quinta-feira, maio 13, 2010

Semi-breves (IX)

Em outdoor a moça gordinha olha-se no espelho de corpo inteiro que lhe devolve uma imagem esbelta, praticamente metade do que ela é em massa corporal. Algures há um produto maravilhoso que produz tal efeito, mas curiosamente nao sei qual é. Fixei-me no espelho, e dei por mim a pensar onde é que se venderiam espelhos como aquele, capazes de produzir alterações de forma e outros milagres afins. Portanto, deve ser boa esta publicidade.
~CC~

quarta-feira, maio 12, 2010

Só existir (II)

As grandes religiões monoteístas têm as mãos muito marcadas pela cinza, pela terra que queimaram para poderem crescer. São religiões de poder, mesmo nos Estados ditos laicos como o nosso. Essa aliança com o poder é que as torna potencialmente perigosas, e no entanto elas não lhe viraram o rosto para se tornarem simplesmente rosto comum, rosto do povo, bem pelo contrário. São grandes sistemas de dominação sobre o indivíduo, sobre a sua liberdade. Não se pode ser de uma coisa que é isto, que é também isto, não lhes posso pertencer.

Os Ateus acham que são capazes de dizer e quase provar que Deus não existe, a maior parte das vezes usando a Ciência como legitimação, a sua arrogância é quase tão grande como a daqueles que afirmam a existência de Deus. Não se percebem como gota de água num universo atrozmente desconhecido, e ignorando a profunda pequenez da existência humana, não se pode perceber a fragilidade do nosso existir. Desprezar os crentes não me parece posssível, e por isso também não lhes posso pertencer.

Aos Agnósticos talvez pudesse pertencer, não fora pensar que eles não são isso nem outra coisa, que são um meio caminho, um talvez, afinal um quase nada. E eu gosto de ser, então como ser uma coisa que não é?

O que eu gosto de ser é daquela mesma natureza que as pessoas que hoje orientaram em silêncio comovido o cego pelo labirinto dos corredores na estação do comboio, daquela solicitude contida e atenta. Ser alguma coisa de profundamente humano, e por isso triste. Ser alguma coisa de esperança, e por isso profundamente alegre.

~CC~

terça-feira, maio 11, 2010

Só existir

Setúbal, Maio 2010. caminhadas matinais. Foto da amiga C.

Só existir, sem Deus de nenhuma religião, sem clube de futebol, sem partido político. Vejo-lhes a festa nos rostos, nas vestes, no olhar, sinto-lhes a alegria a uma distância de anos luz. Tenho pena às vezes de não poder entrar na multidão, diluir-me num mar de rostos e de vozes, a minha identidade tão misturada na deles, como se um parto nos tivesse feito nascer ali. Deve ser boa a alegria, deve ser bom perder por um momento a razão.

Comigo não se passa nada, não há entusiasmo pelo Benfica nem por nenhum outro, não sou nem contra a vinda do Papa, nem a favor dela, não rejúbilo nem me revolto. Comigo não se passa nada, não tenho como me ligar aos outros. Minto talvez, algumas lutas pelos direitos das pessoas entusiasmam-me, ainda me maravilho com a utopia em forma de letra na Declaração dos Direitos Humanos. E é tudo, é quase tudo


Falta ainda a luz desta manhã, quando me deparei com vastas áreas cobertas de papoilas, talvez esse deslumbramento me possa unir a alguém.

~CC~

segunda-feira, maio 10, 2010

600

Um número redondo-a mensagem 600-que dedico às palavras dos outros, à companhia que por vezes elas são, ao(s) mundos que me trazem para dentro de casa, só isso é verdadeiramente importante na blogosfera: os horizontes.


Com o Café margoso viajo até Cabo Verde, um país que me fascina, onde gostava de viver uns tempos ou talvez para sempre. O seu autor é além de tudo o mais, uma pessoa do Teatro. E espero conseguir ir ao festival do Mindelo o mais breve possível, porque o teatro africano é outro respirar.

Com o Obviário, oiço a voz íntima de uma mulher a olhar-se ao espelho, mesmo quando é a realidade que ela olha. Simples ou complexa, mas sempre sem pretensões, igual a si própria.

Com o repórter à solta, o mundo é de facto uma viagem, quer se trate de uma cidade ou de uma pessoa, as suas palavras despem as coisas com uma profundidade tão intensa mas tão simples. É jornalismo de primeira.

Com o Teatro Anatómico as reportagens do quotidiano são os nossos olhos também, as coisas que vemos mas que nem sempre somos capazes de as dizer como ele as diz, e além disso há ainda as notas sobre livros e escritores, a alimentar qualquer um que tenha fome de saber.

Com a Merenda de Saturno mergulhamos em imagens muito belas e originais às quais se ligam relatos curtos de uma grande intensidade poética, talvez um lanche planetário de fumo doce amargo, triste e luminoso.

E com o Papel de Fantasia, há um jogo de imagens, personagens, palavras, num trilho que é tão lúdico quando lúcido.

Já não chega colocá-los nos favoritos, é preciso que a barra lateral se encha com a sua referência. E não tiro de lá ninguém, nem mesmo o Elefante Branco ou o Canto do Sul que fecharam os seus blogues, tenho esperança que ainda voltem para os meus horizontes (espero mais um tempo, ou deixo-os ficar porque assim são mais memória viva).
~CC~

domingo, maio 09, 2010

Diário a cores (VIII)


LILÁS
(Praga, 2007)

sábado, maio 08, 2010

Poesia dita


"Venha ler em voz alta na Casa Fernando Pessoa"
Ler Mário Benedetti, um ano depois da sua morte.

(Gostava muito! O que faço à timidez? Está totalmente domada noutras situações de exposição pública, mas...)


Papel mojado

Con ríos
con sangre
con iluvia
o rocío
con semen
con vino
con nieve
con llanto
los poemas
suelen
ser
papel mojado.

Mario Benedetti

sexta-feira, maio 07, 2010

Coisas sem nome

Primeiro ergueram as colunas, que pareciam frágeis. Depois colocaram à volta delas uma espécie de armaduras, intrigantes porque não lhes detectavámos a função. Ele disse que eram andaimes para trepadeiras. Eu achei que eram um apoio essencial para lhes manter a estrutura débil. Hoje tiraram-nas, não passaram afinal de uma estrutura passageira para ajudar a consolidar o cimento.

Somos assim, imaginamos sempre o que vai ser, não aguentamos não saber, não ter nome para as coisas. Se elas não têm nome, é melhor que morram para não nos acordarem angústias. Há poucos dias, C na mesa do café, povoada por casados e solteiros, todos de estatuto definido, perguntava-me, e tu o que és? E secou-me estranhamente a boca. Devia ter-lhe dito o quanto destesto jantares de casais, ou saídas de mulheres sós, o quanto detesto compartimentos estanques, casinhas. Dizer-lhe o quanto foi difícil ao longo da vida viver fora das categorias, às vezes só sobreviver fora delas. E é verdade que as experimentei, já tive uma aliança no dedo e um papel passado a designar outro estado civil. E, no entanto, a felicidade dentro delas não passa muitas vezes de um simulacro.

Fico portanto do lado das coisas sem nome, as coisas que são só coisas, ou para as quais invento eu os nomes.
~CC~

quinta-feira, maio 06, 2010

Rendilhado

Os bilros, esse matreaquar de madeira donde sai a renda. Essa mulher sozinha em convívio com a alvura dos fios. Há entre o seu tecer e o meu tecer a analogia das horas gastas sem dar conta.

E de quando em quando estas interrupções intensas na solidão dos dias deixam um lastro de exaustão emocional sem precedentes. Uma quinzena densamente povoada de gente, como há muito não acontecia.

Estes encontros, nenhum deles marcado pela tristeza, pela revolta, pela amargura, traços que tantas vezes marcaram o meus encontros de labor, mostraram-me duas faces, duas que são só uma e é a minha face. Ainda é possível fazer com que das minhas mãos nasçam estrelas, elas têm com elas a memória de uma alegria que não se perdeu inteiramente, basta confiar para que se ilumine o que em mim é ainda luz. Mas quando nos habituamos a ser pessoas sós, viradas para dentro em exilío de vozes, não mais deixamos de precisar desse silêncio. É como se ele nos viciasse. É a renda à nossa espera.

Regresso pois a mim, ao rendilhado interior dos dias.
~CC~

quarta-feira, maio 05, 2010

Pequenas asas

Estava sempre a repetir perante a insistência da professora face à demonstração da sua preguiça: não quero ser um escravo. Não era frase para um miúdo de 14 anos, que a atirava ao mundo como um tratado de filosofia para pobres de alma ou como uma terapia para dependentes da economia de mercado. Anos depois lá estava a arrumar carros, e quando a professora estacionou diante dos seus olhos, foi a correr abrir-lhe a porta com orgulho: está a ver, não me tornei num escravo! E o que és então? Perguntou-lhe a professora curiosa. Eu, respondeu espantado com a questão dela, eu sou um ser humano. Mas na verdade pequenas asas cresciam-lhe no lugar dos braços.
~CC~

Diário a cores (VII)

CASTANHO(s)
(Cáceres, 2010)
~CC~

segunda-feira, maio 03, 2010

Way (II)

Cáceres, Maio 2010

Procurei sempre nas ruas estreitas os vestígios de sol. Sei da sua sombra na pedra e na pele. Não é, nunca foi o cansaço dos caminhos a latejar nas pernas alguma vez um obstáculo. O maior obstáculo é o cinzento entrar dentro do vermelho sangue e deixar-se ficar como se ali fosse a sua morada. Há em cada tempo mais difícil um traço próprio, o desenho da dor nunca é exactamente igual, nem as lágrimas sabem ao mesmo, e isso quando existem.

Este é o tempo dos mais velhos nos pedirem um abraço que possa afugentar a sua doença, a sua terrivel solidão, é este tempo de os ver entrar no hospital com os seus olhos cinzentos. É tempo de lhes perdoarmos tudo o que não nos foram, de buscar no fundo do tempo as noites em branco que um dia nos deram.

E enquanto eles lutam pela sua vida, os mais novos esgotam-nos em mil pedidos cheios de alegria, frenéticos de Primavera, tontos da luz que a adolescência lhes traz aos olhos. Por uns momentos na cidade de pedra silenciosa num primeiro de Maio sem bandeiras nem gritos, deixei-me ficar para trás, apeteceu-me esquecer-me de quem eu prória era, renascer feita branco paz, limpa de feridas e de histórias, inteiramente pronta para dias novos.
~CC~

Way

Baixar as armas, abrir possibilidades de encontro, permitir alguma cumplicidade.
~CC~

quinta-feira, abril 29, 2010

Semi-breves (VIII)


Vou tacteando roteiros na pedra. Em viagem.
~CC~

quarta-feira, abril 28, 2010

Semi-breves (VI)

As perguntas insistentes da adolescente ontem ao jantar sobre o chão a abanar debaixo dos pés. Incrédula a perguntar como era possível o país que ela acha um paraíso ir à falência como se fosse uma casa, uma família, colocado assim na corda bamba, da mesma insolvência que um dia deixou aquele rapaz a vender a revista cais no semáforo da porta da sua cidade. Era bom contar-lhe uma história como se ainda fosse pequena: era uma vez... um monstro chamado capitalismo, tem uma boca muito grande, e adora comer países aos bocadinhos...
~CC~

terça-feira, abril 27, 2010

A tipologia do fogo

Incêndio. Um pequeno descuido na protecção dos dias fez um olhar tropeçar no teu. Impossível estancar a labareda, ela cuidou de se propagar pelo corpo todo, e uma vez ardido, foi possível ter a exacta proporção da sua intensa desvastação. As cinzas nem sequer tem história.

Fogueira. Vieste atear a duas mãos o que não se sabe se irá pegar, poderá ser breve, ou durar. Aquece enquanto dura, e por vezes parece não resistir à humidade contida em certas lágrimas, outras vezes a sua chama é tão forte que ilumina o escuro. Deixará cinzas, mas poderemos apanhá-las, e nesse acto de as deitar fora, encerrar a história.

Vela. Sem que desse conta, um beijo um pouco mais ao lado quase chegou aos lábios. Arde devagar sem se dar por ela, como uma caricia meiga que perdura por mais tempo do que se pode algum dia imaginar. No seu ondular doce, aquece sem doer os sentidos, e deixa o sabor doce do mel. Com os restos da sua cera podemos moldar novas histórias sem dor.

Caixa de fósforos: Vieste e foste no silêncio, deixando apenas na conjectura do olhar os desenhos de um amor possível. Um amor sempre impossível. É precioso o que julgamos poder acender sempre, e triste porque sabemos que nunca o faremos. Perfeito será sempre, e um dia será nada, os fósforos gastos pelo pó do tempo não mais poderão ser lume.

Também se poderia intitular a extensão e profundidade das cicatrizes, mas seria um título mais triste.
~CC~


segunda-feira, abril 26, 2010

Um minuto de Domingo

Deitar-me na rocha no cimo da falésia, indiferente a tudo, em redor todo o campo a respirar de flores. Sentir as costas quentes encostadas à pedra, um torpor a subir mansinho de sol e maresia. O teu corpo a deitar-se levemente por cima do meu, o seu peso sobre o meu coração a bater salgado. Um minuto só esse tempo de intensa felicidade, como se nada mais houvesse para trás e para diante, só esse minuto de diluição de corpos um no outro, e na própria terra.

Se esse minuto pudesse durar.

~CC~

Diário a cores (VI)

BRANCO
(Sevilha, 2010)

domingo, abril 25, 2010

Dizer sempre

As frases banalizaram-se mas se fecharmos os olhos sobre elas e as respirarmos têm uma beleza cortante. Uma actualidade tão grande que o grito nos seca a garganta. Uma urgência ainda, como se o mundo fosse outro e afinal ainda o mesmo. Não sabemos talvez quem são os responsáveis pelas lágrimas que vemos espalhadas pelos rostos sem esperança, talvez cada um de nós o seja também, e ainda o vizinho do lado. Isso torna a revolta mais difícil, os poderosos, os ricos, os políticos eram figuras de carne e osso nas canções de antes, mas hoje são sombras de que não apalpamos os contornos. As revoluções alimentam-se de simplicidade, de carne fresca, de sorrisos lavados, de vozes afinadas só pela alegria. Nada disso ontem havia junto ao rio, a Grândola canta-se de braços caídos e olhos no fogo de artifício. E ainda assim o que nos traz, o que traz tantos, o que nos faz sair para as praças, para as ruas, para o meio das pessoas? Traz-nos este grito que ainda sentimos cá dentro, um travo a papoila, flor frágil e tão brava do campo. Abril é ainda um mês de uma beleza sem igual no calendário apressado dos anos.
~CC~

sexta-feira, abril 23, 2010

A Interpretação dos verbos

Perdoar, esse deixar o tempo cicatrizar as feridas, e olhar para elas como uns riscos superificiais na pele, marcas lavadas de ódio, de desprezo, de raiva. Ser capaz de estender uma mão a quem não viu a nossa quando a estendemos.

Consolar, essa capacidade de ir buscar a ternura nas dobras escondidas do coração, escavando-o à procura do riso possível para depositar num rosto triste. Ser capaz de palavras doces para oferecer num tempo de amargura.

Arquitectar, essa vontade de sonhar permanente, riscos cruzados no papel cheios de casas brancas, muitas papoilas, um sol desenhado num dia de primavera, um piquenique com cerejas e beijos leves trocados devagar. Buenos Aires, e todo o deserto ainda à espera do olhar.

Conseguir, qualquer coisa melhor que ter êxito, chegar provisoriamente a um lugar onde quando nos dizem "muito bem" sentimos o sabor do suspiro a desfazer-se na boca, a certeza de que afinal todas as escritas nos são possíveis, basta inclinar a caneta de uma determinada forma para apanhar o vento certo. A certeza de que saber pensar é afinal o mais importante. Saber que o sabemos.

~CC~

quinta-feira, abril 22, 2010

Semi-Breves (VI)


Passei a adolescência vestida de preto, cinzento e castanho. Talvez já chegue.

~CC~