros que fui tendo também são meus. A imaginar-me em paz, rodeada por trepadeiras que cobrem de vermelho, laranja e roxo as minhas próprias paredes brancas.

~CC~

domingo, setembro 19, 2010

Domingo


Procuro por mim
É uma das minhas actividades de Domingo
~CC~

sábado, setembro 18, 2010

"Expulsão voluntária"


"Monsieur, monsieur...
Bianca, jovem cigana búlgara de pés descalços, chora e implora a um agente policial que a deixe ir buscar as sandálias à cabana. Um bulldozer está já em acção no bairro de lata de Bobigny, subúrbios de Paris. Não há tempo a perder com o calçado que a rapariga não conseguiu enfiar."
Daniel Ribeiro, Jornal Expresso, p.7 de 17 de Setembro.

Como me apatecia ficar descalça como Bianca, não para correr livre de sandálias, mas verdadeiramente para as usar como símbolo de revolta. É assim que se constrói a raiva a correr dentro do sangue, é por causa dela que se pega em pedras, em sapatos, em tudo o que esteja à mão para arremessar contra a cegueira que toma conta do poder. Depois ficamos admirados pelo ódio avançar mais depressa do que avançam as ervas daninhas nos tapetes de relva. E pelo ódio não usar os meios mais adequados para se expor, mas os menos. Como poderá não odiar uma menina expulsa de um país sem razão aparente que não seja a pobreza do seu povo? E que poderá ela fazer ao seu ódio?

Desejo que possa fazer com ele algo mais nobre, mais digno de que o devolver sob a mesma forma, mas isso é uma tarefa que muitas vezes se afigura verdadeiramente impossível. As cicatrizes até podem não doer, mas a pele, essa revela-nos todos os dias as suas marcas. Ainda lhe chamam "expulsão voluntária".
~CC~

sexta-feira, setembro 17, 2010

Descaminhos (II)

Cães que são meio gatos.
~CC~

Descaminhos

Irrompeu por ali no meio do átrio, com a seu cabelo loiro e um sorriso grande, uma rapariga bonita que já não via há uns três anos. Veio ao meu encontro com os passos certos e quando me ia dar os dois beijos comuns, agarrou-se a mim num abraço. No meio do átrio cheio de alunos trajados a rigor, assim sem vergonha, ela ex.aluna e eu sua ex.professora ficámos por um momento abraçadas, comovidas.

Perguntei-lhe pela vida, ao que ela respondeu que a vida ia bem, mas que decidira mudar de vida e estava ali para estudar outra vez. Tinha dado aulas sim, mas tinha começado a cantar à noite, e agora tinha-se tornado sério, e ia gravar um disco. Ainda pensei que vinha então estudar música, mas disse-me que não, que tinha escolhido Comunicação Social. E como eu não estava a ver relação evidente completou: é para abrir horizontes, e preciso de estar a estudar, faz-me bem. Vou gostar de a ver por cá, respondi-lhe, mais ou menos certa de que a vida é um cruzar contínuo de caminhos, muitos deles inesperados. E que ainda hei-de abrir a minha loja de mil chás.
~CC~

quinta-feira, setembro 16, 2010

Constatações

Vento do Sal. Cabo Verde. 2007


O coração é papel
rasgado, amarrotado, torcido
e ainda assim
pronto a ser alisado
ficar como novo
transformar-se em papagaio
riscar o céu

O coração é sopro de ar
fiozinho, vendaval, aragem
e ainda assim
pronto a respirar compassado
se lhe apanharem o ritmo certo
transformar-se em saxafone
arrepiar a noite

o coração não morre
só quando já morto.


~CC~

quarta-feira, setembro 15, 2010

Lugares onde ir (II)

56ª Edição
FESTIVAL DE MÉRIDA • Diocles, 1 - 06800 Mérida
Tel. 924 009 480 Info: 924 004 930
oficina@festivaldemerida.es • http://www.festivaldemerida.es/

A programação era apelativa e o lugar belissímo, há muito colocado na minha agenda. Dá-me alento saber que quando entramos no site, nos avisam que já preparam a 57ªedição. Enquanto o Outono espreita, posso assim sonhar com uma noite do próximo Verão no teatro romano de Mérida. Há sonhos mais complicados.

~CC~

terça-feira, setembro 14, 2010

Outra

Como eu gostava de ter uma carapaça onde me esconder como fazem as tartarugas quando qualquer ameaça se aproxima.

Sim, já sei. Não é um modo de um ser humano viver.

Mas precisava.

Ou então de um vento doce, que me desse vontade de ser um guarda-rios. Quem me dera andar de asas a visitar todos os rios um por um, fazer-lhes as curvas. As curvas dos rios sempre me interessaram.

Outra coisa que não pele exposta.

~CC~

segunda-feira, setembro 13, 2010

Cheiro a papel novo



Há coisas que nos tentam, por exemplo o cheiro a papel de um livro novo, pronto a sair da gráfica.

http://quetzal.blogs.sapo.pt/229382.html


Mas isso de ter que ser obrigatoriamente através do Facebook...


Fica para a próxima!


~CC~

Dos dias

Fazemos uma festa a cada dia que o calendário pessoal ou colectivo marca como de alegria. Nuns nascemos, noutros iniciámos um namoro, ou casámos, ou tivémos filhos. Já me trouxeram sempre flores nesse dias, e eu gostava. Para o colectivo é Natal, passagem de ano, Carnaval...ou simplesmente início de ano lectivo. Muitas vezes esses dias foram mesmo festa cá dentro, um riso intímo e precioso, outras só uma forma de esconder melhor a tristeza.

Mas a memória que habita cada dia triste é, até morrer apagada pelo tempo, um latejar de dor. Escondemos esses dias, até de nós. Mas um dia descobrimos que foram tão ou mais importantes que os dias felizes, que o fundo do poço tem escondida uma outra luz que somente ainda não nos é acessível.

E isto é só por ser dia 13.


~CC~

domingo, setembro 12, 2010

Mensagens na neve

O titulo do filme tem um ar banal, de policial barato: "O Caso Farewell".
E começa com um tiro afastar a quietude dos pássaros que voam sobre a neve. E assim acaba.
A história é baseada em factos e pessoas reais ocorridos no tempo da guerra fria, culturalmente interessante para a compreensão do mundo que hoje temos, que hoje somos.

Mas registo apenas:
Dois homens que se tornaram amigos e que nunca se irão trair, e o abismo estava ali, entre eles e à volta deles. Um dos homens é Russo e deixou de ser comunista, mas não é verdade, ele é, os outros é que deixaram de o ser. Está perdido no meio dos seus. E não tem outro lugar, não fugirá. A sua traição não é traição, é um tiro para fazer voar as aves da lama onde enterravam as patas.
Um dos homens é Francês, mas a sua simplicidade é tão desarmante, que em nada se assemelha à soberba com que os franceses costumam olhar o mundo. E não tem com o seu país nenhum romance, só quer criar os seus filhos em paz. Na hora certa gritará, sem medo das palavras, que o ocidente vive do marketing da palavra liberdade.

Todos procuramos amigos assim, capazes de nos fazer rir e de nos limpar as lágrimas. Não precisam de ser muitos nem de estar sempre connosco, é a confiança a base de todos os elos.

Dois homens tão improváveis bebendo conhaque para derreter a neve.

~CC~

(nas sessões da tarde de Domingo as pessoas vão sozinhas ao cinema, e são muito poucas, olham a solidão umas das outras com uma simpatia envergonhada)

A pomba da pata partida

Não era um homem conhecido pela sua bondade, e toda a vida tinha desprezado laços, ou tinha-os perdido devido ao seu mau feitio. Todos lhe conheciam essa faceta, e os mais próximos já tinham deixado de o tentar amar, em algum lugar eles sabiam que ele esconderia um gesto de desprezo.

Não era um homem mau, ninguém se queixava verdadeiramente de uma ofensa sem remédio, de um mal sem um pedido de desculpa, e era possível recordar um gesto de carinho, um braço que tinha posto sobre os ombros dos filhos, uma mão dada à mulher, umas das muitas mulheres que teve.

A ambiguidade do que se sentia por ele era tremenda, e atirava-nos a nós, mais do que a ele, para um lugar escuro, uma espécie de beco sem saída. A vontade de bater a porta e não mais voltar era grande, mas voltaríamos sempre, porque o que fazíamos já não era por ele mas por nós, para calar culpas e remorsos futuros.

Comigo tudo era pior. Em parte por causa da pomba da pata partida. A história que ele me tinha contado num daqueles dias mais dificeis, quando ainda morava naquela que tinha sido a sua casa. Um intelectual, um antigo coronel, um homem do poder, um mestre espiritual não alimenta pombas no jardim ou na praça, e por isso ele fazia-o na sua varanda. E murmurava num daqueles regressos do hospital: que será das minhas pombas...E a da pata partida, aquela que me vinha comer à mão, aquela que eu protegia, afastando todas as outras...nunca a deixavam comer. Pensei que se tratava de um delírio de doente. A compaixão era um sentimento que não lhe assentava.

Mas quando tirei tudo da casa, sem tocar na varanda horrivelmente suja das pombas, ainda olhei a ver se a via. E pensei nela, na pomba da pata partida, entregue agora a uma luta mais dura. E por causa dela, um rombo no meu coração, esse que eu julgava de todo protegido dele e do que pensara ser o seu desamor de toda uma vida.
~CC~

sábado, setembro 11, 2010

Lugares a ir (I)

"Afinal, somos filhos dos Flagelados do Vento Leste. Todos os anos morremos com as dificuldades mas ressuscitamos com os novos desafios que enfrentamos".
imagem e frase de: http://www.mindelact.com/welcome.html


Temos lugares cá dentro anos e anos a amadurecer a vontade de ir. Não são a razão para viver, mas juntam-se microscopicamente uns aos outros e pesam, correm-nos na alma como luz que nos vem aos olhos de quando em quando. Direi dos meus, não para não os esquecer, mas na esperança de que este registo seja um modo de ganhar asas.
~CC~

quinta-feira, setembro 09, 2010

Fotossíntese


Gosto dele desde Nenhum Olhar, mesmo lhe reconhecendo obras maiores e outras menores, o que só lhe fica bem, torna-o o ser humano que é. E às vezes apanho-lhe as palavras por aí.

"Amar é um esforço intelectual. E quando se ama muito e só, sem espaços de sombra, transformamo-nos num sol. As plantas vivas dependem dessa estrela para chegarem à fotossíntese. Chamem-me hippy, chamem-me o que quiserem. Em qualquer dos casos, continuarei a saber de cor a letra do Something to believe in, Ramones, 1986.
José Luís Peixoto, revista Visão, 9 de Setembro.

~CC~

quarta-feira, setembro 08, 2010

Raízes

Lembro-me de outro Setembro, oito anos antes.

Esta cidade pela primeira vez, um quarto andar sem elevador, num prédio envelhecido de casas alugadas, zona de brasileiros, de gente de leste, de pessoas sem hipótese de comprar casa. Como eu, lutando para o salário dar para o essencial. Deles pouco sei, mas eu respirava liberdade mesmo com a carteira (quase) vazia. Não tinha medo de (quase) nada, muito menos da fama de cidade violenta que esta tinha. Eu, e uma miúda de sete anos pronta a ir para uma nova escola primária.

Mas nunca pensei realmente ficar, senti-me sempre em trânsito. E tinha nascido em Luanda, por isso era Angolana, estava apenas à espera de voltar. Ou de ir para qualquer outro lugar quente, longe desta Europa sufocante que nunca tinha querido como o meu destino. E depois fui, por acaso também em Setembro, foi o meu primeiro aniversário longe da família, mas pensava eu, na minha casa verdadeira. Nada mais errado, aquele país não era o meu. Não quereria lá viver, apesar de cortarem as bananas exactamente como eu sempre as corto, sem nunca ter conseguido explicar porquê. E da cor da terra, sangue quente como nenhum outro.

Voltei ainda mais sem país do que quando parti, mas menos em trânsito, como se qualquer coisa tivesse morrido com aquela viagem, creio que uma parte dos meus sonhos africanos. Afinal, marcada a ser coisa nenhuma.

E nunca mais pensei em ir onde quer que fosse, nem em ficar aqui.

Mas ontem deram-me em segredo, baixinho, um convite. E creio que a ninguém ele podera ter comovido como aconteceu comigo. Na verdade um simples convite para a festa de aniversário de um bar/restaurante, qualquer coisa para clientes, tudo banal. Mas à saída ela sorriu e disse: quero-vos cá às duas! (pois, a miúda cresceu). Creio que só as pessoas sem raízes se comovem quando as agarram à terra, grande parte das outras até sente as raízes como uma prisão.

Mas eu pensei: se eu me dissolver, afinal darão conta disso.
~CC~

terça-feira, setembro 07, 2010

Água

Tejo (Ribatejo), Março de 2009


Em geral destesto chuva, excepto quando chega depois de muitos e muitos dias de sol.

E em Cabo Verde aprendi a ver nos rostos das pessoas a tristeza da sua ausência, a saudade com que falavam de antigos rios e ribeiras. Não consigo conceber um país de rios secos, um lugar sem água doce.

Estas gotas foram uma bela variação às lágrimas de Verão, menos salgadas e sobretudo sem peso de mágoas. Nem pareciam chegar ao chão, antes voar livres de peso.

Agora pode vir sol, ainda tenho uns banhos de rio ou de mar para tomar.

~CC~

segunda-feira, setembro 06, 2010

Para sempre


2 Setembro 2010, Vilamoura, fotos de RC

Abraços para sempre

(ou o desejo incomensurável que assim seja)
e ainda
(se existem, nada de cortar os pulsos nem saltar de janelas...)
~CC~

Nota foto 1. Nasceu prematuro com menos de um quilo, esteve duas vezes no limite da vida e venceu. É ainda frágil, mas sobretudo muito bonito, doce e curioso. Encanta-me, temos um entendimento especial, feito da quimíca das coisas simples e boas.
Nota foto 2. A mulher que abraça assim este homem também é uma sobrevivente, entre outras coisas, das desilusões do amor. Teve três fihos a assistir ao seu casamento, e esta foi a primeira vez que o fez, não é apenas coragem, é mais do que isso, é a capacidade de regenerar todas as células mortas, de limpar todas as lágrimas, de rir das cicatrizes.

Setembro

Nasci neste mês dos dias a acabar cada vez mais cedo, neste mês de queimar a terra para deixar lá outras sementes. E sou terra, essa mesma terra que morre para renascer. E eu já morri, por isso só me resta renascer.

Ter nascido neste mês deve ser uma boa razão para chorar pela última vez as coisas perdidas. E quando pensamos nas últimas lágrimas sabemos que ainda são as penúltimas, esse aproximar do fim que não é ainda totalmente fim. Como quando o dia vai acabando e não é ainda nem de noite, nem é já dia.

Esse gosto pelas imagens e palavras disseste tu, e como eu gosto de tudo o que tu dizes, gostei sempre, como um calor que se manteve anos inteiro, como se tivesse congelado. E se o descongelar, encontro intacto o teu azul. E quero-o, mesmo sem nada saber de ti.

Renascer são também as palavras, as imagens, e como posso dizê-las agora com menos sangue, volto aqui. Por pudor, não gosto de blogues manchados de sangue.


Na verdade estou ainda para nascer este mês.
~CC~

sexta-feira, setembro 03, 2010

Uma palavra

Só uma razão para interromper o silêncio de que preciso para limpar o sangue da cansaço que o consome. Pela primeira vez senti necessidade de vir aqui, a este lugar semi público, necessidade de dizer uma palavra.

Só uma palavra para dizer quanto me cala fundo a condenação que mereceram hoje os arguidos da Casa Pia. E tenho a certeza não é nenhum resquício de justiça popular que me move, não é nenhum contentamento por ver quem tem poder ser condenado, não é nada de pessoal.

Acredito nas vitímas é apenas isso, e chega-me. Ninguém inventaria uma história destas, ainda por cima a troco de nada, ainda por cima para ver a vida exposta e se sujeitar a ser tido por mentiroso.

Acredito também na denúncia como acto profundo de coragem.
~CC~

(e agora, mais um tempo de silêncio)

terça-feira, agosto 17, 2010

Já vou



FECHADO
(POR TEMPO INDETERMINADO)


(aos leitores que acompanharam este blogue um grande abraço e um muito obrigado por cada vez que deixaram um comentário)

segunda-feira, agosto 16, 2010

Fora de moda

O que parecia ser tão grande era afinal tão pequeno. O que parecia ser tão difícil de apagar, é afinal tão fácil. Uma pessoa está à mão de um clique delete para deixar de existir, é assim que se funciona no ar do tempo.

Estará para breve o fim das lágrimas como produtos da dor? Deve estar, e eu não sei.

~CC~

sábado, agosto 14, 2010

Jogos de sorte e azar

Penso em escrever
Fechado por tempo indeterminado
e assim abandonar todas as palavras
numa despedida sem compromisso

Penso em ir à tua procura
à minha procura
num lugar que já não existe
nenhum de nós existe já

O silêncio é esse sinal
de um adeus a várias dimensões
de uma partida sem retorno
depois de um tempo de encontro.

Pensamos em coisas absurdas
e mágicas
quando a tristeza nos vem dominar
nas noites de sábado

Pensamos que queremos tudo o que deixámos
e não o queremos já
Pensamos num outro futuro
mas só há vazio quando o pensamos

Pensamos em tudo o que deixamos
quando escolhemos
e que queríamos voltar atrás
escolher outra vez

Escolher outra vez
marcar outras cruzes nos quadrados
onde se escondem os trevos de quatro folhas
os luares encantados

Mas sabemos que nunca nos estará reservado o euromilhões
Que a nossa vida
Esta curta e longa vida
só tem mealheiros de bairro de feira.

~CC~

sexta-feira, agosto 13, 2010

Três peras

Comprei três peras num lugar remoto, muito bonito, junto a um rio. Um lugar onde devia talvez morar. Penso em envelhecer assim, mum lugar onde todos são já velhos também.

As três peras. Uma estava cheia de lágrimas e por isso não a pude comer. A outra estava cheia de um desespero fundo, um desamor lento, deixei-a intacta. A terceira estava vazia, oca, seca, gelada, e deitei-a fora. Ainda tentei enrolá-las nas minhas mãos, mas nada. E ainda assim, sinto as mãos a transpirar do seu odor pesado.

Ainda este Verão comprarei um pedaço de melancia, beberei do seu sumo doce à procura de força e alegria.
~CC~

terça-feira, agosto 10, 2010

A mulher sem ondas

Era uma família zangada, dos quatro apenas o rapaz, na casa dos vinte, não dizia palavra. A mulher, perto dos sessenta, parecia infeliz. Dizia para o marido: sabes quantas vezes eu vim contigo à praia? Posso contá-las pelos dedos de uma mão.

Ela nunca tinha aprendido a nadar.

E era como se dissesse que era uma mulher que toda vida tinha desconhecido o sabor salgado das ondas de espuma. E era uma mulher que dizia ter sido toda a vida, de certa forma, desconhecida do homem com quem vivia.
~CC~

domingo, agosto 08, 2010

As ondas à noite

O menino, cerca de cinco anos, seguia perto do pai, sem que sentisse necessidade de lhe dar a mão.

-Pai, é verdade que a praia está aberta de noite?
- Sim, nunca fecha.
- E há pessoas que tomam banho à noite?
- Quase nenhumas, faz frio.
- E de que cor são as ondas à noite?

Silêncio do pai
Silêncio do menino

Fico a pensar: Ali está um menino que irá gostar de poesia.

~CC~

sábado, agosto 07, 2010

Agosto (III)

A cidade, esta capital pobrezinha e sem mar, mal respira no calor. Gosto em parte dela pelos seus defeitos, é quase um Algarve interior, e há anos que parece parada, adormecida. Todos os anos junto à doca há várias feiras, chegam inevitavelmente em Agosto, numa disputa impossível de turistas com outros lugares, esses sim na ribalta.


Nunca achei a feira do livro tão pobre como este ano, meia dúzia de barracas sem brilho. Ainda me lembro há anos atrás de ficar extasiada com a presença do José Luís Peixoto, a assinar livros com aquele sorriso de miúdo reguila. Nessa altura ainda apareciam alguns escritores, havia alguma luz sobre eles, filas pequenas para autográfos, mas ainda assim algumas pessoas.

Não devia comprar mais livros por ora, não devia ler a não ser os livros cinzentos aos quais estou obrigada, presa, amarrada. Às vezes não sei como me prendi assim. Se fosse mesmo a sério isto na minha vida eu ficaria cinzenta da cor dos livros que tenho para ler.

Os olhos param na Peregrinação de Emmanuel Jhesus, há uns anos passei o Verão num monte alentejano alumiado por um gerador que se apagava cedo, e ficavámos só com as estrelas. De dia lia a Baia dos Tigres, Pedro Rosa Mendes era a minha outra companhia diurna junto ao mar agreste. Curiosamente o bar da praia chamava-se bar do tigre. Parada a olhá-lo iluminam-se os olhos, é aquela a minha cor, as cores todas de mim. Deve ser por isso que me compras o livro, que o trazemos para casa ao arrepio de tudo o que deveria ser.

~CC~

quinta-feira, agosto 05, 2010

Muros brancos



Duas mulheres, uma mais velha, outra mais nova, manhã muito cedo. Elas caiavam o muro enquanto entoavam canções, velhas canções ouvidas das suas mães. Dizem que no Alentejo as mulheres tornam as casas brancas mas não cantam. Estas cantavam e olhavam-nos de soslaio, entre o medo do desconhecido e a vontade de dois dedos de conversa. Sorrisos meios, vergonha muita.


Vindas de outro tempo estas mulheres na aldeia pacata ao pé do mar, hoje só um lugar de férias. Elas no mesmo tempo que nós, do mesmo tempo, e ainda assim noutro tempo. No minuto do sorriso iguais, eu e elas, apenas mulheres entoando, olhos postos no mar. É preciso que os muros sejam brancos, muito brancos.
~CC~

segunda-feira, agosto 02, 2010

Agosto (I)

Tantas palavras
milhares de letras em equilíbrio instável
Como te escreveste tantos anos
anos e anos a fio

Tantas palavras
Um vazio tão grande
Um amargo tão intenso

Quero ver tudo
Não quero ver nada

Um risco
Tu não existes
Mas estás aqui
Mais que nunca estás aqui.

~CC~

Agosto

O silêncio do olhar
Tanto silêncio
Como-o devagarinho à procura do que ele me diz.

~CC~

domingo, agosto 01, 2010

Belos fios

Tem um nome bonito: FIAR. Fiar, uma arte que não sendo na rua, como acontece com este festival, sai das mãos, dos longos serões dos dedos e dos fios. Assim são também estes espectáculos, começamos por ver apenas um fio, e só no fim a magia se revela inteira. A rua era o palco natural do teatro, a noite inteira e meia lua brilhante.

Do Pino do Verão, essa descida poética pela encosta do castelo, ao som da orquestra, já muito foi dito. Este ano apanhei-a quase no fim, só consegui chegar praticamente para os aplausos. Quando se vê pela primeira vez sentimos estremecer o coração, depois, mais habituado, já consegue bater só mais forte.

Mas esta noite vi duas belas peças recortadas pela noite, uma nos telhados do cine teatro (que bela ideia esta de habitar os telhados) e outra num pequeno largo, penso que de nome "passo da formiga". Das noivas trapezistas, guardei a beleza vagorosa das suas asas esbeltas, verdadeiras mulheres pássaro, aladas e guerreiras, e ainda assim tão terrenas que lutavam por um vestido branco de noiva. Dos seres cinzentos, temerosos, de rostos só com olhos (poderosas máscaras) habitando caixas frágeis, guardei-lhes o medo dos seres humanos, ao mesmo tempo que revelavam um desejo imenso pelo contacto, pela comunicação, uma vontade de cruzar a fronteira do outro. Acabaram a servir sopa quente ao público, e nunca tinha visto tantos meninos com vontade de comer sopa. Impressionantes as suas caixas móveis, mistura de abrigos de guerra, casas confortáveis, carros sem rodas, lojas ambulantes. Teatro alemão de rua.

O Verão é também isto, a noite na rua, uma outra vida a acontecer.
~CC~