Durante muitos anos o meu oficio, variável como ele é, tinha uma constante, tinha que se fazer com pessoas. Era como se o meu respirar tivesse que ser permanentemente alimentado por outros sopros, e foi bom, por esses trilhos conheci muitas pessoas que me ensinaram coisas, e outras a quem julgo também ter ensinado. A escrita era esse momento de estar comigo e chegava-me. Por isso a investigação nunca me apaixonou por pressentir nela esse ritual dos solitários, esse enfiamento para dentro, via-os como gente cujo saber se fazia mais no escuro e muitas vezes com real dificuldade em partilhá-lo, em trazê-lo para a luz.
No jogo das identidades, julguei durante muito tempo que os pedagogos, esses sim, eram gente como eu, e nunca hesitei quando me pediam para me classificar, era aí que queria situar-me, talvez por me terem marcado tanto alguns deles. Via-os entre o pensar e o agir, ou a fazer o pensar agir, ou a agir pensando. E sempre, como nos primórdios, rodeados de gente a quem importava escutar e falar, passeando na pólis, ao modo de Sócrates. E sempre gostei muito da escola, das aulas, e dos corredores e gabinetes, onde as conversas se podiam fazer de forma mais aprofundada. E mais ainda de ver os alunos crescer, inseridos em projectos na comunidade, confrontados com os mundos que não vão à escola. Ainda o faço, e está na forja uma entrada na Educação pela Arte.
Mas há qualquer coisa a mudar em mim, assim como o rosto se está a transformar, assim o meu eu me mostra vontades até agora desconhecidas. Este desejo de recolhimento, de silêncio, de casa. Antes um dia passado em casa era um pesadelo, só o fazia se estivesse doente. Agora vejo passar velozes as horas diante de mim enquanto as tento apanhar. E não sinto nenhum tédio, nenhum anseio por gente, nenhuma angústia por vozes. Estou comigo, mas ao mesmo tempo não estou só, não me sinto só.
~CC~
+c%C3%A3o+perdido.jpg)


