sexta-feira, maio 22, 2009

Mulheres da minha vida (II)

Tenho dentro de mim infinitas histórias de mulheres e estão sempre a falar comigo como se uma parte da minha vida fosse a delas também. São histórias de amor, mas o que é que não são histórias de amor. Estas duas mulheres eram bonitas, embora bem diferentes. Mas acrescentavam a essa beleza uma energia sem fim, uma vontade de saber mais, uma avidez pela descoberta do mundo. Ambas estudaram e se licenciaram e tiraram mestrados, foi aliás no final desse percurso académico que as conheci. Ambas amavam homens bonitos, morenos, de porte atlético e sorriso aberto. Eram deslumbradas por eles. Um deles era perito em usar as mãos para colocar qualquer máquina a trabalhar e o outro em usar as mãos para delas tirar notas de música pelos bares da cidade onde moravam. E elas valorizavam aqueles homens pelo que eles sabiam e eram. Mas eles não, não se sentiam bem por serem os homens daquelas mulheres bonitas e cultas.

Falo assim delas mas elas não se conheciam, não sabiam nem nunca saberão do paralelismo das suas histórias. E as histórias delas, descontando uma coisinha ou outra, são mesmo estas.


A primeira desconfiou do telemóvel a tocar constantemente, e não resitiu a espreitar as mensagens. Pasmei por a saber capaz de espreitar as mensagens do marido, o primeiro dos actos irreflectidos que cometeu. A seguir ligou para a mulher que ligava sempre ao marido dela e disse que a queria ver. E viu. E viu que ela não era bonita, nem culta, nem interessante aos olhos dela. E nunca mais se esqueceu do que ele lhe disse: ao menos com ela estou à vontade, nunca me sinto "de menos". O que será uma pessoa sentir-se "de menos" perante outra? Que medo tinha aquele homem?


A segunda saiu de casa com uma malinha e não voltou mais, farta do inferno que ele a fazia viver por se sentir sempre "de menos". Soube depois que ele tinha ido estudar e que não só se licenciara como tinha ido fazer um doutoramento em Música para Londres. Há portas que quando se fecham é mesmo porque vale a pena.

Elas continuaram bonitas e sábias e interessantes, mas ganharam uma espécie de desgosto, de desconsolo, de cepticismo. E isto ultrapassa em muito a dicotomia bonita/burra e feia/inteligente e a aposta dos homens numa ou na outra coisa. Agora é tudo muito mais complexo e difícil, no amor como em tudo o resto.
~CC~

quinta-feira, maio 21, 2009

Truques para dias infelizes



É simples, viajar à memória dos dias felizes. É aliás a única utilidade das fotografias domésticas, lembrar-nos que somos capazes de ser espantosamente felizes.
~CC~

quarta-feira, maio 20, 2009

Com pouca fé


Sou normalmente muito tolerante em relação às igrejas e à Igreja Católica em particular. É uma benevolência marcada pelo mistério da vida existir no meio desta galáxia perdida no meio de outras galáxias. Compreendo muito bem que este espanto leve as pessoas em busca de Deus. E depois há os rituais da fé, genuínos e belos se nascidos desse achar que o homem é coisa pequena e frágil. Dito isto, é preciso dizer que da igreja tenho apenas a curta experiência de uns meses na cataquese, passados a cantar, a fazer bolos e a passear pelas alamedas ajardinadas do seminário da Portela, com uma senhora a caminhar para a meia idade, que tomava conta de nós com o mesmo desvelo que qualquer tia faria.

Mas últimamente, e descontando Setúbal, prolífera em bispos proletários, teria me desiludido por completo, caso algum dia me tivesse iludido. O aproveitamente pela igreja desta crise que vivemos tem mostrado uma faceta caritativa que não me convence, a todo o momento é apregoada a bondade do ritual da oferta, mas não se lhes vê uma ideia que possa ajudar a vencer a pobreza. Quase acreditamos que, como no velho regime, bastaria a cada bom e abastado homem alimentar um conjunto de pobres, e tudo ficaria resolvido.

E não só se banalizam rituais antigos, fazendo de lugares de culto, santuários de cimento e betão armado (onde estão as azinheiras? era aí que a nossa senhora gostava de pousar...e isso sim era uma coisa poética) como se inventam outros de um ridículo atroz, santificando uma estátua (falo do Cristo Rei, pois...) que de santa nada tem.

Está chumbada esta Igreja Católica em tempo de crise, não resistir ao aproveitamento do que se passa para tirar dividendos e espalhar a fé, coloca-a ao nível de um partido político qualquer.

~CC~

PS- Que me desculpe a minha querida Madalena....

terça-feira, maio 19, 2009

Calor-cor


Queria uma casa cor de laranja com uma janela amarela e um tecto de caninhas.

Um lugar para ouvir ao longe o mar.

E beijos tão laranjas como a casa, beijos à minha espera, a saber a papaia.

~CC~

segunda-feira, maio 18, 2009

Mariposas e caracoles


Toda a minha vida sonhei com lugares que não conheci e vivi imersa nas saudades dos lugares que amei. Se fechar os olhos, consigo sentir na pele um tango e ouvir a voz de Borges, como se a música e o escritor tivessem crescido comigo e não a milhas de distância. A minha experiência passou apenas pelos pastéis de massa tenra que a minha mãe aprendeu a fazer maravilhosamente bem com uma vizinha argentina. E sim a Argentina é de todos eles o que mais me chama, mesmo se o puser ao lado do Brasil para onde em tempos fugiu metade da minha alma. E a neve mais romântica do mundo só pode ser a do Chile. O Espanhol da América Latina e o Português do Brasil já são línguas outras, são línguas redondas, cantadas, são ventos alados de mariposas. Metade daquele continente é paixão em estado puro. Por isso quanto morre um escritor da América Latina, o mundo empobrece em sonho e em luta, fica mais cru e mais real. Afinal, quem mais nos pode dar poemas como este?

Botella al mar

Pongo estes seis versos en mi botella al mar
con el secreto designio de que algún dia
llegue a una playa desierta
y un nino la encuentre y la destape
y en lugar de versos extraiga piedritas
y socorros y alertas y caracoles.

Mario Benedetti

~CC~

sexta-feira, maio 15, 2009

Paisagem interior

Crepúsculo no rio Tejo.
Segredos da luz enrolada na água.
~CC~

quinta-feira, maio 14, 2009

O meu nome é Vanessa (XVI)

- Diz-me, diz-me então como é que se tornaram verdes os teus olhos...
- Nesse ano aconteceram duas coisas terríveis na minha vida, o meu pai adoeceu gravemente e conheci um homem sol.
- Um homem sol? O que é isso Vanessa?
- Alguém que entra pela tua vida com a intensidade e brilho da luz, mas se te expuseres demais, é capaz de te queimar para sempre.
- E não é sempre assim a paixão?
- Não, não é. Agora não é. Vivo com um homem lua.
- Imagino-o então frio e distante como a lua.
- Não, as noites de luar não são belas?! Mas são serenamente belas e a luz da lua nunca te queima.
- Imagina que vais perder alguém que é teu pai, mas que não sabes se o amas, nunca soubeste. Tu sabes que é teu pai mas que não é um homem bom, que nunca o foi. Não tens memória de lhe ter dado um beijo, nem ele a ti. Lembras as ameaças, as saídas por muitos dias sem dar notícias, o dinheiro que nunca chegava. E agora está ali um velho perdido numa cama de hospital, esquecido do pai que foi, agarra-se a ti com força, quer os teus abraços. E os teus abraços não conseguem acontecer dentro de ti, tens tudo morto por dentro.
~CC~

quarta-feira, maio 13, 2009

Setúbal, por estes dias (II)

Com a polícia e a comunicação social enfiadas dentro do bairro, como se fosse possível vigiar uma população 24h por dia e como se ela precisasse de vigilância, começaram a arder os ecopontos em vários pontos da cidade. Pergunta a minha filha: mãe, porquê os ecopontos, o que é que têm a ver? Explico-lhe que é uma forma de manifestar desagrado, mas ela aceita com dificuldade e compreendo-a. Não sei se já viram um ecoponto ardido mas é desolador, derretido como manteiga e o lixo do seu interior espalhado pelos passeios, é bem a imagem de uma civilização cuja crise é bem maior que a financeira.
~CC~

terça-feira, maio 12, 2009

O meu nome é Vanessa (XVII)

Há quanto tempo não via a Vanessa, pensei mesmo que não voltaria a encontrá-la, não obstante sentir que havia entre nós algo fundamental: ela queria falar, eu queria escutar. Ela queria falar porque nunca tinha sido escutada sem qualquer compromisso, eu queria escutar porque me tinha treinado a fazê-lo por motivos profissionais e já quase não o sabia fazer sem ser por isso. Para mim era a capacidade de me relacionar com uma mulher que estava em jogo, estar com ela sem ter outro objectivo que não fosse o de a conhecer, de saber dela, de integrar a sua história na minha vida. Creio que já vos disse antes: a minha vida foi uma sucessão de amores impossíveis porque acho que os escolhi por serem assim, tinha medo de ter de os viver a sério.

Deixámos a sua história interrompida entre o seu quarto homem e quinto homem, nos seus 23 anos. Nenhum desses seus relacionamentos tinha sido luminoso, embora no segundo tivesse sido amada por um rapaz solitário e obssessivo. Ela nunca tinha amado, não havia nenhum registo de paixões adolescentes porque ela também não tivera propriamente adolescência e aos 16 já tinha provado do sexo o sabor mais amargo que há. Entre o abuso do tio, o abuso do chefe de secção da fábrica e do próprio marido, havia apenas o consentimento dos segundos face à força do primeiro. Se um corpo não amado é um corpo só, era assim o corpo da Vanessa, curvado precocemente sobre si mesmo, os dedos amarelados do fumo, os olhos da cor dos dedos.

Liguei-lhe para dizer que agora que a Primavera se esforçava por chegar, tinha saudades das nossas conversas na esplanada. E foi neste último dia que ela me perguntou a cor dos seus olhos e eu lhe disse que eram amarelos. E ela disse: mas já foram verdes, sabe? E eu imaginei-a ruiva de olhos verdes. E ela continuou: porque os olhos das mulheres que se apaixonam mudam de cor.

Imaginei então o verde das árvores a entrar dentro dos olhos amarelos da Vanessa.
~CC~

domingo, maio 10, 2009

Setúbal, por estes dias.

Há duas novas inscrições próximo da zona urbana de Setúbal onde moro. A primeira insulta os ciganos, a segunda tem a marca dos acontecimentos recentes. Detenho-me na segunda: Bela Vista em todo o lado, tocam num, tocam em todos. E é isto que é diferente em relação ao que já conhecemos, é a raiva e o descontentamento a avançarem pela cidade. E a necessidade de afirmar uma identidade de bairro, uma identidade em tom de ameaça.

Durante dois anos, através de um programa de voluntariado, integrei estudantes do ensino superior nas instituições de crianças e de jovens do bairro. Alguns nunca tinham estado num bairro com aquelas características, nem com pessoas cuja origem étnica ou de nacionalidade (quase sempre dos pais, quando não de avós) ainda marca os quotidianos, uma pertença cultural completamente transformada é certo, mais ainda assim presente. Para além do abanão interior que muitos deles tiveram pelo contacto com uma zona assim excluída e auto-excluída, não houve registo de nenhuma agressão ou roubo pessoal e houve histórias de pequenos sucessos, pequenos porque são assim em relação ao que sonhámos no início.

Houve medo sim, eu própria que saí de lá às vezes já noite cerrada o tive, mas é preciso dar a volta a esse medo, sem nos esquecermos dele. E não esqueço aquele dia em que deixei o carro aberto com uma mala e um computador dentro da bagageira e nada aconteceu. E lembro o lançamento do jornal "Vozes do Bairro" feito na minha escola e as reservas dos monitores em levarem até lá as crianças e jovens, mas correu tudo bem, mesmo muito bem. Estou convencida que não há mudança sem pontes com o exterior, sem circulação das pessoas do bairro para fora e dos de fora para dentro.

Durante esses dois anos houve sim assaltos constantes às instalações das instituições do bairro, algumas delas nascidas da vontade dos próprios habitantes e isso torna o bairro especialmente duro. Lembro-me de uma animadora que lá trabalhou mais de dez anos, ela considerava que aquele grupo com quem tentava partilhar a ideia de que se pode sair da miséria e construir uma vida diferente, estava a salvo. Até um fim de semana em que eles se dosorientaram e assaltaram uma bomba de gasolina. Ela nem queria acreditar que eram os jovens dela! A desorientação foi tanta que ela não aguentou e teve que sair do bairro, lavada em lágrimas interiores. Parece que tudo está preso com fios muito, muito frágeis. Parece que tudo que se constrói, a qualquer momento pode derrocar. Um miúdo frequenta uma instituição, parece amigo dos monitores, lancha lá, usa os computadores...mas um dia descobre-se que foi ele que forçou numa noite a porta e levou todos os computadores. É difícil perceber, mas é assim. Os alicerces interiores dos miúdos podem a qualquer momento ceder, é muita a pressão do vento.

Ao contrário de outros bairros sociais que deram à volta ao seu estigma, a Bela Vista nunca o conseguiu. E a maior parte das instituições cívicas do bairro, nomeadamente a polícia, vivem lá entricheiradas, não construíram laços com a população como já aconteceu em bairros semelhantes. Nunca vi policiamento a pé no bairro, por vezes passava um carro ou outro, mas sempre com os polícias lá dentro. E parece que já ninguém sabe bem o que fazer, pois já foi muito o dinheiro gasto em projectos e mais projectos.

A forma como este episódio é tratado, isto é, como um litígio entre a polícia e os jovens do bairro, em nada ajuda a perceber o que é fundamental, ou seja que os bairros sociais dos anos 60/70, especialmente os que foram criados numa zona periférica da cidade (como Chelas), numa arquitectura desfasada da população, sem pontes com a cidade (enfiaram as escolas lá dentro, impedindo os miúdos de circular para outras zonas da cidade), são autênticos motores de exclusão social. Dirão que são melhores que os antigos bairros de lata, pois são. Mas isso não é olhar para o futuro, mas para o passado, o que é dramático é não só se continuam a construir este tipo de bairros, como não se encontram soluções para os já construídos.
~CC~

sexta-feira, maio 08, 2009

Vento

Adivinha em que lugar do mundo o vento bate assim forte ?
(como se fosse às vezes o meu coração)
~CC~

quarta-feira, maio 06, 2009

Outras ondas

Já resta pouco da Costa da Caparica antiga, esse mar dos pobres que às portas das margem sul ou nos arredores de Lisboa, não tinham outras ondas que não aquelas do paredão cinzento e inóspito. Nunca fui frequentadora, embora tenha sido lá que encontrei um grande amor. Nesse tempo em que era jovem e amava mais a filosofia que a vida, não gostava por aí além de me despir e entrar pelo mar dentro, preferia enfrentar a brisa da tarde com um xaile preto sobre os ombros e infinitas viagens a passar por dentro de mim.

A costa está a mudar e não sei se é para melhor, porque está esteticamente tão melhor quanto está mais longe de servir o povo que lá vive. A costa é um lugar de pescadores, prostitutas, reformados pobres e muita droga, uma mistura explosiva de um grande mal estar, que apenas o sol sustenta em equilibrio precário. E há ainda um mar revolto e branco, capaz de tudo lavar por dentro.

Ontem apeteceu-me vestir também um fato de surfista, não para me equilibrar na prancha mas para ver os miúdos mais de perto. O surf, pelo preço dos fatos e das pranchas, é um desporto que sempre se aproximou das elites, não é também, ao contrário do que se pensa, fácil de dominar sem umas aulitas de iniciação. Os miúdos da Costa conhecem os surfistas como ninguém, mas a maior parte deles só os conhece a eles e ao desporto de longe, como acontecerá agora com os belos cafés de riscas de madeira que nasceram ao longo do paredão renovado.

Ver como eles cresciam e se tornavam diferentes à medida que vestiam os fatos e entravam com as pranchas mar dentro, é quase como ver os miúdos de rua a entrar um dia universidade dentro. Eles não esqueceram e eu também não, é que na vida destes miúdos são as pequenas luzes que os podem tirar do escuro ou como quem diz, é apenas apanhar uma boa onda. Uma onda boa que os possa levar para longe de tanta miséria. Falo-vos de um pequenos projecto é certo, mas não sei se poderemos esperar mais dos grandes.

~CC~

terça-feira, maio 05, 2009

Montes de gente...

T-O-M. Serra de Bornes, 2009


Se o tempo não me fugisse como areia entre as mãos, ficaria por aqui a contar as histórias, mesmo que ninguém as quisesse ler, acho que as contaria a mim mesmo, é aliás a maior parte das vezes o que faço. Conto-as para não me esquecer.


Um dos meus maiores prazeres é acordar num lugar que não conheço, e só isso me chegaria para explicar o desejo que tenho sempre de partir, de viajar, de descobrir. E se levava comigo uma vontade grande de lavar os olhos com os horizontes que se descobrem atrás de cada monte, o que trouxe de lá foi muito mais que isso. Eu sempre soube que gostava de pessoas, mesmo quando esse sabor é atravessado de algum amargo, mas estarei viva enquanto tiver este prazer da descoberta dos outros e ainda mais quando esses outros são tão diferentes de mim. Não esquecerei assim o modo como ela veio ao nosso encontro, nos levou a avistar o mar feito de terra, nos traçou caminhos pelas aldeias, nos abriu a porta de casa e nos apresentou o seu pai e a sua mãe. Era capaz de ficar ali muito tempo a saber como se cozinha cada um daqueles petiscos e se escolhem os melhores cogumelos, era capaz de ficar muito tempo a saber como é viver e trabalhar em terras remotas e frias, onde a vida pulsa tão dura e tão quente.


As pessoas contam as suas histórias e eu gosto de as ouvir, acho que é esse o princípio de tudo e também da escrita. Trago assim os olhos absurdamente cheios de montes de gente.


~CC~


domingo, maio 03, 2009

Viagens na minha terra

Bragança, Maio 2009
Nesta sala se decidia há muitos séculos os traçados melhores para os caminhos por onde passariam os cavalos e as carroças a caminho da feira.



Os rios, mesmo correndo certeiros pelas malhas dos paisagistas, são sempre lugares por onde o pensamento vai. É bom que habitem o coração das cidades, adornados por jardins cuidados.




Um modo criativo de dar vida a uma estação sem comboios.



Os meus silencios são os lugares das minhas viagens. Calo-me respirando das pedras, dos rios e dos montes, o ar de T-O-M.



PS- Daqui a pouco vou à tua aldeia, JVT. Beijos


~CC~

quarta-feira, abril 29, 2009

Dança

Dançam na água os meninos do meu coração.


~CC~

terça-feira, abril 28, 2009

Envelhecer

Eu disse: estou a ficar velha, nota-se no meu rosto, não nota? Ele disse: estou ainda à espera que envelheças! Eu disse: Como?! Ele disse: gosto delas mais velhas, ainda não envelheceste o suficiente.
~CC~

segunda-feira, abril 27, 2009

Ainda Abril (II)

É simples o meu 25 de Abril, é todo silêncio. Um silêncio estranho e pesado que surgia nos adultos sempre que as crianças entravam na sala. Um calor pesado. Uma leve supeita de que alguma coisa se passava.

Um mês depois os tiros contínuos desde o pôr do sol até ao amanhecer, o medo que não nos deixava dormir. Depois as pontes aéreas Luanda-Lisboa. As malas feitas à pressa, tudo deixado para trás. A minha almofada empurrada para dentro da mala gigante, a maior que já vi. As lágrimas da minha irmã adolescente a escorrer pelo seu rosto calado. O silêncio, um pesado silêncio.

A minha pergunta insistente que demorou dois anos: quando voltamos para casa?

Passei a chamar-me retornada. Retornado era uma coisa que não se queria nem num lado nem no outro, era ser sem terra. De um lado e do outro da fronteira um ódio pequenino, dito de boca fechada.

Dois anos depois num comício do Otelo percebi que o 25 de Abril era afinal uma coisa boa que tinha a ver com flores e alegria. Quís intensamente ser como eles que cantavam felizes, festejei tardiamente é verdade, mas com a intensidade de um belo poema descoberto no raiar da adolescência. E consegui amar a data que dividiu a minha infância ao meio em tristeza e alegria.
~CC~

Ainda Abril (I)

Contamos e recontamos a história desses dias que duraram dois anos. Os blogues enchem-se de cravos e de muitas memórias. Um dia, tudo isto será como no 5 de Outubro de 1910, a vida dessa data fundamental para o país já poucos a contam de viva voz, até que ficará mais nua, depositada apenas nos livros de história.

As memórias, temos a ideia de a nossa memória será também uma parte da história, é também sobre isso a tese que escrevo, em escrita da academia, nesse modo de ser outro e o mesmo eu. E tenho vontade que todas estas memórias sobre o 25 de Abril se possam acrescentar aos factos, enriquecendo-os de vida, de diferença, de emoção. Tudo seria mais rico e intenso se se pudesse ouvir de viva voz nos portugueses que viviam em Trás os Montes, em Pemba-Moçambique, no Rio de Janeiro, em Paris...nos que eram meninos, adolescentes, nos adultos e nos velhos.
~CC~

quinta-feira, abril 23, 2009

Abril

As revoluções deviam ser todas na Primavera porque nada combina melhor com o cheiro inebriante das flores e com o nascimento dos pássaros. Elas também são feitas da ideia de um homem e de um mundo novo, alimentadas dessa esperança da reconstrução das coisas como se tudo fosse possível começar, tudo novo no dia seguinte. E quase com a mesma rapidez que desce o sol, também essa esperança se torna sofrimento no rosto dos revolucionários, mesmo que há muito eles não o sejam mais. Colada a amargura nos seus olhos, só a fugaz memória da revolução a passar por dentro deles lhes traz luz. E vivem uma e mais uma vez tudo. E sofrem porque esse tudo é intrasmissível, nada é aliás tão instransmissível como uma revolução. O que fica é sempre a a infíma parte do que por lá passou. Foi assim em todo o lado.


Comemoro pois a infíma parte que nos sobrou e agradeço por ela, porque é preciosa a Democracia, mesmo imperfeita. O que falta nenhuma revolução nos pode trazer, seria necessário um trabalho sério de reconstrução dos modelos económicos e políticos que seguimos até agora. E isso é mais trabalho de formiga do que de cigarra, por mais encantador que seja o seu (en)canto.


O que eu mais gosto nesta data é mesmo o facto dela me fazer pensar.
~CC~

segunda-feira, abril 20, 2009

Infância

A Cristina fala-nos do frio da sua infância. Ainda que resistindo à deformação profissional de situar na nossa infância a construção definitiva do nosso eu, na medida em que crescemos ainda muito pela vida dentro, não posso deixar de dizer que a infância nos habita para sempre.

No meu caso que nunca tive frio na infância, ele vem acompanhado de uma debilidade dolorosa que foi a minha transição de Àfrica para Portugal. O frio é a minha própria memória da dor. Nunca tive vontade de branco neve, nunca senti belas as tardes escuras de Inverno e chuva, nunca tolerei na minha pele todos os agasalhos que tive que usar. E saltam da minha boca palavras que nunca pensei usar. No outro dia chamei entre amigos morte lenta ao empregado que era manifestamente demorado e parecia detestar o que fazia. E mal as palavras voaram da minha boca já me tinha arrependido de tal ofensa, mas a verdade é que eram esses os termos que o meu pai usava para se referir ao empregado de um café onde costumavámos ir. Esta noite, no meu sonho, conduzia um machibombo de dois andares pelas ruas que eram tanto Lisboa como Luanda, numa mistura só possível quando temos dentro de nós duas cidades amadas. E não era autocarro que lhe chamava, mas sim o meu machibombo...e levava nele os meus amigos a casa como se esse fosse afinal o meu ofício.

A nossa infância é o nosso continente interior, prestes a explodir ao menor impulso.
~CC~

Olhos meus

Viver entre elas, no meio delas, igual a elas. Mas com olhos meus, olhos de ver coisas só minhas.

~CC~

sexta-feira, abril 17, 2009

quinta-feira, abril 16, 2009

Ver

Ver Cristina Branco, kronos...a 18 de Abril no CCB

imagem retirada de http://www.ccb.pt/sites/ccb/pt-PT/Programacao/Musica/Pages/CRISTINA%20BRANCO.aspx


PS- Já chegaram os bilhetes!!! Obrigado mais uma vez.

~CC~

terça-feira, abril 14, 2009

Contrastes

Como pode a crise existir se o Alentejo se cobriu de estevas e elas me entraram olhos dentro, tornando-os amarelos e brancos e suavemente perfumados.


Como pode a crise existir se hoje choveu tanto e a minha rua se cobriu de uma nuvem de gafanhotos pequeninos que pulavam por todo o lado espantados pela sua existência longe da terra natal.


Como pode a crise existir se ainda tenho as pernas a doer dos passeios de bicicleta em busca dos flamingos e as mãos a arder das flores das malvas que trouxe penduradas no volante.


Como pode a crise existir se nasceste do tamanho de uma mão e parecias à morte destinado e ensaias agora no quintal os primeiros passos e palavras e adormeces a sorrir.


Como pode a crise existir se o último folar algarvio que provei era realmente o verdadeiro, tão genuíno quanto as mãos do meu avô que todas as Páscoas fazia do mar uma vila de ameijoas.


Como pode a crise existir se ainda tenho tanto para fazer e preciso de ter esperança para me levantar todos os dias.


Oiço no rádio que o país está à beira da falência e vejo afinal que o meu carro está cheio de desempregados da Quimonda e fecho os olhos para que as estevas possam voltar, mas não se passa nada. Oiço-o ainda a desfiar o orçamento negro da escola, muito mais de metade gasto em pessoal. Sempre que alguém fala em gastos com o pessoal, sabemos que o mais natural é que o céu se torne cinzento. E penso que se este abismo nos absorve, nada mais nos restará.


Mas esta praga de gafanhotos pequeninos de onde veio? Tecnicamente seria impossível esta viagem, e é nisso que me concentro. Concentro-me nesta possibilidade de vir alguma luz deste lugar tão escuro onde andamos.


~CC~

segunda-feira, abril 13, 2009

Sismos

Ao adormecer, costumo pensar no que tenho vestido e estremecer sempre que não vesti nada. A nudez nocturna é tão bela quanto aterradora. A verdade é que penso sempre nos sismos nocturnos, penso em ter que me levantar e fugir a meio da noite. Penso que, tal como em Itália, sairemos para a rua aturdidos debaixo de uma lua tão bela quanto tremente estará a terra. Penso se tal como eu outros pensarão nisto. E odeio tanto dormir com as pernas cobertas, preciso de as sentir nuas durante a noite.


E caminho de um sismo a outro no meio do mesmo medo. Os sismos interiores, esta espécie de tremor que nos varre às vezes e parece não deixar nada de pé na nossa vida. Este efeito devastador das coisas pequenas: a pergunta que não chegou; o beijo que se demorou; um silêncio que se instalou, uma criança que gritou. Os sismos são estes minutos em que podemos perder tudo.


E vou da coragem dos dias em que durmo nua perante a ameaça dos sismos terrenos à coragem de contenção dos sismos interiores, como se uma vez olhados de frente eles se acalmassem, domados pelo vento doce das coisas boas.
~CC~

domingo, abril 12, 2009

Sul

SUL
Onde o mar já nos vai cantando esperança em ondinhas brancas.
~CC~


sábado, abril 11, 2009

Caminhos no arame

O arame estendido entre os dois lados, a certeza de que não conseguirei chegar de uma ponta à outra com êxito. Experimento passar por baixo, pendurando-me com as mãos e passando-as devagar uma à frente da outra e consigo. Mas o público não aplaude, descontentes estão aqueles que ficaram de um lado e do outro do arame. Tento concentrar-me na ideia de que não posso agradar a todos, tento pensar no que me agradaria a mim, no que eu quero. Mas às vezes não consigo, só oiço as vozes dos outros a dizer o que querem, o que eles gostam. Já nem é assim tão difícil gerir tantas e diferentes expectativas, habituei-me a caminhar no arame, arranjando um modo de o ultrapassar e habituei-me à ausência dos aplausos no percurso. Mais difícil continua a ser ter a noção de que para alguns só a minha existência já é um incómodo. Mas também isso me deixará de fazer sofrer um dia.

Bebo o alimento dos sorrisos pequeninos e isso fortalece-me para os caminhos no arame.
~CC~

quarta-feira, abril 08, 2009

Tesouros e Areias

Recomendar as palavras que nos iluminam ou iluminaram é como deixar pedrinhas nos caminhos até nós, até mundos que nos moldaram. Livros que amamos nas mãos daqueles que amamos são beijos intemporais.


Nas mãos deles o Caçador de Tesouros (Clezio) e os Capitães de Areia (Jorge Amado) e entre eles 30 anos da minha vida, 30 anos entre a leitura de um e de outro e no entanto a mesma luz, o mesmo espanto. A leitura é um espaço privado e de silêncio, mas vejo passar os personagens nos olhos deles, e de quando em quando diz-se entre sorrisos o nome de alguém cuja existência salta de dentro do livro para o meio de nós. Hoje ele falou do maravilhoso encontro de duas almas absolutamente sós naquela ilha das Caraíbas, para mim a melhor descrição da descoberta do toque da pele do amor de que tenho memória. E ela falou do miúdo de rua que com 13 anos passava as noites com uma mulher de 30, sem perceber muito bem o que queria dizer ele não passar uma noite sem as coxas dela.


Os livros são viagens maravilhosas e únicas que fazemos pelas mãos dos outros e por isso são tão diferentes das que fazemos com as nossas mãos, mas ambas são da ordem da descoberta do espaço, do encontro com as estrelas.
~CC~

domingo, abril 05, 2009

Esta Primavera

É tempo de lavar o olhar com o nascimento das flores. É tempo de respirar-lhes o aroma para poder fazer a fotossíntese necessária à circulação do sangue nas almas inquietas. É tempo de olhar as andorinhas novas nos terraços brancos do sul e com isso nos tranquilizarmos face à incerteza que nos aflige. Mais logo, fingiremos que as crianças ainda gostam de procurar os ovos de chocolate enterrados pelos quintais, isso retardará o nosso envelhecer. O mar, ainda frio, apesar do sorriso que já nos faz, nos dirá que ainda não é tempo de banhos. É tempo de sonhar a partir de cada pequena coisa que acontece no sítio certo e no lugar certo, pois as coisas erradas parecem amontar-se mais e mais numa espiral negra. É um tempo em que uma pequena coisa boa parece sempre gigantesca, por isso as aponto no meu caderno interior, como se elas fossem o meu rio.
~CC~

quarta-feira, abril 01, 2009

A mentira


A minha mãe tinha-me vestido com o vestido branco, as meias de renda e os sapatos de verniz preto, percebi que era uma ocasião importante. Ele levou-me pela mão e disse que me queria apresentar uma senhora. A senhora muito grande e muito forte colocou-me no seu colo e sorriu muito. Ele olhava para ela derretido. Fez-se em mim um silêncio fundo, e nada nem ninguém foi capaz de o quebrar. Em casa a mãe perguntou: onde foste? E só respondi com o silêncio, o silêncio fundo e triste. Acho que foi o primeiro contacto que tive com a mentira.
~CC~

terça-feira, março 31, 2009

Sem palavras

Moçambique, Novembro de 2007


Estava sentada naquela pequena sala da faculdade em Lisboa a tentar explicar porque é que 2007-08 tinha sido um ano nulo do ponto de vista da evolução do meu trabalho académico mas tinha sido um dos mais ricos da minha vida. E dizia-lhe: é que fui a Angola, Moçambique e Cabo Verde. Mas ao dizer isto não dizia realmente nada. Devia ter-lhe explicado que por ter ido consegui compreender a notícia sobre a morte dos missionários no norte de Moçambique, aquela horrivel notícia sobre a população enfurecida ter encerrado três missionários numa palhota e lhe ter largado fogo. Explicaram que os missionários andavam a espalhar a cólera, embora eles distribuíssem cloro. Eu estive ainda mais, muito mais a norte.

Nesta família, que posa assim para nós em toda a sua integridade e à qual pedi autorização para a foto (procedimento obrigatório em África), apenas dois falam Português, o chede da aldeia e o rapaz mais jovem dos óculos escuros. Ele porque já não vive na aldeia mas na vila sede do distrito e foi à escola, apesar de a ter abandonado cedo para guiar o seu taxi. O chefe da família porque o intercâmbio com os portugueses no tempo colonial o obrigou a aprender, sabe o português coloquial, mas não sei se saberá escrever. A mulher só sorria e largou umas gargalhadas inesquecíveis quando lhe mostrei a foto no écran da máquina, nunca tinha visto nenhuma. Esta é a família mais abastada da aldeia e teve para connosco um acolhimento contido mas simpático.

Nesta aldeia como em tantas outras do norte de Moçambique as crianças não vão à escola e a economia local faz-se com meia dúzia de cabras colectivas, mangas e papaias que crescem abudantemente por todo o lado sem nenhum esforço e há às vezes uma horta colectiva ou pequenas hortas junto às palhotas. Aqui nesta aldeia também havia peixe, mas era quase todo comprado pelos comerciantes da vila que vinham esperar os barcos. Sim, é verdade, para quem percebe mal o Português é possível confundir cloro com cólera. Não é preciso por isso atear fogo às pessoas, pois não, não é. Mas quando nunca se saiu desta aldeia, nunca se foi à escola, nunca se conviveu com brancos (ou outras cores de pele), não se compreende o que nos procuram dizer, e se venera o feiticeiro local, as coisas podem extremar-se assim. É esta África que nos assusta e me assustou também, habituados que estamos à mediação pela linguagem e pela comunicação, sentimos por vezes que não temos modo de chegar às pessoas, de nos fazermos entender. Penso nos missionários que morreram com imenso pesar e penso igualmente com pesar naqueles que o fizeram, são mundos sem pontes os deles. E, no entanto, se nas aldeias havia junto às palhotas uma tenda, sabíamos que era uma ONG, fosse católica ou não. É louvável a persistência dos que vão, mas vão muitas vezes sem qualquer preparação que lhes permita uma abordagem intercultural do mundo.
~CC~

domingo, março 29, 2009

Entre azul e negro

Acontece-me andar com um pesadelo dentro de mim. E depois em vez de o sonhar, sonho outros igualmente maus. O homem que vinha roubar-te pela metade os legumes da horta, levava meia couve de bróculos, levava metade de uma alface, levava meia papaia. Deixava sempre as metades que não levava no parapeito da janela, mas como nem sempre as encontravas logo, elas ficavam cobertas de formigas. Eu a tentar dizer-te que só podia ser um ladrão bom, pois levava apenas metade do que roubava. E tu a dizer que não, que era uma forma de nos causar medo. E esperavas por ele escondido, sempre com uma tesoura de podar na mão.

Acontece-me não sonhar com o pesadelo que trago dentro de mim. Os dias que tenho levado a pensar no homem que deixou o filho dentro do carro. Os dias a viajar no horror desse episódio sem outra explicação que não seja a sombra que habita cada um de nós. As pessoas a dizerem que deveria ser encerrado num carro também e morrer do mesmo modo que morreu a criança. Eu a dizer-te: eu não conseguia perdoar a morte de um filho, eu nunca mais quereria ver este homem. E assim que as palavras saíram da minha boca o horror que senti de mim própria por não ser capaz de perdão. Eu tinha dito, as palavras estavam ditas, eu tinha acabado de as dizer à minha filha e ela tinha ficado num silêncio estranho que piorou ainda mais a forma como me sentia. Penso muito neste homem, no que as pessoas disseram, no modo como anunciaram que só a sua própria morte lhe podia trazer paz. Penso no desejo de morte que pode existir quando fazemos o pior possível a alguém que amamos, mesmo que essa intenção não tenha existido. Penso que não haverá sofrimento maior. E justifico este homem quando disse eu própria que não o perdoaria. Parece que era bom pai, quem sabe a pressão no emprego era terrível, estava provavelmente muito atrasado, os quotidianos hoje são aterradores...procuro em mim o perdão que não tenho, como se por o dizer aos outros, ele se tornasse verdadeiro dentro de mim. E do mesmo modo que me arrepio com a justiça popular, não consigo encontrar o perdão necessário.

Procuro afastar de mim o pesadelo, procuro um sonho bom, daqueles que nos apetece encomendar para adormecer. E apareces tu, a dizer que não tarda haverá rosas vermelhas pequeninas no quintal. Aparece a minha filha montada num cavalo branco, a sorrir muito e a dizer "mãe, já sei andar tão bem"...e queria segurar-vos assim nesse instante feliz e dormir a sorrir.
~CC~

quinta-feira, março 26, 2009

Coisas escritas na cidade (I)


Não consigo perceber como aparece o que eu sinto assim escrito em anúncios pela cidade.
~CC~

quarta-feira, março 25, 2009

Exiba os seus fãs!

Pronto, pronto blogspot, não insistas mais...vou trocar-te as voltas e digo que gosto destes:

http://sem-se-ver.blogspot.com/
Onde a música combina com sentido de humor e atenção ao mundo...

http://segundalingua.blogspot.com/
Belos e densos textos que me tocam, comovem, interrogam...

http://conto-de-fuga.blogspot.com/
Porque gosto de "raparigas da direita... "

É bom descobrir outros mundos para além dos muito conhecidos. E dos muito conhecidos há alguns que também gosto e outros que nem por isso. Entre os que mais gosto, de facto a "Terceira noite"(http://aterceiranoite.wordpress.com/) pela atenção profunda e cuidada que põe em cada coisa escrita, em cada visita que lhe fazemos há sempre alguma coisa aprendida.
~CC~

terça-feira, março 24, 2009

Democracia

O braço caído e os outros levantados. Os outros braços caídos e o meu a levantar-se. Foi assim nas duas últimas vezes, uma a seguir à outra. Não é ser sequer minoria, é apenas ser um pouco mais que nada. A ambiguidade dos meus sentimentos: o orgulho de conseguir erguer o braço sozinha; o medo de quando ele baixar ter a certeza que arranjei mais e mais sombra.
~CC~

segunda-feira, março 23, 2009

O meu nome é Vanessa (XVI)



Sei que pensas que não sei o que é a solidão porque aos 30 anos já tive sete homens, mas posso dizer-te, falar-te daquele ano de aridez absoluta em que deixei o meu corpo repousar das mãos masculinas que não sabiam amar. E olha que são poucas, mesmo muito poucas as mãos de um homem que sabem afagar uma mulher, escolher os lugares em que ela reage, marcá-los como quem marca oásis no mapa. As mãos de um homem sabem só do seu próprio corpo, não conhecem a diferença. Posso dizer-te que dos sete apenas dois tinham mãos que sabiam ver, o que não deixa de ser bom, a maioria das mulheres não conheceu nenhum.


Aos 24 anos tinha tido o cunhado violador, o marialva da fábrica, o rapaz enloquecido de amor e o homem névoa. Percebes que só queria descansar? E durante os primeiros meses a solidão era o nome da minha mais profunda alegria. Mas num dia que não sei precisar, o silêncio da casa levantou-se desesperadamente contra mim e só queria falar com alguém, só queria um abraço, queria-o desesperadamente, queria-o para existir.


Liguei à minha mãe mas assim que a ouvi falar do outro lado da linha, não fui capaz de dizer nada. Liguei à minha irmã que me disse que não podia falar, que ligasse mais tarde. Liguei para o rapaz que me tinha amado mas disseram que o número não existia. Liguei para uma linha de ajuda e disseram que dentro de momentos atenderiam a minha chamada. Desliguei.


Hoje, talvez te ligasse a ti. Tu virias?

~CC~

domingo, março 22, 2009

A despacho


Ordenei a legislação da matéria em estudo por períodos dos nossos 34 anos de Democracia. Não gosto particularmente deste material, e tardo sempre em pensar como o irei ler ou usar. Por isso, fechei o dossier, convencida de que podia dar os parabéns a mim própria só por o ter feito. Mas intimamente sabia que era quase nada o que tinha produzido. Deve ter sido esse o incómodo que me fez sonhar a noite inteira com Diários da República, abria dossier e dossier de modo frenético e lia e lia, assinalando as assinaturas finais de cada decreto e sublinhando isso no meu quadro de governos/legislaturas. Até que num deles era clara uma assinatura original; vinha assinado por Deus. O espanto ou o susto foi tanto que acordei.

~CC~

sábado, março 21, 2009

Poesia

- Mãe, o que é um poeta?
- É alguém que faz poesia.
- Mas porque é que ele a faz e os outros não?
- Porque tem os olhos maiores e mais abertos.
- Mas há pessoas com olhos grandes que não são poetas!
- Porque têm os ouvidos grandes, capazes de ouvir muito bem.
- Oh mãe, esses são os músicos...
- Pessoas com o coração transparente?! Achas que pode ser?
- Não, esses estão sempre a chorar.
- Pessoas que estão sempre a ver tudo por dentro?
- Esses são os Psicólogos! E tira-se um curso para aprender...
- Então não sei, a poesia não tem explicação!
- Isso sim, é uma boa explicação.
- Dizer que não sei é uma boa explicação?
- Sim, há pessoas que acham que sabem tudo, há coisas que não podemos saber.

~CC~

quinta-feira, março 19, 2009

Quem lá vem...



" Queríamos mão de obra e chegaram pessoas"

Fernando Alves (esta manhã nos seus sinais na TSF), referindo como autor da frase alguém cujo nome não fixei, talvez porque a frase é tão poderosa que fez eco cá dentro.

~CC~

segunda-feira, março 16, 2009

Dias


O pessegueiro mostrou as florinhas rosa que aconchegou durante o Inverno. O lírio branco veio à frente a chamar os outros para a luz. As papaias amadurecem como se estivessem na sua terra, mas a secura das folhas queimadas pelo frio mostra que a preferência é ainda o calor. As meninas, tontas pelo sol e pelo início da adolescência tomaram frenéticas o primeiro banho e estenderam-se ao sol para dourar as suas peles ainda meninas. As ondas mansinhas foram e vieram para trazer som às conversas de fim de tarde na praia. Os pés nus a enterrarem-se na areia ainda fria e húmida, desmentiam a gravidade do momento que atravessamos, o da vida colectiva e o da nossa. O sol torna leve o que é pesado e as flores e as andorinhas quando chegam trazem a tudo esperança. Na manhã seguinte há um passeio de bicicleta entre salinas, inúmeras passagens de nível sem guarda, casas arruínadas e um verde ainda orvalhado, há pequenas paragens para beijos.

A pasta dos livros fica quieta e os trabalhos arrumados, percebo a gravidade do meu acto ao mesmo tempo que sinto que para alguma coisa nasci com asas. E se às vezes elas me pesam e queria arrancá-las, de outras uso-as realmente para voar.


~CC~




sexta-feira, março 13, 2009

O meu nome é Vanessa (XV)

Três anos, foram três anos apenas que vivi com aquele estranho. Entre ele e mim a necessidade de fazer o jantar, lavar e passar a roupa, ir ao supermercado comprar a comida, ligar a televisão de vez em quando. Entre ele e eu um acordo de sombras chamado casamento. A minha saída autorizada do inferno que era a minha família, ele foi pelo menos um passo em direcção ao nada. E deserto é melhor que inferno, é um lugar onde o fogo não nos devora.

Oiço esta mulher falar com a frontalidade que nunca tive. Ela fala do amor como um lugar que nunca existiu, eu, pelo contrário, fui rodeado de um afecto que nunca soube corresponder. Lembro a minha mãe a entrar no quarto todas as noites para dizer: boa noite filho. E eu, por último já nem conseguia responder, fingia que estava a dormir. Gostava de saber porque é que me tornei assim, que medo é este que aprisiona a minha fala e que sempre me impediu de dizer amo-te, mesmo quando a miúda mais morena e mais bonita da minha rua passou a ocupar parte dos meus dias e das minhas noites. No dia em que ela olhou para mim no café fiquei aterrado e naquele em que se sentou à minha mesa, pensei mudar de morada. Timidez, poderiam pensar. E no entanto, escolhi esta profissão onde estou sempre a contactar pessoas. A minha solidão não se percebe, eu próprio não a percebo. A minha vida amorosa é o oposto da vida da Vanessa. E respondi-lhe sem pensar.

- Deserto, Vanessa, não uses essa palavra, essa palavra é minha, é a melhor que encontro para definir a minha vida.

E foi nesse dia, o da 9º entrevista, que deixei totalmente de a entrevistar, os nossos encontros passaram a ser um diálogo. À mesa do café, um homem chamado deserto e uma mulher chamada desespero.
~CC~

quarta-feira, março 11, 2009

Mulheres da minha vida (II)


Faz-se silêncio nos dias em que não está, o sofá da sala não se abre como cama para nos estendermos, não há elogios sobre a salada que só eu sei fazer e protestos sempre que é peixe. Nas noites em que não está não há perguntas para as quais tenho que pensar duas vezes antes da resposta, nem comentários sobre a minha roupa nem conselhos sobre a escolha da dela para o dia seguinte. A noite termina sempre mais sombria, não obstante ser torturante mandá-la para a cama e ela lembre o chá que faz parte do ritual nocturno, na tentativa óbvia de prolongar mais um pouco o dia. Esta noite custou mais deixá-la ir, tive um assombro de egoísmo de a querer ver acordar amanhã, mas deixei-a ir, porque não podemos aprisionar o que amamos e os filhos têm que ser partilhados porque feitos a dois. E percebi que o almoçar amanhã na escola era importante, mesmo quando pede tantas vezes para não o fazer e me apetecia imenso poder vê-la ainda de dia, é a parte que cabe ao riso das amigas quando se faz 13 anos.


São tantas as coisas que mudaram este ano. O primeiro não assumido que tive que dizer às unhas pintadas, a primeira mensagem de comemoração do dia da mulher que ela me reenviou por sms, o interesse pela primeira vez genuíno pelas mudanças sexuadas do corpo, do seu e das outras raparigas, o desejo claro de sair do país e conhecer outras coisas, o gosto pela prática do Judo. Há crescimento diário em cada diálogo sobre o mundo, sobre o quotidiano e maravilho-me pelo seu gosto de discutir e de pensar. E se é em muitas coisas original e diferente das outras miúdas (Oh meu Deus, os dias que levámos a explicar-lhe o conflito entre Israel e a Palestina!) e é crítica (eles nem sabem o que é a Casa Branca…nem querem saber!), é também parecida com todas elas em muitas outras (um telemóvel novo é que era uma boa prenda!) e isso faz dela uma rapariga integrada, mas capaz de pensamento próprio. Parece-nos a maior parte das vezes uma pessoa feliz, mais feliz do que alguma vez eu me lembro de ter sido na idade dela, quero contribuir para que assim seja.


É mesmo a menina, a mulher da minha vida.

Parabéns ~A~.

terça-feira, março 10, 2009

Abraço

Sabes, também cresci mergulhada nessa inspiração de justiça divina de que a vida nos dá o que merecemos, que nos retribuí o que lhe damos, cresci nessa ilusão de que há recompensa para as coisas boas que fazemos. Mas não há, não há. Por causa disso, deixei crescer a zanga e a fúria e elas tornaram-me por vezes tão amarga que não me apetecia dar mais nada. E ao nosso lado, mesmo ao nosso lado, podem estar aqueles que nos atam as pernas quando deles era um abraço que esperavámos. Se me colocar no lado oposto, deixarei de pensar sequer que há justiça, e isso eu também não quero. Se me colocar no lado oposto, deixarei de acreditar nos abraços e isso eu também não quero.

Perguntarás o que resta então. Resta sabermos, nós e mais alguns, mesmo que poucos, que o que fizémos foi bom, que temos valor. Resta a dignidade de dizer sim e de dizer não. Restam-nos os abraços quentes e verdadeiros dos que realmente nos sabem ver por dentro e há sempre quem sabe.

E o povo diz sabiamente: há mais marés que marinheiros. E numa dessas marés há os aplausos das gaivotas.
~CC~

domingo, março 08, 2009

Mulheres da minha vida (I)


Nasceu num lugar pequenino perto do mar e filha de maritímo, uma casa onde os irmãos eram tantos que se queixa de nunca ter tido o carinho e a atenção suficiente, mas perdoa porque a vida era assim mesmo e as crianças não se podiam evitar. Também não aprendeu a fazê-lo vida fora, e por isso o sexo sempre foi emsobrado por esse receio de através dele chegar mais uma criança. Nesse tempo, o prazer das mulheres era condicionado não só porque não era suposto o terem, como também pelo medo da casa se encher de bocas que não se conseguiam sustentar. Muitas vidas, como a dela, teceram-se nesta fatalidade. No mais foi audaz e competente, partiu atrás do seu amor por vários continentes, cheia de bravura mas também da inconsciência de quem sabia do mundo apenas o que os três anos de escola primária lhe tinham ensinado. Fez maravilhas com tão pouca instrução, a melhor delas a de nunca ter desistido de criar as filhas, mesmo quando para o jantar só tinha pão e chá.

Não soube encontrar outro amor depois do seu a ter deixado porque era assim a vida dessas mulheres, elas eram só de um homem, e depois dele só mesmo os filhos eram capazes de alimentar os sonhos. Nunca foi farta nas palavras e nos gestos carinhosos e foram muitas as vezes que disso nos queixámos, mas essa aprendizagem também não a tinha feito, e não sei se se pode dar aquilo que nunca se teve. Com as netas é hoje diferente e é possível ver manifestações de carinho, a maior parte das vezes sob a forma de histórias contadas, ou de uma história única, a sua própria.

É ainda bonita aos 80 anos, talvez mais bonita do que alguma vez foi, embora lamente muitas vezes a sua beleza perdida, bem clara nas muitas fotografias que adornam a casa. É uma mulher fruto do seu tempo, de um tempo que aprisionava ainda as mulheres, mas é já uma mulher deste tempo, capaz de autonomia, de opinião, de decisão.

Tecer-lhe homenagem é a melhor forma que encontro de comemorar este dia.
~CC~

sábado, março 07, 2009

Corda bamba

A nossa vida parece às vezes poder mudar num indivizível minuto, estar num lugar errado à hora errada ou no lugar certo à hora certa. O amor e a morte podem surgir assim de repente ao virar da esquina. Leio no jornal Sol de hoje que na Mealhada uma pessoa que levantava pacificamente dinheiro no multibanco da área de serviço foi colhida brutalmente por um automóvel desgovernado e teve morte imediata. Choca-me esta morte assim sem razão, sem aviso de doença ou motivo imputável. Choca-me ainda mais que as recentes mortes de governantes e chefias militares na Guiné, essas explicáveis pelo ódio.

Lembro como no filme o leitor, o rapaz se senta para vomitar na entrada de um prédio degradado e assim encontra Hanna, mulher bem mais velha, que na sua contida generosidade o ajuda a voltar a casa. Maravilha-me aquele encontro que nada fazia prever, sustido pela impossibilidade que seria o cruzamento daquelas vidas noutro horizonte qualquer. O amor, pode surgir assim também, sem qualquer sinal. E maravilha-me essa possibilidade, mais ainda do que quando ele surge em consequência de um conhecimento ou relação longa entre duas pessoas.


E lembro-me da forma como também escapei milagrosamente com vida num despiste na autoestrada do sul e da felicidade que senti por ir sozinha. Parece que ganhamos uma segunda vida e com ela novos sentidos.

Há cerca de um mês atrás mais um episódio. Ia conduzido devagar pela cidade e vi com clareza a mãe, a jovem e a criança no fim da passadeira. Já tinham atravessado e por isso eu não necessitava de parar. Mas a criança levava uma bola e a bola soltou-se das suas mãos, pelo que a criança voltou atrás de repente e vi a bola a correr pela trajectória inversa à que eles tinha feito. O meu carro já estava em cima da passadeira quando a criança volta atrás e foi apenas por um reflexo rapidissímo de curvar o carro para a faixa mais à direita que não lhe bati, mas parei claramente já em cima da passadeira. O miúdo devia ter uns 4 anos, saiu fora do ângulo de visão do vidro da frente e nem sequer vi logo se tinha conseguido desviar ou se o carro o tinha atingido. Sai em pânico e deve ter sido por apenas meio metro que não ficou debaixo do carro. A mãe, muito assustada, deu-lhe imediatamente duas palmadas. Mas o que teria acontecido se lhe tivesse batido, a mãe culparia na mesma a criança? A verdade é que eu parei em cima da passadeira, para quem não tivesse visto, seria para todos os efeitos um atropelamento na passadeira, dificilmente poderia provar que a criança já tinha atravessado e tinha voltado para trás em busca da bola. As nossas vidas ficariam tragicamente marcadas por uma bola que se tinha soltado das mãos. Ainda hoje respiro de alívio.

É assustador e trágico que a vida não possa ser inteiramente dominada pela nossa razão e pelos nossos actos, que a todo o momento nos aconteçam coisas como estas que mencionei, coisas que o povo atribui ao azar e que não sabemos classificar inteiramente de outro modo. Mas ao mesmo tempo quando os acasos são felizes ou quando escapamos milagrosamente aos infelizes, tudo nos parece mais belo. Para quem acredita em Deus, é fácil encontrar explicação, atribuindo-lhe a responsabilidade. Mas para quem, como eu, não tem nenhuma certeza quanto à sua existência, tudo isto nos surpreeende e interroga.
~CC~

quinta-feira, março 05, 2009

Nascer

Nascer do sol na Arrábida. Nov. 2008

- Correu tudo bem com o seu menino, nasceu bem?
- O meu menino, o meu menino nasceu de olhos abertos e não chorou.
- Deixe lá comadre, é porque ele queria ver tudo.
- E já viu se ele vai ser sempre assim, a querer ver e saber tudo?
- Pois, comadre, os miúdos quando são espertos querem ir para longe e fogem-nos da mão.
- Eu não me importo que corra mundo, desde que venha sempre ver-me. E depois comadre, não sei se tenho dinheiro que chegue para todas essas viagens que ele vai querer fazer.

O meu menino nasceu de olhos abertos e não sei se viajou muito, certo é que chegou até mim. Nasceu numa praia frente ao mar, chegou numa onda chamada beijo que soube a sal doce.

Parabéns.

~CC~



quarta-feira, março 04, 2009

A vida é na TV

A TV permanentemente ligada, como se no cabo que a liga residisse a verdadeira vida, em vez de ser no sangue que corre nas veias.

O cabeleireiro é pindérico e periférico, todo ele esteticamente duvidoso. Elas cortam o cabelo em cortes sem graça e apesar das brasileiras viverem paredes meias, não aprenderam com elas a dizer queridinhas nem a acenar-nos com sonhos de beleza miraculosa. A televisão permanentemente ligada, substituídas as novelas por outros programas mais cultos, quase todos resumidos a mudar qualquer coisa na vida das pessoas. Pessoas que se oferecem para que lhes mudem a roupa, a casa, o jardim e a varanda.

Os olhos delas vidrados na maravilha do papel de parede, na oliveira de jardim, no corte do fato, na mudança de cor do cabelo. Os comentários são fluentes, indiferentes à minha presença, presos naqueles anjos televisivos que agem como engenheiros de moda e de design de interior. No fim, arranjado o quarto e a varanda, elas dão gritinhos de contentamento como se a vida delas também tivesse mudado por completo. O preço é módico, mas não sei se cobre a tortura.

Ainda por cima a franja ficou torta.
~CC~

segunda-feira, março 02, 2009

O meu nome é Vanessa (XIV)

Combinámos uma sexta ao fim da tarde, libertos do gravador, podia ser mesmo na esplanada da Fonte Fria. E percebi que conseguia registar as palavras dela sem qualquer auxílio, elas ficavam guardadas na minha memória, como se a Vanessa estivesse a escrever dentro de mim, como se eu fosse a sua folha de papel branco.


Dias e dias sempre iguais em que o amor é só uma sombra que se arrasta pelo imaginário. Eu até aguentava querer sexo e não ser com aquele homem que se deitava comigo. O que eu não aguentei, percebes, foi a minha criança deitada fora. No dia em que ele disse: Vanessa, pensava que estava claro que eu não quero ter filhos...a partir desse dia a chave a rodar na fechadura para assinalar a entrada dele era igual a uma lamina a cortar-me a carne por dentro. Era a repetição vezes sem conta da criança que eu não tive, que eu não pude ter. E soube que era apenas uma questão de tempo para que um dia por trás daquela porta ele só encontrasse a casa vazia. A liberdade, meu amigo, é linda como o mar.


Vanessa, os teus olhos são amarelos e não têm aves azuis lá dentro, por isso não percebo porque me parecem ganhar asas.


~CC~

sábado, fevereiro 28, 2009

Não saber ler

O homem devia ter perto de 60 anos, cedi-lhe a passagem na porta de entrada da tesouraria das finanças. Os funcionários estão numa espécie de caixas de vidro, cada um na sua, como se fossem aves raras. Têm apenas uma janelinha por onde falam connosco, de preferência que esses diálogos se resumam a passar-lhes as notas certas ou o cartão multibanco. Um deles é mais zeloso, costuma avisar-me de todas as coimas que terei se não pagar a tempo, salientando os prazos e escrevendo num papelinho, por acaso gosto dele. Mas o que se passou com o homem de 60 anos que não sabia ler, isso não abalou nem por um minuto a ordem do dia nas caixas de vidro.

Primeiro as senhas de atendimento, divididas em sectores. O homem que não sabia ler, não podia escolher. Estava à minha frente atordoado, mas não pedia ajuda. Nestes momentos sabemos o quanto as pessoas têm vergonha de não saber ler. Li o que queria dizer cada uma das secções possíveis como se o fizesse para mim própria e ele então tirou a que queria. Não me disse obrigado, avançou directo ao balcão. A funcionária mandou-o para trás, não era a sua vez, só quando chamassem o número da sua senha. O homem não disse nada, ficou ali a aguardar. Como ele não sabia ler o número, também não daria por nada quando o chamassem. Assim aconteceu. Fui até perto dele e disse baixinho: é o seu número. Ele avançou para ser atendido, mais uma vez não me agradeceu.

O seu desconforto era tanto que ele não podia agradecer-me. Percebi também que cada vez mais o mundo não atende pessoas que não sabem ler.
~CC~

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

A cigarra e a formiga

A poupança talvez fosse uma forma de domar a crise, esta crise, todas as crises, as minhas, por exemplo.

Eu poderia ter um telemóvel que me poupasse em sms a mais em certos dias e as enviasse noutros, trocando inteligentemente datas e emissários, um up grade de tecnologia verdadeiramente portadora de felicidade em vez destes objectos inertes que só funcionam por comando. Nos dias e momentos necessários, o equipamento enviaria por sua iniciativa vários amo-te rapariga.

Eu poderia enrolar os crepúsculos em certos dias para os desenrolar dentro de mim nos outros em que a névoa os obscurece. Um crespúsculo dos mais belos poupado nos dias felizes, quanto esplendor poderia trazer nos dias maus.

Eu poderia abrir uma conta poupança de beijos num banco que jamais fosse à falência, para os poder tirar nos dias de boca seca e de lábios ausentes.

Eu poderia fazer render muito mais certos momentos de êxito em que os sorrisos em torno de mim são tantos, poderia congelar um sorriso e depois descongelá-lo para servir ao jantar.

E os aplausos, oh quanto os aplausos vindos de certas mãos poderiam ser milagrosos quando o espelho teima em devolver-me um rosto sem pingo de encanto. Poderia transformá-los em pó e depois soltá-los em frente ao espelho para ver como eles me transformavam em nada menos que Juliette Binoche.

Como nunca soube nada de poupanças, só resta ir ao fundo encontrar uma migalhas e transformá-las em qb de sol. Devem durar e fazer-me chegar até dias mais felizes. E quando lá chegar, aí testarei todas as artes possíveis de arrecadar, congelar, condensar. Uma formiguinha totalmente previdente, uma artista a domar qualquer crise, perita a calar qualquer sinal de mal estar, uma engenheira pronta a desecantar qualquer solução. Nunca mais ficarei triste.
~CC~

terça-feira, fevereiro 24, 2009

O meu nome é Vanessa (XIII)



Desde o princípio que este jornalista me pareceu estranho. Quis muito contar-lhe a minha história, mas sentia-o incomodado, prisioneiro de si mesmo, fechado sobre o seu mundo. Quase nunca olhava para mim e precisava de um cigarro para aguentar o que lhe contava. Invariavelmente passavámos do espaço interior para o exterior e na última vez ele esqueceu-se de levar o gravador. Percebi então que não obstante ter confirmado a existência real da revista e ter visto o seu nome na ficha técnica, alguma coisa não batia certo.

Por isso me ri imenso quando me mostrou a reportagem já feita onde nenhuma Vanessa constava. Pois, pois...já desconfiava...disse-lhe. Ficou tão aliviado com a minha indiferença que julguei que me ia beijar as mãos ou os pés, não fosse ele tão pouco dado a manifestações de afecto. E depois: mas quero continuar Vanessa, preciso de continuar a ouvi-la, a conversar consigo! E aflito com a minha frontalidade: Encontrei finalmente um homem que amo e não o quero perder a não ser para a morte, por isso se pensa apaixonar-se por mim, é melhor acabar com isto já.

Eu não era perito a entender os meus sentimentos, mas não era paixão, nem amor, nem amizade. O que me juntava à Vanessa era uma espécie de desejo de viagem. Disse-lhe: Vanessa, o que eu quero não é nada de mais, é só viajar consigo, ir através da sua história a um outro lado de mim, a um mundo que nunca foi o meu.

~CC~


segunda-feira, fevereiro 23, 2009

O medo

Olhava maravilhada a forma como ele deixava as abelhas pousarem nas suas mãos. Ele tentava que eu não tivesse medo. Foi o primeiro ecologista que conheci. Deixa que pousem na tua pele, que te conheçam, elas vão saber que não és nenhuma flor. Fascinava-me o crachá ao peito: amigos da terra. Também ele era ostracizado pelas suas convicções, o que lhe dava uma proximidade especial, embora eu estivesse longe de dominar as minhas convicções como ele dominava as dele. Ele ensinava-me: não deves ter medo, o medo atrai os instintos agressivos dos bichos.

Lembro-me que foi num dia de intensa Primavera, daqueles em que as flores parecem vivas e os animais andam meio tontos. A abelha em cima da palma da mão dele, a mão aberta, a abelha a passear. De repente ele gritou, a abelha espetou-lhe o ferrão e ele não conteve a dor.

Fiquei com o meu medo, talvez não seja assim tão mau ter medo.
~CC~

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Saudades

Chegou a tua mensagem, veio da adolescência com o sol, o aroma das maçãs vermelhas e a nostalgia dos yogurtes de limão, estes últimos agora vedados pela úlcera que piorou com os quarenta. E quasei chorei, presa das memórias dos dias que eram nossos.

Aprendi a calçar galochas pela manhã e a sair para o campo em cumplicidade contigo. A nossa diferença alimentava-se da fuga ao que os outros queriam ser e eram. Eu fugia de aprender a matar galinhas e transformar os aviários em embalagens de supermercado, ia apanhando flores pelos caminhos, ramos e raminhos, pedras, gravetos e sementes. Decorava as paredes com as espigas de trigo e de milho, em vez de saber quanto rendia por m2 uma plantação. Tu vestias cores impensáveis para um aprendiz de agricultor, e tinhas gestos e palavras suaves que por si só agrediam os rapazes da turma. Lembro-me de cruzar o pátio contigo no meio de apupos e insultos. E quanto mais eles ostentavam o seu desdém, mais a nossa diferença era motivo de orgulho para nós. Eu e tu, nunca um largava a mão do outro.

Depois aprendemos alguns instrumentos de diálogo, descobrimos que com alguns dos aprendizes de agricultor era possível trocar meia dúzia de palavras neutras. Estavámos cansados de ser desprezados, mas jamais o poderíamos admitir. E descemos vagamente do nosso templo para dar o braço a quem merecia uma oportunidade, quem também tinha o seu mérito, mesmo sem a nossa aura de artistas perdidos e filosófos da noite. Talvez tenha sido aí que comecei a aprender que a diferença não é por si só um motivo de orgulho, talvez tenha sido aí que comecei a usar com mais cuidado as designações de piroso e pimba para me referir a quase toda a gente, talvez tenha sido aí que comecei a usar a compaixão na compreensão das pessoas, a gostar delas mesmo quando ofereciam caixas de bombons no dia dos namorados.

Outras coisas, meu amigo, por exemplo, esta saudade de nós, essas coisas só vão chegando com a úlcera dos quarenta. É verdade, não te disse, mas no fim de semana passado andei a apanhar lírios do campo.
~CC~

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

caderno diário

O quotidiano regressa, é como uma pele à qual só temporariamente se consegue fugir.


~CC~


segunda-feira, fevereiro 16, 2009

O meu nome é Vanessa (XII)

A Vanessa ficou quase um mês sem dizer nada, não enviou mais cartas a falar dos seus homens nem me ligou. A reportagem saiu há 15 dias e ela ficou obviamente de fora. Pensei em nada dizer, ciente de que o tempo levaria os seus olhos sem cor e aquele rosto ruivo. Pensava nela muitas vezes, no modo de lhe dizer que fazer a reportagem sobre ela era o mesmo que assinar a minha carta de despedimento.

Falava com ela sozinho...As pessoas, Vanessa, não querem saber de raparigas do povo que não acabam em Cinderelas. As pessoas, Vanessa, não querem saber das tuas histórias que em vez de amor são histórias de puro desamor. As pessoas, Vanessa, não querem saber de uma miúda que foi violada e se calou até hoje. As pessoas, Vanessa, não querem saber, de uma mulher que encontrou até aos 21 anos quatro homens e nenhum deles era nada de jeito, eram ainda mais incolores do que os teus olhos. Vanessa, tu não mereces um artigo com o teu nome, nem meia página. Vanessa, é assim a vida.

Liguei-lhe.
~CC~

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Anseios


Será que o sol veio para ficar?
Vou dar um passeio com ele.
~CC~

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Os bons e os maus

Por estes dias não sei te tenha mais medo dos corruptos ou dos incorruptíveis. Os primeiros não se parecem nada com ladrões, de tal modo andam bem vestidos e bem cheirosos e, apesar de sabermos que o mundo anda desgovernado, é ainda assim estranho chamar-lhes banqueiros, membros do Conselho de Estado ou do Governo.

Os segundos não se parecem nada com inquisidores, bramindo os seus chicotes feitos de palavras parecem missionários de esquerda e de direita milagrosamente juntos numa frente comum, usando panfletos digitais ou o velho papel, tudo parecem saber sobre esse males que são os jogos de influência, o compadrio, a corrupção; nada disso jamais os afectará.

Olho para uns e para outros e tenho medo. Medo da corrupção que em vez de se chamar gasosa como em Angola e ser descaramente praticada, é subtilmente infiltrada e embrulhada em alta costura. Medo dos anti-corrupção porque parecem nunca ter roubado um chocolate num supermercado, nunca ter pensado primeiro em si do que no outro, parecem ter sido depurados por alguma técnica inovadora de cirugia estética que os tornou sombras. E os seus gritos por verdade, verdade e justiça, justiça, parecem-me tão perigosos como o seu contrário.

Mas isto sou só eu a desculpar-me por já ter roubado um chocolate num supermercado. E a justificar não ter brincado aos polícias e ladrões por não gostar nem de uns nem de outros.
~CC~

terça-feira, fevereiro 10, 2009

O casulo


Todos os dias que não quiseste vir viver para Paris comigo. Todos os dias em que te afogaste entre o prato da sopa e o telejornal das oito. Todos os dias que acordaste com as asas cortadas, morto pelo Inverno a crescer dentro de ti, esmagado pelo peso das responsabilidades. E as responsabilidades espremidas são apenas e só meia dúzia de condições de sobrevivência. O que há em Paris que não há aqui? Porque queres ir? Para nos vermos, para nos encontrarmos, para nos beijarmos hoje com mais vontade que ontem. Vem para Paris comigo já hoje.


São tantas as mulheres que são como a Kate, tantas as mulheres que lutam como a Kate (não me lembro que nome tinha ela no filme). Os fios que a atavam nos anos cinquenta eram mais fortes, mas agora ainda estão lá, talvez mais invisíveis. Há na tragédia dela uma loucura que reside na persistência do seu desejo e o desejo habita no seu corpo com uma intensidade brutal. É uma mulher que quer sair do casulo, romper com os fios da mentira de uma vida pautada quase exclusivamente pelas aparências, pelo simulacro da normalidade.


Há em muitas mulheres uma Kate, uma Kate que sem ninguém ver já começou a sua viagem para Paris. Os homens devem ver este filme. As mulheres que não querem ir para Paris também. E as que querem ir, sairão com lágrimas interiores.

~CC~

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

O meu nome é Vanessa (XI)

Pergunta porque me casei com 21 anos? Por inércia, só isso. Para ser como as outras talvez. Para deixar a casa dos meus pais também. E ainda porque queria ter filhos. Foi ele o quarto, o meu quarto homem. Casei num dia de chuva e mesmo assim não fui abençoada. Quer que dê um nome ao meu casamento? Tédio, pura e simplesmente tédio. Duas pessoas a viver sobre o mesmo tecto com uma profunda indiferença um pelo outro, com sexo duas vezes por semana, como se fosse uma medida higiénica para manter vivos os órgãos sexuais. Quatro homens e zero de paixão, de amor, de vida.
~CC~

domingo, fevereiro 08, 2009

Só um modo de passar o Inverno



A terra foi secando bocadinho a bocadinho à medida que do céu só chegava sol e mais sol. Nestes dias de chuva, o modo de não entristecer perante a humidade da água, é lembrar o quanto a ausência dela é para tanta gente um dos modos mais duros de morrer. A todo o momento, em terras de S. Nicolau, eles recordavam o tempo em que a ilha era verde com a mesma saudade que carregam para todos os lugares do mundo por onde se espalharam.


E a par da terra seca e dura, tudo o resto é o oposto. Em cada canto da casa mais humilde há uma galinha que põe ovos e uma rama de cebola ao fundo do quintal, tudo pronto a fazer saltar uma omelete de sabor único para quem entra pela porta. Há sempre um resto de peixe frito, de cachupa que sobrou, um golinho de grogue ou de ponche, e todas estas coisas têm um sabor caseiro maravilhoso e único. E fotografias, há sempre muitas fotografias. E em cada casa sabemos os nomes dos que estando, são aqueles que lá estão raramente. Estes corações funcionam de maneira especial, são alimentados de força e nostalgia.


Mais logo a tocatina, esse lamento triste envolto em ruidosa alegria.


Pode ser estranho, mas é muitas vezes este o meu modo de (ultra)passar o Inverno.


~CC~

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Sem listas nem seguidores...

Cheguei à blogosfera um pouco inocentemente, na verdade pelas mãos de um amigo com quem mantive durante um ano um blogue comum (o JVT do Ninguêm lê). Gostei francamente de ser um lugar onde se podia escrever e ler coisas boas, a maior parte delas escrita por gente anónima, sem snobismo nem manias. Esta coisa de passear por vários lugares de Norte a Sul sem pagar e ainda ir pelo mundo, era francamente interessante.

Só mais tarde me apercebi que além de ser lugar de escrita e de leitura, de artes e de cultura, a blogosfera era também um veículo para as ideias políticas e para a luta cívica, mas também para a má lingua, nalguns casos praticada com piada e gosto e noutra pura e simplesmente pelo prazer da chicotada e do cinismo. Tardiamente fiquei a saber que existiam blogues de renome e alguns de comentares políticos reconhecidos na praça pública. Confesso que nunca fui grande adepta de tais blogues mas que reconhecia o seu papel e importância social,

Mas ultimamente tenho andado pessimista e muito céptica, especialmente desde que chegaram as listas dos mais lidos, a onda dos seguidores, e um conjunto de inúmeros dispositivos de incentivo à competição entre bloguers, e já não se mede só os que nos lêm mas também o número de links que temos e os que fazemos, etc. Estou assim inteiramente de acordo com a Ana e espantada com a importância que lhe dá o FJV.

Para mim que nunca usei sequer um contador de visitas no meu blogue, é difícil compreender estes indicadores tidos como de sucesso e o que é que esse sucesso significa para as pessoas.

Pensei que isto era um lugar lúdico, de sincera partilha entre gente que tem interesses comuns, uma rede social com algum sentido, que nos permitia alguma interacção a partir dos comentários e que isso nos chegava para perceber que não andavámos aqui sós. Mas sinceramente, seguidores...? Acho que há qualquer coisa de genuíno que se está a perder...e às vezes já penso em me ir embora.
~CC~

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

O meu nome é Vanessa (X)

Sentia há vários dias uma dor fininha no peito e, cada vez mais amiúde, falta de ar. Era esta a sina de um asmático. Desde miúdo o tormento das correntes de ar, da água fria, do tempo húmido. O médico nada me tinha dito sobre as perturbações causadas por terceiros. A única razão para este sufoco era a mentira que alimentava as minhas conversas com a Vanessa. Eu sabia que não podia publicar a reportagem sobre a vida dela, mas ela não. Ela queria continuar a falar dos seus homens, ainda só ia nos 19 anos e em três pequenas tragédias. E eu queria continuar a ouvir mas sabia que não podia publicar. As minhas razões para a querer ouvir eram confusas para mim próprio. Nesta profissão, a curiosidade esgota-se depressa, tantas são as histórias que ouvimos. Portanto não era esse o motivo. E pensei muito sobre isso, muito e muito.

E descobri a razão porque eu a queria escutar. É que eu nunca o tinha feito, nunca tinha olhado os homens com e pelos olhos de uma mulher. E ela estendia-me esse universo feminino onde eu nunca tinha entrado sem qualquer preocupação que não fosse simplesmente olhar.
~CC~

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

4 de Fevereiro


Podemos reduzir a poeira vermelha ao riso dos meninos que brincam na água tépida e quente do Atlântico. Podemos ver do caos apenas o embodeiro gigante que abrigou toda uma família em tempo de guerra. Podemos ver da violência o passeio tranquilo ao mercado de artesanato a poucos km de Luanda onde o português é tão pobre que não vale a pena roubar, é um maltrapilho companheiro para sempre. Podemos reduzir toda a sedução do macho que ambiciona mais que uma dama ao seu olhar triste quando lhe recusamos uma dança.

Hoje, especialmente hoje, África é o meu continente porque lá toda a dor é mais dor e toda a alegria é mais alegria e a sacanagem é tão sacanagem que se ri numa boca cheia de dentes de ouro. Podemos ser à vez de vários lugares do mundo?


Que venha uma moamba para o jantar!


~CC~

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Recado


Que o teu beijo chegue sempre como o sopro azul que abre a luz nos dias mas cinzentos.
~CC~

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

É a mais...

Dizem que o Senhor Ministro comprou a licenciatura que tem e depois assim feito engenheiro à pressa assinava projectos sem ver, alguns de gosto tão duvidoso que só podiam ter sido feitos na cabeça de um novo rico qualquer. Dizem que o Senhor Ministro não gosta de mulheres e não tem coragem de o assumir, fingindo que namora uma jornalista. Dizem que o Senhor Ministro mora num andar luxuoso, uma vergonha nestes tempos de crise. Dizem que comprou a pronto uma casa para a mãe, coisa de admirar num Portugal que só compra a crédito e passa meia vida a pagar uma casinha de três assoalhadas. Dizem que o Senhor Ministro se veste bem de mais, com roupa de marca e já passou pela vergonha de ter sido eleito um dos políticos mais bonitos do mundo. Dizem que o Senhor Ministro aceitou as luvas mais chorudas de que já memória para deixar colocar o centro comercial mais pimba que há num dos lugares mais bonitos de Portugal.

Não dizem, mas em breve dirão que ele copiava invariavelmente os trabalhos da escola por um colega, esse sim, brilhante. Não dizem, mas em breve dirão que respondia mal à mãe e que a ex.mulher se referia a ele como um homem nunca o tendo sido, se podia tornar violento. Não dizem, mas em breve dirão que um dia abandonou à sua sorte um pobre passarinho que caiu do ninho.

Se dizem tanta coisa, o homem não deve ser assim tão mau. É calúnia a mais. Quase começo a gostar dele.
~CC~