sexta-feira, julho 09, 2010

Segredos

É redonda e pequenina como uma concha. Guarda dentro de si um azul líquido e quente onde podemos mergulhar por muito tempo. Não está deserta como prometem os cartazes que nos mentem, mas está cheia de meninos de todas as idades, não há melhor para eles do que ondas pequeninas, e eles agradecem em festa. As pessoas falam com pronúncia da terra, são simples, não se enfeitaram para vir à praia.

Deixei o olhar lá preso nos ninhos das andorinhas escavados na rocha. E não sei se o corpo veio comigo, ou se ficou preso na água tépida.
~CC~

quinta-feira, julho 08, 2010

Coisas antigas

São raras as mulheres talhantes. Esta era alta e forte e assustava quando pegava na faca para esquartejar os pedaços mortos dos bichos. E estava estranhamente bem disposta, gracejando com o colega sobre o filho do Ronaldo.

Contava o que tinha dito ao marido. Contava ao marido que não se importaria de ser ela a barriga de aluguer do Ronaldo, mas que até o podia ser sem a mediação de tubos de laboratório e assim. Uma noite bem passada e já estava. E dava-lhe de bom grado o filho em torno de uma choruda quantia. Afinal pouco lhe custava enriquecer e fazer o homem feliz. E devia ter sido também numa transacção semelhante à que ela idealizava que a criança tinha nascido, e só tinha pena de não ser ela a anónima.

A mulher talhante, os olhos a brilharem ouro, ela deitada na beira de uma piscina, a beber caipirinhas e a comer acepipes. Ela, a contar às amigas, que antigamente as mulheres se realizavam quando eram mães, uma coisa animal entre fêmeas e crias, tretas ultrapassadas.


Ela a dizer que o marido, quando lhe falou no filho que ela teria do Ronaldo, tinha ficado estranhamente calado, pensativo.
~CC~

quarta-feira, julho 07, 2010

Mapa

Marca um lugar no mapa longe deste calor tórrido, mas ainda assim tão quente que ainda seja Verão, que nos apeteça melancia, e cerejas.

Um lugar em que ainda assim nos apeteça, longe deste corpo em estado dissolvente que torna difícil qualquer coisa apetecer. Marca no mapa um lugar em que ainda seja Verão, sem esta pressão sanguínea a latejar, sem a impossibilidade de tantas coisas por acabar. Um lugar onde nada se possa escrever, nenhuma máquina se possa ligar, nenhuma voz se possa manifestar, um lugar habitado pelo silêncio, pelos pés descalços a entrar na água escura do rio, pelo vento que faz passar rápidas as nuvens pelo céu. Um lugar cheio de raízes, e de frutos.

E lembra-te que os mapas foram feitos para nos perdermos.
~CC~

sábado, julho 03, 2010

O que sobra dos dias

A academia no seu processo de catarse, uma espécie de festa, pudesse o saber ser realmente isso, por vezes quase conseguimos. Eu, estendendo a toalha a fingir que aquela era a minha praia, e conseguindo uns bocadinhos de sol. Eu, uma metade de mim. Um sabor a alguma coisa boa, e depois logo um sabor a pouco.


A Espanha a festejar na praça com o meu nome. O Brasil a minguar até o samba se tornar fado. O Eduardo que faz toda a diferença, também por ter uma mulher atleta em vez de uma barbie.

O teu sorriso à minha espera, essa bondade que tardou tanto a aparecer no teu olhar e agora me comove. As árvores do anfiteatro da Gulbenkian cheias do vento da noite, os olhos a fecharem-se no meu cansaço, a voz da Lula Pena feita um lugar quente.

Ela grande, a passar-me em altura, a chamar-me, a inquietar-me, ela a crescer, mais em alegria do que em dor, ela a levar-me tanto do meu coração.

Os sinais cifrados de alguma coisa que não sei, da qual nunca tenho a certeza. A vida, sempre este mistério, esta incerteza, estas pessoas no limbo de existirem ou desparecerem das nossas vidas.

A vida, essa lugar onde algumas pessoas estão mesmo ao nosso lado.

~CC~

quarta-feira, junho 30, 2010

Vinte anos

Nunca mais o Verão será assim, enterrar os pés no lodo dos açudes, afastar os alfaiates para o mergulho. Nunca mais entrarei num campo de milho sem saber o que há do outro lado.

Nunca mais terei vinte anos, essa ousadia.

~CC~

terça-feira, junho 29, 2010

Meio coração e mais um bocadinho

Penso em mim como tendo metade do coração brasileiro e a outra metade africano. É assim quando se nasce em Luanda, e se tem (ou teve) meia família no Brasil. Acresce o fascínio pela terra vermelha que só África tem, e por esse falar cantado que inventou mais bela a Língua Portuguesa.

E depois penso que não pode ser, afinal sou portuguesa, então escolho um lugar em Portugal, Luzianes, por exemplo, e penso que também lhe pertenço. Nunca estive em Luzianes, mas o nome diz tudo de um lugar que fica no fim do Alentejo e no início do Algarve, um lugar que se divide em dois: aldeia e gare. Tenho que ter a gare, por causa das muitas partidas que teria que fazer da aldeia. E teria que ter a aldeia, por causa da luz, essa que o sul deita a cada crepúsculo de Verão. Mas sinceramente não sei se vou a tempo de pertencer a Luzianes, porque não sei se ainda sei pertencer.
~CC~

segunda-feira, junho 28, 2010

Mistérios literários

Leio Roberto Bolaño muito depressa, verdadeiramente presa do enredo que ele arquitecta, ansiosa pelo fim, por saber. Mas não gosto verdadeiramente da prosa dele, quando o acabo de ler, não sobra nada. E, no entanto, como ele vende, como ele apaixona tanta gente. Talvez ele retrate como ninguém a angústia de um tempo sem nexo, a ruptura com todas as crenças, toda a esperança. Ainda assim, preciso de o ler mais.

Leio Le Clézio muito devagar, as suas histórias são longos poemas em prosa, volto atrás imensas vezes por causa das palavras dispostas como pinturas, por causa dos rostos que quero ver. Vou e volto sem necessidade de acabar o livro, nunca me questiono sobre o fim, as histórias dele não têm verdadeiramente fim. Clézio ganhou o Nobel (em 2008), mas não vende, acho que nunca poderá vender. Gosto muito dele, excepção a um livro sobre a doença e a loucura que não consegui acabar. Clézio está fora de tudo com o seu sorriso de gigante bondoso, a sua antropologia é uma quimera de afectos em busca de um homem diferente, é um crente sem crença nem religião.

Talvez seja a esperança a aproximar-me de um, e o desespero a afastar-me do outro.
~CC~

domingo, junho 27, 2010

Somos nós(III)

Ele pensa nos filhos outra vez em casa. A rapariga com o estúdio à venda e ninguém a aparecer para o comprar. O rapaz regressado dos seis meses a mais do Erasmus, quando nada nem ninguém podia sustentar o sonho da morada além país pequeno e periférico. Lembra-se dos conflitos deles quando eram pequenos e moravam no mesmo quarto, ainda assim tinham uma alegria que em nada se compara ao silêncio do fracasso que agora partilham.

A casa tornou-se anormalmente pequena e ninguém sorri quando o dia começa, ninguém tem pressa. Deixam-se estar por ali, rapaz e rapariga num desespero sem gritos. É como se fosse sempre Domingo, mas quando ele é apenas um dia da semana o arrastar lento das horas é doce, enquanto quando todos os dias se tornam Domingo isso é um sufoco, um peso.

O homem, o pai, saiu um dia como quem não volta. E todos pensaram o mesmo quando não deu notícias um, dois, três dias. Mas o homem tinha ido apenas junto ao rio da sua terra perguntar às marés pela vida. E as marés embalaram-no. Os pais, ainda vivos, continuavam a deitar as sementes à terra. E ele deixou-se ficar ali, a ver o que delas nascia.

A rapariga foi à procura do pai e encontrou-o e deixou-se ficar ali também. E depois o rapaz. E depois a mulher. Os avós estavam velhos, deitavam as sementes à terra muito devagar, eles podiam fazê-lo mais depressa, com mais energia. E foi o primeiro Verão que colheram juntos as melancias. Eram doces, frescas, saborosas. Eram vermelhas como corações salvos. Ninguém poderia saber quanto tempo ficariam assim em paz.

~CC~
(fim)

sábado, junho 26, 2010

Portas que abrem paredes

Festival MED 2010
(duas das muitas portas de autor)
É isto, as voltas trocadas às coisas. Fazer do velho novo, e ainda assim outra coisa. Pendurar portas nas paredes e abri-las como outros lugares para os quais podemos entrar. Poderia ser reciclar, mas é já mais, é reiventar os sentidos das coisas, atirar-se à monotonia com tintas, fios de cordel, pedaços de arame usado. De alguma forma quererei também inventar portas em paredes, portas que possam abrir paredes.
~CC~

quinta-feira, junho 24, 2010

Anti depressivo

(Cáceres, 2010)

Sim, claro. Estou a tentar, com o corpo todo e a matéria inconsistente que vive lá dentro.
~CC~

quarta-feira, junho 23, 2010

Mediterrâneo


É um mar interior soprado pelas brisas dos séculos, carregado de imagens de homens e mulheres sem história, que fizeram história. Gostaria de atravessá-lo um dia com a lentidão própria de quem lhe bebe o azul gota a gota. Gostaria, porque sou feita de desejos impossíveis. Mas como há em cada impossibilididade uma possibilidade, guardei alguns crepúsculos que depressa se tornarão luar, para passar em Loulé, no Festival MED. Nada, nem ninguém me paga a publicidade, a não ser a vontade de partilhar o quanto os cinco sentidos se preenchem num instantinho.


~CC~

Foto retirada de: http://4.bp.blogspot.com/_pzZKTpmIGhA/TCHMDz5laYI/AAAAAAAABL0/lBBGQ4NRpSs/s1600/mar.jpg

terça-feira, junho 22, 2010

Responder

Elas calavam-se, elas aceitavam.

Foi no inicio da Primavera, quando metade do guarda roupa se assemelha a lixo, e dá vontade de não vestir nada do ano anterior. Não é que não nos sirva, nós é que já não servimos naquelas coisas. Era manhã cedo, é só nessa altura que aguento entrar nas lojas, estão quase vazias. Naquela, contudo, já havia conversa matinal, era uma mulher na casa dos cinquenta, à procura de um novo biquini para o Verão.

O meu marido um dia disse-me: tens barriga, já não devias usar biquini!
E eu respondi: e tu, o que vais vestir? O que vais fazer com a tua?!

Não pude deixar de me rir, de entrar na conversa. Nenhuma de nós trouxe o biquini, mas cada uma trouxe um vestido, o meu é aliás uma explosão pouco habitual de cores. Quando o visto lembro-me dela, daquele riso franco e resposta pronta. Aquelas cores são mais dela do que minhas, mas ainda assim sinto-as nossas, sinto-me Primavera nelas.

Elas respondem aos maridos, dizem-lhes as verdades, elas já não se calam.

~CC~

sexta-feira, junho 18, 2010

Atlântico

Viajou, pensava eu,

e via Lanzarote num mar doce

mas era só eu a viajar pelo mar interior do Mediterrâneo

este mar que ele haveria também de amar, por causa das pedras, das oliveiras, da pobreza nobre destes rostos de olhos negros

afinal ele partiu do Atlântico

e está certo também

por a ilha ser um retalho de pedaços do seu mundo

por esse ser o mar de todas as partidas, aparentemente frio como ele

mas luzindo em conchas e em peixes

voou uma estrela planetária

de raiz ribatejana

segurem as lágrimas

sejam comedidos com as bandeiras

pensem em papoilas.

~CC~


(estive várias vezes prestes a vomitar ao ler o Ensaio sobre a Cegueira, e senti-me muito mal a ver o filme, creio que nenhuma obra me fez sofrer tanto, por ver nela um fiel retrato dos nossos mais íntimos males como seres humanos).

~CC~

quinta-feira, junho 17, 2010

Dos silêncios

Mudas dentro dos lábios, secas no papel, as perguntas que ficaram por fazer.


Presos de silêncio os ouvidos, no écran vazio do portátil, eternamente à espera das perguntas feitas que nunca obtiveram resposta, mesmo as mais triviais.


A vida é um tecido destes silêncios, alguns trazem dor. Depois esquecemos, ou tentamos.


~CC~

Espelho

Já quase não me vejo ao espelho. Umas vezes por causa da tristeza, não a quero devolvida. Outras vezes por causa da indignação, pode regressar a mim em dobro. E há ainda a questão da beleza, um problema nunca resolvido de auto estima. Fico-me pelo espelho de alguns olhos, de preferência aqueles que me dão o que preciso, mais que não seja, um certo jeito de sorrir.
~CC~

quarta-feira, junho 16, 2010

Somos nós (II)

O que ele não sabia era que ela rondava outra vez o lago, como quando tinha 18 anos. Mas não levava pão na mala, só desespero. E esse não alimentava os cisnes pretos. E continuava a não saber nadar, nunca aprendera.

O que ela não sabia era que ele tomava aqueles comprimidos redondos e pequeninos para dormir. Não sabia que ele já não passava sem eles.

Ambos sabiam o que os entristecia, mas a tristeza tornava-os mudos. Cada um conjecturava soluções para a conta a zero no banco. Ela tinha pena de nunca ter querido o ouro que ele lhe queria dar pelos anos, agora sempre o tinha. Ele tinha pena de nunca ter aceite os relógios que o avô lhe queria deixar em herança, agora talvez pudessem valer-lhe.

Nenhum pensava em dizer nada às respectivas famílias, seria uma vergonha.
~CC~

segunda-feira, junho 14, 2010

Somos nós (I)

Ele tinha feito 18, ela 22. Tinham deixado o quarto vazio, no quadro de cortiça ainda estavam os pequenos buraquinhos dos pioneses que seguravam as fotos. Apesar do Hi5, do Facebook, dos murais digitais que eles também tinham, onde se escondiam horas a fio, nenhum deles se sentava na sala a ver televisão, e as novelas eram definitivamente pimbas. Talvez apenas a cortiça das fotos, apenas ela traçava a linha entre as suas adolescências.

Ele tinha 22, ela 18. Ela passava todos os dias às 18h junto ao lago dos cisnes pretos. Naquele lago não havia cisnes brancos. Ela parava a dar-lhes pequenos pedaços de pão que trazia dentro da mala. Os cisnes não se aproximavam muito, eram desconfiados. Ela nunca dava pão aos pombos, só aos cisnes pretos. Às vezes debruçava-se um pouco no varandim do lago, como se fosse saltar para nadar com os cisnes. E ele espreitava o decote, e ao mesmo tempo vigiava-a, não fosse ela saltar de verdade. Tinha sido há tanto tempo, na verdade só restavam sombras. Ele já não a via a cores, nem à vida.

A folha de excel das contas do mês, tinha passado a fazê-la meticulamente, e por causa dela os quadradinhos não lhe saiam da cabeça. E por causa desses quadradinhos tinha começado a tomá-los, pequeninos, redondos, uma coisa que nunca pensou fazer, ser. As noites eram pesadas quando se tomava comprimidos para dormir, e de manhã não havia sonhos para recordar. A cabeça tinha só peso, como se estivesse cheia de serradura.

Não se lembrava, como é possível que não recordemos os momentos em que fomos felizes?!
~CC~

domingo, junho 13, 2010

Somos nós

Primeiro foi o apartamento, porque comprar seria sempre melhor do que arrendar. E sempre o deixavam aos filhos. Não pensaram que os filhos seriam adultos antes que eles se libertassem dessa casa, muito menos que os filhos não quereriam esse T2 suburbano. Não pensaram que deveriam toda a vida, anos e anos de hipoteca ao banco, muito provavelmente até ao fim da vida, isto se a doença não visse obrigá-los a uma dor e a um sufoco não previstos.

E quando a filha pediu ajuda para a compra do estúdio mais central, bem perto da faculdade, ainda se dispuseram a mais essa ajuda, não só foram fiadores como se comprometeram com uma mesada mais alta. O resto seria ela a pagar com o que ganhava ao fim de semana no Call Center. O mais novo só falava em ir para o estrangeiro, porque estava farto de um país que não prestava. E não pensava propriamente na apanha do tomate nem em servir às mesas, mas sim em programas tipo Erasmus, a sua estadia não seria integralmente coberta pelo programa, e a mesada teria que ser aumentada, tudo em prol de não gorar as expectativas do rapaz.

Sabiam que os seus ordenados não esticariam até cobrir todas as novas despesas, mas achavam-se capazes de milagres. E nunca diziam não, presos da crença de que tudo seria possível. Os empregos pareciam estavéis, nenhum deles estava doente, os miúdos queriam ir longe. Eram mais que legítimas as suas expectativas num mundo em que ter expectativas era o contrário de ser nada, ser ninguém.

~CC~
(continua)

sexta-feira, junho 11, 2010

Cinzentos

É certamente a chuva que me faz pensar em despedidas, como se o Verão estivesse já a morrer(me). É certamente o mundo a reduzir-se a uma janela só, a um tempo em que o essencial é tão pouco que lhe podia chamar ar. É certamente o futuro que não quer vir visitar-me, como se não pudesse ver nada além de um horizonte curto, tão curto.

A angústia costuma ser um estado breve, sempre possivel de atenuar com um banho de mar e cerejas doces.

~CC~

quinta-feira, junho 10, 2010

Diário a cores (XII)

Diálogo vermelho-amarelo
(Benguela, 2007)

~CC~