quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Amor e uma história (I)

(Para E, em jeito de resposta (1) ao seu comentário no post anterior)

A derrota

Maria tinha tido um acidente grave de carro que a deixara com um braço para sempre paralisado e por isso reformara-se cedo, não tinha ainda completado cinquenta anos. Com as filhas crescidas, deixara a cidade e voltara à vila onde nascera e à qual durante anos só tinha ido esporadicamente. Como mulher que toda a vida amara os livros e se dedicara a fazê-los amar, tinha levado com ela a vasta biblioteca que organizara meticulosamente numa das assoalhadas da sua casa na vila. E os miúdos da escola iam amiúde procurá-la, tornara-se numa espécie de tia culta que ajudava a ler e a interpretar as obras obrigatórias, fazia-o de graça e com gosto e aquilo dera um novo sentido à sua vida. Ganhara também o respeito da comunidade.

E isso durou até ao dia em que um rapaz mais velho, já trabalhador, a procurou para o ajudar a fazer o exame de 12º ano e poder ingressar na faculdade. Também ele tivera azar com a vida, a doença do pai tinha-o obrigado a deixar os estudos, e só agora podia voltar. Era assim diferente de todos os que tinham procurado Maria, tinha mesmo vontade de aprender e de superar-se a si próprio. Liam muita poesia, sobretudo Fernando Pessoa e Camões, poetas que eram muito focados nos exames de 12º ano. E o rapaz sentiu uma e outra vez os olhos molhados quando ela lia com a sua voz rouca, o braço sem vida, a alma fora dali. E era verdade, ela esquecia-se da presença dele, lia para si própria em viagem interior. E é assim que o amor nasce: uma coisa tão pequena que nos toca no outro, que nos toca como mais ninguém tocou.

E nenhum deles quis ou pode evitar que da doçura das vozes se caminhasse para a doçura dos corpos, nenhum deles teve medo do amor. É verdade que primeiro se escondiam no escuro do quarto, mas assim que a Primavera chegou, quiseram ir com ela pelos campos e deixaram de se enconder.

E a vila inteira soube, falou e condenou. Era um amor imoral. Condenada a diferença de idades, de estatutos, de ambições. Ela passou a receber cartas intimidatórias, deixaram de a cumprimentar nos lugares públicos e um dia uns miúdos na rua chamaram-lhe puta e depois desataram a fugir em ruidosas gargalhadas. Condenado o amor, tão só essa explosão, em si mesmo anárquica e não convencional. E sim, terminaram em mútuo acordo essa sua Primavera.

Ela fechou a porta da sua casa na Vila e colocou uma tabuleta: para venda. E nunca mais voltou. Ele fez tudo o que era suposto fazer: casou e teve filhos. E continuou sempre a procurá-la, não activamente é verdade, mas passivamente. Julgou vê-la no Cinema, numa livraria, num jardim...era uma miragem interior, uma sombra dentro dos seus olhos. E foram assim os dois infelizes para sempre. E o amor perdeu.
~CC~

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Toques de seda e perfume

Desde o primeiro filme da Jane Campion que a sigo como uma abelha em busca do perfume de uma determinada flor, um aroma certo para a produção do mel interior. Às vezes o perfume é tão intenso que provoca tonturas e outras tão suave que nos amacia.

Nesta sua cintililação pelo amor, o desejo é um toque macio entre campos de mil flores e flocos de neve. Os beijos são passarinhos contidos, presos no seu voo, mas claramente marcados pela vontade de pele.

E o amor vence, apesar da morte. É ele que vence claramente a luta, a dura contenda entre as convenções e a liberdade. E é também a luta entre a musa virtual do poeta e a musa real de olhos doces. É a segunda que vence e é ela que enche os poemas do que lhes faltava.

Também eu acreditava nesta força do amor até o ver claramente derrotado pelas convenções, e comecei a perceber que ele perdia, que perdia muitas vezes. Ou então não era amor.
~CC~

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Marcas na areia


A praia quando chega o sol de inverno mostra as marcas das marés intensas e dos ventos fortes. É ainda uma praia quase vazia que se abre diante de nós na manhã de sábado. É preciso caminhar junto à areia molhada porque a areia seca é um conjunto de montes e vales penteados pelo Inverno. Vemos as marcas dos nossos pés rapidamente lavadas pela espuma. E andamos mais e mais, impelidos pelo desejo de ver mais adiante aquele lugar em que a ria e o mar se encontram num abraço de sal. Há muitos anos que não caminhava até à barrinha, o lugar onde os barcos andam para trás.



As ondas trouxeram com elas muitas conchas e muito lixo, uma mistura bela e desordenada das coisas mais bonitas e mais feias. No cimo de uma duna uma televisão abandonada emite a partir de uma antena de cana que alguém fez, numa instalação improvisada bem humorada. No regresso há uma baía calma onde os meninos poderiam aprender a tomar banho em paz de tal modo as ondas são mansas. Não há quase gaivotas, mas há uns pássaros mais pequenos de bico pontiagudo que brincam juntos. E vi claramente na areia as marcas das patas de uma cegonha, vi o seu andar vagaroso e majestoso.


Lembrei-me do Fernão Capelo Gaivota e de como ele marcou estupidamente a minha adolescência, como me fez aprisionar nessa hipótese de fazer a diferença face aos outros, fez-me falta ser como os outros, só querer comer e lambuzar-me nesse prazer como o imenso bando na praia. Mas não, sempre me senti só, era essa gaivota teimosa presa a qualquer filosofia capaz de vencer a força da gravidade. E isso marcou-me de tal modo que não sei se sei descolar essa teimosia das minhas células. Depois a tua mão acordou-me de mim e destes pensamentos e senti-me feliz por te ter ali.


~CC~


(e no dia seguinte e no outro, as pernas acusaram a longa caminhada até à Barrinha)

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Aprisionados na rede (II)

Tem uns belos olhos claros num rosto sorridente na plena frescura dos vinte, mas ultimamente achei-a tristonha e sem cor. Pensei que o cansaço dela poderia ser igual ao meu, que talvez como eu se sentisse no limite. Mas não era.

Aproveitando uma frase que deixou escapar: não durmo há muitos dias, perguntei-lhe o que se passava com ela. E acrescentei a medo: não me diga que fica na NET até de manhã...(mas confesso que eu própria achei a minha frase um exagero). E ela respondeu: É isso professora...mas quase não vejo Televisão!
~CC~

terça-feira, janeiro 26, 2010

Montes Claros

No sábado vi umas tímidas e incertas papoilas, dobradas pelo vento e de um vermelho pálido, não pareciam poder vingar muito tempo. Mas fiquei feliz com elas, feliz por as ver, como se atrás delas pudessem vir mais e mais e tornar rubros os campos. Depois chegou um azul hesitante, pautado ainda por muitas núvens ora brancas ora negras, mas ainda assim a deixar passar a melhor luz que há. E essa nesga de possível Primavera trouxe com ela saudades dos meus namoros adolescentes, feitos ao ar livre, em tudo quanto era um pequenino espaço verde cujas árvores fossem capazes de esconder meia dúzia de beijos. Será impressão minha ou o número de namorados nos jardins diminuiu muito? Terão passado a beijar-se via MSN e afins?

Lembro-me do medo que sentia quando iamos namorar para os Montes Claros, apesar de nem sonhar o quanto Monsanto era um lugar perigoso. O medo que ia a par com o arrepio da pele e a maravilha dos milhares de trevos debaixo dos nossos corpos. E entre dois beijos e umas conversas tontas ainda se saboreava uma azeda apanhada ali mesmo.
~CC~

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Formiguinha





As formigas arquitectam no seu silêncio montinhos cheios de coisas para o Inverno. Espero que aquilo que faço tenha essa consistência, embora seja na verdade imaterial, impossível de saber verdadeiramente. Nunca sei se cheguei ao que queria. Mas ensinar talvez seja deixar sementes sem saber quais delas vingarão, se tornarão arbustos e depois árvores. Talvez algumas não nasçam já, mas só mais tarde, outras nunca ganharão a força necessária, outras já as vejo prontas, maduras. Desenhar um projecto com os estudantes é anular os tempos da escola, livres de aulas, rotinas, dias de semana e de fim de semana, podemos criar um outro modo de nos apropriarmos do saber.

Chegar ao fim é e também perceber o quanto estaríamos mais prontos para começar.
~CC~

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Outra estação



Já queria Primavera, para me ver a nascer, saída da terra como um rebento verde a acreditar no azul. Já queria Primavera, para sair azul, das primeiras ondas mornas.
~CC~

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Espantoso :)

Quem diria...e eu sempre a tentar esconder o meu!!!
~CC~

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Desenhos

Naquele dia eu teria precisado de um diário gráfico para registar os olhos de todos os que olhei.


Ela tinha olhos pequeninos e rasgados num rosto branco com cabelos muito frisados, era uma mistura ocidente-oriente, mas parecia estar sempre a sorrir quando falava e abria muito os braços como se fosse capaz de nos levar com ela até ao tempo em que o Buda disse aos animais para atravessar o rio. Deu uma aula de nos silenciar uma hora, a um público dos 3 aos 80 anos, podemos perguntar a partir daquele silêncio interessado se outra escola, outra vida, não seria possível. Ela usou muito os olhos pequeninos e o sorriso grande.

Os meninos de bata colorida chegavam-nos à cintura e estavam tão bonitos para o dia da saída que pareciam poder figurar numa montra a ilustrar o coração do que é o jardim de infância. Não tinham medo de nada, e não choraram uma única vez. Pelo contrário, pareciam dispostos à aventura, mas com ar grave e sério de quem sabe que pode correr riscos.


E os jovens, uma turma do último ano do Basico, marcada pelo insucesso, demoraram bem mais a mostrar no olhar alguma alegria, só mais tarde, quando deram à mão aos meninos e aos mais velhos e os ajudaram a jogar é que se percebeu que daquela força silenciosa e agreste saia um sol líquido, capaz de amainar o dia de tempestade.

E as senhoras mais velhas eram todas como a minha mãe, lindas nas suas combinações de baton, mala e vestido, pareciam incapazes de se mover para além das cadeiras onde se sentavam muito compostas, mas assim que as bolas de trapo começaram a saltar, elas correram atrás delas com os meninos do jardim de infância e os adolescentes no encalço.

Se eu pudesse desenhar momentos felizes, se eu soubesse.
~CC~


PS. Foi no Centro Cultural de Lagos há cerca de um mês que vi uma exposição muito interessante de diários gráficos e cadernos vários. Também tenho sempre um caderno, estão agrupados por anos e estão cheio de rabiscos de pontos, letras, colunas e linhas, nenhum desenho. Mas dantes desenhava muito. É espantosa a qualidade do que vi naquela exposição, de fazer inveja a todos os que só têm à mão letras para falar dos seus mundos interiores e exteriores.

terça-feira, janeiro 19, 2010

Chave

Não basta ser díficil encontrar a chave certa, há também que contar com as portas que têm duas fechaduras.
~CC~

sábado, janeiro 16, 2010

Mulher

Esqueço-me com frequência que sou uma mulher, isto acontece-me desde sempre, mas agora cada vez mais. Na adolescência quis ser árvore, pássaro ou flor porque tinha vergonha de pertencer à humanidade, mas isso passou-me, embora às vezes ainda me envergonhe. Ficou contudo, esta despreocupação quanto ao género que era o meu, ou seja, não adquiri algumas competências que se calhar me fizeram falta.

Toda a vida ouvi reparos em relação ao modo de sentar, aos abraços desmedidos dado a rapazes ou a homens que podiam ser objecto de outras interpretações, ao meu modo de me situar no espaço, de caminhar, de me aproximar. De vez em quando, nos momentos mais improváveis, quando ando a correr de um lado para o outro, dou com uns olhos de homem fixos em mim. O meu primeiro pensamento costuma ser que há algo errado comigo, que devo ter o casaco vestido ao contrário (o que acontece com frequência), que deve ser alguém que não estou a reconhecer(estou sempre a encontrar gente em todo o lado) , ou que é uma pessoa que deve precisar de ajuda para alguma coisa (defeito profissional). Nunca penso que aquele homem está a olhar para mim como um homem olha para uma mulher, que estou a ser olhada como mulher, e não estou a falar daqueles olhares marialvas centrados em partes do corpo salientes, mas sim naquele olhar que é todo ele um interesse centrado em nós, um olhar que também nos olha para os olhos. Com a idade isso piorou bastante, porque mesmo sem querer temos esta tendência de pensar que as moças novas são inevitavelmente giras e atraentes e que há tantas e tantas por aí que não falta para onde olhar.

Ando sempre numa correria tão grande que acho que me incorporo na paisagem, a maior parte das vezes sinto-me vento ligeiro.
~CC~

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Cidadania Global

Um dia chegará em que perderemos estas designações tontas de cidadania e adoptaremos outras, de preferência alargadas e cumulativas, poderemos então pertencer a todos os lugares, sem deixar de pertencer aos que mais amamos.

O Haiti é tambem parte de nós, é parte do nosso mundo. O que está a acontecer lá, podia ter acontecido aqui há cerca de um mês atrás, bastava um grau mais. Ou pensam que por sermos Europa os nossos edificíos não iriam cair?

Nós cidadãos que não pertencemos a organizações que actuam nesta área ou que não somos profissionais em falta nestas ocasiões, pensamos que podemos fazer pouco. Mas há sempre um bocadinho. Na terceira noite sugere-se a doação de dinheiro através da AMI, é uma instituiçao credível e deve haver mais, e lembrem-se, podemos doar pouco, mas o pouco que damos, associado ao que os outros dão é uma dádiva em crescendo. Podemos duvidar da forma como a ajuda chega, questionar a forma como as coisas se organizam, pensar que é ineficaz ajudar só em situaçao de aflição. Tudo isso é questionável sim, mas a emergência é um grito que não permite o nosso cepticismo.

Assistência Médica Internacional (AMI)
Para contribuir:
- Pode fazer uma transferência bancária através do NIB: 0007 001 500 400 000 00672
- No Multibanco basta seleccionar o menu “Pagamento de Serviços” e inserir Entidade 20909 Referência 909 909 909 e a quantia que escolheu doar.

~CC~

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Aprisionados na rede (I)

Foi já há cinco anos que me chegou um sinal de alarme, um dos meus alunos parecia-me estranho. De facto não conseguia nunca vir de manhã à escola e quando o acompanhei no estágio fez um esforço enorme, mas nunca conseguia chegar antes das 10h. Perguntei-lhe se trabalhava à noite e soube que não. Só depois de muita insistência me confessou que não dormia e passava as noites a navegar, depois não conseguia levantar-se de manhã. Procurei saber em que consistia a palavra navegar e fiquei a saber que era contactar pessoas, falar com elas, jogar, andar em sites de música. Era um rapaz atormentado, coartado no seu potencial, metido todo para dentro. Tive a noção clara que que em breve precisaria de mais ajuda, ou navegaria para sempre em galáxias que o impediriam de ter uma vida aqui, aqui na terra. E era um futuro professor que estava na minha frente.

Sei que não tinha ainda o blogue e que muito pouco por lá andava, mesmo à procura de informação. Tinha tido, contudo, uma experiência única de contacto com ex. alunos através de um site que eles criaram para trocar ideias (e sobretudo afectos) em torno das suas primeiras experiências de trabalho. Não tinha, nessa altura, capacidade para compreender o que significava inteiramente ser viciado na Internet, nesse tempo ainda não ganhara lugar entre as dependências e não sei se agora já ganhou, se a Ciência já olha para isto com olhos de ver, e mais ainda de sentir, de compreender.


Depois, comecei a ver estas coisas acontecerem a um ritmo crescente, e estou cada vez mais assustada, confesso. Hoje, fui com os meus alunos realizar uma actividade na área da Educação para a Saúde a um clube de jovens. Normalmente o responsável que nos acolhe participa na actividade, mesmo que fique só a ver. Já esta jovem animadora que trabalhava com o grupo passou o tempo a enviar sms, recebeu chamadas e até se sentou durante um bocado a ver o seu facebook, isto tudo se passou durante o tempo da sua actividade profissional, uma actividade que não exerce em privado, mas sim em público, ou seja tudo isto se passou com os jovens presentes. Parece-me que para alguns esta ligação à rede já se exerce num sistema de aprisionamento, de domínio do instrumento sobre a pessoa, de descontrole. Para outros não será ainda isso, mas é já um domínio do virtual sobre o real, é na rede que estão os amigos, que partilham novidades, que se expoem, mas depois não têm ninguém com quem ir ao cinema, com quem tomar um café, alguém a quem tocar.

Muitas vidas acreditem estão fora de controle, aprisionadas na rede. E é quase paradoxal que a use para protestar contra ela, mas no fundo não é ela, somos nós.

~CC~
PS. Para ler uma óptima reflexão sobre o assunto:

http://janela48.blogspot.com/2010/01/meditacao-sobre-decada-que-comecou.html

segunda-feira, janeiro 11, 2010

O toque de veludo

Era o seu toque de veludo, os olhos verdes líquidos, o cabelo aloirado ligeiramente comprido. Era o seu olhar de veludo, o seu toque de pêssego, o seu falar manso. Era a sua mão na minha mão, uma festa ligeira no meu cabelo, a doçura de cada abraço. Foi sempre um amor sem corpo, o meu e o dele. Era um amor como os homens não amam as mulheres, nem as mulheres amam os homens e só hoje, só hoje tenho a plena compreensão de que nada em nós cabia nas categorias habituais. Estavámos no pleno da nossa adolescência, hesitantes entre as convenções que odiávamos e um mundo outro que sabíamos não exisitir. Quando atravessávamos o pátio da escola secundária, no nosso caso uma escola em tudo diferente das outras, e ainda mais conservadora do que o habitual, choviam insultos sobre nós. E ele não assumia as suas sombras, não dizia que preferia rapazes e não raparigas, que era isso que o seu corpo lhe dizia. Ele não dizia que nas tardes longas de Verão, ele e outros rapazes da rua exploravam o corpo uns dos outros em brincadeiras pré sexuais que aos outros não marcaram, mas a ele sim. Ele nunca mais deixou de pensar no corpo de outros rapazes, e e era isso que o fazia sofrer, o que demorou muito tempo a aceitar. Era por isso que dormíamos juntos um ao lado do outro, abraçados como amantes, sem que o seu corpo se pudesse acender para mim, e nem o meu chegava a acender-se para ele.

E quando já adulto se aceitou, deixou-se perder nos corredores da noite, obrigando o corpo a pagar a dor da sua zanga pelo mundo. Perguntei sempre por ele, até me dizerem que tinha morrido. Não conseguia imaginar os seus olhos de veludo fechados, nem o seu sorriso doce silenciado.

(hoje talvez pudesse sofrer menos, não por se poder casar à luz do direito do Estado, mas pelo sentido simbólico que isso tem, o que temos que festejar é apenas e tão só o abandono gradual do preconceito)
~CC~

Lugar





Era um lugar frio num fim de semana particularmente agreste. E, no entanto, vim consideravelmente quente. Confirmei amplamente a ideia de que são as pessoas que aquecem os lugares, há uma energia que podemos receber pela via directa da quantidade de luz que os olhos são capazes de emitir, pelo toque que a pele na pele é capaz criar, pela capacidade de alumiar as palavras e fazê-las correr como um rio que nos conta vida em cada sílaba.

Um caso, é assim que lhe chamamos na designação científica, um caso é uma experiência singular que procuramos captar, retratar, fixar. Mas prefiro chamar-lhe lugar e dizer que podia pertencer-lhe. Não sei se serei capaz de mais.


~CC~

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Branco

Agora que o sol chegou recheado de frio, vou em busca de um lugar próximo da neve, mas não vou pela neve, vou em busca da singularidade das pessoas que por lá moram. Levo a caixinha mágica de registar vozes. Tenho uma ideia vaga sobre o que procuro, resta saber o que vou encontrar.
~CC~

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Janeiras

Foto Serpa, Set.2009


Fui cantar as Janeiras a uma Associação de Idosos ali para a margem sul. Não canto grande coisa é verdade, mas gosto imenso desta ideia dos coros populares, nascidos nas raízes da alma, sem outra preocupação que não seja dizer ao mundo estamos aqui, estamos vivos. É verdade que por vezes o que fazemos não é mais do que um eco daquilo que foi. Ainda por cima o lugar era tudo menos uma aldeia, pelo contrário era uma zona suburbana e pobre.

Este é o tempo de andar por aí com os meus alunos, desenvolvendo actividades em tudo o que é canto. Praticamente não faço exames, quero que mostrem quem são e o que sabem fazer junto e com as pessoas. Quase todos nos abrem as portas, por vezes perguntando mesmo muito pouco, esta confiança que em nós depositam sem que nos conheçam de lado nenhum, é das coisas boas e bonitas que me têm acontecido.

Foi, no entanto, surpreendente. O coro foi só de mulheres, os homens não largaram as cartas , e a animadora da Associação disse-me que estão completamente viciados e já não fazem mais nada. Elas não, fazem ginástica de manhã, têm grupos organizados por artes e oficios, inventam pequenos teatros e estão sempre na linha da frente para que tudo o que seja passeio. O que acontece aos homens? O que é que lhes está a acontecer?

Ainda aprendi que no dia dos Reis devemos abrir uma romã e, depois de lhe saborearmos os gomos, devemos guardar aquela casquinha interior até ao ano seguinte, parece que dá sorte.


~CC~

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Nómada


Nestas alturas, quando morre alguém que admiramos, desejamos por vezes ser crentes.

De algum modo a voz de Lhasa ecoaria no céu das estrelas, prendendo a si anjos faladores de tantas línguas quantas as que ela nos trazia com a sua voz, anjos nómadas, viajantes do universo, como ela era.

Cheguei tardiamente à música da Lhasa, e queria muito assitir a um concerto dela, mas já não será possível fazê-lo, ela deixou-nos no primeiro dia do ano. No entanto, a música, acompanhada do seu sorriso de menina, ainda brilha.

~CC~


domingo, janeiro 03, 2010

Outros balanços

Costumava procurar um lugar bem no meio do campo para nem sequer ver o fogo de artifício, aninhava-me aí com aquele que foi um amor de uma década, indiferente ao modo como o mundo festejava a passagem de ano. A alegria feita motivo obrigatório nunca foi o meu forte. Fui assim feliz nesses anos de escuro, de silêncio, de vida feita ao contrário das outras, anos de família colocada na linha de água. Agora chegaram tempo mais confusos, menos claros quanto ao que sei, quero e posso realmente fazer.

Ligo-me de novo à alegria e à tristeza como lugares de viver o início de um novo ano. Sou capaz de ter esta vontade de fazer um doce novo nesta época, pegar na receita da sericaia para fazer em casa o que tantas vezes fui à procura pelos restaurantes do Alentejo, pensar que serei capaz sem medo, como tantas vezes tive, de ser julgada na praça pública, mesmo quando ela é constituída pelos nossos. Sou capaz de ensinar às crianças, algumas quase adolescentes, a receita de filhoses da família, ver que este ano foram quase todas feitas por elas, num jogo lúdico que me diverte, mas no qual coloco também um sentido geracional, de passagem do testemunho. E sim, gosto de ver a casa cheia. Gosto da conversa que ainda acontece, de escolhermos um filme para ver em conjunto, de partilharmos as tarefas que assim nos cansam a todos menos. Gosto de nos sabermos juntos, de saber que gostamos uns dos outros assim.

Mas a família que é um lugar inequivoco de amor, é também um lugar de enorme preocupação. Nada nos pode doer mais que a incapacidade que sentimos para estancar os rumos menos bons daqueles com quem crescemos ou que vimos crescer. Nada nos dói mais do que a antevisão dos precípicios nos quais podem cair. E, no entanto, que direito temos de lhes dizer isso mesmo, de os julgar, de os avisar, de os impedir. A dúvida entre o que podemos e queremos dizer, entre o que podemos e queremos fazer, é por vezes imensa. Os erros pagam-se por vezes muito caro, apesar de fazerem parte da vida. Estes momentos, em que a vida quotidiana é de repente interrompida e as vozes de cada um não chegam via telefone ou internet, são assim momentos em que vemos os olhos inteiros dos outros. E sabemos, quando os abraçamos, que bate dentro de nós um coração com medo do que possa acontecer-lhes.
~CC~

terça-feira, dezembro 29, 2009

Desejo(s)

Leio a lista de desejos do ano passado e percebo claramente que a maior parte não foram cumpridos. Lamento um ou dois, mas não me importo quanto aos outros. Sei que os acalento em mim por muito tempo, deixo-os a madurar, concebo-os em planos secretos, dou-lhes lume. Provavelmente alguns morrerão comigo como sempre foram, como lugares onde depositei os meus sonhos, integrados nas minhas células, misturados no meu sangue. Outros tomarão a forma do meu envelhecimento, mudando as suas nuances como se fossem as cores do cabelo ou dos olhos. E um ao outro virão ao rosto como um riso inteiro e grande na hora em que se cumprirem.

Certo é que toda a vida desejei, e isso é mesmo o mais importante, a forma como o desejo foi sempre em mim luz, a própria arquitectura da vontade da vida. E é apenas isso que não quero perder.
~CC~

(E um 2010 bem bom a todos os amigos e conhecidos que passam pela Ardósia)

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Cheiro a laranja (II)


Umas semanas antes tinha andado a fotografá-las nas ruas de Vila Viçosa. À procura do sol no Inverno.
~CC~

terça-feira, dezembro 22, 2009

Cheiro a laranja

Trazemos amarrados a nós cheiros e sabores que fazem tão parte de nós como a cor dos cabelos ou dos olhos. Por isso neste lugar chamado família não há Natal sem cheiro a laranja açucarada. Senti-o hoje ao chegar a casa vinda de um dia adverso, em que por um momento me senti tão perdida que não tive certeza se conseguiria achar o caminho de casa. E depois entrei aqui, na meu apartamento pequenino, nesta cidade que me alojou, e cheirava ao pudim de laranja que me lembro fazer parte de todos, todos os Natais. Era a minha mãe que o tinha acabado de tirar do forno, 82 anos inteiros e faladores, a dizer-nos que ainda está ali, que haverá sobremesa para o dia 24, a mesma, a que todos adoramos. Ajudei-a no segundo doce eterno na nossa mesa: a torta de cenoura. E tive a certeza que é nestes gestos pequenos que nos fazemos gente.
~CC~

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Inquietude

Também senti medo, há muito que tenho medo dos sismos. Todas as noites quando me apetece dormir nua, e é quase sempre apesar do frio, penso neles. Penso que se tiver que sair a correr, não quero mostrar a minha nudez ao mundo, e assim visto pelo menos uma camisola, uma camisa de dormir, um pano qualquer. Mas quando penso no medo, nunca penso nos sismos, penso mesmo na violência de que os homens são capazes, isso sim é mais assustador do que o rugir da natureza.

Vi Ágora presa na dor desse confronto com a violência dos homens, fechando os olhos perante a barbaridade que é capaz de habitar um olhar, atónita perante o contágio da raiva, a nódoa a alastrar impossível de conter. Chamar religião a qualquer coisa que tem tanto ódio dentro só pode ser a verdadeira blasfémia. Vemos como esse mal é capaz de viver em todos as religiões e como é paradoxal fazer tanto mal em nome do bem.

E também abri os olhos extasiada para ver as estrelas brilhar intensamente dentro do coração de uma mulher, fui com ela nessa viagem pelo universo cheia de perguntas, ainda e sempre cheia de perguntas. Senti-me reconciliada com a Ciência, não obstante duvidar tantas vezes dela. Mas a busca do saber é um infinito bem, sobretudo se ela se faz na humildade de entender cada resposta como apenas um momento de apaziguar a inquietude antes de partir de novo.

~CC~

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Outro Natal


Os meninos da Ilha do Ibo (Quirimbas, Moçambique), todo o tempo a comer mangas acabadas de cair ao chão. Mesmo assim de olhos negros e abertos a olhar para nós, nada sabemos realmente sobre a forma de bater do seu coração. Fazem-me saudades da minha infância, da mangueira do meu quintal, das lâmpadas vermelhas e amarelas (sim, não eram luzinhas, eram mesmo lâmpadas) com que cobríamos as árvores no Natal, do frango de churrasco com muito piri piri. Saudades dos corpos descobertos no calor imenso de Dezembro.
~CC~

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Chocolates (II)

Entro pouco naquele supermercado porque detesto o seu aspecto sujo e desleixado e não consigo ser indiferente às velhotas que se arrastam por lá de robe e pantufas, como quase nunca trazem os óculos que aliás de pouco já lhes podem valer, querem saber o preço de cada coisa, e abrem as carteiras para ver se trazem o dinheiro suficiente. Sei o que é contar o dinheiro para comprar qualquer coisa no supermercado e por isso elas provocam-me muita dor. Há também muitas mulheres e homens alimentados pelo rendimento minímo ou pelo subsídio de desemprego que por lá se demoram estudando bem cada coisa a trazer. E ontem, o rapaz.

O rapaz devia ter a idade da minha filha ou pouco mais, e vestia-se como ela, de forma escorreita e simples, mas não parecia pobre. Mas o que podemos realmente inferir da aparência de alguém? Estava parado sozinho em frente à prateleira dos chocolates e colocou um dentro de cada bolso do casaco. Viu-me e eu vi-o e ele viu que eu tinha visto o que ele fazia. Baixei os olhos e passei por ele sem uma palavra. Podia ter-lhe dito que sei como é, também sei como é não poder pedir dinheiro nem o ter para chocolates. Há muito que não via ninguém a roubar no supermercado, pensei que já nem era possível com os códigos de barras.

A verdade é que nem me passou pela cabeça denunciar o rapaz, era como se eu estivesse inequivocamente do lado dele, por mais que roubar não seja coisa a aprovar no meu código de valores.
~CC~

Chocolates

Dezembro também é mês de chocolates, pelo menos deste lado do Equador, já que do outro há demasiado calor para tanto doce.

Nunca fui das adictas do chocolate, mas há muito que me deixo perder pela magia das caixas grandes, daquelas enormes com vários andares e muitos feitios diferentes, mais presa pelo mistério de não saber o que lá vai dentro do que pela antevisão dos sabores reais. O que me fascina são os desenhos, as cores, os papéis que os embrulham, as hipóteses que se colocam para os recheios. Uma caixa de chocolates é um mistério a descobrir lentamente, onde cada bombom pode ser inteiramente diferente do outro, é uma espécie de viagem à sensibilidade do nosso paladar, é um jogo.

Ando com vontade de comprar uma para oferecer, e penso que uma parte dos nossos presentes tem tanto disto, do que também um dia sonhámos receber. E às vezes nem o queremos realmente, gostamos de acalentar aquele desejo, mais do que de o concretizar. É como se o desejo de alguma coisa fosse connosco a acompanhar-nos pela vida, fazendo desse modo parte dela.
~CC~

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Dezembro

Na semana passada, demos a volta de carro com os mais velhos à cidade de provincia que o presidente diz querer tornar a capital do sul, embora há muito o seja. Este ano são notícia as luzes de baixo consumo, mas para quem as pensaria menos brilhantes, não são. Está bonita a baixa da cidade, quase toda em luz azul, acho-a mesmo com mais encanto do que em anos anteriores e muito mais luminosa, excepção aos tapetes vermelhos pirosos que cobrem o chão das ruas principais. Sinto-me que uma parte de mim está ali, sei onde ficam as coisas e quais são os melhores lugares para tomar café e comprar o jornal.
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No sábado quis mostrar à adolescente as luzes da baixa lisboeta, agora que ela começa a achar a cidade bonita e que desfeita a vida que lá vivi entre filas intermináveis, também gosto mais dela. Mas ou os meus olhos se tornaram mais exigentes, ou não vi nas meia dúzia de ruas iluminadas grande fulgor ou beleza, pareceu-me tudo muito inferior a outros anos e até ao brilho da pequena cidade do sul. Desde que venderam as árvores de Natal às operadoras de telemóvel e afins, olho para elas com uma suspeita que dantes não tinha. A noite já tinha sido salva pela orquestra juvenil da cidade de Lisboa e pelos três coros que se lhe juntaram para fazer da aula magna uma festa linda inspirada em Verdi. Lá no meio, sentada entre os jovens, a nossa amiga mais velha, tinha um sorriso grande e generoso, por mais que se mantivesse séria e concentrada na sua função.

Cheirei quase vinte perfumes na perfumaria para escolher os adequados, e deixei na mala os papelinhos perfumados numa mistura de odores perfeita para os sentimentos ambiguos que o mês de Dezembro me desperta. Tudo isto nos pode parecer um gigantesco circo comercial que importaria recusar, ainda para mais quando a religião não faz efectivamente parte das nossas vidas e quando sabemos hoje que Cristo nasceu em meados de Abril, quando sabemos que tudo não passa de uma construção mais ou menos artificial, montada com propósitos vários.

Mas há uma parte de mim efectivamente rendida ao brilho destas luzes que iluminam as noites frias de Dezembro, e tiro um a um os papelinhos perfumados tentando reconhecer o cheiro dos que efectivamente comprei. Pensei em determinadas pessoas ao comprá-los, de como gostam de andar perfumadas e de como as gosto de sentir assim, logo eu que praticamente não uso perfumes. Talvez seja isto, talvez nos faça pensar nas pessoas a quem damos presentes.
~CC~

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Fazer a diferença (II)

Na escola pobre, no bairro onde viveram os meus avós, as gaivotas dipustam entre elas as migalhas no pátio onde os meninos brincaram. Vou com o director conhecer todas as salas, todas as professoras. Mas só me lembro dela. Esteve desde o início do ano a trabalhar numa salinha improvisada num vão se escada, mas nunca deixou de lado o seu sorriso e energia. Agora alugaram um contentor branco, com quatro janelas e uma promessa de ar condicionado quando vier o calor. É bom, muito bom, diz ela sem nunca perder o brilho dos olhos. Para muitos outros aquilo é uma desgraça, os meninos, os pais, tudo é uma desgraça. Para ela é matéria prima, é desafio, é saber a constuir devagarinho, sem desistência.

Diz-me que não pode vir hoje à reunião porque tem que ir finalizar o processo de adopção que iniciou há uns meses. Pergunto pela criança, e ela diz-me que não é uma criança, é uma rapariga de 16 anos. Espantou-me com a coragem de alguém que adopta uma rapariga de 16 anos quando a maioria dos casais sinaliza até aos três anos. Penso que não terá filhos, por isso tal bondade. Ela ri, tem dois rapazes já crescidos.

Sinto-me feliz com a diferença delas, aí reside a esperança.
~CC~

terça-feira, dezembro 08, 2009

Bairro

É verdade que o prédio é novo e bonito e que tem vista para a baía, para essa língua luminosa de azul de diversos cambientes pintados através da luz do céu. Vive, no entanto, entre dois bairros sociais, na parte escondida da cidade. É por isso que vejo a família cigana carregada de preto subindo a rua até ao cemitério, que me cruzo pela manhã com as velhotas de pantufas e robe que me sorriem em silêncio, e que logo cedo há gente a beber neste misto de cafés-tabernas que há em cada esquina. Os pijamas estão sempre em saldo no pronto a vestir, a loja indiana vende várias pós que juntos dão o verdadeiro caril, do mini mercado chega um cheiro a pão, e a igreja tem um cordão de luzes assim que cai a noite. Na esplanada do café, um rapaz brasileiro na casa dos vinte diz a uma portuguesa da mesma idade:

- É Natal e quero dar-te uma coisa.
- A mim? Eu não quero nada...

(a amiga que também está na mesa sorri matreiramente)

- Não tenho cá ninguém, quero dar-te uma coisa a ti.
- E a tua mãe, quando vem?
- Estou a juntar o dinheiro para ela vir, são seis meses, já fiz as contas...
(que pena não conseguir juntar a pronúncia dele nesta escrita, era doce, cantante, cheia de esperança).

Gosto tanto daqui.

(talvez nunca pare de procurar a minha casa).

~CC~

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Nas mãos da Sophia


Se a palavra começar tem sentido quando há muito devia ter começado as 300 páginas da escrita académica conducente ao grau que tornará a palavra emprego mais possível, é ali que quero começar. Tenho um ano apenas diante de mim, por isso escolho a companhia da Sophia, da inspiração das suas mãos, ali onde o mar me parece tão azul como os olhos dela.

Numa casa que há muito está à venda não há Internet nem canais variados, nem rádio, nem música. Tenho apenas os ciprestes do pequeno e velho cemitério, alguns ruídos de crianças a brincar na rua e a vista para Meia Praia, onde vejo ainda a sombra dos Indios do Zeca na espuma do mar. E imagino o som das ondas como a música que ficará registada na minha escrita, mesmo que o júri nunca a possa ouvir.

Não sei quantas vezes irei, nem quanto tempo lá passarei, desta vez será provavelmente pouco tempo mas gostava de o aumentar mais e mais. Dos ecos desse tempo poucas notas haverá aqui, escreverei, por força das circunstâncias, menos nesta ardósia. Mas virei por certo algumas vezes alimentar o caderno público dos meus tempos e modos interiores, porque quero uma clasura com janelas. E ler, e saber de vós.
~CC~

Calipolenses


Contemplava como qualquer turista tonto a beleza das laranjeiras que inundam a vila branca, pensando como é possível termos estes frutos sumarentos em pleno Inverno. Foi então que eles passaram, dois homens com cerca de cinquenta anos, um deles caminhava atrás do outro tentando seguir o seu passo apressado. E não pude evitar escutar, num tempo em que este verbo só tem conotações negativas, ainda acredito que é uma arte.

- Então homem como é que isso vai?
- Vai mal!
- Mas o que é que vai mal?
- Tudo, tudo redondamente mal
- Bebe um copo que isso passa...
- Isso já eu faço...

E depois fez-se silêncio entre eles.
~CC~

terça-feira, dezembro 01, 2009

Companhia



Ter companhia é muito mais que não estar sozinho. Na paisagem branca deste Alentejo toldado pelo frio e pela chuva é o calor que acontece quando se partilha o silêncio, a palavra e o riso. E é certo que é isso que corta a tristeza ao meio e a desmancha como uma manta de trapos.
~CC~

sexta-feira, novembro 27, 2009

Fazer a diferença

A miúda queimou dois dedos numa aula prática, e nem chamou por mim. A princípio fiquei zangada mas depois contou-me a história e percebi. Tudo o que precisava-o creme, o penso, e sobretudo a atenção e o carinho- encontrou numa auxiliar de acção educativa da escola. Era tão querida ela, mãe. E descreveu a dispensa minúscula onde guardava as coisas e onde tinha sempre um chá a fumegar que nunca tinha tempo de beber.

Apesar de não gostar nada de cortes de cabelo e afins, e sobretudo desses espaços de malvadez estética onde o pior da intimidade feminina aparece, lá tenho de ir de quando em quando. E apesar do silêncio que costumo manter, nada condizente com o ambiente geral, tive por parte dela direito a massagem no couro cabeludo e sorriso cumplice, uma harmonia que ela passava nas poucas palavras e nos dedos sem nada pedir em troca.

Em Moçambique, onde nada começava a horas e não se podia almoçar ou jantar sem demorar pelo menos duas horas, o motorista do taxi com que travámos conhecimento e que nos levava e trazia à escola, era de uma pontualidade e de uma honestidade impressionantes.

Nos dias em que está bem disposta ela sorri e chama-me professorinha e o café sabe-me melhor e o dia ganha sempre mais calor.

São as pessoas que fazem a diferença, é só quase nisso que acredito.
~CC~

quarta-feira, novembro 25, 2009

Identidades

Durante muitos anos o meu oficio, variável como ele é, tinha uma constante, tinha que se fazer com pessoas. Era como se o meu respirar tivesse que ser permanentemente alimentado por outros sopros, e foi bom, por esses trilhos conheci muitas pessoas que me ensinaram coisas, e outras a quem julgo também ter ensinado. A escrita era esse momento de estar comigo e chegava-me. Por isso a investigação nunca me apaixonou por pressentir nela esse ritual dos solitários, esse enfiamento para dentro, via-os como gente cujo saber se fazia mais no escuro e muitas vezes com real dificuldade em partilhá-lo, em trazê-lo para a luz.


No jogo das identidades, julguei durante muito tempo que os pedagogos, esses sim, eram gente como eu, e nunca hesitei quando me pediam para me classificar, era aí que queria situar-me, talvez por me terem marcado tanto alguns deles. Via-os entre o pensar e o agir, ou a fazer o pensar agir, ou a agir pensando. E sempre, como nos primórdios, rodeados de gente a quem importava escutar e falar, passeando na pólis, ao modo de Sócrates. E sempre gostei muito da escola, das aulas, e dos corredores e gabinetes, onde as conversas se podiam fazer de forma mais aprofundada. E mais ainda de ver os alunos crescer, inseridos em projectos na comunidade, confrontados com os mundos que não vão à escola. Ainda o faço, e está na forja uma entrada na Educação pela Arte.

Mas há qualquer coisa a mudar em mim, assim como o rosto se está a transformar, assim o meu eu me mostra vontades até agora desconhecidas. Este desejo de recolhimento, de silêncio, de casa. Antes um dia passado em casa era um pesadelo, só o fazia se estivesse doente. Agora vejo passar velozes as horas diante de mim enquanto as tento apanhar. E não sinto nenhum tédio, nenhum anseio por gente, nenhuma angústia por vozes. Estou comigo, mas ao mesmo tempo não estou só, não me sinto só.
~CC~

segunda-feira, novembro 23, 2009

Pequenas certezas

Está dentro de um meio sorriso uma lágrima gorda que o habita desde os tempos mais remotos, quando mal sabia que um espelho não eram duas pessoas mas apenas o reflexo de uma. Segura-a com firmeza a maior parte dos dias, a maior parte das vezes, é afinal uma parte do eu, uma lágrima bem aconchegada até pode fugir de nós a voar como uma bola de sabão cruzando o vento leve de Verão, quando volta ao seu lugar até perdeu metade do sal.

Mas há uns poucos dias que ela resolve mostrar o seu peso de chumbo, engorda até parecer que vai explodir e nessa explosão afogar todo o corpo no seu húmido cinzento. É preciso falar com ela num longo e terno diálogo, aquietá-la, empatá-la com falas mansas, piscar-lhe o olho. E quando por fim sossega, é possível ter a certeza que a vida em mim é mais feliz do que triste.

E as cegonhas rasgam os céus majestosas no crepúsculo frio, atravessando o meu horizonte na estrada do Alentejo, e tenho um pensamento bom, penso na maravilha que é um pássaro tão pesado poder voar assim.
~CC~

sexta-feira, novembro 20, 2009

Viajando sem sair do lugar



O corpo preso às muitas tarefas, procurando pôr a alma nelas, enquanto uma parte dela me foge, sempre em viagem.
~CC~

terça-feira, novembro 17, 2009

Receita

Faça assim para não se arruinar por dentro quando o mundo, os outros, e até você se conjugam em terríveis cinzentos.

Coza em lume brando uma lembrança boa, por exemplo, um momento em que fez alguém feliz, realmente feliz. Não se demore no tempo que essa felicidade durou, concentre a sua memória na luz. Guarde esse sol, esse calor e coma-o demoradamente, saboreie.

Eu faço isso contigo, com uma parte da minha memória de ti. Não penso no mal que a tua pele fez à minha, penso só no bem que a minha fez à tua.
~CC~

segunda-feira, novembro 16, 2009

Muros invisíveis

Muito boa a forma como o Pedro descreve o fim da amizade. Direi que o início é exactamente ao contrário, abrimos portas e janelas e deixamos o outro entrar, iluminados por essa luz que nos traz, jamais pensamos que um dia haverá sombras. E é pior do que com o amor, porque há muito que habituámos o amor à suspeita de uma morte possível.
~CC~

sábado, novembro 14, 2009

Do outro lado...





Com este entardecer pequenino, lembro um mundo além do meu sul, um mundo que não sinto meu, mas onde me apetece ir. E todas estas histórias à volta da queda do muro de Berlim, não me deixaram nada indiferente, antes pelo contrário. E sei também que em mim, um desejo de viagem é como uma doença que só se cura com a partida, mesmo que às vezes ela demore muito a concretizar-se. Foi assim com Praga. Agora penso muito nas termas de Budapeste, é um clássico eu sei, mas há postais que nos ocupam o imaginário, porque ele também é feito de imagens que não nascem dentro de nós.

~CC~

sexta-feira, novembro 13, 2009

Procuramos quem possa cuidar...


Pois é, um dia acontece connosco...mesmo quando pensamos que não...e muito menos que o blogue possa um meio para pedir ajuda deste tipo. Mas não faço parte de nenhuma rede social, não uso facebook, nem qualquer outro meio, pelo que o blogue é mesmo o único veículo público que possuo. Uso-o assim para procurar alguém que possa cuidar deste cachorro. Parece ter sido abandonado há muito pouco tempo porque está cuidado e é muito meigo e sociável.

Entre em contacto se estiver interessado ou se conhecer alguém que esteja

quarta-feira, novembro 11, 2009

As lágrimas públicas


Ela chorou, pela manhã, dentro do meu gabinete, soluçando baixinho, e senti-me mal porque o estatuto professor e aluno fizeram reter em mim o abraço que lhe queria ter dado. Falei-lhe baixinho e próximo, tentando mostrar quantas cores poderiam haver para além da sua dor, mas não a consegui tocar. À tarde uma outra aluna, essa desconhecida, saiu de dentro de uma aula a chorar e cruzei-me com ela sem conseguir dizer-lhe uma palavra, ainda hesitei o passo, mas mais nada. Hoje, passei numa paragem de autocarro onde uma mulher já adulta chorava sozinha sem sequer tentar tapar as lágrimas. É imensa a fragilidade das pessoas que tornam públicas as suas lágrimas, nunca lhes consigo ser indiferente, mas a maior parte das vezes não as consigo ir secar, consolar, sobretudo se as pessoas são desconhecidas. Mas aquela aflição persegue-me pelas horas dos dias.


~CC~

segunda-feira, novembro 09, 2009

Muros (III)

(Para a ~AF~...
Para o JVT, por causa das histórias tristes com um final feliz...
Para a Depp que se comove com as histórias dos outros, para que possa sempre ser assim...)

É preciso que diga que antes da casa ocupada, já tinha havido a casa velha do avô, e dentro dela o quarto escuro sem janelas. E depois, certas de que a vida nos ia correr melhor, tínhamos alugado o apartamento novo das duas assoalhadas de alcatifa (nunca tinha visto antes chão forrado assim), do qual tínhamos tido ordem de despejo, ditada pelo Tribunal, um espanto de eficácia no Portugal de 1975.

Por isso a subida do Sul para Lisboa, no limiar do início do ano lectivo de 1976, era outra aventura desta errância, desta procura de vida, depois de termos perdido a que tínhamos chamado nossa.

A casa das portas fechadas ficava num dormitório fino de Lisboa, só mais tarde vim a saber que tinha ganho um prémio de arquitectura. E a nossa rua, a dos lotes 90, era a única das casas ocupadas, o resto era um bairro normal e abastado, onde moravam muitos nomes sonantes da política e da televisão. Via-se um pouquinho do Tejo da rua dos 90´s, e de outras via-se muito Tejo. Nunca deixámos de ser os dos 90, mesmo depois do final feliz.

Um dia a primeira familia de ocupantes tirou as mobílias e levou-as para outra casa que tinham em Cascais, não faço ideia se ocupada. Mas não abriram as portas, deixaram-nas na mesma fechadas. Soube bastante depois que a sua ideia era negociar a saída, ter uma contrapartida nossa pelas chaves, ou obter alguma vantagem no dia em que os legitímos proprietários viessem tirar-nos dali. E eles chegaram de facto: os legitímos proprietários. Não tinham porém nome nem rosto, tratava-se de uma companhia de seguros. E o homem do frauque travestido de advogado bateu uma a uma cada porta do prédio ocupado, dizendo que tinham que sair. Mas as pessoas tinham decidido que a tragédia era coisa para arrumar no passado. E juntaram-se, e uniram-se, e perceberam que também elas podiam ter advogados. E a nossa esperança pela abertura das portas aumentava de dia para dia. E quando chegou a indicação da verba a dispender para o aluguer, a desistência bateu à nossa porta, era um montade impossível para nós.

Mas a casa tinha muitas assoalhadas e nós sabíamos viver em poucas, em quase nenhumas. Por isso a solução estava em cima da mesa: primeiro abrir as portas, depois enchê-las de gente. Foi assim que se abriram as portas, e passei a viver numa espécie de pensão familiar, mas essa é já uma outra história que agora não importa.

O que importa é saberes o que aconteceu naquele dia. Primeiro o som das chaves a abrir cada porta, o homem do fraque a deixar uma chave em cada fechadura. Depois dele sair, abrimos as portas e dançámos nas seis assoalhadas vazias, ou melhor, cheias de sol.

Os muros podem derrubar-se, as portas podem abrir-se.
~CC~

Muros (II)



(para ~AF~, que tanto gosta de conhecer as histórias reais da família)



Nunca poderei esquecer os muros que havia dentro de casa. Eram portas e portas fechadas à chave, e meninas que ainda éramos, espreitavámos pelos buracos da fechadura para tentar adivinhar o que ia lá dentro. Era uma casa grande, muito grande, mas nós vivíamos as quatro num único quarto, uma única casa de banho e a cozinha.

Nós agonizámos na nossa falta de espaço: duas mulheres, uma adolescente, uma criança enfiadas num único quarto onde se tinha que fazer tudo. Lembro-me dos colchões que se estendiam na hora de deitar e que era preciso tirar ao levantar, e ainda sei a cor dos cobertores que se dobravam e desdobravam a toda a hora. Tinham-nos deixado a casa cheia de portas fechadas à chave e nenhuma chave. Eram os nossos muros, os muros dolorosos da minha adolescência. E pouco podia compreender do que se passava em concreto: dizia-se em voz baixa que a casa tinha sido ocupada pelos retornados, e nós éramos já a segunda vaga da ocupação. Éramos também retornados, mas mais pobres e menos espertos, a nossa família era esse bando de quatro mulheres, duas afinal quase meninas, e não tínhamos nenhum rendimento para além de uma magra pensão pela qual a mãe lutava todos os dias, e mesmo essa estava sempre sob ameaça. Tínhamos vindo assim, na esteira de outros, ocupar casas de luxo vazias.

A família que tinha sido a primeira ocupante tinha partido deixando toda a casa fechada, um palacete cheio de muros. Todos os dias me perguntava pela razão das portas fechadas, e cedo descobri que entre os miseráveis há ainda quem seja mais miserável. Era por isso que a mãe chamava bruxa a quem se julgava proprietária de uma casa que tinha ilegalmente ocupado. E dizia-se que a ocupante tinha as salas fechadas cheias de móveis de luxo que tinha trazido da antiga colónia. Eu não sabia se era verdade, sonhava apenas com a abertura das portas. O meu mundo era todo feito de segredos, jamais poderia dizer às minhas colegas de escola como era a minha casa, e tremi de medo quando em Inglês estudámos as designações das divisões da casa e cada um devia falar das suas. Já não me lembro se faltei ou inventei uma casa à semelhança de todas as outras.

As portas fechadas da casa foram os maiores muros da minha adolescência. Era da tua idade, da idade que agora tens.
~CC~

domingo, novembro 08, 2009

Muros (I)

Foi numa noite fria e escura que o calor chegou pelos olhares mudos que se encontravam nos gestos que partiam em bocados o cinzento de décadas. Ninguém sabe bem como começou, nem quantos bocados de muro decoram as casas dos alemães, esses que moravam de um lado e do outro do muro. Se fosse hoje, seria por sms, as operadoras de TM ficariam felizes, pensariam mesmo em construir novos muros. Mas foi em 1989, no tempo em que a palavra ainda se conspirava pelas esquinas. Numa noite foi possível destruir o que numa outra noite tinha sido possível construir, mas foi na palavra destruir que dessa vez o sol quis morar. Não sabemos quanto tempo mais foi necessário para anular o medo do encontro, ou se esse medo existiu mesmo. Sabemos que a queda do muro abriu um mundo para o lado de cá e outro para o lado de lá. Não sabemos se já nos encontrámos, mas agora podemos.
~CC~

sexta-feira, novembro 06, 2009

Nas coisas mais simples (II)

Era um homem com cerca de quarenta anos, tinha o cabelo cheio de rastas, um colar com um corno prateado e uma camisola cheia de cores, estampada com a fotografia e o nome do Bob Marley. Podia imaginá-lo como traficante em qualquer esquina esconsa e propícia. Depois tirou o telemóvel do bolso e fez uma chamada. Ligava ao filho com uma voz doce e preocupada. Dizia-lhe para mandar uma mensagem ao pai assim que chegasse a casa, e terminou com um "porta-te bem" que faria qualquer um ter vontade de ser um anjo.
~CC~

quinta-feira, novembro 05, 2009

Nas coisas mais simples



Perguntei muitas e muitas vezes o que é o amor. Cansei-me muitas vezes de o perguntar. Para já não falar dos muitos choros interiores, infinitos e silenciosos.

E às vezes descobri a resposta nas coisas simples. Foi assim naquele dia em que atiraste ao rio pedrinhas por causa do meu fascínio pelos círculos que elas fazem na água. Fiquei ali à espera da pedrinha para poder fixar as marcas antes que se desfizessem para sempre.

~CC~

terça-feira, novembro 03, 2009

Processo de Influência

Os seus olhos de amigo eram tão importantes para mim. E ele comentava sempre alguma coisa em mim. Se ele dizia que aquela saia me ficava mal eu não a vestia mais, se torcia o nariz a uma cor eu já não a usava, se reprovava a minha franja eu já não gostava dela do mesmo modo. E tinha um modo frontal de sempre dizer, sempre opinar, sempre recomendar.

Então aconteceu aquilo com o vestido preto sem ombros. Ele fez-me notar que os ombros já ficavam melhor tapados do que assim à mostra, decerto que já tinham sido bonitos, mas a idade é o que é e eu não era propriamente uma mulher magra, de ombros ossudos como dita a moda. Apreciei mais uma vez a sua sinceridade, agradeci-lhe, destestei o vestido e os meus ombros.

E o vestido ficou parado no armário, mas em dia de desespero e muita pressa tirei-o e vesti-o. E fui para um jantar de amigos um bocadinho incomodada por o levar. Praticamente à chegada recebi um abraço e um comentário: os teus vestidos parecem feitos por uma modista para ti, são tão teus. Respondi-lhe: e os ombros redondinhos à mostra, será que ela não via como ficavam mal? Não, disse ela, é um vestido teu, e se é teu, faz-te bonita.

Vesti mais vezes o vestido. Não há como termos vários processos de influência.
~CC~

domingo, novembro 01, 2009

Ponto a ponto os dias

Estou sentada à mesa grande da escola, estou entre adultos, o caderno aberto para que me digam coisas. Mas eles não podem dizer nada, eles não querem estar ali. É a primeira coisa a saber numa reunião, assim conhecemos desde logo a razão do fracasso.

Há prostitutas na estrada nacional em direcção ao sul, menos que antigamente certamente. Estão agarradas aos seus telemóveis enquanto esperam no meio do nada, da estrada não lhes consigo ver os olhos nem saber se estão vazios ou cheios de sonhos.

O Homem passeia de tronco nu entre as mesas, falando alto para si próprio, na mão leva apenas a mochila e tudo o que é o seu mundo lá dentro. Não nos vê e nada sabe sobre nós, e nós nada sabemos sobre a sua loucura. Mas ele procura ver a sua imagem na montra de uma loja, procura-se. E nós também nos procuramos. Somos afinal mais iguais do que supomos.

Um dia, quando fores mais velha também vais contar as tuas histórias, diz-me ela. Diz ela depois de nos falar de quantas vezes o amor rondou por ela, quando tinha os mais belos olhos verdes das redondezas. Tenho, porém, a certeza de que agora é mais bonita do que antes, mesmo que não o saiba, não o possa saber.

A morte do amor é o adormecer da pele. Imagina uma pele sem poros, lisa, incapaz da troca. Já fiz isso comigo, matei dessa forma o amor, ou o que dele restava. Não deixes.

~CC~

Elipses felizes



Com raras excepções, é fora dos cinemas que decorre de facto a festa do cinema. Belissímo filme sobre pessoas tão iguais a nós. E um belo exemplo de como podemos ao mesmo tempo rir e chorar num jogo de espelhos que nos devolve inteiro o nosso rosto.




imagem retirada de http://www.qctop.com/actualites/upload/Premierjourdurestedetavie-76658.jpg



Nota de intenções do realizador“Quis fazer um filme com cinco personagens principais porque o que me interessava era ver como é que, no interior de uma família, uns determinam os outros. E além disso, tal permitiu-me trabalhar com longas elipses temporais. Gosto da ideia de deixar o espectador imaginar o que pode ter acontecido entre essas elipses.“
~CC~

quarta-feira, outubro 28, 2009

A tristeza


É a tristeza, uma cola pegajosa que fica na nossa pele e não sai com a água do banho. É a tristeza, um torpor que vem de dentro como um frio que nos amarra os músculos. É a tristeza, aquela cortina de fumo que nos esconde e torna feios os nossos olhos. É a tristeza, uma morte sem corpo nem doença que nos agarra quando o Outono traz assim tão cedo as noites. É a tristeza, esse não gostar de nós que nos acaba a não gostar do mundo.

Não gostar do que em mim é falha e erro, por mais humano que seja.
Não gostar de um mundo em que há um atentado sangrento no mercado como houve hoje no Paquistão.

Não gosto de ficar assim colada à tristeza.
~CC~

terça-feira, outubro 27, 2009

Saber



Os livreiros velhos que sabem o nome das árvores da cidade são um bem impossível de classificar. São como as árvores com nome que são amadas por eles.

~CC~

domingo, outubro 25, 2009

A primeira escola



Voltei lá no último Domingo e ela estava lá, quase igual. Tudo quieto, parado, silencioso como há mais de vinte anos quando cheguei na camioneta da carreira, depois de duas horas e meia de viagem. Os meninos, ainda os procurei pelas esquinas da rua, imaginando-os rapazes e raparigas com olhos ainda espantados como quando os encontrei. A serra de Montejunto ali mesmo ao lado, imponente no seu olhar de pedra. Foi este o lugar onde me tornei professora pela primeira vez, apenas uma sala, uma única sala vazia e fria onde a tristeza parecia querer espreitar em cada janela. O pátio de terra varrido pelo vento é ainda o mesmo, mas há pequenas árvores, alguma delas será a que plantámos num dia de Primavera, cantando à sua volta uma canção para embalar o seu crescimento?!


E parece que ainda hoje tenho nas mãos as rosas que eles me levaram depois da primeira semana, parece que ainda estou comovida como no primeiro dia em que tive nas mãos a chave enorme do portão da escola. Passou tanto tempo, e é verdade que ela já não sou eu e sou eu ainda, a mesma que riscava a ardósia com um bom dia escrito a giz de muitas cores.
~CC~

sexta-feira, outubro 23, 2009

Dois apontamentos de amor



Há muito que espreito curiosa as nuances do seu crescimento. Espanto-me por vezes, fico entre o orgulho e a comoção. No início do Verão foi o silêncio que nos pediu para ouvir uma reportagem que passava na rádio sobre os meninos da guerra. Durou cerca de uma hora, iniciada no carro e terminada em casa, subiu as escadas a correr para a acabar de ouvir. Foi um outro mundo que lhe bateu à porta, esse onde as crianças não vão à escola e em vez das letras, aprendem a matar. Ontem foi o discurso que o Obama fez no início do ano lectivo nos EUA, vinha entusiasmada com a leitura colectiva que estavam a programar na turma. Leu a parte dela, logo os dois primeiros parágrafos com um tom de voz bonito e emocionado. Espanto-me desde os seus primeiros passos, mas a caminhada continua a ser um espanto.

Tomava café bem cedo pela manhã quando eles surgiram no vidro amplo, enquadrados por um nevoeiro matinal que os recortava como silhuetas prontas para a fotografia. E eu tirei-a com os meus olhos. Um homem e uma mulher bonitos, na casa dos trinta anos. Vinham abraçados rindo baixinho, saindo de casa pela manhã. Saiam de casa abraçados como só os amantes fazem, prologando o amor da noite, o calor dos corpos. Vinham pela manhã com a certeza de que se amavam, de que o seu amor era aquele abraço com que entravam no café. Espantou-me a fotografia do amor pela manhã, o seu abraço cheio dele.
~CC~

quinta-feira, outubro 22, 2009

Paixão e Política

VERMELHO REDUDANTE

Eu só quero ver o instante
em que chegas à manif
no teu Armani flamejante
qual vermelha passadeira
em vermelho redundante
que empalidece a bandeira

Vou ficar a ver-te mudo
gritando slogans na rua
pela divisão da riqueza
enquanto nos gabinetes de veludo
o poder treme e recua
com medo da tua beleza

Então dou-te uma toilette
soneto de alta costura
a mais chique maravilha
para me sentir perdoado
por não poder estar a teu lado
quando tomares a Bastilha.

Carlos Tê/Jorge Palma

(é mesmo verdade que a sabes tocar?
haverá lá melhor modo de comemorar a entrada do novo governo?!)

~CC~

quarta-feira, outubro 21, 2009

Dançar na chuva


As aulas começavam tarde, já as primeiras chuvas tinham lavado as ruas. Mas as chuvadas grandes que dobravam ao meio os guarda chuvas vinham um pouco depois, normalmente no final de Outubro. E lembro bem aquele dia em que tu e eu decidimos nos molhar até aos ossos, até aos nossos cabelos compridos escorrerem gotas no cimento do pátio grande, onde ficava também a maior poça de água da escola. E dançámos no pátio, cantando uma música dos Beatles, feitas cigarras tontas, desafiando todas as leis que amarravam o nosso quotidiano suburbano.

E quando nos abraçámos rindo, lembro-me que tinhas a face gelada, ainda mais gelada que a minha, e os teus lábios roxos riam e riam. Mas o que guardo de todo esse frio é um calor imenso, e nenhum apego, antes recusa, a guarda chuvas. E também uma certa alergia a convenções, acho que ainda era capaz de dançar à chuva.
~CC~

terça-feira, outubro 20, 2009

Mar dos montes

É para o corpo que toda a tensão me foge, creio que poderia constituir com sucesso uma fonte de energia.
Então fecho os olhos e tento chegar ao mar dos montes. Há muito que ensaio manobras de teletransporte, com resultados pelo menos interessantes.
~CC~

domingo, outubro 18, 2009

Malha apertada

As imagens das pessoas à porta da fábrica, muitas vezes em silêncio, muitas vezes sem nada para dizer além dos olhos que têm para mostrar. São ainda elas, são ainda as outras, não é ainda o nosso inferno.

Mas um dia chega alguém muito próximo que nos diz que foi despedido. Há meses que conhecíamos o braço de ferro que vivia, o desalento pelo ruir de uma empresa, parte da culpa deposta numa gestão à deriva, as suas propostas todas deitadas por terra, denegridas. Depois chega outra, tão ou mais próxima que a primeira. Não aguentou a pressão diária, feita de manobras de terrorismo de escritório, muitas exaltações e gritos. Esta veio pelo seu pé em direcção a coisa nenhuma, sem direito à fila de espera no centro de emprego mais próximo de casa. No primeiro caso foram dez anos de uma vida, no segundo sete. Ninguém quererá saber, nem serão notícia.

Quando os comparo com os trabalhadores imigrantes que no Alentejo fazem agora as sementeiras por 450 euros, vivendo em casebres durante 7 dias da semana, e apenas com um de descanso, parece pequeno o seu sofrimento. Mas as quedas bruscas que geram uma nova pobreza tapada de vergonha são de uma tristeza imensa, e só com muita coragem se conseguem quebrar.

E não queremos muitas vezes ver, até que chega perto da nossa porta, e depois já lá dentro, e depois connosco. Vemos quando o inferno está próximo. É preciso então, não só a coragem dos que sofrem, mas a malha apertada dos que estão perto.

~CC~

Nota: Uma vez, estando prestes a perder o meu trabalho (já que emprego é coisa que não tenho), os meus amigos telefonavam a dizer, sempre em tom de brincadeira, o que aliviava bastante, que já estavam a fazer a rotação semanal das sopas.

sexta-feira, outubro 16, 2009

Retrato

O retrato de Dorian Gray
Oscar Wilde

(só o li no Verão 2009
ainda assim a tempo de perceber como é actual, afinal anda tanta gente perdida de si própria)

quarta-feira, outubro 14, 2009

Desistir

Ela disse-me como tinha desistido. Desistido de o amar, de o querer. Contou-me como o amor começa com um mistério. O mistério do outro ser só quem se olha nas quatro paredes de uma sala. Alguém que se olha muitos e muitos dias nas quatro paredes de uma sala. E depois o olhar já dói, a boca abre meio sorriso, e chegam as primeiras palavras. Ela contou-me que achava que ele era um cigano assimilado. Abri a boca de espanto perante tal ideia. Contou-me que começou a amá-lo porque ele era um cigano e não dizia que o era. Perguntei-lhe pelos sinas de tal pertença étnica. E ela respondeu que era o amor que ele devotava aos cavalos. E também havia os olhos muito pretos e o tom moreno da pele. Ela apaixou-se por ele a julgar que ele, além de um brilhante geógrafo, era cigano. Um cigano a esconder a sua pertença étnica, ou com as raízes cortadas. O mestrado tornou-se secundário. Os outros deixaram de existir na sala em que eles se olhavam.

Mas afinal ele não era cigano e tinha mulher, dois meninos e uma óbvia e forte ligação à família. Mas também estava apaixonado por ela. E terminava todas as frases que lhe dizia com a palavra espera. E ela percebeu que teria que esperar até os meninos terminarem os seus primeiros estudos, depois a faculdade, depois a saída de casa. Ela percebeu que tinha uma vida de espera pela frente. E percebeu também que se esticasse a corda, ele viria, deixando para trás a mulher e os meninos. E via como lhe era insuportável começar uma vida sobre a dor de outros, mesmo não os conhecendo. Acordava a meio da noite a ouvi-los chorar. E desistiu, matou lentamente aquele amor que nem corpo tinha tido.
~CC~

terça-feira, outubro 13, 2009

Sinteticamente...

Gostei da síntese que ele hoje fez da minha vida:

-Então amanhã vais entrevistar um padre sobre sexo?!

(Pois é....)

~CC~

segunda-feira, outubro 12, 2009

Verde

Queria estar aqui. Acordar no silêncio verde e húmido daquelas manhãs.
~CC~

domingo, outubro 11, 2009

Poder

Coimbra de Matos, o grande e velho Psicanalista que fala como se não nos visse à sua frente, explicava, na sessão de homenagem a um professor já falecido e em tudo diferente dos outros, que a líbido do poder é a pior das quatro, uma das que se extasia com a ascêndencia sobre os outros, um desejo de plantar desertos em vez de flores. É verdade, em si mesmo, o poder pode ser um veneno, tornar alguém um veneno.

E, no entanto, houve Nelson Mandela e há Obama. E não só, há homens e mulheres bons que chegaram ao poder. Nestas eleições autárquicas recebi pela primeira vez não um mas vários e.mail de pessoas próximas, quase amigos, que concorriam a freguesias e assembleias muncipais. Partilhei com algumas delas saborosos momentos de trabalho, sem perceber ou poder antecipar esses seus designíos políticos. Mas é verdade que eram cidadãos empenhados e muito participativos nos seus locais de trabalho, havia neles uma ânsia de fazer coisas, de transformação. Reconheço que esses seus traços eram mais do que a líbido do poder.

Há anos que trabalho com as autarquias em pequenas actividades ou em projectos de maior dimensão, pude constatar o melhor e o pior. Mas se há coisa em que acredito é nesta Democracia de maior proximidade, em podermos chegar à fala com os políticos que são responsáveis pela luz e pela recolha de lixo da nossa rua. Pela primeira vez em muitos anos marquei nos meus três boletins de voto diferentes escolhas, escolhas que não são partidárias. Conheço as pessoas que estão a concorrer, não são para mim imagens ofuscadas pelos partidos pelos quais concorrem, não são pessoas que nunca ouvi dizer nada na AR. Não quer isso dizer que esteja certa face às opções feitas, mas julgo-as melhor do que julgo deputados que estavam a concorrer às legislativas pela terra em que votamos, sem ter com ela nem com os eleitores nenhuma relação.

É verdade que temos Isaltinos e mais meia dúzia de corruptos, é verdade que a proximidade pode ser um pau de dois bicos e abafar em vez de libertar. Mas creio que toda a mudança deveria começar por aqui, por quem podemos condenar por ter feito na nossa cidade parqueamentos pagos em vez de jardins ou por ter optado por deixar cair os velhos edifícios em vez de os recuperar, por quem podemos aplaudir por ter abertos casas luminosas onde guardar e divulgar os livros e ter salvo teatros e cinemas cheios de histórias. A Democracia, a reiventar-se, e como precisa de se reinventar, deveria ser por aqui.
~CC~

sexta-feira, outubro 09, 2009

Da vida e da morte

Comenda, Outono de 2008

Hoje acordei especialmente feliz, não só por ser Sexta Feira, mas também porque nasceu há dois anos atrás um rapazinho tamanho de uma mão que contra tudo sobreviveu. Filho de uma mãe também sobrevivente de doença grave, deve ter bebido nas suas entranhas a força da vida. O facto dele estar hoje connosco é motivo de uma alegria imensa, como se com ele se tivessem fortalecido entre nós os laços que já eram fortes.


Mas logo entristeci porque morreu a mãe de uma amiga querida, alguém a quem a minha filha um dia descobriu não ser tia dela por acaso, porque sempre lhe tinha chamado assim. Arranjei mais irmãs além das duas que já tenho e esta é, de certeza, uma delas. Há dois dias tinha deixado uma mensagem comovente no post que escrevi sobre o meu Outono, com um pedido de não publicação. Agora está ali secreto cada vez que entro no blogue porque não consigo apagá-lo. A mãe dela foi uma mulher de uma enorme coragem, lutou pela vida até a morte a levar.

Então, metade de mim ficou ainda a rir com o riso do meu sobrinho mais pequenino e a outra metade ficou a chorar com a dor da minha amiga. Metade vida, metade morte.

~CC~

quarta-feira, outubro 07, 2009

O meu Outono


Celebro em cada Outono um passeio de bicicleta em grupo a um lugar abandonado na cidade. Celebro um banho de mar tardio numa praia despovoada e cheia de pequenas conchas. Celebro a doçura de um beijo ainda receoso ante a possibilidade da recusa. Celebro um MP3 colocado no meu ouvido onde ecoava o Mercador de Veneza. Celebro a estranheza das peles que se desconhecem mas não se recusam tactear, mesmo a medo. Celebro os abraços dos corpos infinitamente colados.


Celebro a coragem do encontro face ao terrível medo do encontro.

~CC~

terça-feira, outubro 06, 2009

Nascer

Sentir-me a nascer com ela no imenso Alentejo.
~CC~

segunda-feira, outubro 05, 2009

VOL

Cartoon de Luís Afonso
(É o barzinho do espaço VOL em Serpa)

Os republicanos tinham um sonho que nunca chegaram a cumprir e que a Sophia de Melo Breyner imortalizou nos seus versos:

Vemos, ouvimos e lemos
(VOL)
Não podemos ignorar

Muitos outros o têm tentado tornar realidade, abrindo lugares para amar os livros nos mais diversos cantos deste país. Um a um tenho procurado conhecê-los, num roteiro intímo marcado pela minha profunda admiração, pelos meus sonhos também. Ou, como diria Luadino Vieira, no espaço VOL, pela minha gratidão. Ele disse vezes sem conta: estou grato por terem vindo. E fiquei a pensar no homem que escondia uma alma torturada num rosto tão sereno.

~CC~

sexta-feira, outubro 02, 2009

Duas mulheres



Eram mulheres, eram bichos fêmea. E viviam em África, no sítio da terra vermelha, no lugar em que as cores se tornam todas mais intensas e a àgua quando cai nos lava inteiros. Elas vêm do fundo do tempo, de um lugar antigo cujo código ainda está inscrito em nós. Elas são um legado cujo valor ultrapassa a ciência, devia situar-se na Humanidade. Ardi e Lucy estão tão próximas de nós, vejo-as criando os seus fihotes no seio da floresta esparsa, mergulhando com eles nos ribeiros de água doce, dando-lhes afinal calor e leite, da mesma forma que as mulheres ainda hoje fazem.


Todos os homens que não amam as mulheres se deviam calar ante este legado, todos aqueles que as oprimem nos múltiplos lugares do mundo, sob formas mais selvagens ou mais subtís. O nomes de Ardi e Lucy deveriam fazer morrer todas as ofensas de séculos. E em África, elas foram descobertas na Etiópia, um dos países mais pobres do mundo. Parece que foi aí que todos nascemos, só esse milagre devia resultar em todo um outro respeito por este continente, Lucy e Ardi deviam ser um apelo urgente. Os cientistas falam dos caninos de Ardi para explicar que era uma mulher de paz, mesmo que a sua morte pareça ter ocorrido violentamente. E parece que tão pouco apoiava as mãos no chão quando caminhava, Ardi já andava erguida. Assim devia ser com todas as mulheres, assim devia ser com todo um continente.


~CC~



quinta-feira, outubro 01, 2009

Quotidiano

É verdade que deito as cartas para o lixo sem sequer as abrir, há muito que sei que são quase todas facturas de serviços vários e muita correspondência multi variada do banco, e não me interessa nada saber o que têm a dizer. E por causa disso nunca me tornei caixa azul nem rosa nem nada. E não tenho PPRs nem certificados de aforro nem qualquer investimento. É também verdade que deito fora os recibos quase todos, sem me lembrar de os guardar para o IRS, sejam eles de farmácia, de hotel ou de livros. E sou inevitavelmente enganada porque me vendem coisas quando ando no supermercardo, no intervalo das aulas, a meio do caminho para uma escola qualquer, na volta de uma viagem. Ligam-me da Toytota, do ginásio da esquina, das promoções da churrasqueira e quase todas as semanas da TV Cabo. Finjo que os oiço enquanto escolho as melhores alfaçes, faço rabiscos nos cadernos, mexo o estufado, leio entrevistas e outros materiais de trabalho. Digo sempre não.

A não ser quando digo sim porque já disse tantas e tantas vezes não que tenho pena deles e de mim. Assim venderam-me uma caixinha mágica dessas que têm mil canais e permitem andar para atrás e para a frente e depois falar sem parar de telefones fixos e fazer infinitos downloads. Quando o funcionário chegou com mais de uma hora de atraso estava mais ou menos furiosa, tinha teste de Inglês dali a pouco e estava cheia de pressa. Quando o vi nem queria acreditar na criatura de Fellini que me acontecera: umas lentes hiper graduadas que escondiam um olho para cada lado, acompanhada de algumas dificuldades de articulação e um andar muito tropêgo. E só me pedia desculpa e muita desculpa e uma chance para ficar pelo menos 10 minutos que depois voltava noutro dia: "minha senhora à hora que quiser, no dia que quiser". Ficou meia hora e voltou dois dias depois para mais uma hora de trabalho.


Ensinou-me muitas coisas no tempo que aqui passou. Ensinou-me que nunca devia ter comprado a dita caixinha porque a minha TV era tão antiga que não servia de nada ter uma coisa moderna como aquela...e que assim que pudesse devia mudar para um plasma. Ensinou-me que todas as tomadas da minha casa estavam desajustadas e cada uma tinha uma voltagem diferente. Explicou-me que a minha ligação da TV Cabo estava ligada para o andar de cima, apesar do meu ser o último. E ainda que todo o processo que os colegas tinham feito estava errado, porque ligaram aquilo como se a seguir a uma feijoada se comesse um cozido (fiquei a pensar muito nesta metáfora).


E no final disse-me que não havia muitas clientes como eu, disse "gostei mesmo da senhora" e deixou um telefone para eu ligar caso tivesse problemas com o serviço, que nem hesitasse que ele viria logo. Nunca disse o nome, mas quando ele saiu fui ver o que tinha rabiscado na folha. E lá estava o seu nome biblíco seguido de telefone. Acreditem que isto não foi um sonho nem ele era um espiríto.
~CC~