domingo, setembro 12, 2010

A pomba da pata partida

Não era um homem conhecido pela sua bondade, e toda a vida tinha desprezado laços, ou tinha-os perdido devido ao seu mau feitio. Todos lhe conheciam essa faceta, e os mais próximos já tinham deixado de o tentar amar, em algum lugar eles sabiam que ele esconderia um gesto de desprezo.

Não era um homem mau, ninguém se queixava verdadeiramente de uma ofensa sem remédio, de um mal sem um pedido de desculpa, e era possível recordar um gesto de carinho, um braço que tinha posto sobre os ombros dos filhos, uma mão dada à mulher, umas das muitas mulheres que teve.

A ambiguidade do que se sentia por ele era tremenda, e atirava-nos a nós, mais do que a ele, para um lugar escuro, uma espécie de beco sem saída. A vontade de bater a porta e não mais voltar era grande, mas voltaríamos sempre, porque o que fazíamos já não era por ele mas por nós, para calar culpas e remorsos futuros.

Comigo tudo era pior. Em parte por causa da pomba da pata partida. A história que ele me tinha contado num daqueles dias mais dificeis, quando ainda morava naquela que tinha sido a sua casa. Um intelectual, um antigo coronel, um homem do poder, um mestre espiritual não alimenta pombas no jardim ou na praça, e por isso ele fazia-o na sua varanda. E murmurava num daqueles regressos do hospital: que será das minhas pombas...E a da pata partida, aquela que me vinha comer à mão, aquela que eu protegia, afastando todas as outras...nunca a deixavam comer. Pensei que se tratava de um delírio de doente. A compaixão era um sentimento que não lhe assentava.

Mas quando tirei tudo da casa, sem tocar na varanda horrivelmente suja das pombas, ainda olhei a ver se a via. E pensei nela, na pomba da pata partida, entregue agora a uma luta mais dura. E por causa dela, um rombo no meu coração, esse que eu julgava de todo protegido dele e do que pensara ser o seu desamor de toda uma vida.
~CC~

sábado, setembro 11, 2010

Lugares a ir (I)

"Afinal, somos filhos dos Flagelados do Vento Leste. Todos os anos morremos com as dificuldades mas ressuscitamos com os novos desafios que enfrentamos".
imagem e frase de: http://www.mindelact.com/welcome.html


Temos lugares cá dentro anos e anos a amadurecer a vontade de ir. Não são a razão para viver, mas juntam-se microscopicamente uns aos outros e pesam, correm-nos na alma como luz que nos vem aos olhos de quando em quando. Direi dos meus, não para não os esquecer, mas na esperança de que este registo seja um modo de ganhar asas.
~CC~

quinta-feira, setembro 09, 2010

Fotossíntese


Gosto dele desde Nenhum Olhar, mesmo lhe reconhecendo obras maiores e outras menores, o que só lhe fica bem, torna-o o ser humano que é. E às vezes apanho-lhe as palavras por aí.

"Amar é um esforço intelectual. E quando se ama muito e só, sem espaços de sombra, transformamo-nos num sol. As plantas vivas dependem dessa estrela para chegarem à fotossíntese. Chamem-me hippy, chamem-me o que quiserem. Em qualquer dos casos, continuarei a saber de cor a letra do Something to believe in, Ramones, 1986.
José Luís Peixoto, revista Visão, 9 de Setembro.

~CC~

quarta-feira, setembro 08, 2010

Raízes

Lembro-me de outro Setembro, oito anos antes.

Esta cidade pela primeira vez, um quarto andar sem elevador, num prédio envelhecido de casas alugadas, zona de brasileiros, de gente de leste, de pessoas sem hipótese de comprar casa. Como eu, lutando para o salário dar para o essencial. Deles pouco sei, mas eu respirava liberdade mesmo com a carteira (quase) vazia. Não tinha medo de (quase) nada, muito menos da fama de cidade violenta que esta tinha. Eu, e uma miúda de sete anos pronta a ir para uma nova escola primária.

Mas nunca pensei realmente ficar, senti-me sempre em trânsito. E tinha nascido em Luanda, por isso era Angolana, estava apenas à espera de voltar. Ou de ir para qualquer outro lugar quente, longe desta Europa sufocante que nunca tinha querido como o meu destino. E depois fui, por acaso também em Setembro, foi o meu primeiro aniversário longe da família, mas pensava eu, na minha casa verdadeira. Nada mais errado, aquele país não era o meu. Não quereria lá viver, apesar de cortarem as bananas exactamente como eu sempre as corto, sem nunca ter conseguido explicar porquê. E da cor da terra, sangue quente como nenhum outro.

Voltei ainda mais sem país do que quando parti, mas menos em trânsito, como se qualquer coisa tivesse morrido com aquela viagem, creio que uma parte dos meus sonhos africanos. Afinal, marcada a ser coisa nenhuma.

E nunca mais pensei em ir onde quer que fosse, nem em ficar aqui.

Mas ontem deram-me em segredo, baixinho, um convite. E creio que a ninguém ele podera ter comovido como aconteceu comigo. Na verdade um simples convite para a festa de aniversário de um bar/restaurante, qualquer coisa para clientes, tudo banal. Mas à saída ela sorriu e disse: quero-vos cá às duas! (pois, a miúda cresceu). Creio que só as pessoas sem raízes se comovem quando as agarram à terra, grande parte das outras até sente as raízes como uma prisão.

Mas eu pensei: se eu me dissolver, afinal darão conta disso.
~CC~

terça-feira, setembro 07, 2010

Água

Tejo (Ribatejo), Março de 2009


Em geral destesto chuva, excepto quando chega depois de muitos e muitos dias de sol.

E em Cabo Verde aprendi a ver nos rostos das pessoas a tristeza da sua ausência, a saudade com que falavam de antigos rios e ribeiras. Não consigo conceber um país de rios secos, um lugar sem água doce.

Estas gotas foram uma bela variação às lágrimas de Verão, menos salgadas e sobretudo sem peso de mágoas. Nem pareciam chegar ao chão, antes voar livres de peso.

Agora pode vir sol, ainda tenho uns banhos de rio ou de mar para tomar.

~CC~

segunda-feira, setembro 06, 2010

Para sempre


2 Setembro 2010, Vilamoura, fotos de RC

Abraços para sempre

(ou o desejo incomensurável que assim seja)
e ainda
(se existem, nada de cortar os pulsos nem saltar de janelas...)
~CC~

Nota foto 1. Nasceu prematuro com menos de um quilo, esteve duas vezes no limite da vida e venceu. É ainda frágil, mas sobretudo muito bonito, doce e curioso. Encanta-me, temos um entendimento especial, feito da quimíca das coisas simples e boas.
Nota foto 2. A mulher que abraça assim este homem também é uma sobrevivente, entre outras coisas, das desilusões do amor. Teve três fihos a assistir ao seu casamento, e esta foi a primeira vez que o fez, não é apenas coragem, é mais do que isso, é a capacidade de regenerar todas as células mortas, de limpar todas as lágrimas, de rir das cicatrizes.

Setembro

Nasci neste mês dos dias a acabar cada vez mais cedo, neste mês de queimar a terra para deixar lá outras sementes. E sou terra, essa mesma terra que morre para renascer. E eu já morri, por isso só me resta renascer.

Ter nascido neste mês deve ser uma boa razão para chorar pela última vez as coisas perdidas. E quando pensamos nas últimas lágrimas sabemos que ainda são as penúltimas, esse aproximar do fim que não é ainda totalmente fim. Como quando o dia vai acabando e não é ainda nem de noite, nem é já dia.

Esse gosto pelas imagens e palavras disseste tu, e como eu gosto de tudo o que tu dizes, gostei sempre, como um calor que se manteve anos inteiro, como se tivesse congelado. E se o descongelar, encontro intacto o teu azul. E quero-o, mesmo sem nada saber de ti.

Renascer são também as palavras, as imagens, e como posso dizê-las agora com menos sangue, volto aqui. Por pudor, não gosto de blogues manchados de sangue.


Na verdade estou ainda para nascer este mês.
~CC~

sexta-feira, setembro 03, 2010

Uma palavra

Só uma razão para interromper o silêncio de que preciso para limpar o sangue da cansaço que o consome. Pela primeira vez senti necessidade de vir aqui, a este lugar semi público, necessidade de dizer uma palavra.

Só uma palavra para dizer quanto me cala fundo a condenação que mereceram hoje os arguidos da Casa Pia. E tenho a certeza não é nenhum resquício de justiça popular que me move, não é nenhum contentamento por ver quem tem poder ser condenado, não é nada de pessoal.

Acredito nas vitímas é apenas isso, e chega-me. Ninguém inventaria uma história destas, ainda por cima a troco de nada, ainda por cima para ver a vida exposta e se sujeitar a ser tido por mentiroso.

Acredito também na denúncia como acto profundo de coragem.
~CC~

(e agora, mais um tempo de silêncio)

terça-feira, agosto 17, 2010

Já vou



FECHADO
(POR TEMPO INDETERMINADO)


(aos leitores que acompanharam este blogue um grande abraço e um muito obrigado por cada vez que deixaram um comentário)

segunda-feira, agosto 16, 2010

Fora de moda

O que parecia ser tão grande era afinal tão pequeno. O que parecia ser tão difícil de apagar, é afinal tão fácil. Uma pessoa está à mão de um clique delete para deixar de existir, é assim que se funciona no ar do tempo.

Estará para breve o fim das lágrimas como produtos da dor? Deve estar, e eu não sei.

~CC~

sábado, agosto 14, 2010

Jogos de sorte e azar

Penso em escrever
Fechado por tempo indeterminado
e assim abandonar todas as palavras
numa despedida sem compromisso

Penso em ir à tua procura
à minha procura
num lugar que já não existe
nenhum de nós existe já

O silêncio é esse sinal
de um adeus a várias dimensões
de uma partida sem retorno
depois de um tempo de encontro.

Pensamos em coisas absurdas
e mágicas
quando a tristeza nos vem dominar
nas noites de sábado

Pensamos que queremos tudo o que deixámos
e não o queremos já
Pensamos num outro futuro
mas só há vazio quando o pensamos

Pensamos em tudo o que deixamos
quando escolhemos
e que queríamos voltar atrás
escolher outra vez

Escolher outra vez
marcar outras cruzes nos quadrados
onde se escondem os trevos de quatro folhas
os luares encantados

Mas sabemos que nunca nos estará reservado o euromilhões
Que a nossa vida
Esta curta e longa vida
só tem mealheiros de bairro de feira.

~CC~

sexta-feira, agosto 13, 2010

Três peras

Comprei três peras num lugar remoto, muito bonito, junto a um rio. Um lugar onde devia talvez morar. Penso em envelhecer assim, mum lugar onde todos são já velhos também.

As três peras. Uma estava cheia de lágrimas e por isso não a pude comer. A outra estava cheia de um desespero fundo, um desamor lento, deixei-a intacta. A terceira estava vazia, oca, seca, gelada, e deitei-a fora. Ainda tentei enrolá-las nas minhas mãos, mas nada. E ainda assim, sinto as mãos a transpirar do seu odor pesado.

Ainda este Verão comprarei um pedaço de melancia, beberei do seu sumo doce à procura de força e alegria.
~CC~

terça-feira, agosto 10, 2010

A mulher sem ondas

Era uma família zangada, dos quatro apenas o rapaz, na casa dos vinte, não dizia palavra. A mulher, perto dos sessenta, parecia infeliz. Dizia para o marido: sabes quantas vezes eu vim contigo à praia? Posso contá-las pelos dedos de uma mão.

Ela nunca tinha aprendido a nadar.

E era como se dissesse que era uma mulher que toda vida tinha desconhecido o sabor salgado das ondas de espuma. E era uma mulher que dizia ter sido toda a vida, de certa forma, desconhecida do homem com quem vivia.
~CC~

domingo, agosto 08, 2010

As ondas à noite

O menino, cerca de cinco anos, seguia perto do pai, sem que sentisse necessidade de lhe dar a mão.

-Pai, é verdade que a praia está aberta de noite?
- Sim, nunca fecha.
- E há pessoas que tomam banho à noite?
- Quase nenhumas, faz frio.
- E de que cor são as ondas à noite?

Silêncio do pai
Silêncio do menino

Fico a pensar: Ali está um menino que irá gostar de poesia.

~CC~

sábado, agosto 07, 2010

Agosto (III)

A cidade, esta capital pobrezinha e sem mar, mal respira no calor. Gosto em parte dela pelos seus defeitos, é quase um Algarve interior, e há anos que parece parada, adormecida. Todos os anos junto à doca há várias feiras, chegam inevitavelmente em Agosto, numa disputa impossível de turistas com outros lugares, esses sim na ribalta.


Nunca achei a feira do livro tão pobre como este ano, meia dúzia de barracas sem brilho. Ainda me lembro há anos atrás de ficar extasiada com a presença do José Luís Peixoto, a assinar livros com aquele sorriso de miúdo reguila. Nessa altura ainda apareciam alguns escritores, havia alguma luz sobre eles, filas pequenas para autográfos, mas ainda assim algumas pessoas.

Não devia comprar mais livros por ora, não devia ler a não ser os livros cinzentos aos quais estou obrigada, presa, amarrada. Às vezes não sei como me prendi assim. Se fosse mesmo a sério isto na minha vida eu ficaria cinzenta da cor dos livros que tenho para ler.

Os olhos param na Peregrinação de Emmanuel Jhesus, há uns anos passei o Verão num monte alentejano alumiado por um gerador que se apagava cedo, e ficavámos só com as estrelas. De dia lia a Baia dos Tigres, Pedro Rosa Mendes era a minha outra companhia diurna junto ao mar agreste. Curiosamente o bar da praia chamava-se bar do tigre. Parada a olhá-lo iluminam-se os olhos, é aquela a minha cor, as cores todas de mim. Deve ser por isso que me compras o livro, que o trazemos para casa ao arrepio de tudo o que deveria ser.

~CC~

quinta-feira, agosto 05, 2010

Muros brancos



Duas mulheres, uma mais velha, outra mais nova, manhã muito cedo. Elas caiavam o muro enquanto entoavam canções, velhas canções ouvidas das suas mães. Dizem que no Alentejo as mulheres tornam as casas brancas mas não cantam. Estas cantavam e olhavam-nos de soslaio, entre o medo do desconhecido e a vontade de dois dedos de conversa. Sorrisos meios, vergonha muita.


Vindas de outro tempo estas mulheres na aldeia pacata ao pé do mar, hoje só um lugar de férias. Elas no mesmo tempo que nós, do mesmo tempo, e ainda assim noutro tempo. No minuto do sorriso iguais, eu e elas, apenas mulheres entoando, olhos postos no mar. É preciso que os muros sejam brancos, muito brancos.
~CC~

segunda-feira, agosto 02, 2010

Agosto (I)

Tantas palavras
milhares de letras em equilíbrio instável
Como te escreveste tantos anos
anos e anos a fio

Tantas palavras
Um vazio tão grande
Um amargo tão intenso

Quero ver tudo
Não quero ver nada

Um risco
Tu não existes
Mas estás aqui
Mais que nunca estás aqui.

~CC~

Agosto

O silêncio do olhar
Tanto silêncio
Como-o devagarinho à procura do que ele me diz.

~CC~

domingo, agosto 01, 2010

Belos fios

Tem um nome bonito: FIAR. Fiar, uma arte que não sendo na rua, como acontece com este festival, sai das mãos, dos longos serões dos dedos e dos fios. Assim são também estes espectáculos, começamos por ver apenas um fio, e só no fim a magia se revela inteira. A rua era o palco natural do teatro, a noite inteira e meia lua brilhante.

Do Pino do Verão, essa descida poética pela encosta do castelo, ao som da orquestra, já muito foi dito. Este ano apanhei-a quase no fim, só consegui chegar praticamente para os aplausos. Quando se vê pela primeira vez sentimos estremecer o coração, depois, mais habituado, já consegue bater só mais forte.

Mas esta noite vi duas belas peças recortadas pela noite, uma nos telhados do cine teatro (que bela ideia esta de habitar os telhados) e outra num pequeno largo, penso que de nome "passo da formiga". Das noivas trapezistas, guardei a beleza vagorosa das suas asas esbeltas, verdadeiras mulheres pássaro, aladas e guerreiras, e ainda assim tão terrenas que lutavam por um vestido branco de noiva. Dos seres cinzentos, temerosos, de rostos só com olhos (poderosas máscaras) habitando caixas frágeis, guardei-lhes o medo dos seres humanos, ao mesmo tempo que revelavam um desejo imenso pelo contacto, pela comunicação, uma vontade de cruzar a fronteira do outro. Acabaram a servir sopa quente ao público, e nunca tinha visto tantos meninos com vontade de comer sopa. Impressionantes as suas caixas móveis, mistura de abrigos de guerra, casas confortáveis, carros sem rodas, lojas ambulantes. Teatro alemão de rua.

O Verão é também isto, a noite na rua, uma outra vida a acontecer.
~CC~

quinta-feira, julho 29, 2010

Notas de memória



A diferença é que não vamos e voltamos. Assistimos ao amanhecer e ao anoitecer, avaliamos a diferença da humidade em cada crepúsculo. Temos tudo para ver. A praia está ainda deserta às oito, pouco depois chegam os homens com os cães para um passeio rápido antes da chegada das familias. Percebemos como as pessoas trazem com elas o ruído, como elas levam o silêncio. Alguns lugares são sempre ocupados primeiro, sempre em redor dos salva-vidas, à volta da sua torre de observação. Talvez a ilusão de que estarão a salvo.


Aprendo, sei coisas. Sei que a escola de Surf começa a aula sempre ao meio-dia. Sei como começa e acaba a aula, sei quem falta e quem é assíduo. Tento adivinhar em que zona irão colocar as bandeiras. Aprendo coisas. Sei a que horas será varrida a esplanada do mar, quem a varrerá, quem mais logo fechará os chapéus de sol. Sei alguns dos nomes das pessoas, algumas das suas histórias, coisas que nunca soube de outros lugares em que não permaneci.


Sei que o silêncio volta assim que o sol desaparece, e que parecemos um navio calado em pleno oceano, somos só meia dúzia de casas brancas que se fecharam como se fossem malmequeres. Faz frio à noite, há um vento gelado que a sul só só corre ali nas praias daquela costa, durmo com um cobertor em pleno Verão.


Aprendo coisas sobre os abraços da água doce com a água salgada, sobre essa diferença de densidade que antes me perturbou tanto, aprendo como podem conciliar-se sem se anular.


~CC~