quarta-feira, setembro 02, 2009

Fotograma (II)

Creio que terá sido na edicão de Sexta do Público da última semana ou talvez na de Domingo, ou talvez na semana anterior. Nas férias que já não são, mas em que as rotinas ainda não voltaram inteiramente, é difícil acertar com os dias. O que importa é que o jornalista Paulo Moura conta que uma mulher num país distante e dilacerado por conflitos vários o chamou, em plena rua, para contar a sua história. E ele que tanto desejava saber como viviam as mulheres naquele país, ligou maravilhado e expectante o seu gravador. E a mulher contava e contava e a entrevista durou dias e dias e cada vez ela contava coisas mais fascinantes mas também mais privadas. E ele mudou o rumo a todo o seu trabalho, centrando-o na história fascinante daquela mulher. E perguntou-lhe várias vezes se ela autorizava que se publicasse aquele material e ela disse sempre que sim. Dois ou três dias antes, num momento em que a reportagem já estava feita e pronta a publicar, ela ligou-lhe para anular tudo. E apesar dele lhe ter tido que era impossível anular a edição naquela fase, acabou mesmo por o fazer, dilacerado pelo medo do mal que tais revelações poderiam causar à mulher.

São também feitos dessa mesma angústia os meus dias a transcrever entrevistas ou a fazer a sua revisão. Espanto-me com o que as pessoas foram capazes de revelar e dizer, com a sua vida profissional inteira ali dita...e longos silêncios, por vezes emocionados, complicados. E quando as leio, penso logo no que virá cortado a vermelho por elas próprias no momento em que as devolver, no momento em que elas se confrontarem com o que disseram. É dramático que o que me parece mais rico e interessante é também o que é mais susceptível de auto-censura. E sinto o conflito ético, não me apetece que me roubem deste material o que nele é explosão, ruído, onda. E, no entanto, sei que tenho que o fazer. Resta-me a esperança que fiquem algumas ondinhas, não pela perturbação, pela conflitualidade, mas porque na praia há maré cheia e maré vaza e um milhar de nuances entre elas.
~CC~

domingo, agosto 30, 2009

Fotograma (I)



Não tenho mais dúvidas, os melhores filmes que vi na vida, vi-os nos ciclos de cinema dos cineclubes, nos festivais de cinema (como o FESTRÓIA) ou nas salas esconsas de velhos cinemas onde as pipocas ainda não entram (como o CHARLOT em Setúbal ou o Auditório municipal do Pinhal Novo, infelizmente quase sempre deserto ). Tirando o King por ter ainda filmes que não é possível ver em mais lado nenhum (aterrador o belissímo Home, a valer a ida a Lisboa) e o Londres por ter para mim especial significado simbólico, já quase não vou a outros cinemas.


Nessa demanda pelas margens, tenho supresas absolutamente maravilhosas como o ciclo de cinema iraniano feito pelo Cineclube de Faro no Pátio das Letras. Cinema ao ar livre, no pátio amarelo das figueiras, em noites quentes de Agosto.

A beleza foi em crescendo, começou com o primeiro filme sobre os professores que levam quadros às costas à procura de crianças que possam ensinar pelos montes e vales tortuosos de um país, em troca de umas moedas ou simplesmente de um pouco de pão (O quadro negro). Seguiu para Persepólis, ao qual levei as adolescentes, as quais se confrontaram com o que é crescer do outro lado do mundo, de um mundo duplo, onde a opressão se vive fora de casa e a liberdade se procura lá dentro. E culminou no poema absoluto que é Gabbeh, o trilho de vidas fiadas em tapetes pelo passar das estações. Calo-me no final de um filme belo, sinto que fico sem respiração, ou então apetece-me chorar. Não são as lágrimas da emoção de uma cena comovente, é outra coisa, são as lágrimas associadas à beleza contida em cada fotograma.


"Um gabbeh é como um fotograma congelado de uma parte da vida, como a página de um livro, como o troço de um hieróglifo tecido, um fragmento de um velho código.No sudeste do Irão, as tribos nómadas especializadas em tecer o gabbeh estão em vias de extinção."


Sinopse do filme no catálogo Atlanta.


~CC~


sábado, agosto 29, 2009

Recados (I)

Bom, caso o senhor não saiba, não há na arquitectura moderna uma tendência acentuada para criar nas casas de banho portas dissimuladas que escondem mini escritórios, até agora inventavam-se apenas prateleiras para colocar jornais e livros, já que muitos não passam sem a sua leitura. A escrita de notas da vida empresarial não era propriamente um costume, mas sabemos que os costumes mudam e que a arquitectura e mesmo o design de interiores tornarão tendências alguns dos novos modos de vida no quotidiano.
~CC~

terça-feira, agosto 25, 2009

Modos de voltar

Tenho os meus modos de voltar, queria ter ainda mais livres os meus modos de voltar. Posso voltar sem estar. Trago o computador para o Pátio das Letras (Faro), uma livraria muito bonita com um pátio cheio de figueiras e nespereiras e paredes pintadas de amarelo ocre. Leio os documentos em Inglês Hungaro, qualquer coisa estranha é verdade. Não menos estranha que o trabalho que ando a fazer, uma tese que começou uma coisa, agora é outra e não sei como irá acabar. Mas sei que gosto disto, que agora poderia fazer só isto, andar pelo país todo a descobrir pátios onde me pudesse abrigar a ler e a escrever. O único intervalo desta liberdade deveria ser para o amor, para amar de pele e abraços os que tanto quero.
~CC~

sábado, agosto 22, 2009

Crónicas das águas termais

Nas partes mais escuras não se vê o fundo, cheira a terra, há alfaiates pousados nas partes mais calmas. Quase não há vozes. Fica por trilhar a rota dos Laranjais e a rota do Linho, não há turismo para estas propostas. Está tudo na praia. Também pensei muito nela quando aqui fez frio e choveu. Cheira a terra, às vezes a rosas silvestres.
~CC~

quarta-feira, agosto 19, 2009

Crónicas das águas balneares (II)



A família era grande, percebi vários casais, tios e sobrinhas e pelo menos uma avó. Parecia muito comum, situada numa classe média segura, sem ameças de desemprego ou grandes fantasmas. O homem parecia um garotinho, mas alguns cabelos brancos e uma barriguinha em franco crescimento denunciavam os quarenta. Informava os presentes do seu projecto de vida: reformar-se aos 65 e ir para um país subdesenvolvido e quente. Havia mais: encontrar uma rapariga com menos 20 ou 3o com quem viver, porque nessas paragens é melhor primar pelo sexo seguro. E depois ela poderia tomar conta da casa, deixando-o livre dessas preocupações. E estando certo que ela não o amaria, haveria de lhe estar agradecida por a ter roubado a um destino de miséria. Passaria os dias debaixo de sol e a banhos em água tépida. Estava cada dia mais certo que a vida no Ocidente não interessava a ninguém.

E se a família não parecia entusiamada com o projecto também não lhe teciam qualquer crítica, sorriam meio divertidos, indecisos quanto à seriedade de tal projecto de vida. Já eu estava certa de que o seu cinismo deveria levá-lo até qualquer lugar bem gelado, de preferência antes da reforma.
~CC~

terça-feira, agosto 18, 2009

Crónicas das águas balneares

A mulher perguntou um a um aos maridos das amigas presentes debaixo dos dois chapéus de marcas de cerveja se eles já tinham olhado para outras mulheres na praia, outras para além das esposas. Um a um, uns indecisos e medrosos, outros seguros e assertivos, todos responderam afirmativamente. E então ela lamentou-se baixinho: só o meu diz que não, só o meu mente.
~CC~

segunda-feira, agosto 17, 2009

Lugar

Perdi-me duas vezes hoje na cidade onde moro, perdi duas vezes o caminho de casa. Não sei se fiquei tempo demais longe daqui ou se sou mesmo assim, se perder-me é a minha natureza.

Não sei se afinal já moro numa outra casa. Não sei se o que mais gosto na palavra morar é afinal poder ir e vir, como se a errância fosse afinal o meu lugar. Ou talvez procure saber se ficar é afinal o lugar, talvez precise saber. Ainda são verdadeiras as palavras que te disse numa noite quente: desde que perdi abruptamente a casa da minha infância, nunca mais morei em nenhuma, ou nunca mais fui de nenhuma. Ainda quero ter uma.
~CC~

quinta-feira, agosto 13, 2009

Breves (IV)

Ontem vi uma estrela cadente, riscou o ceú nocturno no espanto do meu olhar. Há cinco anos que não via uma, a última caiu-me nos olhos no Agosto quente alentejano, um tempo imenso de solidão.
~CC~

sexta-feira, agosto 07, 2009

Breves com destinatário (III)

Em Agosto, em 1972 em Luanda, parte dos nossos dias eram gastos a olhar peça a peça o enxoval maravilhoso que tinhas ganho. Nunca nenhum de nós tinha tido aquelas roupas tão alvas e rendadas, coisas de uma pequena princesa. Diziam-me muitas vezes que por tu nasceres eu deixaria de ser alvo de atenção: deixas de ser a pequenina. Não sentia nenhum ciúme, e por isso aquelas palavras eram estranhas ao meu coração, sempre foram. No meio da tempestade, da penúria, da desagregação, tu eras a pequena princesa que chegava, uma pequena luz. E é assim, que mesmo no escuro dos dias, te deves sempre sentir, tal e qual como chegaste aos nossos corações.
~CC~

segunda-feira, agosto 03, 2009

Breves (II)

Procuramos o laranja para a parede. O Verão está cheio de trabalhos outros, tão intensos que o corpo moído adormece rápido no lençol quente. Era suposto descansar, era suposto. Mas espreita a tinta desbotada da parede e a sala parece triste, incombinável com a alegria dos dias de sol. Ela é de repente um passado que me aprisona.

Havia um laranja no crepúsculo em África que era único no seu pastel escuro e intenso, é isso que procuro, como quem procura toda a sua infância para a trazer para uma parede. E ele procura um laranja luminoso, tom ocre do Mediterrâneo, talvez uma vida outra que viveu. Ou um futuro, talvez procure a luz de um futuro, o que está ainda por acontecer.


Custa quase tanto encontrar o laranja certo para a parede branca como custa construir o amor. Está uma pincelada na parede branca e gosto daquela cor ocre. Talvez exista um laranja Mediterrâneo dentro de mim e eu o desconheça.
~CC~

domingo, agosto 02, 2009

Breves (I)

Poucas vezes tenho a certeza que estou feliz, que estou mesmo feliz. Essa memória, mesmo que seja a de ontem, está quase invariavelmente ligada ao mar, à entrada na água salgada. E é preciso que seja Verão, no Inverno o mar é belo, mas não costuma invadir-me a pele.
~CC~

quinta-feira, julho 16, 2009

Abraçar a brisa quente



Os meninos faziam grandes covas na areia, um bocadinho longe do mar, não obstante ser mar manso, capaz de inundar sem destruir. E esperavam e desesperavam pela ordem de entrada nas pequeninas ondas, presos do mito da digestão. Mais à frente um grupo, com idades entre os três e os cinco, atribuia namoradas como quem tira rifas, e todos riam do visado, como se ter namorada fosse a maior das bençãos mas também a maior das vergonhas. E um menino solitário trazia pela mão uma boneca a quem dava banho no maior dos cuidados, um menino diferente de todos os outros.


Mulheres e homens parados à beira mar, em grupo conversando ou sozinhos, arrepiavam-se pelo frio da água, mas não desistiam de mais uma tentativa para entrar. Que magia tem um banho de mar?


Duas adolescentes passam rente à espuma rumo a um passeio até ao molhe mais adiante, são bonitas, mas uma delas é mais gordinha e tem mais curvas e curiosamente é para ela que os rapazes mais olham. No café reparo numa ainda mais gorda, para essa ninguém olha, mas não sei se ela se importa, deleitada que está com o seu gelado. Ao lado dela o irmão mal se distingue do liquído do calippo morango que o cobre.


Esqueci-me do meu livro no banco de pedra onde me sentei a calçar os chinelos, volto atrás um pouco depois e o livro lá permanece, ninguém quer livros, muito menos usados. Conto à minha filha sobre o meu projecto com os livros usados e ela abana a cabeça num talvez que não mata a minha esperança.


Este tempo é agora tempo outro, tempo de ler e tempo de ver, ver para dentro e fora de mim. Tempo de parar, suspender a respiração para abraçar toda a brisa quente que correr para mim.


Até mais tarde.


~CC~

quarta-feira, julho 15, 2009

Reciclagem

M - Filha, estou doente hoje só de pensar na reunião de condomínio!
F - Não vás...
M- Então isso é assim, tenho responsabilidades a que não posso fugir...o que faria depois com a minha culpa?
F - Deitavas no ecoponto! :))) (riu-se muito).

(ora inventem lá um ecoponto com uma cor boa para reciclar culpas)

~CC~
+
~AF~ (13 anos)

Cinzas

Por legado paterno chegou a leitura dos sinais ocultos nos olhos, nas mãos, nas folhas do chá, em certos desenhos do céu. Mas fui má aprendiz, nunca acreditei o suficiente e por isso não treinei suficientemente o nariz para o odor a enxofre e outros sinais do mal. Ao bem sou mais sensível, sinto paz na sua presença e esse é o inequívoco sinal da confiança.

Pensava saber distinguir bem a mentira da verdade, as pessoas boas das más, o amor do ódio. E se nada quase resta dessa ideia de mundo, nem dos feitiços e magia que assombraram a minha adolescência (Borges e Garcia Marques elevados aos píncaros....), sobraram certas palavras que me ocorrem para designar factos. Por exemplo maldição, serve perfeitamente para designar um amor já morto mas agarrado a nós como uma lapa, um amor que já nem dói mas se afigura ainda como um luto interminável. Maldição, já não é sequer a pessoa em si, mas a memória do desastre que aquele encontro significou nas nossas vidas. É a certeza de que o que nos trouxe de mau foi tão incomparavelmente menor face ao que nos trouxe de bom, que um salto ao passado com uma borracha de apagar certos olhares no momento certo seria um acto inteligente. Maldição é o que não devia, nunca devia ter acontecido.


Costuma ajudar de trocar de cidade, de emprego, de amigos, até já nada nem ninguém nos poder evocar aquela memória e podermos finalmente respirar um dia realmente azul, realmente limpo. Mas nem sempre o podemos fazer, nem sempre. É preciso viver com uma dor que já não dói, com lágrimas que já não correm, com um coração que não bate vermelho ao ver o outro mas bate cinza. Um coração a bater cinza é uma coisa realmente triste.

E também nos dizem que tudo passa nos braços de um outro amor, mas não é assim, uma pessoa não serve para esquecer outra, um amor não leva o outro. Um novo amor é felizmente uma outra coisa, uma coisa que nada tem a ver com a que passou. È outro acordar, outra forma de beijar, é um dia claro e luminoso por si mesmo.
~CC~

segunda-feira, julho 13, 2009

Um desenho


Foi no Domingo que passei por ela, pela escola pequenina, duas salas onde o som do mar talvez se pudesse ouvir ainda.

Olhei-a e olhei-me vinte anos atrás, no espelho do carro bailaram os sonhos que tinha nessa altura. Imaginava-me professora primária numa escola de duas ou três salas, com um grande pátio e árvores a trazerem a sombra que precisaríamos para as conversas sentados em roda. Imaginava-me a envelhecer a educar os filhos dos pais que também tinham sido meus alunos. E nos meus tempos livres imaginava-me a fazer um trabalho comunitário em prol das artes, quaisquer que elas fossem. Não queria nada mais do que o que imaginava ser um mundo de paz, longe da ribalta, do tumulto, da erosão das pessoas e das coisas. Tinha, sempre tive afinal, essa ideia de proteger-me de alguma ameaça a que nunca soube dar nome, mas que habitará talvez um tempo que de tão primordial me está oculto.

E não foi nada disso que tive, não consegui nunca essa paz, esse adormecimento feliz entre jardins de cheiros e meninos de bibe, nunca cheguei sequer a ser propriamente uma professora primária, nos poucos anos em que o fui, era sempre isso e uma outra coisa.

Nem sei se há ainda essas escolas, essas vilas, essas aldeias. No outro dia contaram-me histórias de violência em terra de cavalos e touradas, monstros que habitavam as searas de milho e de melão onde eu imaginava histórias de encantar. O lugar que habito parece ser na sua aparência branca e soalheira também um lugar de paz e, no entanto, é um espaço habitado por tantas e tantas sombras.

Nada do meu percurso foi desenhado, planeado, sequer antevisto. É talvez por isso que espero ainda uma surpresa qualquer, um vento maior e doce.
~CC~

sexta-feira, julho 10, 2009

quinta-feira, julho 09, 2009

Os vírus globais


Há algum tempo que os vírus globais eram reais, mas ainda assim mais valia assobiar para o lado, e quanto mais eles viajassem para países pobres, melhor dormíamos. Foi assim com a SIDA.

Sabíamos que os vírus são capazes de cruzar fronteiras com a mesma facilidade com que antigamente os miúdos saltavam ao eixo. E agora respiramos medo e hesitamos entre nos barricarmos em casa cheios de latas de comida até que tudo passe, ou viajar directamente para o coração do risco, pensando que quanto mais depressa melhor e até há quem já faça contas à vida pensando que antes agora do que no Inverno. E até há quem, na melhor linha das conspirações ocultas, ache que ele nasceu no laboratório e foi devidamente encaminhado para vender muito antiviral.

Lá se vai a nossa racionalidade, presa frágil de um bicharoco devidamente baptizado. Pensavámos que isto da gripe fazer morrer gente era coisa da Idade Média e não da Era Tecnológica, e acontece-nos esta loucura.

Se conseguirmos conter essa loucura poderemos talvez superar isto, mas se não conseguirmos, tudo poderá descambar, a começar no que mais atemoriza todos em tempo de esperança: a crise económica a persistir. Lavem muito as mãos é o que nos dizem, como sempre a Saúde Pública a evidenciar que tudo reside na higiene. Mas há outra higiene com a qual ninguém se preocupa: a fragilidade mental do ser humano. E eu diria que é aí que tudo reside.
~CC~

terça-feira, julho 07, 2009

O tempo

A filha levou-a por arrasto, zangando-se com ela: mãe, não pode passar tanto tempo sem fazer as sobrancelhas! E ela lá foi dizendo que aos 65 anos isso importa já tão pouco, muito menos quando se mora numa aldeia e só se vê dias a fio o marido, já tão ou mais velho que ela. E é assim que se chega a velho, com esse cansaço interior de quem já não quer saber do estado do corpo, deixando crescer o cabelo, as sobrancelhas, as unhas, numa espécie de desconcerto que talvez não seja mais do que paz interior ou desencontro com as exigências do mundo.

Tive uma avó assim, enfiada dias a fio numa bata, com o cabelo despenteado e uma dentadura que raramente usava, abandonada para o mundo por uma solidão só dela. Não podia amá-la assim daquele modo como criança que era, envergonhava-me dela. E tenho uma mãe inteiramente diferente da mãe que foi a dela, aos 80 ela arranja-se mais do que eu alguma vez me arranjei, faz ainda a sua própria roupa por achar que nada lhe fica melhor do que o que sai das suas mãos. Nunca sai de casa sem pintar os lábios.

E olho às vezes o meu corpo a envelhecer, a pele perdendo o brilho, os músculos a perder a força, certas partes que parecem inevitavelmente mais redondas. Hesito. Por um lado é verdade que sem recorrer a operações estéticas apetecia-me aqui e ali estancar aquele processo de mudança, como se a sedução residisse verdadeiramente no número de rugas, nas partes flácidas, na firmeza do peito, no volume das ancas e todos os discursos que o negam não fossem mais do que engano. Por outro, sinto que poderei ao envelhecer concentrar-me no essencial, deixando o corpo entregar-se ao seu destino e que toda a sedução será já uma outra coisa, outro modo de ser, sinto que finalmente poderei estar em paz e gostar de mim como nunca gostei. Escreve-se muito sobre o amor, pouco sobre o modo como muda a forma como amamos e o que nos atrai no outro à medida que envelhecemos.

Lembro-me da Marguerite Duras que foi uma mulher bonita e que depois abraçou com paixão a velhice, era volumosa, cheia de rugas e usava uns óculos muito grossos. E ainda assim eu achava-a apaixonante, mas ela tinha o dom de ser rara. Vejo-me entre a minha avó abandonada ao esvair do tempo e a minha mãe lutando sempre contra o que o tempo roubou. Não me revejo em nenhuma delas.
~CC~

segunda-feira, julho 06, 2009

Desejo

Absorver o som das ondas e enrolar-me silenciosamente em mim como um búzio.
~CC~

sexta-feira, julho 03, 2009

Elas voam



Dizes que escrevo coisas tristes, talvez seja verdade. Mas necessito de escrever coisas tristes, partem delas borboletas azuis e quando elas voam espalham no vento a mágoa e bebem do céu a esperança, e quando poisam, já estão a sorrir.


~CC~

quinta-feira, julho 02, 2009

Semelhante

Pensava no seu corpo magro a lançar-se no espaço, alguma coisa que nunca fui e alguma coisa que nunca soube fazer. Pensava no seu cabelo apanhado e no modo como o meu, na sua lisura, se rebela quando o tento segurar. Pensava nos seus olhos grandes e espantados, dois bugalhos de luz, e no modo como os meus preferem baixar-se tantas vezes. Pensava no país que era o dela e que nunca gostaria que fosse o meu. Pensava no modo tranquilo como parecia viver sob os holofotes, coisa que me assustaria imenso. Pensava na sua morte, nas palavras que todos escreveriam sobre ela. E como durante todo este tempo apenas tinha visto um espectáculo seu, e dele guardava tão pouca memória. E foram as palavras dele* que criaram sentido para a tristeza que sem muita razão eu sentia, afinal ela fazia dançar o medo. Tinham sido essas as palavras de Pina Bausch para explicar a vontade maior de movimento e mais movimento. Era isso o que nos assemelhava, o que unia as nossas vidas, o que tornava para mim tão triste a sua partida. Artistas partem todos os dias e são magníficos. Mas havia qualquer coisa que para mim era especial nela.

São vidas de fazer dançar o medo, toda a vida, toda.

* Fernando Alves, nos seus sinais na TSF.

segunda-feira, junho 29, 2009

Lágrimas presas

O que é espantoso é o modo como a vida que foi a nossa irrompe dentro dos encontros mais superficiais, desta vez só nós os três em redor da mesa das sardinhas de um Domingo calmo. Tudo começa com uma paixão que pode nascer aos oitenta anos, num comboio para o Algarve. Tudo o que antes seria história só possível na adolescência surge agora como promessa contida nas vidas que os mais velhos viram despir-se de amor, mas não de esperança. Gostava tanto de a ver viver um amor. Temos pena que se tenham despedido sem cumprir o sonho, mas compreendemos que a troca dos telefones aos oitenta jamais pode ser como aos dezoito. E era um homem tão bonito ainda, diz ela.

E é pelo amor que a seguimos até às partes mais obscuras e dolorosas, à tropical solidão de uma mulher que perde o marido que ama e está grávida dele no momento em que ele faz a mala definitiva. Não mais voltará. Nunca saberemos que futuro seria se ele a tivesse desfeito.

Pensava que tinha esquecido um e outro e mais outro episódio, mas de repende deslizam todos até mim, primeiro de dia e depois de noite. Vem até mim o carro vermelho da amante de onde eu jurei saltar em andamento, tiveram que o enconstar na berma e deixar-me seguir pelo passeio. Havia já dentro da menina que eu era, uma fúria contida e grandes lágrimas presas.
~CC~

domingo, junho 28, 2009

Luz nocturna






Crespúsculos dourados a abrirem as noites luminosas no Festival MED (Loulé).
Ontem, dançar com este Brasil profundo, uma prova de que a cultura popular está viva e a acontecer, viva e rasgada numa poesia cheia de ironia e humor.

~CC~

quinta-feira, junho 25, 2009

Insuficiente

Espreita dentro de mim a Vanessa à espera que lhe conte o resto da história. Espreita um longo poema Almar que deixei a meio. Espreitam as memórias da adolescência atormentadas por verem a luz do dia, como se depois disso, se pudessem aquietar no silêncio interior. Espreitam todas as pessoas que vivem dentro de mim, esperam o tempo que não tenho, que não lhes dei, que nunca lhes dei em dose suficiente. Ligam-me pessoas que não sei quem são, dizem nomes e que algures se cruzaram comigo, há qualquer pedido que têm a fazer-me e que acrescento à longa lista de coisas que não cumpri, que nunca cumprirei. Deixam-me mensagens a pedir que comente um inquérito com resultados surpreendentes sobre os jovens e a escola, como não me apetece surpreender-me, espero que se esqueçam de mim e não ligo ao número que ficou registado. Enviam-me mails de despedida que me fazem chorar e não sou capaz de lhes responder. Há muito que desejo passar despercebida num certo lugar, que se esquecessem da minha existência, desejaria mesmo que não estivesse sempre a pronunciar alto o meu nome, que me de deixassem em paz como eu os deixo em paz.

Enfim, há muito que sei, que tirando meia dúzia de coisas, tenho nota insuficiente nas outras todas.
~CC~

terça-feira, junho 23, 2009

De bicicleta...se vai longe*!



Eles pedalaram assim...

* E eu, mais assim...

*
cartão amarelo para a organização: excesso de publicidade; mensagem completamente diluída no mega-evento; deficiente apoio durante o percurso....e já agora, as bicicletas não são puzzles! Com estas bicicletas não vamos longe não....
cartão verde para os participantes, efectivamente um grande espiríto de boa disposição e ajuda, sorrisos largos por todo o lado.

~CC~

segunda-feira, junho 22, 2009

Às claras

Também eu fiquei num abismo interior com as imagens do Irão. E descontente com as explicações que eram dadas. E hesitante entre dar razão à ideia de fraude. Importa desligar o que queremos do que eles efectivamente querem. E eu queria perceber o que querem eles. E um país tão grande deve estar recheado de diferentes quereres. Tive a sensação que a pressão ocidental pode retardar tudo, mais ainda se Israel se põe a falar sobre eles de forma arrogante.

Mas sem alguma pressão ocidental, sem uma imagem atirada cá fora, tudo teria há muito se silenciado. Não é simples saber o que há fazer, o que é melhor fazer, ou se deve sequer ser feita alguma coisa além da expressão da nossa inquietação. Também em mim cresce um fervor imenso quando penso que as mulheres iranianas poderão reclamar por um lugar na sociedade, poderão vir a ser mais que meros adornos no poder imenso dos homens. Não tenho nenhuma hesitação quanto ao caminho, nem nenhuma espécie de tolerância cultural quando estão em causa direitos essenciais. Mas penso que não nos chega isto, não podemos criar o destino para os outros, eles têm também de o tomar em mãos, sob pena de tudo ser um artíficio (como já foi antes num Irão dito Ocidentalizado).

Gostei especialmente do Câmara Clara ontem na RTP 2 dedicado ao Irão, tempo dado aos convidados para falar, pequenas reportagens a pontuar o que era dito, voz dada ao descontentamento mas não só. Maravilhosos os pequenos filmes de animação que mostravam um país a esconder-se dentro de casa para poder libertar-se do ferrete religioso.

E a perspectiva histórica, muito importante sempre. No tempo do Xá a ocidentalização do Irão era o objectivo máximo, o uso do lenço foi, por exemplo, proibido. E agora é praticamente proibido não o usar. Dá que pensar a forma como os extremos se tocam e como um vem a explicar o outro. É por isso que os trilhos devem ser traçados com o máximo cuidado, e sempre com os passos de quem quer fazer o caminho.
~CC~

sábado, junho 20, 2009

Pedalar na ponte


LISBOA BIKE TOUR

Também irei, parece que é contra a Droga e a favor dos rios, dos flamingos, do puro gasto das nossas energias nos pedais.

~CC~

sexta-feira, junho 19, 2009

Descubra as diferenças





Pensando bem as diferenças entre mim e ela são pequenas, talvez a cor do cabelo, talvez o corpo menos redondo, talvez os olhos menos abertos. Resta-me só saber se quando soltarem as molas, vou afinal voar ou cair no chão.

~CC~

domingo, junho 14, 2009

Notas da (des)ordem interior

Dá-me a mão pequenina para o levar a passear e ela fica encaixadinha na minha enquanto olhamos para as coisas e lhe digo o nome delas. Depois solto-o e ele caminha sozinho com os seus passinhos de aprendiz, parando a cada momento para se espantar com coisas que já deixámos de ver. Não há sorriso por ora que me pareça mais bonito. Fica a doer-me a distância a que os meus dias se encontram dos dele e a impossibilidade de cuidar mais.

Paro no fim das subidas de bicicleta nesse dia de calor infernal, os sinais interiores não são de cansaço, mas de um mal estar a que recuso dar nome, recuso saber. Estou certa que se absorver do passeio o aroma das flores, poderei libertar-me de tudo. Invento terapias alternativas ao sabor da brisa quente.

Às vezes pareço perder-me do amor, como se as diferenças deixassem de ter graça, para se tornarem uma ferida pequenina, qualquer coisa que não dói, mas incomoda. Mas depois recupero num segundo todo esse encanto. Um homem que nos diz que nos gostaria de ver com o vestido daquela cantora tão bonita que ontem deslumbrou o auditório, diz-nos a coisa certa, ou então é o meu fraquinho por vestidos. O amor pode nascer grande, mas é das coisas pequenas que ele se vai desenhando. E das coisas que encantam.

Comecei por desenhar uma rede, porque me fazia lembrar mar e ondas. Pode um trabalho de investigação começar por uma rede? O meu começou assim. E o que me faz feliz é que apesar de não saber o seu fim, ele é já um mundo cheio de pessoas especiais. E o meu maior receio é não conseguir as trazer inteiras para dentro da minha escrita. Uma delas ligou hoje do centro interior do país para me abrir as portas de uma comunidade. Essas notas de esperança iluminam um quotidiano que vejo cada vez mais cinzento.

Deixo-me aliciar por ela, porque sei que nem tudo o que queremos e compramos é pela sua funcionalidade, pela sua essência. Gastei-me demais na adolescência na procura dessa pureza, recusando tudo o que era adorno e concessão à futilidade. À conta de ter passado anos a recusar outra estética que não fosse a da natureza, nunca fui capaz de superar algumas das barreiras que impus a mim própria. Agora aprecio as cores dos telemóveis, as luzes e os toques, a configuração do écran...não que me fascine, mas já sou capaz de perceber que um objecto não é simplesmente uma coisa. Cada um tem a sua liberdade e eu construo a minha.

Talvez hoje possa adormecer com a paz que tem andado a fugir de mim, porque depois de me saturar de um assunto, costumo encerrá-lo para sempre. E costumo fazê-lo mesmo quando não há nada pela frente, sei que sou capaz de saltos no escuro, muito embora o escuro me pareça agora mais assustador do que alguma vez me pareceu.
~CC~

sábado, junho 13, 2009

Amigos


Tenho uma família grande, complexa, pouco convencional, e gosto muito dela. Não me importava de a aumentar mais e mais, se o pudesse fazer, escolhia certamente o João para meu irmão, não obstante saber que já tem duas maravilhosas manas. Parabéns meu querido amigo!


~CC~

quarta-feira, junho 10, 2009

A Europa do medo

A Europa é essa entidade abstracta que toma conta dos nossos dias sem que demos conta. Em tantas e tantas coisas é ela infiltrada naquilo que pensamos como políticas nacionais, pelas quais responsabilizamos os nossos políticos, pelas contas que a eles pedimos e que jamais lhe pediremos a eles. Já vi directivas europeias practicamente traduzidas para português intituladas como leis portuguesas.

Não ter votado nestas eleições não significou para mim o desprezo pela importância destas eleições, muito pelo contrário. Entre os abstencionistas pode haver muitas razões e vontades ou a total inexistência delas. No meu caso, foi mesmo a impossibilidade de fazer uma coisa por fazer, isto é, sem qualquer convicção. O branco seria mais coerente sim, não fora algumas impossibilidades. Mais à esquerda, o desprezo pela Europa é há muito conhecido e não o partilho. No meio, não brilhava nada, só havia mesmo o pior da política. A lista do PS mereceu perder de facto, e não se trata do primeiro ministro, mas mesmo da lista baça, gasta, cansada (com excepção de Correia de Campos, que dada a forma como saiu do governo nunca devia lá estar). À direita, os betinhos aprenderam com Paulo Portas a fazer campanha, e fizeram-na bem, afinal o povo não é assim tão intragável. Ficam muito bem numa Europa orientada à direita e talvez possam ter algum papel se barrarem a direita mais extremista que está a conquistar devagarinho o parlamento europeu.

E é o que mais me preocupa, a forma como suavemente, pouco a pouco, se verifica a infiltração no monstro europeu de um pequeno vírus- a extrema direita europeia. Como acontece com os vírus não podemos saber se estamos perante o sinal de uma epidemia ou perante um surto episódico sem mal de maior. Mas convém estar atento, muito atento. Ainda por cima para dominar a Europa hoje já nem é preciso invasões, guerras, exercitos. Gosto da Europa, tenho medo da Europa.

A política, no sentido convencional do termo, não é coisa sobre a qual normalmente me apeteça. Essencialmente falta-lhe poesia, rasgo e bravura.
~CC~

domingo, junho 07, 2009

O escritor e a cidade

Luanda, 2007




A Luanda de que ele fala é a mesma que vi há dois anos, num apocalipse de sentimentos. Tinha-a deixado era apenas uma menina e guardei-a anos a fio com a mais bela cidade do mundo. Imaginava que todo o tempo vivido entre a deixar e a reencontrar não tinha sido mais que um intervalo na minha vida.


O meu coração encontrou o caos assim que chegou ao aeroporto de Luanda. Em pouco tempo vivi o medo numa pensão barata do bairro do Congo (os cooperantes portugueses são arraia miúda), a incredulidade na gigantez dos musseques que cruzei a velocidade de picada num carro a cair de podre e esse luxo barroco dos restaurantes da ilha, em que as lagostas decoradas e o champanhe parecem saídos de um filme de mau gosto. Vi os carros mais caros do mundo lado a lado com a gigantesca lixeira da maior parte das ruas.


E sim, vi os prédios da baía guardados por seguranças armados, e subi a um deles para ver abrir-se diante dos meus olhos um apartamento arquitectónicamente belíssimo, do qual se avistava a fabulosa vista da baía da cidade, mas na maior parte dos dias não corria um pingo das suas torneiras.


Luanda, a cidade, é a baixa e meia dúzia de ruas num esplendor escondido que pode a todo o momento comover-nos com a sua beleza. O resto é o caos absoluto. Mas Angola é muito mais que Luanda, pode ser muito mais que Luanda.


Agualusa pode andar pelo mundo, mas é o escritor desta cidade, é como se atormentado ele visse pouco a pouco morrer o que ama, sem saber como estancar esse sangue que se esvai. Se eu ainda fosse angolana, seria certamente como ele.


Barroco Tropical, ver crítica em

quarta-feira, junho 03, 2009

dese(cantos)

O prédio é relativamente novo mas não há elevador, as escadas estão imundas e o lixo acumula-se no parqueamento. Mais de metade das casas ficaram por vender, o construtor faliu há dois anos. O construtor falido impugna com a sua maioria de votos todas as decisões que visam levá-lo a tribunal. O condomínio não tem dinheiro para sustentar o conforto minímo, a unica coisa que há, andar sim, andar não, é a luz. Não é África meus senhores, é mesmo uma cidade portuguesa, e por todo o lado há prédios em construção.

No escritório sabe-se que a diminuição do trabalho não afectará todos de igual modo, ainda assim há que chegue para continuar a laborar. Há propostas em cima da mesa para desenhar outras saídas para o mercado, mas a administração não lhes pega, não lhes dá seguimento. Ainda assim o escritório tem processos que cheguem para mais uns anos, trata-se apenas de mandar algum do pessoal embora. O tempo também está de feição, é assim a crise, uma verdadeira janela de oportunidades.

Na ponte Vasco da Gama dois acidentes, um a seguir ao outro, muita chapa danificada, mas condutores a salvo. Eles e mais uns quantos sem triângulo, sem coletes amarelos, parados na via atrás das viaturas em desnorte total. E risco acrescido de outros carros embaterem em cadeia. Praticamente todos falavam ao telemóvel.

Os noticiários cheios da renúncia do provedor de justiça. Não só o compreendi, como também tive inveja. Também queria declarar renúncia, anunciar bem alto alguns dos meus desgostos, chorar publicamente.
~CC~

terça-feira, junho 02, 2009

(en)cantos



Mourisca, Fevereiro de 2009

~CC~


Mulheres da minha vida (III)

..."há homens que precisam de mulheres bonitas ao lado para se sentirem socialmente confortáveis"

Deep, do blogue "letras são papéis"
Com um agradecimento pelo mote para a história...

Era hoje, sem dúvida um homem rico, na casa dos 50 anos. Acrescentava a esse património que por um lado era herdado e por outro era já uma conquista sua, uma capacidade inesgotável de trabalho e uma profissão onde a competência profissional, se habilmente gerida, podia criar fortuna. Não era nem bem nem mal parecido, nem bonito nem feio, nem gordo nem magro. Nunca se lhe tinha conhecido um casamento, nem uma namorada. Fazia, no entanto, questão de se afirmar como heterosexual, não fosse esse deserto de amor que parecia a sua vida, fazer crescer rumores. E é verdade, de vez em quando aparecia com uma namorada ou outra, quase sempre lindas, e de várias nacionalidades. Mas era nitído que não se encantava com nenhuma, e por isso tinha arranjado uma justificação social: era um eterno solitário à procura de uma princesa. E chegava a descrever de modo pueril essa mulher dos seus sonhos, uma mistura entre a filha de família e a Britney Spears, uma síntese provavelmente difícil de encontrar.


Um dia confessou entre os mais íntimos que tinha uma amante, que a tinha tido a vida inteira. Não sabia se a amava mas era feliz com ela como nunca tinha sido com mais ninguém. Ela compreendia-o, não lhe pedia nada, recebia-o entre duas viagens de avião, partilhavam o jantar, a lareira, a noite de amor. Os amigos imaginaram logo a amante como uma pobre coitada sem nada, inculta e com "casa posta" à moda antiga, uma vida de silêncio na sombra de um homem que não a assumia. Mas na verdade esta mulher não precisava nem financeiramente nem intelectualmente deste homem, era totalmente independente. Questionaram-no então: como é que duas pessoas que são felizes juntas não assumem tal relação. E então ele confessou: ela era da mesma idade dele e não era uma mulher bonita, estava longe de ser a sua princesa, a mulher que ele ainda procurava.


Tantos anos afinal e ele sem saber que já há muito a tinha encontrado. É assim o mundo de alguns homens.

~CC~

domingo, maio 31, 2009

A morte dos lugares


2009.Praia fluvial do Patacão (Concelho de Alpiarça).

Os lugares morrem silenciosamente, as vozes calando-se pouco a pouco, as ervas crescendo em seu redor, as osgas a percorrer livremente as paredes, o fumo das chaminés inexistente, as portas a ruir, as sombras a invadir tudo o que já foi vida.

Há na morte dos lugares uma tristeza sem fim, mas na sua decadência eles são de uma beleza poética, guardam um resto de luz. Se nos calarmos para os deixarmos falar, escutamos ainda as almas e o sangue de quem por lá passou. São lugares cheios de histórias que nunca foram contadas, mudos para o mundo.

Este é um lugar perdido junto ao Tejo, há muito tempo atrás, pescadores vindos da zona de Leiria construíram estas casas de madeira que pintaram de cores alegres, consta que o rio era nessa altura um mar de promessa de bom peixe. O leito do rio é agora consideravelmente menor, e à medida que ia diminuindo assim as casas se abandonavam uma a uma. Ainda se sente a vida por perto.

Ontem foi a vez de um outro lugar junto aos arrozais do Sado, só trouxe no olhar, mas voltarei lá para o fotografar. Outros sonham outras coisas, eu sonho com estes lugares, com a possibilidade de os voltar a pôr no mapa, fazendo falar as suas histórias, mas fazendo deles já uma outra coisa. Sonho com um passado recheado de futuro, se possível perto de grandes rios.
~CC~


quarta-feira, maio 27, 2009

Olhar

Esta impossibilidade de sabermos quanto vale um olhar é assustadora. Os olhos de Dias Loureiro parecem de cordeiro manso, alguém a quem confiaria uma carteira recheada. Os olhos de Sócrates anunciam um lince. Os olhos de Ferreira Leite parecem estar sempre num outro lugar. Os olhos de Paulo Portas são sem medo, enquanto os de Miguel parecem só querer fugir dali.

Os olhos da princesa Diana eram de um insuspeito azul, anunciavam dias de primavera e não tinham uma sombra da morte.

Dantes lia os olhos, adivinhava almas. Agora desisti de tal ofício, é de grande risco.
~CC~

segunda-feira, maio 25, 2009

A flor do morango



Vi o filme morangos silvestres de Bergman muito cedo, cedo demais para perceber a complexa teia de fantasmas que o habita. E miúda como era, lembro-me de pensar que nunca na vida tinha visto morangos silvestres e que tal planta devia afinal ser da mesma natureza que o sonho/pesadelo do filme. Era uma planta inventada, criada pelo realizador, uma variante dos morangos domésticos mas rebelde e indomável. Só depois descobri que os havia a sério.

O ano passado descobrimos que o canteiro da casa em que passavámos férias em S. Pedro do Sul estava cheio de morangos silvestres, selvagens. E em pleno Verão as bagas vermelhas pequeninas espreitavam pelo meio do emaranhado de folhas. Não tive coragem de os provar, consta que são azedos e por isso ninguém os apanha, ninguém os come. Trouxe um pé deles para minha casa, agradava-me a ideia de conviver com tal planta, mas como muitas outras que trazemos para casa apanhadas ao acaso pelo campo, elas definham e morrem neste ambiente quotidiano de apartamento. Não foi o caso deste morangueiro, depressa cresceu e se desenvolveu e teve de ser mudado mais que uma vez de vaso. Era um selvagem que gostava de luz e do mimo que eu lhe dava. Sinceramente não pensei que viesse a dar fruto. Mas hoje reparei que tinha uma pequena uma flor branca e amarela e depois vi melhor e havia mais, pelo menos quatro botões prontos a nascer.

Agrada-me esta ideia de trazer para casa o que é silvestre, o que é diferente, o que vem de lugares onde estive, e são coisas vivas, que ficam a fazer-me companhia sempre que esta casa se mostra demasiado vazia.

Acreditem, às vezes basta uma flor de morango.
~CC~

sexta-feira, maio 22, 2009

Mulheres da minha vida (II)

Tenho dentro de mim infinitas histórias de mulheres e estão sempre a falar comigo como se uma parte da minha vida fosse a delas também. São histórias de amor, mas o que é que não são histórias de amor. Estas duas mulheres eram bonitas, embora bem diferentes. Mas acrescentavam a essa beleza uma energia sem fim, uma vontade de saber mais, uma avidez pela descoberta do mundo. Ambas estudaram e se licenciaram e tiraram mestrados, foi aliás no final desse percurso académico que as conheci. Ambas amavam homens bonitos, morenos, de porte atlético e sorriso aberto. Eram deslumbradas por eles. Um deles era perito em usar as mãos para colocar qualquer máquina a trabalhar e o outro em usar as mãos para delas tirar notas de música pelos bares da cidade onde moravam. E elas valorizavam aqueles homens pelo que eles sabiam e eram. Mas eles não, não se sentiam bem por serem os homens daquelas mulheres bonitas e cultas.

Falo assim delas mas elas não se conheciam, não sabiam nem nunca saberão do paralelismo das suas histórias. E as histórias delas, descontando uma coisinha ou outra, são mesmo estas.


A primeira desconfiou do telemóvel a tocar constantemente, e não resitiu a espreitar as mensagens. Pasmei por a saber capaz de espreitar as mensagens do marido, o primeiro dos actos irreflectidos que cometeu. A seguir ligou para a mulher que ligava sempre ao marido dela e disse que a queria ver. E viu. E viu que ela não era bonita, nem culta, nem interessante aos olhos dela. E nunca mais se esqueceu do que ele lhe disse: ao menos com ela estou à vontade, nunca me sinto "de menos". O que será uma pessoa sentir-se "de menos" perante outra? Que medo tinha aquele homem?


A segunda saiu de casa com uma malinha e não voltou mais, farta do inferno que ele a fazia viver por se sentir sempre "de menos". Soube depois que ele tinha ido estudar e que não só se licenciara como tinha ido fazer um doutoramento em Música para Londres. Há portas que quando se fecham é mesmo porque vale a pena.

Elas continuaram bonitas e sábias e interessantes, mas ganharam uma espécie de desgosto, de desconsolo, de cepticismo. E isto ultrapassa em muito a dicotomia bonita/burra e feia/inteligente e a aposta dos homens numa ou na outra coisa. Agora é tudo muito mais complexo e difícil, no amor como em tudo o resto.
~CC~

quinta-feira, maio 21, 2009

Truques para dias infelizes



É simples, viajar à memória dos dias felizes. É aliás a única utilidade das fotografias domésticas, lembrar-nos que somos capazes de ser espantosamente felizes.
~CC~

quarta-feira, maio 20, 2009

Com pouca fé


Sou normalmente muito tolerante em relação às igrejas e à Igreja Católica em particular. É uma benevolência marcada pelo mistério da vida existir no meio desta galáxia perdida no meio de outras galáxias. Compreendo muito bem que este espanto leve as pessoas em busca de Deus. E depois há os rituais da fé, genuínos e belos se nascidos desse achar que o homem é coisa pequena e frágil. Dito isto, é preciso dizer que da igreja tenho apenas a curta experiência de uns meses na cataquese, passados a cantar, a fazer bolos e a passear pelas alamedas ajardinadas do seminário da Portela, com uma senhora a caminhar para a meia idade, que tomava conta de nós com o mesmo desvelo que qualquer tia faria.

Mas últimamente, e descontando Setúbal, prolífera em bispos proletários, teria me desiludido por completo, caso algum dia me tivesse iludido. O aproveitamente pela igreja desta crise que vivemos tem mostrado uma faceta caritativa que não me convence, a todo o momento é apregoada a bondade do ritual da oferta, mas não se lhes vê uma ideia que possa ajudar a vencer a pobreza. Quase acreditamos que, como no velho regime, bastaria a cada bom e abastado homem alimentar um conjunto de pobres, e tudo ficaria resolvido.

E não só se banalizam rituais antigos, fazendo de lugares de culto, santuários de cimento e betão armado (onde estão as azinheiras? era aí que a nossa senhora gostava de pousar...e isso sim era uma coisa poética) como se inventam outros de um ridículo atroz, santificando uma estátua (falo do Cristo Rei, pois...) que de santa nada tem.

Está chumbada esta Igreja Católica em tempo de crise, não resistir ao aproveitamento do que se passa para tirar dividendos e espalhar a fé, coloca-a ao nível de um partido político qualquer.

~CC~

PS- Que me desculpe a minha querida Madalena....

terça-feira, maio 19, 2009

Calor-cor


Queria uma casa cor de laranja com uma janela amarela e um tecto de caninhas.

Um lugar para ouvir ao longe o mar.

E beijos tão laranjas como a casa, beijos à minha espera, a saber a papaia.

~CC~

segunda-feira, maio 18, 2009

Mariposas e caracoles


Toda a minha vida sonhei com lugares que não conheci e vivi imersa nas saudades dos lugares que amei. Se fechar os olhos, consigo sentir na pele um tango e ouvir a voz de Borges, como se a música e o escritor tivessem crescido comigo e não a milhas de distância. A minha experiência passou apenas pelos pastéis de massa tenra que a minha mãe aprendeu a fazer maravilhosamente bem com uma vizinha argentina. E sim a Argentina é de todos eles o que mais me chama, mesmo se o puser ao lado do Brasil para onde em tempos fugiu metade da minha alma. E a neve mais romântica do mundo só pode ser a do Chile. O Espanhol da América Latina e o Português do Brasil já são línguas outras, são línguas redondas, cantadas, são ventos alados de mariposas. Metade daquele continente é paixão em estado puro. Por isso quanto morre um escritor da América Latina, o mundo empobrece em sonho e em luta, fica mais cru e mais real. Afinal, quem mais nos pode dar poemas como este?

Botella al mar

Pongo estes seis versos en mi botella al mar
con el secreto designio de que algún dia
llegue a una playa desierta
y un nino la encuentre y la destape
y en lugar de versos extraiga piedritas
y socorros y alertas y caracoles.

Mario Benedetti

~CC~

sexta-feira, maio 15, 2009

Paisagem interior

Crepúsculo no rio Tejo.
Segredos da luz enrolada na água.
~CC~

quinta-feira, maio 14, 2009

O meu nome é Vanessa (XVI)

- Diz-me, diz-me então como é que se tornaram verdes os teus olhos...
- Nesse ano aconteceram duas coisas terríveis na minha vida, o meu pai adoeceu gravemente e conheci um homem sol.
- Um homem sol? O que é isso Vanessa?
- Alguém que entra pela tua vida com a intensidade e brilho da luz, mas se te expuseres demais, é capaz de te queimar para sempre.
- E não é sempre assim a paixão?
- Não, não é. Agora não é. Vivo com um homem lua.
- Imagino-o então frio e distante como a lua.
- Não, as noites de luar não são belas?! Mas são serenamente belas e a luz da lua nunca te queima.
- Imagina que vais perder alguém que é teu pai, mas que não sabes se o amas, nunca soubeste. Tu sabes que é teu pai mas que não é um homem bom, que nunca o foi. Não tens memória de lhe ter dado um beijo, nem ele a ti. Lembras as ameaças, as saídas por muitos dias sem dar notícias, o dinheiro que nunca chegava. E agora está ali um velho perdido numa cama de hospital, esquecido do pai que foi, agarra-se a ti com força, quer os teus abraços. E os teus abraços não conseguem acontecer dentro de ti, tens tudo morto por dentro.
~CC~

quarta-feira, maio 13, 2009

Setúbal, por estes dias (II)

Com a polícia e a comunicação social enfiadas dentro do bairro, como se fosse possível vigiar uma população 24h por dia e como se ela precisasse de vigilância, começaram a arder os ecopontos em vários pontos da cidade. Pergunta a minha filha: mãe, porquê os ecopontos, o que é que têm a ver? Explico-lhe que é uma forma de manifestar desagrado, mas ela aceita com dificuldade e compreendo-a. Não sei se já viram um ecoponto ardido mas é desolador, derretido como manteiga e o lixo do seu interior espalhado pelos passeios, é bem a imagem de uma civilização cuja crise é bem maior que a financeira.
~CC~

terça-feira, maio 12, 2009

O meu nome é Vanessa (XVII)

Há quanto tempo não via a Vanessa, pensei mesmo que não voltaria a encontrá-la, não obstante sentir que havia entre nós algo fundamental: ela queria falar, eu queria escutar. Ela queria falar porque nunca tinha sido escutada sem qualquer compromisso, eu queria escutar porque me tinha treinado a fazê-lo por motivos profissionais e já quase não o sabia fazer sem ser por isso. Para mim era a capacidade de me relacionar com uma mulher que estava em jogo, estar com ela sem ter outro objectivo que não fosse o de a conhecer, de saber dela, de integrar a sua história na minha vida. Creio que já vos disse antes: a minha vida foi uma sucessão de amores impossíveis porque acho que os escolhi por serem assim, tinha medo de ter de os viver a sério.

Deixámos a sua história interrompida entre o seu quarto homem e quinto homem, nos seus 23 anos. Nenhum desses seus relacionamentos tinha sido luminoso, embora no segundo tivesse sido amada por um rapaz solitário e obssessivo. Ela nunca tinha amado, não havia nenhum registo de paixões adolescentes porque ela também não tivera propriamente adolescência e aos 16 já tinha provado do sexo o sabor mais amargo que há. Entre o abuso do tio, o abuso do chefe de secção da fábrica e do próprio marido, havia apenas o consentimento dos segundos face à força do primeiro. Se um corpo não amado é um corpo só, era assim o corpo da Vanessa, curvado precocemente sobre si mesmo, os dedos amarelados do fumo, os olhos da cor dos dedos.

Liguei-lhe para dizer que agora que a Primavera se esforçava por chegar, tinha saudades das nossas conversas na esplanada. E foi neste último dia que ela me perguntou a cor dos seus olhos e eu lhe disse que eram amarelos. E ela disse: mas já foram verdes, sabe? E eu imaginei-a ruiva de olhos verdes. E ela continuou: porque os olhos das mulheres que se apaixonam mudam de cor.

Imaginei então o verde das árvores a entrar dentro dos olhos amarelos da Vanessa.
~CC~

domingo, maio 10, 2009

Setúbal, por estes dias.

Há duas novas inscrições próximo da zona urbana de Setúbal onde moro. A primeira insulta os ciganos, a segunda tem a marca dos acontecimentos recentes. Detenho-me na segunda: Bela Vista em todo o lado, tocam num, tocam em todos. E é isto que é diferente em relação ao que já conhecemos, é a raiva e o descontentamento a avançarem pela cidade. E a necessidade de afirmar uma identidade de bairro, uma identidade em tom de ameaça.

Durante dois anos, através de um programa de voluntariado, integrei estudantes do ensino superior nas instituições de crianças e de jovens do bairro. Alguns nunca tinham estado num bairro com aquelas características, nem com pessoas cuja origem étnica ou de nacionalidade (quase sempre dos pais, quando não de avós) ainda marca os quotidianos, uma pertença cultural completamente transformada é certo, mais ainda assim presente. Para além do abanão interior que muitos deles tiveram pelo contacto com uma zona assim excluída e auto-excluída, não houve registo de nenhuma agressão ou roubo pessoal e houve histórias de pequenos sucessos, pequenos porque são assim em relação ao que sonhámos no início.

Houve medo sim, eu própria que saí de lá às vezes já noite cerrada o tive, mas é preciso dar a volta a esse medo, sem nos esquecermos dele. E não esqueço aquele dia em que deixei o carro aberto com uma mala e um computador dentro da bagageira e nada aconteceu. E lembro o lançamento do jornal "Vozes do Bairro" feito na minha escola e as reservas dos monitores em levarem até lá as crianças e jovens, mas correu tudo bem, mesmo muito bem. Estou convencida que não há mudança sem pontes com o exterior, sem circulação das pessoas do bairro para fora e dos de fora para dentro.

Durante esses dois anos houve sim assaltos constantes às instalações das instituições do bairro, algumas delas nascidas da vontade dos próprios habitantes e isso torna o bairro especialmente duro. Lembro-me de uma animadora que lá trabalhou mais de dez anos, ela considerava que aquele grupo com quem tentava partilhar a ideia de que se pode sair da miséria e construir uma vida diferente, estava a salvo. Até um fim de semana em que eles se dosorientaram e assaltaram uma bomba de gasolina. Ela nem queria acreditar que eram os jovens dela! A desorientação foi tanta que ela não aguentou e teve que sair do bairro, lavada em lágrimas interiores. Parece que tudo está preso com fios muito, muito frágeis. Parece que tudo que se constrói, a qualquer momento pode derrocar. Um miúdo frequenta uma instituição, parece amigo dos monitores, lancha lá, usa os computadores...mas um dia descobre-se que foi ele que forçou numa noite a porta e levou todos os computadores. É difícil perceber, mas é assim. Os alicerces interiores dos miúdos podem a qualquer momento ceder, é muita a pressão do vento.

Ao contrário de outros bairros sociais que deram à volta ao seu estigma, a Bela Vista nunca o conseguiu. E a maior parte das instituições cívicas do bairro, nomeadamente a polícia, vivem lá entricheiradas, não construíram laços com a população como já aconteceu em bairros semelhantes. Nunca vi policiamento a pé no bairro, por vezes passava um carro ou outro, mas sempre com os polícias lá dentro. E parece que já ninguém sabe bem o que fazer, pois já foi muito o dinheiro gasto em projectos e mais projectos.

A forma como este episódio é tratado, isto é, como um litígio entre a polícia e os jovens do bairro, em nada ajuda a perceber o que é fundamental, ou seja que os bairros sociais dos anos 60/70, especialmente os que foram criados numa zona periférica da cidade (como Chelas), numa arquitectura desfasada da população, sem pontes com a cidade (enfiaram as escolas lá dentro, impedindo os miúdos de circular para outras zonas da cidade), são autênticos motores de exclusão social. Dirão que são melhores que os antigos bairros de lata, pois são. Mas isso não é olhar para o futuro, mas para o passado, o que é dramático é não só se continuam a construir este tipo de bairros, como não se encontram soluções para os já construídos.
~CC~

sexta-feira, maio 08, 2009

Vento

Adivinha em que lugar do mundo o vento bate assim forte ?
(como se fosse às vezes o meu coração)
~CC~

quarta-feira, maio 06, 2009

Outras ondas

Já resta pouco da Costa da Caparica antiga, esse mar dos pobres que às portas das margem sul ou nos arredores de Lisboa, não tinham outras ondas que não aquelas do paredão cinzento e inóspito. Nunca fui frequentadora, embora tenha sido lá que encontrei um grande amor. Nesse tempo em que era jovem e amava mais a filosofia que a vida, não gostava por aí além de me despir e entrar pelo mar dentro, preferia enfrentar a brisa da tarde com um xaile preto sobre os ombros e infinitas viagens a passar por dentro de mim.

A costa está a mudar e não sei se é para melhor, porque está esteticamente tão melhor quanto está mais longe de servir o povo que lá vive. A costa é um lugar de pescadores, prostitutas, reformados pobres e muita droga, uma mistura explosiva de um grande mal estar, que apenas o sol sustenta em equilibrio precário. E há ainda um mar revolto e branco, capaz de tudo lavar por dentro.

Ontem apeteceu-me vestir também um fato de surfista, não para me equilibrar na prancha mas para ver os miúdos mais de perto. O surf, pelo preço dos fatos e das pranchas, é um desporto que sempre se aproximou das elites, não é também, ao contrário do que se pensa, fácil de dominar sem umas aulitas de iniciação. Os miúdos da Costa conhecem os surfistas como ninguém, mas a maior parte deles só os conhece a eles e ao desporto de longe, como acontecerá agora com os belos cafés de riscas de madeira que nasceram ao longo do paredão renovado.

Ver como eles cresciam e se tornavam diferentes à medida que vestiam os fatos e entravam com as pranchas mar dentro, é quase como ver os miúdos de rua a entrar um dia universidade dentro. Eles não esqueceram e eu também não, é que na vida destes miúdos são as pequenas luzes que os podem tirar do escuro ou como quem diz, é apenas apanhar uma boa onda. Uma onda boa que os possa levar para longe de tanta miséria. Falo-vos de um pequenos projecto é certo, mas não sei se poderemos esperar mais dos grandes.

~CC~

terça-feira, maio 05, 2009

Montes de gente...

T-O-M. Serra de Bornes, 2009


Se o tempo não me fugisse como areia entre as mãos, ficaria por aqui a contar as histórias, mesmo que ninguém as quisesse ler, acho que as contaria a mim mesmo, é aliás a maior parte das vezes o que faço. Conto-as para não me esquecer.


Um dos meus maiores prazeres é acordar num lugar que não conheço, e só isso me chegaria para explicar o desejo que tenho sempre de partir, de viajar, de descobrir. E se levava comigo uma vontade grande de lavar os olhos com os horizontes que se descobrem atrás de cada monte, o que trouxe de lá foi muito mais que isso. Eu sempre soube que gostava de pessoas, mesmo quando esse sabor é atravessado de algum amargo, mas estarei viva enquanto tiver este prazer da descoberta dos outros e ainda mais quando esses outros são tão diferentes de mim. Não esquecerei assim o modo como ela veio ao nosso encontro, nos levou a avistar o mar feito de terra, nos traçou caminhos pelas aldeias, nos abriu a porta de casa e nos apresentou o seu pai e a sua mãe. Era capaz de ficar ali muito tempo a saber como se cozinha cada um daqueles petiscos e se escolhem os melhores cogumelos, era capaz de ficar muito tempo a saber como é viver e trabalhar em terras remotas e frias, onde a vida pulsa tão dura e tão quente.


As pessoas contam as suas histórias e eu gosto de as ouvir, acho que é esse o princípio de tudo e também da escrita. Trago assim os olhos absurdamente cheios de montes de gente.


~CC~


domingo, maio 03, 2009

Viagens na minha terra

Bragança, Maio 2009
Nesta sala se decidia há muitos séculos os traçados melhores para os caminhos por onde passariam os cavalos e as carroças a caminho da feira.



Os rios, mesmo correndo certeiros pelas malhas dos paisagistas, são sempre lugares por onde o pensamento vai. É bom que habitem o coração das cidades, adornados por jardins cuidados.




Um modo criativo de dar vida a uma estação sem comboios.



Os meus silencios são os lugares das minhas viagens. Calo-me respirando das pedras, dos rios e dos montes, o ar de T-O-M.



PS- Daqui a pouco vou à tua aldeia, JVT. Beijos


~CC~

quarta-feira, abril 29, 2009

Dança

Dançam na água os meninos do meu coração.


~CC~

terça-feira, abril 28, 2009

Envelhecer

Eu disse: estou a ficar velha, nota-se no meu rosto, não nota? Ele disse: estou ainda à espera que envelheças! Eu disse: Como?! Ele disse: gosto delas mais velhas, ainda não envelheceste o suficiente.
~CC~

segunda-feira, abril 27, 2009

Ainda Abril (II)

É simples o meu 25 de Abril, é todo silêncio. Um silêncio estranho e pesado que surgia nos adultos sempre que as crianças entravam na sala. Um calor pesado. Uma leve supeita de que alguma coisa se passava.

Um mês depois os tiros contínuos desde o pôr do sol até ao amanhecer, o medo que não nos deixava dormir. Depois as pontes aéreas Luanda-Lisboa. As malas feitas à pressa, tudo deixado para trás. A minha almofada empurrada para dentro da mala gigante, a maior que já vi. As lágrimas da minha irmã adolescente a escorrer pelo seu rosto calado. O silêncio, um pesado silêncio.

A minha pergunta insistente que demorou dois anos: quando voltamos para casa?

Passei a chamar-me retornada. Retornado era uma coisa que não se queria nem num lado nem no outro, era ser sem terra. De um lado e do outro da fronteira um ódio pequenino, dito de boca fechada.

Dois anos depois num comício do Otelo percebi que o 25 de Abril era afinal uma coisa boa que tinha a ver com flores e alegria. Quís intensamente ser como eles que cantavam felizes, festejei tardiamente é verdade, mas com a intensidade de um belo poema descoberto no raiar da adolescência. E consegui amar a data que dividiu a minha infância ao meio em tristeza e alegria.
~CC~

Ainda Abril (I)

Contamos e recontamos a história desses dias que duraram dois anos. Os blogues enchem-se de cravos e de muitas memórias. Um dia, tudo isto será como no 5 de Outubro de 1910, a vida dessa data fundamental para o país já poucos a contam de viva voz, até que ficará mais nua, depositada apenas nos livros de história.

As memórias, temos a ideia de a nossa memória será também uma parte da história, é também sobre isso a tese que escrevo, em escrita da academia, nesse modo de ser outro e o mesmo eu. E tenho vontade que todas estas memórias sobre o 25 de Abril se possam acrescentar aos factos, enriquecendo-os de vida, de diferença, de emoção. Tudo seria mais rico e intenso se se pudesse ouvir de viva voz nos portugueses que viviam em Trás os Montes, em Pemba-Moçambique, no Rio de Janeiro, em Paris...nos que eram meninos, adolescentes, nos adultos e nos velhos.
~CC~

quinta-feira, abril 23, 2009

Abril

As revoluções deviam ser todas na Primavera porque nada combina melhor com o cheiro inebriante das flores e com o nascimento dos pássaros. Elas também são feitas da ideia de um homem e de um mundo novo, alimentadas dessa esperança da reconstrução das coisas como se tudo fosse possível começar, tudo novo no dia seguinte. E quase com a mesma rapidez que desce o sol, também essa esperança se torna sofrimento no rosto dos revolucionários, mesmo que há muito eles não o sejam mais. Colada a amargura nos seus olhos, só a fugaz memória da revolução a passar por dentro deles lhes traz luz. E vivem uma e mais uma vez tudo. E sofrem porque esse tudo é intrasmissível, nada é aliás tão instransmissível como uma revolução. O que fica é sempre a a infíma parte do que por lá passou. Foi assim em todo o lado.


Comemoro pois a infíma parte que nos sobrou e agradeço por ela, porque é preciosa a Democracia, mesmo imperfeita. O que falta nenhuma revolução nos pode trazer, seria necessário um trabalho sério de reconstrução dos modelos económicos e políticos que seguimos até agora. E isso é mais trabalho de formiga do que de cigarra, por mais encantador que seja o seu (en)canto.


O que eu mais gosto nesta data é mesmo o facto dela me fazer pensar.
~CC~

segunda-feira, abril 20, 2009

Infância

A Cristina fala-nos do frio da sua infância. Ainda que resistindo à deformação profissional de situar na nossa infância a construção definitiva do nosso eu, na medida em que crescemos ainda muito pela vida dentro, não posso deixar de dizer que a infância nos habita para sempre.

No meu caso que nunca tive frio na infância, ele vem acompanhado de uma debilidade dolorosa que foi a minha transição de Àfrica para Portugal. O frio é a minha própria memória da dor. Nunca tive vontade de branco neve, nunca senti belas as tardes escuras de Inverno e chuva, nunca tolerei na minha pele todos os agasalhos que tive que usar. E saltam da minha boca palavras que nunca pensei usar. No outro dia chamei entre amigos morte lenta ao empregado que era manifestamente demorado e parecia detestar o que fazia. E mal as palavras voaram da minha boca já me tinha arrependido de tal ofensa, mas a verdade é que eram esses os termos que o meu pai usava para se referir ao empregado de um café onde costumavámos ir. Esta noite, no meu sonho, conduzia um machibombo de dois andares pelas ruas que eram tanto Lisboa como Luanda, numa mistura só possível quando temos dentro de nós duas cidades amadas. E não era autocarro que lhe chamava, mas sim o meu machibombo...e levava nele os meus amigos a casa como se esse fosse afinal o meu ofício.

A nossa infância é o nosso continente interior, prestes a explodir ao menor impulso.
~CC~

Olhos meus

Viver entre elas, no meio delas, igual a elas. Mas com olhos meus, olhos de ver coisas só minhas.

~CC~

sexta-feira, abril 17, 2009

quinta-feira, abril 16, 2009

Ver

Ver Cristina Branco, kronos...a 18 de Abril no CCB

imagem retirada de http://www.ccb.pt/sites/ccb/pt-PT/Programacao/Musica/Pages/CRISTINA%20BRANCO.aspx


PS- Já chegaram os bilhetes!!! Obrigado mais uma vez.

~CC~

terça-feira, abril 14, 2009

Contrastes

Como pode a crise existir se o Alentejo se cobriu de estevas e elas me entraram olhos dentro, tornando-os amarelos e brancos e suavemente perfumados.


Como pode a crise existir se hoje choveu tanto e a minha rua se cobriu de uma nuvem de gafanhotos pequeninos que pulavam por todo o lado espantados pela sua existência longe da terra natal.


Como pode a crise existir se ainda tenho as pernas a doer dos passeios de bicicleta em busca dos flamingos e as mãos a arder das flores das malvas que trouxe penduradas no volante.


Como pode a crise existir se nasceste do tamanho de uma mão e parecias à morte destinado e ensaias agora no quintal os primeiros passos e palavras e adormeces a sorrir.


Como pode a crise existir se o último folar algarvio que provei era realmente o verdadeiro, tão genuíno quanto as mãos do meu avô que todas as Páscoas fazia do mar uma vila de ameijoas.


Como pode a crise existir se ainda tenho tanto para fazer e preciso de ter esperança para me levantar todos os dias.


Oiço no rádio que o país está à beira da falência e vejo afinal que o meu carro está cheio de desempregados da Quimonda e fecho os olhos para que as estevas possam voltar, mas não se passa nada. Oiço-o ainda a desfiar o orçamento negro da escola, muito mais de metade gasto em pessoal. Sempre que alguém fala em gastos com o pessoal, sabemos que o mais natural é que o céu se torne cinzento. E penso que se este abismo nos absorve, nada mais nos restará.


Mas esta praga de gafanhotos pequeninos de onde veio? Tecnicamente seria impossível esta viagem, e é nisso que me concentro. Concentro-me nesta possibilidade de vir alguma luz deste lugar tão escuro onde andamos.


~CC~

segunda-feira, abril 13, 2009

Sismos

Ao adormecer, costumo pensar no que tenho vestido e estremecer sempre que não vesti nada. A nudez nocturna é tão bela quanto aterradora. A verdade é que penso sempre nos sismos nocturnos, penso em ter que me levantar e fugir a meio da noite. Penso que, tal como em Itália, sairemos para a rua aturdidos debaixo de uma lua tão bela quanto tremente estará a terra. Penso se tal como eu outros pensarão nisto. E odeio tanto dormir com as pernas cobertas, preciso de as sentir nuas durante a noite.


E caminho de um sismo a outro no meio do mesmo medo. Os sismos interiores, esta espécie de tremor que nos varre às vezes e parece não deixar nada de pé na nossa vida. Este efeito devastador das coisas pequenas: a pergunta que não chegou; o beijo que se demorou; um silêncio que se instalou, uma criança que gritou. Os sismos são estes minutos em que podemos perder tudo.


E vou da coragem dos dias em que durmo nua perante a ameaça dos sismos terrenos à coragem de contenção dos sismos interiores, como se uma vez olhados de frente eles se acalmassem, domados pelo vento doce das coisas boas.
~CC~

domingo, abril 12, 2009

Sul

SUL
Onde o mar já nos vai cantando esperança em ondinhas brancas.
~CC~


sábado, abril 11, 2009

Caminhos no arame

O arame estendido entre os dois lados, a certeza de que não conseguirei chegar de uma ponta à outra com êxito. Experimento passar por baixo, pendurando-me com as mãos e passando-as devagar uma à frente da outra e consigo. Mas o público não aplaude, descontentes estão aqueles que ficaram de um lado e do outro do arame. Tento concentrar-me na ideia de que não posso agradar a todos, tento pensar no que me agradaria a mim, no que eu quero. Mas às vezes não consigo, só oiço as vozes dos outros a dizer o que querem, o que eles gostam. Já nem é assim tão difícil gerir tantas e diferentes expectativas, habituei-me a caminhar no arame, arranjando um modo de o ultrapassar e habituei-me à ausência dos aplausos no percurso. Mais difícil continua a ser ter a noção de que para alguns só a minha existência já é um incómodo. Mas também isso me deixará de fazer sofrer um dia.

Bebo o alimento dos sorrisos pequeninos e isso fortalece-me para os caminhos no arame.
~CC~

quarta-feira, abril 08, 2009

Tesouros e Areias

Recomendar as palavras que nos iluminam ou iluminaram é como deixar pedrinhas nos caminhos até nós, até mundos que nos moldaram. Livros que amamos nas mãos daqueles que amamos são beijos intemporais.


Nas mãos deles o Caçador de Tesouros (Clezio) e os Capitães de Areia (Jorge Amado) e entre eles 30 anos da minha vida, 30 anos entre a leitura de um e de outro e no entanto a mesma luz, o mesmo espanto. A leitura é um espaço privado e de silêncio, mas vejo passar os personagens nos olhos deles, e de quando em quando diz-se entre sorrisos o nome de alguém cuja existência salta de dentro do livro para o meio de nós. Hoje ele falou do maravilhoso encontro de duas almas absolutamente sós naquela ilha das Caraíbas, para mim a melhor descrição da descoberta do toque da pele do amor de que tenho memória. E ela falou do miúdo de rua que com 13 anos passava as noites com uma mulher de 30, sem perceber muito bem o que queria dizer ele não passar uma noite sem as coxas dela.


Os livros são viagens maravilhosas e únicas que fazemos pelas mãos dos outros e por isso são tão diferentes das que fazemos com as nossas mãos, mas ambas são da ordem da descoberta do espaço, do encontro com as estrelas.
~CC~

domingo, abril 05, 2009

Esta Primavera

É tempo de lavar o olhar com o nascimento das flores. É tempo de respirar-lhes o aroma para poder fazer a fotossíntese necessária à circulação do sangue nas almas inquietas. É tempo de olhar as andorinhas novas nos terraços brancos do sul e com isso nos tranquilizarmos face à incerteza que nos aflige. Mais logo, fingiremos que as crianças ainda gostam de procurar os ovos de chocolate enterrados pelos quintais, isso retardará o nosso envelhecer. O mar, ainda frio, apesar do sorriso que já nos faz, nos dirá que ainda não é tempo de banhos. É tempo de sonhar a partir de cada pequena coisa que acontece no sítio certo e no lugar certo, pois as coisas erradas parecem amontar-se mais e mais numa espiral negra. É um tempo em que uma pequena coisa boa parece sempre gigantesca, por isso as aponto no meu caderno interior, como se elas fossem o meu rio.
~CC~

quarta-feira, abril 01, 2009

A mentira


A minha mãe tinha-me vestido com o vestido branco, as meias de renda e os sapatos de verniz preto, percebi que era uma ocasião importante. Ele levou-me pela mão e disse que me queria apresentar uma senhora. A senhora muito grande e muito forte colocou-me no seu colo e sorriu muito. Ele olhava para ela derretido. Fez-se em mim um silêncio fundo, e nada nem ninguém foi capaz de o quebrar. Em casa a mãe perguntou: onde foste? E só respondi com o silêncio, o silêncio fundo e triste. Acho que foi o primeiro contacto que tive com a mentira.
~CC~