sexta-feira, setembro 17, 2010

Descaminhos

Irrompeu por ali no meio do átrio, com a seu cabelo loiro e um sorriso grande, uma rapariga bonita que já não via há uns três anos. Veio ao meu encontro com os passos certos e quando me ia dar os dois beijos comuns, agarrou-se a mim num abraço. No meio do átrio cheio de alunos trajados a rigor, assim sem vergonha, ela ex.aluna e eu sua ex.professora ficámos por um momento abraçadas, comovidas.

Perguntei-lhe pela vida, ao que ela respondeu que a vida ia bem, mas que decidira mudar de vida e estava ali para estudar outra vez. Tinha dado aulas sim, mas tinha começado a cantar à noite, e agora tinha-se tornado sério, e ia gravar um disco. Ainda pensei que vinha então estudar música, mas disse-me que não, que tinha escolhido Comunicação Social. E como eu não estava a ver relação evidente completou: é para abrir horizontes, e preciso de estar a estudar, faz-me bem. Vou gostar de a ver por cá, respondi-lhe, mais ou menos certa de que a vida é um cruzar contínuo de caminhos, muitos deles inesperados. E que ainda hei-de abrir a minha loja de mil chás.
~CC~

quinta-feira, setembro 16, 2010

Constatações

Vento do Sal. Cabo Verde. 2007


O coração é papel
rasgado, amarrotado, torcido
e ainda assim
pronto a ser alisado
ficar como novo
transformar-se em papagaio
riscar o céu

O coração é sopro de ar
fiozinho, vendaval, aragem
e ainda assim
pronto a respirar compassado
se lhe apanharem o ritmo certo
transformar-se em saxafone
arrepiar a noite

o coração não morre
só quando já morto.


~CC~

quarta-feira, setembro 15, 2010

Lugares onde ir (II)

56ª Edição
FESTIVAL DE MÉRIDA • Diocles, 1 - 06800 Mérida
Tel. 924 009 480 Info: 924 004 930
oficina@festivaldemerida.es • http://www.festivaldemerida.es/

A programação era apelativa e o lugar belissímo, há muito colocado na minha agenda. Dá-me alento saber que quando entramos no site, nos avisam que já preparam a 57ªedição. Enquanto o Outono espreita, posso assim sonhar com uma noite do próximo Verão no teatro romano de Mérida. Há sonhos mais complicados.

~CC~

terça-feira, setembro 14, 2010

Outra

Como eu gostava de ter uma carapaça onde me esconder como fazem as tartarugas quando qualquer ameaça se aproxima.

Sim, já sei. Não é um modo de um ser humano viver.

Mas precisava.

Ou então de um vento doce, que me desse vontade de ser um guarda-rios. Quem me dera andar de asas a visitar todos os rios um por um, fazer-lhes as curvas. As curvas dos rios sempre me interessaram.

Outra coisa que não pele exposta.

~CC~

segunda-feira, setembro 13, 2010

Cheiro a papel novo



Há coisas que nos tentam, por exemplo o cheiro a papel de um livro novo, pronto a sair da gráfica.

http://quetzal.blogs.sapo.pt/229382.html


Mas isso de ter que ser obrigatoriamente através do Facebook...


Fica para a próxima!


~CC~

Dos dias

Fazemos uma festa a cada dia que o calendário pessoal ou colectivo marca como de alegria. Nuns nascemos, noutros iniciámos um namoro, ou casámos, ou tivémos filhos. Já me trouxeram sempre flores nesse dias, e eu gostava. Para o colectivo é Natal, passagem de ano, Carnaval...ou simplesmente início de ano lectivo. Muitas vezes esses dias foram mesmo festa cá dentro, um riso intímo e precioso, outras só uma forma de esconder melhor a tristeza.

Mas a memória que habita cada dia triste é, até morrer apagada pelo tempo, um latejar de dor. Escondemos esses dias, até de nós. Mas um dia descobrimos que foram tão ou mais importantes que os dias felizes, que o fundo do poço tem escondida uma outra luz que somente ainda não nos é acessível.

E isto é só por ser dia 13.


~CC~

domingo, setembro 12, 2010

Mensagens na neve

O titulo do filme tem um ar banal, de policial barato: "O Caso Farewell".
E começa com um tiro afastar a quietude dos pássaros que voam sobre a neve. E assim acaba.
A história é baseada em factos e pessoas reais ocorridos no tempo da guerra fria, culturalmente interessante para a compreensão do mundo que hoje temos, que hoje somos.

Mas registo apenas:
Dois homens que se tornaram amigos e que nunca se irão trair, e o abismo estava ali, entre eles e à volta deles. Um dos homens é Russo e deixou de ser comunista, mas não é verdade, ele é, os outros é que deixaram de o ser. Está perdido no meio dos seus. E não tem outro lugar, não fugirá. A sua traição não é traição, é um tiro para fazer voar as aves da lama onde enterravam as patas.
Um dos homens é Francês, mas a sua simplicidade é tão desarmante, que em nada se assemelha à soberba com que os franceses costumam olhar o mundo. E não tem com o seu país nenhum romance, só quer criar os seus filhos em paz. Na hora certa gritará, sem medo das palavras, que o ocidente vive do marketing da palavra liberdade.

Todos procuramos amigos assim, capazes de nos fazer rir e de nos limpar as lágrimas. Não precisam de ser muitos nem de estar sempre connosco, é a confiança a base de todos os elos.

Dois homens tão improváveis bebendo conhaque para derreter a neve.

~CC~

(nas sessões da tarde de Domingo as pessoas vão sozinhas ao cinema, e são muito poucas, olham a solidão umas das outras com uma simpatia envergonhada)

A pomba da pata partida

Não era um homem conhecido pela sua bondade, e toda a vida tinha desprezado laços, ou tinha-os perdido devido ao seu mau feitio. Todos lhe conheciam essa faceta, e os mais próximos já tinham deixado de o tentar amar, em algum lugar eles sabiam que ele esconderia um gesto de desprezo.

Não era um homem mau, ninguém se queixava verdadeiramente de uma ofensa sem remédio, de um mal sem um pedido de desculpa, e era possível recordar um gesto de carinho, um braço que tinha posto sobre os ombros dos filhos, uma mão dada à mulher, umas das muitas mulheres que teve.

A ambiguidade do que se sentia por ele era tremenda, e atirava-nos a nós, mais do que a ele, para um lugar escuro, uma espécie de beco sem saída. A vontade de bater a porta e não mais voltar era grande, mas voltaríamos sempre, porque o que fazíamos já não era por ele mas por nós, para calar culpas e remorsos futuros.

Comigo tudo era pior. Em parte por causa da pomba da pata partida. A história que ele me tinha contado num daqueles dias mais dificeis, quando ainda morava naquela que tinha sido a sua casa. Um intelectual, um antigo coronel, um homem do poder, um mestre espiritual não alimenta pombas no jardim ou na praça, e por isso ele fazia-o na sua varanda. E murmurava num daqueles regressos do hospital: que será das minhas pombas...E a da pata partida, aquela que me vinha comer à mão, aquela que eu protegia, afastando todas as outras...nunca a deixavam comer. Pensei que se tratava de um delírio de doente. A compaixão era um sentimento que não lhe assentava.

Mas quando tirei tudo da casa, sem tocar na varanda horrivelmente suja das pombas, ainda olhei a ver se a via. E pensei nela, na pomba da pata partida, entregue agora a uma luta mais dura. E por causa dela, um rombo no meu coração, esse que eu julgava de todo protegido dele e do que pensara ser o seu desamor de toda uma vida.
~CC~

sábado, setembro 11, 2010

Lugares a ir (I)

"Afinal, somos filhos dos Flagelados do Vento Leste. Todos os anos morremos com as dificuldades mas ressuscitamos com os novos desafios que enfrentamos".
imagem e frase de: http://www.mindelact.com/welcome.html


Temos lugares cá dentro anos e anos a amadurecer a vontade de ir. Não são a razão para viver, mas juntam-se microscopicamente uns aos outros e pesam, correm-nos na alma como luz que nos vem aos olhos de quando em quando. Direi dos meus, não para não os esquecer, mas na esperança de que este registo seja um modo de ganhar asas.
~CC~

quinta-feira, setembro 09, 2010

Fotossíntese


Gosto dele desde Nenhum Olhar, mesmo lhe reconhecendo obras maiores e outras menores, o que só lhe fica bem, torna-o o ser humano que é. E às vezes apanho-lhe as palavras por aí.

"Amar é um esforço intelectual. E quando se ama muito e só, sem espaços de sombra, transformamo-nos num sol. As plantas vivas dependem dessa estrela para chegarem à fotossíntese. Chamem-me hippy, chamem-me o que quiserem. Em qualquer dos casos, continuarei a saber de cor a letra do Something to believe in, Ramones, 1986.
José Luís Peixoto, revista Visão, 9 de Setembro.

~CC~

quarta-feira, setembro 08, 2010

Raízes

Lembro-me de outro Setembro, oito anos antes.

Esta cidade pela primeira vez, um quarto andar sem elevador, num prédio envelhecido de casas alugadas, zona de brasileiros, de gente de leste, de pessoas sem hipótese de comprar casa. Como eu, lutando para o salário dar para o essencial. Deles pouco sei, mas eu respirava liberdade mesmo com a carteira (quase) vazia. Não tinha medo de (quase) nada, muito menos da fama de cidade violenta que esta tinha. Eu, e uma miúda de sete anos pronta a ir para uma nova escola primária.

Mas nunca pensei realmente ficar, senti-me sempre em trânsito. E tinha nascido em Luanda, por isso era Angolana, estava apenas à espera de voltar. Ou de ir para qualquer outro lugar quente, longe desta Europa sufocante que nunca tinha querido como o meu destino. E depois fui, por acaso também em Setembro, foi o meu primeiro aniversário longe da família, mas pensava eu, na minha casa verdadeira. Nada mais errado, aquele país não era o meu. Não quereria lá viver, apesar de cortarem as bananas exactamente como eu sempre as corto, sem nunca ter conseguido explicar porquê. E da cor da terra, sangue quente como nenhum outro.

Voltei ainda mais sem país do que quando parti, mas menos em trânsito, como se qualquer coisa tivesse morrido com aquela viagem, creio que uma parte dos meus sonhos africanos. Afinal, marcada a ser coisa nenhuma.

E nunca mais pensei em ir onde quer que fosse, nem em ficar aqui.

Mas ontem deram-me em segredo, baixinho, um convite. E creio que a ninguém ele podera ter comovido como aconteceu comigo. Na verdade um simples convite para a festa de aniversário de um bar/restaurante, qualquer coisa para clientes, tudo banal. Mas à saída ela sorriu e disse: quero-vos cá às duas! (pois, a miúda cresceu). Creio que só as pessoas sem raízes se comovem quando as agarram à terra, grande parte das outras até sente as raízes como uma prisão.

Mas eu pensei: se eu me dissolver, afinal darão conta disso.
~CC~

terça-feira, setembro 07, 2010

Água

Tejo (Ribatejo), Março de 2009


Em geral destesto chuva, excepto quando chega depois de muitos e muitos dias de sol.

E em Cabo Verde aprendi a ver nos rostos das pessoas a tristeza da sua ausência, a saudade com que falavam de antigos rios e ribeiras. Não consigo conceber um país de rios secos, um lugar sem água doce.

Estas gotas foram uma bela variação às lágrimas de Verão, menos salgadas e sobretudo sem peso de mágoas. Nem pareciam chegar ao chão, antes voar livres de peso.

Agora pode vir sol, ainda tenho uns banhos de rio ou de mar para tomar.

~CC~

segunda-feira, setembro 06, 2010

Para sempre


2 Setembro 2010, Vilamoura, fotos de RC

Abraços para sempre

(ou o desejo incomensurável que assim seja)
e ainda
(se existem, nada de cortar os pulsos nem saltar de janelas...)
~CC~

Nota foto 1. Nasceu prematuro com menos de um quilo, esteve duas vezes no limite da vida e venceu. É ainda frágil, mas sobretudo muito bonito, doce e curioso. Encanta-me, temos um entendimento especial, feito da quimíca das coisas simples e boas.
Nota foto 2. A mulher que abraça assim este homem também é uma sobrevivente, entre outras coisas, das desilusões do amor. Teve três fihos a assistir ao seu casamento, e esta foi a primeira vez que o fez, não é apenas coragem, é mais do que isso, é a capacidade de regenerar todas as células mortas, de limpar todas as lágrimas, de rir das cicatrizes.

Setembro

Nasci neste mês dos dias a acabar cada vez mais cedo, neste mês de queimar a terra para deixar lá outras sementes. E sou terra, essa mesma terra que morre para renascer. E eu já morri, por isso só me resta renascer.

Ter nascido neste mês deve ser uma boa razão para chorar pela última vez as coisas perdidas. E quando pensamos nas últimas lágrimas sabemos que ainda são as penúltimas, esse aproximar do fim que não é ainda totalmente fim. Como quando o dia vai acabando e não é ainda nem de noite, nem é já dia.

Esse gosto pelas imagens e palavras disseste tu, e como eu gosto de tudo o que tu dizes, gostei sempre, como um calor que se manteve anos inteiro, como se tivesse congelado. E se o descongelar, encontro intacto o teu azul. E quero-o, mesmo sem nada saber de ti.

Renascer são também as palavras, as imagens, e como posso dizê-las agora com menos sangue, volto aqui. Por pudor, não gosto de blogues manchados de sangue.


Na verdade estou ainda para nascer este mês.
~CC~

sexta-feira, setembro 03, 2010

Uma palavra

Só uma razão para interromper o silêncio de que preciso para limpar o sangue da cansaço que o consome. Pela primeira vez senti necessidade de vir aqui, a este lugar semi público, necessidade de dizer uma palavra.

Só uma palavra para dizer quanto me cala fundo a condenação que mereceram hoje os arguidos da Casa Pia. E tenho a certeza não é nenhum resquício de justiça popular que me move, não é nenhum contentamento por ver quem tem poder ser condenado, não é nada de pessoal.

Acredito nas vitímas é apenas isso, e chega-me. Ninguém inventaria uma história destas, ainda por cima a troco de nada, ainda por cima para ver a vida exposta e se sujeitar a ser tido por mentiroso.

Acredito também na denúncia como acto profundo de coragem.
~CC~

(e agora, mais um tempo de silêncio)

terça-feira, agosto 17, 2010

Já vou



FECHADO
(POR TEMPO INDETERMINADO)


(aos leitores que acompanharam este blogue um grande abraço e um muito obrigado por cada vez que deixaram um comentário)

segunda-feira, agosto 16, 2010

Fora de moda

O que parecia ser tão grande era afinal tão pequeno. O que parecia ser tão difícil de apagar, é afinal tão fácil. Uma pessoa está à mão de um clique delete para deixar de existir, é assim que se funciona no ar do tempo.

Estará para breve o fim das lágrimas como produtos da dor? Deve estar, e eu não sei.

~CC~

sábado, agosto 14, 2010

Jogos de sorte e azar

Penso em escrever
Fechado por tempo indeterminado
e assim abandonar todas as palavras
numa despedida sem compromisso

Penso em ir à tua procura
à minha procura
num lugar que já não existe
nenhum de nós existe já

O silêncio é esse sinal
de um adeus a várias dimensões
de uma partida sem retorno
depois de um tempo de encontro.

Pensamos em coisas absurdas
e mágicas
quando a tristeza nos vem dominar
nas noites de sábado

Pensamos que queremos tudo o que deixámos
e não o queremos já
Pensamos num outro futuro
mas só há vazio quando o pensamos

Pensamos em tudo o que deixamos
quando escolhemos
e que queríamos voltar atrás
escolher outra vez

Escolher outra vez
marcar outras cruzes nos quadrados
onde se escondem os trevos de quatro folhas
os luares encantados

Mas sabemos que nunca nos estará reservado o euromilhões
Que a nossa vida
Esta curta e longa vida
só tem mealheiros de bairro de feira.

~CC~

sexta-feira, agosto 13, 2010

Três peras

Comprei três peras num lugar remoto, muito bonito, junto a um rio. Um lugar onde devia talvez morar. Penso em envelhecer assim, mum lugar onde todos são já velhos também.

As três peras. Uma estava cheia de lágrimas e por isso não a pude comer. A outra estava cheia de um desespero fundo, um desamor lento, deixei-a intacta. A terceira estava vazia, oca, seca, gelada, e deitei-a fora. Ainda tentei enrolá-las nas minhas mãos, mas nada. E ainda assim, sinto as mãos a transpirar do seu odor pesado.

Ainda este Verão comprarei um pedaço de melancia, beberei do seu sumo doce à procura de força e alegria.
~CC~

terça-feira, agosto 10, 2010

A mulher sem ondas

Era uma família zangada, dos quatro apenas o rapaz, na casa dos vinte, não dizia palavra. A mulher, perto dos sessenta, parecia infeliz. Dizia para o marido: sabes quantas vezes eu vim contigo à praia? Posso contá-las pelos dedos de uma mão.

Ela nunca tinha aprendido a nadar.

E era como se dissesse que era uma mulher que toda vida tinha desconhecido o sabor salgado das ondas de espuma. E era uma mulher que dizia ter sido toda a vida, de certa forma, desconhecida do homem com quem vivia.
~CC~