Como pode a crise existir se o Alentejo se cobriu de estevas e elas me entraram olhos dentro, tornando-os amarelos e brancos e suavemente perfumados.
Como pode a crise existir se hoje choveu tanto e a minha rua se cobriu de uma nuvem de gafanhotos pequeninos que pulavam por todo o lado espantados pela sua existência longe da terra natal.
Como pode a crise existir se ainda tenho as pernas a doer dos passeios de bicicleta em busca dos flamingos e as mãos a arder das flores das malvas que trouxe penduradas no volante.
Como pode a crise existir se nasceste do tamanho de uma mão e parecias à morte destinado e ensaias agora no quintal os primeiros passos e palavras e adormeces a sorrir.
Como pode a crise existir se o último folar algarvio que provei era realmente o verdadeiro, tão genuíno quanto as mãos do meu avô que todas as Páscoas fazia do mar uma vila de ameijoas.
Como pode a crise existir se ainda tenho tanto para fazer e preciso de ter esperança para me levantar todos os dias.
Oiço no rádio que o país está à beira da falência e vejo afinal que o meu carro está cheio de desempregados da Quimonda e fecho os olhos para que as estevas possam voltar, mas não se passa nada. Oiço-o ainda a desfiar o orçamento negro da escola, muito mais de metade gasto em pessoal. Sempre que alguém fala em gastos com o pessoal, sabemos que o mais natural é que o céu se torne cinzento. E penso que se este abismo nos absorve, nada mais nos restará.
Mas esta praga de gafanhotos pequeninos de onde veio? Tecnicamente seria impossível esta viagem, e é nisso que me concentro. Concentro-me nesta possibilidade de vir alguma luz deste lugar tão escuro onde andamos.
~CC~


