domingo, novembro 14, 2010

Esperança

Um pensamento mau é como uma coisa viral que nos toma cada célula. Fumigar, de fumigações, do tempo em que se deitava fumo às tocas onde os bichos se escondiam. Fumigar os meus pensamentos maus, deitar-lhes fogo, fumo, água. Fazer o mesmo ao cinzento que circula no ar como uma peste.

É preciso que cada semente transporte o mundo por nascer e não uma hipótese de morte. Por todo o lado nos falam da segunda, já quase ninguém nos fala da primeira.
~CC~

quinta-feira, novembro 11, 2010

Novembro.11

Viajámos, não sei bem porquê, nem exactamente para onde. Acontece-me não me lembrar das coisas a não ser em microfilme. É um excerto de qualquer coisa maior, mas só me lembro dessa mais pequena. Apanhámos uma estradinha pequeninha de terra sem qualquer indicação de destino. Eu e ele temos em comum esta vertigem do mergulho, de repente só queremos ver verde, sair dos eixos.

Viajámos e foi para Norte. Lembro-me que corria um rio, e que havia uma encosta cheia de castanheiros. E havia por ali uma data de filhotes dessas árvores que dão ouriços. Só a natureza é capaz de criar espinhos para proteger o que tem de mais precioso, quantas vezes eu o quis fazer sem conseguir. Imagino a minha cria dentro de um ouriço, protegido o meu amor.

Ele, o meu rapaz, foi buscar ao carro as suas pás de roubar árvores, arbustos, flores. E trouxemos daquele lugar sem nome um pequenino castanheiro, na ilusão de o ver crescer perto de nós, e de eu poder aprender com ele a criar ouriços. Mas algumas árvores são especialmente sensíveis, se lhes falta o grau adequado de humidade e de temperatura, desistem de viver. Ou talvez seja só saudade.

Reparem bem nos ouriços que escondem as castanhas, e depois nesse aveludado casca, e na polpa rija que o interior esconde. Podemos comê-las cruas, cozidas, assadas. A natureza é perfeita, podia viver só da recolha dos seus frutos.

~CC~

quarta-feira, novembro 10, 2010

Irmãs

Tenho irmãs a sério, dessas que têm genes oriundos da Mangueira que enchia o quintal das nossas infâncias. E tenho outras que ganhei. Arranjei-as algures no lugar onde o olhar se cruzou e estendeu uma mão que ainda está lá.

Tenho uma irmã, uma dessas que não vi nascer, mas que vejo há anos a nascer, a mudar, a crescer. Não há nada de melhor que ver uma irmã a mudar por dentro, enchendo pouco a pouco de rosas os lugares escuros do seu coração, amansando espinhos, secando lágrimos. Tenho uma irmã que nasce hoje outra vez, e nasce diferente, deve ser algum defeito dos meus olhos, porque todos os anos eu acho que ela nasce mais bela do que no ano anterior.
~CC~

segunda-feira, novembro 08, 2010

Das cidades e das serras

As cidades arruinam-se neste Outono. Os dois cinemas da minha cidade estão fechados para obras. O parque enorme para automóveis que construíram junto à minha casa, em plena zona residencial mas junto da estação de comboio, pejado de parquímetros, mostra como pode falhar a estratégia comercial pública, está deserto. Em cada quarteirão, o edificío mais antigo e mais belo, está a cair aos bocados. A cidade cresce em direcções aparentemente insuspeitas nos terrenos baldios que restam, fazendo minguar as hortas circundantes, mas as tabuletas de venda e aluguer são tantas que parecem anunciar mais desespero que belas casas à venda.

Salvam-se os plátanos enormes e absolutamente deslubrantes de amarelo e laranja, como se os seus cabelos esplenderosos tocando o céu soltassem melodias baxinhas em cravo, para fazer explodir o que resta de beleza nos corações já gastos.
~CC~

sábado, novembro 06, 2010

Beber gota a gota

A água que pouco desce do céu, quando o faz, deixa-se escorregar pelas encostas. É precioso aproveitar cada gota. Escavo-me na terra à espera de as guardar, reter cada momento, apreciar. Beber vida gota a gota.
~CC~


terça-feira, novembro 02, 2010

Adeus

À memória do meu pai
(que partiu a 31 de Outubro, pela mão das bruxas, espero que bruxas belas e fantásticas)

Eram as letras
dentro dos livros
onde segui pelos teus dedos
até à a montanha mágica, olhai os lírios no campo
toda a colecção Dois mundos
da editora Brasil,
RTP
e o dicionário ilustrado
com todas as palavras desta língua

esta que tão pouco usaríamos para dizer
amor
deixada feita silêncio
tantos e tantos anos
nas bocas cosidas de distância
algum ressentimento

passar o sal, o piri-piri, o açúcar
deixar os olhos lamber as mulheres roliças
fumar muito
mostrar a arma e a farda
amarrotá-la
sonhar-se em religiões alternativas
e como mestre de todas as multidões perdidas

e acabar como todos
pobre, humilde, triste
infinitamente carente e de todos dependente
e ainda assim melhor
mais sereno, mais doce, mais próximo

senhora morte que se aproximava
direi que o meu pai é aquele
que num lugar qualquer lá longe
estará disposto a traçar o horóscopo
a qualquer mulher bonita
preferencialmente loira

sim, era nosso pai
não, não deixou bens nem dinheiro
tinha o IRS feito e era já muito
e o que deixou é ar
a circular dentro do sangue
do nosso
mas ar de qualidade muito boa
apesar dos pulmões falidos

se é que pai é o nome que lhe posso chamar
mas sim deu-me o meu nome
este nome que gosto de dizer por ser belo
e ser a coisa mais minha que tenho

e sim porque a memória
tem lá dentro um colo perdido
que me deu na infância
e outro colo
que fui eu
a dar-lhe agora.

E adeus era na boca dele
uma passagem entre as vidas passadas
e as vidas futuras
pelo que voltará em breve
para piscar o olho
às mulheres loiras, um pouco roliças.

~CC~

sexta-feira, outubro 29, 2010

O melhor remédio

Ela tinha uma saia de flores brilhantes exactamente igual a uma que tenho e de que não gosto particularmente, por isso olhei. A mim a saia faz-me mais gorda e por isso não a visto, mas ela era realmente mais gorda e a saia ficava-lhe bem. Era alta, redonda e risonha, entre os quarenta e os cinquenta. É raro alguém sorrir assim manhã tão cedo, num café meio tristonho e sem graça. E todos a cumprimentavam com afabilidade.

A mulher dos envelopes aproximou-se dela delicadamente para tirar lá de dentro os papéis e mostrar-lhe. E ela sorriu mais: dê-lhe mimos! A outra nada dizia, espantada com a papelada a mostrar o tamanho da infeccção. E então ela disse mais perto, mais baixo: sexo, faça sexo com ele, vai ver que ajuda. Não, psicóloga não era, essas não recomedam assim abertamente o que os doentes precisam, é preciso que eles cheguem lá uma quantas sessões depois, e por si próprios. A mulher dos envelopes não pareceu nada satisfeita com ao remédio recomendado, impossível comprar em qualquer farmácia e sem custos.~

E chegou outra mais nova a falar da vacina contra a gripe, e se devia tomá-la. E ela riu-se e recomendou-lhe laranjas, sol, e muitos espinafres. Desta vez o sexo ficou de fora, ainda que a mistura de ingredientes recomendada lhe fosse muito favorável.

Tudo se configurava para um retrato de médica de clínica geral, esta saída de uma escola que não conheço, pois não mandou ninguém à farmácia que ficava mesmo ao lado.

E pensar que 20% anda a antidepressivos.
~CC~

Mariposa

(com mariposas nos olhos ao ler)

amo-te
te quiero
je t'aime
i love you
te amoich lieberdich
cretcheu di meu
ahabib

(e em Quimbudo por saber dizer, algures na memória da minha infância deve existir um par abraçado).

~CC~

quarta-feira, outubro 27, 2010

Formigas, quem sabe cigarras escondidas

Duas mulheres passeando entre as hortaliças e as frutas mal a manhã acorda são capazes de passar da crise do país às maleitas do seu corpo e aos aparelhos dos dentes para os filhos. Sao duas formigas amealhando o pão, ciosas do seu mundo, capazes de o defender contra as tempestades, todas elas e até a crise, esse bicho escuro que já tratam por tu. Discutem como poupar como se estivessem nas Tardes da Júlia (é assim que isto existe, ainda existe?)

Olho-as a pensar como amam elas, olho os seus corpos a pensar nas carícias que eles podem receber e não consigo imaginar. Talvez afinal se transfigurem e cantem como cigarras. Talvez não amem, fechem só os olhos no escuro da noite, como se estivessem afinal na mesma função que cumprem tão escrupulosamente manhã cedo, no supermercado.

Formigas, quem sabe cigarras escondidas.
~CC~

segunda-feira, outubro 25, 2010

Em mudança

As delas amarelas e laranjas, os meus brancos.
Da cor da seiva que nos corre dentro, e das suas mudanças, nada se vê.
~CC~

domingo, outubro 24, 2010

Domingo mais

A menina procura na praia os caranguejos já mortos, esses que não a assustam. O rapaz pequenino empurra o seu grande camião e enche-o de areia muito devagar, desistirá a meio porque logo se levanta o avião, o barco arranca com barulho, e a sua atenção flutua pelo mundo. Os jornais ficam por ler sobre a mesa dos adultos, porque o sol é mais forte e teima em nos abençoar com a sua luz, soltando palavras triviais. Ser feliz é por momentos este não dar conta de nada, só da carícia de uma mão, ora grande, ora pequenina, agarrada à nossa.

Tudo parece estar às vezes no lugar certo, como se a tranquilidade fosse chegar assim suave para me trazer descanso de todas, de tantas lutas.
~CC~

sexta-feira, outubro 22, 2010

Assombro

Assombram-nos o Inverno, já não basta saber que os dias serão mais pequenos e a pele mal respirará abafada nos casacos, ainda nos turvam os olhos com as suas imagens vazias, mas gravatas ainda brilhantes. Há no fundo dos seus olhos o que as palavras não conseguem traduzir: eles nada sabem do futuro. Esgotaram o planeamento dos planos. Fingem que acreditam, mas já não acreditam verdadeiramente no rumo, sabem do desgoverno.

Assombram-nos o Inverno e já não é o salário a diminuir, o fantasma do desemprego que em algumas casas já se tornou de carne e osso, é já o que temos para deixar aos filhos, um mundo a desfazer-se.

Para alguns haverá Deus, para outros Revolução, para mim apenas o aconchego das mãos, alguma imaginação.

~CC~

quarta-feira, outubro 20, 2010

Amargo(s)


Discutia-se, entre professores, os prémios que se atribuem aos alunos como forma de os distinguir por esta ou aquela coisa boa. E um deles diz: temos é que lhes dizer que o prémio não é um livro! Gargalhada geral.

E depois cada sorriso a desfazer-se amargo.
~CC~

terça-feira, outubro 19, 2010

Fragmentos

Os teus dedos fazem lume brando e eu posso aquecer-me. As noites sem frio são mais pequenas.

O olhar dele é o derradeiro lugar onde a minha tristeza é pequena se comparada com a dele. Não consigo evitar desorientar-me com a vida a fechar-se.

O medo diminui devagarinho mas ainda enche os meus sonos. Amachuco o medo enchendo-o com a esperança dos olhos amados. Encho o meu coração de viagens a dois, a três, a muitos.

O Outono tem este sol manso, não é o mesmo da festa do mar, mas lugar de enrolar, se pudesse fazia como os gatos, ia pelos muros miando a vida. Fugia de quando em quando a todas as minhas obrigações, já era tempo de serem menos, de me encherem menos o tempo. Devia poder dormir ao sol como as gatas.

~CC~

domingo, outubro 17, 2010

Ouro azul

Cabo Verde, Ilha de S. Nicolau. 2007



A sem se ver avisou, o dia certo já passou, mas nunca é tarde para lembrar.

Domingo luz e sombra

A sombra pode ser qualquer coisa que nos aparece no momento em que nos sentimos felizes. Uma mancha que começa por ser pequenina e quer aumentar. E nós lutamos com ela. A vida é, para alguns, um lugar de muita luta.

O receio é baixar os braços, desistir. As insónias insinuam-se.

É Outono, já há fumo de castanhas pela rua, um manto de friozinho que ainda não corta a pele, cheiro a mosto que vem do campo. E cá dentro a força dos teus abraços. Uma luz nas letras com que bordo o trabalho. Os sorrisos da miúda tão vivos. Não pode a sombra apanhar-me neste momento. Afasto-a. Mas ela não parece ser só sombra, quer ganhar contornos, ser matéria, insinuar-me no meu corpo. A sombra não pretende ser só melancolia, tristeza, parece querer ser real, avançar pelo lado mais frágil de mim.

Não pode, não pode.
~CC~

sexta-feira, outubro 15, 2010

quinta-feira, outubro 14, 2010

Observação dos dias (III)

Pagava o café a umas ex.alunas que tinham vindo a convite meu. E a empregada do bar comentou: aproveitem meninas que é a professora que paga, aproveitem quanto antes porque vai ficar sem mais um dinheirinho no final do mês. E acha bem? Perguntei-lhe eu. Claro que acho, é muito bem feito. A empresa que gere o bar é obviamente privada, há muito que tudo se entregou ao mercado.

E ela (de quem gosto) continuou num chorilho de ofensas aos funcionários públicos. Conclui que afinal o governo escolheu bem o alvo, são vítimas desde sempre pouco amadas, presas fáceis de uma inveja sem qualquer sentido. Talvez alguns possam merecer este desdém, mas estou certa que há muito quem não o mereça.
~CC~

quarta-feira, outubro 13, 2010

700.13

Auditório do Museu do NEO-REALISMO. Vila Franca de Xira

MÚSICA DE INTERVENÇÃO E NEO-REALISMO
Lançamento do CD 13, de Afonso Dias com Afonso Dias, Manuel Freire, Francisco Fanhais, Tino Flores e Pedro Lobo Antunes
Sábado, 16 de Outubro de 2010 Hora: 16h00


"que se chama 13 porque sim - e também porque tem nele 13 canções - porque 13 é número de magias negras e brancas , associadas à sorte e ao azar - porque o azar é como a água benta: cada qual toma a que quer, embora haja acidentes e quanto a isso paciência, pá - porque a sorte é como a vida: melhora se a gente puxa por ela - e porque as cantigas continuam a ser precisas para mostrar as nossas zangas, partilhar os nossos afectos, esbanjar a nossa solidariedade e para denunciar a mentira e a iniquidade – sempre!"

Afonso Dias

ver mais em: http://www3.cm-vfxira.pt/PageGen.aspx?WMCM_PaginaId=30638


Nota: foram 700 as vezes que me apeteceu escrever aqui.

terça-feira, outubro 12, 2010

Observação dos dias (II)



Os dias passam demasiado rápido. Só isso explica que tenha deixado passar Voando nos Equinócios. Nada afinal me apeteceria mais. E nenhuma coisa me causaria mais medo, esse medo que habita o desejo do impossível.

~CC~

Nota: Para os curiosos espreitar aqui. (ver Desporto, 9 e 10 Outubro)