segunda-feira, junho 29, 2009

Lágrimas presas

O que é espantoso é o modo como a vida que foi a nossa irrompe dentro dos encontros mais superficiais, desta vez só nós os três em redor da mesa das sardinhas de um Domingo calmo. Tudo começa com uma paixão que pode nascer aos oitenta anos, num comboio para o Algarve. Tudo o que antes seria história só possível na adolescência surge agora como promessa contida nas vidas que os mais velhos viram despir-se de amor, mas não de esperança. Gostava tanto de a ver viver um amor. Temos pena que se tenham despedido sem cumprir o sonho, mas compreendemos que a troca dos telefones aos oitenta jamais pode ser como aos dezoito. E era um homem tão bonito ainda, diz ela.

E é pelo amor que a seguimos até às partes mais obscuras e dolorosas, à tropical solidão de uma mulher que perde o marido que ama e está grávida dele no momento em que ele faz a mala definitiva. Não mais voltará. Nunca saberemos que futuro seria se ele a tivesse desfeito.

Pensava que tinha esquecido um e outro e mais outro episódio, mas de repende deslizam todos até mim, primeiro de dia e depois de noite. Vem até mim o carro vermelho da amante de onde eu jurei saltar em andamento, tiveram que o enconstar na berma e deixar-me seguir pelo passeio. Havia já dentro da menina que eu era, uma fúria contida e grandes lágrimas presas.
~CC~

domingo, junho 28, 2009

Luz nocturna






Crespúsculos dourados a abrirem as noites luminosas no Festival MED (Loulé).
Ontem, dançar com este Brasil profundo, uma prova de que a cultura popular está viva e a acontecer, viva e rasgada numa poesia cheia de ironia e humor.

~CC~

quinta-feira, junho 25, 2009

Insuficiente

Espreita dentro de mim a Vanessa à espera que lhe conte o resto da história. Espreita um longo poema Almar que deixei a meio. Espreitam as memórias da adolescência atormentadas por verem a luz do dia, como se depois disso, se pudessem aquietar no silêncio interior. Espreitam todas as pessoas que vivem dentro de mim, esperam o tempo que não tenho, que não lhes dei, que nunca lhes dei em dose suficiente. Ligam-me pessoas que não sei quem são, dizem nomes e que algures se cruzaram comigo, há qualquer pedido que têm a fazer-me e que acrescento à longa lista de coisas que não cumpri, que nunca cumprirei. Deixam-me mensagens a pedir que comente um inquérito com resultados surpreendentes sobre os jovens e a escola, como não me apetece surpreender-me, espero que se esqueçam de mim e não ligo ao número que ficou registado. Enviam-me mails de despedida que me fazem chorar e não sou capaz de lhes responder. Há muito que desejo passar despercebida num certo lugar, que se esquecessem da minha existência, desejaria mesmo que não estivesse sempre a pronunciar alto o meu nome, que me de deixassem em paz como eu os deixo em paz.

Enfim, há muito que sei, que tirando meia dúzia de coisas, tenho nota insuficiente nas outras todas.
~CC~

terça-feira, junho 23, 2009

De bicicleta...se vai longe*!



Eles pedalaram assim...

* E eu, mais assim...

*
cartão amarelo para a organização: excesso de publicidade; mensagem completamente diluída no mega-evento; deficiente apoio durante o percurso....e já agora, as bicicletas não são puzzles! Com estas bicicletas não vamos longe não....
cartão verde para os participantes, efectivamente um grande espiríto de boa disposição e ajuda, sorrisos largos por todo o lado.

~CC~

segunda-feira, junho 22, 2009

Às claras

Também eu fiquei num abismo interior com as imagens do Irão. E descontente com as explicações que eram dadas. E hesitante entre dar razão à ideia de fraude. Importa desligar o que queremos do que eles efectivamente querem. E eu queria perceber o que querem eles. E um país tão grande deve estar recheado de diferentes quereres. Tive a sensação que a pressão ocidental pode retardar tudo, mais ainda se Israel se põe a falar sobre eles de forma arrogante.

Mas sem alguma pressão ocidental, sem uma imagem atirada cá fora, tudo teria há muito se silenciado. Não é simples saber o que há fazer, o que é melhor fazer, ou se deve sequer ser feita alguma coisa além da expressão da nossa inquietação. Também em mim cresce um fervor imenso quando penso que as mulheres iranianas poderão reclamar por um lugar na sociedade, poderão vir a ser mais que meros adornos no poder imenso dos homens. Não tenho nenhuma hesitação quanto ao caminho, nem nenhuma espécie de tolerância cultural quando estão em causa direitos essenciais. Mas penso que não nos chega isto, não podemos criar o destino para os outros, eles têm também de o tomar em mãos, sob pena de tudo ser um artíficio (como já foi antes num Irão dito Ocidentalizado).

Gostei especialmente do Câmara Clara ontem na RTP 2 dedicado ao Irão, tempo dado aos convidados para falar, pequenas reportagens a pontuar o que era dito, voz dada ao descontentamento mas não só. Maravilhosos os pequenos filmes de animação que mostravam um país a esconder-se dentro de casa para poder libertar-se do ferrete religioso.

E a perspectiva histórica, muito importante sempre. No tempo do Xá a ocidentalização do Irão era o objectivo máximo, o uso do lenço foi, por exemplo, proibido. E agora é praticamente proibido não o usar. Dá que pensar a forma como os extremos se tocam e como um vem a explicar o outro. É por isso que os trilhos devem ser traçados com o máximo cuidado, e sempre com os passos de quem quer fazer o caminho.
~CC~

sábado, junho 20, 2009

Pedalar na ponte


LISBOA BIKE TOUR

Também irei, parece que é contra a Droga e a favor dos rios, dos flamingos, do puro gasto das nossas energias nos pedais.

~CC~

sexta-feira, junho 19, 2009

Descubra as diferenças





Pensando bem as diferenças entre mim e ela são pequenas, talvez a cor do cabelo, talvez o corpo menos redondo, talvez os olhos menos abertos. Resta-me só saber se quando soltarem as molas, vou afinal voar ou cair no chão.

~CC~

domingo, junho 14, 2009

Notas da (des)ordem interior

Dá-me a mão pequenina para o levar a passear e ela fica encaixadinha na minha enquanto olhamos para as coisas e lhe digo o nome delas. Depois solto-o e ele caminha sozinho com os seus passinhos de aprendiz, parando a cada momento para se espantar com coisas que já deixámos de ver. Não há sorriso por ora que me pareça mais bonito. Fica a doer-me a distância a que os meus dias se encontram dos dele e a impossibilidade de cuidar mais.

Paro no fim das subidas de bicicleta nesse dia de calor infernal, os sinais interiores não são de cansaço, mas de um mal estar a que recuso dar nome, recuso saber. Estou certa que se absorver do passeio o aroma das flores, poderei libertar-me de tudo. Invento terapias alternativas ao sabor da brisa quente.

Às vezes pareço perder-me do amor, como se as diferenças deixassem de ter graça, para se tornarem uma ferida pequenina, qualquer coisa que não dói, mas incomoda. Mas depois recupero num segundo todo esse encanto. Um homem que nos diz que nos gostaria de ver com o vestido daquela cantora tão bonita que ontem deslumbrou o auditório, diz-nos a coisa certa, ou então é o meu fraquinho por vestidos. O amor pode nascer grande, mas é das coisas pequenas que ele se vai desenhando. E das coisas que encantam.

Comecei por desenhar uma rede, porque me fazia lembrar mar e ondas. Pode um trabalho de investigação começar por uma rede? O meu começou assim. E o que me faz feliz é que apesar de não saber o seu fim, ele é já um mundo cheio de pessoas especiais. E o meu maior receio é não conseguir as trazer inteiras para dentro da minha escrita. Uma delas ligou hoje do centro interior do país para me abrir as portas de uma comunidade. Essas notas de esperança iluminam um quotidiano que vejo cada vez mais cinzento.

Deixo-me aliciar por ela, porque sei que nem tudo o que queremos e compramos é pela sua funcionalidade, pela sua essência. Gastei-me demais na adolescência na procura dessa pureza, recusando tudo o que era adorno e concessão à futilidade. À conta de ter passado anos a recusar outra estética que não fosse a da natureza, nunca fui capaz de superar algumas das barreiras que impus a mim própria. Agora aprecio as cores dos telemóveis, as luzes e os toques, a configuração do écran...não que me fascine, mas já sou capaz de perceber que um objecto não é simplesmente uma coisa. Cada um tem a sua liberdade e eu construo a minha.

Talvez hoje possa adormecer com a paz que tem andado a fugir de mim, porque depois de me saturar de um assunto, costumo encerrá-lo para sempre. E costumo fazê-lo mesmo quando não há nada pela frente, sei que sou capaz de saltos no escuro, muito embora o escuro me pareça agora mais assustador do que alguma vez me pareceu.
~CC~

sábado, junho 13, 2009

Amigos


Tenho uma família grande, complexa, pouco convencional, e gosto muito dela. Não me importava de a aumentar mais e mais, se o pudesse fazer, escolhia certamente o João para meu irmão, não obstante saber que já tem duas maravilhosas manas. Parabéns meu querido amigo!


~CC~

quarta-feira, junho 10, 2009

A Europa do medo

A Europa é essa entidade abstracta que toma conta dos nossos dias sem que demos conta. Em tantas e tantas coisas é ela infiltrada naquilo que pensamos como políticas nacionais, pelas quais responsabilizamos os nossos políticos, pelas contas que a eles pedimos e que jamais lhe pediremos a eles. Já vi directivas europeias practicamente traduzidas para português intituladas como leis portuguesas.

Não ter votado nestas eleições não significou para mim o desprezo pela importância destas eleições, muito pelo contrário. Entre os abstencionistas pode haver muitas razões e vontades ou a total inexistência delas. No meu caso, foi mesmo a impossibilidade de fazer uma coisa por fazer, isto é, sem qualquer convicção. O branco seria mais coerente sim, não fora algumas impossibilidades. Mais à esquerda, o desprezo pela Europa é há muito conhecido e não o partilho. No meio, não brilhava nada, só havia mesmo o pior da política. A lista do PS mereceu perder de facto, e não se trata do primeiro ministro, mas mesmo da lista baça, gasta, cansada (com excepção de Correia de Campos, que dada a forma como saiu do governo nunca devia lá estar). À direita, os betinhos aprenderam com Paulo Portas a fazer campanha, e fizeram-na bem, afinal o povo não é assim tão intragável. Ficam muito bem numa Europa orientada à direita e talvez possam ter algum papel se barrarem a direita mais extremista que está a conquistar devagarinho o parlamento europeu.

E é o que mais me preocupa, a forma como suavemente, pouco a pouco, se verifica a infiltração no monstro europeu de um pequeno vírus- a extrema direita europeia. Como acontece com os vírus não podemos saber se estamos perante o sinal de uma epidemia ou perante um surto episódico sem mal de maior. Mas convém estar atento, muito atento. Ainda por cima para dominar a Europa hoje já nem é preciso invasões, guerras, exercitos. Gosto da Europa, tenho medo da Europa.

A política, no sentido convencional do termo, não é coisa sobre a qual normalmente me apeteça. Essencialmente falta-lhe poesia, rasgo e bravura.
~CC~

domingo, junho 07, 2009

O escritor e a cidade

Luanda, 2007




A Luanda de que ele fala é a mesma que vi há dois anos, num apocalipse de sentimentos. Tinha-a deixado era apenas uma menina e guardei-a anos a fio com a mais bela cidade do mundo. Imaginava que todo o tempo vivido entre a deixar e a reencontrar não tinha sido mais que um intervalo na minha vida.


O meu coração encontrou o caos assim que chegou ao aeroporto de Luanda. Em pouco tempo vivi o medo numa pensão barata do bairro do Congo (os cooperantes portugueses são arraia miúda), a incredulidade na gigantez dos musseques que cruzei a velocidade de picada num carro a cair de podre e esse luxo barroco dos restaurantes da ilha, em que as lagostas decoradas e o champanhe parecem saídos de um filme de mau gosto. Vi os carros mais caros do mundo lado a lado com a gigantesca lixeira da maior parte das ruas.


E sim, vi os prédios da baía guardados por seguranças armados, e subi a um deles para ver abrir-se diante dos meus olhos um apartamento arquitectónicamente belíssimo, do qual se avistava a fabulosa vista da baía da cidade, mas na maior parte dos dias não corria um pingo das suas torneiras.


Luanda, a cidade, é a baixa e meia dúzia de ruas num esplendor escondido que pode a todo o momento comover-nos com a sua beleza. O resto é o caos absoluto. Mas Angola é muito mais que Luanda, pode ser muito mais que Luanda.


Agualusa pode andar pelo mundo, mas é o escritor desta cidade, é como se atormentado ele visse pouco a pouco morrer o que ama, sem saber como estancar esse sangue que se esvai. Se eu ainda fosse angolana, seria certamente como ele.


Barroco Tropical, ver crítica em

quarta-feira, junho 03, 2009

dese(cantos)

O prédio é relativamente novo mas não há elevador, as escadas estão imundas e o lixo acumula-se no parqueamento. Mais de metade das casas ficaram por vender, o construtor faliu há dois anos. O construtor falido impugna com a sua maioria de votos todas as decisões que visam levá-lo a tribunal. O condomínio não tem dinheiro para sustentar o conforto minímo, a unica coisa que há, andar sim, andar não, é a luz. Não é África meus senhores, é mesmo uma cidade portuguesa, e por todo o lado há prédios em construção.

No escritório sabe-se que a diminuição do trabalho não afectará todos de igual modo, ainda assim há que chegue para continuar a laborar. Há propostas em cima da mesa para desenhar outras saídas para o mercado, mas a administração não lhes pega, não lhes dá seguimento. Ainda assim o escritório tem processos que cheguem para mais uns anos, trata-se apenas de mandar algum do pessoal embora. O tempo também está de feição, é assim a crise, uma verdadeira janela de oportunidades.

Na ponte Vasco da Gama dois acidentes, um a seguir ao outro, muita chapa danificada, mas condutores a salvo. Eles e mais uns quantos sem triângulo, sem coletes amarelos, parados na via atrás das viaturas em desnorte total. E risco acrescido de outros carros embaterem em cadeia. Praticamente todos falavam ao telemóvel.

Os noticiários cheios da renúncia do provedor de justiça. Não só o compreendi, como também tive inveja. Também queria declarar renúncia, anunciar bem alto alguns dos meus desgostos, chorar publicamente.
~CC~

terça-feira, junho 02, 2009

(en)cantos



Mourisca, Fevereiro de 2009

~CC~


Mulheres da minha vida (III)

..."há homens que precisam de mulheres bonitas ao lado para se sentirem socialmente confortáveis"

Deep, do blogue "letras são papéis"
Com um agradecimento pelo mote para a história...

Era hoje, sem dúvida um homem rico, na casa dos 50 anos. Acrescentava a esse património que por um lado era herdado e por outro era já uma conquista sua, uma capacidade inesgotável de trabalho e uma profissão onde a competência profissional, se habilmente gerida, podia criar fortuna. Não era nem bem nem mal parecido, nem bonito nem feio, nem gordo nem magro. Nunca se lhe tinha conhecido um casamento, nem uma namorada. Fazia, no entanto, questão de se afirmar como heterosexual, não fosse esse deserto de amor que parecia a sua vida, fazer crescer rumores. E é verdade, de vez em quando aparecia com uma namorada ou outra, quase sempre lindas, e de várias nacionalidades. Mas era nitído que não se encantava com nenhuma, e por isso tinha arranjado uma justificação social: era um eterno solitário à procura de uma princesa. E chegava a descrever de modo pueril essa mulher dos seus sonhos, uma mistura entre a filha de família e a Britney Spears, uma síntese provavelmente difícil de encontrar.


Um dia confessou entre os mais íntimos que tinha uma amante, que a tinha tido a vida inteira. Não sabia se a amava mas era feliz com ela como nunca tinha sido com mais ninguém. Ela compreendia-o, não lhe pedia nada, recebia-o entre duas viagens de avião, partilhavam o jantar, a lareira, a noite de amor. Os amigos imaginaram logo a amante como uma pobre coitada sem nada, inculta e com "casa posta" à moda antiga, uma vida de silêncio na sombra de um homem que não a assumia. Mas na verdade esta mulher não precisava nem financeiramente nem intelectualmente deste homem, era totalmente independente. Questionaram-no então: como é que duas pessoas que são felizes juntas não assumem tal relação. E então ele confessou: ela era da mesma idade dele e não era uma mulher bonita, estava longe de ser a sua princesa, a mulher que ele ainda procurava.


Tantos anos afinal e ele sem saber que já há muito a tinha encontrado. É assim o mundo de alguns homens.

~CC~

domingo, maio 31, 2009

A morte dos lugares


2009.Praia fluvial do Patacão (Concelho de Alpiarça).

Os lugares morrem silenciosamente, as vozes calando-se pouco a pouco, as ervas crescendo em seu redor, as osgas a percorrer livremente as paredes, o fumo das chaminés inexistente, as portas a ruir, as sombras a invadir tudo o que já foi vida.

Há na morte dos lugares uma tristeza sem fim, mas na sua decadência eles são de uma beleza poética, guardam um resto de luz. Se nos calarmos para os deixarmos falar, escutamos ainda as almas e o sangue de quem por lá passou. São lugares cheios de histórias que nunca foram contadas, mudos para o mundo.

Este é um lugar perdido junto ao Tejo, há muito tempo atrás, pescadores vindos da zona de Leiria construíram estas casas de madeira que pintaram de cores alegres, consta que o rio era nessa altura um mar de promessa de bom peixe. O leito do rio é agora consideravelmente menor, e à medida que ia diminuindo assim as casas se abandonavam uma a uma. Ainda se sente a vida por perto.

Ontem foi a vez de um outro lugar junto aos arrozais do Sado, só trouxe no olhar, mas voltarei lá para o fotografar. Outros sonham outras coisas, eu sonho com estes lugares, com a possibilidade de os voltar a pôr no mapa, fazendo falar as suas histórias, mas fazendo deles já uma outra coisa. Sonho com um passado recheado de futuro, se possível perto de grandes rios.
~CC~


quarta-feira, maio 27, 2009

Olhar

Esta impossibilidade de sabermos quanto vale um olhar é assustadora. Os olhos de Dias Loureiro parecem de cordeiro manso, alguém a quem confiaria uma carteira recheada. Os olhos de Sócrates anunciam um lince. Os olhos de Ferreira Leite parecem estar sempre num outro lugar. Os olhos de Paulo Portas são sem medo, enquanto os de Miguel parecem só querer fugir dali.

Os olhos da princesa Diana eram de um insuspeito azul, anunciavam dias de primavera e não tinham uma sombra da morte.

Dantes lia os olhos, adivinhava almas. Agora desisti de tal ofício, é de grande risco.
~CC~

segunda-feira, maio 25, 2009

A flor do morango



Vi o filme morangos silvestres de Bergman muito cedo, cedo demais para perceber a complexa teia de fantasmas que o habita. E miúda como era, lembro-me de pensar que nunca na vida tinha visto morangos silvestres e que tal planta devia afinal ser da mesma natureza que o sonho/pesadelo do filme. Era uma planta inventada, criada pelo realizador, uma variante dos morangos domésticos mas rebelde e indomável. Só depois descobri que os havia a sério.

O ano passado descobrimos que o canteiro da casa em que passavámos férias em S. Pedro do Sul estava cheio de morangos silvestres, selvagens. E em pleno Verão as bagas vermelhas pequeninas espreitavam pelo meio do emaranhado de folhas. Não tive coragem de os provar, consta que são azedos e por isso ninguém os apanha, ninguém os come. Trouxe um pé deles para minha casa, agradava-me a ideia de conviver com tal planta, mas como muitas outras que trazemos para casa apanhadas ao acaso pelo campo, elas definham e morrem neste ambiente quotidiano de apartamento. Não foi o caso deste morangueiro, depressa cresceu e se desenvolveu e teve de ser mudado mais que uma vez de vaso. Era um selvagem que gostava de luz e do mimo que eu lhe dava. Sinceramente não pensei que viesse a dar fruto. Mas hoje reparei que tinha uma pequena uma flor branca e amarela e depois vi melhor e havia mais, pelo menos quatro botões prontos a nascer.

Agrada-me esta ideia de trazer para casa o que é silvestre, o que é diferente, o que vem de lugares onde estive, e são coisas vivas, que ficam a fazer-me companhia sempre que esta casa se mostra demasiado vazia.

Acreditem, às vezes basta uma flor de morango.
~CC~

sexta-feira, maio 22, 2009

Mulheres da minha vida (II)

Tenho dentro de mim infinitas histórias de mulheres e estão sempre a falar comigo como se uma parte da minha vida fosse a delas também. São histórias de amor, mas o que é que não são histórias de amor. Estas duas mulheres eram bonitas, embora bem diferentes. Mas acrescentavam a essa beleza uma energia sem fim, uma vontade de saber mais, uma avidez pela descoberta do mundo. Ambas estudaram e se licenciaram e tiraram mestrados, foi aliás no final desse percurso académico que as conheci. Ambas amavam homens bonitos, morenos, de porte atlético e sorriso aberto. Eram deslumbradas por eles. Um deles era perito em usar as mãos para colocar qualquer máquina a trabalhar e o outro em usar as mãos para delas tirar notas de música pelos bares da cidade onde moravam. E elas valorizavam aqueles homens pelo que eles sabiam e eram. Mas eles não, não se sentiam bem por serem os homens daquelas mulheres bonitas e cultas.

Falo assim delas mas elas não se conheciam, não sabiam nem nunca saberão do paralelismo das suas histórias. E as histórias delas, descontando uma coisinha ou outra, são mesmo estas.


A primeira desconfiou do telemóvel a tocar constantemente, e não resitiu a espreitar as mensagens. Pasmei por a saber capaz de espreitar as mensagens do marido, o primeiro dos actos irreflectidos que cometeu. A seguir ligou para a mulher que ligava sempre ao marido dela e disse que a queria ver. E viu. E viu que ela não era bonita, nem culta, nem interessante aos olhos dela. E nunca mais se esqueceu do que ele lhe disse: ao menos com ela estou à vontade, nunca me sinto "de menos". O que será uma pessoa sentir-se "de menos" perante outra? Que medo tinha aquele homem?


A segunda saiu de casa com uma malinha e não voltou mais, farta do inferno que ele a fazia viver por se sentir sempre "de menos". Soube depois que ele tinha ido estudar e que não só se licenciara como tinha ido fazer um doutoramento em Música para Londres. Há portas que quando se fecham é mesmo porque vale a pena.

Elas continuaram bonitas e sábias e interessantes, mas ganharam uma espécie de desgosto, de desconsolo, de cepticismo. E isto ultrapassa em muito a dicotomia bonita/burra e feia/inteligente e a aposta dos homens numa ou na outra coisa. Agora é tudo muito mais complexo e difícil, no amor como em tudo o resto.
~CC~

quinta-feira, maio 21, 2009

Truques para dias infelizes



É simples, viajar à memória dos dias felizes. É aliás a única utilidade das fotografias domésticas, lembrar-nos que somos capazes de ser espantosamente felizes.
~CC~

quarta-feira, maio 20, 2009

Com pouca fé


Sou normalmente muito tolerante em relação às igrejas e à Igreja Católica em particular. É uma benevolência marcada pelo mistério da vida existir no meio desta galáxia perdida no meio de outras galáxias. Compreendo muito bem que este espanto leve as pessoas em busca de Deus. E depois há os rituais da fé, genuínos e belos se nascidos desse achar que o homem é coisa pequena e frágil. Dito isto, é preciso dizer que da igreja tenho apenas a curta experiência de uns meses na cataquese, passados a cantar, a fazer bolos e a passear pelas alamedas ajardinadas do seminário da Portela, com uma senhora a caminhar para a meia idade, que tomava conta de nós com o mesmo desvelo que qualquer tia faria.

Mas últimamente, e descontando Setúbal, prolífera em bispos proletários, teria me desiludido por completo, caso algum dia me tivesse iludido. O aproveitamente pela igreja desta crise que vivemos tem mostrado uma faceta caritativa que não me convence, a todo o momento é apregoada a bondade do ritual da oferta, mas não se lhes vê uma ideia que possa ajudar a vencer a pobreza. Quase acreditamos que, como no velho regime, bastaria a cada bom e abastado homem alimentar um conjunto de pobres, e tudo ficaria resolvido.

E não só se banalizam rituais antigos, fazendo de lugares de culto, santuários de cimento e betão armado (onde estão as azinheiras? era aí que a nossa senhora gostava de pousar...e isso sim era uma coisa poética) como se inventam outros de um ridículo atroz, santificando uma estátua (falo do Cristo Rei, pois...) que de santa nada tem.

Está chumbada esta Igreja Católica em tempo de crise, não resistir ao aproveitamento do que se passa para tirar dividendos e espalhar a fé, coloca-a ao nível de um partido político qualquer.

~CC~

PS- Que me desculpe a minha querida Madalena....