terça-feira, dezembro 01, 2009

Companhia



Ter companhia é muito mais que não estar sozinho. Na paisagem branca deste Alentejo toldado pelo frio e pela chuva é o calor que acontece quando se partilha o silêncio, a palavra e o riso. E é certo que é isso que corta a tristeza ao meio e a desmancha como uma manta de trapos.
~CC~

sexta-feira, novembro 27, 2009

Fazer a diferença

A miúda queimou dois dedos numa aula prática, e nem chamou por mim. A princípio fiquei zangada mas depois contou-me a história e percebi. Tudo o que precisava-o creme, o penso, e sobretudo a atenção e o carinho- encontrou numa auxiliar de acção educativa da escola. Era tão querida ela, mãe. E descreveu a dispensa minúscula onde guardava as coisas e onde tinha sempre um chá a fumegar que nunca tinha tempo de beber.

Apesar de não gostar nada de cortes de cabelo e afins, e sobretudo desses espaços de malvadez estética onde o pior da intimidade feminina aparece, lá tenho de ir de quando em quando. E apesar do silêncio que costumo manter, nada condizente com o ambiente geral, tive por parte dela direito a massagem no couro cabeludo e sorriso cumplice, uma harmonia que ela passava nas poucas palavras e nos dedos sem nada pedir em troca.

Em Moçambique, onde nada começava a horas e não se podia almoçar ou jantar sem demorar pelo menos duas horas, o motorista do taxi com que travámos conhecimento e que nos levava e trazia à escola, era de uma pontualidade e de uma honestidade impressionantes.

Nos dias em que está bem disposta ela sorri e chama-me professorinha e o café sabe-me melhor e o dia ganha sempre mais calor.

São as pessoas que fazem a diferença, é só quase nisso que acredito.
~CC~

quarta-feira, novembro 25, 2009

Identidades

Durante muitos anos o meu oficio, variável como ele é, tinha uma constante, tinha que se fazer com pessoas. Era como se o meu respirar tivesse que ser permanentemente alimentado por outros sopros, e foi bom, por esses trilhos conheci muitas pessoas que me ensinaram coisas, e outras a quem julgo também ter ensinado. A escrita era esse momento de estar comigo e chegava-me. Por isso a investigação nunca me apaixonou por pressentir nela esse ritual dos solitários, esse enfiamento para dentro, via-os como gente cujo saber se fazia mais no escuro e muitas vezes com real dificuldade em partilhá-lo, em trazê-lo para a luz.


No jogo das identidades, julguei durante muito tempo que os pedagogos, esses sim, eram gente como eu, e nunca hesitei quando me pediam para me classificar, era aí que queria situar-me, talvez por me terem marcado tanto alguns deles. Via-os entre o pensar e o agir, ou a fazer o pensar agir, ou a agir pensando. E sempre, como nos primórdios, rodeados de gente a quem importava escutar e falar, passeando na pólis, ao modo de Sócrates. E sempre gostei muito da escola, das aulas, e dos corredores e gabinetes, onde as conversas se podiam fazer de forma mais aprofundada. E mais ainda de ver os alunos crescer, inseridos em projectos na comunidade, confrontados com os mundos que não vão à escola. Ainda o faço, e está na forja uma entrada na Educação pela Arte.

Mas há qualquer coisa a mudar em mim, assim como o rosto se está a transformar, assim o meu eu me mostra vontades até agora desconhecidas. Este desejo de recolhimento, de silêncio, de casa. Antes um dia passado em casa era um pesadelo, só o fazia se estivesse doente. Agora vejo passar velozes as horas diante de mim enquanto as tento apanhar. E não sinto nenhum tédio, nenhum anseio por gente, nenhuma angústia por vozes. Estou comigo, mas ao mesmo tempo não estou só, não me sinto só.
~CC~

segunda-feira, novembro 23, 2009

Pequenas certezas

Está dentro de um meio sorriso uma lágrima gorda que o habita desde os tempos mais remotos, quando mal sabia que um espelho não eram duas pessoas mas apenas o reflexo de uma. Segura-a com firmeza a maior parte dos dias, a maior parte das vezes, é afinal uma parte do eu, uma lágrima bem aconchegada até pode fugir de nós a voar como uma bola de sabão cruzando o vento leve de Verão, quando volta ao seu lugar até perdeu metade do sal.

Mas há uns poucos dias que ela resolve mostrar o seu peso de chumbo, engorda até parecer que vai explodir e nessa explosão afogar todo o corpo no seu húmido cinzento. É preciso falar com ela num longo e terno diálogo, aquietá-la, empatá-la com falas mansas, piscar-lhe o olho. E quando por fim sossega, é possível ter a certeza que a vida em mim é mais feliz do que triste.

E as cegonhas rasgam os céus majestosas no crepúsculo frio, atravessando o meu horizonte na estrada do Alentejo, e tenho um pensamento bom, penso na maravilha que é um pássaro tão pesado poder voar assim.
~CC~

sexta-feira, novembro 20, 2009

Viajando sem sair do lugar



O corpo preso às muitas tarefas, procurando pôr a alma nelas, enquanto uma parte dela me foge, sempre em viagem.
~CC~

terça-feira, novembro 17, 2009

Receita

Faça assim para não se arruinar por dentro quando o mundo, os outros, e até você se conjugam em terríveis cinzentos.

Coza em lume brando uma lembrança boa, por exemplo, um momento em que fez alguém feliz, realmente feliz. Não se demore no tempo que essa felicidade durou, concentre a sua memória na luz. Guarde esse sol, esse calor e coma-o demoradamente, saboreie.

Eu faço isso contigo, com uma parte da minha memória de ti. Não penso no mal que a tua pele fez à minha, penso só no bem que a minha fez à tua.
~CC~

segunda-feira, novembro 16, 2009

Muros invisíveis

Muito boa a forma como o Pedro descreve o fim da amizade. Direi que o início é exactamente ao contrário, abrimos portas e janelas e deixamos o outro entrar, iluminados por essa luz que nos traz, jamais pensamos que um dia haverá sombras. E é pior do que com o amor, porque há muito que habituámos o amor à suspeita de uma morte possível.
~CC~

sábado, novembro 14, 2009

Do outro lado...





Com este entardecer pequenino, lembro um mundo além do meu sul, um mundo que não sinto meu, mas onde me apetece ir. E todas estas histórias à volta da queda do muro de Berlim, não me deixaram nada indiferente, antes pelo contrário. E sei também que em mim, um desejo de viagem é como uma doença que só se cura com a partida, mesmo que às vezes ela demore muito a concretizar-se. Foi assim com Praga. Agora penso muito nas termas de Budapeste, é um clássico eu sei, mas há postais que nos ocupam o imaginário, porque ele também é feito de imagens que não nascem dentro de nós.

~CC~

sexta-feira, novembro 13, 2009

Procuramos quem possa cuidar...


Pois é, um dia acontece connosco...mesmo quando pensamos que não...e muito menos que o blogue possa um meio para pedir ajuda deste tipo. Mas não faço parte de nenhuma rede social, não uso facebook, nem qualquer outro meio, pelo que o blogue é mesmo o único veículo público que possuo. Uso-o assim para procurar alguém que possa cuidar deste cachorro. Parece ter sido abandonado há muito pouco tempo porque está cuidado e é muito meigo e sociável.

Entre em contacto se estiver interessado ou se conhecer alguém que esteja

quarta-feira, novembro 11, 2009

As lágrimas públicas


Ela chorou, pela manhã, dentro do meu gabinete, soluçando baixinho, e senti-me mal porque o estatuto professor e aluno fizeram reter em mim o abraço que lhe queria ter dado. Falei-lhe baixinho e próximo, tentando mostrar quantas cores poderiam haver para além da sua dor, mas não a consegui tocar. À tarde uma outra aluna, essa desconhecida, saiu de dentro de uma aula a chorar e cruzei-me com ela sem conseguir dizer-lhe uma palavra, ainda hesitei o passo, mas mais nada. Hoje, passei numa paragem de autocarro onde uma mulher já adulta chorava sozinha sem sequer tentar tapar as lágrimas. É imensa a fragilidade das pessoas que tornam públicas as suas lágrimas, nunca lhes consigo ser indiferente, mas a maior parte das vezes não as consigo ir secar, consolar, sobretudo se as pessoas são desconhecidas. Mas aquela aflição persegue-me pelas horas dos dias.


~CC~

segunda-feira, novembro 09, 2009

Muros (III)

(Para a ~AF~...
Para o JVT, por causa das histórias tristes com um final feliz...
Para a Depp que se comove com as histórias dos outros, para que possa sempre ser assim...)

É preciso que diga que antes da casa ocupada, já tinha havido a casa velha do avô, e dentro dela o quarto escuro sem janelas. E depois, certas de que a vida nos ia correr melhor, tínhamos alugado o apartamento novo das duas assoalhadas de alcatifa (nunca tinha visto antes chão forrado assim), do qual tínhamos tido ordem de despejo, ditada pelo Tribunal, um espanto de eficácia no Portugal de 1975.

Por isso a subida do Sul para Lisboa, no limiar do início do ano lectivo de 1976, era outra aventura desta errância, desta procura de vida, depois de termos perdido a que tínhamos chamado nossa.

A casa das portas fechadas ficava num dormitório fino de Lisboa, só mais tarde vim a saber que tinha ganho um prémio de arquitectura. E a nossa rua, a dos lotes 90, era a única das casas ocupadas, o resto era um bairro normal e abastado, onde moravam muitos nomes sonantes da política e da televisão. Via-se um pouquinho do Tejo da rua dos 90´s, e de outras via-se muito Tejo. Nunca deixámos de ser os dos 90, mesmo depois do final feliz.

Um dia a primeira familia de ocupantes tirou as mobílias e levou-as para outra casa que tinham em Cascais, não faço ideia se ocupada. Mas não abriram as portas, deixaram-nas na mesma fechadas. Soube bastante depois que a sua ideia era negociar a saída, ter uma contrapartida nossa pelas chaves, ou obter alguma vantagem no dia em que os legitímos proprietários viessem tirar-nos dali. E eles chegaram de facto: os legitímos proprietários. Não tinham porém nome nem rosto, tratava-se de uma companhia de seguros. E o homem do frauque travestido de advogado bateu uma a uma cada porta do prédio ocupado, dizendo que tinham que sair. Mas as pessoas tinham decidido que a tragédia era coisa para arrumar no passado. E juntaram-se, e uniram-se, e perceberam que também elas podiam ter advogados. E a nossa esperança pela abertura das portas aumentava de dia para dia. E quando chegou a indicação da verba a dispender para o aluguer, a desistência bateu à nossa porta, era um montade impossível para nós.

Mas a casa tinha muitas assoalhadas e nós sabíamos viver em poucas, em quase nenhumas. Por isso a solução estava em cima da mesa: primeiro abrir as portas, depois enchê-las de gente. Foi assim que se abriram as portas, e passei a viver numa espécie de pensão familiar, mas essa é já uma outra história que agora não importa.

O que importa é saberes o que aconteceu naquele dia. Primeiro o som das chaves a abrir cada porta, o homem do fraque a deixar uma chave em cada fechadura. Depois dele sair, abrimos as portas e dançámos nas seis assoalhadas vazias, ou melhor, cheias de sol.

Os muros podem derrubar-se, as portas podem abrir-se.
~CC~

Muros (II)



(para ~AF~, que tanto gosta de conhecer as histórias reais da família)



Nunca poderei esquecer os muros que havia dentro de casa. Eram portas e portas fechadas à chave, e meninas que ainda éramos, espreitavámos pelos buracos da fechadura para tentar adivinhar o que ia lá dentro. Era uma casa grande, muito grande, mas nós vivíamos as quatro num único quarto, uma única casa de banho e a cozinha.

Nós agonizámos na nossa falta de espaço: duas mulheres, uma adolescente, uma criança enfiadas num único quarto onde se tinha que fazer tudo. Lembro-me dos colchões que se estendiam na hora de deitar e que era preciso tirar ao levantar, e ainda sei a cor dos cobertores que se dobravam e desdobravam a toda a hora. Tinham-nos deixado a casa cheia de portas fechadas à chave e nenhuma chave. Eram os nossos muros, os muros dolorosos da minha adolescência. E pouco podia compreender do que se passava em concreto: dizia-se em voz baixa que a casa tinha sido ocupada pelos retornados, e nós éramos já a segunda vaga da ocupação. Éramos também retornados, mas mais pobres e menos espertos, a nossa família era esse bando de quatro mulheres, duas afinal quase meninas, e não tínhamos nenhum rendimento para além de uma magra pensão pela qual a mãe lutava todos os dias, e mesmo essa estava sempre sob ameaça. Tínhamos vindo assim, na esteira de outros, ocupar casas de luxo vazias.

A família que tinha sido a primeira ocupante tinha partido deixando toda a casa fechada, um palacete cheio de muros. Todos os dias me perguntava pela razão das portas fechadas, e cedo descobri que entre os miseráveis há ainda quem seja mais miserável. Era por isso que a mãe chamava bruxa a quem se julgava proprietária de uma casa que tinha ilegalmente ocupado. E dizia-se que a ocupante tinha as salas fechadas cheias de móveis de luxo que tinha trazido da antiga colónia. Eu não sabia se era verdade, sonhava apenas com a abertura das portas. O meu mundo era todo feito de segredos, jamais poderia dizer às minhas colegas de escola como era a minha casa, e tremi de medo quando em Inglês estudámos as designações das divisões da casa e cada um devia falar das suas. Já não me lembro se faltei ou inventei uma casa à semelhança de todas as outras.

As portas fechadas da casa foram os maiores muros da minha adolescência. Era da tua idade, da idade que agora tens.
~CC~

domingo, novembro 08, 2009

Muros (I)

Foi numa noite fria e escura que o calor chegou pelos olhares mudos que se encontravam nos gestos que partiam em bocados o cinzento de décadas. Ninguém sabe bem como começou, nem quantos bocados de muro decoram as casas dos alemães, esses que moravam de um lado e do outro do muro. Se fosse hoje, seria por sms, as operadoras de TM ficariam felizes, pensariam mesmo em construir novos muros. Mas foi em 1989, no tempo em que a palavra ainda se conspirava pelas esquinas. Numa noite foi possível destruir o que numa outra noite tinha sido possível construir, mas foi na palavra destruir que dessa vez o sol quis morar. Não sabemos quanto tempo mais foi necessário para anular o medo do encontro, ou se esse medo existiu mesmo. Sabemos que a queda do muro abriu um mundo para o lado de cá e outro para o lado de lá. Não sabemos se já nos encontrámos, mas agora podemos.
~CC~

sexta-feira, novembro 06, 2009

Nas coisas mais simples (II)

Era um homem com cerca de quarenta anos, tinha o cabelo cheio de rastas, um colar com um corno prateado e uma camisola cheia de cores, estampada com a fotografia e o nome do Bob Marley. Podia imaginá-lo como traficante em qualquer esquina esconsa e propícia. Depois tirou o telemóvel do bolso e fez uma chamada. Ligava ao filho com uma voz doce e preocupada. Dizia-lhe para mandar uma mensagem ao pai assim que chegasse a casa, e terminou com um "porta-te bem" que faria qualquer um ter vontade de ser um anjo.
~CC~

quinta-feira, novembro 05, 2009

Nas coisas mais simples



Perguntei muitas e muitas vezes o que é o amor. Cansei-me muitas vezes de o perguntar. Para já não falar dos muitos choros interiores, infinitos e silenciosos.

E às vezes descobri a resposta nas coisas simples. Foi assim naquele dia em que atiraste ao rio pedrinhas por causa do meu fascínio pelos círculos que elas fazem na água. Fiquei ali à espera da pedrinha para poder fixar as marcas antes que se desfizessem para sempre.

~CC~

terça-feira, novembro 03, 2009

Processo de Influência

Os seus olhos de amigo eram tão importantes para mim. E ele comentava sempre alguma coisa em mim. Se ele dizia que aquela saia me ficava mal eu não a vestia mais, se torcia o nariz a uma cor eu já não a usava, se reprovava a minha franja eu já não gostava dela do mesmo modo. E tinha um modo frontal de sempre dizer, sempre opinar, sempre recomendar.

Então aconteceu aquilo com o vestido preto sem ombros. Ele fez-me notar que os ombros já ficavam melhor tapados do que assim à mostra, decerto que já tinham sido bonitos, mas a idade é o que é e eu não era propriamente uma mulher magra, de ombros ossudos como dita a moda. Apreciei mais uma vez a sua sinceridade, agradeci-lhe, destestei o vestido e os meus ombros.

E o vestido ficou parado no armário, mas em dia de desespero e muita pressa tirei-o e vesti-o. E fui para um jantar de amigos um bocadinho incomodada por o levar. Praticamente à chegada recebi um abraço e um comentário: os teus vestidos parecem feitos por uma modista para ti, são tão teus. Respondi-lhe: e os ombros redondinhos à mostra, será que ela não via como ficavam mal? Não, disse ela, é um vestido teu, e se é teu, faz-te bonita.

Vesti mais vezes o vestido. Não há como termos vários processos de influência.
~CC~

domingo, novembro 01, 2009

Ponto a ponto os dias

Estou sentada à mesa grande da escola, estou entre adultos, o caderno aberto para que me digam coisas. Mas eles não podem dizer nada, eles não querem estar ali. É a primeira coisa a saber numa reunião, assim conhecemos desde logo a razão do fracasso.

Há prostitutas na estrada nacional em direcção ao sul, menos que antigamente certamente. Estão agarradas aos seus telemóveis enquanto esperam no meio do nada, da estrada não lhes consigo ver os olhos nem saber se estão vazios ou cheios de sonhos.

O Homem passeia de tronco nu entre as mesas, falando alto para si próprio, na mão leva apenas a mochila e tudo o que é o seu mundo lá dentro. Não nos vê e nada sabe sobre nós, e nós nada sabemos sobre a sua loucura. Mas ele procura ver a sua imagem na montra de uma loja, procura-se. E nós também nos procuramos. Somos afinal mais iguais do que supomos.

Um dia, quando fores mais velha também vais contar as tuas histórias, diz-me ela. Diz ela depois de nos falar de quantas vezes o amor rondou por ela, quando tinha os mais belos olhos verdes das redondezas. Tenho, porém, a certeza de que agora é mais bonita do que antes, mesmo que não o saiba, não o possa saber.

A morte do amor é o adormecer da pele. Imagina uma pele sem poros, lisa, incapaz da troca. Já fiz isso comigo, matei dessa forma o amor, ou o que dele restava. Não deixes.

~CC~

Elipses felizes



Com raras excepções, é fora dos cinemas que decorre de facto a festa do cinema. Belissímo filme sobre pessoas tão iguais a nós. E um belo exemplo de como podemos ao mesmo tempo rir e chorar num jogo de espelhos que nos devolve inteiro o nosso rosto.




imagem retirada de http://www.qctop.com/actualites/upload/Premierjourdurestedetavie-76658.jpg



Nota de intenções do realizador“Quis fazer um filme com cinco personagens principais porque o que me interessava era ver como é que, no interior de uma família, uns determinam os outros. E além disso, tal permitiu-me trabalhar com longas elipses temporais. Gosto da ideia de deixar o espectador imaginar o que pode ter acontecido entre essas elipses.“
~CC~

quarta-feira, outubro 28, 2009

A tristeza


É a tristeza, uma cola pegajosa que fica na nossa pele e não sai com a água do banho. É a tristeza, um torpor que vem de dentro como um frio que nos amarra os músculos. É a tristeza, aquela cortina de fumo que nos esconde e torna feios os nossos olhos. É a tristeza, uma morte sem corpo nem doença que nos agarra quando o Outono traz assim tão cedo as noites. É a tristeza, esse não gostar de nós que nos acaba a não gostar do mundo.

Não gostar do que em mim é falha e erro, por mais humano que seja.
Não gostar de um mundo em que há um atentado sangrento no mercado como houve hoje no Paquistão.

Não gosto de ficar assim colada à tristeza.
~CC~

terça-feira, outubro 27, 2009

Saber



Os livreiros velhos que sabem o nome das árvores da cidade são um bem impossível de classificar. São como as árvores com nome que são amadas por eles.

~CC~

domingo, outubro 25, 2009

A primeira escola



Voltei lá no último Domingo e ela estava lá, quase igual. Tudo quieto, parado, silencioso como há mais de vinte anos quando cheguei na camioneta da carreira, depois de duas horas e meia de viagem. Os meninos, ainda os procurei pelas esquinas da rua, imaginando-os rapazes e raparigas com olhos ainda espantados como quando os encontrei. A serra de Montejunto ali mesmo ao lado, imponente no seu olhar de pedra. Foi este o lugar onde me tornei professora pela primeira vez, apenas uma sala, uma única sala vazia e fria onde a tristeza parecia querer espreitar em cada janela. O pátio de terra varrido pelo vento é ainda o mesmo, mas há pequenas árvores, alguma delas será a que plantámos num dia de Primavera, cantando à sua volta uma canção para embalar o seu crescimento?!


E parece que ainda hoje tenho nas mãos as rosas que eles me levaram depois da primeira semana, parece que ainda estou comovida como no primeiro dia em que tive nas mãos a chave enorme do portão da escola. Passou tanto tempo, e é verdade que ela já não sou eu e sou eu ainda, a mesma que riscava a ardósia com um bom dia escrito a giz de muitas cores.
~CC~

sexta-feira, outubro 23, 2009

Dois apontamentos de amor



Há muito que espreito curiosa as nuances do seu crescimento. Espanto-me por vezes, fico entre o orgulho e a comoção. No início do Verão foi o silêncio que nos pediu para ouvir uma reportagem que passava na rádio sobre os meninos da guerra. Durou cerca de uma hora, iniciada no carro e terminada em casa, subiu as escadas a correr para a acabar de ouvir. Foi um outro mundo que lhe bateu à porta, esse onde as crianças não vão à escola e em vez das letras, aprendem a matar. Ontem foi o discurso que o Obama fez no início do ano lectivo nos EUA, vinha entusiasmada com a leitura colectiva que estavam a programar na turma. Leu a parte dela, logo os dois primeiros parágrafos com um tom de voz bonito e emocionado. Espanto-me desde os seus primeiros passos, mas a caminhada continua a ser um espanto.

Tomava café bem cedo pela manhã quando eles surgiram no vidro amplo, enquadrados por um nevoeiro matinal que os recortava como silhuetas prontas para a fotografia. E eu tirei-a com os meus olhos. Um homem e uma mulher bonitos, na casa dos trinta anos. Vinham abraçados rindo baixinho, saindo de casa pela manhã. Saiam de casa abraçados como só os amantes fazem, prologando o amor da noite, o calor dos corpos. Vinham pela manhã com a certeza de que se amavam, de que o seu amor era aquele abraço com que entravam no café. Espantou-me a fotografia do amor pela manhã, o seu abraço cheio dele.
~CC~

quinta-feira, outubro 22, 2009

Paixão e Política

VERMELHO REDUDANTE

Eu só quero ver o instante
em que chegas à manif
no teu Armani flamejante
qual vermelha passadeira
em vermelho redundante
que empalidece a bandeira

Vou ficar a ver-te mudo
gritando slogans na rua
pela divisão da riqueza
enquanto nos gabinetes de veludo
o poder treme e recua
com medo da tua beleza

Então dou-te uma toilette
soneto de alta costura
a mais chique maravilha
para me sentir perdoado
por não poder estar a teu lado
quando tomares a Bastilha.

Carlos Tê/Jorge Palma

(é mesmo verdade que a sabes tocar?
haverá lá melhor modo de comemorar a entrada do novo governo?!)

~CC~

quarta-feira, outubro 21, 2009

Dançar na chuva


As aulas começavam tarde, já as primeiras chuvas tinham lavado as ruas. Mas as chuvadas grandes que dobravam ao meio os guarda chuvas vinham um pouco depois, normalmente no final de Outubro. E lembro bem aquele dia em que tu e eu decidimos nos molhar até aos ossos, até aos nossos cabelos compridos escorrerem gotas no cimento do pátio grande, onde ficava também a maior poça de água da escola. E dançámos no pátio, cantando uma música dos Beatles, feitas cigarras tontas, desafiando todas as leis que amarravam o nosso quotidiano suburbano.

E quando nos abraçámos rindo, lembro-me que tinhas a face gelada, ainda mais gelada que a minha, e os teus lábios roxos riam e riam. Mas o que guardo de todo esse frio é um calor imenso, e nenhum apego, antes recusa, a guarda chuvas. E também uma certa alergia a convenções, acho que ainda era capaz de dançar à chuva.
~CC~

terça-feira, outubro 20, 2009

Mar dos montes

É para o corpo que toda a tensão me foge, creio que poderia constituir com sucesso uma fonte de energia.
Então fecho os olhos e tento chegar ao mar dos montes. Há muito que ensaio manobras de teletransporte, com resultados pelo menos interessantes.
~CC~

domingo, outubro 18, 2009

Malha apertada

As imagens das pessoas à porta da fábrica, muitas vezes em silêncio, muitas vezes sem nada para dizer além dos olhos que têm para mostrar. São ainda elas, são ainda as outras, não é ainda o nosso inferno.

Mas um dia chega alguém muito próximo que nos diz que foi despedido. Há meses que conhecíamos o braço de ferro que vivia, o desalento pelo ruir de uma empresa, parte da culpa deposta numa gestão à deriva, as suas propostas todas deitadas por terra, denegridas. Depois chega outra, tão ou mais próxima que a primeira. Não aguentou a pressão diária, feita de manobras de terrorismo de escritório, muitas exaltações e gritos. Esta veio pelo seu pé em direcção a coisa nenhuma, sem direito à fila de espera no centro de emprego mais próximo de casa. No primeiro caso foram dez anos de uma vida, no segundo sete. Ninguém quererá saber, nem serão notícia.

Quando os comparo com os trabalhadores imigrantes que no Alentejo fazem agora as sementeiras por 450 euros, vivendo em casebres durante 7 dias da semana, e apenas com um de descanso, parece pequeno o seu sofrimento. Mas as quedas bruscas que geram uma nova pobreza tapada de vergonha são de uma tristeza imensa, e só com muita coragem se conseguem quebrar.

E não queremos muitas vezes ver, até que chega perto da nossa porta, e depois já lá dentro, e depois connosco. Vemos quando o inferno está próximo. É preciso então, não só a coragem dos que sofrem, mas a malha apertada dos que estão perto.

~CC~

Nota: Uma vez, estando prestes a perder o meu trabalho (já que emprego é coisa que não tenho), os meus amigos telefonavam a dizer, sempre em tom de brincadeira, o que aliviava bastante, que já estavam a fazer a rotação semanal das sopas.

sexta-feira, outubro 16, 2009

Retrato

O retrato de Dorian Gray
Oscar Wilde

(só o li no Verão 2009
ainda assim a tempo de perceber como é actual, afinal anda tanta gente perdida de si própria)

quarta-feira, outubro 14, 2009

Desistir

Ela disse-me como tinha desistido. Desistido de o amar, de o querer. Contou-me como o amor começa com um mistério. O mistério do outro ser só quem se olha nas quatro paredes de uma sala. Alguém que se olha muitos e muitos dias nas quatro paredes de uma sala. E depois o olhar já dói, a boca abre meio sorriso, e chegam as primeiras palavras. Ela contou-me que achava que ele era um cigano assimilado. Abri a boca de espanto perante tal ideia. Contou-me que começou a amá-lo porque ele era um cigano e não dizia que o era. Perguntei-lhe pelos sinas de tal pertença étnica. E ela respondeu que era o amor que ele devotava aos cavalos. E também havia os olhos muito pretos e o tom moreno da pele. Ela apaixou-se por ele a julgar que ele, além de um brilhante geógrafo, era cigano. Um cigano a esconder a sua pertença étnica, ou com as raízes cortadas. O mestrado tornou-se secundário. Os outros deixaram de existir na sala em que eles se olhavam.

Mas afinal ele não era cigano e tinha mulher, dois meninos e uma óbvia e forte ligação à família. Mas também estava apaixonado por ela. E terminava todas as frases que lhe dizia com a palavra espera. E ela percebeu que teria que esperar até os meninos terminarem os seus primeiros estudos, depois a faculdade, depois a saída de casa. Ela percebeu que tinha uma vida de espera pela frente. E percebeu também que se esticasse a corda, ele viria, deixando para trás a mulher e os meninos. E via como lhe era insuportável começar uma vida sobre a dor de outros, mesmo não os conhecendo. Acordava a meio da noite a ouvi-los chorar. E desistiu, matou lentamente aquele amor que nem corpo tinha tido.
~CC~

terça-feira, outubro 13, 2009

Sinteticamente...

Gostei da síntese que ele hoje fez da minha vida:

-Então amanhã vais entrevistar um padre sobre sexo?!

(Pois é....)

~CC~

segunda-feira, outubro 12, 2009

Verde

Queria estar aqui. Acordar no silêncio verde e húmido daquelas manhãs.
~CC~

domingo, outubro 11, 2009

Poder

Coimbra de Matos, o grande e velho Psicanalista que fala como se não nos visse à sua frente, explicava, na sessão de homenagem a um professor já falecido e em tudo diferente dos outros, que a líbido do poder é a pior das quatro, uma das que se extasia com a ascêndencia sobre os outros, um desejo de plantar desertos em vez de flores. É verdade, em si mesmo, o poder pode ser um veneno, tornar alguém um veneno.

E, no entanto, houve Nelson Mandela e há Obama. E não só, há homens e mulheres bons que chegaram ao poder. Nestas eleições autárquicas recebi pela primeira vez não um mas vários e.mail de pessoas próximas, quase amigos, que concorriam a freguesias e assembleias muncipais. Partilhei com algumas delas saborosos momentos de trabalho, sem perceber ou poder antecipar esses seus designíos políticos. Mas é verdade que eram cidadãos empenhados e muito participativos nos seus locais de trabalho, havia neles uma ânsia de fazer coisas, de transformação. Reconheço que esses seus traços eram mais do que a líbido do poder.

Há anos que trabalho com as autarquias em pequenas actividades ou em projectos de maior dimensão, pude constatar o melhor e o pior. Mas se há coisa em que acredito é nesta Democracia de maior proximidade, em podermos chegar à fala com os políticos que são responsáveis pela luz e pela recolha de lixo da nossa rua. Pela primeira vez em muitos anos marquei nos meus três boletins de voto diferentes escolhas, escolhas que não são partidárias. Conheço as pessoas que estão a concorrer, não são para mim imagens ofuscadas pelos partidos pelos quais concorrem, não são pessoas que nunca ouvi dizer nada na AR. Não quer isso dizer que esteja certa face às opções feitas, mas julgo-as melhor do que julgo deputados que estavam a concorrer às legislativas pela terra em que votamos, sem ter com ela nem com os eleitores nenhuma relação.

É verdade que temos Isaltinos e mais meia dúzia de corruptos, é verdade que a proximidade pode ser um pau de dois bicos e abafar em vez de libertar. Mas creio que toda a mudança deveria começar por aqui, por quem podemos condenar por ter feito na nossa cidade parqueamentos pagos em vez de jardins ou por ter optado por deixar cair os velhos edifícios em vez de os recuperar, por quem podemos aplaudir por ter abertos casas luminosas onde guardar e divulgar os livros e ter salvo teatros e cinemas cheios de histórias. A Democracia, a reiventar-se, e como precisa de se reinventar, deveria ser por aqui.
~CC~

sexta-feira, outubro 09, 2009

Da vida e da morte

Comenda, Outono de 2008

Hoje acordei especialmente feliz, não só por ser Sexta Feira, mas também porque nasceu há dois anos atrás um rapazinho tamanho de uma mão que contra tudo sobreviveu. Filho de uma mãe também sobrevivente de doença grave, deve ter bebido nas suas entranhas a força da vida. O facto dele estar hoje connosco é motivo de uma alegria imensa, como se com ele se tivessem fortalecido entre nós os laços que já eram fortes.


Mas logo entristeci porque morreu a mãe de uma amiga querida, alguém a quem a minha filha um dia descobriu não ser tia dela por acaso, porque sempre lhe tinha chamado assim. Arranjei mais irmãs além das duas que já tenho e esta é, de certeza, uma delas. Há dois dias tinha deixado uma mensagem comovente no post que escrevi sobre o meu Outono, com um pedido de não publicação. Agora está ali secreto cada vez que entro no blogue porque não consigo apagá-lo. A mãe dela foi uma mulher de uma enorme coragem, lutou pela vida até a morte a levar.

Então, metade de mim ficou ainda a rir com o riso do meu sobrinho mais pequenino e a outra metade ficou a chorar com a dor da minha amiga. Metade vida, metade morte.

~CC~

quarta-feira, outubro 07, 2009

O meu Outono


Celebro em cada Outono um passeio de bicicleta em grupo a um lugar abandonado na cidade. Celebro um banho de mar tardio numa praia despovoada e cheia de pequenas conchas. Celebro a doçura de um beijo ainda receoso ante a possibilidade da recusa. Celebro um MP3 colocado no meu ouvido onde ecoava o Mercador de Veneza. Celebro a estranheza das peles que se desconhecem mas não se recusam tactear, mesmo a medo. Celebro os abraços dos corpos infinitamente colados.


Celebro a coragem do encontro face ao terrível medo do encontro.

~CC~

terça-feira, outubro 06, 2009

Nascer

Sentir-me a nascer com ela no imenso Alentejo.
~CC~

segunda-feira, outubro 05, 2009

VOL

Cartoon de Luís Afonso
(É o barzinho do espaço VOL em Serpa)

Os republicanos tinham um sonho que nunca chegaram a cumprir e que a Sophia de Melo Breyner imortalizou nos seus versos:

Vemos, ouvimos e lemos
(VOL)
Não podemos ignorar

Muitos outros o têm tentado tornar realidade, abrindo lugares para amar os livros nos mais diversos cantos deste país. Um a um tenho procurado conhecê-los, num roteiro intímo marcado pela minha profunda admiração, pelos meus sonhos também. Ou, como diria Luadino Vieira, no espaço VOL, pela minha gratidão. Ele disse vezes sem conta: estou grato por terem vindo. E fiquei a pensar no homem que escondia uma alma torturada num rosto tão sereno.

~CC~

sexta-feira, outubro 02, 2009

Duas mulheres



Eram mulheres, eram bichos fêmea. E viviam em África, no sítio da terra vermelha, no lugar em que as cores se tornam todas mais intensas e a àgua quando cai nos lava inteiros. Elas vêm do fundo do tempo, de um lugar antigo cujo código ainda está inscrito em nós. Elas são um legado cujo valor ultrapassa a ciência, devia situar-se na Humanidade. Ardi e Lucy estão tão próximas de nós, vejo-as criando os seus fihotes no seio da floresta esparsa, mergulhando com eles nos ribeiros de água doce, dando-lhes afinal calor e leite, da mesma forma que as mulheres ainda hoje fazem.


Todos os homens que não amam as mulheres se deviam calar ante este legado, todos aqueles que as oprimem nos múltiplos lugares do mundo, sob formas mais selvagens ou mais subtís. O nomes de Ardi e Lucy deveriam fazer morrer todas as ofensas de séculos. E em África, elas foram descobertas na Etiópia, um dos países mais pobres do mundo. Parece que foi aí que todos nascemos, só esse milagre devia resultar em todo um outro respeito por este continente, Lucy e Ardi deviam ser um apelo urgente. Os cientistas falam dos caninos de Ardi para explicar que era uma mulher de paz, mesmo que a sua morte pareça ter ocorrido violentamente. E parece que tão pouco apoiava as mãos no chão quando caminhava, Ardi já andava erguida. Assim devia ser com todas as mulheres, assim devia ser com todo um continente.


~CC~



quinta-feira, outubro 01, 2009

Quotidiano

É verdade que deito as cartas para o lixo sem sequer as abrir, há muito que sei que são quase todas facturas de serviços vários e muita correspondência multi variada do banco, e não me interessa nada saber o que têm a dizer. E por causa disso nunca me tornei caixa azul nem rosa nem nada. E não tenho PPRs nem certificados de aforro nem qualquer investimento. É também verdade que deito fora os recibos quase todos, sem me lembrar de os guardar para o IRS, sejam eles de farmácia, de hotel ou de livros. E sou inevitavelmente enganada porque me vendem coisas quando ando no supermercardo, no intervalo das aulas, a meio do caminho para uma escola qualquer, na volta de uma viagem. Ligam-me da Toytota, do ginásio da esquina, das promoções da churrasqueira e quase todas as semanas da TV Cabo. Finjo que os oiço enquanto escolho as melhores alfaçes, faço rabiscos nos cadernos, mexo o estufado, leio entrevistas e outros materiais de trabalho. Digo sempre não.

A não ser quando digo sim porque já disse tantas e tantas vezes não que tenho pena deles e de mim. Assim venderam-me uma caixinha mágica dessas que têm mil canais e permitem andar para atrás e para a frente e depois falar sem parar de telefones fixos e fazer infinitos downloads. Quando o funcionário chegou com mais de uma hora de atraso estava mais ou menos furiosa, tinha teste de Inglês dali a pouco e estava cheia de pressa. Quando o vi nem queria acreditar na criatura de Fellini que me acontecera: umas lentes hiper graduadas que escondiam um olho para cada lado, acompanhada de algumas dificuldades de articulação e um andar muito tropêgo. E só me pedia desculpa e muita desculpa e uma chance para ficar pelo menos 10 minutos que depois voltava noutro dia: "minha senhora à hora que quiser, no dia que quiser". Ficou meia hora e voltou dois dias depois para mais uma hora de trabalho.


Ensinou-me muitas coisas no tempo que aqui passou. Ensinou-me que nunca devia ter comprado a dita caixinha porque a minha TV era tão antiga que não servia de nada ter uma coisa moderna como aquela...e que assim que pudesse devia mudar para um plasma. Ensinou-me que todas as tomadas da minha casa estavam desajustadas e cada uma tinha uma voltagem diferente. Explicou-me que a minha ligação da TV Cabo estava ligada para o andar de cima, apesar do meu ser o último. E ainda que todo o processo que os colegas tinham feito estava errado, porque ligaram aquilo como se a seguir a uma feijoada se comesse um cozido (fiquei a pensar muito nesta metáfora).


E no final disse-me que não havia muitas clientes como eu, disse "gostei mesmo da senhora" e deixou um telefone para eu ligar caso tivesse problemas com o serviço, que nem hesitasse que ele viria logo. Nunca disse o nome, mas quando ele saiu fui ver o que tinha rabiscado na folha. E lá estava o seu nome biblíco seguido de telefone. Acreditem que isto não foi um sonho nem ele era um espiríto.
~CC~

quarta-feira, setembro 30, 2009

O Senhor...

Cada um analisa e interpreta com os olhos que tem. E os meus, têm, inevitavelmente uma lente profissional. Na vida quotidiana até não sou muito assim, de andar a puxar pelo canudo para olhar para dentro das pessoas que me rodeiam. Mas com os políticos sim. Por isso há muito que o homem a que chamamos presidente me parece uma pessoa frágil. Nada de mais, muitos somos assim e cá nos aguentamos. Não temos é cargos com este peso, que exigem uma saúde mental de ferro, ou se quiserem, bons alicerces.

Há entre nós consenso quanto a esta mania de que se está a ser perseguido, quanto a esta desconfiança permanente face aos outros, quanto a este modo de se colocar no centro do mundo, quanto a este modo de agredir quando somos postos em causa. Eu bem disse que o divã do psicanalista é uma coisa que faz falta. E aí a escuta é bem vinda. Tenho, por isso um conselho, diminua o número de assessores das suas duas casas e aproveite a verba para arranjar quem o realmente o possa ajudar. A Democracia agradece.
~CC~

terça-feira, setembro 29, 2009

Três mulheres

Joana depositava no modo como arranjava cada bocadinho de si o segredo das mulheres que, não o sendo, se tornam bonitas. Mariana era mais selvagem e solta mas, no tempo em que a situo, tinha aprendido a pintar os lábios de vermelho cereja. Maria era voltada para dentro como uma concha e meio alheada do mundo, mais próxima dos bichos do que das pessoas. Aquela amizade tinha nascido sem que se lembrassem como nem porquê. Lembram-se só de que aos 30 eram intímas. Duas delas tinham casamentos falhados, por motivos diferentes. A primeira porque o marido não sabia nunca identificar o cheiro novo que ela trazia na pele. A segunda porque o marido não deixava de saber todos os cheiros de pele de todas as mulheres que com ele se cruzavam. A terceira tinha um companheiro de longa data com quem não vivia, e a sua vida fazia-se das longas viagens que programavam juntos e onde eram absurdamente felizes.


Havia muitos homens por ali naquele círculo, e muitos disponíveis. No entanto as três enamoraram-se de um rapaz silencioso, ligeiramente mais novo, cujo talento maior era a navegação solitária pelo mar. E claro, como ele não se apaixonava a não ser por sereias, mostrava-se disponível, ainda que pouco, para as três. Mas a primeira não conseguia colocar termo ao seu casamento, pois via no seu marido o melhor dos amigos. E a última não via razão nenhuma para deixar um companheiro que lhe dava os melhores intervalos da sua vida. Só a última deixou o marido infiel para se juntar ao rapaz do barco, e resistindo a todos os enjoos, viveu com ele uma vida de sal e silêncio. Teve-o sim, e as outras não. Mas depressa descobriu que o silêncio se pode tornar dor e que o sal do mar seca demasiado a pele. Já as outras mantiveram no seu coração o rapaz com os mesmos olhos claros e iluminados, aquela doçura que imaginavam um dia a desfazer-se dentro delas.

Só a amizade entre elas se foi deslaçando como uma rede impossível de coser com o afecto que tinha restado. Hoje dizem apenas um bom dia de meio sorriso quando se encontram na rua.
~CC~

segunda-feira, setembro 28, 2009

Então pós...

Gostei especialmente da ideia veiculada por um dos ministros do Governo Sombra na TSF, não sei qual, nem se era exactamente assim. Dizia um deles, talvez o Ricardo, que há na alegria da vitória apresentada por cada partido uma tristeza velada, escondida porque não pode ser pública. É nessa tristeza que reside a possibilidade, embora ténue, de cada um se poder tornar melhor. De facto, deviam mexer nessas suas feridas, como no divã do psicanalista nós mexemos com as nossas até sairmos de lá uma outra coisa.
~CC~

domingo, setembro 27, 2009

Mesmo que o amor não pague as contas


...Mesmo que o amor não pague as contas...

Gosto de palavras de ordem verdadeiramente importantes, como estas que agora se podem ler nas paredes do metro em Varsóvia.


Gruas no cais descarregam mercadorias e eu amo-te
Homens isolados caminham nas avenidas e eu amo-te
Silêncios electricos faíscam dentro das máquinas e eu amo-te
Destruição contra o caos, destruição contra o caos, e eu amo-te
Reflexos de corpos desfiguram-se nas montras e eu amo-te
Envelhecem anos no esquecimento dos armazéns e eu amo-te
Toda a cidade se destina à noite e eu amo-te.

José Luís Peixoto

Desde "Nenhum olhar" que lhe sigo atentamente as palavras.

~CC~





sexta-feira, setembro 25, 2009

Intenção

A campanha, já todos a descreveram, foi enjoativa. Nem esmiuçar os sufrágios lhe trouxe grande graça, foi apenas uma breve aragem de frescura. António Barreto descreve hoje no jornal Público os meus receios, subscrevo muito do que escreve, partilho nomeadamente o receio pela ingovernabilidade pós eleições, num tempo especialmente difícil para todos nós. E isto não é apelo a maiorias absolutas ou coisa que seja, absoluto só mesmo o amor.

Mas isto não é uma brincadeira, um país não é propriamente um tabuleiro de monopólio e a imaturidade dos partidos parece indiciá-lo.

Mas ainda assim, brincar é apenas o que me salva às vezes do desalento. Por isso me detive na recomendação do Ipsilon " Votar Pedro Costa". Sim, é o que me apetece. Votar por um país assim, de cineastas incoformistas, verdadeiros, inovadores. Votar por um país em que as pessoas não se vendam nem se comprem, em situação alguma, por coisa alguma, mesmo que esteja em risco a sua própria sobrevivência. Votar pela coragem de enfrentar barões e baronesas, desafiar os instalados, confrontar os corruptos.
~CC~

Nota: Este ano voto na cidade onde moro há cinco anos, pelo menos isso tem a frescura de uma primeira vez.

quinta-feira, setembro 24, 2009

Mais um ano lectivo

O que eu queria no início do ano lectivo? Que os olhos deles brilhassem um pouco mais. Parecem cansados de um mundo que ainda não viveram, mal sorriem. Coloco bastante luz em cada palavra, em cada desafio. Pode ser que alguma coisa se acenda dentro de alguém.
~CC~


Nota: Como tenho uma cadeira sobre Redes Sociais, embora muito mais vocacionada para as redes de solidariedade e coesão social do que para as redes sociais virtuais, perguntei-lhes se já tinham ouvido falar de "redes". Disseram que não, não faziam a menor ideia do que fosse. E eu...e então e o twiter, o facebook, o...??? Sorriram envergonhados...creio que o mundo privado não vem à escola, é território secreto...e muito menos se discute...pois ainda abriram ainda mais os olhos quando lhes disse que devíamos debater abertamente esse modo de relação com os outros.

Viagem


Que saudades de umas asas, de umas asas grandes e volumosas, de um vento enorme e doce capaz de ser uma viagem. Que saudades de um bater de coração forte, capaz de se abater sobre o quotidiano e de o abanar com a sua vertigem. Que saudades dos campos amarelos e vermelhos deslubrantes em certos Outonos, capazes de fazer da vida a essência do poema. Que saudades de mim com olhos lavados pela beleza das paisagens e das casas e a pele raspada pelas ervas aromáticas. De todas as coisas, apenas as que chegam inteiras por todos os cinco sentidos são o voo pelo laranja azul palpitante. Podia fazer da viagem a minha rotina, e das pausas esse saber que há um poiso para retornar e corações para os quais voltar. Não vi quase nada do mundo ainda, e tudo ainda queria ver. Não vi quase nada do mundo, e há tantos lugares aos quais desejo voltar. Não me vi ainda quase nada no mundo, e de tudo de mim ainda queria saber.


~CC~

terça-feira, setembro 22, 2009

Quatrocinco

Já hoje estive na praia e contei quatro e cinco ondas e mergulhei nelas os meus pés. Encontrei um seixo preto em forma de coração na areia molhada, se calhar era o meu. Estou viva e é bom.
~CC~

sábado, setembro 19, 2009

Outono

Não me apetece agora ir assim para fora de mim, ocupar o centro e as luzes, mesmo que me digas que posso sentar-me na coxia, assim sem quase ninguém dar por mim. Eles podem não dar por mim, mas eu darei por mim própria. Eu darei pela minha crónica falta de jeito para certos lugares da academia, pelo enrolar da minha língua ao falar qualquer outra que não seja a minha, pela minha inabilidade total para o fingimento, eu não poderei afirmar com certeza o lugar da ciência em mim, nem dar importância ao que faço. O que me sobrou foi apenas o gosto pelo observar do mundo, pela escuta das palavras, pelo que transparece nos olhares. O gosto por construir as narrativas cruzadas em que o saber mora apenas nas esquinas das palavras. É impossível a escrita fria, é impossível ser o que me pedem. Vou esquivando-me, morando num corredor, andando de cá para lá. E só quando sou puxada para um dos lados, é que percebo o quanto me custa.


E além do mais o Verão está a acabar e bem sabes que no Outono ainda menos me apetece sair de mim. E nesta altura, voltam inteiros os sonhos com as estações de comboio abandonadas transformadas em estações de prova de chás e estufas inglesas. Volta um eu metido em si como um búzio.
~CC~

sexta-feira, setembro 18, 2009

Abraços

É um clássico, a mulher e o homem abraçados, aninhados numa praia deserta, onde as ondas batem forte. Lá a areia é escura, o vento forte, o mar agreste. As figuras parecem muito pequenas na imensidão da natureza e como tal agarram-se mais uma à outra. Não é apenas a natureza que os assusta, também a maldade do homem que os persegue. Nada desperta mais ódio alheio do que o amor, especialmente daqueles que não o podem ou não conseguem ter.

É verdade que Abraços desfeitos corresponde ao que se espera do realizador, repete fotograma por fotograma tudo o que sabemos dele. E é previsível sim, esperamos que aconteça quase tudo o que vem a acontecer. Mas não me importei, gosto de saber com o que conto. E ele é um amor consolidado, um abraço que não me parece que algum filme possa vir a desfazer. Bonito, este filme. Ainda assim, não me parece que possa roubar do meu coração o primeiro lugar do "Fala com ela", porque a vida a vencer a morte é coisa que mais esperança me traz.
~CC~

terça-feira, setembro 15, 2009

Azul


Eu tive um sonho, desses de se ter acordado, que viveu comigo quase a vida toda. Um dia, sem dar conta, já não o tinha. Tinha-se perdido devagarinho enrolado no pó dos dias. Crescer para mim foi também arrumar alguns dos muitos sonhos que trazia.

Ontem eles falaram-me dele enquanto caminhavámos junto do estuário do rio Sado, falaram dele como se fosse possível, e sonharam-no para mim. Era de mim que falavam e das minhas histórias, das histórias que fui deixando para trás, sempre depois de qualquer coisa, quase todas inacabadas. Será que os outros sabem mais de nós do que nós próprios, ou será que com certas nuances de luz os nossos olhos se tornam transparentes até à adolescência?
~CC~

segunda-feira, setembro 14, 2009

Branco (II)

Branco deveria ser o nome do livro de Siri Hustvedt, que na verdade se intitula "Elegia para um americano". A escritora, apesar de ter identidade que sobre, figura sempre, mesmo que disfarçadamente, como mulher de Paul Auster. É um romance psicanalítico, categoria literária inexistente mas a que melhor serve a esta obra. Não é portanto fácil de ler, é preciso gostar de sombras, de sonhos, de memórias e sobretudo de ler sinais, coisas pequenas que deixam trilhos da maior importância.

Mas há muito que não lia alguma coisa que me deixasse tão inquieta e tão desperta, que tão bem falasse da ténue separação entre estar de saúde e estar louco, do bocadinho de amor e de ódio que cada um guarda, da cabeça a pensar uma coisa enquanto as palavras têm forçosamente que dizer outra. A mentira e a dúvida são como um spray corrosivo capazes de minar qualquer relação, mesmo que elas se localizem num passado distante mas, ao mesmo tempo e lado a lado, há elos, como a mão que une o irmão à irmã, que são como poeira de luz.
~CC~

domingo, setembro 13, 2009

Branco

Tenho sonhado muito por causa da trovoada. Ou melhor, ela interrompe-me o sono e por isso acordo várias vezes e lembro-me dos sonhos. A noite passada estava numa sala cheia de alunos recém entrados no Ensino Superior. Quem os recebia era uma colega minha, simpática e afável, igual ao que na realidade é. Eu estava sentada na sala como se fosse uma sombra, era o que desejava ser, ver sem que ninguém me visse. Mas a colega deu por mim e resolveu-me apresentar-me aos alunos. E eu interrompi-a histérica, dizendo que não era professora, mas sim uma aluna, eu era eternamente e sempre uma aluna. Os miúdos abafavam o riso.

Tenho que acabar rapidamente esta tese.
~CC~

sexta-feira, setembro 11, 2009

Salvações

É certo que não evitam a depressão pós férias que começa logo de manhã por ter que vestir roupa minimamente decente, mas a sua existência ajuda a gostar mais do mundo. Nem preciso de correntes para os indicar.

http://janela48.blogspot.com/
http://arspoetica-lp.blogspot.com/
http://elefante-branco.blogspot.com/

~CC~

quinta-feira, setembro 10, 2009

Crónicas das águas balneares (III) (de memória)


Não diria todos, mas muitos homens têm o estranho hábito de ficar em pé na praia. Ficam lado a lado, mais longe ou mais perto do mar, conversando com os olhos fixos nas ondas, também raramente olham uns para os outros nesses diálogos em surdina. Estes dois tinham uns vinte anos de diferença mas uma pose tão idêntica que os julguei pai e filho. O mais velho cobrava uma divída ao mais novo, tratava-se de uma renda de uma casa ou de um espaço comercial, qualquer coisa que já ia para três meses. Não alteravam a voz nem se angustiavam, havia uma frieza assustadora na entoação, claramente dissonante do conteúdo da conversa. O mais velho queria saber quando e como ia receber. O mais novo dizia que não podia prometer. O mais velho dizia que assim não podia ser, que precisava de um compromisso. O mais novo pedia mais tempo, o mais velho dizia que não podia lhe dar mais tempo. O dia não podia estar mais quente, o mar mais azul, o cenário não poderia ser menos apropriado para a guerra sem armas que ali se travava. Ao lado as mulheres pareciam as melhores amigas do mundo, riam e trocavam comentários sobre a miúda que enchia de areia o balde.

Levei o mês de Agosto a ter pesadelos com estas personagens, evidentemente com rostos conhecidos, às vezes eu própria o homem mais novo, nunca o mais velho.
~CC~

terça-feira, setembro 08, 2009

Velhos nossos

Eles adoecem-nos os nossos velhos, adoecem os nossos dias com a sua fraqueza, os seus olhos baços, as suas histórias repetidas e sempre por contar. Eles adoecem-nos com a sua memória a falhar, o seu corpo mole, o seu egocentrismo repentino. Não sabemos o que fazer deles, agora que interrompem com as suas maleitas os afazeres múltiplos da nossa idade adulta, que nos atrapalham os dias com a sua solidão, com o seu abandono. Eles querem o tempo que não temos, a atenção que já não conseguimos dar-lhes. Temos filhos ainda crianças e ainda adolescentes, e é para eles que canalizamos atenção e energias, o nosso afecto. Mas os nossos, velhos estão dentro do nosso sangue e da nossa pele, e por isso paramos para os olhar por momentos breves. Nesses momentos, nesses curtos momentos, pelos meus velhos e pelos velhos pais dos meus amigos, há lágrimas que não rolam. A tristeza seca é a pior das tristezas.
~CC~

segunda-feira, setembro 07, 2009

Vermelho (I)

Os quintais na minha vida foram-se reduzindo e agora só me sobra uma varanda. Habituei o sonho à medida do meu espaço, sem nunca deixar de sonhar com a Savana. Já não tenho a Mangueira enorme à sombra da qual cresci. Não sobra nada do quintal algarvio do meu avô, onde cada vaso tinha uma cor diferente de sardinheira, todas regadas com água da cisterna. Já não tenho os pátios enormes onde, na adolescência, as vizinhas se uniam para fazer com que as borracheiras crescessem mais do que eu. Há agora ali uns vasos com plantas ortodoxas, improváveis nos apartamentos. Tenho esperado pelo vermelho com a mesma ansiedade que espero pela Primavera que as papoilas me trazem. Os morangos silvestres deram apenas flor. Já os piri-piri cobriram-se de flores em Maio. E agora, no regresso, há duas bagas vermelhas e luzídias. É verdade que as flores eram muito mais. Mas duas bagas chegam para tornar picante o caril. Vermelho é o que preciso. Vermelho picante e vivo.
~CC~

Vermelho


~CC~

domingo, setembro 06, 2009

Grão de areia

Foi um grão de areia, parecia pequeno, inodoro e quase incolor, absolutamente incapaz de se alojar na minha pele. Mas ficou, colou-se a mim, entrou nos olhos a fazer-me lacrimejar. Parecia um nada arrumado, um tempo arquivado, uma palavra vazia. E, no entanto, desarrumou o passado, perturbou o presente, infiltrou-se no futuro.
~CC~

quarta-feira, setembro 02, 2009

Dias mais curtos

Não são só os pequeninos problemas a chegar, um a um, invandindo a luz dos dias. Não são só os primeiros telefonemas de trabalho. Não é só a campanha para as legislativas ter começado e ter de me confrontar com os políticos em passeios pela rua principal da cidade, de repende arredada da sua tranquilidade morna e doce. É, além disso, ter de me confrontar com o fim das melancias, com as bolas de berlim a aparecer na praia apenas ao fim de semana, com os dias cada vez mais curtos. É isto de ter frio mal se chega às 19h e pensar em ter de levar o casaco para sair à noite. Resta-me dizer que apesar disso o mar tem estado maravilhosamente quente e que a luz de fim de tarde sobre a Ria Formosa é ainda bela de cortar a respiração. É ainda o regresso a adiar-se nesta infinita preguiça.
~CC~

Fotograma (II)

Creio que terá sido na edicão de Sexta do Público da última semana ou talvez na de Domingo, ou talvez na semana anterior. Nas férias que já não são, mas em que as rotinas ainda não voltaram inteiramente, é difícil acertar com os dias. O que importa é que o jornalista Paulo Moura conta que uma mulher num país distante e dilacerado por conflitos vários o chamou, em plena rua, para contar a sua história. E ele que tanto desejava saber como viviam as mulheres naquele país, ligou maravilhado e expectante o seu gravador. E a mulher contava e contava e a entrevista durou dias e dias e cada vez ela contava coisas mais fascinantes mas também mais privadas. E ele mudou o rumo a todo o seu trabalho, centrando-o na história fascinante daquela mulher. E perguntou-lhe várias vezes se ela autorizava que se publicasse aquele material e ela disse sempre que sim. Dois ou três dias antes, num momento em que a reportagem já estava feita e pronta a publicar, ela ligou-lhe para anular tudo. E apesar dele lhe ter tido que era impossível anular a edição naquela fase, acabou mesmo por o fazer, dilacerado pelo medo do mal que tais revelações poderiam causar à mulher.

São também feitos dessa mesma angústia os meus dias a transcrever entrevistas ou a fazer a sua revisão. Espanto-me com o que as pessoas foram capazes de revelar e dizer, com a sua vida profissional inteira ali dita...e longos silêncios, por vezes emocionados, complicados. E quando as leio, penso logo no que virá cortado a vermelho por elas próprias no momento em que as devolver, no momento em que elas se confrontarem com o que disseram. É dramático que o que me parece mais rico e interessante é também o que é mais susceptível de auto-censura. E sinto o conflito ético, não me apetece que me roubem deste material o que nele é explosão, ruído, onda. E, no entanto, sei que tenho que o fazer. Resta-me a esperança que fiquem algumas ondinhas, não pela perturbação, pela conflitualidade, mas porque na praia há maré cheia e maré vaza e um milhar de nuances entre elas.
~CC~

domingo, agosto 30, 2009

Fotograma (I)



Não tenho mais dúvidas, os melhores filmes que vi na vida, vi-os nos ciclos de cinema dos cineclubes, nos festivais de cinema (como o FESTRÓIA) ou nas salas esconsas de velhos cinemas onde as pipocas ainda não entram (como o CHARLOT em Setúbal ou o Auditório municipal do Pinhal Novo, infelizmente quase sempre deserto ). Tirando o King por ter ainda filmes que não é possível ver em mais lado nenhum (aterrador o belissímo Home, a valer a ida a Lisboa) e o Londres por ter para mim especial significado simbólico, já quase não vou a outros cinemas.


Nessa demanda pelas margens, tenho supresas absolutamente maravilhosas como o ciclo de cinema iraniano feito pelo Cineclube de Faro no Pátio das Letras. Cinema ao ar livre, no pátio amarelo das figueiras, em noites quentes de Agosto.

A beleza foi em crescendo, começou com o primeiro filme sobre os professores que levam quadros às costas à procura de crianças que possam ensinar pelos montes e vales tortuosos de um país, em troca de umas moedas ou simplesmente de um pouco de pão (O quadro negro). Seguiu para Persepólis, ao qual levei as adolescentes, as quais se confrontaram com o que é crescer do outro lado do mundo, de um mundo duplo, onde a opressão se vive fora de casa e a liberdade se procura lá dentro. E culminou no poema absoluto que é Gabbeh, o trilho de vidas fiadas em tapetes pelo passar das estações. Calo-me no final de um filme belo, sinto que fico sem respiração, ou então apetece-me chorar. Não são as lágrimas da emoção de uma cena comovente, é outra coisa, são as lágrimas associadas à beleza contida em cada fotograma.


"Um gabbeh é como um fotograma congelado de uma parte da vida, como a página de um livro, como o troço de um hieróglifo tecido, um fragmento de um velho código.No sudeste do Irão, as tribos nómadas especializadas em tecer o gabbeh estão em vias de extinção."


Sinopse do filme no catálogo Atlanta.


~CC~


sábado, agosto 29, 2009

Recados (I)

Bom, caso o senhor não saiba, não há na arquitectura moderna uma tendência acentuada para criar nas casas de banho portas dissimuladas que escondem mini escritórios, até agora inventavam-se apenas prateleiras para colocar jornais e livros, já que muitos não passam sem a sua leitura. A escrita de notas da vida empresarial não era propriamente um costume, mas sabemos que os costumes mudam e que a arquitectura e mesmo o design de interiores tornarão tendências alguns dos novos modos de vida no quotidiano.
~CC~

terça-feira, agosto 25, 2009

Modos de voltar

Tenho os meus modos de voltar, queria ter ainda mais livres os meus modos de voltar. Posso voltar sem estar. Trago o computador para o Pátio das Letras (Faro), uma livraria muito bonita com um pátio cheio de figueiras e nespereiras e paredes pintadas de amarelo ocre. Leio os documentos em Inglês Hungaro, qualquer coisa estranha é verdade. Não menos estranha que o trabalho que ando a fazer, uma tese que começou uma coisa, agora é outra e não sei como irá acabar. Mas sei que gosto disto, que agora poderia fazer só isto, andar pelo país todo a descobrir pátios onde me pudesse abrigar a ler e a escrever. O único intervalo desta liberdade deveria ser para o amor, para amar de pele e abraços os que tanto quero.
~CC~

sábado, agosto 22, 2009

Crónicas das águas termais

Nas partes mais escuras não se vê o fundo, cheira a terra, há alfaiates pousados nas partes mais calmas. Quase não há vozes. Fica por trilhar a rota dos Laranjais e a rota do Linho, não há turismo para estas propostas. Está tudo na praia. Também pensei muito nela quando aqui fez frio e choveu. Cheira a terra, às vezes a rosas silvestres.
~CC~

quarta-feira, agosto 19, 2009

Crónicas das águas balneares (II)



A família era grande, percebi vários casais, tios e sobrinhas e pelo menos uma avó. Parecia muito comum, situada numa classe média segura, sem ameças de desemprego ou grandes fantasmas. O homem parecia um garotinho, mas alguns cabelos brancos e uma barriguinha em franco crescimento denunciavam os quarenta. Informava os presentes do seu projecto de vida: reformar-se aos 65 e ir para um país subdesenvolvido e quente. Havia mais: encontrar uma rapariga com menos 20 ou 3o com quem viver, porque nessas paragens é melhor primar pelo sexo seguro. E depois ela poderia tomar conta da casa, deixando-o livre dessas preocupações. E estando certo que ela não o amaria, haveria de lhe estar agradecida por a ter roubado a um destino de miséria. Passaria os dias debaixo de sol e a banhos em água tépida. Estava cada dia mais certo que a vida no Ocidente não interessava a ninguém.

E se a família não parecia entusiamada com o projecto também não lhe teciam qualquer crítica, sorriam meio divertidos, indecisos quanto à seriedade de tal projecto de vida. Já eu estava certa de que o seu cinismo deveria levá-lo até qualquer lugar bem gelado, de preferência antes da reforma.
~CC~

terça-feira, agosto 18, 2009

Crónicas das águas balneares

A mulher perguntou um a um aos maridos das amigas presentes debaixo dos dois chapéus de marcas de cerveja se eles já tinham olhado para outras mulheres na praia, outras para além das esposas. Um a um, uns indecisos e medrosos, outros seguros e assertivos, todos responderam afirmativamente. E então ela lamentou-se baixinho: só o meu diz que não, só o meu mente.
~CC~

segunda-feira, agosto 17, 2009

Lugar

Perdi-me duas vezes hoje na cidade onde moro, perdi duas vezes o caminho de casa. Não sei se fiquei tempo demais longe daqui ou se sou mesmo assim, se perder-me é a minha natureza.

Não sei se afinal já moro numa outra casa. Não sei se o que mais gosto na palavra morar é afinal poder ir e vir, como se a errância fosse afinal o meu lugar. Ou talvez procure saber se ficar é afinal o lugar, talvez precise saber. Ainda são verdadeiras as palavras que te disse numa noite quente: desde que perdi abruptamente a casa da minha infância, nunca mais morei em nenhuma, ou nunca mais fui de nenhuma. Ainda quero ter uma.
~CC~

quinta-feira, agosto 13, 2009

Breves (IV)

Ontem vi uma estrela cadente, riscou o ceú nocturno no espanto do meu olhar. Há cinco anos que não via uma, a última caiu-me nos olhos no Agosto quente alentejano, um tempo imenso de solidão.
~CC~

sexta-feira, agosto 07, 2009

Breves com destinatário (III)

Em Agosto, em 1972 em Luanda, parte dos nossos dias eram gastos a olhar peça a peça o enxoval maravilhoso que tinhas ganho. Nunca nenhum de nós tinha tido aquelas roupas tão alvas e rendadas, coisas de uma pequena princesa. Diziam-me muitas vezes que por tu nasceres eu deixaria de ser alvo de atenção: deixas de ser a pequenina. Não sentia nenhum ciúme, e por isso aquelas palavras eram estranhas ao meu coração, sempre foram. No meio da tempestade, da penúria, da desagregação, tu eras a pequena princesa que chegava, uma pequena luz. E é assim, que mesmo no escuro dos dias, te deves sempre sentir, tal e qual como chegaste aos nossos corações.
~CC~

segunda-feira, agosto 03, 2009

Breves (II)

Procuramos o laranja para a parede. O Verão está cheio de trabalhos outros, tão intensos que o corpo moído adormece rápido no lençol quente. Era suposto descansar, era suposto. Mas espreita a tinta desbotada da parede e a sala parece triste, incombinável com a alegria dos dias de sol. Ela é de repente um passado que me aprisona.

Havia um laranja no crepúsculo em África que era único no seu pastel escuro e intenso, é isso que procuro, como quem procura toda a sua infância para a trazer para uma parede. E ele procura um laranja luminoso, tom ocre do Mediterrâneo, talvez uma vida outra que viveu. Ou um futuro, talvez procure a luz de um futuro, o que está ainda por acontecer.


Custa quase tanto encontrar o laranja certo para a parede branca como custa construir o amor. Está uma pincelada na parede branca e gosto daquela cor ocre. Talvez exista um laranja Mediterrâneo dentro de mim e eu o desconheça.
~CC~

domingo, agosto 02, 2009

Breves (I)

Poucas vezes tenho a certeza que estou feliz, que estou mesmo feliz. Essa memória, mesmo que seja a de ontem, está quase invariavelmente ligada ao mar, à entrada na água salgada. E é preciso que seja Verão, no Inverno o mar é belo, mas não costuma invadir-me a pele.
~CC~

quinta-feira, julho 16, 2009

Abraçar a brisa quente



Os meninos faziam grandes covas na areia, um bocadinho longe do mar, não obstante ser mar manso, capaz de inundar sem destruir. E esperavam e desesperavam pela ordem de entrada nas pequeninas ondas, presos do mito da digestão. Mais à frente um grupo, com idades entre os três e os cinco, atribuia namoradas como quem tira rifas, e todos riam do visado, como se ter namorada fosse a maior das bençãos mas também a maior das vergonhas. E um menino solitário trazia pela mão uma boneca a quem dava banho no maior dos cuidados, um menino diferente de todos os outros.


Mulheres e homens parados à beira mar, em grupo conversando ou sozinhos, arrepiavam-se pelo frio da água, mas não desistiam de mais uma tentativa para entrar. Que magia tem um banho de mar?


Duas adolescentes passam rente à espuma rumo a um passeio até ao molhe mais adiante, são bonitas, mas uma delas é mais gordinha e tem mais curvas e curiosamente é para ela que os rapazes mais olham. No café reparo numa ainda mais gorda, para essa ninguém olha, mas não sei se ela se importa, deleitada que está com o seu gelado. Ao lado dela o irmão mal se distingue do liquído do calippo morango que o cobre.


Esqueci-me do meu livro no banco de pedra onde me sentei a calçar os chinelos, volto atrás um pouco depois e o livro lá permanece, ninguém quer livros, muito menos usados. Conto à minha filha sobre o meu projecto com os livros usados e ela abana a cabeça num talvez que não mata a minha esperança.


Este tempo é agora tempo outro, tempo de ler e tempo de ver, ver para dentro e fora de mim. Tempo de parar, suspender a respiração para abraçar toda a brisa quente que correr para mim.


Até mais tarde.


~CC~

quarta-feira, julho 15, 2009

Reciclagem

M - Filha, estou doente hoje só de pensar na reunião de condomínio!
F - Não vás...
M- Então isso é assim, tenho responsabilidades a que não posso fugir...o que faria depois com a minha culpa?
F - Deitavas no ecoponto! :))) (riu-se muito).

(ora inventem lá um ecoponto com uma cor boa para reciclar culpas)

~CC~
+
~AF~ (13 anos)

Cinzas

Por legado paterno chegou a leitura dos sinais ocultos nos olhos, nas mãos, nas folhas do chá, em certos desenhos do céu. Mas fui má aprendiz, nunca acreditei o suficiente e por isso não treinei suficientemente o nariz para o odor a enxofre e outros sinais do mal. Ao bem sou mais sensível, sinto paz na sua presença e esse é o inequívoco sinal da confiança.

Pensava saber distinguir bem a mentira da verdade, as pessoas boas das más, o amor do ódio. E se nada quase resta dessa ideia de mundo, nem dos feitiços e magia que assombraram a minha adolescência (Borges e Garcia Marques elevados aos píncaros....), sobraram certas palavras que me ocorrem para designar factos. Por exemplo maldição, serve perfeitamente para designar um amor já morto mas agarrado a nós como uma lapa, um amor que já nem dói mas se afigura ainda como um luto interminável. Maldição, já não é sequer a pessoa em si, mas a memória do desastre que aquele encontro significou nas nossas vidas. É a certeza de que o que nos trouxe de mau foi tão incomparavelmente menor face ao que nos trouxe de bom, que um salto ao passado com uma borracha de apagar certos olhares no momento certo seria um acto inteligente. Maldição é o que não devia, nunca devia ter acontecido.


Costuma ajudar de trocar de cidade, de emprego, de amigos, até já nada nem ninguém nos poder evocar aquela memória e podermos finalmente respirar um dia realmente azul, realmente limpo. Mas nem sempre o podemos fazer, nem sempre. É preciso viver com uma dor que já não dói, com lágrimas que já não correm, com um coração que não bate vermelho ao ver o outro mas bate cinza. Um coração a bater cinza é uma coisa realmente triste.

E também nos dizem que tudo passa nos braços de um outro amor, mas não é assim, uma pessoa não serve para esquecer outra, um amor não leva o outro. Um novo amor é felizmente uma outra coisa, uma coisa que nada tem a ver com a que passou. È outro acordar, outra forma de beijar, é um dia claro e luminoso por si mesmo.
~CC~

segunda-feira, julho 13, 2009

Um desenho


Foi no Domingo que passei por ela, pela escola pequenina, duas salas onde o som do mar talvez se pudesse ouvir ainda.

Olhei-a e olhei-me vinte anos atrás, no espelho do carro bailaram os sonhos que tinha nessa altura. Imaginava-me professora primária numa escola de duas ou três salas, com um grande pátio e árvores a trazerem a sombra que precisaríamos para as conversas sentados em roda. Imaginava-me a envelhecer a educar os filhos dos pais que também tinham sido meus alunos. E nos meus tempos livres imaginava-me a fazer um trabalho comunitário em prol das artes, quaisquer que elas fossem. Não queria nada mais do que o que imaginava ser um mundo de paz, longe da ribalta, do tumulto, da erosão das pessoas e das coisas. Tinha, sempre tive afinal, essa ideia de proteger-me de alguma ameaça a que nunca soube dar nome, mas que habitará talvez um tempo que de tão primordial me está oculto.

E não foi nada disso que tive, não consegui nunca essa paz, esse adormecimento feliz entre jardins de cheiros e meninos de bibe, nunca cheguei sequer a ser propriamente uma professora primária, nos poucos anos em que o fui, era sempre isso e uma outra coisa.

Nem sei se há ainda essas escolas, essas vilas, essas aldeias. No outro dia contaram-me histórias de violência em terra de cavalos e touradas, monstros que habitavam as searas de milho e de melão onde eu imaginava histórias de encantar. O lugar que habito parece ser na sua aparência branca e soalheira também um lugar de paz e, no entanto, é um espaço habitado por tantas e tantas sombras.

Nada do meu percurso foi desenhado, planeado, sequer antevisto. É talvez por isso que espero ainda uma surpresa qualquer, um vento maior e doce.
~CC~

sexta-feira, julho 10, 2009

quinta-feira, julho 09, 2009

Os vírus globais


Há algum tempo que os vírus globais eram reais, mas ainda assim mais valia assobiar para o lado, e quanto mais eles viajassem para países pobres, melhor dormíamos. Foi assim com a SIDA.

Sabíamos que os vírus são capazes de cruzar fronteiras com a mesma facilidade com que antigamente os miúdos saltavam ao eixo. E agora respiramos medo e hesitamos entre nos barricarmos em casa cheios de latas de comida até que tudo passe, ou viajar directamente para o coração do risco, pensando que quanto mais depressa melhor e até há quem já faça contas à vida pensando que antes agora do que no Inverno. E até há quem, na melhor linha das conspirações ocultas, ache que ele nasceu no laboratório e foi devidamente encaminhado para vender muito antiviral.

Lá se vai a nossa racionalidade, presa frágil de um bicharoco devidamente baptizado. Pensavámos que isto da gripe fazer morrer gente era coisa da Idade Média e não da Era Tecnológica, e acontece-nos esta loucura.

Se conseguirmos conter essa loucura poderemos talvez superar isto, mas se não conseguirmos, tudo poderá descambar, a começar no que mais atemoriza todos em tempo de esperança: a crise económica a persistir. Lavem muito as mãos é o que nos dizem, como sempre a Saúde Pública a evidenciar que tudo reside na higiene. Mas há outra higiene com a qual ninguém se preocupa: a fragilidade mental do ser humano. E eu diria que é aí que tudo reside.
~CC~

terça-feira, julho 07, 2009

O tempo

A filha levou-a por arrasto, zangando-se com ela: mãe, não pode passar tanto tempo sem fazer as sobrancelhas! E ela lá foi dizendo que aos 65 anos isso importa já tão pouco, muito menos quando se mora numa aldeia e só se vê dias a fio o marido, já tão ou mais velho que ela. E é assim que se chega a velho, com esse cansaço interior de quem já não quer saber do estado do corpo, deixando crescer o cabelo, as sobrancelhas, as unhas, numa espécie de desconcerto que talvez não seja mais do que paz interior ou desencontro com as exigências do mundo.

Tive uma avó assim, enfiada dias a fio numa bata, com o cabelo despenteado e uma dentadura que raramente usava, abandonada para o mundo por uma solidão só dela. Não podia amá-la assim daquele modo como criança que era, envergonhava-me dela. E tenho uma mãe inteiramente diferente da mãe que foi a dela, aos 80 ela arranja-se mais do que eu alguma vez me arranjei, faz ainda a sua própria roupa por achar que nada lhe fica melhor do que o que sai das suas mãos. Nunca sai de casa sem pintar os lábios.

E olho às vezes o meu corpo a envelhecer, a pele perdendo o brilho, os músculos a perder a força, certas partes que parecem inevitavelmente mais redondas. Hesito. Por um lado é verdade que sem recorrer a operações estéticas apetecia-me aqui e ali estancar aquele processo de mudança, como se a sedução residisse verdadeiramente no número de rugas, nas partes flácidas, na firmeza do peito, no volume das ancas e todos os discursos que o negam não fossem mais do que engano. Por outro, sinto que poderei ao envelhecer concentrar-me no essencial, deixando o corpo entregar-se ao seu destino e que toda a sedução será já uma outra coisa, outro modo de ser, sinto que finalmente poderei estar em paz e gostar de mim como nunca gostei. Escreve-se muito sobre o amor, pouco sobre o modo como muda a forma como amamos e o que nos atrai no outro à medida que envelhecemos.

Lembro-me da Marguerite Duras que foi uma mulher bonita e que depois abraçou com paixão a velhice, era volumosa, cheia de rugas e usava uns óculos muito grossos. E ainda assim eu achava-a apaixonante, mas ela tinha o dom de ser rara. Vejo-me entre a minha avó abandonada ao esvair do tempo e a minha mãe lutando sempre contra o que o tempo roubou. Não me revejo em nenhuma delas.
~CC~

segunda-feira, julho 06, 2009

Desejo

Absorver o som das ondas e enrolar-me silenciosamente em mim como um búzio.
~CC~

sexta-feira, julho 03, 2009

Elas voam



Dizes que escrevo coisas tristes, talvez seja verdade. Mas necessito de escrever coisas tristes, partem delas borboletas azuis e quando elas voam espalham no vento a mágoa e bebem do céu a esperança, e quando poisam, já estão a sorrir.


~CC~

quinta-feira, julho 02, 2009

Semelhante

Pensava no seu corpo magro a lançar-se no espaço, alguma coisa que nunca fui e alguma coisa que nunca soube fazer. Pensava no seu cabelo apanhado e no modo como o meu, na sua lisura, se rebela quando o tento segurar. Pensava nos seus olhos grandes e espantados, dois bugalhos de luz, e no modo como os meus preferem baixar-se tantas vezes. Pensava no país que era o dela e que nunca gostaria que fosse o meu. Pensava no modo tranquilo como parecia viver sob os holofotes, coisa que me assustaria imenso. Pensava na sua morte, nas palavras que todos escreveriam sobre ela. E como durante todo este tempo apenas tinha visto um espectáculo seu, e dele guardava tão pouca memória. E foram as palavras dele* que criaram sentido para a tristeza que sem muita razão eu sentia, afinal ela fazia dançar o medo. Tinham sido essas as palavras de Pina Bausch para explicar a vontade maior de movimento e mais movimento. Era isso o que nos assemelhava, o que unia as nossas vidas, o que tornava para mim tão triste a sua partida. Artistas partem todos os dias e são magníficos. Mas havia qualquer coisa que para mim era especial nela.

São vidas de fazer dançar o medo, toda a vida, toda.

* Fernando Alves, nos seus sinais na TSF.