quinta-feira, julho 29, 2010

Notas de memória



A diferença é que não vamos e voltamos. Assistimos ao amanhecer e ao anoitecer, avaliamos a diferença da humidade em cada crepúsculo. Temos tudo para ver. A praia está ainda deserta às oito, pouco depois chegam os homens com os cães para um passeio rápido antes da chegada das familias. Percebemos como as pessoas trazem com elas o ruído, como elas levam o silêncio. Alguns lugares são sempre ocupados primeiro, sempre em redor dos salva-vidas, à volta da sua torre de observação. Talvez a ilusão de que estarão a salvo.


Aprendo, sei coisas. Sei que a escola de Surf começa a aula sempre ao meio-dia. Sei como começa e acaba a aula, sei quem falta e quem é assíduo. Tento adivinhar em que zona irão colocar as bandeiras. Aprendo coisas. Sei a que horas será varrida a esplanada do mar, quem a varrerá, quem mais logo fechará os chapéus de sol. Sei alguns dos nomes das pessoas, algumas das suas histórias, coisas que nunca soube de outros lugares em que não permaneci.


Sei que o silêncio volta assim que o sol desaparece, e que parecemos um navio calado em pleno oceano, somos só meia dúzia de casas brancas que se fecharam como se fossem malmequeres. Faz frio à noite, há um vento gelado que a sul só só corre ali nas praias daquela costa, durmo com um cobertor em pleno Verão.


Aprendo coisas sobre os abraços da água doce com a água salgada, sobre essa diferença de densidade que antes me perturbou tanto, aprendo como podem conciliar-se sem se anular.


~CC~




segunda-feira, julho 26, 2010

Bichos e ervas do mar

Crescer verde no azul.


Deixar um infímo espaço entre uns e outros.


Agarrar muito a rocha em plena onda.


domingo, julho 25, 2010

A casa na Praia

(Julho, 2010, lugar onde desagua a ribeira dos seixos, hoje Praia de Odeceixe)


Há muito que desejava não ter entre mim e o mar mais do que meia dúzia de metros.Temos delírios maiores e outros pequenos, singelos. Eu tinha este, uma casa na praia. Adormecer com o barulho das ondas e acordar com o mesmo som, dias e dias assim, feitos da monotonia da observação das marés, actividade que pratiquei intensamente no deslumbramento do encontro entre a ribeira e o mar, esse abraço de misturar águas e trocar seres vivos.

Um desejo satisfeito não é um desejo morto, é a memória que fica de um bocado de vida que mordemos, saboreámos.
~CC~

sexta-feira, julho 16, 2010

Outra latitude


A Ardósia fica a ganhar pó, quando voltar, com os meus próprios dedos poderei riscá-la.


~CC~
Imagem retirada de : http://www.portaldoastronomo.org/tema_pag.php?id=2&pag=4

quinta-feira, julho 15, 2010

Ainda esses meninos sem mar

A menina sem banhos de mar no café da manhã, ainda ela.

E por causa dela os meus meninos sem mar de há vinte anos atrás, quando a serra de Montejunto era tão longe da linha de água salgada, a milhas do litoral. Ainda os meus meninos com olhos de terra seca, cheios de flores, mas vazios de conchas.

Os meus meninos do tempo em que eu podia dizer os meus meninos, como as professoras primárias dizem ainda, esse traço de posse do coração que atravessou dois séculos. Nunca esquecemos os nossos primeiros alunos, mas os meus, como posso esquecer os sorrisos tímidos, as vozes sumidas, os abraços fugidios. Como posso esquecer que no final dos anos 80, mais de metade nunca tivesse visto o mar. Como é o mar professora?

Se estivesse perto o mar, as ondas chegariam a ouvir-se naquela sala de aula, nunca mais, em nenhuma sala de aula de pequenos e crescidos tive um silêncio assim.

Também a menina, hoje no café, falava baixinho com a sua boneca pequenina, talvez segredando sobre conchas e marés.
~CC~

quarta-feira, julho 14, 2010

As férias grandes da menina

Se eu a pudesse pintar. Desenharia os seus sete anos cheios de tempo, saltitando com a sua boneca minúscula entre as mesas do café, sorrindo aos clientes, pedindo uma palavra, uma atenção. Sorri-lhe levemente, atrapalhada com o tempo, ela bem queria mais conversa.

Se eu pudesse desenhar. Pintaria os seus olhos pretos tão sós, adormecendo o tédio com a conversa tecida com a sua minúscula boneca, enquanto a mãe tira cafés e faz sandes, uma atenção comedida à filha que trouxe para o trabalho. Disse-lhe adeus, atrapalhada com a minha própria desatenção.

(lá longe, os banhos de mar)
~CC~

terça-feira, julho 13, 2010

Pedras

A mulher levava um saco do Pingo Doce onde ia colocando as pedras, nem mil sacos chegariam para as tirar todas da areia. Talvez as quisesse para adornar os vasos, refazer muros, enfeitar parapeitos. Talvez ela pudesse levar também o meu coração, cansado de ser liquído, está a tornar-se duro, perigosamente indiferente a tudo, da textura das pedras da praia, com o mesmo cheiro salgado dentro, mas em vez de mar, memórias de lágrimas, cansaço.

Mas ainda assim sufoca com a notícia da mulher iraniana salva do apedrejamento mas não da morte. Como podemos habitar um mundo onde as mulheres são mortas à pedrada? O coração é um aperto de mal estar. Há quem se indigne, felizmente, é o que parece restar-nos.

O coração distende-se, contudo, com as saudades do teu sorriso, da tua alegria adolescente, do teu olhar de luz. Tenho saudades, isso é ainda sinal do fluir do sangue, do seu bater de mãe.
~CC~

domingo, julho 11, 2010

Sinos de Domingo

Os sinos da Igreja tocam na praia, e em vez de se ouvir o coro, ouvem-se os gritos das crianças nas ondas. Saíram cedo porque o trânsito de Domingo a caminho do mar, é uma epopeia de paciência, um oásis da modernidade duvidosa, é a alegria ao alcance posssível de todos e também o seu contrário, um simulacro da igualdade.


Famílias inteiras em torno de um ou dois chapéus de sol, eles vão ficando por ali, estando como se não estivessem, a maior parte das vezes em pé olhando o mar, preferencialmente agrupados em pares masculinos. Elas controlam tudo, as sandes, os yougurtes, os sumos, elas dividem a comida, colocam o creme, contam o número de banhos dos meninos. A praia é ainda o prolongamento doméstico na reprodução dos papéis.

Excepção feita ao menino e à menina, cada um na sua enorme bóia preta, as bóias parecem as antigas câmaras de ar que os meninos pobres levavam à praia. Os meninos estão lado a lado, desafiam-se nos mergulhos de frente e costas, no equilíbrio em pé e de joelhos, no avançar um pouco mais no mar. O menino e a menina, dez anos, esses têm um outro Domingo só deles. E não esquecerão. Tento fechar os olhos e imaginá-los daqui a vinte anos, e desejo que não se pareçam com nada do que vemos. Fecho os olhos e penso que serão dois flamingos, roçando com o bico as penas um do outro numa carícia leve e intensa.

Não sei se fui à praia ou se tudo isto se passou no largo da Igreja.
~CC~

sábado, julho 10, 2010

Relógio interior

Nunca usei relógio, mas aprendi a viver no espartilho das horas. Nunca fui dona do meu tempo, fui escrava dele. Gastei-o intensamente a estudar e a trabalhar, a maior parte das vezes sem fazer perguntas, assim se evita a dor.

Há uns meses aprendi o que era respirar, olhar os dias como espaços em branco que podia pintar, encher. Nunca fui tão livre, tão feliz. Não devia acabar tão cedo, temo que uma vez feita esta aprendizagem da liberdade, não saiba já conformar-me a ver o relógio dos outros, não saiba já viver sob domínio.
~CC~

sexta-feira, julho 09, 2010

Segredos

É redonda e pequenina como uma concha. Guarda dentro de si um azul líquido e quente onde podemos mergulhar por muito tempo. Não está deserta como prometem os cartazes que nos mentem, mas está cheia de meninos de todas as idades, não há melhor para eles do que ondas pequeninas, e eles agradecem em festa. As pessoas falam com pronúncia da terra, são simples, não se enfeitaram para vir à praia.

Deixei o olhar lá preso nos ninhos das andorinhas escavados na rocha. E não sei se o corpo veio comigo, ou se ficou preso na água tépida.
~CC~

quinta-feira, julho 08, 2010

Coisas antigas

São raras as mulheres talhantes. Esta era alta e forte e assustava quando pegava na faca para esquartejar os pedaços mortos dos bichos. E estava estranhamente bem disposta, gracejando com o colega sobre o filho do Ronaldo.

Contava o que tinha dito ao marido. Contava ao marido que não se importaria de ser ela a barriga de aluguer do Ronaldo, mas que até o podia ser sem a mediação de tubos de laboratório e assim. Uma noite bem passada e já estava. E dava-lhe de bom grado o filho em torno de uma choruda quantia. Afinal pouco lhe custava enriquecer e fazer o homem feliz. E devia ter sido também numa transacção semelhante à que ela idealizava que a criança tinha nascido, e só tinha pena de não ser ela a anónima.

A mulher talhante, os olhos a brilharem ouro, ela deitada na beira de uma piscina, a beber caipirinhas e a comer acepipes. Ela, a contar às amigas, que antigamente as mulheres se realizavam quando eram mães, uma coisa animal entre fêmeas e crias, tretas ultrapassadas.


Ela a dizer que o marido, quando lhe falou no filho que ela teria do Ronaldo, tinha ficado estranhamente calado, pensativo.
~CC~

quarta-feira, julho 07, 2010

Mapa

Marca um lugar no mapa longe deste calor tórrido, mas ainda assim tão quente que ainda seja Verão, que nos apeteça melancia, e cerejas.

Um lugar em que ainda assim nos apeteça, longe deste corpo em estado dissolvente que torna difícil qualquer coisa apetecer. Marca no mapa um lugar em que ainda seja Verão, sem esta pressão sanguínea a latejar, sem a impossibilidade de tantas coisas por acabar. Um lugar onde nada se possa escrever, nenhuma máquina se possa ligar, nenhuma voz se possa manifestar, um lugar habitado pelo silêncio, pelos pés descalços a entrar na água escura do rio, pelo vento que faz passar rápidas as nuvens pelo céu. Um lugar cheio de raízes, e de frutos.

E lembra-te que os mapas foram feitos para nos perdermos.
~CC~

sábado, julho 03, 2010

O que sobra dos dias

A academia no seu processo de catarse, uma espécie de festa, pudesse o saber ser realmente isso, por vezes quase conseguimos. Eu, estendendo a toalha a fingir que aquela era a minha praia, e conseguindo uns bocadinhos de sol. Eu, uma metade de mim. Um sabor a alguma coisa boa, e depois logo um sabor a pouco.


A Espanha a festejar na praça com o meu nome. O Brasil a minguar até o samba se tornar fado. O Eduardo que faz toda a diferença, também por ter uma mulher atleta em vez de uma barbie.

O teu sorriso à minha espera, essa bondade que tardou tanto a aparecer no teu olhar e agora me comove. As árvores do anfiteatro da Gulbenkian cheias do vento da noite, os olhos a fecharem-se no meu cansaço, a voz da Lula Pena feita um lugar quente.

Ela grande, a passar-me em altura, a chamar-me, a inquietar-me, ela a crescer, mais em alegria do que em dor, ela a levar-me tanto do meu coração.

Os sinais cifrados de alguma coisa que não sei, da qual nunca tenho a certeza. A vida, sempre este mistério, esta incerteza, estas pessoas no limbo de existirem ou desparecerem das nossas vidas.

A vida, essa lugar onde algumas pessoas estão mesmo ao nosso lado.

~CC~

quarta-feira, junho 30, 2010

Vinte anos

Nunca mais o Verão será assim, enterrar os pés no lodo dos açudes, afastar os alfaiates para o mergulho. Nunca mais entrarei num campo de milho sem saber o que há do outro lado.

Nunca mais terei vinte anos, essa ousadia.

~CC~

terça-feira, junho 29, 2010

Meio coração e mais um bocadinho

Penso em mim como tendo metade do coração brasileiro e a outra metade africano. É assim quando se nasce em Luanda, e se tem (ou teve) meia família no Brasil. Acresce o fascínio pela terra vermelha que só África tem, e por esse falar cantado que inventou mais bela a Língua Portuguesa.

E depois penso que não pode ser, afinal sou portuguesa, então escolho um lugar em Portugal, Luzianes, por exemplo, e penso que também lhe pertenço. Nunca estive em Luzianes, mas o nome diz tudo de um lugar que fica no fim do Alentejo e no início do Algarve, um lugar que se divide em dois: aldeia e gare. Tenho que ter a gare, por causa das muitas partidas que teria que fazer da aldeia. E teria que ter a aldeia, por causa da luz, essa que o sul deita a cada crepúsculo de Verão. Mas sinceramente não sei se vou a tempo de pertencer a Luzianes, porque não sei se ainda sei pertencer.
~CC~

segunda-feira, junho 28, 2010

Mistérios literários

Leio Roberto Bolaño muito depressa, verdadeiramente presa do enredo que ele arquitecta, ansiosa pelo fim, por saber. Mas não gosto verdadeiramente da prosa dele, quando o acabo de ler, não sobra nada. E, no entanto, como ele vende, como ele apaixona tanta gente. Talvez ele retrate como ninguém a angústia de um tempo sem nexo, a ruptura com todas as crenças, toda a esperança. Ainda assim, preciso de o ler mais.

Leio Le Clézio muito devagar, as suas histórias são longos poemas em prosa, volto atrás imensas vezes por causa das palavras dispostas como pinturas, por causa dos rostos que quero ver. Vou e volto sem necessidade de acabar o livro, nunca me questiono sobre o fim, as histórias dele não têm verdadeiramente fim. Clézio ganhou o Nobel (em 2008), mas não vende, acho que nunca poderá vender. Gosto muito dele, excepção a um livro sobre a doença e a loucura que não consegui acabar. Clézio está fora de tudo com o seu sorriso de gigante bondoso, a sua antropologia é uma quimera de afectos em busca de um homem diferente, é um crente sem crença nem religião.

Talvez seja a esperança a aproximar-me de um, e o desespero a afastar-me do outro.
~CC~

domingo, junho 27, 2010

Somos nós(III)

Ele pensa nos filhos outra vez em casa. A rapariga com o estúdio à venda e ninguém a aparecer para o comprar. O rapaz regressado dos seis meses a mais do Erasmus, quando nada nem ninguém podia sustentar o sonho da morada além país pequeno e periférico. Lembra-se dos conflitos deles quando eram pequenos e moravam no mesmo quarto, ainda assim tinham uma alegria que em nada se compara ao silêncio do fracasso que agora partilham.

A casa tornou-se anormalmente pequena e ninguém sorri quando o dia começa, ninguém tem pressa. Deixam-se estar por ali, rapaz e rapariga num desespero sem gritos. É como se fosse sempre Domingo, mas quando ele é apenas um dia da semana o arrastar lento das horas é doce, enquanto quando todos os dias se tornam Domingo isso é um sufoco, um peso.

O homem, o pai, saiu um dia como quem não volta. E todos pensaram o mesmo quando não deu notícias um, dois, três dias. Mas o homem tinha ido apenas junto ao rio da sua terra perguntar às marés pela vida. E as marés embalaram-no. Os pais, ainda vivos, continuavam a deitar as sementes à terra. E ele deixou-se ficar ali, a ver o que delas nascia.

A rapariga foi à procura do pai e encontrou-o e deixou-se ficar ali também. E depois o rapaz. E depois a mulher. Os avós estavam velhos, deitavam as sementes à terra muito devagar, eles podiam fazê-lo mais depressa, com mais energia. E foi o primeiro Verão que colheram juntos as melancias. Eram doces, frescas, saborosas. Eram vermelhas como corações salvos. Ninguém poderia saber quanto tempo ficariam assim em paz.

~CC~
(fim)

sábado, junho 26, 2010

Portas que abrem paredes

Festival MED 2010
(duas das muitas portas de autor)
É isto, as voltas trocadas às coisas. Fazer do velho novo, e ainda assim outra coisa. Pendurar portas nas paredes e abri-las como outros lugares para os quais podemos entrar. Poderia ser reciclar, mas é já mais, é reiventar os sentidos das coisas, atirar-se à monotonia com tintas, fios de cordel, pedaços de arame usado. De alguma forma quererei também inventar portas em paredes, portas que possam abrir paredes.
~CC~

quinta-feira, junho 24, 2010

Anti depressivo

(Cáceres, 2010)

Sim, claro. Estou a tentar, com o corpo todo e a matéria inconsistente que vive lá dentro.
~CC~

quarta-feira, junho 23, 2010

Mediterrâneo


É um mar interior soprado pelas brisas dos séculos, carregado de imagens de homens e mulheres sem história, que fizeram história. Gostaria de atravessá-lo um dia com a lentidão própria de quem lhe bebe o azul gota a gota. Gostaria, porque sou feita de desejos impossíveis. Mas como há em cada impossibilididade uma possibilidade, guardei alguns crepúsculos que depressa se tornarão luar, para passar em Loulé, no Festival MED. Nada, nem ninguém me paga a publicidade, a não ser a vontade de partilhar o quanto os cinco sentidos se preenchem num instantinho.


~CC~

Foto retirada de: http://4.bp.blogspot.com/_pzZKTpmIGhA/TCHMDz5laYI/AAAAAAAABL0/lBBGQ4NRpSs/s1600/mar.jpg