segunda-feira, fevereiro 22, 2010
O colar das contas azuis
domingo, fevereiro 21, 2010
Single
sábado, fevereiro 20, 2010
Concordância
~CC~
Enrolar-me (II)
sexta-feira, fevereiro 19, 2010
Enrolar-me
quarta-feira, fevereiro 17, 2010
Esconderijo
Sempre gostei de esconder-me, lembro-me que uma vez quando era miúda jogava às escondidas e fiquei num canto do quintal, e o tempo passou, passou muito tempo, e eu sentia-me bem ali quieta, longe de tudo. Na verdade, ninguém veio à minha procura, quando saí, já o jogo tinha há muito acabado. E agora ainda gosto, vou para um lugar onde nunca estive e se gostar dele, acho que posso ficar muito tempo. Não sinto a falta de nada se trouxer comigo os que amo, só eles são afinal a minha terra. O resto em mim é tudo mar.
sexta-feira, fevereiro 12, 2010
Inventar dias
quinta-feira, fevereiro 11, 2010
Admirar na praça pública
quarta-feira, fevereiro 10, 2010
Equílibrio
segunda-feira, fevereiro 08, 2010
Amor e outra história
Celeste olhou uma a uma as portas fechadas da sua casa grande, tinha-as fechado para a tornar mais pequena e assim diminuir a sua solidão. Abriu a janela da sala, era a única divisão que tinha sobrado da sua vida familiar antiga, fechando os olhos podia ouvir as vozes dos miúdos quando chegavam da escola e sentir o coração a bater com força. Mas em vez da lágrima habitual que lhe aparecia nessas ocasiões de profunda saudade, viu nascer na sua boca um sorriso. E da janela da sala dirigiu o sorriso até ao lugar da Nogueira. A verdade é que ainda há pouco tempo a mandara cortar porque a entristecia ver a ruína em que ela se tornara, e muitas vezes sentira-se tão velha quanto ela.
Mas estava para chegar o seu velho com a nogueira nova, e o buraco que pedira para abrir cheirava a água e a terra, estava pronto para alimentar a seiva de uma nova vida. Chamava-lhe intimamente e só para si própria o seu velho, mas achava-o ainda um homem muito bonito, e tinha pensado muitas vezes encher os seus dedos com aqueles cabelos brancos tão abundantes.
Ele tinha vindo ver a casa quando ela a pusera à venda, cansada das memórias que lhe estavam agarradas, e tinha ficado preso à cor purpura única das paredes e ao cheiro dos jasmins que trepavam por elas. Tinha dado tudo o que tinha aos filhos numa espécie de despedida antecipada, os bens já não lhe interessavam, mas procurava ainda um lugar para poder demorar-se nos crepúsculos. Combinaram ver-se uma e outra vez com a casa pelo meio, mas já presos um ao outro pelo resto do brilho que os seus olhos tinham. E ele tinha-lhe pedido para ficar naquela casa, porque há lugares que não se podem abandonar sob pena do sangue se transformar rapidamente em pó. E ela sabia que apesar de ter fechado as portas, deixá-la era também secar por dentro. E ela tinha-o convidado a vir, a trazer as suas coisas. E ele tinha dito: primeiro trago a nogueira nova para plantar. E viram que na geografia da pele havia roteiros de lume ainda por descobrir. E nunca falaram de amor, nunca.
(a frase de E. está cheia de esperança, se no momento em que perdemos um amor que ainda amamos, nos fosse possivel beber dela, a sombra não nos tomaria)
(é beber desta esperança, não só porque "o melhor amor de cada um de nós ainda está por descobrir" mas também porque podemos descobrir melhor o amor que temos).
~CC~
sexta-feira, fevereiro 05, 2010
Amor e uma historia (II) aos olhos de E.
Chamei-lhe "A edificação do amor"
(Por E., do SUL)
quinta-feira, fevereiro 04, 2010
Amor e uma história (I)
A derrota
E isso durou até ao dia em que um rapaz mais velho, já trabalhador, a procurou para o ajudar a fazer o exame de 12º ano e poder ingressar na faculdade. Também ele tivera azar com a vida, a doença do pai tinha-o obrigado a deixar os estudos, e só agora podia voltar. Era assim diferente de todos os que tinham procurado Maria, tinha mesmo vontade de aprender e de superar-se a si próprio. Liam muita poesia, sobretudo Fernando Pessoa e Camões, poetas que eram muito focados nos exames de 12º ano. E o rapaz sentiu uma e outra vez os olhos molhados quando ela lia com a sua voz rouca, o braço sem vida, a alma fora dali. E era verdade, ela esquecia-se da presença dele, lia para si própria em viagem interior. E é assim que o amor nasce: uma coisa tão pequena que nos toca no outro, que nos toca como mais ninguém tocou.
quarta-feira, fevereiro 03, 2010
Toques de seda e perfume
segunda-feira, fevereiro 01, 2010
Marcas na areia

quinta-feira, janeiro 28, 2010
Aprisionados na rede (II)
Aproveitando uma frase que deixou escapar: não durmo há muitos dias, perguntei-lhe o que se passava com ela. E acrescentei a medo: não me diga que fica na NET até de manhã...(mas confesso que eu própria achei a minha frase um exagero). E ela respondeu: É isso professora...mas quase não vejo Televisão!
terça-feira, janeiro 26, 2010
Montes Claros
segunda-feira, janeiro 25, 2010
Formiguinha
sexta-feira, janeiro 22, 2010
Outra estação
Já queria Primavera, para me ver a nascer, saída da terra como um rebento verde a acreditar no azul. Já queria Primavera, para sair azul, das primeiras ondas mornas.
quinta-feira, janeiro 21, 2010
quarta-feira, janeiro 20, 2010
Desenhos
Ela tinha olhos pequeninos e rasgados num rosto branco com cabelos muito frisados, era uma mistura ocidente-oriente, mas parecia estar sempre a sorrir quando falava e abria muito os braços como se fosse capaz de nos levar com ela até ao tempo em que o Buda disse aos animais para atravessar o rio. Deu uma aula de nos silenciar uma hora, a um público dos 3 aos 80 anos, podemos perguntar a partir daquele silêncio interessado se outra escola, outra vida, não seria possível. Ela usou muito os olhos pequeninos e o sorriso grande.
terça-feira, janeiro 19, 2010
Chave
sábado, janeiro 16, 2010
Mulher
Toda a vida ouvi reparos em relação ao modo de sentar, aos abraços desmedidos dado a rapazes ou a homens que podiam ser objecto de outras interpretações, ao meu modo de me situar no espaço, de caminhar, de me aproximar. De vez em quando, nos momentos mais improváveis, quando ando a correr de um lado para o outro, dou com uns olhos de homem fixos em mim. O meu primeiro pensamento costuma ser que há algo errado comigo, que devo ter o casaco vestido ao contrário (o que acontece com frequência), que deve ser alguém que não estou a reconhecer(estou sempre a encontrar gente em todo o lado) , ou que é uma pessoa que deve precisar de ajuda para alguma coisa (defeito profissional). Nunca penso que aquele homem está a olhar para mim como um homem olha para uma mulher, que estou a ser olhada como mulher, e não estou a falar daqueles olhares marialvas centrados em partes do corpo salientes, mas sim naquele olhar que é todo ele um interesse centrado em nós, um olhar que também nos olha para os olhos. Com a idade isso piorou bastante, porque mesmo sem querer temos esta tendência de pensar que as moças novas são inevitavelmente giras e atraentes e que há tantas e tantas por aí que não falta para onde olhar.
sexta-feira, janeiro 15, 2010
Cidadania Global
O Haiti é tambem parte de nós, é parte do nosso mundo. O que está a acontecer lá, podia ter acontecido aqui há cerca de um mês atrás, bastava um grau mais. Ou pensam que por sermos Europa os nossos edificíos não iriam cair?
Assistência Médica Internacional (AMI)
Para contribuir:
- Pode fazer uma transferência bancária através do NIB: 0007 001 500 400 000 00672
- No Multibanco basta seleccionar o menu “Pagamento de Serviços” e inserir Entidade 20909 Referência 909 909 909 e a quantia que escolheu doar.
~CC~
quarta-feira, janeiro 13, 2010
Aprisionados na rede (I)
Depois, comecei a ver estas coisas acontecerem a um ritmo crescente, e estou cada vez mais assustada, confesso. Hoje, fui com os meus alunos realizar uma actividade na área da Educação para a Saúde a um clube de jovens. Normalmente o responsável que nos acolhe participa na actividade, mesmo que fique só a ver. Já esta jovem animadora que trabalhava com o grupo passou o tempo a enviar sms, recebeu chamadas e até se sentou durante um bocado a ver o seu facebook, isto tudo se passou durante o tempo da sua actividade profissional, uma actividade que não exerce em privado, mas sim em público, ou seja tudo isto se passou com os jovens presentes. Parece-me que para alguns esta ligação à rede já se exerce num sistema de aprisionamento, de domínio do instrumento sobre a pessoa, de descontrole. Para outros não será ainda isso, mas é já um domínio do virtual sobre o real, é na rede que estão os amigos, que partilham novidades, que se expoem, mas depois não têm ninguém com quem ir ao cinema, com quem tomar um café, alguém a quem tocar.
http://janela48.blogspot.com/2010/01/meditacao-sobre-decada-que-comecou.html
segunda-feira, janeiro 11, 2010
O toque de veludo
Lugar
Um caso, é assim que lhe chamamos na designação científica, um caso é uma experiência singular que procuramos captar, retratar, fixar. Mas prefiro chamar-lhe lugar e dizer que podia pertencer-lhe. Não sei se serei capaz de mais.
sexta-feira, janeiro 08, 2010
Branco
quarta-feira, janeiro 06, 2010
Janeiras
Este é o tempo de andar por aí com os meus alunos, desenvolvendo actividades em tudo o que é canto. Praticamente não faço exames, quero que mostrem quem são e o que sabem fazer junto e com as pessoas. Quase todos nos abrem as portas, por vezes perguntando mesmo muito pouco, esta confiança que em nós depositam sem que nos conheçam de lado nenhum, é das coisas boas e bonitas que me têm acontecido.
segunda-feira, janeiro 04, 2010
Nómada
Nestas alturas, quando morre alguém que admiramos, desejamos por vezes ser crentes.
De algum modo a voz de Lhasa ecoaria no céu das estrelas, prendendo a si anjos faladores de tantas línguas quantas as que ela nos trazia com a sua voz, anjos nómadas, viajantes do universo, como ela era.
Cheguei tardiamente à música da Lhasa, e queria muito assitir a um concerto dela, mas já não será possível fazê-lo, ela deixou-nos no primeiro dia do ano. No entanto, a música, acompanhada do seu sorriso de menina, ainda brilha.
~CC~
domingo, janeiro 03, 2010
Outros balanços
Mas a família que é um lugar inequivoco de amor, é também um lugar de enorme preocupação. Nada nos pode doer mais que a incapacidade que sentimos para estancar os rumos menos bons daqueles com quem crescemos ou que vimos crescer. Nada nos dói mais do que a antevisão dos precípicios nos quais podem cair. E, no entanto, que direito temos de lhes dizer isso mesmo, de os julgar, de os avisar, de os impedir. A dúvida entre o que podemos e queremos dizer, entre o que podemos e queremos fazer, é por vezes imensa. Os erros pagam-se por vezes muito caro, apesar de fazerem parte da vida. Estes momentos, em que a vida quotidiana é de repente interrompida e as vozes de cada um não chegam via telefone ou internet, são assim momentos em que vemos os olhos inteiros dos outros. E sabemos, quando os abraçamos, que bate dentro de nós um coração com medo do que possa acontecer-lhes.
terça-feira, dezembro 29, 2009
Desejo(s)
Certo é que toda a vida desejei, e isso é mesmo o mais importante, a forma como o desejo foi sempre em mim luz, a própria arquitectura da vontade da vida. E é apenas isso que não quero perder.
quarta-feira, dezembro 23, 2009
Cheiro a laranja (II)
terça-feira, dezembro 22, 2009
Cheiro a laranja
segunda-feira, dezembro 21, 2009
Inquietude
Vi Ágora presa na dor desse confronto com a violência dos homens, fechando os olhos perante a barbaridade que é capaz de habitar um olhar, atónita perante o contágio da raiva, a nódoa a alastrar impossível de conter. Chamar religião a qualquer coisa que tem tanto ódio dentro só pode ser a verdadeira blasfémia. Vemos como esse mal é capaz de viver em todos as religiões e como é paradoxal fazer tanto mal em nome do bem.
E também abri os olhos extasiada para ver as estrelas brilhar intensamente dentro do coração de uma mulher, fui com ela nessa viagem pelo universo cheia de perguntas, ainda e sempre cheia de perguntas. Senti-me reconciliada com a Ciência, não obstante duvidar tantas vezes dela. Mas a busca do saber é um infinito bem, sobretudo se ela se faz na humildade de entender cada resposta como apenas um momento de apaziguar a inquietude antes de partir de novo.
~CC~
sexta-feira, dezembro 18, 2009
Outro Natal
quarta-feira, dezembro 16, 2009
Chocolates (II)
Chocolates
Ando com vontade de comprar uma para oferecer, e penso que uma parte dos nossos presentes tem tanto disto, do que também um dia sonhámos receber. E às vezes nem o queremos realmente, gostamos de acalentar aquele desejo, mais do que de o concretizar. É como se o desejo de alguma coisa fosse connosco a acompanhar-nos pela vida, fazendo desse modo parte dela.
segunda-feira, dezembro 14, 2009
Dezembro
^
sexta-feira, dezembro 11, 2009
Fazer a diferença (II)
terça-feira, dezembro 08, 2009
Bairro
- É Natal e quero dar-te uma coisa.
- A mim? Eu não quero nada...
(a amiga que também está na mesa sorri matreiramente)
- Não tenho cá ninguém, quero dar-te uma coisa a ti.
- E a tua mãe, quando vem?
- Estou a juntar o dinheiro para ela vir, são seis meses, já fiz as contas...
(que pena não conseguir juntar a pronúncia dele nesta escrita, era doce, cantante, cheia de esperança).
Gosto tanto daqui.
(talvez nunca pare de procurar a minha casa).
~CC~
quinta-feira, dezembro 03, 2009
Nas mãos da Sophia
Se a palavra começar tem sentido quando há muito devia ter começado as 300 páginas da escrita académica conducente ao grau que tornará a palavra emprego mais possível, é ali que quero começar. Tenho um ano apenas diante de mim, por isso escolho a companhia da Sophia, da inspiração das suas mãos, ali onde o mar me parece tão azul como os olhos dela.
Calipolenses
Contemplava como qualquer turista tonto a beleza das laranjeiras que inundam a vila branca, pensando como é possível termos estes frutos sumarentos em pleno Inverno. Foi então que eles passaram, dois homens com cerca de cinquenta anos, um deles caminhava atrás do outro tentando seguir o seu passo apressado. E não pude evitar escutar, num tempo em que este verbo só tem conotações negativas, ainda acredito que é uma arte.
terça-feira, dezembro 01, 2009
Companhia
Ter companhia é muito mais que não estar sozinho. Na paisagem branca deste Alentejo toldado pelo frio e pela chuva é o calor que acontece quando se partilha o silêncio, a palavra e o riso. E é certo que é isso que corta a tristeza ao meio e a desmancha como uma manta de trapos.
sexta-feira, novembro 27, 2009
Fazer a diferença
quarta-feira, novembro 25, 2009
Identidades
segunda-feira, novembro 23, 2009
Pequenas certezas
Mas há uns poucos dias que ela resolve mostrar o seu peso de chumbo, engorda até parecer que vai explodir e nessa explosão afogar todo o corpo no seu húmido cinzento. É preciso falar com ela num longo e terno diálogo, aquietá-la, empatá-la com falas mansas, piscar-lhe o olho. E quando por fim sossega, é possível ter a certeza que a vida em mim é mais feliz do que triste.
E as cegonhas rasgam os céus majestosas no crepúsculo frio, atravessando o meu horizonte na estrada do Alentejo, e tenho um pensamento bom, penso na maravilha que é um pássaro tão pesado poder voar assim.
sexta-feira, novembro 20, 2009
Viajando sem sair do lugar
terça-feira, novembro 17, 2009
Receita
Coza em lume brando uma lembrança boa, por exemplo, um momento em que fez alguém feliz, realmente feliz. Não se demore no tempo que essa felicidade durou, concentre a sua memória na luz. Guarde esse sol, esse calor e coma-o demoradamente, saboreie.
segunda-feira, novembro 16, 2009
Muros invisíveis
sábado, novembro 14, 2009
Do outro lado...
sexta-feira, novembro 13, 2009
Procuramos quem possa cuidar...
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quarta-feira, novembro 11, 2009
As lágrimas públicas
segunda-feira, novembro 09, 2009
Muros (III)
Muros (II)
(para ~AF~, que tanto gosta de conhecer as histórias reais da família)
Nunca poderei esquecer os muros que havia dentro de casa. Eram portas e portas fechadas à chave, e meninas que ainda éramos, espreitavámos pelos buracos da fechadura para tentar adivinhar o que ia lá dentro. Era uma casa grande, muito grande, mas nós vivíamos as quatro num único quarto, uma única casa de banho e a cozinha.
Nós agonizámos na nossa falta de espaço: duas mulheres, uma adolescente, uma criança enfiadas num único quarto onde se tinha que fazer tudo. Lembro-me dos colchões que se estendiam na hora de deitar e que era preciso tirar ao levantar, e ainda sei a cor dos cobertores que se dobravam e desdobravam a toda a hora. Tinham-nos deixado a casa cheia de portas fechadas à chave e nenhuma chave. Eram os nossos muros, os muros dolorosos da minha adolescência. E pouco podia compreender do que se passava em concreto: dizia-se em voz baixa que a casa tinha sido ocupada pelos retornados, e nós éramos já a segunda vaga da ocupação. Éramos também retornados, mas mais pobres e menos espertos, a nossa família era esse bando de quatro mulheres, duas afinal quase meninas, e não tínhamos nenhum rendimento para além de uma magra pensão pela qual a mãe lutava todos os dias, e mesmo essa estava sempre sob ameaça. Tínhamos vindo assim, na esteira de outros, ocupar casas de luxo vazias.
domingo, novembro 08, 2009
Muros (I)
sexta-feira, novembro 06, 2009
Nas coisas mais simples (II)
quinta-feira, novembro 05, 2009
Nas coisas mais simples
terça-feira, novembro 03, 2009
Processo de Influência
domingo, novembro 01, 2009
Ponto a ponto os dias
Elipses felizes
Com raras excepções, é fora dos cinemas que decorre de facto a festa do cinema. Belissímo filme sobre pessoas tão iguais a nós. E um belo exemplo de como podemos ao mesmo tempo rir e chorar num jogo de espelhos que nos devolve inteiro o nosso rosto.

imagem retirada de http://www.qctop.com/actualites/upload/Premierjourdurestedetavie-76658.jpg
quarta-feira, outubro 28, 2009
A tristeza
É a tristeza, uma cola pegajosa que fica na nossa pele e não sai com a água do banho. É a tristeza, um torpor que vem de dentro como um frio que nos amarra os músculos. É a tristeza, aquela cortina de fumo que nos esconde e torna feios os nossos olhos. É a tristeza, uma morte sem corpo nem doença que nos agarra quando o Outono traz assim tão cedo as noites. É a tristeza, esse não gostar de nós que nos acaba a não gostar do mundo.
terça-feira, outubro 27, 2009
Saber
Os livreiros velhos que sabem o nome das árvores da cidade são um bem impossível de classificar. São como as árvores com nome que são amadas por eles.
~CC~
domingo, outubro 25, 2009
A primeira escola
Voltei lá no último Domingo e ela estava lá, quase igual. Tudo quieto, parado, silencioso como há mais de vinte anos quando cheguei na camioneta da carreira, depois de duas horas e meia de viagem. Os meninos, ainda os procurei pelas esquinas da rua, imaginando-os rapazes e raparigas com olhos ainda espantados como quando os encontrei. A serra de Montejunto ali mesmo ao lado, imponente no seu olhar de pedra. Foi este o lugar onde me tornei professora pela primeira vez, apenas uma sala, uma única sala vazia e fria onde a tristeza parecia querer espreitar em cada janela. O pátio de terra varrido pelo vento é ainda o mesmo, mas há pequenas árvores, alguma delas será a que plantámos num dia de Primavera, cantando à sua volta uma canção para embalar o seu crescimento?!
sexta-feira, outubro 23, 2009
Dois apontamentos de amor
Há muito que espreito curiosa as nuances do seu crescimento. Espanto-me por vezes, fico entre o orgulho e a comoção. No início do Verão foi o silêncio que nos pediu para ouvir uma reportagem que passava na rádio sobre os meninos da guerra. Durou cerca de uma hora, iniciada no carro e terminada em casa, subiu as escadas a correr para a acabar de ouvir. Foi um outro mundo que lhe bateu à porta, esse onde as crianças não vão à escola e em vez das letras, aprendem a matar. Ontem foi o discurso que o Obama fez no início do ano lectivo nos EUA, vinha entusiasmada com a leitura colectiva que estavam a programar na turma. Leu a parte dela, logo os dois primeiros parágrafos com um tom de voz bonito e emocionado. Espanto-me desde os seus primeiros passos, mas a caminhada continua a ser um espanto.
quinta-feira, outubro 22, 2009
Paixão e Política
Eu só quero ver o instante
em que chegas à manif
no teu Armani flamejante
qual vermelha passadeira
em vermelho redundante
que empalidece a bandeira
Vou ficar a ver-te mudo
gritando slogans na rua
pela divisão da riqueza
enquanto nos gabinetes de veludo
o poder treme e recua
com medo da tua beleza
Então dou-te uma toilette
soneto de alta costura
a mais chique maravilha
para me sentir perdoado
por não poder estar a teu lado
quando tomares a Bastilha.
Carlos Tê/Jorge Palma
(é mesmo verdade que a sabes tocar?
haverá lá melhor modo de comemorar a entrada do novo governo?!)
~CC~
quarta-feira, outubro 21, 2009
Dançar na chuva
As aulas começavam tarde, já as primeiras chuvas tinham lavado as ruas. Mas as chuvadas grandes que dobravam ao meio os guarda chuvas vinham um pouco depois, normalmente no final de Outubro. E lembro bem aquele dia em que tu e eu decidimos nos molhar até aos ossos, até aos nossos cabelos compridos escorrerem gotas no cimento do pátio grande, onde ficava também a maior poça de água da escola. E dançámos no pátio, cantando uma música dos Beatles, feitas cigarras tontas, desafiando todas as leis que amarravam o nosso quotidiano suburbano.
E quando nos abraçámos rindo, lembro-me que tinhas a face gelada, ainda mais gelada que a minha, e os teus lábios roxos riam e riam. Mas o que guardo de todo esse frio é um calor imenso, e nenhum apego, antes recusa, a guarda chuvas. E também uma certa alergia a convenções, acho que ainda era capaz de dançar à chuva.

