terça-feira, março 16, 2010

Uma casa vazia

O que resta dos lugares que amámos, onde julgamos poder pertencer até a velhice chegar? Encontrei-me com a casa branca num Outono, mas lembro-me de a começar a amar no começo da Primavera, com as amendoeiras já plenas de flores, o sol a fazer sombra nas paredes e um cheiro forte a relva cortada. Lembro-me de gostar de estar ali a trabalhar até tarde, de apreciar o silêncio dos crepúsculos, e de sair já quase noite. Lembro-me de me apaixonar, sem saber exactamente por quem, só pelo gosto que era ser Verão e apaixonar-me. Lembro-me de ti a cantar pelos corredores. Lembro-me da festa que eram algumas equipas de trabalho, e das coisas únicas que fizémos. Lembro-me do José Luis Peixoto a recitar poemas no auditório cheio e de ter feito um esforço para não chorar.

Mais tarde chegou o inferno dos dias ali. Mas depois foi passando e houve um tempo outra vez bom. Tu estavas no andar de cima com o teu sorriso de menino grande. Ela estava no andar do lado, e tinha aberto a porta do gabinete, convidando-me a entrar, e mais tarde a porta da sua casa. Acreditei no vossos corações bons, mas agora já não estão mais perto de mim, não da mesma forma.

E agora a casa está cheia e completamente vazia. Apetece-me outra vez chorar, mas por não conseguir sentir absolutamente nada. Resta, no entanto, este cheiro a relva cortada, este verde a recortar-se contra o céu, esta beleza branca. E dois sorrisos jovens, a única coisa boa que trouxe hoje para casa, agarro-me a eles como a um passaporte capaz de me levar para além da fronteira, para além do vazio.
~CC~

segunda-feira, março 15, 2010

Contem a história

Quando o meu olhar vê longe alcança sempre a terra vermelha da minha infância, lugar para onde pensei regressar assim que pudesse. Mas não posso. Não há nem nunca houve por lá um homem como Nelson Mandela. Os corações guardam ainda o ódio que ele deitou fora de forma impressionante. O ódio pode ser tão legítimo como o amor, mas não há nada de semelhante entre o que pode nascer de um e do outro. Ver Invictus é molhar os olhos em esperança, as lágrimas que se choram naquele filme são de consistência diferente, estão recheadas de uma alegria única, como se aquele homem renovasse dentro de nós todo o sol que deixamos sombrear.

Levem os vossos filhos a ver, e se forem ainda meninos ou meninas, ajudem-nos a perceber a história. Devemos-lhe isso.
~CC~

sexta-feira, março 12, 2010

Luz para os teus anos

Há meses que quando me abeiro da janela pela manhã resmungo por causa da chuva e do frio. Ela não: só me pergunta pelo que vai vestir, conformada e quase indiferente. E ri de mim por eu ficar feliz por avistar uma nesga de sol, diz que pareço uma criança. Mas hoje o sol veio todo inteiro para encher de alegria os seus 14 anos e me lembrar o quanto sou feliz por a ter.
~CC~

quinta-feira, março 11, 2010

Chile

Ele poderia escrever de novo os versos mais tristes esta noite, ou naquela outra noite em que a terra tremeu tão forte. Era um livro a desfazer-se entre as minhas mãos, como se sobre ele muitos amantes já tivessem chorado. Li e reli os vinte poemas de amor e uma canção desesperada na urgência de beber para sempre a palavra crepúsculo como ele a escrevia. E nada do que depois li dele se assemelhou à intensidade que ele tinha nos seu sangue de vinte anos, poemas a brotar na sua cidade amada.

Quando a terra tremeu de forma tão avassaladora no país que era dele, só me lembrei que talvez ele pudesse cantar qualquer coisa capaz de a amansar. Mas os poetas também morrem, mesmo que os lembremos mais e mais. O Chile é de Neruda, é assim que o penso na minha cabeça e não há nada a fazer. E podemos amar um país que não conhecemos, ao qual nunca fomos, com o qual não temos laços evidentes, porque um poeta o colocou no nosso coração. Esse bem querer é como se fosse um passaporte para entendermos um povo na sua aflição de existir, um povo agora mais aflito. Desejar-lhe bem, cantar à terra para que amanse.
~CC~

quarta-feira, março 10, 2010

Só existir

Às vezes penso na fronteira que trouxe para esta Ardósia, ela está cheia de mim, mas muito pouco das coisas que eu faço. Às vezes quando a nível profissional uma coisa se torna transbordante concedo-me a possibilidade de falar nela, mas nunca numa perspectiva didáctica, ou sequer de partilha de saberes. Por acaso hoje aconteceu uma coisa transbordante; fui conversar sobre amor e sexualidade com os +65 que frequentam uma universidade sénior. E foi muito bom.

Escrevo sobre Educação, mas não aqui. Pensei nisso por causa do Leandro, pensei como era possível não escrever sobre ele aqui, mas na verdade já o fiz noutro lugar, aliás já tinha escrito sobre o Leandro antes dele existir como o menino que se deitou ao rio, era um outro, uma outra, outros nomes com a história dele.

Fugi a sete pés de todas as propostas de fazer blogues colectivos sobre Educação e raramente leio os que existem, abrindo a única excepção para o Tempo de Teia , acho que pelo facto de no meio da Matemática ela misturar gatos e rosas do quintal. Acho que sei porquê. A vida profissional tomou-me demasiado tempo, às vezes quase todo o tempo. Sempre a estudar e a trabalhar, e muitas vezes acumulando ainda mais este ou aquele projecto, tive muito pouco tempo para mim. Não sei o que é estar em casa e pensar em como ocupar o tempo, o meu tempo está sempre previamente tomado por alguma coisa.

Arranjei esta ardósia para mim, para o espaço de mim que não está tomado. É como um segredo, um lugar em que posso simplesmente existir. E quando vou pela blogosfera à procura, só procuro escrita, gente que escreve com o coração a pulsar por dentro do quotidiano, gente como a Ana.
~CC~

terça-feira, março 09, 2010

Dançar, voar, rebolar.

Eram meninas da escola primária rindo abraçadas. De que riam elas? Riam porque tinham enviado um bilhete ao rapaz de que todas elas gostavam. Perguntavam: de quem gostas? Perguntei-lhes como é que faziam para não se zangarem umas com as outras, presa da minha lógica adulta, do que tantas vezes vi as mulheres fazerem umas às outras por causa de um homem. E elas disseram que não fazia mal, que não se iam zangar por causa dele. Elas disseram que eram amigas, que seriam sempre amigas. E ele foi variando ao longo dos anos da escola primária, mas nunca se ligando muito aos namoros, preferia mesmo o campo de futebol, os desenhos e a Matemática. E é verdade, elas nunca se zangaram por causa dele.

E lembrei-me anos antes, quando amei alguém que não sabia, que estava hesitante. Lembro-me de lhe dizer que ele podia ir, que não o queria prender a mim. E ele foi. Uns tempos mais tarde voltei-o a ver e ele disse-me: tu não lutaste por mim. E disse-me que tinha concluído que eu não o amava verdadeiramente. Se eu já tivesse conhecido naquela altura as meninas da escola primária, teria sabido dizer-lhe que o amor é uma coisa demasiado bonita para combinar com a palavra luta, que preferia combiná-lo com outras palavras. Outras tais como dançar, voar, rebolar.

E nunca, nunca com perder e ganhar.
~CC~

segunda-feira, março 08, 2010

No bater do coração



Gosto de ser mulher e isso devia bastar. Não queria dia nenhum para mim, nem para as outras mulheres. Mas se ele existe, é porque marca uma luta, marca um duro e longo caminho que só para algumas parece terminado, e isso é importante, é fundamental pensar nas mulheres sem voz que há por toda a parte. A discriminação ainda existe, com rostos novos, e outros já antigos.

Mas a festa devia ser também batalha, cheia do bater dos corações fortes, e não ter este aroma de rosas de estufa.
~CC~

quinta-feira, março 04, 2010

Poema menino

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Sou eu
Nado aqui perto de ti
Neste oceano
Azul Pacífico
É belo, quente, cheio de corais
E de meninos pobres rindo nas ondinhas brancas


Sou uma concha, sou um búzio
Um bicho do mar fechado
Mas pronto a espreitar os belos cardumes coloridos que passam
Foi por essa estreita abertura que te vi
Eras um polvo majestoso nadando
E tive medo desses teus braços fortes
Desse teu ar de terra


Sou eu
Percorro rapidamente as distâncias
Mas distraio-me a ver uma alga vermelha ou roxa
Perco-me nos caminhos
Tenho pavor das grutas fechadas de onde não sei sair
Choro amiúde
Dentro da minha concha
Desacredito

Espero por ti na curva do rochedo negro
Para me ajudares a passar
E sinto que nos teus braços
Há uma tensão doce
E fecho os olhos
Para acreditar que me proteges para sempre dos abismos
Queria ouvir-te dizer que o vais fazer

Sou eu
Se vires bem sou pequena
mas também te posso mostrar algumas coisas
deste imenso oceano
Coisas pequenas
sobre abraços fortes
sobre a dor
sobre os sonhos que habitam até o sangue dos peixes
se pudesses sonhar os meus sonhos

As coisas que tu sabes para evitar os tubarões
As coisas que tu sabes sobre a imensidão das espécies
As coisas que eu sei sobre amar muito
As coisas que eu sei sobre beijos
Beijos pequeninos, doces, suaves
Que nos ficam a dizer segredos muito tempo
Acredito.



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~CC~

quarta-feira, março 03, 2010

Os sapatos ingleses

Pelo fim da tarde, dois dias por semana, vejo-os a chegar a casa e saio de casa. Entro na fila no sentido inverso aos dos outros, e faço talvez a coisa mais burra que algum dia fiz: tento (re)aprender e melhorar o meu Inglês. Ao mesmo tempo que sinto que as minhas capacidades vão diminuindo mais e mais, luto para as aumentar. Pago caro este inconformismo, pois sinto-me a maior parte das vezes incapaz, mas sei que não é verdade, há talvez meia dúzia de palavras novas que entraram no meu léxico e uma quantidade grande de novos tempos verbais conquistados. E nem consigo contar as aquisições em termos de artigos e uso mais interessante dos adjectivos. Mas são sempre as pessoas o que mais me interessa. Estudo, além do Inglês, cada um dos meus colegas novos, como se fossem eles o manual que realmente me é importante.

Ontem um dos colegas verdadeiramente simpático fez par comigo nas perguntas e respostas, na verdade já previamente orientadas pelo livrinho. Ele disse logo que ia escolher as perguntas mais indicadas para mulheres, o que me pareceu desde logo uma iniciativa interessante. E claro que perguntou sobre o meu corte de cabelo, as tarefas que fazia em casa, há quanto tempo não ia às compras e finalmente há quanto tempo é que eu tinha comprado os sapatos que trazia calçados.


Ora eu não me lembrava há quanto tempo tenho este corte de cabelo, nem a última vez que tinha ido às compras, gosto de fazer quanto tudo em casa e sou só eu que o faço, e quanto aos sapatos...tinham pelo menos dois anos, mas quase que apostaria nos três. A dos sapatos foi demais para ele, abriu a boca de espanto e disse que parecia impossível, pois as mulheres compram sapatos novos todos os anos. Por acaso este Inverno não comprei nenhuns, respondi-lhe. E acrescentei: mas talvez eu não seja bem uma mulher. E ele abriu muitos os olhos e durante uns segundos creio que duvidou mesmo que eu o fosse. E eu ri-me muito para dentro, contente por ter aulas de Inglês.
~CC~

terça-feira, março 02, 2010

País

A obra dura há muito tempo, ou seja, foram já ultrapassados os limites que tinham sido colocados para o seu término. Assisti durante meses ao modo como foram colocadas uma a uma as pedras da calçada portuguesa, adornando de forma bonita o parque de estacionamento, esse também feito de pedras, mas mais escuras.

Quando finalmente a vasta área de calçada chegou ao fim, vieram umas máquinas colocar umas placas de protecção, a separar a linha de comboio do parque. Passaram uma e duas vezes por cima das pedras brancas e das pedras pretas, mas as brancas não resistiram ao peso das máquinas. A vasta área de calçada tornou-se um monte de poças de água e lama, e várias pedras saltaram completamente fora do lugar, como se esta obra tivesse já anos. Hoje, vários homens colocavam outra vez as pedras no lugar e tentavam endireitar as ondas do chão. Amanhã talvez venham as máquinas pesadas outra vez pisá-las com força desmedida.

E é assim que (não) se faz um país.
~CC~

segunda-feira, março 01, 2010

Morada

Deixei o rosto beber do sol da manhã, fechando os olhos um segundo, para o poder absorver. Fechei os olhos um segundo para que o seu beijo pudesse chegar até ao meu coração e aí pudesse permanecer feito calor por mais tempo, tanto tempo. São difíceís os dias sem sol e sem beijos. Sei a cada dia que passa o que é o essencial, o que é a luz. Mas não sei ainda o suficiente que me permita deixar o sol no céu e o beijo no coração, perco-os amiúde aos dois, trazendo sombra aos dias. E eu sou do calor, é aí a minha morada feliz.
~CC~

domingo, fevereiro 28, 2010

Indignação



Leiam esta mulher. Leiam este homem. Indignem-se como deve ser.
E bebam água ou vinho.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Dias felizes

Imagem enviada por mail pela Nenúfar Cor de Rosa.
Que bem fica aqui.Obrigado.


A memória dos meus dias felizes está cheia de coisas insignificantes. Foi neste Verão, ou talvez por alturas da Páscoa, já não sei bem. Tudo começou com as adolescentes que decobriram que ia ser a cor da moda mas não ligavam o nome a cor nenhuma. Então, passámos horas, dias, semanas... a discutir a cor malva. E descobrimos que a cor malva era diferente para muitas pessoas, mesmo na família reduzida havia pelos menos três cores diferentes para malva: verde, lilás e rosa claro. Eu era do verde malva.



Hoje comprei chá de malva flor, são umas florinhas roxas pequeninas. A água deve ficar linda cheia delas.



~CC~

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Ainda vem

O rapaz da caixa de supermercado deve ter feito há pouco os 18 anos. Trauteia pequenas canções, lança as coisas do tapete rolante ao ar antes de as pousar no saco, discute os resultados do futebol com os velhotes e pronuncia menina quando se me dirige com ar matreiro. Estive para lhe perguntar se não via que eu tenho a tristeza colada à pele, que estou sem paciência para brincadeiras, dizer-lhe para ficar calado, para não se rir assim à minha frente.

Depois pensei perguntar-lhe pelo que o fazia assim feliz numa manhã cinzenta, uma mais entre tantas outras nos últimos tempos, ainda que sem chuva. Mas ele também lê os pensamentos alheios porque me diz: está a ver, hoje pelo menos não chove, isto vai lá, o sol ainda vem.

Pois, o sol ainda vem.
~CC~

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Florir

Demorei-me no bar da escola, demorei muito mais do que precisava para beber o café. É que em frente fica o pátio das amendoeiras, creio que elas são seis, uma mais pequenina que as outras veio há uns tempos substituir a que tinha morrido ali. Demorei-me muito mais do que devia, muito mais do que podia. Fiquei a ver as amendoeiras a florir, a florir devagarinho, a rasgar de riso branco estas tempestades que nos varrem. Podia demorar-se ainda mais, podia ficar muito mais tempo de olhar preso naquelas flores, nas pequenas flores brancas.
~CC~

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

O colar das contas azuis

Fui buscar o colar de contas azuis e pretas e pequenas moedas douradas que me deste no meu aniversário de há quatro anos atrás. E tive muitas saudades tuas.


Foi há quatro anos naquele restaurante pequenino perto do Parlamento, e nem sabia que depois voltaria lá tantas vezes com o meu pequeno gravador para ouvir os deputados da nação falar de um assunto tão ortodoxo quanto o que estudo. Tenho de dizer-te que o colar de contas azuis perdeu algumas das moedas douradas mas é ainda muito bonito, perdeu moedas como eu ganhei algumas lágrimas mais e mais rugas fininhas, daquelas que o tempo traz para nos adornar os olhos. Vi-te tão pouco depois disso, e pelo telefone não chegam os apertões que me costumas dar quando me abraças, como se ao mesmo tempo que me apertas também me desses um abanão para eu sacudir todas as cinzas.


O teu colar de contas azuis sem metade das moedas douradas, perdi-as por aí em todas as idas e vindas destes quatro anos. Olhei-me ao espelho com ele posto e senti tantas saudades tuas.
~CC~

domingo, fevereiro 21, 2010

Single

No filme Single Man, há um homem a querer morrer porque o seu amor perdeu a vida. A sua tristeza devora-o como se fosse lume a pegar-se a um papel. E não há água capaz de apagar a imensa fogueira da tristeza. E, no entanto, há coisas pequenas que são ainda um resquício de luz, embora a sua vontade de morte seja mais forte.

Ele lembra as pequenas coisa luz: um rodopio de dança com a melhor amiga, um raio de sol apanhado na rocha, o azul dos olhos do rapaz que o procura.

Dantes quando estava triste pensava nos mais tristes que eu. Hoje pensaria na ilha dominada pela chuva e nos que lá morreram sem sentido, invadidos por esta tempestade maior do que nós. Mas seria um exercício inútil, a tristeza dos outros não apaga a nossa.

Por isso só é possível vir à tona através dos meus próprios resquícios de luz. Espero um abraço meigo daquele menino que há dois anos se salvou da morte, o pedido matinal da minha filha adolescente para a escolha da roupa do dia, a visão da rua com o mar ao fundo, e eu a deitar-me molhada de água e sal na areia quente de Agosto.

Resquícios de luz, trata-se de os apanhar sofregamente.
~CC~

sábado, fevereiro 20, 2010

Concordância

Absolutamente de acordo. Ainda há quem resista, apesar de nos estarmos a tornar obsoletos. E já vi e vi usar, apesar de não o ter.

~CC~

Enrolar-me (II)

Uma vez um miúdo num jogo que eu fazia em torno dos nossos objectos mais belos, aqueles que amamos por uma razão especial, fugiu ao trivial das respostas que indicavam a consola, os ténis de marca e a bola assinada pelo jogador x, e apesar de ser rapaz, disse que o objecto que mais amava era o sofá lá de casa porque era onde se sentavam todos juntos. Foi a única resposta dirigida a um objecto colectivo, onde o amor era o encosto dos corpos uns nos outros, esse calor cúmplice.

Talvez por nunca me ter esquecido desta frase ao longo dos anos, comprei um sofá grande para a minha sala pequenina. E ontem tive mais uma vez a certeza de que tinha feito bem. Debaixo da manta azul, muito encostadinhas uma na outra, partilhámos um zapping pelos muitos canais que agora há. Fiquei espantada por haver programas sobre restaurantes e concursos de decoração de quartos, mas na verdade nada daquilo que víamos tinha muita importância. Importante era o calor cúmplice dos nossos corpos encostados, a intimidade que só é possível com alguém que conhecemos muito bem, aquela certeza de que o amor é também feito destes momentos de nada fazer, de estar apenas ali sem palavras que tenhamos que dizer, nem obrigações a respeitar. Há também uma zona de amor assim entre os amantes, quando o calor que acendem um no outro não é apenas o do sexo, é tambem o corpo do outro encaixado na zona quente da nossa pele. E há quem saiba, e há quem não saiba.

Mas a miúda sabe, apesar de eu não ter tentado ensinar-lhe.
~CC~

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Enrolar-me

Agora que se acabam as manhãs de Sexta que corriam para as noites cheias de esperança de estrelas cadentes, terei que enrolar-me na tristeza como num manto e esperar que ele se desfaça na minha pele, que se torne pó misturado no meu sangue. Já do tempo que a tristeza demorará a se tornar pó, pouco sei dizer. Sei apenas que usarei as palavras apenas enquanto elas forem brasas que me permitem ter algum calor, enrolar-me.
~CC~

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Esconderijo




Sempre gostei de esconder-me, lembro-me que uma vez quando era miúda jogava às escondidas e fiquei num canto do quintal, e o tempo passou, passou muito tempo, e eu sentia-me bem ali quieta, longe de tudo. Na verdade, ninguém veio à minha procura, quando saí, já o jogo tinha há muito acabado. E agora ainda gosto, vou para um lugar onde nunca estive e se gostar dele, acho que posso ficar muito tempo. Não sinto a falta de nada se trouxer comigo os que amo, só eles são afinal a minha terra. O resto em mim é tudo mar.
~CC~

PS. Obrigado João pelo cantinho onde me escondo.


sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Inventar dias


Posso corrigir?!
Substituir posto da guarda por mar. Colocar sol, varrer o frio. Completar com dias. Estarei vários dias ao sol, junto ao mar, sem frio. Inventarei isto se este cinzento teimar em persistir.
Até breve
~CC~

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Admirar na praça pública

Vi muita gente presa de admiração por algumas figuras públicas, por vezes há mesmo algumas que se coadunam com o pó de um determinado tempo e ficam ali a brilhar como estrelas em plena ascensão. Tive amigas fascinadas pelo Miguel Sousa Tavares, pelo Miguel Esteves Cardoso ou mesmo pelo Miguel Portas. Mas não só os Migueis prendiam as atenções, também havia quem admirasse profundamente os académicos que tinham cruzado as suas vidas e assumido uma função de quase mestres. Tenho pena, nunca admirei ninguém assim, e muito menos tive mestres. Às vezes acho que é arrogância minha, se fosse mais humilde nutria essa espécie de devoção por alguém. Teria aceite vários convites para assumir essa relação de devoção-protecção que muitas pessoas levam pela vida fora e que as amortece de muitos embates, mas rejeitei sempre, e apanhei ventos agrestes sozinha.

Abro contudo a excepção para Nelson Mandela, hoje recordado na praça pública por fazer 20 anos que saiu da prisão. Partilho com e na praça pública o fascínio por um homem que é capaz de perdoar aos seus carrascos, de se erguer e de erguer um povo. Nunca vi olhar doce mais repleto de força.
~CC~

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Equílibrio

Ensino-a a ter medo, porém não demasiado medo. Na infância fez-me falta saber o que era o medo, não me lembro de me falarem dele. Mais tarde aprendi da pior maneira, e ganhei medo a mais. É dificil ganhar o equilíbrio necessário para avançar na corda e chegar de um lado a outro.
~CC~

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Amor e outra história



(...o melhor amor de cada um de nós ainda está por descobrir)

E.


Celeste olhou uma a uma as portas fechadas da sua casa grande, tinha-as fechado para a tornar mais pequena e assim diminuir a sua solidão. Abriu a janela da sala, era a única divisão que tinha sobrado da sua vida familiar antiga, fechando os olhos podia ouvir as vozes dos miúdos quando chegavam da escola e sentir o coração a bater com força. Mas em vez da lágrima habitual que lhe aparecia nessas ocasiões de profunda saudade, viu nascer na sua boca um sorriso. E da janela da sala dirigiu o sorriso até ao lugar da Nogueira. A verdade é que ainda há pouco tempo a mandara cortar porque a entristecia ver a ruína em que ela se tornara, e muitas vezes sentira-se tão velha quanto ela.


Mas estava para chegar o seu velho com a nogueira nova, e o buraco que pedira para abrir cheirava a água e a terra, estava pronto para alimentar a seiva de uma nova vida. Chamava-lhe intimamente e só para si própria o seu velho, mas achava-o ainda um homem muito bonito, e tinha pensado muitas vezes encher os seus dedos com aqueles cabelos brancos tão abundantes.

Ele tinha vindo ver a casa quando ela a pusera à venda, cansada das memórias que lhe estavam agarradas, e tinha ficado preso à cor purpura única das paredes e ao cheiro dos jasmins que trepavam por elas. Tinha dado tudo o que tinha aos filhos numa espécie de despedida antecipada, os bens já não lhe interessavam, mas procurava ainda um lugar para poder demorar-se nos crepúsculos. Combinaram ver-se uma e outra vez com a casa pelo meio, mas já presos um ao outro pelo resto do brilho que os seus olhos tinham. E ele tinha-lhe pedido para ficar naquela casa, porque há lugares que não se podem abandonar sob pena do sangue se transformar rapidamente em pó. E ela sabia que apesar de ter fechado as portas, deixá-la era também secar por dentro. E ela tinha-o convidado a vir, a trazer as suas coisas. E ele tinha dito: primeiro trago a nogueira nova para plantar. E viram que na geografia da pele havia roteiros de lume ainda por descobrir. E nunca falaram de amor, nunca.

(a frase de E. está cheia de esperança, se no momento em que perdemos um amor que ainda amamos, nos fosse possivel beber dela, a sombra não nos tomaria)

(é beber desta esperança, não só porque "o melhor amor de cada um de nós ainda está por descobrir" mas também porque podemos descobrir melhor o amor que temos).

~CC~

Nota breve


E isso é o que importa.
~CC~

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Amor e uma historia (II) aos olhos de E.



Chamei-lhe "A edificação do amor"

(Por E., do SUL)

"Pegue-se então na história da Maria e do Sebastião, chamemos-lhe assim, que durou uma Primavera apenas, mas podia ter durado muito mais e ter acabado por vários motivos:Imagine-se que a Maria tinha tido uma doença grave e morria no Verão seguinte, ou que o Sebastião, numa tentativa de prosseguir os seus estudos superiores, passava a estudar de noite e, no regresso das aulas tinha um acidente de viação. Ou ainda que, a meio do curso de Sebastião, este se apaixonava por uma das suas colegas, vinte anos mais nova que Maria.E o contrário também era possível: ambos partiam para a grande cidade, onde viviam o seu amor no meio do anonimato, ou mudavam apenas para uma terra mais próxima, onde viviam em segredo o seu amor, dentro de quatro paredes, sem o apresentar ao mundo. Ou ainda, anos volvidos, passariam a encontrar-se no dia do aniversário dela, numa pensão à beira-rio, até que ela deixasse de poder fazer a viagem e ele passaria a visitá-la no lar da terceira idade onde a velhice de Maria decorria e, posteriormente ainda, na sua sepultura no cemitério novo da aldeia.E até aqui só fizemos o que gostamos sempre de fazer, no cinema e na literatura, que é analisar as personagens em estado (muito) puro, sem as contingências de um mundo à sua volta. Mas pode dar-se o caso de a mãe de Sebastião lhes fazer a vida negra e o seu amor não resistir a isso. Ou de o ritmo de vida que se desenrola no casal os tornar incompatíveis. Às vezes umas meias rotas, uma ruga nova, que não a primeira, nem a segunda, mas a quarta ou a quinta, ou até meia garrafa de vinho a mais por noite são suficientes para a avalanche que precipita um fim. Noutras vezes, nada consegue partir uma relação. O marido condenado a uma prisão durante vinte anos, aquele que emigra para o outro lado do mundo e visita a sua família uma vez por ano…

Não está em causa a medida do amor, mas a forma como foi (ou não) edificado. Amor e uma cabana, ou a fantasia da ilha deserta, são uma realidade não estruturada do amor. Esta surge ou desaparece (por falta de condições externas ou interiores das pessoas que viveram aquela relação) com a envolvência social, com o peso da sociedade, da família, das forças contrárias àquela relação. Não está em causa a qualidade da pessoa ou das pessoas, mas apenas uma capacidade de naquele caso concreto, conseguirem em conjunto superar uma dificuldade que, ainda que sendo apenas de um, se torna de ambos.

Voltemos então à Maria e ao Sebastião: nenhum deles viveu “infeliz para sempre” por causa do amor, mas tão somente porque não conseguiram estruturar uma relação que se antevia como boa para ambos, ou porque um tempo que foi bom terminou e nenhum deles estava verdadeiramente preparado para isso. Repara que podem ter antevisto ainda as dificuldades porque iriam passar e nenhum quis enfrentá-las. Anos mais tarde, podem, um ou ambos, achar que tudo podia ter sido diferente e, sopesando o passado, não conseguirem ultrapassar o peso de uma decisão tomada lá para trás. Estamos no campo da liberdade individual de cada um (e nem sempre, numa relação a dois existe escolha para ambos), na livre escolha, que naturalmente gera consequências. Nem sempre as pessoas estão preparadas para viver com essas consequências. Eis o que se pode lamentar, mas nunca o amor, pois não?"

(Obrigado E, por tão interessante resposta, por tão interessante pergunta).
~CC~

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Amor e uma história (I)

(Para E, em jeito de resposta (1) ao seu comentário no post anterior)

A derrota

Maria tinha tido um acidente grave de carro que a deixara com um braço para sempre paralisado e por isso reformara-se cedo, não tinha ainda completado cinquenta anos. Com as filhas crescidas, deixara a cidade e voltara à vila onde nascera e à qual durante anos só tinha ido esporadicamente. Como mulher que toda a vida amara os livros e se dedicara a fazê-los amar, tinha levado com ela a vasta biblioteca que organizara meticulosamente numa das assoalhadas da sua casa na vila. E os miúdos da escola iam amiúde procurá-la, tornara-se numa espécie de tia culta que ajudava a ler e a interpretar as obras obrigatórias, fazia-o de graça e com gosto e aquilo dera um novo sentido à sua vida. Ganhara também o respeito da comunidade.

E isso durou até ao dia em que um rapaz mais velho, já trabalhador, a procurou para o ajudar a fazer o exame de 12º ano e poder ingressar na faculdade. Também ele tivera azar com a vida, a doença do pai tinha-o obrigado a deixar os estudos, e só agora podia voltar. Era assim diferente de todos os que tinham procurado Maria, tinha mesmo vontade de aprender e de superar-se a si próprio. Liam muita poesia, sobretudo Fernando Pessoa e Camões, poetas que eram muito focados nos exames de 12º ano. E o rapaz sentiu uma e outra vez os olhos molhados quando ela lia com a sua voz rouca, o braço sem vida, a alma fora dali. E era verdade, ela esquecia-se da presença dele, lia para si própria em viagem interior. E é assim que o amor nasce: uma coisa tão pequena que nos toca no outro, que nos toca como mais ninguém tocou.

E nenhum deles quis ou pode evitar que da doçura das vozes se caminhasse para a doçura dos corpos, nenhum deles teve medo do amor. É verdade que primeiro se escondiam no escuro do quarto, mas assim que a Primavera chegou, quiseram ir com ela pelos campos e deixaram de se enconder.

E a vila inteira soube, falou e condenou. Era um amor imoral. Condenada a diferença de idades, de estatutos, de ambições. Ela passou a receber cartas intimidatórias, deixaram de a cumprimentar nos lugares públicos e um dia uns miúdos na rua chamaram-lhe puta e depois desataram a fugir em ruidosas gargalhadas. Condenado o amor, tão só essa explosão, em si mesmo anárquica e não convencional. E sim, terminaram em mútuo acordo essa sua Primavera.

Ela fechou a porta da sua casa na Vila e colocou uma tabuleta: para venda. E nunca mais voltou. Ele fez tudo o que era suposto fazer: casou e teve filhos. E continuou sempre a procurá-la, não activamente é verdade, mas passivamente. Julgou vê-la no Cinema, numa livraria, num jardim...era uma miragem interior, uma sombra dentro dos seus olhos. E foram assim os dois infelizes para sempre. E o amor perdeu.
~CC~

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Toques de seda e perfume

Desde o primeiro filme da Jane Campion que a sigo como uma abelha em busca do perfume de uma determinada flor, um aroma certo para a produção do mel interior. Às vezes o perfume é tão intenso que provoca tonturas e outras tão suave que nos amacia.

Nesta sua cintililação pelo amor, o desejo é um toque macio entre campos de mil flores e flocos de neve. Os beijos são passarinhos contidos, presos no seu voo, mas claramente marcados pela vontade de pele.

E o amor vence, apesar da morte. É ele que vence claramente a luta, a dura contenda entre as convenções e a liberdade. E é também a luta entre a musa virtual do poeta e a musa real de olhos doces. É a segunda que vence e é ela que enche os poemas do que lhes faltava.

Também eu acreditava nesta força do amor até o ver claramente derrotado pelas convenções, e comecei a perceber que ele perdia, que perdia muitas vezes. Ou então não era amor.
~CC~

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Marcas na areia


A praia quando chega o sol de inverno mostra as marcas das marés intensas e dos ventos fortes. É ainda uma praia quase vazia que se abre diante de nós na manhã de sábado. É preciso caminhar junto à areia molhada porque a areia seca é um conjunto de montes e vales penteados pelo Inverno. Vemos as marcas dos nossos pés rapidamente lavadas pela espuma. E andamos mais e mais, impelidos pelo desejo de ver mais adiante aquele lugar em que a ria e o mar se encontram num abraço de sal. Há muitos anos que não caminhava até à barrinha, o lugar onde os barcos andam para trás.



As ondas trouxeram com elas muitas conchas e muito lixo, uma mistura bela e desordenada das coisas mais bonitas e mais feias. No cimo de uma duna uma televisão abandonada emite a partir de uma antena de cana que alguém fez, numa instalação improvisada bem humorada. No regresso há uma baía calma onde os meninos poderiam aprender a tomar banho em paz de tal modo as ondas são mansas. Não há quase gaivotas, mas há uns pássaros mais pequenos de bico pontiagudo que brincam juntos. E vi claramente na areia as marcas das patas de uma cegonha, vi o seu andar vagaroso e majestoso.


Lembrei-me do Fernão Capelo Gaivota e de como ele marcou estupidamente a minha adolescência, como me fez aprisionar nessa hipótese de fazer a diferença face aos outros, fez-me falta ser como os outros, só querer comer e lambuzar-me nesse prazer como o imenso bando na praia. Mas não, sempre me senti só, era essa gaivota teimosa presa a qualquer filosofia capaz de vencer a força da gravidade. E isso marcou-me de tal modo que não sei se sei descolar essa teimosia das minhas células. Depois a tua mão acordou-me de mim e destes pensamentos e senti-me feliz por te ter ali.


~CC~


(e no dia seguinte e no outro, as pernas acusaram a longa caminhada até à Barrinha)

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Aprisionados na rede (II)

Tem uns belos olhos claros num rosto sorridente na plena frescura dos vinte, mas ultimamente achei-a tristonha e sem cor. Pensei que o cansaço dela poderia ser igual ao meu, que talvez como eu se sentisse no limite. Mas não era.

Aproveitando uma frase que deixou escapar: não durmo há muitos dias, perguntei-lhe o que se passava com ela. E acrescentei a medo: não me diga que fica na NET até de manhã...(mas confesso que eu própria achei a minha frase um exagero). E ela respondeu: É isso professora...mas quase não vejo Televisão!
~CC~

terça-feira, janeiro 26, 2010

Montes Claros

No sábado vi umas tímidas e incertas papoilas, dobradas pelo vento e de um vermelho pálido, não pareciam poder vingar muito tempo. Mas fiquei feliz com elas, feliz por as ver, como se atrás delas pudessem vir mais e mais e tornar rubros os campos. Depois chegou um azul hesitante, pautado ainda por muitas núvens ora brancas ora negras, mas ainda assim a deixar passar a melhor luz que há. E essa nesga de possível Primavera trouxe com ela saudades dos meus namoros adolescentes, feitos ao ar livre, em tudo quanto era um pequenino espaço verde cujas árvores fossem capazes de esconder meia dúzia de beijos. Será impressão minha ou o número de namorados nos jardins diminuiu muito? Terão passado a beijar-se via MSN e afins?

Lembro-me do medo que sentia quando iamos namorar para os Montes Claros, apesar de nem sonhar o quanto Monsanto era um lugar perigoso. O medo que ia a par com o arrepio da pele e a maravilha dos milhares de trevos debaixo dos nossos corpos. E entre dois beijos e umas conversas tontas ainda se saboreava uma azeda apanhada ali mesmo.
~CC~

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Formiguinha





As formigas arquitectam no seu silêncio montinhos cheios de coisas para o Inverno. Espero que aquilo que faço tenha essa consistência, embora seja na verdade imaterial, impossível de saber verdadeiramente. Nunca sei se cheguei ao que queria. Mas ensinar talvez seja deixar sementes sem saber quais delas vingarão, se tornarão arbustos e depois árvores. Talvez algumas não nasçam já, mas só mais tarde, outras nunca ganharão a força necessária, outras já as vejo prontas, maduras. Desenhar um projecto com os estudantes é anular os tempos da escola, livres de aulas, rotinas, dias de semana e de fim de semana, podemos criar um outro modo de nos apropriarmos do saber.

Chegar ao fim é e também perceber o quanto estaríamos mais prontos para começar.
~CC~

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Outra estação



Já queria Primavera, para me ver a nascer, saída da terra como um rebento verde a acreditar no azul. Já queria Primavera, para sair azul, das primeiras ondas mornas.
~CC~

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Espantoso :)

Quem diria...e eu sempre a tentar esconder o meu!!!
~CC~

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Desenhos

Naquele dia eu teria precisado de um diário gráfico para registar os olhos de todos os que olhei.


Ela tinha olhos pequeninos e rasgados num rosto branco com cabelos muito frisados, era uma mistura ocidente-oriente, mas parecia estar sempre a sorrir quando falava e abria muito os braços como se fosse capaz de nos levar com ela até ao tempo em que o Buda disse aos animais para atravessar o rio. Deu uma aula de nos silenciar uma hora, a um público dos 3 aos 80 anos, podemos perguntar a partir daquele silêncio interessado se outra escola, outra vida, não seria possível. Ela usou muito os olhos pequeninos e o sorriso grande.

Os meninos de bata colorida chegavam-nos à cintura e estavam tão bonitos para o dia da saída que pareciam poder figurar numa montra a ilustrar o coração do que é o jardim de infância. Não tinham medo de nada, e não choraram uma única vez. Pelo contrário, pareciam dispostos à aventura, mas com ar grave e sério de quem sabe que pode correr riscos.


E os jovens, uma turma do último ano do Basico, marcada pelo insucesso, demoraram bem mais a mostrar no olhar alguma alegria, só mais tarde, quando deram à mão aos meninos e aos mais velhos e os ajudaram a jogar é que se percebeu que daquela força silenciosa e agreste saia um sol líquido, capaz de amainar o dia de tempestade.

E as senhoras mais velhas eram todas como a minha mãe, lindas nas suas combinações de baton, mala e vestido, pareciam incapazes de se mover para além das cadeiras onde se sentavam muito compostas, mas assim que as bolas de trapo começaram a saltar, elas correram atrás delas com os meninos do jardim de infância e os adolescentes no encalço.

Se eu pudesse desenhar momentos felizes, se eu soubesse.
~CC~


PS. Foi no Centro Cultural de Lagos há cerca de um mês que vi uma exposição muito interessante de diários gráficos e cadernos vários. Também tenho sempre um caderno, estão agrupados por anos e estão cheio de rabiscos de pontos, letras, colunas e linhas, nenhum desenho. Mas dantes desenhava muito. É espantosa a qualidade do que vi naquela exposição, de fazer inveja a todos os que só têm à mão letras para falar dos seus mundos interiores e exteriores.

terça-feira, janeiro 19, 2010

Chave

Não basta ser díficil encontrar a chave certa, há também que contar com as portas que têm duas fechaduras.
~CC~

sábado, janeiro 16, 2010

Mulher

Esqueço-me com frequência que sou uma mulher, isto acontece-me desde sempre, mas agora cada vez mais. Na adolescência quis ser árvore, pássaro ou flor porque tinha vergonha de pertencer à humanidade, mas isso passou-me, embora às vezes ainda me envergonhe. Ficou contudo, esta despreocupação quanto ao género que era o meu, ou seja, não adquiri algumas competências que se calhar me fizeram falta.

Toda a vida ouvi reparos em relação ao modo de sentar, aos abraços desmedidos dado a rapazes ou a homens que podiam ser objecto de outras interpretações, ao meu modo de me situar no espaço, de caminhar, de me aproximar. De vez em quando, nos momentos mais improváveis, quando ando a correr de um lado para o outro, dou com uns olhos de homem fixos em mim. O meu primeiro pensamento costuma ser que há algo errado comigo, que devo ter o casaco vestido ao contrário (o que acontece com frequência), que deve ser alguém que não estou a reconhecer(estou sempre a encontrar gente em todo o lado) , ou que é uma pessoa que deve precisar de ajuda para alguma coisa (defeito profissional). Nunca penso que aquele homem está a olhar para mim como um homem olha para uma mulher, que estou a ser olhada como mulher, e não estou a falar daqueles olhares marialvas centrados em partes do corpo salientes, mas sim naquele olhar que é todo ele um interesse centrado em nós, um olhar que também nos olha para os olhos. Com a idade isso piorou bastante, porque mesmo sem querer temos esta tendência de pensar que as moças novas são inevitavelmente giras e atraentes e que há tantas e tantas por aí que não falta para onde olhar.

Ando sempre numa correria tão grande que acho que me incorporo na paisagem, a maior parte das vezes sinto-me vento ligeiro.
~CC~

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Cidadania Global

Um dia chegará em que perderemos estas designações tontas de cidadania e adoptaremos outras, de preferência alargadas e cumulativas, poderemos então pertencer a todos os lugares, sem deixar de pertencer aos que mais amamos.

O Haiti é tambem parte de nós, é parte do nosso mundo. O que está a acontecer lá, podia ter acontecido aqui há cerca de um mês atrás, bastava um grau mais. Ou pensam que por sermos Europa os nossos edificíos não iriam cair?

Nós cidadãos que não pertencemos a organizações que actuam nesta área ou que não somos profissionais em falta nestas ocasiões, pensamos que podemos fazer pouco. Mas há sempre um bocadinho. Na terceira noite sugere-se a doação de dinheiro através da AMI, é uma instituiçao credível e deve haver mais, e lembrem-se, podemos doar pouco, mas o pouco que damos, associado ao que os outros dão é uma dádiva em crescendo. Podemos duvidar da forma como a ajuda chega, questionar a forma como as coisas se organizam, pensar que é ineficaz ajudar só em situaçao de aflição. Tudo isso é questionável sim, mas a emergência é um grito que não permite o nosso cepticismo.

Assistência Médica Internacional (AMI)
Para contribuir:
- Pode fazer uma transferência bancária através do NIB: 0007 001 500 400 000 00672
- No Multibanco basta seleccionar o menu “Pagamento de Serviços” e inserir Entidade 20909 Referência 909 909 909 e a quantia que escolheu doar.

~CC~

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Aprisionados na rede (I)

Foi já há cinco anos que me chegou um sinal de alarme, um dos meus alunos parecia-me estranho. De facto não conseguia nunca vir de manhã à escola e quando o acompanhei no estágio fez um esforço enorme, mas nunca conseguia chegar antes das 10h. Perguntei-lhe se trabalhava à noite e soube que não. Só depois de muita insistência me confessou que não dormia e passava as noites a navegar, depois não conseguia levantar-se de manhã. Procurei saber em que consistia a palavra navegar e fiquei a saber que era contactar pessoas, falar com elas, jogar, andar em sites de música. Era um rapaz atormentado, coartado no seu potencial, metido todo para dentro. Tive a noção clara que que em breve precisaria de mais ajuda, ou navegaria para sempre em galáxias que o impediriam de ter uma vida aqui, aqui na terra. E era um futuro professor que estava na minha frente.

Sei que não tinha ainda o blogue e que muito pouco por lá andava, mesmo à procura de informação. Tinha tido, contudo, uma experiência única de contacto com ex. alunos através de um site que eles criaram para trocar ideias (e sobretudo afectos) em torno das suas primeiras experiências de trabalho. Não tinha, nessa altura, capacidade para compreender o que significava inteiramente ser viciado na Internet, nesse tempo ainda não ganhara lugar entre as dependências e não sei se agora já ganhou, se a Ciência já olha para isto com olhos de ver, e mais ainda de sentir, de compreender.


Depois, comecei a ver estas coisas acontecerem a um ritmo crescente, e estou cada vez mais assustada, confesso. Hoje, fui com os meus alunos realizar uma actividade na área da Educação para a Saúde a um clube de jovens. Normalmente o responsável que nos acolhe participa na actividade, mesmo que fique só a ver. Já esta jovem animadora que trabalhava com o grupo passou o tempo a enviar sms, recebeu chamadas e até se sentou durante um bocado a ver o seu facebook, isto tudo se passou durante o tempo da sua actividade profissional, uma actividade que não exerce em privado, mas sim em público, ou seja tudo isto se passou com os jovens presentes. Parece-me que para alguns esta ligação à rede já se exerce num sistema de aprisionamento, de domínio do instrumento sobre a pessoa, de descontrole. Para outros não será ainda isso, mas é já um domínio do virtual sobre o real, é na rede que estão os amigos, que partilham novidades, que se expoem, mas depois não têm ninguém com quem ir ao cinema, com quem tomar um café, alguém a quem tocar.

Muitas vidas acreditem estão fora de controle, aprisionadas na rede. E é quase paradoxal que a use para protestar contra ela, mas no fundo não é ela, somos nós.

~CC~
PS. Para ler uma óptima reflexão sobre o assunto:

http://janela48.blogspot.com/2010/01/meditacao-sobre-decada-que-comecou.html

segunda-feira, janeiro 11, 2010

O toque de veludo

Era o seu toque de veludo, os olhos verdes líquidos, o cabelo aloirado ligeiramente comprido. Era o seu olhar de veludo, o seu toque de pêssego, o seu falar manso. Era a sua mão na minha mão, uma festa ligeira no meu cabelo, a doçura de cada abraço. Foi sempre um amor sem corpo, o meu e o dele. Era um amor como os homens não amam as mulheres, nem as mulheres amam os homens e só hoje, só hoje tenho a plena compreensão de que nada em nós cabia nas categorias habituais. Estavámos no pleno da nossa adolescência, hesitantes entre as convenções que odiávamos e um mundo outro que sabíamos não exisitir. Quando atravessávamos o pátio da escola secundária, no nosso caso uma escola em tudo diferente das outras, e ainda mais conservadora do que o habitual, choviam insultos sobre nós. E ele não assumia as suas sombras, não dizia que preferia rapazes e não raparigas, que era isso que o seu corpo lhe dizia. Ele não dizia que nas tardes longas de Verão, ele e outros rapazes da rua exploravam o corpo uns dos outros em brincadeiras pré sexuais que aos outros não marcaram, mas a ele sim. Ele nunca mais deixou de pensar no corpo de outros rapazes, e e era isso que o fazia sofrer, o que demorou muito tempo a aceitar. Era por isso que dormíamos juntos um ao lado do outro, abraçados como amantes, sem que o seu corpo se pudesse acender para mim, e nem o meu chegava a acender-se para ele.

E quando já adulto se aceitou, deixou-se perder nos corredores da noite, obrigando o corpo a pagar a dor da sua zanga pelo mundo. Perguntei sempre por ele, até me dizerem que tinha morrido. Não conseguia imaginar os seus olhos de veludo fechados, nem o seu sorriso doce silenciado.

(hoje talvez pudesse sofrer menos, não por se poder casar à luz do direito do Estado, mas pelo sentido simbólico que isso tem, o que temos que festejar é apenas e tão só o abandono gradual do preconceito)
~CC~

Lugar





Era um lugar frio num fim de semana particularmente agreste. E, no entanto, vim consideravelmente quente. Confirmei amplamente a ideia de que são as pessoas que aquecem os lugares, há uma energia que podemos receber pela via directa da quantidade de luz que os olhos são capazes de emitir, pelo toque que a pele na pele é capaz criar, pela capacidade de alumiar as palavras e fazê-las correr como um rio que nos conta vida em cada sílaba.

Um caso, é assim que lhe chamamos na designação científica, um caso é uma experiência singular que procuramos captar, retratar, fixar. Mas prefiro chamar-lhe lugar e dizer que podia pertencer-lhe. Não sei se serei capaz de mais.


~CC~

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Branco

Agora que o sol chegou recheado de frio, vou em busca de um lugar próximo da neve, mas não vou pela neve, vou em busca da singularidade das pessoas que por lá moram. Levo a caixinha mágica de registar vozes. Tenho uma ideia vaga sobre o que procuro, resta saber o que vou encontrar.
~CC~

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Janeiras

Foto Serpa, Set.2009


Fui cantar as Janeiras a uma Associação de Idosos ali para a margem sul. Não canto grande coisa é verdade, mas gosto imenso desta ideia dos coros populares, nascidos nas raízes da alma, sem outra preocupação que não seja dizer ao mundo estamos aqui, estamos vivos. É verdade que por vezes o que fazemos não é mais do que um eco daquilo que foi. Ainda por cima o lugar era tudo menos uma aldeia, pelo contrário era uma zona suburbana e pobre.

Este é o tempo de andar por aí com os meus alunos, desenvolvendo actividades em tudo o que é canto. Praticamente não faço exames, quero que mostrem quem são e o que sabem fazer junto e com as pessoas. Quase todos nos abrem as portas, por vezes perguntando mesmo muito pouco, esta confiança que em nós depositam sem que nos conheçam de lado nenhum, é das coisas boas e bonitas que me têm acontecido.

Foi, no entanto, surpreendente. O coro foi só de mulheres, os homens não largaram as cartas , e a animadora da Associação disse-me que estão completamente viciados e já não fazem mais nada. Elas não, fazem ginástica de manhã, têm grupos organizados por artes e oficios, inventam pequenos teatros e estão sempre na linha da frente para que tudo o que seja passeio. O que acontece aos homens? O que é que lhes está a acontecer?

Ainda aprendi que no dia dos Reis devemos abrir uma romã e, depois de lhe saborearmos os gomos, devemos guardar aquela casquinha interior até ao ano seguinte, parece que dá sorte.


~CC~

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Nómada


Nestas alturas, quando morre alguém que admiramos, desejamos por vezes ser crentes.

De algum modo a voz de Lhasa ecoaria no céu das estrelas, prendendo a si anjos faladores de tantas línguas quantas as que ela nos trazia com a sua voz, anjos nómadas, viajantes do universo, como ela era.

Cheguei tardiamente à música da Lhasa, e queria muito assitir a um concerto dela, mas já não será possível fazê-lo, ela deixou-nos no primeiro dia do ano. No entanto, a música, acompanhada do seu sorriso de menina, ainda brilha.

~CC~


domingo, janeiro 03, 2010

Outros balanços

Costumava procurar um lugar bem no meio do campo para nem sequer ver o fogo de artifício, aninhava-me aí com aquele que foi um amor de uma década, indiferente ao modo como o mundo festejava a passagem de ano. A alegria feita motivo obrigatório nunca foi o meu forte. Fui assim feliz nesses anos de escuro, de silêncio, de vida feita ao contrário das outras, anos de família colocada na linha de água. Agora chegaram tempo mais confusos, menos claros quanto ao que sei, quero e posso realmente fazer.

Ligo-me de novo à alegria e à tristeza como lugares de viver o início de um novo ano. Sou capaz de ter esta vontade de fazer um doce novo nesta época, pegar na receita da sericaia para fazer em casa o que tantas vezes fui à procura pelos restaurantes do Alentejo, pensar que serei capaz sem medo, como tantas vezes tive, de ser julgada na praça pública, mesmo quando ela é constituída pelos nossos. Sou capaz de ensinar às crianças, algumas quase adolescentes, a receita de filhoses da família, ver que este ano foram quase todas feitas por elas, num jogo lúdico que me diverte, mas no qual coloco também um sentido geracional, de passagem do testemunho. E sim, gosto de ver a casa cheia. Gosto da conversa que ainda acontece, de escolhermos um filme para ver em conjunto, de partilharmos as tarefas que assim nos cansam a todos menos. Gosto de nos sabermos juntos, de saber que gostamos uns dos outros assim.

Mas a família que é um lugar inequivoco de amor, é também um lugar de enorme preocupação. Nada nos pode doer mais que a incapacidade que sentimos para estancar os rumos menos bons daqueles com quem crescemos ou que vimos crescer. Nada nos dói mais do que a antevisão dos precípicios nos quais podem cair. E, no entanto, que direito temos de lhes dizer isso mesmo, de os julgar, de os avisar, de os impedir. A dúvida entre o que podemos e queremos dizer, entre o que podemos e queremos fazer, é por vezes imensa. Os erros pagam-se por vezes muito caro, apesar de fazerem parte da vida. Estes momentos, em que a vida quotidiana é de repente interrompida e as vozes de cada um não chegam via telefone ou internet, são assim momentos em que vemos os olhos inteiros dos outros. E sabemos, quando os abraçamos, que bate dentro de nós um coração com medo do que possa acontecer-lhes.
~CC~

terça-feira, dezembro 29, 2009

Desejo(s)

Leio a lista de desejos do ano passado e percebo claramente que a maior parte não foram cumpridos. Lamento um ou dois, mas não me importo quanto aos outros. Sei que os acalento em mim por muito tempo, deixo-os a madurar, concebo-os em planos secretos, dou-lhes lume. Provavelmente alguns morrerão comigo como sempre foram, como lugares onde depositei os meus sonhos, integrados nas minhas células, misturados no meu sangue. Outros tomarão a forma do meu envelhecimento, mudando as suas nuances como se fossem as cores do cabelo ou dos olhos. E um ao outro virão ao rosto como um riso inteiro e grande na hora em que se cumprirem.

Certo é que toda a vida desejei, e isso é mesmo o mais importante, a forma como o desejo foi sempre em mim luz, a própria arquitectura da vontade da vida. E é apenas isso que não quero perder.
~CC~

(E um 2010 bem bom a todos os amigos e conhecidos que passam pela Ardósia)

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Cheiro a laranja (II)


Umas semanas antes tinha andado a fotografá-las nas ruas de Vila Viçosa. À procura do sol no Inverno.
~CC~

terça-feira, dezembro 22, 2009

Cheiro a laranja

Trazemos amarrados a nós cheiros e sabores que fazem tão parte de nós como a cor dos cabelos ou dos olhos. Por isso neste lugar chamado família não há Natal sem cheiro a laranja açucarada. Senti-o hoje ao chegar a casa vinda de um dia adverso, em que por um momento me senti tão perdida que não tive certeza se conseguiria achar o caminho de casa. E depois entrei aqui, na meu apartamento pequenino, nesta cidade que me alojou, e cheirava ao pudim de laranja que me lembro fazer parte de todos, todos os Natais. Era a minha mãe que o tinha acabado de tirar do forno, 82 anos inteiros e faladores, a dizer-nos que ainda está ali, que haverá sobremesa para o dia 24, a mesma, a que todos adoramos. Ajudei-a no segundo doce eterno na nossa mesa: a torta de cenoura. E tive a certeza que é nestes gestos pequenos que nos fazemos gente.
~CC~

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Inquietude

Também senti medo, há muito que tenho medo dos sismos. Todas as noites quando me apetece dormir nua, e é quase sempre apesar do frio, penso neles. Penso que se tiver que sair a correr, não quero mostrar a minha nudez ao mundo, e assim visto pelo menos uma camisola, uma camisa de dormir, um pano qualquer. Mas quando penso no medo, nunca penso nos sismos, penso mesmo na violência de que os homens são capazes, isso sim é mais assustador do que o rugir da natureza.

Vi Ágora presa na dor desse confronto com a violência dos homens, fechando os olhos perante a barbaridade que é capaz de habitar um olhar, atónita perante o contágio da raiva, a nódoa a alastrar impossível de conter. Chamar religião a qualquer coisa que tem tanto ódio dentro só pode ser a verdadeira blasfémia. Vemos como esse mal é capaz de viver em todos as religiões e como é paradoxal fazer tanto mal em nome do bem.

E também abri os olhos extasiada para ver as estrelas brilhar intensamente dentro do coração de uma mulher, fui com ela nessa viagem pelo universo cheia de perguntas, ainda e sempre cheia de perguntas. Senti-me reconciliada com a Ciência, não obstante duvidar tantas vezes dela. Mas a busca do saber é um infinito bem, sobretudo se ela se faz na humildade de entender cada resposta como apenas um momento de apaziguar a inquietude antes de partir de novo.

~CC~

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Outro Natal


Os meninos da Ilha do Ibo (Quirimbas, Moçambique), todo o tempo a comer mangas acabadas de cair ao chão. Mesmo assim de olhos negros e abertos a olhar para nós, nada sabemos realmente sobre a forma de bater do seu coração. Fazem-me saudades da minha infância, da mangueira do meu quintal, das lâmpadas vermelhas e amarelas (sim, não eram luzinhas, eram mesmo lâmpadas) com que cobríamos as árvores no Natal, do frango de churrasco com muito piri piri. Saudades dos corpos descobertos no calor imenso de Dezembro.
~CC~

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Chocolates (II)

Entro pouco naquele supermercado porque detesto o seu aspecto sujo e desleixado e não consigo ser indiferente às velhotas que se arrastam por lá de robe e pantufas, como quase nunca trazem os óculos que aliás de pouco já lhes podem valer, querem saber o preço de cada coisa, e abrem as carteiras para ver se trazem o dinheiro suficiente. Sei o que é contar o dinheiro para comprar qualquer coisa no supermercado e por isso elas provocam-me muita dor. Há também muitas mulheres e homens alimentados pelo rendimento minímo ou pelo subsídio de desemprego que por lá se demoram estudando bem cada coisa a trazer. E ontem, o rapaz.

O rapaz devia ter a idade da minha filha ou pouco mais, e vestia-se como ela, de forma escorreita e simples, mas não parecia pobre. Mas o que podemos realmente inferir da aparência de alguém? Estava parado sozinho em frente à prateleira dos chocolates e colocou um dentro de cada bolso do casaco. Viu-me e eu vi-o e ele viu que eu tinha visto o que ele fazia. Baixei os olhos e passei por ele sem uma palavra. Podia ter-lhe dito que sei como é, também sei como é não poder pedir dinheiro nem o ter para chocolates. Há muito que não via ninguém a roubar no supermercado, pensei que já nem era possível com os códigos de barras.

A verdade é que nem me passou pela cabeça denunciar o rapaz, era como se eu estivesse inequivocamente do lado dele, por mais que roubar não seja coisa a aprovar no meu código de valores.
~CC~

Chocolates

Dezembro também é mês de chocolates, pelo menos deste lado do Equador, já que do outro há demasiado calor para tanto doce.

Nunca fui das adictas do chocolate, mas há muito que me deixo perder pela magia das caixas grandes, daquelas enormes com vários andares e muitos feitios diferentes, mais presa pelo mistério de não saber o que lá vai dentro do que pela antevisão dos sabores reais. O que me fascina são os desenhos, as cores, os papéis que os embrulham, as hipóteses que se colocam para os recheios. Uma caixa de chocolates é um mistério a descobrir lentamente, onde cada bombom pode ser inteiramente diferente do outro, é uma espécie de viagem à sensibilidade do nosso paladar, é um jogo.

Ando com vontade de comprar uma para oferecer, e penso que uma parte dos nossos presentes tem tanto disto, do que também um dia sonhámos receber. E às vezes nem o queremos realmente, gostamos de acalentar aquele desejo, mais do que de o concretizar. É como se o desejo de alguma coisa fosse connosco a acompanhar-nos pela vida, fazendo desse modo parte dela.
~CC~

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Dezembro

Na semana passada, demos a volta de carro com os mais velhos à cidade de provincia que o presidente diz querer tornar a capital do sul, embora há muito o seja. Este ano são notícia as luzes de baixo consumo, mas para quem as pensaria menos brilhantes, não são. Está bonita a baixa da cidade, quase toda em luz azul, acho-a mesmo com mais encanto do que em anos anteriores e muito mais luminosa, excepção aos tapetes vermelhos pirosos que cobrem o chão das ruas principais. Sinto-me que uma parte de mim está ali, sei onde ficam as coisas e quais são os melhores lugares para tomar café e comprar o jornal.
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No sábado quis mostrar à adolescente as luzes da baixa lisboeta, agora que ela começa a achar a cidade bonita e que desfeita a vida que lá vivi entre filas intermináveis, também gosto mais dela. Mas ou os meus olhos se tornaram mais exigentes, ou não vi nas meia dúzia de ruas iluminadas grande fulgor ou beleza, pareceu-me tudo muito inferior a outros anos e até ao brilho da pequena cidade do sul. Desde que venderam as árvores de Natal às operadoras de telemóvel e afins, olho para elas com uma suspeita que dantes não tinha. A noite já tinha sido salva pela orquestra juvenil da cidade de Lisboa e pelos três coros que se lhe juntaram para fazer da aula magna uma festa linda inspirada em Verdi. Lá no meio, sentada entre os jovens, a nossa amiga mais velha, tinha um sorriso grande e generoso, por mais que se mantivesse séria e concentrada na sua função.

Cheirei quase vinte perfumes na perfumaria para escolher os adequados, e deixei na mala os papelinhos perfumados numa mistura de odores perfeita para os sentimentos ambiguos que o mês de Dezembro me desperta. Tudo isto nos pode parecer um gigantesco circo comercial que importaria recusar, ainda para mais quando a religião não faz efectivamente parte das nossas vidas e quando sabemos hoje que Cristo nasceu em meados de Abril, quando sabemos que tudo não passa de uma construção mais ou menos artificial, montada com propósitos vários.

Mas há uma parte de mim efectivamente rendida ao brilho destas luzes que iluminam as noites frias de Dezembro, e tiro um a um os papelinhos perfumados tentando reconhecer o cheiro dos que efectivamente comprei. Pensei em determinadas pessoas ao comprá-los, de como gostam de andar perfumadas e de como as gosto de sentir assim, logo eu que praticamente não uso perfumes. Talvez seja isto, talvez nos faça pensar nas pessoas a quem damos presentes.
~CC~

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Fazer a diferença (II)

Na escola pobre, no bairro onde viveram os meus avós, as gaivotas dipustam entre elas as migalhas no pátio onde os meninos brincaram. Vou com o director conhecer todas as salas, todas as professoras. Mas só me lembro dela. Esteve desde o início do ano a trabalhar numa salinha improvisada num vão se escada, mas nunca deixou de lado o seu sorriso e energia. Agora alugaram um contentor branco, com quatro janelas e uma promessa de ar condicionado quando vier o calor. É bom, muito bom, diz ela sem nunca perder o brilho dos olhos. Para muitos outros aquilo é uma desgraça, os meninos, os pais, tudo é uma desgraça. Para ela é matéria prima, é desafio, é saber a constuir devagarinho, sem desistência.

Diz-me que não pode vir hoje à reunião porque tem que ir finalizar o processo de adopção que iniciou há uns meses. Pergunto pela criança, e ela diz-me que não é uma criança, é uma rapariga de 16 anos. Espantou-me com a coragem de alguém que adopta uma rapariga de 16 anos quando a maioria dos casais sinaliza até aos três anos. Penso que não terá filhos, por isso tal bondade. Ela ri, tem dois rapazes já crescidos.

Sinto-me feliz com a diferença delas, aí reside a esperança.
~CC~

terça-feira, dezembro 08, 2009

Bairro

É verdade que o prédio é novo e bonito e que tem vista para a baía, para essa língua luminosa de azul de diversos cambientes pintados através da luz do céu. Vive, no entanto, entre dois bairros sociais, na parte escondida da cidade. É por isso que vejo a família cigana carregada de preto subindo a rua até ao cemitério, que me cruzo pela manhã com as velhotas de pantufas e robe que me sorriem em silêncio, e que logo cedo há gente a beber neste misto de cafés-tabernas que há em cada esquina. Os pijamas estão sempre em saldo no pronto a vestir, a loja indiana vende várias pós que juntos dão o verdadeiro caril, do mini mercado chega um cheiro a pão, e a igreja tem um cordão de luzes assim que cai a noite. Na esplanada do café, um rapaz brasileiro na casa dos vinte diz a uma portuguesa da mesma idade:

- É Natal e quero dar-te uma coisa.
- A mim? Eu não quero nada...

(a amiga que também está na mesa sorri matreiramente)

- Não tenho cá ninguém, quero dar-te uma coisa a ti.
- E a tua mãe, quando vem?
- Estou a juntar o dinheiro para ela vir, são seis meses, já fiz as contas...
(que pena não conseguir juntar a pronúncia dele nesta escrita, era doce, cantante, cheia de esperança).

Gosto tanto daqui.

(talvez nunca pare de procurar a minha casa).

~CC~

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Nas mãos da Sophia


Se a palavra começar tem sentido quando há muito devia ter começado as 300 páginas da escrita académica conducente ao grau que tornará a palavra emprego mais possível, é ali que quero começar. Tenho um ano apenas diante de mim, por isso escolho a companhia da Sophia, da inspiração das suas mãos, ali onde o mar me parece tão azul como os olhos dela.

Numa casa que há muito está à venda não há Internet nem canais variados, nem rádio, nem música. Tenho apenas os ciprestes do pequeno e velho cemitério, alguns ruídos de crianças a brincar na rua e a vista para Meia Praia, onde vejo ainda a sombra dos Indios do Zeca na espuma do mar. E imagino o som das ondas como a música que ficará registada na minha escrita, mesmo que o júri nunca a possa ouvir.

Não sei quantas vezes irei, nem quanto tempo lá passarei, desta vez será provavelmente pouco tempo mas gostava de o aumentar mais e mais. Dos ecos desse tempo poucas notas haverá aqui, escreverei, por força das circunstâncias, menos nesta ardósia. Mas virei por certo algumas vezes alimentar o caderno público dos meus tempos e modos interiores, porque quero uma clasura com janelas. E ler, e saber de vós.
~CC~

Calipolenses


Contemplava como qualquer turista tonto a beleza das laranjeiras que inundam a vila branca, pensando como é possível termos estes frutos sumarentos em pleno Inverno. Foi então que eles passaram, dois homens com cerca de cinquenta anos, um deles caminhava atrás do outro tentando seguir o seu passo apressado. E não pude evitar escutar, num tempo em que este verbo só tem conotações negativas, ainda acredito que é uma arte.

- Então homem como é que isso vai?
- Vai mal!
- Mas o que é que vai mal?
- Tudo, tudo redondamente mal
- Bebe um copo que isso passa...
- Isso já eu faço...

E depois fez-se silêncio entre eles.
~CC~

terça-feira, dezembro 01, 2009

Companhia



Ter companhia é muito mais que não estar sozinho. Na paisagem branca deste Alentejo toldado pelo frio e pela chuva é o calor que acontece quando se partilha o silêncio, a palavra e o riso. E é certo que é isso que corta a tristeza ao meio e a desmancha como uma manta de trapos.
~CC~

sexta-feira, novembro 27, 2009

Fazer a diferença

A miúda queimou dois dedos numa aula prática, e nem chamou por mim. A princípio fiquei zangada mas depois contou-me a história e percebi. Tudo o que precisava-o creme, o penso, e sobretudo a atenção e o carinho- encontrou numa auxiliar de acção educativa da escola. Era tão querida ela, mãe. E descreveu a dispensa minúscula onde guardava as coisas e onde tinha sempre um chá a fumegar que nunca tinha tempo de beber.

Apesar de não gostar nada de cortes de cabelo e afins, e sobretudo desses espaços de malvadez estética onde o pior da intimidade feminina aparece, lá tenho de ir de quando em quando. E apesar do silêncio que costumo manter, nada condizente com o ambiente geral, tive por parte dela direito a massagem no couro cabeludo e sorriso cumplice, uma harmonia que ela passava nas poucas palavras e nos dedos sem nada pedir em troca.

Em Moçambique, onde nada começava a horas e não se podia almoçar ou jantar sem demorar pelo menos duas horas, o motorista do taxi com que travámos conhecimento e que nos levava e trazia à escola, era de uma pontualidade e de uma honestidade impressionantes.

Nos dias em que está bem disposta ela sorri e chama-me professorinha e o café sabe-me melhor e o dia ganha sempre mais calor.

São as pessoas que fazem a diferença, é só quase nisso que acredito.
~CC~

quarta-feira, novembro 25, 2009

Identidades

Durante muitos anos o meu oficio, variável como ele é, tinha uma constante, tinha que se fazer com pessoas. Era como se o meu respirar tivesse que ser permanentemente alimentado por outros sopros, e foi bom, por esses trilhos conheci muitas pessoas que me ensinaram coisas, e outras a quem julgo também ter ensinado. A escrita era esse momento de estar comigo e chegava-me. Por isso a investigação nunca me apaixonou por pressentir nela esse ritual dos solitários, esse enfiamento para dentro, via-os como gente cujo saber se fazia mais no escuro e muitas vezes com real dificuldade em partilhá-lo, em trazê-lo para a luz.


No jogo das identidades, julguei durante muito tempo que os pedagogos, esses sim, eram gente como eu, e nunca hesitei quando me pediam para me classificar, era aí que queria situar-me, talvez por me terem marcado tanto alguns deles. Via-os entre o pensar e o agir, ou a fazer o pensar agir, ou a agir pensando. E sempre, como nos primórdios, rodeados de gente a quem importava escutar e falar, passeando na pólis, ao modo de Sócrates. E sempre gostei muito da escola, das aulas, e dos corredores e gabinetes, onde as conversas se podiam fazer de forma mais aprofundada. E mais ainda de ver os alunos crescer, inseridos em projectos na comunidade, confrontados com os mundos que não vão à escola. Ainda o faço, e está na forja uma entrada na Educação pela Arte.

Mas há qualquer coisa a mudar em mim, assim como o rosto se está a transformar, assim o meu eu me mostra vontades até agora desconhecidas. Este desejo de recolhimento, de silêncio, de casa. Antes um dia passado em casa era um pesadelo, só o fazia se estivesse doente. Agora vejo passar velozes as horas diante de mim enquanto as tento apanhar. E não sinto nenhum tédio, nenhum anseio por gente, nenhuma angústia por vozes. Estou comigo, mas ao mesmo tempo não estou só, não me sinto só.
~CC~

segunda-feira, novembro 23, 2009

Pequenas certezas

Está dentro de um meio sorriso uma lágrima gorda que o habita desde os tempos mais remotos, quando mal sabia que um espelho não eram duas pessoas mas apenas o reflexo de uma. Segura-a com firmeza a maior parte dos dias, a maior parte das vezes, é afinal uma parte do eu, uma lágrima bem aconchegada até pode fugir de nós a voar como uma bola de sabão cruzando o vento leve de Verão, quando volta ao seu lugar até perdeu metade do sal.

Mas há uns poucos dias que ela resolve mostrar o seu peso de chumbo, engorda até parecer que vai explodir e nessa explosão afogar todo o corpo no seu húmido cinzento. É preciso falar com ela num longo e terno diálogo, aquietá-la, empatá-la com falas mansas, piscar-lhe o olho. E quando por fim sossega, é possível ter a certeza que a vida em mim é mais feliz do que triste.

E as cegonhas rasgam os céus majestosas no crepúsculo frio, atravessando o meu horizonte na estrada do Alentejo, e tenho um pensamento bom, penso na maravilha que é um pássaro tão pesado poder voar assim.
~CC~

sexta-feira, novembro 20, 2009

Viajando sem sair do lugar



O corpo preso às muitas tarefas, procurando pôr a alma nelas, enquanto uma parte dela me foge, sempre em viagem.
~CC~

terça-feira, novembro 17, 2009

Receita

Faça assim para não se arruinar por dentro quando o mundo, os outros, e até você se conjugam em terríveis cinzentos.

Coza em lume brando uma lembrança boa, por exemplo, um momento em que fez alguém feliz, realmente feliz. Não se demore no tempo que essa felicidade durou, concentre a sua memória na luz. Guarde esse sol, esse calor e coma-o demoradamente, saboreie.

Eu faço isso contigo, com uma parte da minha memória de ti. Não penso no mal que a tua pele fez à minha, penso só no bem que a minha fez à tua.
~CC~

segunda-feira, novembro 16, 2009

Muros invisíveis

Muito boa a forma como o Pedro descreve o fim da amizade. Direi que o início é exactamente ao contrário, abrimos portas e janelas e deixamos o outro entrar, iluminados por essa luz que nos traz, jamais pensamos que um dia haverá sombras. E é pior do que com o amor, porque há muito que habituámos o amor à suspeita de uma morte possível.
~CC~

sábado, novembro 14, 2009

Do outro lado...





Com este entardecer pequenino, lembro um mundo além do meu sul, um mundo que não sinto meu, mas onde me apetece ir. E todas estas histórias à volta da queda do muro de Berlim, não me deixaram nada indiferente, antes pelo contrário. E sei também que em mim, um desejo de viagem é como uma doença que só se cura com a partida, mesmo que às vezes ela demore muito a concretizar-se. Foi assim com Praga. Agora penso muito nas termas de Budapeste, é um clássico eu sei, mas há postais que nos ocupam o imaginário, porque ele também é feito de imagens que não nascem dentro de nós.

~CC~

sexta-feira, novembro 13, 2009

Procuramos quem possa cuidar...


Pois é, um dia acontece connosco...mesmo quando pensamos que não...e muito menos que o blogue possa um meio para pedir ajuda deste tipo. Mas não faço parte de nenhuma rede social, não uso facebook, nem qualquer outro meio, pelo que o blogue é mesmo o único veículo público que possuo. Uso-o assim para procurar alguém que possa cuidar deste cachorro. Parece ter sido abandonado há muito pouco tempo porque está cuidado e é muito meigo e sociável.

Entre em contacto se estiver interessado ou se conhecer alguém que esteja

quarta-feira, novembro 11, 2009

As lágrimas públicas


Ela chorou, pela manhã, dentro do meu gabinete, soluçando baixinho, e senti-me mal porque o estatuto professor e aluno fizeram reter em mim o abraço que lhe queria ter dado. Falei-lhe baixinho e próximo, tentando mostrar quantas cores poderiam haver para além da sua dor, mas não a consegui tocar. À tarde uma outra aluna, essa desconhecida, saiu de dentro de uma aula a chorar e cruzei-me com ela sem conseguir dizer-lhe uma palavra, ainda hesitei o passo, mas mais nada. Hoje, passei numa paragem de autocarro onde uma mulher já adulta chorava sozinha sem sequer tentar tapar as lágrimas. É imensa a fragilidade das pessoas que tornam públicas as suas lágrimas, nunca lhes consigo ser indiferente, mas a maior parte das vezes não as consigo ir secar, consolar, sobretudo se as pessoas são desconhecidas. Mas aquela aflição persegue-me pelas horas dos dias.


~CC~

segunda-feira, novembro 09, 2009

Muros (III)

(Para a ~AF~...
Para o JVT, por causa das histórias tristes com um final feliz...
Para a Depp que se comove com as histórias dos outros, para que possa sempre ser assim...)

É preciso que diga que antes da casa ocupada, já tinha havido a casa velha do avô, e dentro dela o quarto escuro sem janelas. E depois, certas de que a vida nos ia correr melhor, tínhamos alugado o apartamento novo das duas assoalhadas de alcatifa (nunca tinha visto antes chão forrado assim), do qual tínhamos tido ordem de despejo, ditada pelo Tribunal, um espanto de eficácia no Portugal de 1975.

Por isso a subida do Sul para Lisboa, no limiar do início do ano lectivo de 1976, era outra aventura desta errância, desta procura de vida, depois de termos perdido a que tínhamos chamado nossa.

A casa das portas fechadas ficava num dormitório fino de Lisboa, só mais tarde vim a saber que tinha ganho um prémio de arquitectura. E a nossa rua, a dos lotes 90, era a única das casas ocupadas, o resto era um bairro normal e abastado, onde moravam muitos nomes sonantes da política e da televisão. Via-se um pouquinho do Tejo da rua dos 90´s, e de outras via-se muito Tejo. Nunca deixámos de ser os dos 90, mesmo depois do final feliz.

Um dia a primeira familia de ocupantes tirou as mobílias e levou-as para outra casa que tinham em Cascais, não faço ideia se ocupada. Mas não abriram as portas, deixaram-nas na mesma fechadas. Soube bastante depois que a sua ideia era negociar a saída, ter uma contrapartida nossa pelas chaves, ou obter alguma vantagem no dia em que os legitímos proprietários viessem tirar-nos dali. E eles chegaram de facto: os legitímos proprietários. Não tinham porém nome nem rosto, tratava-se de uma companhia de seguros. E o homem do frauque travestido de advogado bateu uma a uma cada porta do prédio ocupado, dizendo que tinham que sair. Mas as pessoas tinham decidido que a tragédia era coisa para arrumar no passado. E juntaram-se, e uniram-se, e perceberam que também elas podiam ter advogados. E a nossa esperança pela abertura das portas aumentava de dia para dia. E quando chegou a indicação da verba a dispender para o aluguer, a desistência bateu à nossa porta, era um montade impossível para nós.

Mas a casa tinha muitas assoalhadas e nós sabíamos viver em poucas, em quase nenhumas. Por isso a solução estava em cima da mesa: primeiro abrir as portas, depois enchê-las de gente. Foi assim que se abriram as portas, e passei a viver numa espécie de pensão familiar, mas essa é já uma outra história que agora não importa.

O que importa é saberes o que aconteceu naquele dia. Primeiro o som das chaves a abrir cada porta, o homem do fraque a deixar uma chave em cada fechadura. Depois dele sair, abrimos as portas e dançámos nas seis assoalhadas vazias, ou melhor, cheias de sol.

Os muros podem derrubar-se, as portas podem abrir-se.
~CC~