sexta-feira, janeiro 21, 2011

Produto apreendido

São raras as vezes que os cidadãos se sentem protegidos pelo Estado, sobretudo quando o nome do cidadão é um nome vulgar, cujo apelido não se conjuga com os verbos do poder. Não é portanto pelo prejuizo que a empresa de parquímetros da minha cidade terá que estou satisfeita, mas sim pelo facto de o querem ganhar de forma ilegítima, taxando o valor minímo da cobrança acima do que a lei permitia. Desconheço quem o fez, mas quem quer que seja demostrou que por vezes protestar vale a pena. E por cada protesto válido e ganho deviam nascer mais vinte.

Nunca tinha visto parquímetros cobertos de plástico preto com uma fita amarela a dizer: produto apreendido. E estão assim por toda a baixa da cidade, vale a pena a visita cívica. E há ainda este estuário, quando chega um pouqinho de sol, é um dos mais belos.
~CC~

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Em observação (II)


Aveiro, Novembro de 2010

Será por causa da tristeza? Morar numa casa amarela será um modo de se ser menos triste?

~CC~

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Pequenos nadas

Aparentemente tudo normal. Saio do carro manhã cedo e procuro o casaco. Olho para o banco de lado e para o banco de trás e nada. Saí sem casaco e nem dei por isso. Agora só me resta atravessar o nevoeiro assim. Aparentemente tudo normal.
(repara que é bem diferente de o vestir ao contrário, como é hábito)

É estranho mas nem tenho frio, aliás nem me sinto. Qualquer dia saio fora de água, dou à costa numa praia do sul, e deixo-me estar quieta ao sol. Qualquer dia sinto-me, paro para escutar o meu coração, arrisco o perigo.
~CC~

segunda-feira, janeiro 17, 2011

Poeira quente

Apetecia poder viajar como uma poeira nocturna capaz de se transformar em beijo nos teus lábios, aquecer o teu corpo com a nudez do meu, limpar-te o cansaço nostálgico que habita o primeiro dia de trabalho da semana. Pergunto-me tantas vezes, contudo, se teria abraços todas as Segundas. Mas hoje tenho. E também este desejo de transporte do meu calor por este rio da minha cidade até à maré daquela praia, a praia mais pobre e mais triste desse Algarve quase todo assim. E não obstante, um dia a nossa praia.
~CC~

domingo, janeiro 16, 2011

Em observação (I)

Para leitura. Aceitam-se sugestões.
~CC~

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Há mais de vinte anos

Devemos pensar duas vezes quando alguém nos propõe regressar aos nossos vinte anos. Quando alguém nos propõe falar do nosso mestre e do que a sua voz nos fez quando ainda não tínhamos acabado de crescer, quando o nosso corpo era um vime, o nosso coração um peso superior a nós e a nossa cabeça um turbilhão por minuto.

Fui inocente, fui sem pensar.

E só agora que a tarde já dá lugar à noite me apetece chorar.

Dizes que chegámos lá pelo acaso, que os dez que entrevistaste para a tua investigação te disseram isso. E que todos disseram que depois daquilo não voltaram a ser os mesmos.


Eu era a miúda triste e pobre, com duas tranças e os dentes já a apodrecer, um destino nada azul pela frente. Ninguém hoje acredita que eu era assim, mas era.

Mas explodia cá dentro, como ainda hoje.
~CC~

terça-feira, janeiro 11, 2011

Tarde interrompida

Dia cronometrado ao segundo, uma quase impossibilidade de tudo cumprir. Andando rápido por estradas secundárias, o coração preso a tudo o que não consigo fazer. Mais adiante um carro parado, nenhum sinal à vista, problemas por certo.

Mas era apenas um enorme rebanho de ovelhas silenciosas, calmas, enormes, rompendo a estrada que tinha cortado em dois o seu pasto antigo. E um moço novo, bonito, igualmente calmo, e dois cães a sorrir. Exceptuando o facto de seguirem sem hesitar o caminho uns dos outros, são eles que estão certos.

~CC~

domingo, janeiro 09, 2011

Resistência

A chuva foi-se, menos um contributo para o desalento. Há ainda o chão repleto de livros e artigos, o nome dos autores a enrolar-se na garganta de tanto ser repetido. E a luta contra este Inverno longo, uma virose que ontem procurei afastar comendo tangerinas directamente apanhadas da árvore. Ganharei? Ou espero a Primavera chegar, ser outra eu.
~CC~

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Estas coisas que se desejam (II)

A paz no mundo é uma coisa vaga. O fim da fome uma dor só de pensar. A revolução um fogo impossível na matéria de que são feitas as pessoas. Gostaria de ter a simplicidade de as desejar, mas é como acreditar na existência dos anjos.

Ainda assim desejo coisas simples. Que o Sr. Simões, em Faro, que se diz alfarrabista, mas é um guardador de livros e de sonhos deixe de dizer com o olhar triste que o seu negócio está no fim. Andei por tanto lado à procura de um livro editado há apenas 6 anos e só ele o conseguiu arranjar. Olho para o seu marcador de livros que diz: não deite nada fora, telefone-me. E mais adiante: Para quem ensina e estuda e investiga...e para quem não se limita às fotocópias, para os melhores! Já ninguém o diz e escreve assim. Longa vida Sr. Simões.

~CC~

segunda-feira, janeiro 03, 2011

Estas coisas que se desejam (I)

Do princípio ao fim eu sou só desejos, não necessito de passas para desejar, nem de novos anos. Eu precisava era de não desejar, o desejar é que é o mal que me habita. Tenho inveja de quem não deseja e só plana em paz, tranquilamente vendo cada dia que passa como uma luz que nasce e se apaga.

Vejo a lista dos desejos dos outros e acrescento mais à minha, afinal ainda havia mais alguma coisa para querer. Do princípio ao fim eu sou só desejos, grande parte deles imateriais, esquivos, escorregadios. Invento desejos para os outros quando eles não conseguem esgotar as doze passas, há sempre mais uma ideia em mim, qualquer coisa de querer. E não são carros, nem barcos, nem jóias, nem vivendas com um quintalinho e um cão de raça.

Eu tenho muitas reclamações para o Instituto dos desejos, anos e anos a cobrar-lhe de insatisfação. Toneladas de passas desperdiçadas.

Pedi para não desejar tanto.
~CC~

domingo, janeiro 02, 2011

Regresso

Regressou o silêncio, o meu amigo mais antigo.

(cresci com ele como uma segunda pele).

Regressou e não sei que vos dizer dele, parece cansado e aninho-o em mim. Regressou e não sei que vos dizer dele, parece um fardo que se soterra em mim.

~CC~

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Um a sumir-se, outro a aparecer

Um desejo de ganhar asas percorre-me enquanto os olhos pasmam pelos aeroportos cheios de neve. É tão impossível ir, tão louco ir, é tão impensável. E enquanto a razão percorre o lado direito do meu corpo, o desejo percorre todo o lado esquerdo. Há muito que lutam um contra o outro. Esta festa do fim do ano é mais aterradora que o Natal. O Natal é inofensivo, é igual ao homem das barbas brancas que só parece aterrador ao longe, mas ao perto é um velhote simpatico. Nada no Natal me assusta, tudo nesta ideia de um novo ano me aterroriza. E isso não dizer que não adore viver.

Ganhar asas, ou ir pela estrada, sem destino. Estar noutro lugar, não conhecer nada, ter tudo por descobrir. A festa não existir, apenas uma paz mansa numa paisagem bela, marcada a água e a verde. Um hotel, uma cabana, uma tenda, não o meu quarto, não a minha cama. Uma cidade, uma vila, uma aldeia que não seja minha. Trazer comigo uma, duas, três pessoas. Essas pessoas que não querem ir, pessoas com pés de raízes e não com pés de vento. É dolorosa a diferença, por melhor que ela seja tantas vezes, outras é desencontro. Fazer o esforço de ficar, de estar, de sorrir. A felicidade quando se puxa por ela, acaba por aparecer, uma luzinha nos olhos de quem se gosta, por eles, para eles. Custou-me, mas aprendi a extrair a felicidade da felicidade dos outros. Não sempre claro. Às vezes quero uma felicidade só para mim.

Um ano inteiro a sumir-se pelo calendário, outro a aparecer. Tantos dias, tantas noites. Tantos sonhos e tantos pesadelos possíveis. Passar o ano, anda cá ajudar-me a varrer o medo, tive um pesadelo terrível ontem à noite, mais uma vez. Essa malvada da morte a aparecer. Anda cá chamar o lume, assobiar aos pássaros, afastar as bruxas, fazer arder os beijos, tornar o mundo um lugar habitável.
~CC~

PS. A todos os que passam, bom 2011, e façam os sonhos ter a vitória sobre os pesadelos.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Cheiro a canela

Uns gostam e outros detestam o Natal. Fico-me a meio, hesitante entre as coisas que destesto e as que gosto.

O pior é a propaganda da solidariedade, repetida até à exaustão como a cantilena dos pobres e desvalidos cuja existência só ganha contornos no Natal, o resto do ano eles são apenas sombras, podemos passar por elas como se nada fosse. Se quisesse contribuir para algum projecto em que verdadeiramente acreditasse (poucos, muito poucos) nunca o faria no Natal. Tenho o coração repentinamente frio, surdo a estes apelos.

O melhor é a desculpa que isto me dá para não fazer nada uns dias. Só temos que alinhar no receituário mais nobre, e esse é dos abraços de quem se gosta, bem polvilhados a canela. E tudo o que me cheira a canela me sabe bem.

Agarrem-se assim a quem puderem, e misturem bem beijos e canela, e ficarão a salvo do horror a que se assemelha tantas vezes esta quadra.
~CC~

terça-feira, dezembro 21, 2010

Manhã

Manhã de Dezembro, um arco-irís enorme no céu, e inteiro como já poucas coisas são.

~CC~

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Baloiço, balanço...

Este foi o ano
em que morreu uma parte de mim
que ainda desconhecia
um pai acabado de chegar

Foi este em que por quase nada
te perdi no sufoco
de seres gato e eu lebre e eu cabra
no Agosto mais quente da memória

Este foi o ano
em que o quase foi sempre
a palavra ao pé da boca
trava-línguas amargo-doce

Quase arranjei um amigo
suave e sensível
uma noite de Verão que prometia estrelas
mas se escondia delas se fossem cadentes

Quase acabei uma tese
mas mastiguei-a demais
e está enroscada entre o coração pardo
e a garganta rouca

Este foi o ano
do seu crescimento maior
a minha roupa deixou de servir
e a dela é sempre pouca

Soube também dessa fatalidade
O mundo está em crise
e ela é bem maior que a minha
cujas sombras sucumbem na Primavera

Foi este em que quase fui feliz
mas nisso foi igual a tantos outros
um quase brilho sempre a fugir
e eu em mergulho atrás dele

E é cedo ainda
nem chegámos ao Natal
e eu já de volta das passas.
Deve ser essa explicaçao do quase.

~CC~

PS. Sabias que as estrelas cadentes são também conhecidas como “lágrimas de São Lourenço”?
(ver aqui)

quarta-feira, dezembro 15, 2010

O frio a sul

O frio congela as minhas mãos sobre o teclado. Penso nas consequências que isso terá nos textos que produzo. Pode ser que a consequência neles depositada seja a frieza -o uso dominante dos substantivos e a quase purga de adjectivos- um critério que a academia mais pura gosta de nos colocar como matriz. O frio no Sul é mais cortante, mais doloroso, não lhe conhecemos o rosto.

Haverá grandes pianistas clássicos a sul? Ou será que lhes faltou o rigor dos Invernos?
~CC~

segunda-feira, dezembro 13, 2010

As três vidas


Uma mulher e três vidas, só na última um sopro de amor. Marcada pelos maus olhados cunhados nos mistérios com que o mundo rural olha para a vida, o azar chega-lhe pelo nascimento. Será a única rapariga entre rapazes, e apesar de muito pequena, é forte como uma vara que o vento é incapaz de quebrar. A tudo resistirá e ainda fará fortuna.


É espantosa a forma como o Teatro Mosca conta a história dela, com elementos cenográficos simples mas eficazes, um conjunto de bocados de madeira que se articulam para fazer mesas, montes, casas, abrigos. Actores muito novos, muito bons. Uma actriz a registar, de uma segurança absoluta na contenção da dor, um rosto permeável, capaz de se deixar escrever a todas as emoções. Dizem que ganharam um prémio em França, fico a pensar como será mais difícil que o ganhem aqui.

De Sintra para Faro, da Mosca para o CAPA, fora dos roteiros onde a mundanidade se constrói em círculo. É como ir ao cineclube em vez de ir ao cinema do centro comercial. É respirar outro ar. Infelizmente são estes, os melhores, os menos conhecidos, que costuma tombar com as crises. As telenovelas essas continuam. O bairro alto também.


Mas há mais vidas, como com Lucie, um dia as pequenas coisas trinfurão, não por serem pequenas, mas por habitarem a singularidade do espectáculo fora do espectáculo.
~CC~

domingo, dezembro 12, 2010

Vitamina certa

Foi na semana passada que as consequências do seu quotidiano sem casacos compridos, blusões de penas e guarda chuvas, lhe valeu uma gripe forte, vivida bem perto de mim. A explicação dela, porém, era outra. Tratava-se da gripe do liceu, uma vez que lá praticamente todos a tinham. Fiquei esclarecida, e sendo uma gripe que afectava só os rapazes e raparigas do liceu, eu estava, pela idade e ausência do contexto, imune.

No entanto, há dias começou uma dor de garganta que se tornou cada vez mais aguda, e agora os espirros abundantes e um mal estar que me tira a vontade de quase tudo. Hesito entre a felicidade de afinal as minhas células possuirem a juventude suficiente para este contágio, ou a tristeza do espelho me devolver um simples nariz vermelho, lábios inchados e olhos mortiços.

A esperança reside nos teus limões possuirem a vitamina certa para fazer face a qualquer gripe, até à do liceu, não obstante a distância que medeia o teu quintal das ruas da minha cidade.
~CC~

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Resistir, ainda crescer

Saíram manhã cedo em direcção ao bairro cigano, um Técnico de Serviço Social e um Educador Social, parte integrante de um agrupamento que dados os seus resultados desastrosos em termos de sucesso escolar, passou a ser um território educativo de intervenção prioritária(TEIP). A directora de turma tinha dado o primeiro alarme: a menina cigana de 12 anos que o ano passado já ameaçara desistir, estava a faltar outra vez. E foram recebidos de braços abertos pela comunidade que lhes explicou que a menina tinha passado a frequentar a escola da Igreja porque essa era dentro do bairro. E a informação à escola, perguntaram? E a legalidade da situação? E lá foram falar com o pastor. Antes disso, já tínhamos estado a conversar sobre os alunos ciganos que estão no Curso de Educação e Formação de Jardinagem, mas gostam é de música, e são bons. Algo está mal quando não os encaminhamos bem, porque é que a jardinagem terá mais saída profissional do que a música?

Falo pelas escolas onde ando, por aquelas com quem colaboro, por quem vou tecendo a admiração que nasce de muitos buracos negros, que sobrevive do desespero, e quantas vezes do meu próprio desespero. O que é diferente agora? O que é diferente do tempo em que eu andei na escola? Diferente é apenas isto: juntamo-nos, fazemos perguntas, não aceitamos o abandono, a desistência, o insucesso. E se sabemos que a escola não pode fazer tudo, pensamos sempre que pode fazer alguma coisa.

E são assim as escolas e os professores que contribuíram activamente para melhorar os resultados dos nossos alunos no PISA, não foram os ministros, nem os secretários de estado. É a mensagem, a força com que a mensagem nos entra no sangue e nos faz ter garra. E mesmo se por vezes desistimos, cansados, fartos, exaustos. Venham os arautos do ensino de elite dizer que eles agora não aprendem nada. Mas os testes não avaliam os saberes? Não têm a legitimidade do "teste internacional"? Não é a mesma entidade que antes nos colocava na cauda da Europa?

Emociono-me sempre que um professor não desiste, e é verdade, às vezes é só o que apetece.

~CC~
Nota: Tenho algumas reticências quanto aos resultados escolares medidos por testes como o PISA, caso eles sejam os únicos instrumentos para nos vermos. E por isso, relativizo-os de algum modo, mas não os anulo ou ponho totalmente de parte. Valem o que valem, e valem alguma coisa.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

A melhor fuga

Fechar os olhos e ir pelos dedos da chuva, criando asas. Depressa estou nas termas de Budapeste, e despreende-se do vapor uma textura de baunilha e amoras. Mais um bocadinho de olhos fechados. Depressa chego à praça de Marraquexe, e despreende-se do ar o barulho dos vendedores de objectos, e de sonhos, e o ar quente traz areia vinda do deserto. Mais um bocadinho sem acordar. Estou na cidade do Cabo, e diante de mim o mar revolto do fim e do começo do mundo, peixes grandes e conchas que andam sozinhas no vento. E depois Buenos Aires, esse tango que jamais saberei dançar, mas que me ecoa na pele. E há ainda a esperança de em todos estes lugares estar um abraço teu.

Passei tempo demais escrevendo, frente a um computador, tenho a sensação que metade do meu tempo foi feito a tricotar palavras para ninguém. Por isso anotar roteiros é uma prática antiga de me fazer feliz. Qualquer dia vão vender isto como mais uma terapia.
~CC~