domingo, outubro 10, 2010

Domingo de volta

Tenho-me. Tenho-te. O mundo parece acordar de um sono triste.

Toquem os sinos porque o Domingo é de água e Deus é o sangue que nos corre por dentro a pedir felicidade. Há uma fina película de luz a entrar nas janelas que acabei de abrir.

Apanhei mais do que um comboio para acordar noutros lugares e poder saber como é a manhã quando acordamos longe de casa e não sabemos onde se pode ir beber café. E Aveiro é uma cidade entre a água doce e a água salgada, num equilibrio instável. Tem a serenidade dos lugares instáveis, a mesma que eu procuro. A beleza dos lugares em movimento.

É tão bom como ir é poder no regresso enrolar-me naquele sorriso alegre da adolescente que me espera na volta. É observar até que ponto as plantas cresceram na minha ausência. É deixar-me cair no sofá de todos os dias. O melhor das rotinas é sabermos que as podermos romper, é conseguir fazê-lo.


Que em mim não morra esta vontade de ir, mesmo quando o peso das pernas parece ter aumentado e a vontade de dizer palavras parece ter desmaiado no fundo da minha garganta. Mas não é assim, eu sou ainda a vontade de ir. A minha viagem interior cresce nas viagens reais da terra, sou mais eu de cada vez que acordo noutro lugar.
~CC~

quinta-feira, outubro 07, 2010

Terra

Imagino que és tu a terra onde posso morar. Se abrires bem os braços e me puderes abrigar de todos os vendavais, talvez possa adormecer tranquilamente dentro do teu calor. Estou cansada.

E não é um rosto perfeito, um corpo bonito, um arquitecto do saber, um encantador de palavras. É apenas uma alma grande, aberta ao mundo, tombando no equilibrio precário das coisas para se erguer árvore em qualquer Primavera. O que é forte e pode ser também frágil. O que sabe rir sabe chorar. Deixa-te ir, ser. Deixa-me ir, ser.

Imagino que sou terra onde podes morar. Se abrir bem os braços talvez te possa acordar para esses rios que te correm dentro, às vezes presos e outras fluindo a campo aberto, fertilizando as searas. Talvez te possa adormercer tranquilamente dentro do meu calor. Estás cansado.

Beijos primeiros. Beijos em primeiro.

Terra, este existir para existir mar.

~CC~

quarta-feira, outubro 06, 2010

Pessoas luz

Passei a frequentar amiúde o bar do hospital, um lugar triste animado por dois vasos de plantas grandes e verdes e paredes pintadas com muita cor. E se é verdade que a estética das paredes, dos quadros, das plantas, lhe traz uma luz menos difusa, é a senhora cinquentona que de quando em quando atende ao balcão que o ilumina.

Chama-me meu amor com uma doçura que me deixa sem palavras para lhe responder. Aquele meu amor já me trouxe uma lágrima (meu amor, hoje traz cara triste), mas a maior parte das vezes deixa-me sorridente (meu amor, não há água com gaz, beba da outra que lhe faz melhor). Já a vi sair do balcão para vir abraçar uma moça que chorava convulsivamente porque tinha vindo do Porto e não estava à espera de ver o pai inanimado nos cuidados intensivos. E esteve muito tempo abraçada a ela esquecida do balcão e nós à espera, mas numa espera solidária, silenciosa.

Neste tempo que foi vazio e triste, meu amor era um tratamento tão distante de mim e do meu mundo, que quase só facto de ela o usar me possibilitava amar-me.
~CC~

Brasil

Depois de Nelson Mandela não houve mais ninguém, depois dele deu-se a morte dos políticos.

Agora aparece Lula, sendo que este agora é tardio. Agora damos conta que ele existia porque está de saída e quer passar um legado. Dizem que o Brasil cresceu economicamente tendo como horizonte o povo e isso parece-nos impossível na era do capitalismo global. Ninguém pensa nos mais pobres em Angola ou na China, países que até há pouco ninguém colocava na esfera do capitalismo puro e duro. E Lula tinha elos duvidosos, deixava-se seduzir por ditadores com perfil revolucionário.

Não queria acreditar no brasileiro, homem de meia idade que dizia olhos colados na televisão que ia votar Lula (apesar de não ser ele, é como se fosse) porque muitas tinham sido as melhorias na sua comunidade. Na sua comunidade, já ninguém diz palavras destas. Os políticos não interferem nas comunidades, quando chegam ao poder já perderam todos os laços, forjam-se nessa perca. Há alguma coisa de estranho neste Brasil, ou então é mero embuste, uma ilusão.

O Brasil é metade da minha imaginação, um bocado do meu sangue. Agora mais.
~CC~

segunda-feira, outubro 04, 2010

Praia

O meu corpo sabe dizer-me. Posso assim segui-lo como quem segue um mapa traçado pelos sentidos. Encontrar-te. Depois é deixar que os beijos possam ser maré.

Saber sacudir a areia, ainda guardar as conchas.

~CC~

quinta-feira, setembro 30, 2010

Banhos de silêncio

Tomo banhos de silêncio. Ele é floresta escura em que me perco. Ele é uma ponte romana nos confins da Beira Alta, onde encosto as mãos nas pedras e vou delas ao meu corpo e do meu corpo a elas, e concluo que somos matéria porosa do tempo, daqui a pouco seremos pó, mais eu que elas.

Há tanto ruído no mundo, tanta gente a falar. Anunciados os precípicios não sabemos como não cair, não nos dizem. E pouco percebemos já do que o mundo é. Escapam-nos os sentidos de todas as crises que nos inventaram.

Há ruído a mais em todo o lado, música estridente, conversas ao telemóvel, redes virtuais, discussões entre vizinhos, políticos de boca aberta. E tão pouca coisa a fazer sentido.

Apetecia-me fazer greve. Seria apenas o corpo a falar a sua linguagem para quem o quisesse escutar. Digo-me melhor com a pele.

~CC~

quarta-feira, setembro 29, 2010

Das cores

Imagem retirada de: http://www.topearl.com/pimages/Coral_Color_shell%20pearls.jpg

Sentadas à mesa de Domingo, com o cansaço colado manso na pele, falamos de coisas simples como as cores da moda deste Outono. Interessa-me invugarmente este ano o assunto, isto porque tenho a teoria de que as cores que gosto mais dia menos dia estão na moda, como o roxo e o lilás, finalmente em abundância pelas montras. E há algumas que nunca visto como o verde, porque jamais poderemos imitar a beleza do verde da natureza, e quando o vestimos parecemos plantas sem graça.

Esta ano, qual alquimistas, os estilistas entraram em devaneio, resolveram trazer-nos cores sem nome, investiram de tal modo em cambiantes dos vários tons, que nos deixam confusos na nomeação, e assim aumentaram o léxico das vendedoras das lojas. A minha mãe, de (+) 80 anos, resolveu bem a coisa, disse que este ano a moda eram as cores abstractas.

Penso que é assim também a saudade quando ela começa a perder o rosto, torna-se uma saudade em abstracto em vez de ser concreta, de ter rosto. É uma saudade de uma cor sem nome, tem lá dentro apenas um sentimento de nostalgia, de uma coisa perdida. É a saudade do amor, em vez de ser a saudade de um amor.

Este Outono as cores não têm já os nomes antigos, andam em demanda à procura de nomes novos, reinventando-se dentro do que é velho e parece gasto. Se assim fosse com todas as coisas.


~CC~

Veja-se o que se diz do coral: "Coral é uma cor vermelho ligeiramente aclarado com branco, sem chegar a ser rosa, que deve seu nome a um tipo de cnidarias chamadas coralé. Em mistura sustractiva obtém-se suavizando com alvo um vermelho intenso, podendo desviar-se minimamente para o magenta ou para a laranja. Em mistura aditiva, seria o resultado de somar um pouco de luz azul e um pouco de luz verde a luz vermelha ao máximo" (in http://pt.wikilingue.com/es/Coral_(cor)





terça-feira, setembro 28, 2010

Da minha árvore

Uma frase curta, a medo ainda. Sabe se há uma casa à venda, mesmo pequenina, tem que ser é perto do chão, e tem que ter quintal. E não se esqueça de uma árvore no quintal, daquelas que falam com a nossa solidão. E não quero prédios em volta, apenas o silêncio do céu grande e azul.

Devia pensar na vida, mas é na morte que penso. Não lhe posso dizer mais, muito mais. Não lhe posso dizer da dolorosa consciência do que é a morte a aproximar-se num hospital público. Das lágrimas que só por momentos cairam grandes e grossas. Da forma como a morte ronda as camas e se infiltra a cada momento nos olhares tristes daqueles que ainda abrem os olhos. Olhamos todos a nossa própria morte quando se aproxima a daqueles que nos são próximos. Preciso assim de uma árvore e de um quintal. E de umas mãos que me possam tocar até ao fim sem medo da pele gasta e velha que terei.

Poderei trabalhar mais e mais, mais e mais. A bem da árvore, dos diálogos que terei com ela. Por momentos imagino tambem o riso das miúdas, e um sabor a manjericão, como se um resto de alegria pudesse infiltrar-se em toda a minha tristeza.
~CC~

segunda-feira, setembro 27, 2010

Nada menos que muito

Podia vir a correr, mas veio ao pé coxinho. Podia vir a dançar, mas veio de passo hesitante. Podia ter vindo de riso aberto, mas esboçou meio sorriso. Podia ter dito uma frase redonda e quente, mas disse frases confusas, atrapalhadas, mornas.

Do amor eu não quero nada menos que muito.

Os outros que fiquem com o resto.

~CC~

domingo, setembro 26, 2010

Domingo

O Domingo chega tão cedo, tão triste. Sacudo partículas finas que parecem lágrimas coladas à pele, sopro-as com tanta esperança de que se vão. Mas ainda se demoram, ainda ficam.

Aqueles que agora se encostam mesmo sabendo que o sabor das lágrimas é só sal, esses são os que ficam. Esses a quem a nossa tristeza não pesa. Esses para quem o nosso sorriso é uma luz pela qual lutam ao nosso lado. Esses para quem ao nosso lado é tudo, esses que não fazem perguntas, esses que ficam.
~CC~

Para uma flor


De todas as horas, as mais felizes, as mais infelizes, aquelas em que nos rimos, aquelas em que chorámos. De todos os minutos, aqueles em que nos levantámos, aqueles em que tombámos. De todos os segundos, aqueles que foram secos e em terra, aqueles que foram molhados e salgados.


É assim a amizade que sinto por ti, ela é feita de tudo o que construimos passo a passo, ela é sobretudo esse agarrar o outro quando ele tropeça. É saber que estás ali do lado do telefone, do sms, do mail. É saber que há um capuccino do Magnólia sempre à nossa espera e por trás do seu fumo uns olhos transparentes onde me posso e te posso olhar.

Estou aqui, estarei aqui.
Gosto muito de ti.

Parabéns flor.

~CC~

sexta-feira, setembro 24, 2010

Ausência

Quando as estrelas do mar
passavam laranjas leves doces
voando pelo azul da praia de Pemba
estavas longe e eu tinha-te

Tinham sumo os teus lábios
um doce sussurrar
que parecia um manto
que vinha levar-me os meus anjos negros

Nem te tocava
Mas a tua voz chegava
para enrolar as insónias
levá-las de mim

Esse era outro de ti
alguém que já partiu
como se alguém agora usasse o teu corpo
e a tua voz
e não és já tu

E se voltas ao teu corpo
e usas a voz que tinhas
é só por um instante
é um breve atear de sorrisos
uma chama que não se aguenta no pavio
e não consigo soprar mais
dar-lhe gás

e na tua presença
tenho saudades de ti
o amor pode assim partir
quando alguém parte de si.

arrepio-me sozinha com a palavra rapaz.

~CC~

quarta-feira, setembro 22, 2010

A loiça

Parece que foi apenas momentinhos antes de eu dar sinal de que queria pular para este lado do mundo, consta que tinha acabado de embrulhar o serviço de loiça das flores verdes e azuis estilizadas, nada que se assemelhasse aos serviços de loiça antiga, era já verdadeiramente um design anos 60, hoje meio estranho porque não é antigo nem moderno, é uma coisa assim a meio caminho.

Parece que foi o primeiro serviço de loiça completo, com pratos e pratinhos de todo o tipo, e até pires específicos para azeitonas, molheira e sopeira. Por se ter casado por procuração, isto é, está nas fotos com outro que não o seu marido, e não ter podido levar arcas de enxoval para a Índia, esta mulher foi-se desenhando diferente do que as suas origens faziam pensar. E este serviço de loiça foi das poucas coisas que viajou com ela por estes cantos do mundo onde nos fomos encostando a procurar ser família. E o serviço é como nós, já resta pouca coisa dele, apesar de pouco se ter partido, a sua resistência fez com que se encontre disseminado por muitas casas e sitios, e ainda há pouco a minha mãe encontrou uns quantos pratos na casa de uma amiga.

Todos os anos nesta data digo que vou guardar o que dele resta como memória preciosa do dia do meu nascimento. Mas depois penso que o melhor é deixá-lo por aí, porque o que dele restar já não é só o vidro de que é feito, mas a prova do tempo. Como ele, também prefiro pensar em mim como alguém que o vento levou até ao coração de algumas pessas, e que os pedaços que repousam são sementes que a seu modo próprio modo germinarão.
~CC~

terça-feira, setembro 21, 2010

Noites brancas

Penso invariavelmente nas suas noites de solidão dentro do hospital, mais ou menos iguais aos seus dias. Só me interessa que por alguns momentos dê conta de estamos ali, de que não o abandonámos. Tu não o fizeste, mesmo quando a retribuição que te deu foi pequena. O melhor de nós é superarmos o pior de nós, o escuro que se esconde cá dentro. Preciso ir, preciso estar.

O tempo está a escoar-se, a fugir-lhe. E as minhas noites ficam brancas, quase iguais aos meus dias. Às vezes parece não haver lugar onde ir buscar mais força, outras vezes pareço alimentar-me da energia da lua que teima em brilhar nestas noites em que se vai enchendo até atingir o máximo do seu esplendor. Se eu pudesse deixar tudo, acompanhá-lo.

São as trevas e a luz que dançam comigo por estes dias, uma e outra batalhando em segundos, minutos e horas para ver quem ganha.
~CC~

segunda-feira, setembro 20, 2010

Luz

Ela disse: nesta aldeia nova não podemos falar com os nossos mortos. Eles estão lá na outra, na que está debaixo de água.

E eu percebi como se estivesse dentro dela com os mesmos 80 anos e toda uma vida a morar numa aldeia alentejana. Deve haver qualquer coisa de errado comigo pois nunca sequer estive uma aldeia, um lugar, uma terra, uma festa de aldeia da qual me pudesse rir até às lágrimas. Qualquer coisa de errado, pois sei que os mortos não são mais que ossos, bocados de carne arruinada, quase pó.

Eventualmente o problema pode ter sido o de ter devorado o Meu pé de laranja lima aos dez e os Cem anos de solidão por volta dos dezassete. A minha educação afectiva foi feita à custa de formigas gigantes, famílias de sangue, árvores falantes.

Fiquei assim, a pensar que também posso falar com os mortos. A chorar as aldeias perdidas que não tive. A imaginar casas térras cheias de osgas na parede assim que o sol se põe. A imaginar que deixo uma grande e bonita azinheira como legado aos meus filhos, mesmo tendo só uma, fico a pensar que todos os outros que fui tendo também são meus. A imaginar-me em paz, rodeada por trepadeiras que cobrem de vermelho, laranja e roxo as minhas próprias paredes brancas.

~CC~

domingo, setembro 19, 2010

Domingo


Procuro por mim
É uma das minhas actividades de Domingo
~CC~

sábado, setembro 18, 2010

"Expulsão voluntária"


"Monsieur, monsieur...
Bianca, jovem cigana búlgara de pés descalços, chora e implora a um agente policial que a deixe ir buscar as sandálias à cabana. Um bulldozer está já em acção no bairro de lata de Bobigny, subúrbios de Paris. Não há tempo a perder com o calçado que a rapariga não conseguiu enfiar."
Daniel Ribeiro, Jornal Expresso, p.7 de 17 de Setembro.

Como me apatecia ficar descalça como Bianca, não para correr livre de sandálias, mas verdadeiramente para as usar como símbolo de revolta. É assim que se constrói a raiva a correr dentro do sangue, é por causa dela que se pega em pedras, em sapatos, em tudo o que esteja à mão para arremessar contra a cegueira que toma conta do poder. Depois ficamos admirados pelo ódio avançar mais depressa do que avançam as ervas daninhas nos tapetes de relva. E pelo ódio não usar os meios mais adequados para se expor, mas os menos. Como poderá não odiar uma menina expulsa de um país sem razão aparente que não seja a pobreza do seu povo? E que poderá ela fazer ao seu ódio?

Desejo que possa fazer com ele algo mais nobre, mais digno de que o devolver sob a mesma forma, mas isso é uma tarefa que muitas vezes se afigura verdadeiramente impossível. As cicatrizes até podem não doer, mas a pele, essa revela-nos todos os dias as suas marcas. Ainda lhe chamam "expulsão voluntária".
~CC~

sexta-feira, setembro 17, 2010

Descaminhos (II)

Cães que são meio gatos.
~CC~

Descaminhos

Irrompeu por ali no meio do átrio, com a seu cabelo loiro e um sorriso grande, uma rapariga bonita que já não via há uns três anos. Veio ao meu encontro com os passos certos e quando me ia dar os dois beijos comuns, agarrou-se a mim num abraço. No meio do átrio cheio de alunos trajados a rigor, assim sem vergonha, ela ex.aluna e eu sua ex.professora ficámos por um momento abraçadas, comovidas.

Perguntei-lhe pela vida, ao que ela respondeu que a vida ia bem, mas que decidira mudar de vida e estava ali para estudar outra vez. Tinha dado aulas sim, mas tinha começado a cantar à noite, e agora tinha-se tornado sério, e ia gravar um disco. Ainda pensei que vinha então estudar música, mas disse-me que não, que tinha escolhido Comunicação Social. E como eu não estava a ver relação evidente completou: é para abrir horizontes, e preciso de estar a estudar, faz-me bem. Vou gostar de a ver por cá, respondi-lhe, mais ou menos certa de que a vida é um cruzar contínuo de caminhos, muitos deles inesperados. E que ainda hei-de abrir a minha loja de mil chás.
~CC~

quinta-feira, setembro 16, 2010

Constatações

Vento do Sal. Cabo Verde. 2007


O coração é papel
rasgado, amarrotado, torcido
e ainda assim
pronto a ser alisado
ficar como novo
transformar-se em papagaio
riscar o céu

O coração é sopro de ar
fiozinho, vendaval, aragem
e ainda assim
pronto a respirar compassado
se lhe apanharem o ritmo certo
transformar-se em saxafone
arrepiar a noite

o coração não morre
só quando já morto.


~CC~

quarta-feira, setembro 15, 2010

Lugares onde ir (II)

56ª Edição
FESTIVAL DE MÉRIDA • Diocles, 1 - 06800 Mérida
Tel. 924 009 480 Info: 924 004 930
oficina@festivaldemerida.es • http://www.festivaldemerida.es/

A programação era apelativa e o lugar belissímo, há muito colocado na minha agenda. Dá-me alento saber que quando entramos no site, nos avisam que já preparam a 57ªedição. Enquanto o Outono espreita, posso assim sonhar com uma noite do próximo Verão no teatro romano de Mérida. Há sonhos mais complicados.

~CC~

terça-feira, setembro 14, 2010

Outra

Como eu gostava de ter uma carapaça onde me esconder como fazem as tartarugas quando qualquer ameaça se aproxima.

Sim, já sei. Não é um modo de um ser humano viver.

Mas precisava.

Ou então de um vento doce, que me desse vontade de ser um guarda-rios. Quem me dera andar de asas a visitar todos os rios um por um, fazer-lhes as curvas. As curvas dos rios sempre me interessaram.

Outra coisa que não pele exposta.

~CC~

segunda-feira, setembro 13, 2010

Cheiro a papel novo



Há coisas que nos tentam, por exemplo o cheiro a papel de um livro novo, pronto a sair da gráfica.

http://quetzal.blogs.sapo.pt/229382.html


Mas isso de ter que ser obrigatoriamente através do Facebook...


Fica para a próxima!


~CC~

Dos dias

Fazemos uma festa a cada dia que o calendário pessoal ou colectivo marca como de alegria. Nuns nascemos, noutros iniciámos um namoro, ou casámos, ou tivémos filhos. Já me trouxeram sempre flores nesse dias, e eu gostava. Para o colectivo é Natal, passagem de ano, Carnaval...ou simplesmente início de ano lectivo. Muitas vezes esses dias foram mesmo festa cá dentro, um riso intímo e precioso, outras só uma forma de esconder melhor a tristeza.

Mas a memória que habita cada dia triste é, até morrer apagada pelo tempo, um latejar de dor. Escondemos esses dias, até de nós. Mas um dia descobrimos que foram tão ou mais importantes que os dias felizes, que o fundo do poço tem escondida uma outra luz que somente ainda não nos é acessível.

E isto é só por ser dia 13.


~CC~

domingo, setembro 12, 2010

Mensagens na neve

O titulo do filme tem um ar banal, de policial barato: "O Caso Farewell".
E começa com um tiro afastar a quietude dos pássaros que voam sobre a neve. E assim acaba.
A história é baseada em factos e pessoas reais ocorridos no tempo da guerra fria, culturalmente interessante para a compreensão do mundo que hoje temos, que hoje somos.

Mas registo apenas:
Dois homens que se tornaram amigos e que nunca se irão trair, e o abismo estava ali, entre eles e à volta deles. Um dos homens é Russo e deixou de ser comunista, mas não é verdade, ele é, os outros é que deixaram de o ser. Está perdido no meio dos seus. E não tem outro lugar, não fugirá. A sua traição não é traição, é um tiro para fazer voar as aves da lama onde enterravam as patas.
Um dos homens é Francês, mas a sua simplicidade é tão desarmante, que em nada se assemelha à soberba com que os franceses costumam olhar o mundo. E não tem com o seu país nenhum romance, só quer criar os seus filhos em paz. Na hora certa gritará, sem medo das palavras, que o ocidente vive do marketing da palavra liberdade.

Todos procuramos amigos assim, capazes de nos fazer rir e de nos limpar as lágrimas. Não precisam de ser muitos nem de estar sempre connosco, é a confiança a base de todos os elos.

Dois homens tão improváveis bebendo conhaque para derreter a neve.

~CC~

(nas sessões da tarde de Domingo as pessoas vão sozinhas ao cinema, e são muito poucas, olham a solidão umas das outras com uma simpatia envergonhada)

A pomba da pata partida

Não era um homem conhecido pela sua bondade, e toda a vida tinha desprezado laços, ou tinha-os perdido devido ao seu mau feitio. Todos lhe conheciam essa faceta, e os mais próximos já tinham deixado de o tentar amar, em algum lugar eles sabiam que ele esconderia um gesto de desprezo.

Não era um homem mau, ninguém se queixava verdadeiramente de uma ofensa sem remédio, de um mal sem um pedido de desculpa, e era possível recordar um gesto de carinho, um braço que tinha posto sobre os ombros dos filhos, uma mão dada à mulher, umas das muitas mulheres que teve.

A ambiguidade do que se sentia por ele era tremenda, e atirava-nos a nós, mais do que a ele, para um lugar escuro, uma espécie de beco sem saída. A vontade de bater a porta e não mais voltar era grande, mas voltaríamos sempre, porque o que fazíamos já não era por ele mas por nós, para calar culpas e remorsos futuros.

Comigo tudo era pior. Em parte por causa da pomba da pata partida. A história que ele me tinha contado num daqueles dias mais dificeis, quando ainda morava naquela que tinha sido a sua casa. Um intelectual, um antigo coronel, um homem do poder, um mestre espiritual não alimenta pombas no jardim ou na praça, e por isso ele fazia-o na sua varanda. E murmurava num daqueles regressos do hospital: que será das minhas pombas...E a da pata partida, aquela que me vinha comer à mão, aquela que eu protegia, afastando todas as outras...nunca a deixavam comer. Pensei que se tratava de um delírio de doente. A compaixão era um sentimento que não lhe assentava.

Mas quando tirei tudo da casa, sem tocar na varanda horrivelmente suja das pombas, ainda olhei a ver se a via. E pensei nela, na pomba da pata partida, entregue agora a uma luta mais dura. E por causa dela, um rombo no meu coração, esse que eu julgava de todo protegido dele e do que pensara ser o seu desamor de toda uma vida.
~CC~

sábado, setembro 11, 2010

Lugares a ir (I)

"Afinal, somos filhos dos Flagelados do Vento Leste. Todos os anos morremos com as dificuldades mas ressuscitamos com os novos desafios que enfrentamos".
imagem e frase de: http://www.mindelact.com/welcome.html


Temos lugares cá dentro anos e anos a amadurecer a vontade de ir. Não são a razão para viver, mas juntam-se microscopicamente uns aos outros e pesam, correm-nos na alma como luz que nos vem aos olhos de quando em quando. Direi dos meus, não para não os esquecer, mas na esperança de que este registo seja um modo de ganhar asas.
~CC~

quinta-feira, setembro 09, 2010

Fotossíntese


Gosto dele desde Nenhum Olhar, mesmo lhe reconhecendo obras maiores e outras menores, o que só lhe fica bem, torna-o o ser humano que é. E às vezes apanho-lhe as palavras por aí.

"Amar é um esforço intelectual. E quando se ama muito e só, sem espaços de sombra, transformamo-nos num sol. As plantas vivas dependem dessa estrela para chegarem à fotossíntese. Chamem-me hippy, chamem-me o que quiserem. Em qualquer dos casos, continuarei a saber de cor a letra do Something to believe in, Ramones, 1986.
José Luís Peixoto, revista Visão, 9 de Setembro.

~CC~

quarta-feira, setembro 08, 2010

Raízes

Lembro-me de outro Setembro, oito anos antes.

Esta cidade pela primeira vez, um quarto andar sem elevador, num prédio envelhecido de casas alugadas, zona de brasileiros, de gente de leste, de pessoas sem hipótese de comprar casa. Como eu, lutando para o salário dar para o essencial. Deles pouco sei, mas eu respirava liberdade mesmo com a carteira (quase) vazia. Não tinha medo de (quase) nada, muito menos da fama de cidade violenta que esta tinha. Eu, e uma miúda de sete anos pronta a ir para uma nova escola primária.

Mas nunca pensei realmente ficar, senti-me sempre em trânsito. E tinha nascido em Luanda, por isso era Angolana, estava apenas à espera de voltar. Ou de ir para qualquer outro lugar quente, longe desta Europa sufocante que nunca tinha querido como o meu destino. E depois fui, por acaso também em Setembro, foi o meu primeiro aniversário longe da família, mas pensava eu, na minha casa verdadeira. Nada mais errado, aquele país não era o meu. Não quereria lá viver, apesar de cortarem as bananas exactamente como eu sempre as corto, sem nunca ter conseguido explicar porquê. E da cor da terra, sangue quente como nenhum outro.

Voltei ainda mais sem país do que quando parti, mas menos em trânsito, como se qualquer coisa tivesse morrido com aquela viagem, creio que uma parte dos meus sonhos africanos. Afinal, marcada a ser coisa nenhuma.

E nunca mais pensei em ir onde quer que fosse, nem em ficar aqui.

Mas ontem deram-me em segredo, baixinho, um convite. E creio que a ninguém ele podera ter comovido como aconteceu comigo. Na verdade um simples convite para a festa de aniversário de um bar/restaurante, qualquer coisa para clientes, tudo banal. Mas à saída ela sorriu e disse: quero-vos cá às duas! (pois, a miúda cresceu). Creio que só as pessoas sem raízes se comovem quando as agarram à terra, grande parte das outras até sente as raízes como uma prisão.

Mas eu pensei: se eu me dissolver, afinal darão conta disso.
~CC~

terça-feira, setembro 07, 2010

Água

Tejo (Ribatejo), Março de 2009


Em geral destesto chuva, excepto quando chega depois de muitos e muitos dias de sol.

E em Cabo Verde aprendi a ver nos rostos das pessoas a tristeza da sua ausência, a saudade com que falavam de antigos rios e ribeiras. Não consigo conceber um país de rios secos, um lugar sem água doce.

Estas gotas foram uma bela variação às lágrimas de Verão, menos salgadas e sobretudo sem peso de mágoas. Nem pareciam chegar ao chão, antes voar livres de peso.

Agora pode vir sol, ainda tenho uns banhos de rio ou de mar para tomar.

~CC~

segunda-feira, setembro 06, 2010

Para sempre


2 Setembro 2010, Vilamoura, fotos de RC

Abraços para sempre

(ou o desejo incomensurável que assim seja)
e ainda
(se existem, nada de cortar os pulsos nem saltar de janelas...)
~CC~

Nota foto 1. Nasceu prematuro com menos de um quilo, esteve duas vezes no limite da vida e venceu. É ainda frágil, mas sobretudo muito bonito, doce e curioso. Encanta-me, temos um entendimento especial, feito da quimíca das coisas simples e boas.
Nota foto 2. A mulher que abraça assim este homem também é uma sobrevivente, entre outras coisas, das desilusões do amor. Teve três fihos a assistir ao seu casamento, e esta foi a primeira vez que o fez, não é apenas coragem, é mais do que isso, é a capacidade de regenerar todas as células mortas, de limpar todas as lágrimas, de rir das cicatrizes.

Setembro

Nasci neste mês dos dias a acabar cada vez mais cedo, neste mês de queimar a terra para deixar lá outras sementes. E sou terra, essa mesma terra que morre para renascer. E eu já morri, por isso só me resta renascer.

Ter nascido neste mês deve ser uma boa razão para chorar pela última vez as coisas perdidas. E quando pensamos nas últimas lágrimas sabemos que ainda são as penúltimas, esse aproximar do fim que não é ainda totalmente fim. Como quando o dia vai acabando e não é ainda nem de noite, nem é já dia.

Esse gosto pelas imagens e palavras disseste tu, e como eu gosto de tudo o que tu dizes, gostei sempre, como um calor que se manteve anos inteiro, como se tivesse congelado. E se o descongelar, encontro intacto o teu azul. E quero-o, mesmo sem nada saber de ti.

Renascer são também as palavras, as imagens, e como posso dizê-las agora com menos sangue, volto aqui. Por pudor, não gosto de blogues manchados de sangue.


Na verdade estou ainda para nascer este mês.
~CC~

sexta-feira, setembro 03, 2010

Uma palavra

Só uma razão para interromper o silêncio de que preciso para limpar o sangue da cansaço que o consome. Pela primeira vez senti necessidade de vir aqui, a este lugar semi público, necessidade de dizer uma palavra.

Só uma palavra para dizer quanto me cala fundo a condenação que mereceram hoje os arguidos da Casa Pia. E tenho a certeza não é nenhum resquício de justiça popular que me move, não é nenhum contentamento por ver quem tem poder ser condenado, não é nada de pessoal.

Acredito nas vitímas é apenas isso, e chega-me. Ninguém inventaria uma história destas, ainda por cima a troco de nada, ainda por cima para ver a vida exposta e se sujeitar a ser tido por mentiroso.

Acredito também na denúncia como acto profundo de coragem.
~CC~

(e agora, mais um tempo de silêncio)

terça-feira, agosto 17, 2010

Já vou



FECHADO
(POR TEMPO INDETERMINADO)


(aos leitores que acompanharam este blogue um grande abraço e um muito obrigado por cada vez que deixaram um comentário)

segunda-feira, agosto 16, 2010

Fora de moda

O que parecia ser tão grande era afinal tão pequeno. O que parecia ser tão difícil de apagar, é afinal tão fácil. Uma pessoa está à mão de um clique delete para deixar de existir, é assim que se funciona no ar do tempo.

Estará para breve o fim das lágrimas como produtos da dor? Deve estar, e eu não sei.

~CC~

sábado, agosto 14, 2010

Jogos de sorte e azar

Penso em escrever
Fechado por tempo indeterminado
e assim abandonar todas as palavras
numa despedida sem compromisso

Penso em ir à tua procura
à minha procura
num lugar que já não existe
nenhum de nós existe já

O silêncio é esse sinal
de um adeus a várias dimensões
de uma partida sem retorno
depois de um tempo de encontro.

Pensamos em coisas absurdas
e mágicas
quando a tristeza nos vem dominar
nas noites de sábado

Pensamos que queremos tudo o que deixámos
e não o queremos já
Pensamos num outro futuro
mas só há vazio quando o pensamos

Pensamos em tudo o que deixamos
quando escolhemos
e que queríamos voltar atrás
escolher outra vez

Escolher outra vez
marcar outras cruzes nos quadrados
onde se escondem os trevos de quatro folhas
os luares encantados

Mas sabemos que nunca nos estará reservado o euromilhões
Que a nossa vida
Esta curta e longa vida
só tem mealheiros de bairro de feira.

~CC~

sexta-feira, agosto 13, 2010

Três peras

Comprei três peras num lugar remoto, muito bonito, junto a um rio. Um lugar onde devia talvez morar. Penso em envelhecer assim, mum lugar onde todos são já velhos também.

As três peras. Uma estava cheia de lágrimas e por isso não a pude comer. A outra estava cheia de um desespero fundo, um desamor lento, deixei-a intacta. A terceira estava vazia, oca, seca, gelada, e deitei-a fora. Ainda tentei enrolá-las nas minhas mãos, mas nada. E ainda assim, sinto as mãos a transpirar do seu odor pesado.

Ainda este Verão comprarei um pedaço de melancia, beberei do seu sumo doce à procura de força e alegria.
~CC~

terça-feira, agosto 10, 2010

A mulher sem ondas

Era uma família zangada, dos quatro apenas o rapaz, na casa dos vinte, não dizia palavra. A mulher, perto dos sessenta, parecia infeliz. Dizia para o marido: sabes quantas vezes eu vim contigo à praia? Posso contá-las pelos dedos de uma mão.

Ela nunca tinha aprendido a nadar.

E era como se dissesse que era uma mulher que toda vida tinha desconhecido o sabor salgado das ondas de espuma. E era uma mulher que dizia ter sido toda a vida, de certa forma, desconhecida do homem com quem vivia.
~CC~

domingo, agosto 08, 2010

As ondas à noite

O menino, cerca de cinco anos, seguia perto do pai, sem que sentisse necessidade de lhe dar a mão.

-Pai, é verdade que a praia está aberta de noite?
- Sim, nunca fecha.
- E há pessoas que tomam banho à noite?
- Quase nenhumas, faz frio.
- E de que cor são as ondas à noite?

Silêncio do pai
Silêncio do menino

Fico a pensar: Ali está um menino que irá gostar de poesia.

~CC~

sábado, agosto 07, 2010

Agosto (III)

A cidade, esta capital pobrezinha e sem mar, mal respira no calor. Gosto em parte dela pelos seus defeitos, é quase um Algarve interior, e há anos que parece parada, adormecida. Todos os anos junto à doca há várias feiras, chegam inevitavelmente em Agosto, numa disputa impossível de turistas com outros lugares, esses sim na ribalta.


Nunca achei a feira do livro tão pobre como este ano, meia dúzia de barracas sem brilho. Ainda me lembro há anos atrás de ficar extasiada com a presença do José Luís Peixoto, a assinar livros com aquele sorriso de miúdo reguila. Nessa altura ainda apareciam alguns escritores, havia alguma luz sobre eles, filas pequenas para autográfos, mas ainda assim algumas pessoas.

Não devia comprar mais livros por ora, não devia ler a não ser os livros cinzentos aos quais estou obrigada, presa, amarrada. Às vezes não sei como me prendi assim. Se fosse mesmo a sério isto na minha vida eu ficaria cinzenta da cor dos livros que tenho para ler.

Os olhos param na Peregrinação de Emmanuel Jhesus, há uns anos passei o Verão num monte alentejano alumiado por um gerador que se apagava cedo, e ficavámos só com as estrelas. De dia lia a Baia dos Tigres, Pedro Rosa Mendes era a minha outra companhia diurna junto ao mar agreste. Curiosamente o bar da praia chamava-se bar do tigre. Parada a olhá-lo iluminam-se os olhos, é aquela a minha cor, as cores todas de mim. Deve ser por isso que me compras o livro, que o trazemos para casa ao arrepio de tudo o que deveria ser.

~CC~

quinta-feira, agosto 05, 2010

Muros brancos



Duas mulheres, uma mais velha, outra mais nova, manhã muito cedo. Elas caiavam o muro enquanto entoavam canções, velhas canções ouvidas das suas mães. Dizem que no Alentejo as mulheres tornam as casas brancas mas não cantam. Estas cantavam e olhavam-nos de soslaio, entre o medo do desconhecido e a vontade de dois dedos de conversa. Sorrisos meios, vergonha muita.


Vindas de outro tempo estas mulheres na aldeia pacata ao pé do mar, hoje só um lugar de férias. Elas no mesmo tempo que nós, do mesmo tempo, e ainda assim noutro tempo. No minuto do sorriso iguais, eu e elas, apenas mulheres entoando, olhos postos no mar. É preciso que os muros sejam brancos, muito brancos.
~CC~

segunda-feira, agosto 02, 2010

Agosto (I)

Tantas palavras
milhares de letras em equilíbrio instável
Como te escreveste tantos anos
anos e anos a fio

Tantas palavras
Um vazio tão grande
Um amargo tão intenso

Quero ver tudo
Não quero ver nada

Um risco
Tu não existes
Mas estás aqui
Mais que nunca estás aqui.

~CC~

Agosto

O silêncio do olhar
Tanto silêncio
Como-o devagarinho à procura do que ele me diz.

~CC~

domingo, agosto 01, 2010

Belos fios

Tem um nome bonito: FIAR. Fiar, uma arte que não sendo na rua, como acontece com este festival, sai das mãos, dos longos serões dos dedos e dos fios. Assim são também estes espectáculos, começamos por ver apenas um fio, e só no fim a magia se revela inteira. A rua era o palco natural do teatro, a noite inteira e meia lua brilhante.

Do Pino do Verão, essa descida poética pela encosta do castelo, ao som da orquestra, já muito foi dito. Este ano apanhei-a quase no fim, só consegui chegar praticamente para os aplausos. Quando se vê pela primeira vez sentimos estremecer o coração, depois, mais habituado, já consegue bater só mais forte.

Mas esta noite vi duas belas peças recortadas pela noite, uma nos telhados do cine teatro (que bela ideia esta de habitar os telhados) e outra num pequeno largo, penso que de nome "passo da formiga". Das noivas trapezistas, guardei a beleza vagorosa das suas asas esbeltas, verdadeiras mulheres pássaro, aladas e guerreiras, e ainda assim tão terrenas que lutavam por um vestido branco de noiva. Dos seres cinzentos, temerosos, de rostos só com olhos (poderosas máscaras) habitando caixas frágeis, guardei-lhes o medo dos seres humanos, ao mesmo tempo que revelavam um desejo imenso pelo contacto, pela comunicação, uma vontade de cruzar a fronteira do outro. Acabaram a servir sopa quente ao público, e nunca tinha visto tantos meninos com vontade de comer sopa. Impressionantes as suas caixas móveis, mistura de abrigos de guerra, casas confortáveis, carros sem rodas, lojas ambulantes. Teatro alemão de rua.

O Verão é também isto, a noite na rua, uma outra vida a acontecer.
~CC~

quinta-feira, julho 29, 2010

Notas de memória



A diferença é que não vamos e voltamos. Assistimos ao amanhecer e ao anoitecer, avaliamos a diferença da humidade em cada crepúsculo. Temos tudo para ver. A praia está ainda deserta às oito, pouco depois chegam os homens com os cães para um passeio rápido antes da chegada das familias. Percebemos como as pessoas trazem com elas o ruído, como elas levam o silêncio. Alguns lugares são sempre ocupados primeiro, sempre em redor dos salva-vidas, à volta da sua torre de observação. Talvez a ilusão de que estarão a salvo.


Aprendo, sei coisas. Sei que a escola de Surf começa a aula sempre ao meio-dia. Sei como começa e acaba a aula, sei quem falta e quem é assíduo. Tento adivinhar em que zona irão colocar as bandeiras. Aprendo coisas. Sei a que horas será varrida a esplanada do mar, quem a varrerá, quem mais logo fechará os chapéus de sol. Sei alguns dos nomes das pessoas, algumas das suas histórias, coisas que nunca soube de outros lugares em que não permaneci.


Sei que o silêncio volta assim que o sol desaparece, e que parecemos um navio calado em pleno oceano, somos só meia dúzia de casas brancas que se fecharam como se fossem malmequeres. Faz frio à noite, há um vento gelado que a sul só só corre ali nas praias daquela costa, durmo com um cobertor em pleno Verão.


Aprendo coisas sobre os abraços da água doce com a água salgada, sobre essa diferença de densidade que antes me perturbou tanto, aprendo como podem conciliar-se sem se anular.


~CC~




segunda-feira, julho 26, 2010

Bichos e ervas do mar

Crescer verde no azul.


Deixar um infímo espaço entre uns e outros.


Agarrar muito a rocha em plena onda.


domingo, julho 25, 2010

A casa na Praia

(Julho, 2010, lugar onde desagua a ribeira dos seixos, hoje Praia de Odeceixe)


Há muito que desejava não ter entre mim e o mar mais do que meia dúzia de metros.Temos delírios maiores e outros pequenos, singelos. Eu tinha este, uma casa na praia. Adormecer com o barulho das ondas e acordar com o mesmo som, dias e dias assim, feitos da monotonia da observação das marés, actividade que pratiquei intensamente no deslumbramento do encontro entre a ribeira e o mar, esse abraço de misturar águas e trocar seres vivos.

Um desejo satisfeito não é um desejo morto, é a memória que fica de um bocado de vida que mordemos, saboreámos.
~CC~

sexta-feira, julho 16, 2010

Outra latitude


A Ardósia fica a ganhar pó, quando voltar, com os meus próprios dedos poderei riscá-la.


~CC~
Imagem retirada de : http://www.portaldoastronomo.org/tema_pag.php?id=2&pag=4

quinta-feira, julho 15, 2010

Ainda esses meninos sem mar

A menina sem banhos de mar no café da manhã, ainda ela.

E por causa dela os meus meninos sem mar de há vinte anos atrás, quando a serra de Montejunto era tão longe da linha de água salgada, a milhas do litoral. Ainda os meus meninos com olhos de terra seca, cheios de flores, mas vazios de conchas.

Os meus meninos do tempo em que eu podia dizer os meus meninos, como as professoras primárias dizem ainda, esse traço de posse do coração que atravessou dois séculos. Nunca esquecemos os nossos primeiros alunos, mas os meus, como posso esquecer os sorrisos tímidos, as vozes sumidas, os abraços fugidios. Como posso esquecer que no final dos anos 80, mais de metade nunca tivesse visto o mar. Como é o mar professora?

Se estivesse perto o mar, as ondas chegariam a ouvir-se naquela sala de aula, nunca mais, em nenhuma sala de aula de pequenos e crescidos tive um silêncio assim.

Também a menina, hoje no café, falava baixinho com a sua boneca pequenina, talvez segredando sobre conchas e marés.
~CC~

quarta-feira, julho 14, 2010

As férias grandes da menina

Se eu a pudesse pintar. Desenharia os seus sete anos cheios de tempo, saltitando com a sua boneca minúscula entre as mesas do café, sorrindo aos clientes, pedindo uma palavra, uma atenção. Sorri-lhe levemente, atrapalhada com o tempo, ela bem queria mais conversa.

Se eu pudesse desenhar. Pintaria os seus olhos pretos tão sós, adormecendo o tédio com a conversa tecida com a sua minúscula boneca, enquanto a mãe tira cafés e faz sandes, uma atenção comedida à filha que trouxe para o trabalho. Disse-lhe adeus, atrapalhada com a minha própria desatenção.

(lá longe, os banhos de mar)
~CC~

terça-feira, julho 13, 2010

Pedras

A mulher levava um saco do Pingo Doce onde ia colocando as pedras, nem mil sacos chegariam para as tirar todas da areia. Talvez as quisesse para adornar os vasos, refazer muros, enfeitar parapeitos. Talvez ela pudesse levar também o meu coração, cansado de ser liquído, está a tornar-se duro, perigosamente indiferente a tudo, da textura das pedras da praia, com o mesmo cheiro salgado dentro, mas em vez de mar, memórias de lágrimas, cansaço.

Mas ainda assim sufoca com a notícia da mulher iraniana salva do apedrejamento mas não da morte. Como podemos habitar um mundo onde as mulheres são mortas à pedrada? O coração é um aperto de mal estar. Há quem se indigne, felizmente, é o que parece restar-nos.

O coração distende-se, contudo, com as saudades do teu sorriso, da tua alegria adolescente, do teu olhar de luz. Tenho saudades, isso é ainda sinal do fluir do sangue, do seu bater de mãe.
~CC~

domingo, julho 11, 2010

Sinos de Domingo

Os sinos da Igreja tocam na praia, e em vez de se ouvir o coro, ouvem-se os gritos das crianças nas ondas. Saíram cedo porque o trânsito de Domingo a caminho do mar, é uma epopeia de paciência, um oásis da modernidade duvidosa, é a alegria ao alcance posssível de todos e também o seu contrário, um simulacro da igualdade.


Famílias inteiras em torno de um ou dois chapéus de sol, eles vão ficando por ali, estando como se não estivessem, a maior parte das vezes em pé olhando o mar, preferencialmente agrupados em pares masculinos. Elas controlam tudo, as sandes, os yougurtes, os sumos, elas dividem a comida, colocam o creme, contam o número de banhos dos meninos. A praia é ainda o prolongamento doméstico na reprodução dos papéis.

Excepção feita ao menino e à menina, cada um na sua enorme bóia preta, as bóias parecem as antigas câmaras de ar que os meninos pobres levavam à praia. Os meninos estão lado a lado, desafiam-se nos mergulhos de frente e costas, no equilíbrio em pé e de joelhos, no avançar um pouco mais no mar. O menino e a menina, dez anos, esses têm um outro Domingo só deles. E não esquecerão. Tento fechar os olhos e imaginá-los daqui a vinte anos, e desejo que não se pareçam com nada do que vemos. Fecho os olhos e penso que serão dois flamingos, roçando com o bico as penas um do outro numa carícia leve e intensa.

Não sei se fui à praia ou se tudo isto se passou no largo da Igreja.
~CC~

sábado, julho 10, 2010

Relógio interior

Nunca usei relógio, mas aprendi a viver no espartilho das horas. Nunca fui dona do meu tempo, fui escrava dele. Gastei-o intensamente a estudar e a trabalhar, a maior parte das vezes sem fazer perguntas, assim se evita a dor.

Há uns meses aprendi o que era respirar, olhar os dias como espaços em branco que podia pintar, encher. Nunca fui tão livre, tão feliz. Não devia acabar tão cedo, temo que uma vez feita esta aprendizagem da liberdade, não saiba já conformar-me a ver o relógio dos outros, não saiba já viver sob domínio.
~CC~

sexta-feira, julho 09, 2010

Segredos

É redonda e pequenina como uma concha. Guarda dentro de si um azul líquido e quente onde podemos mergulhar por muito tempo. Não está deserta como prometem os cartazes que nos mentem, mas está cheia de meninos de todas as idades, não há melhor para eles do que ondas pequeninas, e eles agradecem em festa. As pessoas falam com pronúncia da terra, são simples, não se enfeitaram para vir à praia.

Deixei o olhar lá preso nos ninhos das andorinhas escavados na rocha. E não sei se o corpo veio comigo, ou se ficou preso na água tépida.
~CC~

quinta-feira, julho 08, 2010

Coisas antigas

São raras as mulheres talhantes. Esta era alta e forte e assustava quando pegava na faca para esquartejar os pedaços mortos dos bichos. E estava estranhamente bem disposta, gracejando com o colega sobre o filho do Ronaldo.

Contava o que tinha dito ao marido. Contava ao marido que não se importaria de ser ela a barriga de aluguer do Ronaldo, mas que até o podia ser sem a mediação de tubos de laboratório e assim. Uma noite bem passada e já estava. E dava-lhe de bom grado o filho em torno de uma choruda quantia. Afinal pouco lhe custava enriquecer e fazer o homem feliz. E devia ter sido também numa transacção semelhante à que ela idealizava que a criança tinha nascido, e só tinha pena de não ser ela a anónima.

A mulher talhante, os olhos a brilharem ouro, ela deitada na beira de uma piscina, a beber caipirinhas e a comer acepipes. Ela, a contar às amigas, que antigamente as mulheres se realizavam quando eram mães, uma coisa animal entre fêmeas e crias, tretas ultrapassadas.


Ela a dizer que o marido, quando lhe falou no filho que ela teria do Ronaldo, tinha ficado estranhamente calado, pensativo.
~CC~

quarta-feira, julho 07, 2010

Mapa

Marca um lugar no mapa longe deste calor tórrido, mas ainda assim tão quente que ainda seja Verão, que nos apeteça melancia, e cerejas.

Um lugar em que ainda assim nos apeteça, longe deste corpo em estado dissolvente que torna difícil qualquer coisa apetecer. Marca no mapa um lugar em que ainda seja Verão, sem esta pressão sanguínea a latejar, sem a impossibilidade de tantas coisas por acabar. Um lugar onde nada se possa escrever, nenhuma máquina se possa ligar, nenhuma voz se possa manifestar, um lugar habitado pelo silêncio, pelos pés descalços a entrar na água escura do rio, pelo vento que faz passar rápidas as nuvens pelo céu. Um lugar cheio de raízes, e de frutos.

E lembra-te que os mapas foram feitos para nos perdermos.
~CC~

sábado, julho 03, 2010

O que sobra dos dias

A academia no seu processo de catarse, uma espécie de festa, pudesse o saber ser realmente isso, por vezes quase conseguimos. Eu, estendendo a toalha a fingir que aquela era a minha praia, e conseguindo uns bocadinhos de sol. Eu, uma metade de mim. Um sabor a alguma coisa boa, e depois logo um sabor a pouco.


A Espanha a festejar na praça com o meu nome. O Brasil a minguar até o samba se tornar fado. O Eduardo que faz toda a diferença, também por ter uma mulher atleta em vez de uma barbie.

O teu sorriso à minha espera, essa bondade que tardou tanto a aparecer no teu olhar e agora me comove. As árvores do anfiteatro da Gulbenkian cheias do vento da noite, os olhos a fecharem-se no meu cansaço, a voz da Lula Pena feita um lugar quente.

Ela grande, a passar-me em altura, a chamar-me, a inquietar-me, ela a crescer, mais em alegria do que em dor, ela a levar-me tanto do meu coração.

Os sinais cifrados de alguma coisa que não sei, da qual nunca tenho a certeza. A vida, sempre este mistério, esta incerteza, estas pessoas no limbo de existirem ou desparecerem das nossas vidas.

A vida, essa lugar onde algumas pessoas estão mesmo ao nosso lado.

~CC~

quarta-feira, junho 30, 2010

Vinte anos

Nunca mais o Verão será assim, enterrar os pés no lodo dos açudes, afastar os alfaiates para o mergulho. Nunca mais entrarei num campo de milho sem saber o que há do outro lado.

Nunca mais terei vinte anos, essa ousadia.

~CC~

terça-feira, junho 29, 2010

Meio coração e mais um bocadinho

Penso em mim como tendo metade do coração brasileiro e a outra metade africano. É assim quando se nasce em Luanda, e se tem (ou teve) meia família no Brasil. Acresce o fascínio pela terra vermelha que só África tem, e por esse falar cantado que inventou mais bela a Língua Portuguesa.

E depois penso que não pode ser, afinal sou portuguesa, então escolho um lugar em Portugal, Luzianes, por exemplo, e penso que também lhe pertenço. Nunca estive em Luzianes, mas o nome diz tudo de um lugar que fica no fim do Alentejo e no início do Algarve, um lugar que se divide em dois: aldeia e gare. Tenho que ter a gare, por causa das muitas partidas que teria que fazer da aldeia. E teria que ter a aldeia, por causa da luz, essa que o sul deita a cada crepúsculo de Verão. Mas sinceramente não sei se vou a tempo de pertencer a Luzianes, porque não sei se ainda sei pertencer.
~CC~

segunda-feira, junho 28, 2010

Mistérios literários

Leio Roberto Bolaño muito depressa, verdadeiramente presa do enredo que ele arquitecta, ansiosa pelo fim, por saber. Mas não gosto verdadeiramente da prosa dele, quando o acabo de ler, não sobra nada. E, no entanto, como ele vende, como ele apaixona tanta gente. Talvez ele retrate como ninguém a angústia de um tempo sem nexo, a ruptura com todas as crenças, toda a esperança. Ainda assim, preciso de o ler mais.

Leio Le Clézio muito devagar, as suas histórias são longos poemas em prosa, volto atrás imensas vezes por causa das palavras dispostas como pinturas, por causa dos rostos que quero ver. Vou e volto sem necessidade de acabar o livro, nunca me questiono sobre o fim, as histórias dele não têm verdadeiramente fim. Clézio ganhou o Nobel (em 2008), mas não vende, acho que nunca poderá vender. Gosto muito dele, excepção a um livro sobre a doença e a loucura que não consegui acabar. Clézio está fora de tudo com o seu sorriso de gigante bondoso, a sua antropologia é uma quimera de afectos em busca de um homem diferente, é um crente sem crença nem religião.

Talvez seja a esperança a aproximar-me de um, e o desespero a afastar-me do outro.
~CC~

domingo, junho 27, 2010

Somos nós(III)

Ele pensa nos filhos outra vez em casa. A rapariga com o estúdio à venda e ninguém a aparecer para o comprar. O rapaz regressado dos seis meses a mais do Erasmus, quando nada nem ninguém podia sustentar o sonho da morada além país pequeno e periférico. Lembra-se dos conflitos deles quando eram pequenos e moravam no mesmo quarto, ainda assim tinham uma alegria que em nada se compara ao silêncio do fracasso que agora partilham.

A casa tornou-se anormalmente pequena e ninguém sorri quando o dia começa, ninguém tem pressa. Deixam-se estar por ali, rapaz e rapariga num desespero sem gritos. É como se fosse sempre Domingo, mas quando ele é apenas um dia da semana o arrastar lento das horas é doce, enquanto quando todos os dias se tornam Domingo isso é um sufoco, um peso.

O homem, o pai, saiu um dia como quem não volta. E todos pensaram o mesmo quando não deu notícias um, dois, três dias. Mas o homem tinha ido apenas junto ao rio da sua terra perguntar às marés pela vida. E as marés embalaram-no. Os pais, ainda vivos, continuavam a deitar as sementes à terra. E ele deixou-se ficar ali, a ver o que delas nascia.

A rapariga foi à procura do pai e encontrou-o e deixou-se ficar ali também. E depois o rapaz. E depois a mulher. Os avós estavam velhos, deitavam as sementes à terra muito devagar, eles podiam fazê-lo mais depressa, com mais energia. E foi o primeiro Verão que colheram juntos as melancias. Eram doces, frescas, saborosas. Eram vermelhas como corações salvos. Ninguém poderia saber quanto tempo ficariam assim em paz.

~CC~
(fim)

sábado, junho 26, 2010

Portas que abrem paredes

Festival MED 2010
(duas das muitas portas de autor)
É isto, as voltas trocadas às coisas. Fazer do velho novo, e ainda assim outra coisa. Pendurar portas nas paredes e abri-las como outros lugares para os quais podemos entrar. Poderia ser reciclar, mas é já mais, é reiventar os sentidos das coisas, atirar-se à monotonia com tintas, fios de cordel, pedaços de arame usado. De alguma forma quererei também inventar portas em paredes, portas que possam abrir paredes.
~CC~

quinta-feira, junho 24, 2010

Anti depressivo

(Cáceres, 2010)

Sim, claro. Estou a tentar, com o corpo todo e a matéria inconsistente que vive lá dentro.
~CC~

quarta-feira, junho 23, 2010

Mediterrâneo


É um mar interior soprado pelas brisas dos séculos, carregado de imagens de homens e mulheres sem história, que fizeram história. Gostaria de atravessá-lo um dia com a lentidão própria de quem lhe bebe o azul gota a gota. Gostaria, porque sou feita de desejos impossíveis. Mas como há em cada impossibilididade uma possibilidade, guardei alguns crepúsculos que depressa se tornarão luar, para passar em Loulé, no Festival MED. Nada, nem ninguém me paga a publicidade, a não ser a vontade de partilhar o quanto os cinco sentidos se preenchem num instantinho.


~CC~

Foto retirada de: http://4.bp.blogspot.com/_pzZKTpmIGhA/TCHMDz5laYI/AAAAAAAABL0/lBBGQ4NRpSs/s1600/mar.jpg

terça-feira, junho 22, 2010

Responder

Elas calavam-se, elas aceitavam.

Foi no inicio da Primavera, quando metade do guarda roupa se assemelha a lixo, e dá vontade de não vestir nada do ano anterior. Não é que não nos sirva, nós é que já não servimos naquelas coisas. Era manhã cedo, é só nessa altura que aguento entrar nas lojas, estão quase vazias. Naquela, contudo, já havia conversa matinal, era uma mulher na casa dos cinquenta, à procura de um novo biquini para o Verão.

O meu marido um dia disse-me: tens barriga, já não devias usar biquini!
E eu respondi: e tu, o que vais vestir? O que vais fazer com a tua?!

Não pude deixar de me rir, de entrar na conversa. Nenhuma de nós trouxe o biquini, mas cada uma trouxe um vestido, o meu é aliás uma explosão pouco habitual de cores. Quando o visto lembro-me dela, daquele riso franco e resposta pronta. Aquelas cores são mais dela do que minhas, mas ainda assim sinto-as nossas, sinto-me Primavera nelas.

Elas respondem aos maridos, dizem-lhes as verdades, elas já não se calam.

~CC~

sexta-feira, junho 18, 2010

Atlântico

Viajou, pensava eu,

e via Lanzarote num mar doce

mas era só eu a viajar pelo mar interior do Mediterrâneo

este mar que ele haveria também de amar, por causa das pedras, das oliveiras, da pobreza nobre destes rostos de olhos negros

afinal ele partiu do Atlântico

e está certo também

por a ilha ser um retalho de pedaços do seu mundo

por esse ser o mar de todas as partidas, aparentemente frio como ele

mas luzindo em conchas e em peixes

voou uma estrela planetária

de raiz ribatejana

segurem as lágrimas

sejam comedidos com as bandeiras

pensem em papoilas.

~CC~


(estive várias vezes prestes a vomitar ao ler o Ensaio sobre a Cegueira, e senti-me muito mal a ver o filme, creio que nenhuma obra me fez sofrer tanto, por ver nela um fiel retrato dos nossos mais íntimos males como seres humanos).

~CC~

quinta-feira, junho 17, 2010

Dos silêncios

Mudas dentro dos lábios, secas no papel, as perguntas que ficaram por fazer.


Presos de silêncio os ouvidos, no écran vazio do portátil, eternamente à espera das perguntas feitas que nunca obtiveram resposta, mesmo as mais triviais.


A vida é um tecido destes silêncios, alguns trazem dor. Depois esquecemos, ou tentamos.


~CC~

Espelho

Já quase não me vejo ao espelho. Umas vezes por causa da tristeza, não a quero devolvida. Outras vezes por causa da indignação, pode regressar a mim em dobro. E há ainda a questão da beleza, um problema nunca resolvido de auto estima. Fico-me pelo espelho de alguns olhos, de preferência aqueles que me dão o que preciso, mais que não seja, um certo jeito de sorrir.
~CC~

quarta-feira, junho 16, 2010

Somos nós (II)

O que ele não sabia era que ela rondava outra vez o lago, como quando tinha 18 anos. Mas não levava pão na mala, só desespero. E esse não alimentava os cisnes pretos. E continuava a não saber nadar, nunca aprendera.

O que ela não sabia era que ele tomava aqueles comprimidos redondos e pequeninos para dormir. Não sabia que ele já não passava sem eles.

Ambos sabiam o que os entristecia, mas a tristeza tornava-os mudos. Cada um conjecturava soluções para a conta a zero no banco. Ela tinha pena de nunca ter querido o ouro que ele lhe queria dar pelos anos, agora sempre o tinha. Ele tinha pena de nunca ter aceite os relógios que o avô lhe queria deixar em herança, agora talvez pudessem valer-lhe.

Nenhum pensava em dizer nada às respectivas famílias, seria uma vergonha.
~CC~

segunda-feira, junho 14, 2010

Somos nós (I)

Ele tinha feito 18, ela 22. Tinham deixado o quarto vazio, no quadro de cortiça ainda estavam os pequenos buraquinhos dos pioneses que seguravam as fotos. Apesar do Hi5, do Facebook, dos murais digitais que eles também tinham, onde se escondiam horas a fio, nenhum deles se sentava na sala a ver televisão, e as novelas eram definitivamente pimbas. Talvez apenas a cortiça das fotos, apenas ela traçava a linha entre as suas adolescências.

Ele tinha 22, ela 18. Ela passava todos os dias às 18h junto ao lago dos cisnes pretos. Naquele lago não havia cisnes brancos. Ela parava a dar-lhes pequenos pedaços de pão que trazia dentro da mala. Os cisnes não se aproximavam muito, eram desconfiados. Ela nunca dava pão aos pombos, só aos cisnes pretos. Às vezes debruçava-se um pouco no varandim do lago, como se fosse saltar para nadar com os cisnes. E ele espreitava o decote, e ao mesmo tempo vigiava-a, não fosse ela saltar de verdade. Tinha sido há tanto tempo, na verdade só restavam sombras. Ele já não a via a cores, nem à vida.

A folha de excel das contas do mês, tinha passado a fazê-la meticulamente, e por causa dela os quadradinhos não lhe saiam da cabeça. E por causa desses quadradinhos tinha começado a tomá-los, pequeninos, redondos, uma coisa que nunca pensou fazer, ser. As noites eram pesadas quando se tomava comprimidos para dormir, e de manhã não havia sonhos para recordar. A cabeça tinha só peso, como se estivesse cheia de serradura.

Não se lembrava, como é possível que não recordemos os momentos em que fomos felizes?!
~CC~

domingo, junho 13, 2010

Somos nós

Primeiro foi o apartamento, porque comprar seria sempre melhor do que arrendar. E sempre o deixavam aos filhos. Não pensaram que os filhos seriam adultos antes que eles se libertassem dessa casa, muito menos que os filhos não quereriam esse T2 suburbano. Não pensaram que deveriam toda a vida, anos e anos de hipoteca ao banco, muito provavelmente até ao fim da vida, isto se a doença não visse obrigá-los a uma dor e a um sufoco não previstos.

E quando a filha pediu ajuda para a compra do estúdio mais central, bem perto da faculdade, ainda se dispuseram a mais essa ajuda, não só foram fiadores como se comprometeram com uma mesada mais alta. O resto seria ela a pagar com o que ganhava ao fim de semana no Call Center. O mais novo só falava em ir para o estrangeiro, porque estava farto de um país que não prestava. E não pensava propriamente na apanha do tomate nem em servir às mesas, mas sim em programas tipo Erasmus, a sua estadia não seria integralmente coberta pelo programa, e a mesada teria que ser aumentada, tudo em prol de não gorar as expectativas do rapaz.

Sabiam que os seus ordenados não esticariam até cobrir todas as novas despesas, mas achavam-se capazes de milagres. E nunca diziam não, presos da crença de que tudo seria possível. Os empregos pareciam estavéis, nenhum deles estava doente, os miúdos queriam ir longe. Eram mais que legítimas as suas expectativas num mundo em que ter expectativas era o contrário de ser nada, ser ninguém.

~CC~
(continua)

sexta-feira, junho 11, 2010

Cinzentos

É certamente a chuva que me faz pensar em despedidas, como se o Verão estivesse já a morrer(me). É certamente o mundo a reduzir-se a uma janela só, a um tempo em que o essencial é tão pouco que lhe podia chamar ar. É certamente o futuro que não quer vir visitar-me, como se não pudesse ver nada além de um horizonte curto, tão curto.

A angústia costuma ser um estado breve, sempre possivel de atenuar com um banho de mar e cerejas doces.

~CC~

quinta-feira, junho 10, 2010

Diário a cores (XII)

Diálogo vermelho-amarelo
(Benguela, 2007)

~CC~

quarta-feira, junho 09, 2010

Enfermaria

Adoecem os homens velhos
os meninos
e os de meia idade

os homens doentes têm olhos líquidos
dolorosos e sem cor
e um absoluto desejo de colo

Os homens velhos doentes
são meninos
e os meninos são velhos

os homens doentes têm o corpo tenso
sofreguidão de abraços
estão fragéis e despidos

os homens doentes de meia idade
são meninos
e já são velhos

embrulho-os em céu de seda
enrolo-os em perfume jasmim
dou-lhes colo doce
busco-me, estou, sou.

~CC~

terça-feira, junho 08, 2010

Manhã

Nunca pensei que manhã tão cedo, mal abrem as portas, já o supermercado se enchesse de gente. Acordam cedo os velhos, os drogados, as mulheres sós e tristes. Levam muito tempo nas prateleiras, olham, mexem, e tornam a poisar as coisas. Escolhem uma, duas, três coisas, e poucos deles levam mais do que isso. Pão, quase todos levam pão, e também bolos baratos. Este desfile de gente pobre e triste na avenida mais bonita desta cidade devia ser filmada, mostrada, enfiada olhos dentro de todos os que não querem ou não podem ver.

Mas não é ainda o suficiente da minha dose diária de dor. Mais à frente vejo-a. É uma rapariga bonita e isso é a primeira coisa que me faz reparar nela, só depois vejo quem é. Foi minha aluna, foi uma das minhas melhores alunas, ao contrário de tantas outras ela escrevia bem, e gostava de pensar. Lembro-me que uma vez abandonou um estágio num centro de dia para idosos porque não gostava de ver os idosos tratados como crianças: davam-lhes figuras para pintar! Gosto de pessoas que são capazes de se revoltar, de dizer não. Reparo no cuidado e profissionalismo como tira as etiquetas dos preços e as substitui, é ainda a mesma pessoa nesse cuidado. Resta-me pensar que talvez este lugar seja ponte, passagem para outra coisa que ela deseje, e sei deseja por causa dos seus olhos baços, enfiados no chão. Apetecia-me dizer-lhe que aquilo que faz nada tem de vergonhoso, mas creio que me vê e desvia o olhar.

Mais adiante cruzo-me com o cartaz do festival de cinema* e a dor atenua-se perante tanta resistência, tanta capacidade para levar por diante uma ideia, um projecto.

Há muito que o sabor amargo-doce se tornou o modo de bater oscilante do meu coração.


~CC~

*http://www.festroia.pt/

segunda-feira, junho 07, 2010

A coisa mais bela

Na varanda da frente os gritos da criança pequena. Assusto-me, nunca consigo ouvir crianças chorar ou gritar. Mas afinal é uma menina, tem cerca de três anos, e está alegre, corre atrás das bolas de sabão para cá e para lá. O pai atira-as ao ar silenciosamente, pacientemente, docemente. Desfrutam em estreita cumplicidade o tempo de um final de tarde. Não há mais ninguém, só existem os dois.

Este pai, esta filha, o tempo deles. Ela lembrará este pai que lhe atira bolas de sabão para que ela as possa rebentar com o seu polegar pequenino. E irá lembrar-se como cansada de as desfazer, resolveu dançar no meio delas. Talvez ela comece ali, naquela dança. E o pai guardará esta menina nas suas pupilas dilatadas, nessas lágrimas que se desfizeram num meio sorriso.

A coisa mais bela dos homens, a sua maior conquista, este modo de serem agora pais.
~CC~

quarta-feira, junho 02, 2010

Identidade flor

A reunião importante em Lisboa, quantas vezes subi a rua, o elevador, não sei se parei sempre no mesmo andar. Houve outros anos, outras reuniões, outras pessoas em cargos importantes. Talvez tudo tenha mudado, eu não. Talvez não seja bem assim, talvez antes eu não tivesse tanta consciência da importância das coisas, ou da sua falta de importância.

E agora sei, sei da importância do tapete lilás das flores dos jacarandás que cobre os passeios da Avenida, do modo como me comove e entorpece o seu cheiro suave e adocicado. Agora não me lembro bem da agenda, nem se é importante o que vou fazer, é dúvida que me assalta, onde antes havia convicção. Agora situo-me no mundo como estas flores, da mesma matéria que elas. Agora entendo o silêncio como uma linguagem sem palavras que eu não sei decifrar e esforço-me por aprender a língua das pétalas, a da pele.

Uma e outra vez apresento o cartão do cidadão (oh, sim, isto mudou) para que me possam prender se enlouquecer no edifício. A identidade, digo eu, não podem deixá-la de fora, tenho de a colocar dentro desta grelha que construímos, sem o seu suor não há construções verdadeiras. Mas ela não cabe, eu não caibo. Mas já não me importo verdadeiramente.

Só a seiva faz bater o coração, mesmo quando ela não é mais do que um leve e indeciso tremor que corta os dias. Só a pele na pele é dia.
~CC~

terça-feira, junho 01, 2010

Marcas

Durante muitos dias as flores
flores sempre brancas
pousadas no marco de ferro da rua

Todas as sextas a mulher
as flores brancas
a dor do seu menino perdido

Talvez um menino
que só queria atravessar a passadeira
todas as sextas

Era uma mulher ainda nova
andaria pelos quarenta
mãe de um menino, talvez um rapaz

Um rapaz de olhos pretos luz
que só queria voar mais e mais
veloz na sua mota

Nunca te darei uma mota
apenas estas havaianas amarelas
terás que voar com elas.

~CC~

Diário a Cores (XI)

Diálogos verde-azul-vermelho
(Cabo Verde, Ilha de S. Nicolau, 2007)


domingo, maio 30, 2010

vinte e cinco

Esperou 25 anos para mergulhar no segredo dos olhos dela, e chamou a isso uma não vida. Ambos casaram, ela teve filhos. Que chamaremos a essa parte da sua vida. Um longo intervalo. Um vazio. Uma espera. Ou antes uma séria tentativa de se esquecerem, de outros mergulhos. Ela ficou nos olhos dele a despedir-se na estação de comboio, a despedir-se. Mas ele nunca se despediu dela, em vez disso, lembrou-a todos os dias. É sempre assim quando queremos esquecer.

Mataram a mulher dele, nesse mesmo dia em que ela trazia a camisa às flores, e lhe tinha feito um chá de limão, doces os seus olhos. E ele também não pode esquecer, também levou 25 anos a lembrá-la. São estes os dois homens, os dois mergulhados, imersos nos olhos das suas mulheres. E tudo isto se passa num dos países mais belos do mundo, mais tristes, essa Argentina que canta a sua dor e a dança ao mesmo tempo. É um canto que abafa.

E depois de 25 anos sabemos que quando a imagem da porta se fecha diante de nós, há mergulhos de olhos nos olhos que esperaram por ser uma vida. E lábios, pensamos nos lábios deles, toda uma vida a começar.

~CC~
(Belo, muito belo o filme " O segredo dos seus olhos").

Diário a cores (X)

BRANCO

(Primavera a caminho de T-O-M, há um ano atrás)
~CC~

sexta-feira, maio 28, 2010

Conto infantil

Pemba, Moçambique, 2007


Ia à procura da concha lilás, só a vira uma vez na praia, mas teimara em fugir debaixo dos pés, a onda tinha sido mais forte. Mesmo dentro de água tinha retido o brilho da sua cor. Não há conchas lilazes, repetiu para si uma e outra vez. A praia nunca existiu. Eu não estou à procura de uma concha. Eu nunca apanho conchas na praia.

E nas noites de insónia aparecia a concha, tinha deixado o mar e tinha-se tornado um passarinho, cantava com canto lilás. Espera por mim, vou voar contigo. Mas ele ria-se dela e das suas asas cortadas. Espera por mim, quero ir contigo. Mas ele não esperava, não tinha esperado. Vou agarrá-lo, dar-lhe migalhas, e quando ele as vier comer, vou prendê-lo a mim.

E então viu com clareza a estrela do mar laranja, absolutamente linda, nadando e ondulando a 10 cm dela em pleno azul, aquele azul transparente da praia de Pemba. Um simples movimento de mão e teria apanhado uma estrela do mar, uma linda estrela do mar laranja. E ficou a vê-la afastar-se, incapaz de lhe tirar a vida para a guardar depois seca e morta num apartamento do ocidente.

O seu destino não era ter. As conchas na areia, o pássaro no céu, a estrela no mar. Para ela ficava apenas o brilho, o brilho retido e apertado, um estremecer laranja-lilás bem misturado no seu sangue circulante.

~CC~