quinta-feira, setembro 16, 2010

Constatações

Vento do Sal. Cabo Verde. 2007


O coração é papel
rasgado, amarrotado, torcido
e ainda assim
pronto a ser alisado
ficar como novo
transformar-se em papagaio
riscar o céu

O coração é sopro de ar
fiozinho, vendaval, aragem
e ainda assim
pronto a respirar compassado
se lhe apanharem o ritmo certo
transformar-se em saxafone
arrepiar a noite

o coração não morre
só quando já morto.


~CC~

quarta-feira, setembro 15, 2010

Lugares onde ir (II)

56ª Edição
FESTIVAL DE MÉRIDA • Diocles, 1 - 06800 Mérida
Tel. 924 009 480 Info: 924 004 930
oficina@festivaldemerida.es • http://www.festivaldemerida.es/

A programação era apelativa e o lugar belissímo, há muito colocado na minha agenda. Dá-me alento saber que quando entramos no site, nos avisam que já preparam a 57ªedição. Enquanto o Outono espreita, posso assim sonhar com uma noite do próximo Verão no teatro romano de Mérida. Há sonhos mais complicados.

~CC~

terça-feira, setembro 14, 2010

Outra

Como eu gostava de ter uma carapaça onde me esconder como fazem as tartarugas quando qualquer ameaça se aproxima.

Sim, já sei. Não é um modo de um ser humano viver.

Mas precisava.

Ou então de um vento doce, que me desse vontade de ser um guarda-rios. Quem me dera andar de asas a visitar todos os rios um por um, fazer-lhes as curvas. As curvas dos rios sempre me interessaram.

Outra coisa que não pele exposta.

~CC~

segunda-feira, setembro 13, 2010

Cheiro a papel novo



Há coisas que nos tentam, por exemplo o cheiro a papel de um livro novo, pronto a sair da gráfica.

http://quetzal.blogs.sapo.pt/229382.html


Mas isso de ter que ser obrigatoriamente através do Facebook...


Fica para a próxima!


~CC~

Dos dias

Fazemos uma festa a cada dia que o calendário pessoal ou colectivo marca como de alegria. Nuns nascemos, noutros iniciámos um namoro, ou casámos, ou tivémos filhos. Já me trouxeram sempre flores nesse dias, e eu gostava. Para o colectivo é Natal, passagem de ano, Carnaval...ou simplesmente início de ano lectivo. Muitas vezes esses dias foram mesmo festa cá dentro, um riso intímo e precioso, outras só uma forma de esconder melhor a tristeza.

Mas a memória que habita cada dia triste é, até morrer apagada pelo tempo, um latejar de dor. Escondemos esses dias, até de nós. Mas um dia descobrimos que foram tão ou mais importantes que os dias felizes, que o fundo do poço tem escondida uma outra luz que somente ainda não nos é acessível.

E isto é só por ser dia 13.


~CC~

domingo, setembro 12, 2010

Mensagens na neve

O titulo do filme tem um ar banal, de policial barato: "O Caso Farewell".
E começa com um tiro afastar a quietude dos pássaros que voam sobre a neve. E assim acaba.
A história é baseada em factos e pessoas reais ocorridos no tempo da guerra fria, culturalmente interessante para a compreensão do mundo que hoje temos, que hoje somos.

Mas registo apenas:
Dois homens que se tornaram amigos e que nunca se irão trair, e o abismo estava ali, entre eles e à volta deles. Um dos homens é Russo e deixou de ser comunista, mas não é verdade, ele é, os outros é que deixaram de o ser. Está perdido no meio dos seus. E não tem outro lugar, não fugirá. A sua traição não é traição, é um tiro para fazer voar as aves da lama onde enterravam as patas.
Um dos homens é Francês, mas a sua simplicidade é tão desarmante, que em nada se assemelha à soberba com que os franceses costumam olhar o mundo. E não tem com o seu país nenhum romance, só quer criar os seus filhos em paz. Na hora certa gritará, sem medo das palavras, que o ocidente vive do marketing da palavra liberdade.

Todos procuramos amigos assim, capazes de nos fazer rir e de nos limpar as lágrimas. Não precisam de ser muitos nem de estar sempre connosco, é a confiança a base de todos os elos.

Dois homens tão improváveis bebendo conhaque para derreter a neve.

~CC~

(nas sessões da tarde de Domingo as pessoas vão sozinhas ao cinema, e são muito poucas, olham a solidão umas das outras com uma simpatia envergonhada)

A pomba da pata partida

Não era um homem conhecido pela sua bondade, e toda a vida tinha desprezado laços, ou tinha-os perdido devido ao seu mau feitio. Todos lhe conheciam essa faceta, e os mais próximos já tinham deixado de o tentar amar, em algum lugar eles sabiam que ele esconderia um gesto de desprezo.

Não era um homem mau, ninguém se queixava verdadeiramente de uma ofensa sem remédio, de um mal sem um pedido de desculpa, e era possível recordar um gesto de carinho, um braço que tinha posto sobre os ombros dos filhos, uma mão dada à mulher, umas das muitas mulheres que teve.

A ambiguidade do que se sentia por ele era tremenda, e atirava-nos a nós, mais do que a ele, para um lugar escuro, uma espécie de beco sem saída. A vontade de bater a porta e não mais voltar era grande, mas voltaríamos sempre, porque o que fazíamos já não era por ele mas por nós, para calar culpas e remorsos futuros.

Comigo tudo era pior. Em parte por causa da pomba da pata partida. A história que ele me tinha contado num daqueles dias mais dificeis, quando ainda morava naquela que tinha sido a sua casa. Um intelectual, um antigo coronel, um homem do poder, um mestre espiritual não alimenta pombas no jardim ou na praça, e por isso ele fazia-o na sua varanda. E murmurava num daqueles regressos do hospital: que será das minhas pombas...E a da pata partida, aquela que me vinha comer à mão, aquela que eu protegia, afastando todas as outras...nunca a deixavam comer. Pensei que se tratava de um delírio de doente. A compaixão era um sentimento que não lhe assentava.

Mas quando tirei tudo da casa, sem tocar na varanda horrivelmente suja das pombas, ainda olhei a ver se a via. E pensei nela, na pomba da pata partida, entregue agora a uma luta mais dura. E por causa dela, um rombo no meu coração, esse que eu julgava de todo protegido dele e do que pensara ser o seu desamor de toda uma vida.
~CC~

sábado, setembro 11, 2010

Lugares a ir (I)

"Afinal, somos filhos dos Flagelados do Vento Leste. Todos os anos morremos com as dificuldades mas ressuscitamos com os novos desafios que enfrentamos".
imagem e frase de: http://www.mindelact.com/welcome.html


Temos lugares cá dentro anos e anos a amadurecer a vontade de ir. Não são a razão para viver, mas juntam-se microscopicamente uns aos outros e pesam, correm-nos na alma como luz que nos vem aos olhos de quando em quando. Direi dos meus, não para não os esquecer, mas na esperança de que este registo seja um modo de ganhar asas.
~CC~

quinta-feira, setembro 09, 2010

Fotossíntese


Gosto dele desde Nenhum Olhar, mesmo lhe reconhecendo obras maiores e outras menores, o que só lhe fica bem, torna-o o ser humano que é. E às vezes apanho-lhe as palavras por aí.

"Amar é um esforço intelectual. E quando se ama muito e só, sem espaços de sombra, transformamo-nos num sol. As plantas vivas dependem dessa estrela para chegarem à fotossíntese. Chamem-me hippy, chamem-me o que quiserem. Em qualquer dos casos, continuarei a saber de cor a letra do Something to believe in, Ramones, 1986.
José Luís Peixoto, revista Visão, 9 de Setembro.

~CC~

quarta-feira, setembro 08, 2010

Raízes

Lembro-me de outro Setembro, oito anos antes.

Esta cidade pela primeira vez, um quarto andar sem elevador, num prédio envelhecido de casas alugadas, zona de brasileiros, de gente de leste, de pessoas sem hipótese de comprar casa. Como eu, lutando para o salário dar para o essencial. Deles pouco sei, mas eu respirava liberdade mesmo com a carteira (quase) vazia. Não tinha medo de (quase) nada, muito menos da fama de cidade violenta que esta tinha. Eu, e uma miúda de sete anos pronta a ir para uma nova escola primária.

Mas nunca pensei realmente ficar, senti-me sempre em trânsito. E tinha nascido em Luanda, por isso era Angolana, estava apenas à espera de voltar. Ou de ir para qualquer outro lugar quente, longe desta Europa sufocante que nunca tinha querido como o meu destino. E depois fui, por acaso também em Setembro, foi o meu primeiro aniversário longe da família, mas pensava eu, na minha casa verdadeira. Nada mais errado, aquele país não era o meu. Não quereria lá viver, apesar de cortarem as bananas exactamente como eu sempre as corto, sem nunca ter conseguido explicar porquê. E da cor da terra, sangue quente como nenhum outro.

Voltei ainda mais sem país do que quando parti, mas menos em trânsito, como se qualquer coisa tivesse morrido com aquela viagem, creio que uma parte dos meus sonhos africanos. Afinal, marcada a ser coisa nenhuma.

E nunca mais pensei em ir onde quer que fosse, nem em ficar aqui.

Mas ontem deram-me em segredo, baixinho, um convite. E creio que a ninguém ele podera ter comovido como aconteceu comigo. Na verdade um simples convite para a festa de aniversário de um bar/restaurante, qualquer coisa para clientes, tudo banal. Mas à saída ela sorriu e disse: quero-vos cá às duas! (pois, a miúda cresceu). Creio que só as pessoas sem raízes se comovem quando as agarram à terra, grande parte das outras até sente as raízes como uma prisão.

Mas eu pensei: se eu me dissolver, afinal darão conta disso.
~CC~

terça-feira, setembro 07, 2010

Água

Tejo (Ribatejo), Março de 2009


Em geral destesto chuva, excepto quando chega depois de muitos e muitos dias de sol.

E em Cabo Verde aprendi a ver nos rostos das pessoas a tristeza da sua ausência, a saudade com que falavam de antigos rios e ribeiras. Não consigo conceber um país de rios secos, um lugar sem água doce.

Estas gotas foram uma bela variação às lágrimas de Verão, menos salgadas e sobretudo sem peso de mágoas. Nem pareciam chegar ao chão, antes voar livres de peso.

Agora pode vir sol, ainda tenho uns banhos de rio ou de mar para tomar.

~CC~

segunda-feira, setembro 06, 2010

Para sempre


2 Setembro 2010, Vilamoura, fotos de RC

Abraços para sempre

(ou o desejo incomensurável que assim seja)
e ainda
(se existem, nada de cortar os pulsos nem saltar de janelas...)
~CC~

Nota foto 1. Nasceu prematuro com menos de um quilo, esteve duas vezes no limite da vida e venceu. É ainda frágil, mas sobretudo muito bonito, doce e curioso. Encanta-me, temos um entendimento especial, feito da quimíca das coisas simples e boas.
Nota foto 2. A mulher que abraça assim este homem também é uma sobrevivente, entre outras coisas, das desilusões do amor. Teve três fihos a assistir ao seu casamento, e esta foi a primeira vez que o fez, não é apenas coragem, é mais do que isso, é a capacidade de regenerar todas as células mortas, de limpar todas as lágrimas, de rir das cicatrizes.

Setembro

Nasci neste mês dos dias a acabar cada vez mais cedo, neste mês de queimar a terra para deixar lá outras sementes. E sou terra, essa mesma terra que morre para renascer. E eu já morri, por isso só me resta renascer.

Ter nascido neste mês deve ser uma boa razão para chorar pela última vez as coisas perdidas. E quando pensamos nas últimas lágrimas sabemos que ainda são as penúltimas, esse aproximar do fim que não é ainda totalmente fim. Como quando o dia vai acabando e não é ainda nem de noite, nem é já dia.

Esse gosto pelas imagens e palavras disseste tu, e como eu gosto de tudo o que tu dizes, gostei sempre, como um calor que se manteve anos inteiro, como se tivesse congelado. E se o descongelar, encontro intacto o teu azul. E quero-o, mesmo sem nada saber de ti.

Renascer são também as palavras, as imagens, e como posso dizê-las agora com menos sangue, volto aqui. Por pudor, não gosto de blogues manchados de sangue.


Na verdade estou ainda para nascer este mês.
~CC~

sexta-feira, setembro 03, 2010

Uma palavra

Só uma razão para interromper o silêncio de que preciso para limpar o sangue da cansaço que o consome. Pela primeira vez senti necessidade de vir aqui, a este lugar semi público, necessidade de dizer uma palavra.

Só uma palavra para dizer quanto me cala fundo a condenação que mereceram hoje os arguidos da Casa Pia. E tenho a certeza não é nenhum resquício de justiça popular que me move, não é nenhum contentamento por ver quem tem poder ser condenado, não é nada de pessoal.

Acredito nas vitímas é apenas isso, e chega-me. Ninguém inventaria uma história destas, ainda por cima a troco de nada, ainda por cima para ver a vida exposta e se sujeitar a ser tido por mentiroso.

Acredito também na denúncia como acto profundo de coragem.
~CC~

(e agora, mais um tempo de silêncio)

terça-feira, agosto 17, 2010

Já vou



FECHADO
(POR TEMPO INDETERMINADO)


(aos leitores que acompanharam este blogue um grande abraço e um muito obrigado por cada vez que deixaram um comentário)

segunda-feira, agosto 16, 2010

Fora de moda

O que parecia ser tão grande era afinal tão pequeno. O que parecia ser tão difícil de apagar, é afinal tão fácil. Uma pessoa está à mão de um clique delete para deixar de existir, é assim que se funciona no ar do tempo.

Estará para breve o fim das lágrimas como produtos da dor? Deve estar, e eu não sei.

~CC~

sábado, agosto 14, 2010

Jogos de sorte e azar

Penso em escrever
Fechado por tempo indeterminado
e assim abandonar todas as palavras
numa despedida sem compromisso

Penso em ir à tua procura
à minha procura
num lugar que já não existe
nenhum de nós existe já

O silêncio é esse sinal
de um adeus a várias dimensões
de uma partida sem retorno
depois de um tempo de encontro.

Pensamos em coisas absurdas
e mágicas
quando a tristeza nos vem dominar
nas noites de sábado

Pensamos que queremos tudo o que deixámos
e não o queremos já
Pensamos num outro futuro
mas só há vazio quando o pensamos

Pensamos em tudo o que deixamos
quando escolhemos
e que queríamos voltar atrás
escolher outra vez

Escolher outra vez
marcar outras cruzes nos quadrados
onde se escondem os trevos de quatro folhas
os luares encantados

Mas sabemos que nunca nos estará reservado o euromilhões
Que a nossa vida
Esta curta e longa vida
só tem mealheiros de bairro de feira.

~CC~

sexta-feira, agosto 13, 2010

Três peras

Comprei três peras num lugar remoto, muito bonito, junto a um rio. Um lugar onde devia talvez morar. Penso em envelhecer assim, mum lugar onde todos são já velhos também.

As três peras. Uma estava cheia de lágrimas e por isso não a pude comer. A outra estava cheia de um desespero fundo, um desamor lento, deixei-a intacta. A terceira estava vazia, oca, seca, gelada, e deitei-a fora. Ainda tentei enrolá-las nas minhas mãos, mas nada. E ainda assim, sinto as mãos a transpirar do seu odor pesado.

Ainda este Verão comprarei um pedaço de melancia, beberei do seu sumo doce à procura de força e alegria.
~CC~

terça-feira, agosto 10, 2010

A mulher sem ondas

Era uma família zangada, dos quatro apenas o rapaz, na casa dos vinte, não dizia palavra. A mulher, perto dos sessenta, parecia infeliz. Dizia para o marido: sabes quantas vezes eu vim contigo à praia? Posso contá-las pelos dedos de uma mão.

Ela nunca tinha aprendido a nadar.

E era como se dissesse que era uma mulher que toda vida tinha desconhecido o sabor salgado das ondas de espuma. E era uma mulher que dizia ter sido toda a vida, de certa forma, desconhecida do homem com quem vivia.
~CC~

domingo, agosto 08, 2010

As ondas à noite

O menino, cerca de cinco anos, seguia perto do pai, sem que sentisse necessidade de lhe dar a mão.

-Pai, é verdade que a praia está aberta de noite?
- Sim, nunca fecha.
- E há pessoas que tomam banho à noite?
- Quase nenhumas, faz frio.
- E de que cor são as ondas à noite?

Silêncio do pai
Silêncio do menino

Fico a pensar: Ali está um menino que irá gostar de poesia.

~CC~

sábado, agosto 07, 2010

Agosto (III)

A cidade, esta capital pobrezinha e sem mar, mal respira no calor. Gosto em parte dela pelos seus defeitos, é quase um Algarve interior, e há anos que parece parada, adormecida. Todos os anos junto à doca há várias feiras, chegam inevitavelmente em Agosto, numa disputa impossível de turistas com outros lugares, esses sim na ribalta.


Nunca achei a feira do livro tão pobre como este ano, meia dúzia de barracas sem brilho. Ainda me lembro há anos atrás de ficar extasiada com a presença do José Luís Peixoto, a assinar livros com aquele sorriso de miúdo reguila. Nessa altura ainda apareciam alguns escritores, havia alguma luz sobre eles, filas pequenas para autográfos, mas ainda assim algumas pessoas.

Não devia comprar mais livros por ora, não devia ler a não ser os livros cinzentos aos quais estou obrigada, presa, amarrada. Às vezes não sei como me prendi assim. Se fosse mesmo a sério isto na minha vida eu ficaria cinzenta da cor dos livros que tenho para ler.

Os olhos param na Peregrinação de Emmanuel Jhesus, há uns anos passei o Verão num monte alentejano alumiado por um gerador que se apagava cedo, e ficavámos só com as estrelas. De dia lia a Baia dos Tigres, Pedro Rosa Mendes era a minha outra companhia diurna junto ao mar agreste. Curiosamente o bar da praia chamava-se bar do tigre. Parada a olhá-lo iluminam-se os olhos, é aquela a minha cor, as cores todas de mim. Deve ser por isso que me compras o livro, que o trazemos para casa ao arrepio de tudo o que deveria ser.

~CC~

quinta-feira, agosto 05, 2010

Muros brancos



Duas mulheres, uma mais velha, outra mais nova, manhã muito cedo. Elas caiavam o muro enquanto entoavam canções, velhas canções ouvidas das suas mães. Dizem que no Alentejo as mulheres tornam as casas brancas mas não cantam. Estas cantavam e olhavam-nos de soslaio, entre o medo do desconhecido e a vontade de dois dedos de conversa. Sorrisos meios, vergonha muita.


Vindas de outro tempo estas mulheres na aldeia pacata ao pé do mar, hoje só um lugar de férias. Elas no mesmo tempo que nós, do mesmo tempo, e ainda assim noutro tempo. No minuto do sorriso iguais, eu e elas, apenas mulheres entoando, olhos postos no mar. É preciso que os muros sejam brancos, muito brancos.
~CC~

segunda-feira, agosto 02, 2010

Agosto (I)

Tantas palavras
milhares de letras em equilíbrio instável
Como te escreveste tantos anos
anos e anos a fio

Tantas palavras
Um vazio tão grande
Um amargo tão intenso

Quero ver tudo
Não quero ver nada

Um risco
Tu não existes
Mas estás aqui
Mais que nunca estás aqui.

~CC~

Agosto

O silêncio do olhar
Tanto silêncio
Como-o devagarinho à procura do que ele me diz.

~CC~

domingo, agosto 01, 2010

Belos fios

Tem um nome bonito: FIAR. Fiar, uma arte que não sendo na rua, como acontece com este festival, sai das mãos, dos longos serões dos dedos e dos fios. Assim são também estes espectáculos, começamos por ver apenas um fio, e só no fim a magia se revela inteira. A rua era o palco natural do teatro, a noite inteira e meia lua brilhante.

Do Pino do Verão, essa descida poética pela encosta do castelo, ao som da orquestra, já muito foi dito. Este ano apanhei-a quase no fim, só consegui chegar praticamente para os aplausos. Quando se vê pela primeira vez sentimos estremecer o coração, depois, mais habituado, já consegue bater só mais forte.

Mas esta noite vi duas belas peças recortadas pela noite, uma nos telhados do cine teatro (que bela ideia esta de habitar os telhados) e outra num pequeno largo, penso que de nome "passo da formiga". Das noivas trapezistas, guardei a beleza vagorosa das suas asas esbeltas, verdadeiras mulheres pássaro, aladas e guerreiras, e ainda assim tão terrenas que lutavam por um vestido branco de noiva. Dos seres cinzentos, temerosos, de rostos só com olhos (poderosas máscaras) habitando caixas frágeis, guardei-lhes o medo dos seres humanos, ao mesmo tempo que revelavam um desejo imenso pelo contacto, pela comunicação, uma vontade de cruzar a fronteira do outro. Acabaram a servir sopa quente ao público, e nunca tinha visto tantos meninos com vontade de comer sopa. Impressionantes as suas caixas móveis, mistura de abrigos de guerra, casas confortáveis, carros sem rodas, lojas ambulantes. Teatro alemão de rua.

O Verão é também isto, a noite na rua, uma outra vida a acontecer.
~CC~

quinta-feira, julho 29, 2010

Notas de memória



A diferença é que não vamos e voltamos. Assistimos ao amanhecer e ao anoitecer, avaliamos a diferença da humidade em cada crepúsculo. Temos tudo para ver. A praia está ainda deserta às oito, pouco depois chegam os homens com os cães para um passeio rápido antes da chegada das familias. Percebemos como as pessoas trazem com elas o ruído, como elas levam o silêncio. Alguns lugares são sempre ocupados primeiro, sempre em redor dos salva-vidas, à volta da sua torre de observação. Talvez a ilusão de que estarão a salvo.


Aprendo, sei coisas. Sei que a escola de Surf começa a aula sempre ao meio-dia. Sei como começa e acaba a aula, sei quem falta e quem é assíduo. Tento adivinhar em que zona irão colocar as bandeiras. Aprendo coisas. Sei a que horas será varrida a esplanada do mar, quem a varrerá, quem mais logo fechará os chapéus de sol. Sei alguns dos nomes das pessoas, algumas das suas histórias, coisas que nunca soube de outros lugares em que não permaneci.


Sei que o silêncio volta assim que o sol desaparece, e que parecemos um navio calado em pleno oceano, somos só meia dúzia de casas brancas que se fecharam como se fossem malmequeres. Faz frio à noite, há um vento gelado que a sul só só corre ali nas praias daquela costa, durmo com um cobertor em pleno Verão.


Aprendo coisas sobre os abraços da água doce com a água salgada, sobre essa diferença de densidade que antes me perturbou tanto, aprendo como podem conciliar-se sem se anular.


~CC~




segunda-feira, julho 26, 2010

Bichos e ervas do mar

Crescer verde no azul.


Deixar um infímo espaço entre uns e outros.


Agarrar muito a rocha em plena onda.


domingo, julho 25, 2010

A casa na Praia

(Julho, 2010, lugar onde desagua a ribeira dos seixos, hoje Praia de Odeceixe)


Há muito que desejava não ter entre mim e o mar mais do que meia dúzia de metros.Temos delírios maiores e outros pequenos, singelos. Eu tinha este, uma casa na praia. Adormecer com o barulho das ondas e acordar com o mesmo som, dias e dias assim, feitos da monotonia da observação das marés, actividade que pratiquei intensamente no deslumbramento do encontro entre a ribeira e o mar, esse abraço de misturar águas e trocar seres vivos.

Um desejo satisfeito não é um desejo morto, é a memória que fica de um bocado de vida que mordemos, saboreámos.
~CC~

sexta-feira, julho 16, 2010

Outra latitude


A Ardósia fica a ganhar pó, quando voltar, com os meus próprios dedos poderei riscá-la.


~CC~
Imagem retirada de : http://www.portaldoastronomo.org/tema_pag.php?id=2&pag=4

quinta-feira, julho 15, 2010

Ainda esses meninos sem mar

A menina sem banhos de mar no café da manhã, ainda ela.

E por causa dela os meus meninos sem mar de há vinte anos atrás, quando a serra de Montejunto era tão longe da linha de água salgada, a milhas do litoral. Ainda os meus meninos com olhos de terra seca, cheios de flores, mas vazios de conchas.

Os meus meninos do tempo em que eu podia dizer os meus meninos, como as professoras primárias dizem ainda, esse traço de posse do coração que atravessou dois séculos. Nunca esquecemos os nossos primeiros alunos, mas os meus, como posso esquecer os sorrisos tímidos, as vozes sumidas, os abraços fugidios. Como posso esquecer que no final dos anos 80, mais de metade nunca tivesse visto o mar. Como é o mar professora?

Se estivesse perto o mar, as ondas chegariam a ouvir-se naquela sala de aula, nunca mais, em nenhuma sala de aula de pequenos e crescidos tive um silêncio assim.

Também a menina, hoje no café, falava baixinho com a sua boneca pequenina, talvez segredando sobre conchas e marés.
~CC~

quarta-feira, julho 14, 2010

As férias grandes da menina

Se eu a pudesse pintar. Desenharia os seus sete anos cheios de tempo, saltitando com a sua boneca minúscula entre as mesas do café, sorrindo aos clientes, pedindo uma palavra, uma atenção. Sorri-lhe levemente, atrapalhada com o tempo, ela bem queria mais conversa.

Se eu pudesse desenhar. Pintaria os seus olhos pretos tão sós, adormecendo o tédio com a conversa tecida com a sua minúscula boneca, enquanto a mãe tira cafés e faz sandes, uma atenção comedida à filha que trouxe para o trabalho. Disse-lhe adeus, atrapalhada com a minha própria desatenção.

(lá longe, os banhos de mar)
~CC~

terça-feira, julho 13, 2010

Pedras

A mulher levava um saco do Pingo Doce onde ia colocando as pedras, nem mil sacos chegariam para as tirar todas da areia. Talvez as quisesse para adornar os vasos, refazer muros, enfeitar parapeitos. Talvez ela pudesse levar também o meu coração, cansado de ser liquído, está a tornar-se duro, perigosamente indiferente a tudo, da textura das pedras da praia, com o mesmo cheiro salgado dentro, mas em vez de mar, memórias de lágrimas, cansaço.

Mas ainda assim sufoca com a notícia da mulher iraniana salva do apedrejamento mas não da morte. Como podemos habitar um mundo onde as mulheres são mortas à pedrada? O coração é um aperto de mal estar. Há quem se indigne, felizmente, é o que parece restar-nos.

O coração distende-se, contudo, com as saudades do teu sorriso, da tua alegria adolescente, do teu olhar de luz. Tenho saudades, isso é ainda sinal do fluir do sangue, do seu bater de mãe.
~CC~

domingo, julho 11, 2010

Sinos de Domingo

Os sinos da Igreja tocam na praia, e em vez de se ouvir o coro, ouvem-se os gritos das crianças nas ondas. Saíram cedo porque o trânsito de Domingo a caminho do mar, é uma epopeia de paciência, um oásis da modernidade duvidosa, é a alegria ao alcance posssível de todos e também o seu contrário, um simulacro da igualdade.


Famílias inteiras em torno de um ou dois chapéus de sol, eles vão ficando por ali, estando como se não estivessem, a maior parte das vezes em pé olhando o mar, preferencialmente agrupados em pares masculinos. Elas controlam tudo, as sandes, os yougurtes, os sumos, elas dividem a comida, colocam o creme, contam o número de banhos dos meninos. A praia é ainda o prolongamento doméstico na reprodução dos papéis.

Excepção feita ao menino e à menina, cada um na sua enorme bóia preta, as bóias parecem as antigas câmaras de ar que os meninos pobres levavam à praia. Os meninos estão lado a lado, desafiam-se nos mergulhos de frente e costas, no equilíbrio em pé e de joelhos, no avançar um pouco mais no mar. O menino e a menina, dez anos, esses têm um outro Domingo só deles. E não esquecerão. Tento fechar os olhos e imaginá-los daqui a vinte anos, e desejo que não se pareçam com nada do que vemos. Fecho os olhos e penso que serão dois flamingos, roçando com o bico as penas um do outro numa carícia leve e intensa.

Não sei se fui à praia ou se tudo isto se passou no largo da Igreja.
~CC~

sábado, julho 10, 2010

Relógio interior

Nunca usei relógio, mas aprendi a viver no espartilho das horas. Nunca fui dona do meu tempo, fui escrava dele. Gastei-o intensamente a estudar e a trabalhar, a maior parte das vezes sem fazer perguntas, assim se evita a dor.

Há uns meses aprendi o que era respirar, olhar os dias como espaços em branco que podia pintar, encher. Nunca fui tão livre, tão feliz. Não devia acabar tão cedo, temo que uma vez feita esta aprendizagem da liberdade, não saiba já conformar-me a ver o relógio dos outros, não saiba já viver sob domínio.
~CC~

sexta-feira, julho 09, 2010

Segredos

É redonda e pequenina como uma concha. Guarda dentro de si um azul líquido e quente onde podemos mergulhar por muito tempo. Não está deserta como prometem os cartazes que nos mentem, mas está cheia de meninos de todas as idades, não há melhor para eles do que ondas pequeninas, e eles agradecem em festa. As pessoas falam com pronúncia da terra, são simples, não se enfeitaram para vir à praia.

Deixei o olhar lá preso nos ninhos das andorinhas escavados na rocha. E não sei se o corpo veio comigo, ou se ficou preso na água tépida.
~CC~

quinta-feira, julho 08, 2010

Coisas antigas

São raras as mulheres talhantes. Esta era alta e forte e assustava quando pegava na faca para esquartejar os pedaços mortos dos bichos. E estava estranhamente bem disposta, gracejando com o colega sobre o filho do Ronaldo.

Contava o que tinha dito ao marido. Contava ao marido que não se importaria de ser ela a barriga de aluguer do Ronaldo, mas que até o podia ser sem a mediação de tubos de laboratório e assim. Uma noite bem passada e já estava. E dava-lhe de bom grado o filho em torno de uma choruda quantia. Afinal pouco lhe custava enriquecer e fazer o homem feliz. E devia ter sido também numa transacção semelhante à que ela idealizava que a criança tinha nascido, e só tinha pena de não ser ela a anónima.

A mulher talhante, os olhos a brilharem ouro, ela deitada na beira de uma piscina, a beber caipirinhas e a comer acepipes. Ela, a contar às amigas, que antigamente as mulheres se realizavam quando eram mães, uma coisa animal entre fêmeas e crias, tretas ultrapassadas.


Ela a dizer que o marido, quando lhe falou no filho que ela teria do Ronaldo, tinha ficado estranhamente calado, pensativo.
~CC~

quarta-feira, julho 07, 2010

Mapa

Marca um lugar no mapa longe deste calor tórrido, mas ainda assim tão quente que ainda seja Verão, que nos apeteça melancia, e cerejas.

Um lugar em que ainda assim nos apeteça, longe deste corpo em estado dissolvente que torna difícil qualquer coisa apetecer. Marca no mapa um lugar em que ainda seja Verão, sem esta pressão sanguínea a latejar, sem a impossibilidade de tantas coisas por acabar. Um lugar onde nada se possa escrever, nenhuma máquina se possa ligar, nenhuma voz se possa manifestar, um lugar habitado pelo silêncio, pelos pés descalços a entrar na água escura do rio, pelo vento que faz passar rápidas as nuvens pelo céu. Um lugar cheio de raízes, e de frutos.

E lembra-te que os mapas foram feitos para nos perdermos.
~CC~

sábado, julho 03, 2010

O que sobra dos dias

A academia no seu processo de catarse, uma espécie de festa, pudesse o saber ser realmente isso, por vezes quase conseguimos. Eu, estendendo a toalha a fingir que aquela era a minha praia, e conseguindo uns bocadinhos de sol. Eu, uma metade de mim. Um sabor a alguma coisa boa, e depois logo um sabor a pouco.


A Espanha a festejar na praça com o meu nome. O Brasil a minguar até o samba se tornar fado. O Eduardo que faz toda a diferença, também por ter uma mulher atleta em vez de uma barbie.

O teu sorriso à minha espera, essa bondade que tardou tanto a aparecer no teu olhar e agora me comove. As árvores do anfiteatro da Gulbenkian cheias do vento da noite, os olhos a fecharem-se no meu cansaço, a voz da Lula Pena feita um lugar quente.

Ela grande, a passar-me em altura, a chamar-me, a inquietar-me, ela a crescer, mais em alegria do que em dor, ela a levar-me tanto do meu coração.

Os sinais cifrados de alguma coisa que não sei, da qual nunca tenho a certeza. A vida, sempre este mistério, esta incerteza, estas pessoas no limbo de existirem ou desparecerem das nossas vidas.

A vida, essa lugar onde algumas pessoas estão mesmo ao nosso lado.

~CC~

quarta-feira, junho 30, 2010

Vinte anos

Nunca mais o Verão será assim, enterrar os pés no lodo dos açudes, afastar os alfaiates para o mergulho. Nunca mais entrarei num campo de milho sem saber o que há do outro lado.

Nunca mais terei vinte anos, essa ousadia.

~CC~

terça-feira, junho 29, 2010

Meio coração e mais um bocadinho

Penso em mim como tendo metade do coração brasileiro e a outra metade africano. É assim quando se nasce em Luanda, e se tem (ou teve) meia família no Brasil. Acresce o fascínio pela terra vermelha que só África tem, e por esse falar cantado que inventou mais bela a Língua Portuguesa.

E depois penso que não pode ser, afinal sou portuguesa, então escolho um lugar em Portugal, Luzianes, por exemplo, e penso que também lhe pertenço. Nunca estive em Luzianes, mas o nome diz tudo de um lugar que fica no fim do Alentejo e no início do Algarve, um lugar que se divide em dois: aldeia e gare. Tenho que ter a gare, por causa das muitas partidas que teria que fazer da aldeia. E teria que ter a aldeia, por causa da luz, essa que o sul deita a cada crepúsculo de Verão. Mas sinceramente não sei se vou a tempo de pertencer a Luzianes, porque não sei se ainda sei pertencer.
~CC~

segunda-feira, junho 28, 2010

Mistérios literários

Leio Roberto Bolaño muito depressa, verdadeiramente presa do enredo que ele arquitecta, ansiosa pelo fim, por saber. Mas não gosto verdadeiramente da prosa dele, quando o acabo de ler, não sobra nada. E, no entanto, como ele vende, como ele apaixona tanta gente. Talvez ele retrate como ninguém a angústia de um tempo sem nexo, a ruptura com todas as crenças, toda a esperança. Ainda assim, preciso de o ler mais.

Leio Le Clézio muito devagar, as suas histórias são longos poemas em prosa, volto atrás imensas vezes por causa das palavras dispostas como pinturas, por causa dos rostos que quero ver. Vou e volto sem necessidade de acabar o livro, nunca me questiono sobre o fim, as histórias dele não têm verdadeiramente fim. Clézio ganhou o Nobel (em 2008), mas não vende, acho que nunca poderá vender. Gosto muito dele, excepção a um livro sobre a doença e a loucura que não consegui acabar. Clézio está fora de tudo com o seu sorriso de gigante bondoso, a sua antropologia é uma quimera de afectos em busca de um homem diferente, é um crente sem crença nem religião.

Talvez seja a esperança a aproximar-me de um, e o desespero a afastar-me do outro.
~CC~

domingo, junho 27, 2010

Somos nós(III)

Ele pensa nos filhos outra vez em casa. A rapariga com o estúdio à venda e ninguém a aparecer para o comprar. O rapaz regressado dos seis meses a mais do Erasmus, quando nada nem ninguém podia sustentar o sonho da morada além país pequeno e periférico. Lembra-se dos conflitos deles quando eram pequenos e moravam no mesmo quarto, ainda assim tinham uma alegria que em nada se compara ao silêncio do fracasso que agora partilham.

A casa tornou-se anormalmente pequena e ninguém sorri quando o dia começa, ninguém tem pressa. Deixam-se estar por ali, rapaz e rapariga num desespero sem gritos. É como se fosse sempre Domingo, mas quando ele é apenas um dia da semana o arrastar lento das horas é doce, enquanto quando todos os dias se tornam Domingo isso é um sufoco, um peso.

O homem, o pai, saiu um dia como quem não volta. E todos pensaram o mesmo quando não deu notícias um, dois, três dias. Mas o homem tinha ido apenas junto ao rio da sua terra perguntar às marés pela vida. E as marés embalaram-no. Os pais, ainda vivos, continuavam a deitar as sementes à terra. E ele deixou-se ficar ali, a ver o que delas nascia.

A rapariga foi à procura do pai e encontrou-o e deixou-se ficar ali também. E depois o rapaz. E depois a mulher. Os avós estavam velhos, deitavam as sementes à terra muito devagar, eles podiam fazê-lo mais depressa, com mais energia. E foi o primeiro Verão que colheram juntos as melancias. Eram doces, frescas, saborosas. Eram vermelhas como corações salvos. Ninguém poderia saber quanto tempo ficariam assim em paz.

~CC~
(fim)

sábado, junho 26, 2010

Portas que abrem paredes

Festival MED 2010
(duas das muitas portas de autor)
É isto, as voltas trocadas às coisas. Fazer do velho novo, e ainda assim outra coisa. Pendurar portas nas paredes e abri-las como outros lugares para os quais podemos entrar. Poderia ser reciclar, mas é já mais, é reiventar os sentidos das coisas, atirar-se à monotonia com tintas, fios de cordel, pedaços de arame usado. De alguma forma quererei também inventar portas em paredes, portas que possam abrir paredes.
~CC~

quinta-feira, junho 24, 2010

Anti depressivo

(Cáceres, 2010)

Sim, claro. Estou a tentar, com o corpo todo e a matéria inconsistente que vive lá dentro.
~CC~

quarta-feira, junho 23, 2010

Mediterrâneo


É um mar interior soprado pelas brisas dos séculos, carregado de imagens de homens e mulheres sem história, que fizeram história. Gostaria de atravessá-lo um dia com a lentidão própria de quem lhe bebe o azul gota a gota. Gostaria, porque sou feita de desejos impossíveis. Mas como há em cada impossibilididade uma possibilidade, guardei alguns crepúsculos que depressa se tornarão luar, para passar em Loulé, no Festival MED. Nada, nem ninguém me paga a publicidade, a não ser a vontade de partilhar o quanto os cinco sentidos se preenchem num instantinho.


~CC~

Foto retirada de: http://4.bp.blogspot.com/_pzZKTpmIGhA/TCHMDz5laYI/AAAAAAAABL0/lBBGQ4NRpSs/s1600/mar.jpg

terça-feira, junho 22, 2010

Responder

Elas calavam-se, elas aceitavam.

Foi no inicio da Primavera, quando metade do guarda roupa se assemelha a lixo, e dá vontade de não vestir nada do ano anterior. Não é que não nos sirva, nós é que já não servimos naquelas coisas. Era manhã cedo, é só nessa altura que aguento entrar nas lojas, estão quase vazias. Naquela, contudo, já havia conversa matinal, era uma mulher na casa dos cinquenta, à procura de um novo biquini para o Verão.

O meu marido um dia disse-me: tens barriga, já não devias usar biquini!
E eu respondi: e tu, o que vais vestir? O que vais fazer com a tua?!

Não pude deixar de me rir, de entrar na conversa. Nenhuma de nós trouxe o biquini, mas cada uma trouxe um vestido, o meu é aliás uma explosão pouco habitual de cores. Quando o visto lembro-me dela, daquele riso franco e resposta pronta. Aquelas cores são mais dela do que minhas, mas ainda assim sinto-as nossas, sinto-me Primavera nelas.

Elas respondem aos maridos, dizem-lhes as verdades, elas já não se calam.

~CC~

sexta-feira, junho 18, 2010

Atlântico

Viajou, pensava eu,

e via Lanzarote num mar doce

mas era só eu a viajar pelo mar interior do Mediterrâneo

este mar que ele haveria também de amar, por causa das pedras, das oliveiras, da pobreza nobre destes rostos de olhos negros

afinal ele partiu do Atlântico

e está certo também

por a ilha ser um retalho de pedaços do seu mundo

por esse ser o mar de todas as partidas, aparentemente frio como ele

mas luzindo em conchas e em peixes

voou uma estrela planetária

de raiz ribatejana

segurem as lágrimas

sejam comedidos com as bandeiras

pensem em papoilas.

~CC~


(estive várias vezes prestes a vomitar ao ler o Ensaio sobre a Cegueira, e senti-me muito mal a ver o filme, creio que nenhuma obra me fez sofrer tanto, por ver nela um fiel retrato dos nossos mais íntimos males como seres humanos).

~CC~

quinta-feira, junho 17, 2010

Dos silêncios

Mudas dentro dos lábios, secas no papel, as perguntas que ficaram por fazer.


Presos de silêncio os ouvidos, no écran vazio do portátil, eternamente à espera das perguntas feitas que nunca obtiveram resposta, mesmo as mais triviais.


A vida é um tecido destes silêncios, alguns trazem dor. Depois esquecemos, ou tentamos.


~CC~

Espelho

Já quase não me vejo ao espelho. Umas vezes por causa da tristeza, não a quero devolvida. Outras vezes por causa da indignação, pode regressar a mim em dobro. E há ainda a questão da beleza, um problema nunca resolvido de auto estima. Fico-me pelo espelho de alguns olhos, de preferência aqueles que me dão o que preciso, mais que não seja, um certo jeito de sorrir.
~CC~

quarta-feira, junho 16, 2010

Somos nós (II)

O que ele não sabia era que ela rondava outra vez o lago, como quando tinha 18 anos. Mas não levava pão na mala, só desespero. E esse não alimentava os cisnes pretos. E continuava a não saber nadar, nunca aprendera.

O que ela não sabia era que ele tomava aqueles comprimidos redondos e pequeninos para dormir. Não sabia que ele já não passava sem eles.

Ambos sabiam o que os entristecia, mas a tristeza tornava-os mudos. Cada um conjecturava soluções para a conta a zero no banco. Ela tinha pena de nunca ter querido o ouro que ele lhe queria dar pelos anos, agora sempre o tinha. Ele tinha pena de nunca ter aceite os relógios que o avô lhe queria deixar em herança, agora talvez pudessem valer-lhe.

Nenhum pensava em dizer nada às respectivas famílias, seria uma vergonha.
~CC~

segunda-feira, junho 14, 2010

Somos nós (I)

Ele tinha feito 18, ela 22. Tinham deixado o quarto vazio, no quadro de cortiça ainda estavam os pequenos buraquinhos dos pioneses que seguravam as fotos. Apesar do Hi5, do Facebook, dos murais digitais que eles também tinham, onde se escondiam horas a fio, nenhum deles se sentava na sala a ver televisão, e as novelas eram definitivamente pimbas. Talvez apenas a cortiça das fotos, apenas ela traçava a linha entre as suas adolescências.

Ele tinha 22, ela 18. Ela passava todos os dias às 18h junto ao lago dos cisnes pretos. Naquele lago não havia cisnes brancos. Ela parava a dar-lhes pequenos pedaços de pão que trazia dentro da mala. Os cisnes não se aproximavam muito, eram desconfiados. Ela nunca dava pão aos pombos, só aos cisnes pretos. Às vezes debruçava-se um pouco no varandim do lago, como se fosse saltar para nadar com os cisnes. E ele espreitava o decote, e ao mesmo tempo vigiava-a, não fosse ela saltar de verdade. Tinha sido há tanto tempo, na verdade só restavam sombras. Ele já não a via a cores, nem à vida.

A folha de excel das contas do mês, tinha passado a fazê-la meticulamente, e por causa dela os quadradinhos não lhe saiam da cabeça. E por causa desses quadradinhos tinha começado a tomá-los, pequeninos, redondos, uma coisa que nunca pensou fazer, ser. As noites eram pesadas quando se tomava comprimidos para dormir, e de manhã não havia sonhos para recordar. A cabeça tinha só peso, como se estivesse cheia de serradura.

Não se lembrava, como é possível que não recordemos os momentos em que fomos felizes?!
~CC~

domingo, junho 13, 2010

Somos nós

Primeiro foi o apartamento, porque comprar seria sempre melhor do que arrendar. E sempre o deixavam aos filhos. Não pensaram que os filhos seriam adultos antes que eles se libertassem dessa casa, muito menos que os filhos não quereriam esse T2 suburbano. Não pensaram que deveriam toda a vida, anos e anos de hipoteca ao banco, muito provavelmente até ao fim da vida, isto se a doença não visse obrigá-los a uma dor e a um sufoco não previstos.

E quando a filha pediu ajuda para a compra do estúdio mais central, bem perto da faculdade, ainda se dispuseram a mais essa ajuda, não só foram fiadores como se comprometeram com uma mesada mais alta. O resto seria ela a pagar com o que ganhava ao fim de semana no Call Center. O mais novo só falava em ir para o estrangeiro, porque estava farto de um país que não prestava. E não pensava propriamente na apanha do tomate nem em servir às mesas, mas sim em programas tipo Erasmus, a sua estadia não seria integralmente coberta pelo programa, e a mesada teria que ser aumentada, tudo em prol de não gorar as expectativas do rapaz.

Sabiam que os seus ordenados não esticariam até cobrir todas as novas despesas, mas achavam-se capazes de milagres. E nunca diziam não, presos da crença de que tudo seria possível. Os empregos pareciam estavéis, nenhum deles estava doente, os miúdos queriam ir longe. Eram mais que legítimas as suas expectativas num mundo em que ter expectativas era o contrário de ser nada, ser ninguém.

~CC~
(continua)

sexta-feira, junho 11, 2010

Cinzentos

É certamente a chuva que me faz pensar em despedidas, como se o Verão estivesse já a morrer(me). É certamente o mundo a reduzir-se a uma janela só, a um tempo em que o essencial é tão pouco que lhe podia chamar ar. É certamente o futuro que não quer vir visitar-me, como se não pudesse ver nada além de um horizonte curto, tão curto.

A angústia costuma ser um estado breve, sempre possivel de atenuar com um banho de mar e cerejas doces.

~CC~

quinta-feira, junho 10, 2010

Diário a cores (XII)

Diálogo vermelho-amarelo
(Benguela, 2007)

~CC~

quarta-feira, junho 09, 2010

Enfermaria

Adoecem os homens velhos
os meninos
e os de meia idade

os homens doentes têm olhos líquidos
dolorosos e sem cor
e um absoluto desejo de colo

Os homens velhos doentes
são meninos
e os meninos são velhos

os homens doentes têm o corpo tenso
sofreguidão de abraços
estão fragéis e despidos

os homens doentes de meia idade
são meninos
e já são velhos

embrulho-os em céu de seda
enrolo-os em perfume jasmim
dou-lhes colo doce
busco-me, estou, sou.

~CC~

terça-feira, junho 08, 2010

Manhã

Nunca pensei que manhã tão cedo, mal abrem as portas, já o supermercado se enchesse de gente. Acordam cedo os velhos, os drogados, as mulheres sós e tristes. Levam muito tempo nas prateleiras, olham, mexem, e tornam a poisar as coisas. Escolhem uma, duas, três coisas, e poucos deles levam mais do que isso. Pão, quase todos levam pão, e também bolos baratos. Este desfile de gente pobre e triste na avenida mais bonita desta cidade devia ser filmada, mostrada, enfiada olhos dentro de todos os que não querem ou não podem ver.

Mas não é ainda o suficiente da minha dose diária de dor. Mais à frente vejo-a. É uma rapariga bonita e isso é a primeira coisa que me faz reparar nela, só depois vejo quem é. Foi minha aluna, foi uma das minhas melhores alunas, ao contrário de tantas outras ela escrevia bem, e gostava de pensar. Lembro-me que uma vez abandonou um estágio num centro de dia para idosos porque não gostava de ver os idosos tratados como crianças: davam-lhes figuras para pintar! Gosto de pessoas que são capazes de se revoltar, de dizer não. Reparo no cuidado e profissionalismo como tira as etiquetas dos preços e as substitui, é ainda a mesma pessoa nesse cuidado. Resta-me pensar que talvez este lugar seja ponte, passagem para outra coisa que ela deseje, e sei deseja por causa dos seus olhos baços, enfiados no chão. Apetecia-me dizer-lhe que aquilo que faz nada tem de vergonhoso, mas creio que me vê e desvia o olhar.

Mais adiante cruzo-me com o cartaz do festival de cinema* e a dor atenua-se perante tanta resistência, tanta capacidade para levar por diante uma ideia, um projecto.

Há muito que o sabor amargo-doce se tornou o modo de bater oscilante do meu coração.


~CC~

*http://www.festroia.pt/

segunda-feira, junho 07, 2010

A coisa mais bela

Na varanda da frente os gritos da criança pequena. Assusto-me, nunca consigo ouvir crianças chorar ou gritar. Mas afinal é uma menina, tem cerca de três anos, e está alegre, corre atrás das bolas de sabão para cá e para lá. O pai atira-as ao ar silenciosamente, pacientemente, docemente. Desfrutam em estreita cumplicidade o tempo de um final de tarde. Não há mais ninguém, só existem os dois.

Este pai, esta filha, o tempo deles. Ela lembrará este pai que lhe atira bolas de sabão para que ela as possa rebentar com o seu polegar pequenino. E irá lembrar-se como cansada de as desfazer, resolveu dançar no meio delas. Talvez ela comece ali, naquela dança. E o pai guardará esta menina nas suas pupilas dilatadas, nessas lágrimas que se desfizeram num meio sorriso.

A coisa mais bela dos homens, a sua maior conquista, este modo de serem agora pais.
~CC~

quarta-feira, junho 02, 2010

Identidade flor

A reunião importante em Lisboa, quantas vezes subi a rua, o elevador, não sei se parei sempre no mesmo andar. Houve outros anos, outras reuniões, outras pessoas em cargos importantes. Talvez tudo tenha mudado, eu não. Talvez não seja bem assim, talvez antes eu não tivesse tanta consciência da importância das coisas, ou da sua falta de importância.

E agora sei, sei da importância do tapete lilás das flores dos jacarandás que cobre os passeios da Avenida, do modo como me comove e entorpece o seu cheiro suave e adocicado. Agora não me lembro bem da agenda, nem se é importante o que vou fazer, é dúvida que me assalta, onde antes havia convicção. Agora situo-me no mundo como estas flores, da mesma matéria que elas. Agora entendo o silêncio como uma linguagem sem palavras que eu não sei decifrar e esforço-me por aprender a língua das pétalas, a da pele.

Uma e outra vez apresento o cartão do cidadão (oh, sim, isto mudou) para que me possam prender se enlouquecer no edifício. A identidade, digo eu, não podem deixá-la de fora, tenho de a colocar dentro desta grelha que construímos, sem o seu suor não há construções verdadeiras. Mas ela não cabe, eu não caibo. Mas já não me importo verdadeiramente.

Só a seiva faz bater o coração, mesmo quando ela não é mais do que um leve e indeciso tremor que corta os dias. Só a pele na pele é dia.
~CC~

terça-feira, junho 01, 2010

Marcas

Durante muitos dias as flores
flores sempre brancas
pousadas no marco de ferro da rua

Todas as sextas a mulher
as flores brancas
a dor do seu menino perdido

Talvez um menino
que só queria atravessar a passadeira
todas as sextas

Era uma mulher ainda nova
andaria pelos quarenta
mãe de um menino, talvez um rapaz

Um rapaz de olhos pretos luz
que só queria voar mais e mais
veloz na sua mota

Nunca te darei uma mota
apenas estas havaianas amarelas
terás que voar com elas.

~CC~

Diário a Cores (XI)

Diálogos verde-azul-vermelho
(Cabo Verde, Ilha de S. Nicolau, 2007)


domingo, maio 30, 2010

vinte e cinco

Esperou 25 anos para mergulhar no segredo dos olhos dela, e chamou a isso uma não vida. Ambos casaram, ela teve filhos. Que chamaremos a essa parte da sua vida. Um longo intervalo. Um vazio. Uma espera. Ou antes uma séria tentativa de se esquecerem, de outros mergulhos. Ela ficou nos olhos dele a despedir-se na estação de comboio, a despedir-se. Mas ele nunca se despediu dela, em vez disso, lembrou-a todos os dias. É sempre assim quando queremos esquecer.

Mataram a mulher dele, nesse mesmo dia em que ela trazia a camisa às flores, e lhe tinha feito um chá de limão, doces os seus olhos. E ele também não pode esquecer, também levou 25 anos a lembrá-la. São estes os dois homens, os dois mergulhados, imersos nos olhos das suas mulheres. E tudo isto se passa num dos países mais belos do mundo, mais tristes, essa Argentina que canta a sua dor e a dança ao mesmo tempo. É um canto que abafa.

E depois de 25 anos sabemos que quando a imagem da porta se fecha diante de nós, há mergulhos de olhos nos olhos que esperaram por ser uma vida. E lábios, pensamos nos lábios deles, toda uma vida a começar.

~CC~
(Belo, muito belo o filme " O segredo dos seus olhos").

Diário a cores (X)

BRANCO

(Primavera a caminho de T-O-M, há um ano atrás)
~CC~

sexta-feira, maio 28, 2010

Conto infantil

Pemba, Moçambique, 2007


Ia à procura da concha lilás, só a vira uma vez na praia, mas teimara em fugir debaixo dos pés, a onda tinha sido mais forte. Mesmo dentro de água tinha retido o brilho da sua cor. Não há conchas lilazes, repetiu para si uma e outra vez. A praia nunca existiu. Eu não estou à procura de uma concha. Eu nunca apanho conchas na praia.

E nas noites de insónia aparecia a concha, tinha deixado o mar e tinha-se tornado um passarinho, cantava com canto lilás. Espera por mim, vou voar contigo. Mas ele ria-se dela e das suas asas cortadas. Espera por mim, quero ir contigo. Mas ele não esperava, não tinha esperado. Vou agarrá-lo, dar-lhe migalhas, e quando ele as vier comer, vou prendê-lo a mim.

E então viu com clareza a estrela do mar laranja, absolutamente linda, nadando e ondulando a 10 cm dela em pleno azul, aquele azul transparente da praia de Pemba. Um simples movimento de mão e teria apanhado uma estrela do mar, uma linda estrela do mar laranja. E ficou a vê-la afastar-se, incapaz de lhe tirar a vida para a guardar depois seca e morta num apartamento do ocidente.

O seu destino não era ter. As conchas na areia, o pássaro no céu, a estrela no mar. Para ela ficava apenas o brilho, o brilho retido e apertado, um estremecer laranja-lilás bem misturado no seu sangue circulante.

~CC~

quinta-feira, maio 27, 2010

O que resta

Eis os teus olhos mortos de cansaço
o teu coração riscado e apodrecido
a tua voz sumida
as mãos trémulas.

Eis o teu corpo minado
as tuas palavras desconexas
o teu andar bambo
a tua memória lacunar

E quase nada para te dar
um carinho escavado no que resta
uma mão que mal se consegue encaixar na tua
um esforço para te agarrar

Eis o tempo a enegrecer a tua alegria
a doença a minar a tua autoridade
a pobreza a rondar-te a casa
a alucinação a esboroar-te o pensamento

E quase nada para te dar
uma sopa de supermercado
pão e queijo
talvez um bolo
o que resta do que poderia ter sido um abraço.

~CC~

Papelinhos, letreiros e murais

Não me lembro se na altura chamávamos "Básico" ao 7º, 8º e 9º, mas foi aí que aprendi o que eram papelinhos, essa síntese do mundo inteiro numa frase ou numa palavra que se tornava tão imperiosa de dizer a alguém que valia a pena correr o risco de ir para a rua. Alguns eram para rir(já viste os brincos que a stora traz hoje?) outros perguntas banais (vais para casa depois das aulas?) e muitos eram revelações de amor (A D gosta do Z). O mundo dos papelinhos corria paralelo ao das aulas, e quando se encontravam era mau sinal.

Duas ou três palavras chegam para dizer quase tudo, que o digam os anarquistas que têm as frases mais belas e filosóficas nos murais das cidades, algumas já meio apagadas pelo tempo, mas ainda latejantes no seu fulgor. E veja-se o letreiro que a Julliete Binoche apresenta quando recebe o prémio, tem só um nome, e não precisa ter mais nada. Em Setúbal, uma frase numa parede da avenida princípal resume o essencial do bater do coração: Kero alguém que me ame!(descobri que meia cidade já a tinha parado a ler). E sabemos que a Comunicação Social deu ampla cobertura a um Pedro que em todo o lado tinha escrito que procurava uma Inês.

Gostava de ter essa concisão, esse poder de dizer tudo em duas ou três palavras, mas não consigo. Enrolo-me nas palavras como se elas pudessem ser o meu cobertor, aninho-me nelas. Mas gostava muito de deixar duas ou três frases escritas pelas paredes, em certas paredes, certas ruas, certas frases. Se um dia sair pela calada da noite, já sabem ao que vou.

~CC~

quarta-feira, maio 26, 2010

Ter voz


Ter voz é também saber usá-la nos momentos certos. Uma voz feita mancha a grito negro em fundo branco: liberdade!
~CC~

(mais informação sobre o assunto aqui: http://sem-se-ver.blogspot.com/

terça-feira, maio 25, 2010

É que hoje fiz um amigo...

Foram mais de 600 Km num dia só, ida e volta pelo meu sul. Ao meu lado um quase desconhecido. E, no entanto, mais próximo que tantos próximos. Ele falava dos sonhos dele, de uma outra vida que desejava para si, cortá-la ao meio para se inventar noutro lugar, levando pouca coisa além das (poucas) pessoas realmente amadas (a sua mulher, e as suas filhas pelo menos de visita). E eu mandava-o calar para repetir as mesmas palavras que ele. Às vezes havia ligeiras diferenças: ele falava de cavalos e eu de cabras, ele falava do grande lago e eu de rios, ele falava de pessoas muito velhas, e eu pensava em viajantes, pessoas perdidas.

Quando nos despedimos, ele disse: fica combinado. Pois fica. É verdade que não sabemos para quando, nem se seremos capazes. Mas o mais importante foi o que ficou, um certo calor no coração, e a canção do Sérgio Godinho a ecoar: é que hoje fiz um amigo...

E eu que pensava ter os sonhos gastos de tanto os sonhar, e uma capacidade cada vez menor de fazer novos amigos.
~CC~

segunda-feira, maio 24, 2010

Uma coisa quase nada

Tinha olhos azuis e por isso pode ser moldada de barro para ser uma princesa, deram-lhe outro nome, outra língua, outra nacionalidade e ensinaram-lhe os gestos certos. Esqueceram-se de apagar algumas das suas memórias, poucas é certo, entre elas o paladar da sopa de peixe que a avó lhe tinha ensinado a fazer. Uma memória de rio. São as pequenas memórias que não nos deixam perder a identidade, só um cheiro, um paladar, um olhar que ficou.

E indo pelos rios ela viu que o seu coração batia, não era um pedaço de cinza. Depois deixou que os dedos de luz a acordassem e nasceu outra vez mulher, quase a menina que antes tinha sido.

(É assim, é bonito o filme "Em nome do amor")
~CC~

domingo, maio 23, 2010

A sua pele

É assim a sua pele. Nas cicatrizes, nas rugas, nas dobras do tempo, na antecipação da morte há ainda um não, um sonho a infiltrar-se, são as pequenas ervas a gritar vida. Há quem ame, há quem a ame até ao momento derradeiro.

~CC~

quinta-feira, maio 20, 2010

A desconhecida

Ela apareceu ontem, no fim da tarde quente, ligeirinha... infiltrando-se e instalando-se suavemente em mim. Apetece-me um cigarro, disse (eu nunca fumei). Um cigarro? Não há nem vestigío de coisa semelhante nesta casa, só se for folhas de loureiro enroladas.

Então um gin tónico (eu raramente bebo). Um gin tónico? A única coisa que há ali de semelhante é Grogue de Cabo Verde. Torceu o nariz, e falou-me no maravilhoso poncho gelado que lhe tinha sido oferecido numa casa em S. Nicolau. Mas esse poncho fui eu que bebi, respondi-lhe indignada.

Ficou mais calma com um sumo fresco de ananás coco, e a bonita vista do castelo.
~CC~

quarta-feira, maio 19, 2010

Fronteira

Será talvez por causa da consciência clara e gritante da sua velhice, como se ela de repente tombasse tragicamente nas nossas vidas. Como se ela nao tivesse acontecido devagar, a passar por nós a cada ano, os comprimidos sempre a aumentar nas caixas metálicas, e elas a diminuirem, sem poderem já comportar as novas doses. É verdade que estava a acontecer, mas também outras coisas nos aconteciam, coisas belas e coisas tristes que nos deixavam sempre um espaço menor, cada vez menor para os nossos velhos, os nossos pais velhos. Ainda assim, comecei a gostar cada vez mais de os ouvir, de demorar os almoços de fim de semana, de me deixar estar ali na facilidade do silêncio, não me custa ouvir.

E agora, a todo o momento recupero as imagens da menina que eu fui, e deles mais novos, mais sorridentes, ambos muito belos, ela muito loira e clara, ele muito moreno. E de todos os outros meninos da minha infância.

As meninas pretas com os seus cabelos muito arranjados em trancinhas variadas e as batas muito brancas, os olhos cheios de luz, as mangas sumarentas que comíamos depois da escola. Iguais eu e elas, e no entanto quando o meu pai chegava elas desapareciam todas como por magia, não podiam estar na casa da menina branca. Era a solidão.

Depois outro continente, os meninos das ruas pobres de Olhão, meio descalços, despenteados, cheios de piolhos, falando a mesma língua que eu e eu sem os perceber. E mesmo quando se riam das asneiras que diziam, mesmo quando se ofendiam, eu não os podia entender. Era a solidão.

Como custou romper essa fronteira entre mim e todos os meninos da minha infância, pertencer a alguma coisa, a alguém.
~CC~

terça-feira, maio 18, 2010

Talvez seja...

O sol voltou demasiado intenso, não obstante o quanto gosto dele, a sua luz entra-me olhos dentro, esgotando-os. Ou talvez seja antes o vento transportando tanta poeira ou quem sabe sementes que aqui teimam em encontrar um lugar para fazer florir estrelízias. Talvez sejam apenas lágrimas por chorar, é a falta de sal para os lavar. Ou é antes a maré negra que do outro lado do mundo sufoca a vida e alastra no meu sangue. Talvez seja a esperança a não querer nascer, ou um último delírio da ave do amor. Talvez sejam vestígios impertinentes de sonhos por cumprir.

E, no entanto, os farmacêuticos irão dar-me o colírio do costume.
~CC~

domingo, maio 16, 2010

Bolas de sabão

Poderia escrever dois ou três volumes com a sua vida. Se eu escrevesse livros. Se ele não fosse o meu pai. Oiço-o agora que a morte o espreita, e é como se olhasse ao espelho os nove anos da minha infância que passei com ele. Não são nove anos, é um tempo de terra vermelha para sempre na pele, é não poder esquecer. Todas as coisas que nunca esqueci mas estavam cobertas pelas lágrimas secas e pela poeira parecem estar ali, tão vivas, tão inteiras, tão dolorosas, tão luminosas.

Saltam de repente as duzentas galinhas que viveram um tempo no quintal e a banheira cheia dos seus ovos, vem o homem do carro branco para me levar de novo e me aprisionar, e até a doçura das bolas de sabão sopradas nos pequenos troncos de mamoeiro me parece estar ali, ao dobrar da esquina. Ele conta histórias, ele conta muitas histórias, são assim as pessoas que se tornam velhas e estão doentes, as pessoas que sabem que vão viver pouco tempo. E apetece mergulhar nelas, saber se tive mesmo infância, se aconteceu. Não sei se é apenas uma maneira de me encontrar ou apenas mais uma para me perder.
~CC~

sexta-feira, maio 14, 2010

Diário a cores (IX)

AMARELO(s)
de Ouro
(Sevilha, 2010)


quinta-feira, maio 13, 2010

Semi-breves (IX)

Em outdoor a moça gordinha olha-se no espelho de corpo inteiro que lhe devolve uma imagem esbelta, praticamente metade do que ela é em massa corporal. Algures há um produto maravilhoso que produz tal efeito, mas curiosamente nao sei qual é. Fixei-me no espelho, e dei por mim a pensar onde é que se venderiam espelhos como aquele, capazes de produzir alterações de forma e outros milagres afins. Portanto, deve ser boa esta publicidade.
~CC~

quarta-feira, maio 12, 2010

Só existir (II)

As grandes religiões monoteístas têm as mãos muito marcadas pela cinza, pela terra que queimaram para poderem crescer. São religiões de poder, mesmo nos Estados ditos laicos como o nosso. Essa aliança com o poder é que as torna potencialmente perigosas, e no entanto elas não lhe viraram o rosto para se tornarem simplesmente rosto comum, rosto do povo, bem pelo contrário. São grandes sistemas de dominação sobre o indivíduo, sobre a sua liberdade. Não se pode ser de uma coisa que é isto, que é também isto, não lhes posso pertencer.

Os Ateus acham que são capazes de dizer e quase provar que Deus não existe, a maior parte das vezes usando a Ciência como legitimação, a sua arrogância é quase tão grande como a daqueles que afirmam a existência de Deus. Não se percebem como gota de água num universo atrozmente desconhecido, e ignorando a profunda pequenez da existência humana, não se pode perceber a fragilidade do nosso existir. Desprezar os crentes não me parece posssível, e por isso também não lhes posso pertencer.

Aos Agnósticos talvez pudesse pertencer, não fora pensar que eles não são isso nem outra coisa, que são um meio caminho, um talvez, afinal um quase nada. E eu gosto de ser, então como ser uma coisa que não é?

O que eu gosto de ser é daquela mesma natureza que as pessoas que hoje orientaram em silêncio comovido o cego pelo labirinto dos corredores na estação do comboio, daquela solicitude contida e atenta. Ser alguma coisa de profundamente humano, e por isso triste. Ser alguma coisa de esperança, e por isso profundamente alegre.

~CC~

terça-feira, maio 11, 2010

Só existir

Setúbal, Maio 2010. caminhadas matinais. Foto da amiga C.

Só existir, sem Deus de nenhuma religião, sem clube de futebol, sem partido político. Vejo-lhes a festa nos rostos, nas vestes, no olhar, sinto-lhes a alegria a uma distância de anos luz. Tenho pena às vezes de não poder entrar na multidão, diluir-me num mar de rostos e de vozes, a minha identidade tão misturada na deles, como se um parto nos tivesse feito nascer ali. Deve ser boa a alegria, deve ser bom perder por um momento a razão.

Comigo não se passa nada, não há entusiasmo pelo Benfica nem por nenhum outro, não sou nem contra a vinda do Papa, nem a favor dela, não rejúbilo nem me revolto. Comigo não se passa nada, não tenho como me ligar aos outros. Minto talvez, algumas lutas pelos direitos das pessoas entusiasmam-me, ainda me maravilho com a utopia em forma de letra na Declaração dos Direitos Humanos. E é tudo, é quase tudo


Falta ainda a luz desta manhã, quando me deparei com vastas áreas cobertas de papoilas, talvez esse deslumbramento me possa unir a alguém.

~CC~

segunda-feira, maio 10, 2010

600

Um número redondo-a mensagem 600-que dedico às palavras dos outros, à companhia que por vezes elas são, ao(s) mundos que me trazem para dentro de casa, só isso é verdadeiramente importante na blogosfera: os horizontes.


Com o Café margoso viajo até Cabo Verde, um país que me fascina, onde gostava de viver uns tempos ou talvez para sempre. O seu autor é além de tudo o mais, uma pessoa do Teatro. E espero conseguir ir ao festival do Mindelo o mais breve possível, porque o teatro africano é outro respirar.

Com o Obviário, oiço a voz íntima de uma mulher a olhar-se ao espelho, mesmo quando é a realidade que ela olha. Simples ou complexa, mas sempre sem pretensões, igual a si própria.

Com o repórter à solta, o mundo é de facto uma viagem, quer se trate de uma cidade ou de uma pessoa, as suas palavras despem as coisas com uma profundidade tão intensa mas tão simples. É jornalismo de primeira.

Com o Teatro Anatómico as reportagens do quotidiano são os nossos olhos também, as coisas que vemos mas que nem sempre somos capazes de as dizer como ele as diz, e além disso há ainda as notas sobre livros e escritores, a alimentar qualquer um que tenha fome de saber.

Com a Merenda de Saturno mergulhamos em imagens muito belas e originais às quais se ligam relatos curtos de uma grande intensidade poética, talvez um lanche planetário de fumo doce amargo, triste e luminoso.

E com o Papel de Fantasia, há um jogo de imagens, personagens, palavras, num trilho que é tão lúdico quando lúcido.

Já não chega colocá-los nos favoritos, é preciso que a barra lateral se encha com a sua referência. E não tiro de lá ninguém, nem mesmo o Elefante Branco ou o Canto do Sul que fecharam os seus blogues, tenho esperança que ainda voltem para os meus horizontes (espero mais um tempo, ou deixo-os ficar porque assim são mais memória viva).
~CC~

domingo, maio 09, 2010

Diário a cores (VIII)


LILÁS
(Praga, 2007)

sábado, maio 08, 2010

Poesia dita


"Venha ler em voz alta na Casa Fernando Pessoa"
Ler Mário Benedetti, um ano depois da sua morte.

(Gostava muito! O que faço à timidez? Está totalmente domada noutras situações de exposição pública, mas...)


Papel mojado

Con ríos
con sangre
con iluvia
o rocío
con semen
con vino
con nieve
con llanto
los poemas
suelen
ser
papel mojado.

Mario Benedetti

sexta-feira, maio 07, 2010

Coisas sem nome

Primeiro ergueram as colunas, que pareciam frágeis. Depois colocaram à volta delas uma espécie de armaduras, intrigantes porque não lhes detectavámos a função. Ele disse que eram andaimes para trepadeiras. Eu achei que eram um apoio essencial para lhes manter a estrutura débil. Hoje tiraram-nas, não passaram afinal de uma estrutura passageira para ajudar a consolidar o cimento.

Somos assim, imaginamos sempre o que vai ser, não aguentamos não saber, não ter nome para as coisas. Se elas não têm nome, é melhor que morram para não nos acordarem angústias. Há poucos dias, C na mesa do café, povoada por casados e solteiros, todos de estatuto definido, perguntava-me, e tu o que és? E secou-me estranhamente a boca. Devia ter-lhe dito o quanto destesto jantares de casais, ou saídas de mulheres sós, o quanto detesto compartimentos estanques, casinhas. Dizer-lhe o quanto foi difícil ao longo da vida viver fora das categorias, às vezes só sobreviver fora delas. E é verdade que as experimentei, já tive uma aliança no dedo e um papel passado a designar outro estado civil. E, no entanto, a felicidade dentro delas não passa muitas vezes de um simulacro.

Fico portanto do lado das coisas sem nome, as coisas que são só coisas, ou para as quais invento eu os nomes.
~CC~

quinta-feira, maio 06, 2010

Rendilhado

Os bilros, esse matreaquar de madeira donde sai a renda. Essa mulher sozinha em convívio com a alvura dos fios. Há entre o seu tecer e o meu tecer a analogia das horas gastas sem dar conta.

E de quando em quando estas interrupções intensas na solidão dos dias deixam um lastro de exaustão emocional sem precedentes. Uma quinzena densamente povoada de gente, como há muito não acontecia.

Estes encontros, nenhum deles marcado pela tristeza, pela revolta, pela amargura, traços que tantas vezes marcaram o meus encontros de labor, mostraram-me duas faces, duas que são só uma e é a minha face. Ainda é possível fazer com que das minhas mãos nasçam estrelas, elas têm com elas a memória de uma alegria que não se perdeu inteiramente, basta confiar para que se ilumine o que em mim é ainda luz. Mas quando nos habituamos a ser pessoas sós, viradas para dentro em exilío de vozes, não mais deixamos de precisar desse silêncio. É como se ele nos viciasse. É a renda à nossa espera.

Regresso pois a mim, ao rendilhado interior dos dias.
~CC~

quarta-feira, maio 05, 2010

Pequenas asas

Estava sempre a repetir perante a insistência da professora face à demonstração da sua preguiça: não quero ser um escravo. Não era frase para um miúdo de 14 anos, que a atirava ao mundo como um tratado de filosofia para pobres de alma ou como uma terapia para dependentes da economia de mercado. Anos depois lá estava a arrumar carros, e quando a professora estacionou diante dos seus olhos, foi a correr abrir-lhe a porta com orgulho: está a ver, não me tornei num escravo! E o que és então? Perguntou-lhe a professora curiosa. Eu, respondeu espantado com a questão dela, eu sou um ser humano. Mas na verdade pequenas asas cresciam-lhe no lugar dos braços.
~CC~