terça-feira, maio 11, 2010

Só existir

Setúbal, Maio 2010. caminhadas matinais. Foto da amiga C.

Só existir, sem Deus de nenhuma religião, sem clube de futebol, sem partido político. Vejo-lhes a festa nos rostos, nas vestes, no olhar, sinto-lhes a alegria a uma distância de anos luz. Tenho pena às vezes de não poder entrar na multidão, diluir-me num mar de rostos e de vozes, a minha identidade tão misturada na deles, como se um parto nos tivesse feito nascer ali. Deve ser boa a alegria, deve ser bom perder por um momento a razão.

Comigo não se passa nada, não há entusiasmo pelo Benfica nem por nenhum outro, não sou nem contra a vinda do Papa, nem a favor dela, não rejúbilo nem me revolto. Comigo não se passa nada, não tenho como me ligar aos outros. Minto talvez, algumas lutas pelos direitos das pessoas entusiasmam-me, ainda me maravilho com a utopia em forma de letra na Declaração dos Direitos Humanos. E é tudo, é quase tudo


Falta ainda a luz desta manhã, quando me deparei com vastas áreas cobertas de papoilas, talvez esse deslumbramento me possa unir a alguém.

~CC~

segunda-feira, maio 10, 2010

600

Um número redondo-a mensagem 600-que dedico às palavras dos outros, à companhia que por vezes elas são, ao(s) mundos que me trazem para dentro de casa, só isso é verdadeiramente importante na blogosfera: os horizontes.


Com o Café margoso viajo até Cabo Verde, um país que me fascina, onde gostava de viver uns tempos ou talvez para sempre. O seu autor é além de tudo o mais, uma pessoa do Teatro. E espero conseguir ir ao festival do Mindelo o mais breve possível, porque o teatro africano é outro respirar.

Com o Obviário, oiço a voz íntima de uma mulher a olhar-se ao espelho, mesmo quando é a realidade que ela olha. Simples ou complexa, mas sempre sem pretensões, igual a si própria.

Com o repórter à solta, o mundo é de facto uma viagem, quer se trate de uma cidade ou de uma pessoa, as suas palavras despem as coisas com uma profundidade tão intensa mas tão simples. É jornalismo de primeira.

Com o Teatro Anatómico as reportagens do quotidiano são os nossos olhos também, as coisas que vemos mas que nem sempre somos capazes de as dizer como ele as diz, e além disso há ainda as notas sobre livros e escritores, a alimentar qualquer um que tenha fome de saber.

Com a Merenda de Saturno mergulhamos em imagens muito belas e originais às quais se ligam relatos curtos de uma grande intensidade poética, talvez um lanche planetário de fumo doce amargo, triste e luminoso.

E com o Papel de Fantasia, há um jogo de imagens, personagens, palavras, num trilho que é tão lúdico quando lúcido.

Já não chega colocá-los nos favoritos, é preciso que a barra lateral se encha com a sua referência. E não tiro de lá ninguém, nem mesmo o Elefante Branco ou o Canto do Sul que fecharam os seus blogues, tenho esperança que ainda voltem para os meus horizontes (espero mais um tempo, ou deixo-os ficar porque assim são mais memória viva).
~CC~

domingo, maio 09, 2010

Diário a cores (VIII)


LILÁS
(Praga, 2007)

sábado, maio 08, 2010

Poesia dita


"Venha ler em voz alta na Casa Fernando Pessoa"
Ler Mário Benedetti, um ano depois da sua morte.

(Gostava muito! O que faço à timidez? Está totalmente domada noutras situações de exposição pública, mas...)


Papel mojado

Con ríos
con sangre
con iluvia
o rocío
con semen
con vino
con nieve
con llanto
los poemas
suelen
ser
papel mojado.

Mario Benedetti

sexta-feira, maio 07, 2010

Coisas sem nome

Primeiro ergueram as colunas, que pareciam frágeis. Depois colocaram à volta delas uma espécie de armaduras, intrigantes porque não lhes detectavámos a função. Ele disse que eram andaimes para trepadeiras. Eu achei que eram um apoio essencial para lhes manter a estrutura débil. Hoje tiraram-nas, não passaram afinal de uma estrutura passageira para ajudar a consolidar o cimento.

Somos assim, imaginamos sempre o que vai ser, não aguentamos não saber, não ter nome para as coisas. Se elas não têm nome, é melhor que morram para não nos acordarem angústias. Há poucos dias, C na mesa do café, povoada por casados e solteiros, todos de estatuto definido, perguntava-me, e tu o que és? E secou-me estranhamente a boca. Devia ter-lhe dito o quanto destesto jantares de casais, ou saídas de mulheres sós, o quanto detesto compartimentos estanques, casinhas. Dizer-lhe o quanto foi difícil ao longo da vida viver fora das categorias, às vezes só sobreviver fora delas. E é verdade que as experimentei, já tive uma aliança no dedo e um papel passado a designar outro estado civil. E, no entanto, a felicidade dentro delas não passa muitas vezes de um simulacro.

Fico portanto do lado das coisas sem nome, as coisas que são só coisas, ou para as quais invento eu os nomes.
~CC~

quinta-feira, maio 06, 2010

Rendilhado

Os bilros, esse matreaquar de madeira donde sai a renda. Essa mulher sozinha em convívio com a alvura dos fios. Há entre o seu tecer e o meu tecer a analogia das horas gastas sem dar conta.

E de quando em quando estas interrupções intensas na solidão dos dias deixam um lastro de exaustão emocional sem precedentes. Uma quinzena densamente povoada de gente, como há muito não acontecia.

Estes encontros, nenhum deles marcado pela tristeza, pela revolta, pela amargura, traços que tantas vezes marcaram o meus encontros de labor, mostraram-me duas faces, duas que são só uma e é a minha face. Ainda é possível fazer com que das minhas mãos nasçam estrelas, elas têm com elas a memória de uma alegria que não se perdeu inteiramente, basta confiar para que se ilumine o que em mim é ainda luz. Mas quando nos habituamos a ser pessoas sós, viradas para dentro em exilío de vozes, não mais deixamos de precisar desse silêncio. É como se ele nos viciasse. É a renda à nossa espera.

Regresso pois a mim, ao rendilhado interior dos dias.
~CC~

quarta-feira, maio 05, 2010

Pequenas asas

Estava sempre a repetir perante a insistência da professora face à demonstração da sua preguiça: não quero ser um escravo. Não era frase para um miúdo de 14 anos, que a atirava ao mundo como um tratado de filosofia para pobres de alma ou como uma terapia para dependentes da economia de mercado. Anos depois lá estava a arrumar carros, e quando a professora estacionou diante dos seus olhos, foi a correr abrir-lhe a porta com orgulho: está a ver, não me tornei num escravo! E o que és então? Perguntou-lhe a professora curiosa. Eu, respondeu espantado com a questão dela, eu sou um ser humano. Mas na verdade pequenas asas cresciam-lhe no lugar dos braços.
~CC~

Diário a cores (VII)

CASTANHO(s)
(Cáceres, 2010)
~CC~

segunda-feira, maio 03, 2010

Way (II)

Cáceres, Maio 2010

Procurei sempre nas ruas estreitas os vestígios de sol. Sei da sua sombra na pedra e na pele. Não é, nunca foi o cansaço dos caminhos a latejar nas pernas alguma vez um obstáculo. O maior obstáculo é o cinzento entrar dentro do vermelho sangue e deixar-se ficar como se ali fosse a sua morada. Há em cada tempo mais difícil um traço próprio, o desenho da dor nunca é exactamente igual, nem as lágrimas sabem ao mesmo, e isso quando existem.

Este é o tempo dos mais velhos nos pedirem um abraço que possa afugentar a sua doença, a sua terrivel solidão, é este tempo de os ver entrar no hospital com os seus olhos cinzentos. É tempo de lhes perdoarmos tudo o que não nos foram, de buscar no fundo do tempo as noites em branco que um dia nos deram.

E enquanto eles lutam pela sua vida, os mais novos esgotam-nos em mil pedidos cheios de alegria, frenéticos de Primavera, tontos da luz que a adolescência lhes traz aos olhos. Por uns momentos na cidade de pedra silenciosa num primeiro de Maio sem bandeiras nem gritos, deixei-me ficar para trás, apeteceu-me esquecer-me de quem eu prória era, renascer feita branco paz, limpa de feridas e de histórias, inteiramente pronta para dias novos.
~CC~

Way

Baixar as armas, abrir possibilidades de encontro, permitir alguma cumplicidade.
~CC~

quinta-feira, abril 29, 2010

Semi-breves (VIII)


Vou tacteando roteiros na pedra. Em viagem.
~CC~

quarta-feira, abril 28, 2010

Semi-breves (VI)

As perguntas insistentes da adolescente ontem ao jantar sobre o chão a abanar debaixo dos pés. Incrédula a perguntar como era possível o país que ela acha um paraíso ir à falência como se fosse uma casa, uma família, colocado assim na corda bamba, da mesma insolvência que um dia deixou aquele rapaz a vender a revista cais no semáforo da porta da sua cidade. Era bom contar-lhe uma história como se ainda fosse pequena: era uma vez... um monstro chamado capitalismo, tem uma boca muito grande, e adora comer países aos bocadinhos...
~CC~

terça-feira, abril 27, 2010

A tipologia do fogo

Incêndio. Um pequeno descuido na protecção dos dias fez um olhar tropeçar no teu. Impossível estancar a labareda, ela cuidou de se propagar pelo corpo todo, e uma vez ardido, foi possível ter a exacta proporção da sua intensa desvastação. As cinzas nem sequer tem história.

Fogueira. Vieste atear a duas mãos o que não se sabe se irá pegar, poderá ser breve, ou durar. Aquece enquanto dura, e por vezes parece não resistir à humidade contida em certas lágrimas, outras vezes a sua chama é tão forte que ilumina o escuro. Deixará cinzas, mas poderemos apanhá-las, e nesse acto de as deitar fora, encerrar a história.

Vela. Sem que desse conta, um beijo um pouco mais ao lado quase chegou aos lábios. Arde devagar sem se dar por ela, como uma caricia meiga que perdura por mais tempo do que se pode algum dia imaginar. No seu ondular doce, aquece sem doer os sentidos, e deixa o sabor doce do mel. Com os restos da sua cera podemos moldar novas histórias sem dor.

Caixa de fósforos: Vieste e foste no silêncio, deixando apenas na conjectura do olhar os desenhos de um amor possível. Um amor sempre impossível. É precioso o que julgamos poder acender sempre, e triste porque sabemos que nunca o faremos. Perfeito será sempre, e um dia será nada, os fósforos gastos pelo pó do tempo não mais poderão ser lume.

Também se poderia intitular a extensão e profundidade das cicatrizes, mas seria um título mais triste.
~CC~


segunda-feira, abril 26, 2010

Um minuto de Domingo

Deitar-me na rocha no cimo da falésia, indiferente a tudo, em redor todo o campo a respirar de flores. Sentir as costas quentes encostadas à pedra, um torpor a subir mansinho de sol e maresia. O teu corpo a deitar-se levemente por cima do meu, o seu peso sobre o meu coração a bater salgado. Um minuto só esse tempo de intensa felicidade, como se nada mais houvesse para trás e para diante, só esse minuto de diluição de corpos um no outro, e na própria terra.

Se esse minuto pudesse durar.

~CC~

Diário a cores (VI)

BRANCO
(Sevilha, 2010)

domingo, abril 25, 2010

Dizer sempre

As frases banalizaram-se mas se fecharmos os olhos sobre elas e as respirarmos têm uma beleza cortante. Uma actualidade tão grande que o grito nos seca a garganta. Uma urgência ainda, como se o mundo fosse outro e afinal ainda o mesmo. Não sabemos talvez quem são os responsáveis pelas lágrimas que vemos espalhadas pelos rostos sem esperança, talvez cada um de nós o seja também, e ainda o vizinho do lado. Isso torna a revolta mais difícil, os poderosos, os ricos, os políticos eram figuras de carne e osso nas canções de antes, mas hoje são sombras de que não apalpamos os contornos. As revoluções alimentam-se de simplicidade, de carne fresca, de sorrisos lavados, de vozes afinadas só pela alegria. Nada disso ontem havia junto ao rio, a Grândola canta-se de braços caídos e olhos no fogo de artifício. E ainda assim o que nos traz, o que traz tantos, o que nos faz sair para as praças, para as ruas, para o meio das pessoas? Traz-nos este grito que ainda sentimos cá dentro, um travo a papoila, flor frágil e tão brava do campo. Abril é ainda um mês de uma beleza sem igual no calendário apressado dos anos.
~CC~

sexta-feira, abril 23, 2010

A Interpretação dos verbos

Perdoar, esse deixar o tempo cicatrizar as feridas, e olhar para elas como uns riscos superificiais na pele, marcas lavadas de ódio, de desprezo, de raiva. Ser capaz de estender uma mão a quem não viu a nossa quando a estendemos.

Consolar, essa capacidade de ir buscar a ternura nas dobras escondidas do coração, escavando-o à procura do riso possível para depositar num rosto triste. Ser capaz de palavras doces para oferecer num tempo de amargura.

Arquitectar, essa vontade de sonhar permanente, riscos cruzados no papel cheios de casas brancas, muitas papoilas, um sol desenhado num dia de primavera, um piquenique com cerejas e beijos leves trocados devagar. Buenos Aires, e todo o deserto ainda à espera do olhar.

Conseguir, qualquer coisa melhor que ter êxito, chegar provisoriamente a um lugar onde quando nos dizem "muito bem" sentimos o sabor do suspiro a desfazer-se na boca, a certeza de que afinal todas as escritas nos são possíveis, basta inclinar a caneta de uma determinada forma para apanhar o vento certo. A certeza de que saber pensar é afinal o mais importante. Saber que o sabemos.

~CC~

quinta-feira, abril 22, 2010

Semi-Breves (VI)


Passei a adolescência vestida de preto, cinzento e castanho. Talvez já chegue.

~CC~

Tempestade

Não devia ter escolhido o último andar por causa da nesga de rio, da proximidade do céu, dos dois castelos presos no olhar. Não devia porque agora chove e troveja quase dentro do quarto e os rasgos de luz tiram-me o sono, e não há nenhum abraço capaz de acalmar este medo irracional das tempestades, ainda mais quando elas chegam assim na Primavera. Os pais envelheceram, e estão doentes, e os filhos são ainda demasiado novos, estamos entregues à idade adulta onde a palavra medo é um esconderijo. Falo assim com a tempestade, de olhos abertos, é a ela que lhe falo do medo, e assim ela vai-se embora de mansinho, com a compaixão que a natureza tem da fragilidade dos homens. Falo com a tempestade e peço-lhe que se vá embora, que procure lugares onde o sono é pesado e ninguém tem medo de quase nada, que vá para lugares onde o coração não estremece a cada trovão.

Para a próxima pensarei melhor sobre o último andar, esta proximidade do céu.
~CC~

quarta-feira, abril 21, 2010

Semi-breves (V)

Dizes que o amor é um bordado, que exige paciência, o tempo de uma vida toda a aprender.
Digo-te que não sei bordar, e não quero nem consigo aprender. Prefiro as tintas, e sujar com elas os dedos, pintar a pele.
~CC~

terça-feira, abril 20, 2010

Outras palavras, e podiam ser minhas (I)



TESTAMENTO
Vou partir de avião
e o medo das alturas misturado comigo
faz-me tomar calmantes
e ter sonhos confusos

Se eu morrer
quero que a minha filha não se esqueça de mim
que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
e que lhe ofereçam fantasia
mais que um horário certo
ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor e ver
dentro das coisas
sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
em vez de lhe ensinarem contas de somar
e a descascar batatas

Preparem a minha filha
para a vida
se eu morrer de avião
e ficar despegada do meu corpo
e for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim
a minha filha
e mais tarde que diga à sua filha
que eu voei lá no céu
e fui contentamento deslumbrado
ao ver na sua casa as contas de somar erradas
e as batatas no saco esquecidas
e íntegras

ANA LUÍSA AMARAL, Minha Senhora de Quê, Quetzal Editores, Lisboa, 1999: 61, 62

segunda-feira, abril 19, 2010

Diário a cores (V)

VERDE
(Rio Sado, data incerta)

domingo, abril 18, 2010

Semi-breves (IV)

Domingo é o dia mais vivo no mercado da minha cidade. Minha cidade, soletro estas palavras novas na minha boca. Sabem carnudas e leves, sabem como se fossem morangos acabados de colher. São um interlúdio de esperança que chega sem razão aparente, talvez apenas por ser Domingo. Talvez apenas por ter descido ao mercado do Livramento e voltado com os sacos viçosos de verdes e uma maravilhosa garoupa para partilhar em companhia.

Minha, digo novamente, como se a mala estivesse desfeita.

~CC~

sábado, abril 17, 2010

Destinos à chuva

Era um minúsculo guarda-chuva castanho saído numa revista dessas que não me lembro de comprar, a não ser quando me assalta um interesse tão raro quanto súbito pela moda Primavera-Verão. Tão minúsculo, tão instávell, tão frágil, que pouco me tapava da chuva forte que teimava em cair naquele fim de tarde Lisboeta. Mais de metade das pessoas não tinha, contudo, nenhum. E desde que não uso carro quando vou a Lisboa que dentro da cidade praticamente só caminho a pé. E era ainda longo o caminho, e muitos o peso que levava dentro de um dossier inapropriado para passeios à chuva.

Olho repentinamente para o lado e vejo uma loja colorida, com vários e robustos guarda-chuvas na montra. E pediam tão pouco por eles, que não hesitei em trazer um. Que fazer do outro? Era minúsculo, frágil, e estava completamente molhado, era impossível guardá-lo na mala, e também impossível deixar no lixo o que não era lixo. Pensei em dá-lo a alguém que viesse sem nenhum, alguém que se cruzasse comigo a escorrer àgua. Diria: tome este, que tenho dois.

Mas não fui capaz, a timidez sempre me protegeu destas abordagens ou impediu-as. Vou deixá-lo num lugar em que alguém o possa encontrar e levar, pensei. E assim fiz. E fui caminhado sempre em frente depois de o deixar poisado em lugar bem visível. Cerca de 5 minutos, parada no sinal vermelho, abeirou-se um moço dos seus vinte anos, deixando-se estar ao meu lado, enquanto esperavámos pelo sinal verde.

Na mão segurava, com grande satisfação, o meu guarda chuva pequenino. Deixei-o passar à frente para o ver a caminhar, usando o que era frágil e quase irrisório, para se proteger da chuva. E no lugar onde estavam as suas mãos, tinham estado 10 minutos antes as minhas.
~CC~

sexta-feira, abril 16, 2010

Diário a cores (IV)

AZUL
(Moçambique, Zona de Pemba, 2007)



quinta-feira, abril 15, 2010

Escrita na areia

A terra treme zangada, nunca a vi tremer tanto e tão intensamente, ou nunca lhe deram tanta voz. Reage como um animal ferido. O que lhe fizémos?

Também me sinto muitas vezes um animal ferido, acossado. O que me fizeram? O que fiz de mim?

O rio é tão grande quando o passo devagar, neste comboio azul, do qual me fiz utente. É tão bonito o Tejo pela manhã, tem uma luz que nos lambe as feridas, que me lambe as feridas.

Ela diz-me para não me deixar abater. E não deixo, mesmo que a chuva tenha deitado ao chão as flores das árvores, cortando rente a Primavera. O corpo anda a pedir-me um descanso que não lhe posso dar, dói-me o ombro, o braço, a mão, todo o lado direito a pedir-me tréguas da escrita.

Que bom seria poder escrever uma tese toda na areia da praia, enfeitá-la com conchas, búzios, um bocadinho de algas. E depois a maré viria levar as palavras com ela, levando as palavras como comida de peixe. Que valor têm as palavras se não as dermos a comer aos peixes?
~CC~

Diário a cores (III)

BRANCO
(Cabo Espichel, 2007)

quarta-feira, abril 14, 2010

Diário a cores (II)

VERMELHO
(Ilha do Ibo, Moçambique, 2007)

Semi-breves (III)

A- Mãe, vais às compras? Traz-me iogurtes gregos!
M-Mais alguma ideia filha? Dessas boas para fazer o país superar a crise sem os obrigar a comprar submarinos ou lhes sugerir a venda das ilhas?

~CC~

terça-feira, abril 13, 2010

Diário a cores (I)

AMARELO
(Sevilha, 2010)

Semi-breves (II)

Não há serviço de mesa, lia-se em letreiro grande. Ao fim de uns meses ela começou a trazer-me o café, acompanhado de um sorriso pequenino e matreiro.

~CC~

segunda-feira, abril 12, 2010

Semi-breves (I)

O moço dos calções olhava para mim fixamente. Quando lhe devolvi o olhar, percebi que era o manequim da montra.

~CC~

domingo, abril 11, 2010

De olhos molhados

Ele veio no final contar-me uma história, ele e todos os outros que estavam presentes, tinham saído meninos das páginas do Diário do Sebastião e vinham agora já velhos beijar-me as faces coradas. Parecia um sonho, não fosse ter a certeza que estava a acontecer.

Ele disse-nos para irmos até à varanda da sala 19, até aquela varanda enorme sobre o Tejo. E disse-nos para olharmos bem e escrevermos um poema. E eu não sabia o que escrever e estive muito tempo, muito tempo a olhar. Entreguei uma página em branco só com o título que dizia: Da minha Janela...E ele entusiasmado disse-me: excelente título, muito bom...E eu fiquei espantado a olhar para ele, de olhos abertos e arregalados...e daí para a frente escrevi muito, e ele passou-me a chamar-me poeta.

Como é possível que tantos anos depois estejamos ali a contar histórias? Eles que foram alunos dele, ela que foi (é) a mulher dele, eles que foram a família, nós que o lemos. Parece que dois dias antes de morrer escreveu um poema sobre asas, as maravilhosas asas das aves, talvez as que voam ainda sobre a Arrábida. Posso ouvi-lo a dizer aos alunos, de braços bem abertos: de que estão à espera para voar?

Falo sobre mim, sobre o Sebastião, sobre ser professor, sobre amar a escrita? Não sei, não sei exactamente o que disse. Acho que me levantei e falei de pé, ou voei. No fim alguém disse: pintou uma aguarela. Acho que nunca ninguém me tinha dito uma coisa tão bonita.

Os meus olhos só não deixavam cair a água.
~CC~
(obrigado também a A, S, J, sem os quais voar seria mais difícil)

No país das maravilhas

Há muito que o silêncio tinha tomado de vez as tuas poucas palavras, embora as coisas poucas possam ser muitas, se têm com elas o vermelho das papoilas. Voava num fim de tarde sereno, em busca de letras unidas pelo cimento único da poesia, como se esse mel, uma vez bebido, me pudesse restaurar todas as células. E vi de repente a tua casa pendurada no arco-irís, moravas entre a risca cinzenta e a risca amarela, num oscilar bem condizente com o teu coração pendular. E mesmo sem teres posto o teu nome à porta, substituído por uma placa que dizia piquenique no azul com cerejas, saberia que eram tuas as palavras de tinta rubra, espreitavas por cada uma delas invisivel, com os teus olhos tristes e o teu sorriso alegre, e a sabedoria própria dos gatos que aprenderam a voar.
~CC~

sábado, abril 10, 2010

Do calor que passa (II)

Conhecemos pessoas fascinantes que mais devagar ou mais depressa se vão embora. A nossa vida faz-se com outras, talvez não tenham um fascínio tao grande, mas dão-nos a mão e fazem-no por muito tempo. E sabemos o quanto o calor que por essa mão passa nos ajudou a levantar em tantas e tantas manhãs, naquelas mais cinzentas, em que o sol não aparecia para nos beijar a face.
~CC~

quinta-feira, abril 08, 2010

Do calor que passa

Ele estava parado no meio da rua e segurava um menino de uns 4 anos pela mão. E dizia-lhe: era ali ao fundo a escola do pai, vinha a pé todo este caminho, estás a ver aquela subida como é grande? E o pai fazia tudo isto...E o menino não dizia nada, bem seguro pelo pai, só entendia do que ele lhe dizia o calor da sua mão.

Nunca sigas ninguém que não conheces, digo à minha filha, quando ela me diz que o melhor modo de ensinar um caminho a um estrangeiro é dizer-lhe que nos siga. Mas aqui era ao contrário, mãe, não era eu que seguia alguém, mas essa pessoa que me seguia. Não, nunca, digo com muita força. E depois digo-lhe mais, conto-lhe uma história enterrada na areia funda, mergulhada no escuro da infância, no mais escuro dela. Ela ri da minha estupida inocência de sete anos. E percebe o quanto eu tive sorte, uma sorte absolutamente e maravilhosamente inexplicável dentro do azar tremendo. Mas ela não sabe que eu penso milhares de vezes que se me salvei de uma coisa assim, posso afinal conseguir salvar-me de mais, que afinal uma coisa má me ajuda a viver, a superar, a ultrapassar-me. Que podemos transformar as coisas más em força motriz para coisas boas.

Mas a coisa mais importante a saber é que se lhe der a mão posso passar por ela este calor. E este calor também é uma força motriz.
~CC~

quarta-feira, abril 07, 2010

Novelo

Levantei-me com vontade renovada de sacudir a sombra que me persegue. A vontade é um fio pequenino que preciso enrolar até se formar um novelo grande, tão macio quanto resistente. Dá-me um fio teu para que possa enrolar também.
~CC~

terça-feira, abril 06, 2010

Aquário (II)

Eu era um peixe pequenino cujos olhos violeta diferiam de todos os outros, a maior parte dos peixes do aquário tinham olhos castanhos ou olhos de mudança de cor, esses eram variáveis em função da cor do peixe rei. Sabiam viver bem no aquário, eu nunca tinha realmente aprendido. Talvez outros se sentissem como eu e tivessem afinal olhos violetas, mas estava de tal modo inseguro do meu ser, que não os conseguia ver.

Contudo os meus dentes eram igualmente pontiguados, e se os soubesse usar devidamente, talvez pudesse defender-me, ou mesmo atacar, ainda que a palavra atacar me fizesse estremecer, de tal modo combinava mal com o violeta dos meus olhos.

Certo é que os meus sonhos se tinham tornado pesadelos frequentes.
~CC~

domingo, abril 04, 2010

Aquário

Eu era um peixe azul de olhos verdes, um peixe pequenino preso dentro de um aquário. Nada sabia do mar e, no entanto, tinha uma memória vaga de um lugar maior onde não estava só, um lugar de liberdade. Pouco a pouco a água do aquário ia secando e ninguém acrescentava mais, a minha vida desenhava-se entre a vertigem da morte por asfixia e a esperança de que chovesse. Nos dias piores eu queria morrer imediatamente, saltar do aquário num voo em direcção à carpete da sala, ou cair no meio do vaso das begónias. Nos dias melhores imaginava que alguém olhava para mim e me via como eu sou, enfiava-me num frasco de vidro, levava-me até um pequeno riacho e deixava-me escorregar do frasco, devagarinho. E tontos de luz, os meus olhos verdes ririam pela primeira vez no meu rosto novo, rosto de peixe rio, rosto em busca do mar.
~CC~

quinta-feira, abril 01, 2010

Saborear

Tocar o azul, deixá-lo pintar o verde das folhas.
Lamber os lábios de azul, saboreá-lo feito doce.
~CC~


PS. Boa Páscoa, encham de beleza os vossos olhos.

quarta-feira, março 31, 2010

Resistir

Alguns cidadãos, alguns profissionais, não importa se são politicos ou não, assumem em privado a sua esperteza em enriquecer à custa de grandes e pequenos expedientes claramente ílicitos. O ílicito é quase sempre o uso da influência, da pressão, da coaçção para obter ganhos próprios. É uma esperteza que é muito gabada, a não ser quando se é descoberto, e é trazido para a praça pública. Conhecemos isto desde sempre, e desde sempre sabemos quanto é inaceitável.

Mas por um momento somos todos passíveis de corrupção, pelo menos durante um segundo, somos vulneráveis. O não se deixar corromper é portanto uma obra lenta de construção, uma certeza que se vai criando, um edíficio que se constrói andaime por andaime. É pouco propangadeada esta luta, não há associações em torno dela, pelo contrário muitos dos que conhecemos com esta postura são tidos por parvos.

Hoje a GNR Trânsito mandou-me parar. Na certeza de que nada tinha feito nem percebia os sinais que faziam, pensei que queriam mudar de direcção e pediam para lhes dar passagem e assim fiz. Sem perceberem que eu não os percebia, fizeram soar a sirene e os sinais tornaram-se gestos fortes, insistentes. O ritual seguinte já é de todos conhecido. E eu não tinha feito realmente nada, a não ser não dar pelo tempo. Tinham passado dois meses da inspecção obrigatória para carros comprados há 4 anos. E ele disse: vou ter de a multar. E fez um silêncio, um silêncio que me pareceu excessivo, estranho. E pensei imediatamente que quereria um pedido de desculpas ou talvez algum dinheiro para não passar a multa. Essa minha suspeita cortou completamente o diálogo. E foi uma suspeita que cresceu com a demora, um tempo nitidamente em demasia para escrever um papel. Eu sempre dentro do carro, nem me mexi, nem disse palavra, desculpa só pediria se tivesse reconhecido colocar alguém em perigo. E a multa veio: 250 euros! Talvez com 100 tivesse resolvido a questão, tive a nítida sensação que sim. Tudo ali foi absolutamente estranho, desde o virem atrás de mim nas calmas durante um bom bocado, até aos silêncios demorados entre cada frase dita.

Jamais, em qualquer circunstância, daria dinheiro a um polícia para não me multar. E, no entanto, como compreendo que por um momento todos hesitem. E é nesse segundo de hesitação que a corrupção se insinua, manto escuro que tudo cobre.
~CC~

segunda-feira, março 29, 2010

Sem razão

Sevilha, Março de 2010
As mulheres que na Rússia se fizeram explodir anulando a sua vida levaram com elas as vidas de outros, ainda mais inocentes do que elas, outros em cujo sangue não haveria vestígio de nenhuma responsabilidade sobre a raiva que corria no sangue delas (se é que era assim). Nenhuma racionalidade nesse acto, toda a loucura lá dentro.

Os nazarenos caminham de cabeça tapada, deixando ver apenas os olhos, muitos deles caminham de pés descalços no pó e na pedra, ao longo de muitas e muitas horas marcham pelas ruas da cidade de Sevilha levando o andor da sua confraria. As suas vestes são limpas, despidas de adornos, secas, assustadoras. E não obstante o seu figurino os assemelhar mais a monstros do que a anjos, as crianças aproximam-se deles com as suas maozinhas pequeninas erguidas para que lhes deitem caramelos. Atrás, adiante, ao lado, estão muitas mulheres, grande parte jovens, enfeitadas como para um casamento. Levam nestas horas longas de procissão os seus saltos mais altos, os seus vestidos mais explosivos, as suas saias mais curtas. Levam os seus brincos mais compridos e mais brilhantes, o seu baton mais vermelho, o risco de contorno mais negro. Entre elas e os nazarenos parece não haver qualquer possibilidade racional de ligação. Mas vendo bem, o sofrimento dos pés descalços talvez seja semelhante ao dos pés enfiados em tão grandes saltos, e posso imaginá-los ao final da noite com os dedos massacrados pela dor. Esta racionalidade é toda ela feita de irracionalidade, é toda ela deriva de um delírio colectivo e partilhado.

E ela diz que ainda espera por ele, que nem tanto tempo de silêncio anulou completamente o que um dia sentiu. E a outra mulher responde-lhe que lhe parece a personagem de um romance, um romance que só poderia ser de um autor da América Latina, pois só eles combinam tango com formigas assassinas e casas com espirítos. E diz-lhe que não há racionalidade nenhuma nessa espera, que não devia esperar. E o rosto da mulher que espera tem um sorriso estranho de quem já não está neste mundo, de quem irá abraçar o seu amado quando ambos forem pó de estrelas. Nenhuma racionalidade na sua espera, a não ser a da luz líquida que alimenta certas almas encantadas pelo amor mais derradeiro.

~CC~

domingo, março 28, 2010

Perfume



De uma cidade podemos ver tudo o que nos indicam para ver. E há nos mapas dos outros a beleza das coisas vistas nos olhos colectivos. E eu fui e vi com os olhos maravilhados de todos os que já a tinham visto antes. E fotografei com as mãos deles, escrevi com as palavras deles. Creio que me apaixonei por um largo pequenino traçado em amarelo ocre pelo qual outros antes de mim se terão apaixonado igualmente. E, no entanto, foi quase logo à chegada que senti um inebriante perfume numa rua, depois num largo, depois por cima da mesa onde nos sentámos. O cheiro adocicado mas forte era do perfume das pequenas flores brancas, perfume de flor de laranjeira. Toda a cidade estava cheia de árvores em flor, toda a cidade nos inebriava de perfume.

E essa vertigem, situada em plena Primavera, essa não constava de nenhum roteiro. Guardei-a para mim como um dia guardei a cidade das Acácias Rubras, guardei-a como a cidade do perfume das flores de laranjeira.


~CC~

quinta-feira, março 25, 2010

Noticiário

A violeta morreu submersa em água, gostava da cor das suas flores pequeninas e viçosas. Devia ter cuidado de a trazer para dentro e lhe dar o meu sol possível. Ainda espero por um milagre, ainda espero que as suas raízes não tenham apodrecido totalmente na chuva.

O cacto apanhado nas areias de Tróia, no final do Verão passado, esse vive num recanto mais protegido, por ter imaginado que ele devia sonhar com o deserto e com a vista do mar. Emergiu do seu centro uma haste comprida que termina numa rosácea de flores amarelas pequeninas.

O pé de lírio multiplicou-se em vários pés e como no ano passado não teve flores, julguei-o estéril, mas tem dois botões formados, e não sei se serão brancas ou roxas as pétalas em emergência.

Não há mais flores, há plantas dobradas pelo vento, com marcas de tempestade, mas ainda assim resistentes. Plantas onde me vejo ao espelho.

Se quiserem outro tipo de notícias, têm agora vários e múltiplos canais disponíveis, que conseguem colocar ao mesmo tempo as mesmas notícias, por isso também não sei se vale a pena mudarem de uns para outros. Agora sobre a minha varanda, sobre ela só eu dou notícias.
~CC~

quarta-feira, março 24, 2010

Quando o corpo já não pede

Voltei lá mais uma vez, porque da última vez não tínhamos trabalhado todas as histórias de vida que eu levava. Histórias dos outros como mote para as nossas. Na universidade sénior as pessoas estão lá só porque querem, e eu também. Nada nos obriga a estar ali, essa liberdade tornou únicas as nossas conversas. Eu não trabalho ali, eles já não trabalham.

Falar de afectos e de sexualidade é talvez a única coisa que há realmente para falar, mas as cortinas de silêncio tampam-nos quase desde que nascemos.

Hoje eles contaram como os seus casamentos foram cortados pelo silêncio maior do peso das múltiplas tarefas com que os adultos estão confrontados. Entre o crescimento dos filhos, a exigência dos empregos, a ausência de ajudas na lida doméstica da casa, os familiares distantes, a distância grande da residência ao emprego, não houve tempo para ouvir nem o próprio corpo nem o do outro. Quando chegamos à cama, só queremos dormir.

E quando o tempo chegou e o casal se viu só no espaço da casa, o desejo já tinha há muito fugido pelas janelas. E como elas, sobretudo elas, dizem: o corpo agora já não pede. E elas não sabem olhar esse corpo que mudou, que morreu aos poucos. E eles também já não se sentem capazes do mesmo modo.

Mas ao mesmo tempo, parece que qualquer coisa ainda está viva, é esse lampejo de luz que os trouxe até aqui, esse balbuciar das palavras certas para falar colectivamente de uma dimensão tão íntima, e esse brilho quando um pedaço da história do outro diz afinal a nossa.

Como eu ganhei, como eu aprendi.
~CC~

terça-feira, março 23, 2010

Exercício não concreto

Penso nas coisas concretas que sei fazer, algumas de aprendizagem recente, como sericaia. Sendo trabalhosa, mostrou-me que sei ser paciente.

Mas penso mais nas coisas não concretas que sei fazer. Sei, por exemplo, lavar os olhos em campos de tremocilha e deixá-los cheios de amarelo. Sei subir aos telhados para observar como as cegonhas se deitam docemente sobre os ovos grandes e inchados, quase a rebentar. Sei chegar-me a conversas de rua, para entornar as pessoas para dentro de mim, aquelas com as quais nunca me teria cruzado. E sei ir, sem saber bem para onde, se souber que no fim do caminho há qualquer coisa que suponho bonita. E sei falar às crianças pequenas, oferendo-lhes um colo com sorriso dentro, onde elas se aninham, se aninharam sempre (devia ter tido mais filhos).

Os exercícios de auto-estima não se aprendem na escola, mas deviam. Salvam-nos perante as coisas, as tantas coisas que não sabemos fazer, coisas que nos latejam sobre a pele e nos roubam o sono. À falta de melhor, como estão a ver, até as coisas não concretas são um passaporte para um rasgo de felicidade.
~CC~

segunda-feira, março 22, 2010

País (II)

Desafiei-os, cansada de tantas críticas feitas em murmúrio, à candidatura ao poder, afinal de acordo com as regras está acessível a todos. Não, isso não, responderam.

Era um pão grande, caseiro, com bom ar. E à mesa estava muita gente. Mas houve coragem para o distribuir deixando alguns sem nada. Quanto aos critérios da distribuição, esses são pertença de quem tem o pão, não se interrogam.

Ali ao virar da esquina, creio que sei quem escreveu na parede:
A polícia mata por prazer
A raiva está a crescer.
~CC~

sábado, março 20, 2010

Encontro marcado

Primavera, caso te tenhas esquecido, temos encontro marcado. Bem sei que já enviaste uma flores cujo amarelo faz lembral sol, mas não chega. Preciso que venhas de corpo inteiro.
~CC~

quinta-feira, março 18, 2010

Lugar nenhum

Ele disse: o seu texto é demasiado literário para um texto académico.

Eu pensei: demasiado literária para ser académica, demasiado académica para ser prática, demasiado prática para ser académica, e demasiado académica para ser literária.

Mas disse-lhe: mas a realidade é o resultado de um jogo de espelhos.

Ele calou-se. Os outros também. Fez-se silêncio na sala. A frase caiu no caixote do lixo e eu fui com ela.

Eu pensei: sou uma personalidade fronteira, o que na psicologia chamamos border line, não estou em lugar nenhum.

Mas disse-lhe: desde o princípio que quis contar uma história a várias vozes.

Ninguém respondeu.

Vim para casa a pensar em mim como border line, terrivelmente triste. Mas depois pensei que não é bem assim, nunca deprimi, tenho uma saúde mental de ferro.

E apeteceu-me um passeio de bicicleta, um banho de mar, um beijo.

Se calhar consigo viver em lugar nenhum.

~CC~

quarta-feira, março 17, 2010

Memórias

Moçambique, Maputo, 2007.

~CC~

terça-feira, março 16, 2010

Uma casa vazia

O que resta dos lugares que amámos, onde julgamos poder pertencer até a velhice chegar? Encontrei-me com a casa branca num Outono, mas lembro-me de a começar a amar no começo da Primavera, com as amendoeiras já plenas de flores, o sol a fazer sombra nas paredes e um cheiro forte a relva cortada. Lembro-me de gostar de estar ali a trabalhar até tarde, de apreciar o silêncio dos crepúsculos, e de sair já quase noite. Lembro-me de me apaixonar, sem saber exactamente por quem, só pelo gosto que era ser Verão e apaixonar-me. Lembro-me de ti a cantar pelos corredores. Lembro-me da festa que eram algumas equipas de trabalho, e das coisas únicas que fizémos. Lembro-me do José Luis Peixoto a recitar poemas no auditório cheio e de ter feito um esforço para não chorar.

Mais tarde chegou o inferno dos dias ali. Mas depois foi passando e houve um tempo outra vez bom. Tu estavas no andar de cima com o teu sorriso de menino grande. Ela estava no andar do lado, e tinha aberto a porta do gabinete, convidando-me a entrar, e mais tarde a porta da sua casa. Acreditei no vossos corações bons, mas agora já não estão mais perto de mim, não da mesma forma.

E agora a casa está cheia e completamente vazia. Apetece-me outra vez chorar, mas por não conseguir sentir absolutamente nada. Resta, no entanto, este cheiro a relva cortada, este verde a recortar-se contra o céu, esta beleza branca. E dois sorrisos jovens, a única coisa boa que trouxe hoje para casa, agarro-me a eles como a um passaporte capaz de me levar para além da fronteira, para além do vazio.
~CC~

segunda-feira, março 15, 2010

Contem a história

Quando o meu olhar vê longe alcança sempre a terra vermelha da minha infância, lugar para onde pensei regressar assim que pudesse. Mas não posso. Não há nem nunca houve por lá um homem como Nelson Mandela. Os corações guardam ainda o ódio que ele deitou fora de forma impressionante. O ódio pode ser tão legítimo como o amor, mas não há nada de semelhante entre o que pode nascer de um e do outro. Ver Invictus é molhar os olhos em esperança, as lágrimas que se choram naquele filme são de consistência diferente, estão recheadas de uma alegria única, como se aquele homem renovasse dentro de nós todo o sol que deixamos sombrear.

Levem os vossos filhos a ver, e se forem ainda meninos ou meninas, ajudem-nos a perceber a história. Devemos-lhe isso.
~CC~

sexta-feira, março 12, 2010

Luz para os teus anos

Há meses que quando me abeiro da janela pela manhã resmungo por causa da chuva e do frio. Ela não: só me pergunta pelo que vai vestir, conformada e quase indiferente. E ri de mim por eu ficar feliz por avistar uma nesga de sol, diz que pareço uma criança. Mas hoje o sol veio todo inteiro para encher de alegria os seus 14 anos e me lembrar o quanto sou feliz por a ter.
~CC~

quinta-feira, março 11, 2010

Chile

Ele poderia escrever de novo os versos mais tristes esta noite, ou naquela outra noite em que a terra tremeu tão forte. Era um livro a desfazer-se entre as minhas mãos, como se sobre ele muitos amantes já tivessem chorado. Li e reli os vinte poemas de amor e uma canção desesperada na urgência de beber para sempre a palavra crepúsculo como ele a escrevia. E nada do que depois li dele se assemelhou à intensidade que ele tinha nos seu sangue de vinte anos, poemas a brotar na sua cidade amada.

Quando a terra tremeu de forma tão avassaladora no país que era dele, só me lembrei que talvez ele pudesse cantar qualquer coisa capaz de a amansar. Mas os poetas também morrem, mesmo que os lembremos mais e mais. O Chile é de Neruda, é assim que o penso na minha cabeça e não há nada a fazer. E podemos amar um país que não conhecemos, ao qual nunca fomos, com o qual não temos laços evidentes, porque um poeta o colocou no nosso coração. Esse bem querer é como se fosse um passaporte para entendermos um povo na sua aflição de existir, um povo agora mais aflito. Desejar-lhe bem, cantar à terra para que amanse.
~CC~

quarta-feira, março 10, 2010

Só existir

Às vezes penso na fronteira que trouxe para esta Ardósia, ela está cheia de mim, mas muito pouco das coisas que eu faço. Às vezes quando a nível profissional uma coisa se torna transbordante concedo-me a possibilidade de falar nela, mas nunca numa perspectiva didáctica, ou sequer de partilha de saberes. Por acaso hoje aconteceu uma coisa transbordante; fui conversar sobre amor e sexualidade com os +65 que frequentam uma universidade sénior. E foi muito bom.

Escrevo sobre Educação, mas não aqui. Pensei nisso por causa do Leandro, pensei como era possível não escrever sobre ele aqui, mas na verdade já o fiz noutro lugar, aliás já tinha escrito sobre o Leandro antes dele existir como o menino que se deitou ao rio, era um outro, uma outra, outros nomes com a história dele.

Fugi a sete pés de todas as propostas de fazer blogues colectivos sobre Educação e raramente leio os que existem, abrindo a única excepção para o Tempo de Teia , acho que pelo facto de no meio da Matemática ela misturar gatos e rosas do quintal. Acho que sei porquê. A vida profissional tomou-me demasiado tempo, às vezes quase todo o tempo. Sempre a estudar e a trabalhar, e muitas vezes acumulando ainda mais este ou aquele projecto, tive muito pouco tempo para mim. Não sei o que é estar em casa e pensar em como ocupar o tempo, o meu tempo está sempre previamente tomado por alguma coisa.

Arranjei esta ardósia para mim, para o espaço de mim que não está tomado. É como um segredo, um lugar em que posso simplesmente existir. E quando vou pela blogosfera à procura, só procuro escrita, gente que escreve com o coração a pulsar por dentro do quotidiano, gente como a Ana.
~CC~

terça-feira, março 09, 2010

Dançar, voar, rebolar.

Eram meninas da escola primária rindo abraçadas. De que riam elas? Riam porque tinham enviado um bilhete ao rapaz de que todas elas gostavam. Perguntavam: de quem gostas? Perguntei-lhes como é que faziam para não se zangarem umas com as outras, presa da minha lógica adulta, do que tantas vezes vi as mulheres fazerem umas às outras por causa de um homem. E elas disseram que não fazia mal, que não se iam zangar por causa dele. Elas disseram que eram amigas, que seriam sempre amigas. E ele foi variando ao longo dos anos da escola primária, mas nunca se ligando muito aos namoros, preferia mesmo o campo de futebol, os desenhos e a Matemática. E é verdade, elas nunca se zangaram por causa dele.

E lembrei-me anos antes, quando amei alguém que não sabia, que estava hesitante. Lembro-me de lhe dizer que ele podia ir, que não o queria prender a mim. E ele foi. Uns tempos mais tarde voltei-o a ver e ele disse-me: tu não lutaste por mim. E disse-me que tinha concluído que eu não o amava verdadeiramente. Se eu já tivesse conhecido naquela altura as meninas da escola primária, teria sabido dizer-lhe que o amor é uma coisa demasiado bonita para combinar com a palavra luta, que preferia combiná-lo com outras palavras. Outras tais como dançar, voar, rebolar.

E nunca, nunca com perder e ganhar.
~CC~

segunda-feira, março 08, 2010

No bater do coração



Gosto de ser mulher e isso devia bastar. Não queria dia nenhum para mim, nem para as outras mulheres. Mas se ele existe, é porque marca uma luta, marca um duro e longo caminho que só para algumas parece terminado, e isso é importante, é fundamental pensar nas mulheres sem voz que há por toda a parte. A discriminação ainda existe, com rostos novos, e outros já antigos.

Mas a festa devia ser também batalha, cheia do bater dos corações fortes, e não ter este aroma de rosas de estufa.
~CC~

quinta-feira, março 04, 2010

Poema menino

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Sou eu
Nado aqui perto de ti
Neste oceano
Azul Pacífico
É belo, quente, cheio de corais
E de meninos pobres rindo nas ondinhas brancas


Sou uma concha, sou um búzio
Um bicho do mar fechado
Mas pronto a espreitar os belos cardumes coloridos que passam
Foi por essa estreita abertura que te vi
Eras um polvo majestoso nadando
E tive medo desses teus braços fortes
Desse teu ar de terra


Sou eu
Percorro rapidamente as distâncias
Mas distraio-me a ver uma alga vermelha ou roxa
Perco-me nos caminhos
Tenho pavor das grutas fechadas de onde não sei sair
Choro amiúde
Dentro da minha concha
Desacredito

Espero por ti na curva do rochedo negro
Para me ajudares a passar
E sinto que nos teus braços
Há uma tensão doce
E fecho os olhos
Para acreditar que me proteges para sempre dos abismos
Queria ouvir-te dizer que o vais fazer

Sou eu
Se vires bem sou pequena
mas também te posso mostrar algumas coisas
deste imenso oceano
Coisas pequenas
sobre abraços fortes
sobre a dor
sobre os sonhos que habitam até o sangue dos peixes
se pudesses sonhar os meus sonhos

As coisas que tu sabes para evitar os tubarões
As coisas que tu sabes sobre a imensidão das espécies
As coisas que eu sei sobre amar muito
As coisas que eu sei sobre beijos
Beijos pequeninos, doces, suaves
Que nos ficam a dizer segredos muito tempo
Acredito.



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~CC~

quarta-feira, março 03, 2010

Os sapatos ingleses

Pelo fim da tarde, dois dias por semana, vejo-os a chegar a casa e saio de casa. Entro na fila no sentido inverso aos dos outros, e faço talvez a coisa mais burra que algum dia fiz: tento (re)aprender e melhorar o meu Inglês. Ao mesmo tempo que sinto que as minhas capacidades vão diminuindo mais e mais, luto para as aumentar. Pago caro este inconformismo, pois sinto-me a maior parte das vezes incapaz, mas sei que não é verdade, há talvez meia dúzia de palavras novas que entraram no meu léxico e uma quantidade grande de novos tempos verbais conquistados. E nem consigo contar as aquisições em termos de artigos e uso mais interessante dos adjectivos. Mas são sempre as pessoas o que mais me interessa. Estudo, além do Inglês, cada um dos meus colegas novos, como se fossem eles o manual que realmente me é importante.

Ontem um dos colegas verdadeiramente simpático fez par comigo nas perguntas e respostas, na verdade já previamente orientadas pelo livrinho. Ele disse logo que ia escolher as perguntas mais indicadas para mulheres, o que me pareceu desde logo uma iniciativa interessante. E claro que perguntou sobre o meu corte de cabelo, as tarefas que fazia em casa, há quanto tempo não ia às compras e finalmente há quanto tempo é que eu tinha comprado os sapatos que trazia calçados.


Ora eu não me lembrava há quanto tempo tenho este corte de cabelo, nem a última vez que tinha ido às compras, gosto de fazer quanto tudo em casa e sou só eu que o faço, e quanto aos sapatos...tinham pelo menos dois anos, mas quase que apostaria nos três. A dos sapatos foi demais para ele, abriu a boca de espanto e disse que parecia impossível, pois as mulheres compram sapatos novos todos os anos. Por acaso este Inverno não comprei nenhuns, respondi-lhe. E acrescentei: mas talvez eu não seja bem uma mulher. E ele abriu muitos os olhos e durante uns segundos creio que duvidou mesmo que eu o fosse. E eu ri-me muito para dentro, contente por ter aulas de Inglês.
~CC~

terça-feira, março 02, 2010

País

A obra dura há muito tempo, ou seja, foram já ultrapassados os limites que tinham sido colocados para o seu término. Assisti durante meses ao modo como foram colocadas uma a uma as pedras da calçada portuguesa, adornando de forma bonita o parque de estacionamento, esse também feito de pedras, mas mais escuras.

Quando finalmente a vasta área de calçada chegou ao fim, vieram umas máquinas colocar umas placas de protecção, a separar a linha de comboio do parque. Passaram uma e duas vezes por cima das pedras brancas e das pedras pretas, mas as brancas não resistiram ao peso das máquinas. A vasta área de calçada tornou-se um monte de poças de água e lama, e várias pedras saltaram completamente fora do lugar, como se esta obra tivesse já anos. Hoje, vários homens colocavam outra vez as pedras no lugar e tentavam endireitar as ondas do chão. Amanhã talvez venham as máquinas pesadas outra vez pisá-las com força desmedida.

E é assim que (não) se faz um país.
~CC~

segunda-feira, março 01, 2010

Morada

Deixei o rosto beber do sol da manhã, fechando os olhos um segundo, para o poder absorver. Fechei os olhos um segundo para que o seu beijo pudesse chegar até ao meu coração e aí pudesse permanecer feito calor por mais tempo, tanto tempo. São difíceís os dias sem sol e sem beijos. Sei a cada dia que passa o que é o essencial, o que é a luz. Mas não sei ainda o suficiente que me permita deixar o sol no céu e o beijo no coração, perco-os amiúde aos dois, trazendo sombra aos dias. E eu sou do calor, é aí a minha morada feliz.
~CC~

domingo, fevereiro 28, 2010

Indignação



Leiam esta mulher. Leiam este homem. Indignem-se como deve ser.
E bebam água ou vinho.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Dias felizes

Imagem enviada por mail pela Nenúfar Cor de Rosa.
Que bem fica aqui.Obrigado.


A memória dos meus dias felizes está cheia de coisas insignificantes. Foi neste Verão, ou talvez por alturas da Páscoa, já não sei bem. Tudo começou com as adolescentes que decobriram que ia ser a cor da moda mas não ligavam o nome a cor nenhuma. Então, passámos horas, dias, semanas... a discutir a cor malva. E descobrimos que a cor malva era diferente para muitas pessoas, mesmo na família reduzida havia pelos menos três cores diferentes para malva: verde, lilás e rosa claro. Eu era do verde malva.



Hoje comprei chá de malva flor, são umas florinhas roxas pequeninas. A água deve ficar linda cheia delas.



~CC~

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Ainda vem

O rapaz da caixa de supermercado deve ter feito há pouco os 18 anos. Trauteia pequenas canções, lança as coisas do tapete rolante ao ar antes de as pousar no saco, discute os resultados do futebol com os velhotes e pronuncia menina quando se me dirige com ar matreiro. Estive para lhe perguntar se não via que eu tenho a tristeza colada à pele, que estou sem paciência para brincadeiras, dizer-lhe para ficar calado, para não se rir assim à minha frente.

Depois pensei perguntar-lhe pelo que o fazia assim feliz numa manhã cinzenta, uma mais entre tantas outras nos últimos tempos, ainda que sem chuva. Mas ele também lê os pensamentos alheios porque me diz: está a ver, hoje pelo menos não chove, isto vai lá, o sol ainda vem.

Pois, o sol ainda vem.
~CC~

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Florir

Demorei-me no bar da escola, demorei muito mais do que precisava para beber o café. É que em frente fica o pátio das amendoeiras, creio que elas são seis, uma mais pequenina que as outras veio há uns tempos substituir a que tinha morrido ali. Demorei-me muito mais do que devia, muito mais do que podia. Fiquei a ver as amendoeiras a florir, a florir devagarinho, a rasgar de riso branco estas tempestades que nos varrem. Podia demorar-se ainda mais, podia ficar muito mais tempo de olhar preso naquelas flores, nas pequenas flores brancas.
~CC~

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

O colar das contas azuis

Fui buscar o colar de contas azuis e pretas e pequenas moedas douradas que me deste no meu aniversário de há quatro anos atrás. E tive muitas saudades tuas.


Foi há quatro anos naquele restaurante pequenino perto do Parlamento, e nem sabia que depois voltaria lá tantas vezes com o meu pequeno gravador para ouvir os deputados da nação falar de um assunto tão ortodoxo quanto o que estudo. Tenho de dizer-te que o colar de contas azuis perdeu algumas das moedas douradas mas é ainda muito bonito, perdeu moedas como eu ganhei algumas lágrimas mais e mais rugas fininhas, daquelas que o tempo traz para nos adornar os olhos. Vi-te tão pouco depois disso, e pelo telefone não chegam os apertões que me costumas dar quando me abraças, como se ao mesmo tempo que me apertas também me desses um abanão para eu sacudir todas as cinzas.


O teu colar de contas azuis sem metade das moedas douradas, perdi-as por aí em todas as idas e vindas destes quatro anos. Olhei-me ao espelho com ele posto e senti tantas saudades tuas.
~CC~

domingo, fevereiro 21, 2010

Single

No filme Single Man, há um homem a querer morrer porque o seu amor perdeu a vida. A sua tristeza devora-o como se fosse lume a pegar-se a um papel. E não há água capaz de apagar a imensa fogueira da tristeza. E, no entanto, há coisas pequenas que são ainda um resquício de luz, embora a sua vontade de morte seja mais forte.

Ele lembra as pequenas coisa luz: um rodopio de dança com a melhor amiga, um raio de sol apanhado na rocha, o azul dos olhos do rapaz que o procura.

Dantes quando estava triste pensava nos mais tristes que eu. Hoje pensaria na ilha dominada pela chuva e nos que lá morreram sem sentido, invadidos por esta tempestade maior do que nós. Mas seria um exercício inútil, a tristeza dos outros não apaga a nossa.

Por isso só é possível vir à tona através dos meus próprios resquícios de luz. Espero um abraço meigo daquele menino que há dois anos se salvou da morte, o pedido matinal da minha filha adolescente para a escolha da roupa do dia, a visão da rua com o mar ao fundo, e eu a deitar-me molhada de água e sal na areia quente de Agosto.

Resquícios de luz, trata-se de os apanhar sofregamente.
~CC~

sábado, fevereiro 20, 2010

Concordância

Absolutamente de acordo. Ainda há quem resista, apesar de nos estarmos a tornar obsoletos. E já vi e vi usar, apesar de não o ter.

~CC~

Enrolar-me (II)

Uma vez um miúdo num jogo que eu fazia em torno dos nossos objectos mais belos, aqueles que amamos por uma razão especial, fugiu ao trivial das respostas que indicavam a consola, os ténis de marca e a bola assinada pelo jogador x, e apesar de ser rapaz, disse que o objecto que mais amava era o sofá lá de casa porque era onde se sentavam todos juntos. Foi a única resposta dirigida a um objecto colectivo, onde o amor era o encosto dos corpos uns nos outros, esse calor cúmplice.

Talvez por nunca me ter esquecido desta frase ao longo dos anos, comprei um sofá grande para a minha sala pequenina. E ontem tive mais uma vez a certeza de que tinha feito bem. Debaixo da manta azul, muito encostadinhas uma na outra, partilhámos um zapping pelos muitos canais que agora há. Fiquei espantada por haver programas sobre restaurantes e concursos de decoração de quartos, mas na verdade nada daquilo que víamos tinha muita importância. Importante era o calor cúmplice dos nossos corpos encostados, a intimidade que só é possível com alguém que conhecemos muito bem, aquela certeza de que o amor é também feito destes momentos de nada fazer, de estar apenas ali sem palavras que tenhamos que dizer, nem obrigações a respeitar. Há também uma zona de amor assim entre os amantes, quando o calor que acendem um no outro não é apenas o do sexo, é tambem o corpo do outro encaixado na zona quente da nossa pele. E há quem saiba, e há quem não saiba.

Mas a miúda sabe, apesar de eu não ter tentado ensinar-lhe.
~CC~

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Enrolar-me

Agora que se acabam as manhãs de Sexta que corriam para as noites cheias de esperança de estrelas cadentes, terei que enrolar-me na tristeza como num manto e esperar que ele se desfaça na minha pele, que se torne pó misturado no meu sangue. Já do tempo que a tristeza demorará a se tornar pó, pouco sei dizer. Sei apenas que usarei as palavras apenas enquanto elas forem brasas que me permitem ter algum calor, enrolar-me.
~CC~

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Esconderijo




Sempre gostei de esconder-me, lembro-me que uma vez quando era miúda jogava às escondidas e fiquei num canto do quintal, e o tempo passou, passou muito tempo, e eu sentia-me bem ali quieta, longe de tudo. Na verdade, ninguém veio à minha procura, quando saí, já o jogo tinha há muito acabado. E agora ainda gosto, vou para um lugar onde nunca estive e se gostar dele, acho que posso ficar muito tempo. Não sinto a falta de nada se trouxer comigo os que amo, só eles são afinal a minha terra. O resto em mim é tudo mar.
~CC~

PS. Obrigado João pelo cantinho onde me escondo.


sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Inventar dias


Posso corrigir?!
Substituir posto da guarda por mar. Colocar sol, varrer o frio. Completar com dias. Estarei vários dias ao sol, junto ao mar, sem frio. Inventarei isto se este cinzento teimar em persistir.
Até breve
~CC~

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Admirar na praça pública

Vi muita gente presa de admiração por algumas figuras públicas, por vezes há mesmo algumas que se coadunam com o pó de um determinado tempo e ficam ali a brilhar como estrelas em plena ascensão. Tive amigas fascinadas pelo Miguel Sousa Tavares, pelo Miguel Esteves Cardoso ou mesmo pelo Miguel Portas. Mas não só os Migueis prendiam as atenções, também havia quem admirasse profundamente os académicos que tinham cruzado as suas vidas e assumido uma função de quase mestres. Tenho pena, nunca admirei ninguém assim, e muito menos tive mestres. Às vezes acho que é arrogância minha, se fosse mais humilde nutria essa espécie de devoção por alguém. Teria aceite vários convites para assumir essa relação de devoção-protecção que muitas pessoas levam pela vida fora e que as amortece de muitos embates, mas rejeitei sempre, e apanhei ventos agrestes sozinha.

Abro contudo a excepção para Nelson Mandela, hoje recordado na praça pública por fazer 20 anos que saiu da prisão. Partilho com e na praça pública o fascínio por um homem que é capaz de perdoar aos seus carrascos, de se erguer e de erguer um povo. Nunca vi olhar doce mais repleto de força.
~CC~

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Equílibrio

Ensino-a a ter medo, porém não demasiado medo. Na infância fez-me falta saber o que era o medo, não me lembro de me falarem dele. Mais tarde aprendi da pior maneira, e ganhei medo a mais. É dificil ganhar o equilíbrio necessário para avançar na corda e chegar de um lado a outro.
~CC~

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Amor e outra história



(...o melhor amor de cada um de nós ainda está por descobrir)

E.


Celeste olhou uma a uma as portas fechadas da sua casa grande, tinha-as fechado para a tornar mais pequena e assim diminuir a sua solidão. Abriu a janela da sala, era a única divisão que tinha sobrado da sua vida familiar antiga, fechando os olhos podia ouvir as vozes dos miúdos quando chegavam da escola e sentir o coração a bater com força. Mas em vez da lágrima habitual que lhe aparecia nessas ocasiões de profunda saudade, viu nascer na sua boca um sorriso. E da janela da sala dirigiu o sorriso até ao lugar da Nogueira. A verdade é que ainda há pouco tempo a mandara cortar porque a entristecia ver a ruína em que ela se tornara, e muitas vezes sentira-se tão velha quanto ela.


Mas estava para chegar o seu velho com a nogueira nova, e o buraco que pedira para abrir cheirava a água e a terra, estava pronto para alimentar a seiva de uma nova vida. Chamava-lhe intimamente e só para si própria o seu velho, mas achava-o ainda um homem muito bonito, e tinha pensado muitas vezes encher os seus dedos com aqueles cabelos brancos tão abundantes.

Ele tinha vindo ver a casa quando ela a pusera à venda, cansada das memórias que lhe estavam agarradas, e tinha ficado preso à cor purpura única das paredes e ao cheiro dos jasmins que trepavam por elas. Tinha dado tudo o que tinha aos filhos numa espécie de despedida antecipada, os bens já não lhe interessavam, mas procurava ainda um lugar para poder demorar-se nos crepúsculos. Combinaram ver-se uma e outra vez com a casa pelo meio, mas já presos um ao outro pelo resto do brilho que os seus olhos tinham. E ele tinha-lhe pedido para ficar naquela casa, porque há lugares que não se podem abandonar sob pena do sangue se transformar rapidamente em pó. E ela sabia que apesar de ter fechado as portas, deixá-la era também secar por dentro. E ela tinha-o convidado a vir, a trazer as suas coisas. E ele tinha dito: primeiro trago a nogueira nova para plantar. E viram que na geografia da pele havia roteiros de lume ainda por descobrir. E nunca falaram de amor, nunca.

(a frase de E. está cheia de esperança, se no momento em que perdemos um amor que ainda amamos, nos fosse possivel beber dela, a sombra não nos tomaria)

(é beber desta esperança, não só porque "o melhor amor de cada um de nós ainda está por descobrir" mas também porque podemos descobrir melhor o amor que temos).

~CC~

Nota breve


E isso é o que importa.
~CC~

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Amor e uma historia (II) aos olhos de E.



Chamei-lhe "A edificação do amor"

(Por E., do SUL)

"Pegue-se então na história da Maria e do Sebastião, chamemos-lhe assim, que durou uma Primavera apenas, mas podia ter durado muito mais e ter acabado por vários motivos:Imagine-se que a Maria tinha tido uma doença grave e morria no Verão seguinte, ou que o Sebastião, numa tentativa de prosseguir os seus estudos superiores, passava a estudar de noite e, no regresso das aulas tinha um acidente de viação. Ou ainda que, a meio do curso de Sebastião, este se apaixonava por uma das suas colegas, vinte anos mais nova que Maria.E o contrário também era possível: ambos partiam para a grande cidade, onde viviam o seu amor no meio do anonimato, ou mudavam apenas para uma terra mais próxima, onde viviam em segredo o seu amor, dentro de quatro paredes, sem o apresentar ao mundo. Ou ainda, anos volvidos, passariam a encontrar-se no dia do aniversário dela, numa pensão à beira-rio, até que ela deixasse de poder fazer a viagem e ele passaria a visitá-la no lar da terceira idade onde a velhice de Maria decorria e, posteriormente ainda, na sua sepultura no cemitério novo da aldeia.E até aqui só fizemos o que gostamos sempre de fazer, no cinema e na literatura, que é analisar as personagens em estado (muito) puro, sem as contingências de um mundo à sua volta. Mas pode dar-se o caso de a mãe de Sebastião lhes fazer a vida negra e o seu amor não resistir a isso. Ou de o ritmo de vida que se desenrola no casal os tornar incompatíveis. Às vezes umas meias rotas, uma ruga nova, que não a primeira, nem a segunda, mas a quarta ou a quinta, ou até meia garrafa de vinho a mais por noite são suficientes para a avalanche que precipita um fim. Noutras vezes, nada consegue partir uma relação. O marido condenado a uma prisão durante vinte anos, aquele que emigra para o outro lado do mundo e visita a sua família uma vez por ano…

Não está em causa a medida do amor, mas a forma como foi (ou não) edificado. Amor e uma cabana, ou a fantasia da ilha deserta, são uma realidade não estruturada do amor. Esta surge ou desaparece (por falta de condições externas ou interiores das pessoas que viveram aquela relação) com a envolvência social, com o peso da sociedade, da família, das forças contrárias àquela relação. Não está em causa a qualidade da pessoa ou das pessoas, mas apenas uma capacidade de naquele caso concreto, conseguirem em conjunto superar uma dificuldade que, ainda que sendo apenas de um, se torna de ambos.

Voltemos então à Maria e ao Sebastião: nenhum deles viveu “infeliz para sempre” por causa do amor, mas tão somente porque não conseguiram estruturar uma relação que se antevia como boa para ambos, ou porque um tempo que foi bom terminou e nenhum deles estava verdadeiramente preparado para isso. Repara que podem ter antevisto ainda as dificuldades porque iriam passar e nenhum quis enfrentá-las. Anos mais tarde, podem, um ou ambos, achar que tudo podia ter sido diferente e, sopesando o passado, não conseguirem ultrapassar o peso de uma decisão tomada lá para trás. Estamos no campo da liberdade individual de cada um (e nem sempre, numa relação a dois existe escolha para ambos), na livre escolha, que naturalmente gera consequências. Nem sempre as pessoas estão preparadas para viver com essas consequências. Eis o que se pode lamentar, mas nunca o amor, pois não?"

(Obrigado E, por tão interessante resposta, por tão interessante pergunta).
~CC~

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Amor e uma história (I)

(Para E, em jeito de resposta (1) ao seu comentário no post anterior)

A derrota

Maria tinha tido um acidente grave de carro que a deixara com um braço para sempre paralisado e por isso reformara-se cedo, não tinha ainda completado cinquenta anos. Com as filhas crescidas, deixara a cidade e voltara à vila onde nascera e à qual durante anos só tinha ido esporadicamente. Como mulher que toda a vida amara os livros e se dedicara a fazê-los amar, tinha levado com ela a vasta biblioteca que organizara meticulosamente numa das assoalhadas da sua casa na vila. E os miúdos da escola iam amiúde procurá-la, tornara-se numa espécie de tia culta que ajudava a ler e a interpretar as obras obrigatórias, fazia-o de graça e com gosto e aquilo dera um novo sentido à sua vida. Ganhara também o respeito da comunidade.

E isso durou até ao dia em que um rapaz mais velho, já trabalhador, a procurou para o ajudar a fazer o exame de 12º ano e poder ingressar na faculdade. Também ele tivera azar com a vida, a doença do pai tinha-o obrigado a deixar os estudos, e só agora podia voltar. Era assim diferente de todos os que tinham procurado Maria, tinha mesmo vontade de aprender e de superar-se a si próprio. Liam muita poesia, sobretudo Fernando Pessoa e Camões, poetas que eram muito focados nos exames de 12º ano. E o rapaz sentiu uma e outra vez os olhos molhados quando ela lia com a sua voz rouca, o braço sem vida, a alma fora dali. E era verdade, ela esquecia-se da presença dele, lia para si própria em viagem interior. E é assim que o amor nasce: uma coisa tão pequena que nos toca no outro, que nos toca como mais ninguém tocou.

E nenhum deles quis ou pode evitar que da doçura das vozes se caminhasse para a doçura dos corpos, nenhum deles teve medo do amor. É verdade que primeiro se escondiam no escuro do quarto, mas assim que a Primavera chegou, quiseram ir com ela pelos campos e deixaram de se enconder.

E a vila inteira soube, falou e condenou. Era um amor imoral. Condenada a diferença de idades, de estatutos, de ambições. Ela passou a receber cartas intimidatórias, deixaram de a cumprimentar nos lugares públicos e um dia uns miúdos na rua chamaram-lhe puta e depois desataram a fugir em ruidosas gargalhadas. Condenado o amor, tão só essa explosão, em si mesmo anárquica e não convencional. E sim, terminaram em mútuo acordo essa sua Primavera.

Ela fechou a porta da sua casa na Vila e colocou uma tabuleta: para venda. E nunca mais voltou. Ele fez tudo o que era suposto fazer: casou e teve filhos. E continuou sempre a procurá-la, não activamente é verdade, mas passivamente. Julgou vê-la no Cinema, numa livraria, num jardim...era uma miragem interior, uma sombra dentro dos seus olhos. E foram assim os dois infelizes para sempre. E o amor perdeu.
~CC~

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Toques de seda e perfume

Desde o primeiro filme da Jane Campion que a sigo como uma abelha em busca do perfume de uma determinada flor, um aroma certo para a produção do mel interior. Às vezes o perfume é tão intenso que provoca tonturas e outras tão suave que nos amacia.

Nesta sua cintililação pelo amor, o desejo é um toque macio entre campos de mil flores e flocos de neve. Os beijos são passarinhos contidos, presos no seu voo, mas claramente marcados pela vontade de pele.

E o amor vence, apesar da morte. É ele que vence claramente a luta, a dura contenda entre as convenções e a liberdade. E é também a luta entre a musa virtual do poeta e a musa real de olhos doces. É a segunda que vence e é ela que enche os poemas do que lhes faltava.

Também eu acreditava nesta força do amor até o ver claramente derrotado pelas convenções, e comecei a perceber que ele perdia, que perdia muitas vezes. Ou então não era amor.
~CC~

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Marcas na areia


A praia quando chega o sol de inverno mostra as marcas das marés intensas e dos ventos fortes. É ainda uma praia quase vazia que se abre diante de nós na manhã de sábado. É preciso caminhar junto à areia molhada porque a areia seca é um conjunto de montes e vales penteados pelo Inverno. Vemos as marcas dos nossos pés rapidamente lavadas pela espuma. E andamos mais e mais, impelidos pelo desejo de ver mais adiante aquele lugar em que a ria e o mar se encontram num abraço de sal. Há muitos anos que não caminhava até à barrinha, o lugar onde os barcos andam para trás.



As ondas trouxeram com elas muitas conchas e muito lixo, uma mistura bela e desordenada das coisas mais bonitas e mais feias. No cimo de uma duna uma televisão abandonada emite a partir de uma antena de cana que alguém fez, numa instalação improvisada bem humorada. No regresso há uma baía calma onde os meninos poderiam aprender a tomar banho em paz de tal modo as ondas são mansas. Não há quase gaivotas, mas há uns pássaros mais pequenos de bico pontiagudo que brincam juntos. E vi claramente na areia as marcas das patas de uma cegonha, vi o seu andar vagaroso e majestoso.


Lembrei-me do Fernão Capelo Gaivota e de como ele marcou estupidamente a minha adolescência, como me fez aprisionar nessa hipótese de fazer a diferença face aos outros, fez-me falta ser como os outros, só querer comer e lambuzar-me nesse prazer como o imenso bando na praia. Mas não, sempre me senti só, era essa gaivota teimosa presa a qualquer filosofia capaz de vencer a força da gravidade. E isso marcou-me de tal modo que não sei se sei descolar essa teimosia das minhas células. Depois a tua mão acordou-me de mim e destes pensamentos e senti-me feliz por te ter ali.


~CC~


(e no dia seguinte e no outro, as pernas acusaram a longa caminhada até à Barrinha)

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Aprisionados na rede (II)

Tem uns belos olhos claros num rosto sorridente na plena frescura dos vinte, mas ultimamente achei-a tristonha e sem cor. Pensei que o cansaço dela poderia ser igual ao meu, que talvez como eu se sentisse no limite. Mas não era.

Aproveitando uma frase que deixou escapar: não durmo há muitos dias, perguntei-lhe o que se passava com ela. E acrescentei a medo: não me diga que fica na NET até de manhã...(mas confesso que eu própria achei a minha frase um exagero). E ela respondeu: É isso professora...mas quase não vejo Televisão!
~CC~

terça-feira, janeiro 26, 2010

Montes Claros

No sábado vi umas tímidas e incertas papoilas, dobradas pelo vento e de um vermelho pálido, não pareciam poder vingar muito tempo. Mas fiquei feliz com elas, feliz por as ver, como se atrás delas pudessem vir mais e mais e tornar rubros os campos. Depois chegou um azul hesitante, pautado ainda por muitas núvens ora brancas ora negras, mas ainda assim a deixar passar a melhor luz que há. E essa nesga de possível Primavera trouxe com ela saudades dos meus namoros adolescentes, feitos ao ar livre, em tudo quanto era um pequenino espaço verde cujas árvores fossem capazes de esconder meia dúzia de beijos. Será impressão minha ou o número de namorados nos jardins diminuiu muito? Terão passado a beijar-se via MSN e afins?

Lembro-me do medo que sentia quando iamos namorar para os Montes Claros, apesar de nem sonhar o quanto Monsanto era um lugar perigoso. O medo que ia a par com o arrepio da pele e a maravilha dos milhares de trevos debaixo dos nossos corpos. E entre dois beijos e umas conversas tontas ainda se saboreava uma azeda apanhada ali mesmo.
~CC~

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Formiguinha





As formigas arquitectam no seu silêncio montinhos cheios de coisas para o Inverno. Espero que aquilo que faço tenha essa consistência, embora seja na verdade imaterial, impossível de saber verdadeiramente. Nunca sei se cheguei ao que queria. Mas ensinar talvez seja deixar sementes sem saber quais delas vingarão, se tornarão arbustos e depois árvores. Talvez algumas não nasçam já, mas só mais tarde, outras nunca ganharão a força necessária, outras já as vejo prontas, maduras. Desenhar um projecto com os estudantes é anular os tempos da escola, livres de aulas, rotinas, dias de semana e de fim de semana, podemos criar um outro modo de nos apropriarmos do saber.

Chegar ao fim é e também perceber o quanto estaríamos mais prontos para começar.
~CC~