segunda-feira, março 16, 2009

Dias


O pessegueiro mostrou as florinhas rosa que aconchegou durante o Inverno. O lírio branco veio à frente a chamar os outros para a luz. As papaias amadurecem como se estivessem na sua terra, mas a secura das folhas queimadas pelo frio mostra que a preferência é ainda o calor. As meninas, tontas pelo sol e pelo início da adolescência tomaram frenéticas o primeiro banho e estenderam-se ao sol para dourar as suas peles ainda meninas. As ondas mansinhas foram e vieram para trazer som às conversas de fim de tarde na praia. Os pés nus a enterrarem-se na areia ainda fria e húmida, desmentiam a gravidade do momento que atravessamos, o da vida colectiva e o da nossa. O sol torna leve o que é pesado e as flores e as andorinhas quando chegam trazem a tudo esperança. Na manhã seguinte há um passeio de bicicleta entre salinas, inúmeras passagens de nível sem guarda, casas arruínadas e um verde ainda orvalhado, há pequenas paragens para beijos.

A pasta dos livros fica quieta e os trabalhos arrumados, percebo a gravidade do meu acto ao mesmo tempo que sinto que para alguma coisa nasci com asas. E se às vezes elas me pesam e queria arrancá-las, de outras uso-as realmente para voar.


~CC~




sexta-feira, março 13, 2009

O meu nome é Vanessa (XV)

Três anos, foram três anos apenas que vivi com aquele estranho. Entre ele e mim a necessidade de fazer o jantar, lavar e passar a roupa, ir ao supermercado comprar a comida, ligar a televisão de vez em quando. Entre ele e eu um acordo de sombras chamado casamento. A minha saída autorizada do inferno que era a minha família, ele foi pelo menos um passo em direcção ao nada. E deserto é melhor que inferno, é um lugar onde o fogo não nos devora.

Oiço esta mulher falar com a frontalidade que nunca tive. Ela fala do amor como um lugar que nunca existiu, eu, pelo contrário, fui rodeado de um afecto que nunca soube corresponder. Lembro a minha mãe a entrar no quarto todas as noites para dizer: boa noite filho. E eu, por último já nem conseguia responder, fingia que estava a dormir. Gostava de saber porque é que me tornei assim, que medo é este que aprisiona a minha fala e que sempre me impediu de dizer amo-te, mesmo quando a miúda mais morena e mais bonita da minha rua passou a ocupar parte dos meus dias e das minhas noites. No dia em que ela olhou para mim no café fiquei aterrado e naquele em que se sentou à minha mesa, pensei mudar de morada. Timidez, poderiam pensar. E no entanto, escolhi esta profissão onde estou sempre a contactar pessoas. A minha solidão não se percebe, eu próprio não a percebo. A minha vida amorosa é o oposto da vida da Vanessa. E respondi-lhe sem pensar.

- Deserto, Vanessa, não uses essa palavra, essa palavra é minha, é a melhor que encontro para definir a minha vida.

E foi nesse dia, o da 9º entrevista, que deixei totalmente de a entrevistar, os nossos encontros passaram a ser um diálogo. À mesa do café, um homem chamado deserto e uma mulher chamada desespero.
~CC~

quarta-feira, março 11, 2009

Mulheres da minha vida (II)


Faz-se silêncio nos dias em que não está, o sofá da sala não se abre como cama para nos estendermos, não há elogios sobre a salada que só eu sei fazer e protestos sempre que é peixe. Nas noites em que não está não há perguntas para as quais tenho que pensar duas vezes antes da resposta, nem comentários sobre a minha roupa nem conselhos sobre a escolha da dela para o dia seguinte. A noite termina sempre mais sombria, não obstante ser torturante mandá-la para a cama e ela lembre o chá que faz parte do ritual nocturno, na tentativa óbvia de prolongar mais um pouco o dia. Esta noite custou mais deixá-la ir, tive um assombro de egoísmo de a querer ver acordar amanhã, mas deixei-a ir, porque não podemos aprisionar o que amamos e os filhos têm que ser partilhados porque feitos a dois. E percebi que o almoçar amanhã na escola era importante, mesmo quando pede tantas vezes para não o fazer e me apetecia imenso poder vê-la ainda de dia, é a parte que cabe ao riso das amigas quando se faz 13 anos.


São tantas as coisas que mudaram este ano. O primeiro não assumido que tive que dizer às unhas pintadas, a primeira mensagem de comemoração do dia da mulher que ela me reenviou por sms, o interesse pela primeira vez genuíno pelas mudanças sexuadas do corpo, do seu e das outras raparigas, o desejo claro de sair do país e conhecer outras coisas, o gosto pela prática do Judo. Há crescimento diário em cada diálogo sobre o mundo, sobre o quotidiano e maravilho-me pelo seu gosto de discutir e de pensar. E se é em muitas coisas original e diferente das outras miúdas (Oh meu Deus, os dias que levámos a explicar-lhe o conflito entre Israel e a Palestina!) e é crítica (eles nem sabem o que é a Casa Branca…nem querem saber!), é também parecida com todas elas em muitas outras (um telemóvel novo é que era uma boa prenda!) e isso faz dela uma rapariga integrada, mas capaz de pensamento próprio. Parece-nos a maior parte das vezes uma pessoa feliz, mais feliz do que alguma vez eu me lembro de ter sido na idade dela, quero contribuir para que assim seja.


É mesmo a menina, a mulher da minha vida.

Parabéns ~A~.

terça-feira, março 10, 2009

Abraço

Sabes, também cresci mergulhada nessa inspiração de justiça divina de que a vida nos dá o que merecemos, que nos retribuí o que lhe damos, cresci nessa ilusão de que há recompensa para as coisas boas que fazemos. Mas não há, não há. Por causa disso, deixei crescer a zanga e a fúria e elas tornaram-me por vezes tão amarga que não me apetecia dar mais nada. E ao nosso lado, mesmo ao nosso lado, podem estar aqueles que nos atam as pernas quando deles era um abraço que esperavámos. Se me colocar no lado oposto, deixarei de pensar sequer que há justiça, e isso eu também não quero. Se me colocar no lado oposto, deixarei de acreditar nos abraços e isso eu também não quero.

Perguntarás o que resta então. Resta sabermos, nós e mais alguns, mesmo que poucos, que o que fizémos foi bom, que temos valor. Resta a dignidade de dizer sim e de dizer não. Restam-nos os abraços quentes e verdadeiros dos que realmente nos sabem ver por dentro e há sempre quem sabe.

E o povo diz sabiamente: há mais marés que marinheiros. E numa dessas marés há os aplausos das gaivotas.
~CC~

domingo, março 08, 2009

Mulheres da minha vida (I)


Nasceu num lugar pequenino perto do mar e filha de maritímo, uma casa onde os irmãos eram tantos que se queixa de nunca ter tido o carinho e a atenção suficiente, mas perdoa porque a vida era assim mesmo e as crianças não se podiam evitar. Também não aprendeu a fazê-lo vida fora, e por isso o sexo sempre foi emsobrado por esse receio de através dele chegar mais uma criança. Nesse tempo, o prazer das mulheres era condicionado não só porque não era suposto o terem, como também pelo medo da casa se encher de bocas que não se conseguiam sustentar. Muitas vidas, como a dela, teceram-se nesta fatalidade. No mais foi audaz e competente, partiu atrás do seu amor por vários continentes, cheia de bravura mas também da inconsciência de quem sabia do mundo apenas o que os três anos de escola primária lhe tinham ensinado. Fez maravilhas com tão pouca instrução, a melhor delas a de nunca ter desistido de criar as filhas, mesmo quando para o jantar só tinha pão e chá.

Não soube encontrar outro amor depois do seu a ter deixado porque era assim a vida dessas mulheres, elas eram só de um homem, e depois dele só mesmo os filhos eram capazes de alimentar os sonhos. Nunca foi farta nas palavras e nos gestos carinhosos e foram muitas as vezes que disso nos queixámos, mas essa aprendizagem também não a tinha feito, e não sei se se pode dar aquilo que nunca se teve. Com as netas é hoje diferente e é possível ver manifestações de carinho, a maior parte das vezes sob a forma de histórias contadas, ou de uma história única, a sua própria.

É ainda bonita aos 80 anos, talvez mais bonita do que alguma vez foi, embora lamente muitas vezes a sua beleza perdida, bem clara nas muitas fotografias que adornam a casa. É uma mulher fruto do seu tempo, de um tempo que aprisionava ainda as mulheres, mas é já uma mulher deste tempo, capaz de autonomia, de opinião, de decisão.

Tecer-lhe homenagem é a melhor forma que encontro de comemorar este dia.
~CC~

sábado, março 07, 2009

Corda bamba

A nossa vida parece às vezes poder mudar num indivizível minuto, estar num lugar errado à hora errada ou no lugar certo à hora certa. O amor e a morte podem surgir assim de repente ao virar da esquina. Leio no jornal Sol de hoje que na Mealhada uma pessoa que levantava pacificamente dinheiro no multibanco da área de serviço foi colhida brutalmente por um automóvel desgovernado e teve morte imediata. Choca-me esta morte assim sem razão, sem aviso de doença ou motivo imputável. Choca-me ainda mais que as recentes mortes de governantes e chefias militares na Guiné, essas explicáveis pelo ódio.

Lembro como no filme o leitor, o rapaz se senta para vomitar na entrada de um prédio degradado e assim encontra Hanna, mulher bem mais velha, que na sua contida generosidade o ajuda a voltar a casa. Maravilha-me aquele encontro que nada fazia prever, sustido pela impossibilidade que seria o cruzamento daquelas vidas noutro horizonte qualquer. O amor, pode surgir assim também, sem qualquer sinal. E maravilha-me essa possibilidade, mais ainda do que quando ele surge em consequência de um conhecimento ou relação longa entre duas pessoas.


E lembro-me da forma como também escapei milagrosamente com vida num despiste na autoestrada do sul e da felicidade que senti por ir sozinha. Parece que ganhamos uma segunda vida e com ela novos sentidos.

Há cerca de um mês atrás mais um episódio. Ia conduzido devagar pela cidade e vi com clareza a mãe, a jovem e a criança no fim da passadeira. Já tinham atravessado e por isso eu não necessitava de parar. Mas a criança levava uma bola e a bola soltou-se das suas mãos, pelo que a criança voltou atrás de repente e vi a bola a correr pela trajectória inversa à que eles tinha feito. O meu carro já estava em cima da passadeira quando a criança volta atrás e foi apenas por um reflexo rapidissímo de curvar o carro para a faixa mais à direita que não lhe bati, mas parei claramente já em cima da passadeira. O miúdo devia ter uns 4 anos, saiu fora do ângulo de visão do vidro da frente e nem sequer vi logo se tinha conseguido desviar ou se o carro o tinha atingido. Sai em pânico e deve ter sido por apenas meio metro que não ficou debaixo do carro. A mãe, muito assustada, deu-lhe imediatamente duas palmadas. Mas o que teria acontecido se lhe tivesse batido, a mãe culparia na mesma a criança? A verdade é que eu parei em cima da passadeira, para quem não tivesse visto, seria para todos os efeitos um atropelamento na passadeira, dificilmente poderia provar que a criança já tinha atravessado e tinha voltado para trás em busca da bola. As nossas vidas ficariam tragicamente marcadas por uma bola que se tinha soltado das mãos. Ainda hoje respiro de alívio.

É assustador e trágico que a vida não possa ser inteiramente dominada pela nossa razão e pelos nossos actos, que a todo o momento nos aconteçam coisas como estas que mencionei, coisas que o povo atribui ao azar e que não sabemos classificar inteiramente de outro modo. Mas ao mesmo tempo quando os acasos são felizes ou quando escapamos milagrosamente aos infelizes, tudo nos parece mais belo. Para quem acredita em Deus, é fácil encontrar explicação, atribuindo-lhe a responsabilidade. Mas para quem, como eu, não tem nenhuma certeza quanto à sua existência, tudo isto nos surpreeende e interroga.
~CC~

quinta-feira, março 05, 2009

Nascer

Nascer do sol na Arrábida. Nov. 2008

- Correu tudo bem com o seu menino, nasceu bem?
- O meu menino, o meu menino nasceu de olhos abertos e não chorou.
- Deixe lá comadre, é porque ele queria ver tudo.
- E já viu se ele vai ser sempre assim, a querer ver e saber tudo?
- Pois, comadre, os miúdos quando são espertos querem ir para longe e fogem-nos da mão.
- Eu não me importo que corra mundo, desde que venha sempre ver-me. E depois comadre, não sei se tenho dinheiro que chegue para todas essas viagens que ele vai querer fazer.

O meu menino nasceu de olhos abertos e não sei se viajou muito, certo é que chegou até mim. Nasceu numa praia frente ao mar, chegou numa onda chamada beijo que soube a sal doce.

Parabéns.

~CC~



quarta-feira, março 04, 2009

A vida é na TV

A TV permanentemente ligada, como se no cabo que a liga residisse a verdadeira vida, em vez de ser no sangue que corre nas veias.

O cabeleireiro é pindérico e periférico, todo ele esteticamente duvidoso. Elas cortam o cabelo em cortes sem graça e apesar das brasileiras viverem paredes meias, não aprenderam com elas a dizer queridinhas nem a acenar-nos com sonhos de beleza miraculosa. A televisão permanentemente ligada, substituídas as novelas por outros programas mais cultos, quase todos resumidos a mudar qualquer coisa na vida das pessoas. Pessoas que se oferecem para que lhes mudem a roupa, a casa, o jardim e a varanda.

Os olhos delas vidrados na maravilha do papel de parede, na oliveira de jardim, no corte do fato, na mudança de cor do cabelo. Os comentários são fluentes, indiferentes à minha presença, presos naqueles anjos televisivos que agem como engenheiros de moda e de design de interior. No fim, arranjado o quarto e a varanda, elas dão gritinhos de contentamento como se a vida delas também tivesse mudado por completo. O preço é módico, mas não sei se cobre a tortura.

Ainda por cima a franja ficou torta.
~CC~

segunda-feira, março 02, 2009

O meu nome é Vanessa (XIV)

Combinámos uma sexta ao fim da tarde, libertos do gravador, podia ser mesmo na esplanada da Fonte Fria. E percebi que conseguia registar as palavras dela sem qualquer auxílio, elas ficavam guardadas na minha memória, como se a Vanessa estivesse a escrever dentro de mim, como se eu fosse a sua folha de papel branco.


Dias e dias sempre iguais em que o amor é só uma sombra que se arrasta pelo imaginário. Eu até aguentava querer sexo e não ser com aquele homem que se deitava comigo. O que eu não aguentei, percebes, foi a minha criança deitada fora. No dia em que ele disse: Vanessa, pensava que estava claro que eu não quero ter filhos...a partir desse dia a chave a rodar na fechadura para assinalar a entrada dele era igual a uma lamina a cortar-me a carne por dentro. Era a repetição vezes sem conta da criança que eu não tive, que eu não pude ter. E soube que era apenas uma questão de tempo para que um dia por trás daquela porta ele só encontrasse a casa vazia. A liberdade, meu amigo, é linda como o mar.


Vanessa, os teus olhos são amarelos e não têm aves azuis lá dentro, por isso não percebo porque me parecem ganhar asas.


~CC~

sábado, fevereiro 28, 2009

Não saber ler

O homem devia ter perto de 60 anos, cedi-lhe a passagem na porta de entrada da tesouraria das finanças. Os funcionários estão numa espécie de caixas de vidro, cada um na sua, como se fossem aves raras. Têm apenas uma janelinha por onde falam connosco, de preferência que esses diálogos se resumam a passar-lhes as notas certas ou o cartão multibanco. Um deles é mais zeloso, costuma avisar-me de todas as coimas que terei se não pagar a tempo, salientando os prazos e escrevendo num papelinho, por acaso gosto dele. Mas o que se passou com o homem de 60 anos que não sabia ler, isso não abalou nem por um minuto a ordem do dia nas caixas de vidro.

Primeiro as senhas de atendimento, divididas em sectores. O homem que não sabia ler, não podia escolher. Estava à minha frente atordoado, mas não pedia ajuda. Nestes momentos sabemos o quanto as pessoas têm vergonha de não saber ler. Li o que queria dizer cada uma das secções possíveis como se o fizesse para mim própria e ele então tirou a que queria. Não me disse obrigado, avançou directo ao balcão. A funcionária mandou-o para trás, não era a sua vez, só quando chamassem o número da sua senha. O homem não disse nada, ficou ali a aguardar. Como ele não sabia ler o número, também não daria por nada quando o chamassem. Assim aconteceu. Fui até perto dele e disse baixinho: é o seu número. Ele avançou para ser atendido, mais uma vez não me agradeceu.

O seu desconforto era tanto que ele não podia agradecer-me. Percebi também que cada vez mais o mundo não atende pessoas que não sabem ler.
~CC~

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

A cigarra e a formiga

A poupança talvez fosse uma forma de domar a crise, esta crise, todas as crises, as minhas, por exemplo.

Eu poderia ter um telemóvel que me poupasse em sms a mais em certos dias e as enviasse noutros, trocando inteligentemente datas e emissários, um up grade de tecnologia verdadeiramente portadora de felicidade em vez destes objectos inertes que só funcionam por comando. Nos dias e momentos necessários, o equipamento enviaria por sua iniciativa vários amo-te rapariga.

Eu poderia enrolar os crepúsculos em certos dias para os desenrolar dentro de mim nos outros em que a névoa os obscurece. Um crespúsculo dos mais belos poupado nos dias felizes, quanto esplendor poderia trazer nos dias maus.

Eu poderia abrir uma conta poupança de beijos num banco que jamais fosse à falência, para os poder tirar nos dias de boca seca e de lábios ausentes.

Eu poderia fazer render muito mais certos momentos de êxito em que os sorrisos em torno de mim são tantos, poderia congelar um sorriso e depois descongelá-lo para servir ao jantar.

E os aplausos, oh quanto os aplausos vindos de certas mãos poderiam ser milagrosos quando o espelho teima em devolver-me um rosto sem pingo de encanto. Poderia transformá-los em pó e depois soltá-los em frente ao espelho para ver como eles me transformavam em nada menos que Juliette Binoche.

Como nunca soube nada de poupanças, só resta ir ao fundo encontrar uma migalhas e transformá-las em qb de sol. Devem durar e fazer-me chegar até dias mais felizes. E quando lá chegar, aí testarei todas as artes possíveis de arrecadar, congelar, condensar. Uma formiguinha totalmente previdente, uma artista a domar qualquer crise, perita a calar qualquer sinal de mal estar, uma engenheira pronta a desecantar qualquer solução. Nunca mais ficarei triste.
~CC~

terça-feira, fevereiro 24, 2009

O meu nome é Vanessa (XIII)



Desde o princípio que este jornalista me pareceu estranho. Quis muito contar-lhe a minha história, mas sentia-o incomodado, prisioneiro de si mesmo, fechado sobre o seu mundo. Quase nunca olhava para mim e precisava de um cigarro para aguentar o que lhe contava. Invariavelmente passavámos do espaço interior para o exterior e na última vez ele esqueceu-se de levar o gravador. Percebi então que não obstante ter confirmado a existência real da revista e ter visto o seu nome na ficha técnica, alguma coisa não batia certo.

Por isso me ri imenso quando me mostrou a reportagem já feita onde nenhuma Vanessa constava. Pois, pois...já desconfiava...disse-lhe. Ficou tão aliviado com a minha indiferença que julguei que me ia beijar as mãos ou os pés, não fosse ele tão pouco dado a manifestações de afecto. E depois: mas quero continuar Vanessa, preciso de continuar a ouvi-la, a conversar consigo! E aflito com a minha frontalidade: Encontrei finalmente um homem que amo e não o quero perder a não ser para a morte, por isso se pensa apaixonar-se por mim, é melhor acabar com isto já.

Eu não era perito a entender os meus sentimentos, mas não era paixão, nem amor, nem amizade. O que me juntava à Vanessa era uma espécie de desejo de viagem. Disse-lhe: Vanessa, o que eu quero não é nada de mais, é só viajar consigo, ir através da sua história a um outro lado de mim, a um mundo que nunca foi o meu.

~CC~


segunda-feira, fevereiro 23, 2009

O medo

Olhava maravilhada a forma como ele deixava as abelhas pousarem nas suas mãos. Ele tentava que eu não tivesse medo. Foi o primeiro ecologista que conheci. Deixa que pousem na tua pele, que te conheçam, elas vão saber que não és nenhuma flor. Fascinava-me o crachá ao peito: amigos da terra. Também ele era ostracizado pelas suas convicções, o que lhe dava uma proximidade especial, embora eu estivesse longe de dominar as minhas convicções como ele dominava as dele. Ele ensinava-me: não deves ter medo, o medo atrai os instintos agressivos dos bichos.

Lembro-me que foi num dia de intensa Primavera, daqueles em que as flores parecem vivas e os animais andam meio tontos. A abelha em cima da palma da mão dele, a mão aberta, a abelha a passear. De repente ele gritou, a abelha espetou-lhe o ferrão e ele não conteve a dor.

Fiquei com o meu medo, talvez não seja assim tão mau ter medo.
~CC~

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Saudades

Chegou a tua mensagem, veio da adolescência com o sol, o aroma das maçãs vermelhas e a nostalgia dos yogurtes de limão, estes últimos agora vedados pela úlcera que piorou com os quarenta. E quasei chorei, presa das memórias dos dias que eram nossos.

Aprendi a calçar galochas pela manhã e a sair para o campo em cumplicidade contigo. A nossa diferença alimentava-se da fuga ao que os outros queriam ser e eram. Eu fugia de aprender a matar galinhas e transformar os aviários em embalagens de supermercado, ia apanhando flores pelos caminhos, ramos e raminhos, pedras, gravetos e sementes. Decorava as paredes com as espigas de trigo e de milho, em vez de saber quanto rendia por m2 uma plantação. Tu vestias cores impensáveis para um aprendiz de agricultor, e tinhas gestos e palavras suaves que por si só agrediam os rapazes da turma. Lembro-me de cruzar o pátio contigo no meio de apupos e insultos. E quanto mais eles ostentavam o seu desdém, mais a nossa diferença era motivo de orgulho para nós. Eu e tu, nunca um largava a mão do outro.

Depois aprendemos alguns instrumentos de diálogo, descobrimos que com alguns dos aprendizes de agricultor era possível trocar meia dúzia de palavras neutras. Estavámos cansados de ser desprezados, mas jamais o poderíamos admitir. E descemos vagamente do nosso templo para dar o braço a quem merecia uma oportunidade, quem também tinha o seu mérito, mesmo sem a nossa aura de artistas perdidos e filosófos da noite. Talvez tenha sido aí que comecei a aprender que a diferença não é por si só um motivo de orgulho, talvez tenha sido aí que comecei a usar com mais cuidado as designações de piroso e pimba para me referir a quase toda a gente, talvez tenha sido aí que comecei a usar a compaixão na compreensão das pessoas, a gostar delas mesmo quando ofereciam caixas de bombons no dia dos namorados.

Outras coisas, meu amigo, por exemplo, esta saudade de nós, essas coisas só vão chegando com a úlcera dos quarenta. É verdade, não te disse, mas no fim de semana passado andei a apanhar lírios do campo.
~CC~

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

caderno diário

O quotidiano regressa, é como uma pele à qual só temporariamente se consegue fugir.


~CC~


segunda-feira, fevereiro 16, 2009

O meu nome é Vanessa (XII)

A Vanessa ficou quase um mês sem dizer nada, não enviou mais cartas a falar dos seus homens nem me ligou. A reportagem saiu há 15 dias e ela ficou obviamente de fora. Pensei em nada dizer, ciente de que o tempo levaria os seus olhos sem cor e aquele rosto ruivo. Pensava nela muitas vezes, no modo de lhe dizer que fazer a reportagem sobre ela era o mesmo que assinar a minha carta de despedimento.

Falava com ela sozinho...As pessoas, Vanessa, não querem saber de raparigas do povo que não acabam em Cinderelas. As pessoas, Vanessa, não querem saber das tuas histórias que em vez de amor são histórias de puro desamor. As pessoas, Vanessa, não querem saber de uma miúda que foi violada e se calou até hoje. As pessoas, Vanessa, não querem saber, de uma mulher que encontrou até aos 21 anos quatro homens e nenhum deles era nada de jeito, eram ainda mais incolores do que os teus olhos. Vanessa, tu não mereces um artigo com o teu nome, nem meia página. Vanessa, é assim a vida.

Liguei-lhe.
~CC~

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Anseios


Será que o sol veio para ficar?
Vou dar um passeio com ele.
~CC~

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Os bons e os maus

Por estes dias não sei te tenha mais medo dos corruptos ou dos incorruptíveis. Os primeiros não se parecem nada com ladrões, de tal modo andam bem vestidos e bem cheirosos e, apesar de sabermos que o mundo anda desgovernado, é ainda assim estranho chamar-lhes banqueiros, membros do Conselho de Estado ou do Governo.

Os segundos não se parecem nada com inquisidores, bramindo os seus chicotes feitos de palavras parecem missionários de esquerda e de direita milagrosamente juntos numa frente comum, usando panfletos digitais ou o velho papel, tudo parecem saber sobre esse males que são os jogos de influência, o compadrio, a corrupção; nada disso jamais os afectará.

Olho para uns e para outros e tenho medo. Medo da corrupção que em vez de se chamar gasosa como em Angola e ser descaramente praticada, é subtilmente infiltrada e embrulhada em alta costura. Medo dos anti-corrupção porque parecem nunca ter roubado um chocolate num supermercado, nunca ter pensado primeiro em si do que no outro, parecem ter sido depurados por alguma técnica inovadora de cirugia estética que os tornou sombras. E os seus gritos por verdade, verdade e justiça, justiça, parecem-me tão perigosos como o seu contrário.

Mas isto sou só eu a desculpar-me por já ter roubado um chocolate num supermercado. E a justificar não ter brincado aos polícias e ladrões por não gostar nem de uns nem de outros.
~CC~

terça-feira, fevereiro 10, 2009

O casulo


Todos os dias que não quiseste vir viver para Paris comigo. Todos os dias em que te afogaste entre o prato da sopa e o telejornal das oito. Todos os dias que acordaste com as asas cortadas, morto pelo Inverno a crescer dentro de ti, esmagado pelo peso das responsabilidades. E as responsabilidades espremidas são apenas e só meia dúzia de condições de sobrevivência. O que há em Paris que não há aqui? Porque queres ir? Para nos vermos, para nos encontrarmos, para nos beijarmos hoje com mais vontade que ontem. Vem para Paris comigo já hoje.


São tantas as mulheres que são como a Kate, tantas as mulheres que lutam como a Kate (não me lembro que nome tinha ela no filme). Os fios que a atavam nos anos cinquenta eram mais fortes, mas agora ainda estão lá, talvez mais invisíveis. Há na tragédia dela uma loucura que reside na persistência do seu desejo e o desejo habita no seu corpo com uma intensidade brutal. É uma mulher que quer sair do casulo, romper com os fios da mentira de uma vida pautada quase exclusivamente pelas aparências, pelo simulacro da normalidade.


Há em muitas mulheres uma Kate, uma Kate que sem ninguém ver já começou a sua viagem para Paris. Os homens devem ver este filme. As mulheres que não querem ir para Paris também. E as que querem ir, sairão com lágrimas interiores.

~CC~

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

O meu nome é Vanessa (XI)

Pergunta porque me casei com 21 anos? Por inércia, só isso. Para ser como as outras talvez. Para deixar a casa dos meus pais também. E ainda porque queria ter filhos. Foi ele o quarto, o meu quarto homem. Casei num dia de chuva e mesmo assim não fui abençoada. Quer que dê um nome ao meu casamento? Tédio, pura e simplesmente tédio. Duas pessoas a viver sobre o mesmo tecto com uma profunda indiferença um pelo outro, com sexo duas vezes por semana, como se fosse uma medida higiénica para manter vivos os órgãos sexuais. Quatro homens e zero de paixão, de amor, de vida.
~CC~

domingo, fevereiro 08, 2009

Só um modo de passar o Inverno



A terra foi secando bocadinho a bocadinho à medida que do céu só chegava sol e mais sol. Nestes dias de chuva, o modo de não entristecer perante a humidade da água, é lembrar o quanto a ausência dela é para tanta gente um dos modos mais duros de morrer. A todo o momento, em terras de S. Nicolau, eles recordavam o tempo em que a ilha era verde com a mesma saudade que carregam para todos os lugares do mundo por onde se espalharam.


E a par da terra seca e dura, tudo o resto é o oposto. Em cada canto da casa mais humilde há uma galinha que põe ovos e uma rama de cebola ao fundo do quintal, tudo pronto a fazer saltar uma omelete de sabor único para quem entra pela porta. Há sempre um resto de peixe frito, de cachupa que sobrou, um golinho de grogue ou de ponche, e todas estas coisas têm um sabor caseiro maravilhoso e único. E fotografias, há sempre muitas fotografias. E em cada casa sabemos os nomes dos que estando, são aqueles que lá estão raramente. Estes corações funcionam de maneira especial, são alimentados de força e nostalgia.


Mais logo a tocatina, esse lamento triste envolto em ruidosa alegria.


Pode ser estranho, mas é muitas vezes este o meu modo de (ultra)passar o Inverno.


~CC~

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Sem listas nem seguidores...

Cheguei à blogosfera um pouco inocentemente, na verdade pelas mãos de um amigo com quem mantive durante um ano um blogue comum (o JVT do Ninguêm lê). Gostei francamente de ser um lugar onde se podia escrever e ler coisas boas, a maior parte delas escrita por gente anónima, sem snobismo nem manias. Esta coisa de passear por vários lugares de Norte a Sul sem pagar e ainda ir pelo mundo, era francamente interessante.

Só mais tarde me apercebi que além de ser lugar de escrita e de leitura, de artes e de cultura, a blogosfera era também um veículo para as ideias políticas e para a luta cívica, mas também para a má lingua, nalguns casos praticada com piada e gosto e noutra pura e simplesmente pelo prazer da chicotada e do cinismo. Tardiamente fiquei a saber que existiam blogues de renome e alguns de comentares políticos reconhecidos na praça pública. Confesso que nunca fui grande adepta de tais blogues mas que reconhecia o seu papel e importância social,

Mas ultimamente tenho andado pessimista e muito céptica, especialmente desde que chegaram as listas dos mais lidos, a onda dos seguidores, e um conjunto de inúmeros dispositivos de incentivo à competição entre bloguers, e já não se mede só os que nos lêm mas também o número de links que temos e os que fazemos, etc. Estou assim inteiramente de acordo com a Ana e espantada com a importância que lhe dá o FJV.

Para mim que nunca usei sequer um contador de visitas no meu blogue, é difícil compreender estes indicadores tidos como de sucesso e o que é que esse sucesso significa para as pessoas.

Pensei que isto era um lugar lúdico, de sincera partilha entre gente que tem interesses comuns, uma rede social com algum sentido, que nos permitia alguma interacção a partir dos comentários e que isso nos chegava para perceber que não andavámos aqui sós. Mas sinceramente, seguidores...? Acho que há qualquer coisa de genuíno que se está a perder...e às vezes já penso em me ir embora.
~CC~

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

O meu nome é Vanessa (X)

Sentia há vários dias uma dor fininha no peito e, cada vez mais amiúde, falta de ar. Era esta a sina de um asmático. Desde miúdo o tormento das correntes de ar, da água fria, do tempo húmido. O médico nada me tinha dito sobre as perturbações causadas por terceiros. A única razão para este sufoco era a mentira que alimentava as minhas conversas com a Vanessa. Eu sabia que não podia publicar a reportagem sobre a vida dela, mas ela não. Ela queria continuar a falar dos seus homens, ainda só ia nos 19 anos e em três pequenas tragédias. E eu queria continuar a ouvir mas sabia que não podia publicar. As minhas razões para a querer ouvir eram confusas para mim próprio. Nesta profissão, a curiosidade esgota-se depressa, tantas são as histórias que ouvimos. Portanto não era esse o motivo. E pensei muito sobre isso, muito e muito.

E descobri a razão porque eu a queria escutar. É que eu nunca o tinha feito, nunca tinha olhado os homens com e pelos olhos de uma mulher. E ela estendia-me esse universo feminino onde eu nunca tinha entrado sem qualquer preocupação que não fosse simplesmente olhar.
~CC~

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

4 de Fevereiro


Podemos reduzir a poeira vermelha ao riso dos meninos que brincam na água tépida e quente do Atlântico. Podemos ver do caos apenas o embodeiro gigante que abrigou toda uma família em tempo de guerra. Podemos ver da violência o passeio tranquilo ao mercado de artesanato a poucos km de Luanda onde o português é tão pobre que não vale a pena roubar, é um maltrapilho companheiro para sempre. Podemos reduzir toda a sedução do macho que ambiciona mais que uma dama ao seu olhar triste quando lhe recusamos uma dança.

Hoje, especialmente hoje, África é o meu continente porque lá toda a dor é mais dor e toda a alegria é mais alegria e a sacanagem é tão sacanagem que se ri numa boca cheia de dentes de ouro. Podemos ser à vez de vários lugares do mundo?


Que venha uma moamba para o jantar!


~CC~

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Recado


Que o teu beijo chegue sempre como o sopro azul que abre a luz nos dias mas cinzentos.
~CC~

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

É a mais...

Dizem que o Senhor Ministro comprou a licenciatura que tem e depois assim feito engenheiro à pressa assinava projectos sem ver, alguns de gosto tão duvidoso que só podiam ter sido feitos na cabeça de um novo rico qualquer. Dizem que o Senhor Ministro não gosta de mulheres e não tem coragem de o assumir, fingindo que namora uma jornalista. Dizem que o Senhor Ministro mora num andar luxuoso, uma vergonha nestes tempos de crise. Dizem que comprou a pronto uma casa para a mãe, coisa de admirar num Portugal que só compra a crédito e passa meia vida a pagar uma casinha de três assoalhadas. Dizem que o Senhor Ministro se veste bem de mais, com roupa de marca e já passou pela vergonha de ter sido eleito um dos políticos mais bonitos do mundo. Dizem que o Senhor Ministro aceitou as luvas mais chorudas de que já memória para deixar colocar o centro comercial mais pimba que há num dos lugares mais bonitos de Portugal.

Não dizem, mas em breve dirão que ele copiava invariavelmente os trabalhos da escola por um colega, esse sim, brilhante. Não dizem, mas em breve dirão que respondia mal à mãe e que a ex.mulher se referia a ele como um homem nunca o tendo sido, se podia tornar violento. Não dizem, mas em breve dirão que um dia abandonou à sua sorte um pobre passarinho que caiu do ninho.

Se dizem tanta coisa, o homem não deve ser assim tão mau. É calúnia a mais. Quase começo a gostar dele.
~CC~

sábado, janeiro 31, 2009

Olhar mais para o céu

É já hoje na casa da música no Porto a abertura do AIA 2009. Máximo Ferreira, que esteve connosco na última Quarta Feira, disse de forma simples qual era o objectivo desta iniciativa: é pôr as pessoas a olhar mais para o céu. E nas última palavras: vocês ensinem os miúdos a ver, a observar e a pôr em causa estas nossas almas geocêntricas.

E falou duas horas sobre o Universo, convencendo todos que a Astronomia é a ciência que mais se aproxima da poesia. Eu saí de lá à procura das fases de Vénus, esse planeta que gira ao contrário tal e qual como quando estamos apaixonados. Vim pela noite fria a imaginar a gigantesca maternidade onde todos os dias nasce uma estrela, a lua arrastar para si a água do mar, os cometas tontos que caem nos planetas para os fazer estremecer, os lugares onde a vida se existe está tão longe de nós que caso nos vissem era na pré-história que nos situariam. Trazia comigo o sentimento de ser uma infinita particula do Universo e isso relativizava tudo, colocava as coisas numa outra dimensão e às vezes isso faz tanta falta, falta a tanta gente.

Parece que hoje também há no Porto a música das esferas. Se não a podem, como eu, ir ouvir, tentem espreitar a lua. Parece que por estes dias ela está à distância miníma a que pode estar da terra.
~CC~

quinta-feira, janeiro 29, 2009

O meu nome é Vanessa (IX)

E à terceira foi tudo ao contrário, disse a Vanessa mostrando um sorriso que achei tímido mas bonito.
Aproximei o gravador um pouco mais dela e preparei-me para o terceiro homem da Vanessa. Certo é que nessa altura já lhe tinha dito que ia ouvi-la quanto tempo quisesse porque o gravador digital, tal como as novas máquinas fotográficas, possibilitava apagar e gravar de novo sem qualquer limite. E também já tinha decidido que a vida dela não constaria em nenhuma revista sobre relações afectivas em que um dos membros do casal tinha assinalável diferença de idade em relação ao parceiro. O que faria eu com esta entrevista era coisa que não sabia ao certo.

O terceiro era um miúdo de 19 anos como eu, mas eu já era mulher e ele um miúdo que nada sabia do mundo. Eu estava no centro de formação a tirar um curso de auxiliar de educação e ele qualquer coisa de computadores. Os pais tratavam-no mais ao menos como uma planta ou um bicho, ausentavam-se os dois grandes temporadas em viagem e deixavam o frigorífico cheio. Uma vez por semana ligavam-lhe a saber se ainda não tinha morrido ou se faltava comida. Nunca percebi se tanta deslocação era por negócios lícitos ou ilícitos mas o certo é que dinheiro não lhe faltava, só mesmo tudo o resto. Agarrou-se a mim como uma lapa e eu não me esqueci mais como é ser a primeira mulher de um homem, era virgem quando me conheceu. Infelizmente o seu amor tornou-se doentio e o ciúme atormentava-o. Não sei como é que não sabemos logo quando uma pessoa é doente, mas não demorou mais que um ano a perceber. No dia em que me fechou à chave em casa percebi que não podia continuar, que tinha que o deixar. Não era, contudo, violento. Tal como tinha aparecido do nada para se apaixonar perdidamente por mim, também desapareceu sem que soubesse para onde. A partir daí a casa teve sempre as janelas fechadas. Ouvi falar em tentativa de suicídio. Depois consegui apurar que tomou uma dose enorme de comprimidos e que os pais o levaram.

Registei apenas: que os pais o levaram. E senti-me feliz por ter feito o bem a alguém.
~CC~

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Educar

Olhar o Universo nos Claustros
Viajar no tempo


Ninguém sabe, mas nós sabemos. Poderão até ver algumas imagens mas elas não irão traduzir o que se passou dentro de nós. E daqui a muito tempo, mesmo que não sobre mais nada do que me agarra aqui, mesmo que chegue a ordem de partida, sentirei sempre orgulho por ter conseguido este brinde tão honestamente feito...começado por " professora, queremos agradecer-lhe". Sinto que pela primeira vez acreditaram ser capazes e capazes em conjunto, sinto que alguma coisa mexeu lá dentro, são eles e já são outros e outros que são melhores. Há alturas em que acho que devia chorar. Há alturas em que acho que devia falar. Mas como não consigo dizer nada, espero que eles saibam ler o brilho dos meus olhos.

~CC~

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Prémios

Tenho uma relação complicada com os prémios interblogues. Por um lado o gosto por os receber e a ligação que nos fica a quem os dá. Não lhes posso ficar indiferente, sabem bem e aquecem como um abraço. Além desse calor, alguns manifestam também gosto e admiração pelo que escrevemos e para quem gosta de escrever isso é obviamente estimulante. Sinto esse estímulo cada vez que há um link novo, um prémio, uma citação.


Por outro lado, acho que não estamos aqui para isto, ou seja não estamos aqui a escrever para dar e ganhar prémios, não é isso que deve alimentar o que nos traz aqui. E quando chega a altura de nomear outros, o desconforto é maior ainda. Quase nunca nomeio, mas pesa-me esta consciência de ter interrompido uma cadeia, de ter quebrado um elo que alguém me passou como uma coisa importante. Como é que vocês se sentem quando recebem estes prémios?
Vou fazer apenas aquilo que sinto desejo de fazer, ou seja, agradecer:

- Ao Alexandre e à Girafa cor de Rosa, por me terem indicado para o prémio Dardos (já o tinha recebido, mas fiquei feliz na mesma).
- À Maria N, por me ter dito que "deste gostava mesmo"
- À sem se ver por me ter dado um "blog de ouro", um prémio que distingue mulheres que têm blogues que consideremos uma fonte de inspiração.


Espero que vos chegue o meu agradecimento e, além dele, o gosto que também sinto por vos ler.
~CC~

sexta-feira, janeiro 23, 2009

O meu nome é Vanessa (VIII)

Chegou, chegou mais um envelope para si! Mas quem lhe escreve assim com selo de correio e tudo? Isto já não se usa.

Era verdade, tinha chegado mais um envelope da Vanessa. O segundo me chegou...só me lembrava da música do Chico Buarque. Abri sem conseguir designar os meus sentimentos pelo que estava a acontecer. E em perfeita indecisão sobre o rumo a tomar. Continuar a ouvi-la? Dar por encerrado o caso, retirando-a da reportagem? Na verdade tinha de a terminar daí a dois dias, não chegaria para que ela me contasse sobre os oito homens que faltavam para chegar a este último. E deste eu só sabia que tinha 60 anos e a Vanessa 30, era manifestamente insuficiente para traçar o perfil de uma relação afectiva baseada na diferença de idades e era isso que era suposto fazer na reportagem.

Você sabe que eu era uma miúda da periferia, de bairro social. Aos 18 já trabalhava como empregada na fábrica dos sumos, sem nenhum horizonte que não fosse gastar ali o meu futuro. O rapaz com quem eu comecei a andar, apenas 3 anos mais velho, já era chefe da secção. Tinha tirado um curso qualquer da escola profissional. Não me apaixonei propriamente, deixei-me ir. Ele ficava para vigiar o turno da noite e depois dizia que me levava a casa, embora eu não tivesse medo nenhum. Começou a apalpar-me no carro logo da primeira vez que me levou e nunca mais parou de o fazer, sempre cada vez mais. O nosso namoro era isto, nunca me fez um convite para sair ao fim de semana ou me convidou para ir a lado algum. Um dia disse-lhe que devia vir a minha casa, que o queria apresentar à minha irmã. Perguntou se ela era gira e se tinha namorado. Não veio e não explicou porquê. Um dia vio-o num centro comercial em Lisboa, de mão dada com uma rapariga. Confrontei-o na Segunda Feira com aquela mão na mão de uma miúda que não era eu. Respondeu com tranquildade que era a namorada dele e acrescentou ainda: Ou julgaste que ia casar contigo?

Quando acabei de ler o que a Vanessa tinha escrito soube duas coisas: que não a podia incluir na minha reportagem; que não queria parar de a ouvir. Falta acrescentar que senti falta de ar e tive de me sentar durante um bocado.
~CC~

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Uma luz

Imagem retirada de http://diario.iol.pt/noticia.html?id=879832&div_id=4071

As cerimónias passaram-me ao lado, é um ritual, por certo simbólico e como tal importante, mas não me emocionou. Os discursos geralmente não me comovem, sei que são escritos por muitas mãos mesmo que sejam ditos com o coração ao pé da boca.

Hoje sim, posso dizer que ouvi o que quis, justificou a lagriminha que teimou em aparecer no dia da sua eleição. Obama disse que iria encerrar a prisão de Guantánamo.

Adoro palavras, palavras por si mesmas. Mas algumas quando passam a actos é que se tornam verdadeiramente importantes.

~CC~

terça-feira, janeiro 20, 2009

O meu nome é Vanessa (VII)

Perguntei-lhe pelo tio, se tinha feito queixa dele, se tinha dito alguma coisa à família. E imaginei-a como uma miúda, uma adolescente ruiva com olhos ainda transparentes e muitas sardas. E ela disse que não tinha dito nada a ninguém, com medo de acharem que mentia. Disse, como todas as vítimas, que de certa forma se sentia culpada, como se alguma coisa nela atraísse a maldade, o desejo dele. Retorqui que o caso dela era igual ao de tantas outras meninas abusadas por alguém da família, ao que ela respondeu que era diferente, que ela era diferente.

Chegou a acontecer a segunda vez, um dia que ele bateu-me à porta por saber que mais ninguém estava em casa e atirou-me para o sofá, mas não aconteceu a terceira. Arranjei um canivete enorme e passei a andar sempre com ele. E no dia de Natal, lembro-me como se fosse hoje, ele veio encostar-se a mim na cozinha e eu saquei do canivete e disse que se ele me voltasse a tocar, ia usá-lo. Disse-lhe: na próxima vez matas-me primeiro antes de conseguires o que queres ou então sou eu que o faço contigo. Não sei onde fui buscar aquela coragem. Acho que aquilo teve um efeito de choque nele, de repente eu era uma leoa, era já uma mulher e não a miúda de que ele abusava. E como cobarde que era, só procurava as miúdas. Além de me defender a mim, passei a proteger todas as miúdas da família, afastando-as dele o mais que podia.

E enquanto a ouvia, olhei os olhos dela e pareciam transparentes como já deviam ter sido outrora, eram afinal gotas de água que estavam ali fixas sem sair, eram lágrimas verdadeiras mas que estavam secas, congeladas.
~CC~

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Partida-chegada-largada

Eu fiz ainda agora uma mala e parti num vapor até ao outro lado do Equador, o que era importante era cruzá-lo como quem risca para si uma outra vida. Eu trouxe na mala só duas mudas de roupa e dois ou três objectos: o papel, a caneta, um livro de poemas. O mais importante deixei lá: esta infinita tristeza tecida no desespero da maldade das pessoas próximas. A maldade distante não nos dói assim, apenas a que se enreda junto à nossa pele. Agora tenho por cima de mim esta noite tão quente, tenho só o céu azul sorrindo estrelas.

Não fora o teu rosto de menina cheio dos teus olhos de mel, não fora esse teu abraço que se me entra corpo adentro, e essas vozes que estão no meu sangue a ligar-me a vós, e já tinha ido. São todos esses nós que aumentam o medo e me atam os pés com as suas luzes sombrias, eu poderia partir já hoje sem pena nenhuma do país que deixo para trás. É um país de lamúrias onde os fracos se protegem e os fortes de atacam, é uma aldeia onde os estranhos se abatem e os próprios se defendem, é um país que apenas em algumas madrugadas deixou de ser cinzento, não obstante ser bafejado pelo sol.

Resta-me apenas alguma indignação, não quero que de todo se vá. É esse resto que aguenta todas estas manhãs de nevoeiro, é esse resto que ainda caminha, que ainda procura, que ainda chora, que ainda acredita.
~CC~

domingo, janeiro 18, 2009

O meu nome é Vanessa (VI)

Ela veio à entrevista como combinado. Confrontei-a com o papel que me tinha enviado, alegando não lhe encontrar qualquer sentido. Os olhos da Vanessa não tinham cor, eram pardos, na verdade quase da cor do cabelo mas sem luz. Por isso quando ela nos fitava, não conseguiamos ler nada no seu olhar, apenas a expressão das sobrancelhas denunciava alguma coisa. E ela franziu-as, o que lhe deu um aspecto zangado. Repetiu o que já me tinha dito, que eu tinha que conhecer as suas outras relações amorosas para compreender esta actual e sublinhou que amorosas era ainda assim um termo incorrecto para referir a maior parte das relações entre um homem e uma mulher. Como eu não a queria ouvir, escreveu. Perguntei se também ia escrever sobre os outros 8, descontando este primeiro e o actual. E ela respondeu que preferia falar para o gravador, se eu quisesse ouvir. Tentei explicar-lhe a diferença entre querer e poder dentro da profissão que era a minha e no contexto em que trabalhava. Escutou tudo com muita atenção. E respondeu apenas com uma voz espantoamente firme: querer é poder!


A Vanessa confrontava-me com o que era frágil em mim, eu vivia imerso nas dúvidas sobre a qualidade do trabalho que fazia e sentia ano após ano afastar-me da minha juventude e de todos os sonhos que a havitavam. Eu não sabia inteiramente justificar a mim próprio a opção por este quadro de alguma estabilidade e bem estar económico, pois na minha vida não havia a desculpa da família ou sequer a necessidade de descolar de uma classe social, eu era filho da classe média e era um homem só e sem dor. Eu podia ter ido para qualquer lugar do mundo com uma mochila às costas que apenas dois ou três amigos sentiriam as noites mais vazias. E estava aqui, a dizer a uma mulher que precisava de falar de si, que tinha apenas meia hora para ela. Eu via-me ao espelhos nos olhos pardos da Vanessa e só via sombra.
~CC~

sexta-feira, janeiro 16, 2009

O céu na minha casa


Ver como brilham os olhos das pessoas é fundamental no acto de criação. As pessoas que moram nos alunos. E aumentar infinitamente o nosso universo. Às vezes sou feliz.

~CC~

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Mais... para os autocarros, estações e bandeirolas...(II)



Pela paz (com e sem ajuda dos deuses, das deusas e transgenders divinos)

*JJS*


Mais frases...para cibelefster@gmail.com

Mais... para os autocarros, estações e bandeirolas...(I)




DEUS PROVAVELMENTE NÃO EXISTE, PODERÃO ASSIM DEIXAR DE SE MATAR UNS AOS OUTROS POR CAUSA DELE.

~CC~

quarta-feira, janeiro 14, 2009

O meu nome é Vanessa (V)

O envelope chegou em meu nome com selo de correio azul. Lá dentro meia folha de papel A4.

Ainda hoje me sinto suja quando penso nisso. Ele era meu tio e violou-me. Sabe que idade tinha? Acabado de fazer 16. Pense em tudo o que é escuro, feio, desolador. Era de noite e convidou-me para passear na praia e eu fui. Quando gritei naquele lugar onde ninguém me podia ouvir, ele disse que eu sabia muito bem ao que vinha. Mas juro que não sabia. Depois lembrei-me de tudo o que ele me tinha dito naqueles dias, nas "minhas maminhas já crescidas, no corpo de mulher que eu já tinha, nas belas pernas que sobravam dos calções". Era isto o que o meu tio dizia de mim. Depois disso tudo importa muito pouco, todos os homens importam muito pouco.
Vanessa

Estava atordoado com aquela confissão feita em papel e enviada pelo correio, porque teria a Vanessa feito aquilo? Tinha encontro marcado para entrevista com ela daí a dois dias, porque me mandaria aquela carta e só para dizer aquilo? Teria ela desistido e isto seria uma maneira de me dizer? Tentei ver uma rapariga de dezasseis anos no seu rosto de mulher de trinta, no seu rosto de ruiva precocemente envelhecida. E depois senti-me mal, porque a dor que a carta continha só me chegou no fim do dia, já muito depois de a ter aberto. Eu estava devagar a tornar-me num monstro, ouvia as pessoas mas na verdade já não sentia nada por elas.
~CC~

segunda-feira, janeiro 12, 2009

O meu nome é Vanessa (IV)

V- Meia hora?! Mas como quer que lhe conte a minha vida em meia hora?
E - Mas Vanessa, não é a sua vida, é esta sua relação afectiva actual...
V- Mas como quer perceber esta se não perceber as outras, as outras foram o caminho até esta.
E - E quantas foram Vanessa, quantos homens teve antes deste?
V- Cerca de dez!
E- Dez Vanessa?! Mas você disse-me claramente que não era prostituta, essa era uma das minhas regras...
V- Oiça, acha que dez homens dos 15 aos 30 é assim tanto?! Caramba, você está a fazer-me sentir mal, acho melhor desistir disto.
E - Não, não...eu não acho nada, não tenho que achar nada, só queria assegurar-me de que não me enganou!
V- Não enganei, nunca nenhum homem me pagou um tostão por sexo.
E- Mas há quanto tempo está com este homem?
V- Ainda não fez um ano, mas está quase.
E- E quanto tempo acha que vai durar?
V- Para sempre, desta vez é para sempre!

(e na última frase sorriu, um sorriso de miúda que fez brilhar o seu rosto duro)

~CC~

Resistência


Concentro-me nas garrafas que navegam oceanos inteiros até às mãos de alguém.

Concentro-me nos rostos dos meninos prisioneiros da violência do mundo, a tentarem ainda sorrir.

Concentro-me nas gotas de água que no deserto chegam para alguém sobreviver.

Concentro-me no homem que não quer deixar o seu telemóvel pessoal mesmo sendo presidente da maior nação do mundo.

Concentro-me na vida do escritor que descobri recentemente e que em tudo me ilumina: é nómada, tem dupla nacionalidade, diz não gostar de dinheiro. Concentro-me no seu bloqueio de escrita anos e anos, mudo pelo silêncio dos índios com os quais viveu.

Concentro-me na alegria das histórias que nascem tecidas entre mim e os alunos e dos cenários de alegria que montamos em lugares desolados. E pergunto o que levarão destes dias, destes tempos, o que está para além no número na pauta.

Concentro-me nos pequenos almoços de Domingo, quando fazemos panquecas e as comemos ensonados de pijama e me sinto em paz.

Quando as notícias são más, tenho os meus truques de não entristecer, de não adoecer de tristeza.
~CC~

sábado, janeiro 10, 2009

O meu nome é Vanessa (III)


Amor, para além da idade.
Foi assim que a equipa baptizou esta reportagem, fiquei hesitante em concordar. Primeiro temia chamar amor ao que podia não ser, há tantas razões para as pessoas estarem juntas, temia a classificação categórica. E depois se calhar não era para além da idade, se calhar a idade podia ser justamente o importante, elas podiam estar juntas por terem aquela(s) idade(s). Mas há muito sabia que perdia sempre a guerra dos títulos, essa e muitas outras. Depois aquilo não me apetecia, tinha pouca apetência para reportagens sobre afectos, preferia coisas mais desapaixonadas: gostava de projectos profissionais interessantes, de lugares especiais por alguma coisa particular, e de tudo o que se assemelhava a uma batalha de alguém por alguma coisa. Por isso as palavras: "está na altura de fazeres coisas deste tipo", vindas da chefia, soaram-me como um aviso claro de que não seria tolerada a escusa.


E assim comecei à procura de pessoas juntas numa relação amorosa que entre elas teriam pelo menos vinte anos de diferença. Comecei pelos homens por me ser mais fácil. E não foi difícil encontrar o que os movia. Registei com enfado as palavras: são mais frescas, mais doces, mais enérgicas, renovam a vida de um homem, dão-nos uma sensação de confiança em nós, são mais alegres... e embora eu não lhes tivesse pedido comparação alguma, era como se tivessem sempre a comparar as mais novas com as mulheres da idade deles.

Antes da Vanessa entrevistei uma mulher que vivia com um homem mais novo, muito mais novo. Falava dele como se fosse filho dela e fiquei com muitas dúvidas sobre o amor, sobre o que era aquele amor.

Depois a Vanessa. Eu tinha-a avisado que só teria meia hora para ela.

~CC~

quinta-feira, janeiro 08, 2009

o meu nome é Vanessa (II)


As instruções eram claras: meia hora gravada em registo digital para cada entrevistado. Mais: entre seis a dez por tema e a reportagem traçada no cruzamento destas vidas. Se uma delas se revelasse muito interessante, era-lhe dado destaque ou a reportagem fazia-se unicamente com ela.


Quando entrevistei os mineiros do Monte da lua andei perto de pisar o risco. Primeiro porque eram vidas trágicas e sem esperança. Segundo porque não consegui entrevistar apenas dez, todos queriam falar: homens, mulheres e até crianças. Com a Vanessa as coisas foram piores, mas de uma maneira diferente.

~CC~

terça-feira, janeiro 06, 2009

O meu nome é Vanessa (I)


- O meu nome é Vanessa.


Esta história começa há alguns meses atrás na redaccão da revista Vidas, onde eu trabalhava como jornalista há cerca de 4 anos, depois de ter estado cinco num jornal diário de renome. Curiosamente ganho bem melhor aqui e, se a princípio desconfiei que isto não passava de uma revistinha cor de rosa, hoje até acho alguma piada a este formato tipo National Geographic do ser humano. A ideia é dar destaque às vidas humanas, mas a verdade é que no centro temos que colocar a vida de uma vedeta qualquer, ainda que possa ser uma vedeta intelectual. O resto pode ser ocupado por vidas de gente como nós.

- O meu nome é Vanessa, tenho quase trinta anos.

As vidas que destacamos aparecem a coberto de um tema qualquer, que vai desde os jovens agricultores aos médicos das urgências de hospital ou às mulheres pastoras. As pessoas gostam de histórias, nós contamos histórias, histórias com rosto humano, num formato curto e coloquial. Desde o início que o chefe de redacção nos recomendou evitar as histórias muito pesadas, assim como as "cor de rosa às bolinhas", aindo oiço a voz dele "a ideia é a de aproximar isto do cidadão normal, se é que isso existe". Pelo menos ele ainda duvidava, já não era mau.

- O meu nome é Vanessa, tenho quase trinta anos, está a olhar para o meu cabelo como se ele fosse pintado, mas é um ruivo natural.

~CC~

Gaza: sem dúvida.

STOP. STOP. STOP. STOP. STOP. STOP. STOP. STOP. STOP NOW!

~CC~

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Prendas alheias

Tenho uma certa tendência para trocar involuntáriamente de prendas com as pessoas próximas ou apaixonar-me por algumas que não são minhas, faço-as minhas suavemente, numa espécie de roubo consentido. Há dois anos entre uma máquina caseira de fazer pão e uma máquina fotográfica digital, perdi o sentido do que era meu e do que tinha oferecido, neste caso acho que fiquei sem e com as duas coisas, ou seja partilhamos estas prendas no eixo Setúbal Algarve, fazendo-as variar de mãos e de casas.


Este ano perdi completamente o sentido dos CD´s que eram meus e não eram, e só registei o da Cibele porque entre mim e ela há alguma coincidência. Há ainda as prendas que não o são e são as melhores, como foi o caso do programa de espectáculo do dia de Natal, feito por cinco das meninas da família. O programa foi expressivo das competências de cada uma e das suas diferentes apostas, mas conseguiram juntar essas diferenças num curioso número de dança-ginástica-judo-música. Mas não foi tudo, fizeram ainda convites com o respectivo programa, misturando a impressão a computador com a capa dura reciclada dos pacotes de cereais. E houve ainda as prendas japonesas, a merecerem por si só uma prosa.


E agora a paixão, ou seja J.M.G.Clezio, no seu "Caçador de Tesouros". Devo vir atrasada, eu sei. Se calhar já todos descobriram como é deslumbrante esta prosa intensamente poética. Há muito que não tinha vontade de chorar ao ler um livro e, acreditem, não é só a história e as personagens. O que me fascinam são as palavras que trazem paisagens inteiras agarradas e nos levam com elas numa viagem de alma maior do que as que fazemos realmente. Vejo escritas belas e das quais gosto muito, mas eu não queria escrever assim, é por exemplo, o caso do Zafon e do Zimler. Com o Clezio é verdadeiramente um sentimento estranho, é como se eu quisesse dizer assim também, como se este livro fosse o livro que sonhei um dia escrever. Não gosto de transcrever pedaços de livros aqui, mas por ele abrirei uma pequenina excepção.


" É assim que partimos, nesta quarta feira, 31 de Agosto, é assim que deixamos o nosso mundo, o único que possuíamos e agora perdemos, a grande casa da Baixada onde nascemos, a varanda onde Mam nos lia a Sagrada Escritura, a história de Jacob e o anjo, Moisés salvo das águas, e este jardim tão frondoso como o Paraíso, com as árvores da Independência, as goiabeiras e as mangueiras, a ravina do Tamarindeiro inclinado, a grande árvore do bem e do mal, a estrada de estrelas que vai dar ao sítio do céu onde há mais luzes. Partimos, deixamos tudo, e sabemos que nada disto jamais voltará a existir. A nossa viagem é sem regresso, como a morte."


Eu também parti um dia assim de um lugar. E quando lá voltei, já não existia mais. Por isso a vida de quem perdeu os lugares da sua infância parece às vezes feita de metades, ou parece ser mais do que uma.
~CC~

sábado, janeiro 03, 2009

Gaza: a dúvida sistemática



Aos catorze li o Exodus em extase. Para mim o sonho de uma pátria chamada Israel era o mínimo que o mundo poderia dar aos judeus depois do holocausto. O seu sofrimento, o seu desejo, a sua coragem, eram motivos para uma admiração que não tinha limites. Do Exodus segui para a literatura seguinte e aos dezasseis imaginava construir em Portugal um kibutz semelhante aos que existiam em Israel. O sonho comunitário impregnava a minha alma adolescente em confusa comunhão com os ideais ecológicos que ganharam força nos anos oitenta. Não via, na altura, nenhum conflito em pertencer a um movimento ecológico e ser pró-Israel.

Justamente aos dezasseis conheci uma tribo que usava lenços palestinianos quase todos os dias e que denominava os Israelitas como usurpadores de terra alheia, inimigos da esquerda, em tudo apoiados pelo aliado americano. Explicaram-me passo por passo que a Palestina não era um deserto de pedras que os Israelitas tinham transformado em terra de leite e de mel. Fiquei a saber que a Palestina já tinha gente que chamava aquela terra como sua. Mudei de lado com a mesma convicção com que antes tinha pertencido ao outro, coisa que só na juventude podemos fazer com absoluta sinceridade porque o mundo é ainda um lugar inexplorado que estamos a conhecer.

Hoje sou adulta, habita-me uma dúvida sistemática quanto à razão que mora em cada lado do conflito. Só a certeza de que a guerra é uma coisa estúpida e que nada resolve, me anima a estar contra o que está a acontecer em Gaza.
~CC~

terça-feira, dezembro 30, 2008

DOZE PASSAS para 2009

Doze desejos ordenados sem ordem

MUNDO

1.Término do conflito entre Hutus e Tutsis no Sudão. 2. Reconhecido eficazmente direito do povo palestiniano ao seu território. 3.Fim do império de Mugabe no Zimbabué. 4.Retirada das Tropas Ocidentais do Iraque. 5.Encerramento da prisão de Guatánano. 6. Início da decadência em direcção ao fim progressivo dos movimentos terroristas islâmicos e de outras formas de terrorismo existentes. 7.Aceitação pelos EUA protocolo de Quioto e do Tribunal Penal Internacional. 8. Passos de gigante para a Democracia em Cuba. 9. Pressão forte para término das oligarquias e ditaduras na África e na Ásia. 11. Denúncia clara das violações dos Direitos Humanos em todo o mundo, com forte ascendência das organizações não governamentais sérias.12. Organização de um seminário internacional promovido pela ONU para o progressivo entendimento e respeito entre religiões em todo o mundo, pela Paz.
(são só 12??? Ainda faltam coisas…)


EU

1.Amar muito e ser muito amada. 2. Poder estar perto da minha família e dos meus amigos e valer a pena alargar ainda o coração para caberem lá mais amigos. 3. Obter estabilidade profissional. 4. Acabar (ou quase) a minha tese de doutoramento. 5. Infirmar de vez todos os fantasmas relativos a questões de saúde. 6. Sentir-me bonita em pelo menos metade dos dias do ano. 7. Ir a Itália (Roma-Florença-Veneza) com o rapaz e as meninas no primeiro projecto férias de aventura colectiva. 8. Sentir-me melhor e mais valorizada no meu local de trabalho e, sobretudo, sentir-me realizada com o trabalho que faço com os estudantes. 9. Deparar com a Estação de Comboios ideal para o projecto da minha vida e escrever uma carta à CP para saber se a querem transformar. 10. Fazer mais sol nas casas que habitamos (melhorá-las, reconstruir ou ter uma nova). 11. Recomeçar uma actividade física regular que me dê prazer. 12. Escrever, continuar a apetecer-me escrever.

E BOM ANO A TODOS OS VISITANTES DA ARDÓSIA AZUL!

~CC~

domingo, dezembro 28, 2008

Tempo outro

Este é um tempo outro. Subitamente tudo parece tão distante, que só um pedaço de insónia numa das noites vem lembrar a existência em que cabe o trabalho e o quotidiano. Este é um tempo de estar num outro lugar que é também um lugar de morada, mesmo que não lhe chame ainda casa. Gosto de pensar que é um território, um abrigo, uma zona de encontro. Aqui é um sítio onde se chega à procura de afecto como se ele nos faltasse a cada dia que vivemos e só aqui se sentisse essa segurança básica. Estas pessoas a que chamamos famíia não nos vão faltar quando precisarmos, não nos faltam quando precisamos, este é talvez o único conceito de família que reconheço. É verdade que este conceito se alarga a uns quantos amigos, acho que nunca são muitos os que sentimos como se fossem sangue do nosso sangue, aqueles que o tempo nunca levou, ou que se alguma coisa forçou essa separação, voltaram depois desse tempo.

Não é um tempo de férias, aqui e ali espreitam as tarefas que viajaram na mala e no computador, mas espreitam amortecidas pelo torpor das filhoses que ainda sobraram, pelas novas músicas que chegaram embrulhadas com laços, pelo riso das crianças que ainda ficaram. Aqui e ali espreitam as notícias sempre envoltas em papel negro, mas a dor que carregam chega-me mais ténue à pele. E mesmo a chuva e o frio incomodam um pouco menos, como se não fossem senão parte do que resta da festa e da festa que ainda virá.

É tempo de levar as meninas ao cinema, de me deslumbrar com o sobrinho mais novo e de constantar uma vez mais como é interessante o mais velho. É tempo de beber chá de limão com mel como se fosse possível ele afastar todas as gripes, de comer nozes a meio da tarde, de fazer roupa velha com as sobras do bacalhau, de afastar pensamentos sobre desgraça que a balança vai acusar assim que Janeiro entrar.

É tempo de sesta depois do almoço por causa de uma noite mais mal dormida e de lá encontrar um calor bom que se abraça aos pés e depois nos aconchega todo o corpo, e de encontrar nesse aconchego uma paz que a todo o custo se quer fazer perdurar, se quer para sempre.
~CC~

terça-feira, dezembro 23, 2008

Apontamentos de família (III)

A- Não vais fumar I? Já estás a fumar outra vez?
I- Se eu não fumasse, já tinha morrido!

(A tem 12 anos e I quase cinquenta)

~CC~

Apontamentos de família (II)

T- Vais então buscar o F ao aeroporto?
C - Sim, eu vou.
T - E levas a mãe?
C- Não, é muito cedo, é melhor ela esperar por ele em casa.
T - Sim, é melhor. Assim tem tempo para se empiriquitar toda para o receber.

(A mãe tem 80 anos e o F é o filho que vem do Brasil)

domingo, dezembro 21, 2008

Apontamentos de família (I)


N-Os japoneses não sabem o que é roubar, nem usam a violência. As regras são inculcadas desde muito cedo e não respeitar esses valores é tão penoso socialmente que eles simplesmente cumprem.

A- Então, o que é que dá lá no Telejornal?

(N, 26 anos, a viver temporariamente no Japão)
(A, 12 anos, residente em Setúbal)

~CC~

sábado, dezembro 20, 2008

Manhãs de Inverno

Nas manhãs de Inverno em que o nosso corpo nu dorme junto de outro corpo nu, há um calor pele na pele que é ainda melhor que o ar quente verdadeiro. É assim que às vezes no Inverno se faz Verão.
~CC~

Para onde is?

Pais Natais sem rumo, é o que é. Mais ou menos como nós...
~CC~

quinta-feira, dezembro 18, 2008

A chegada dos rapazes

Começa hoje a chegada da família para o Natal. O primeiro rapaz chega do Japão onde encontrou o seu primeiro emprego. O segundo rapaz chega do Brasil onde vive desde a adolescência e onde já nasceram os filhos e o primeiro neto. O terceiro já cá está mas é como se chegasse pela primeira vez este Natal porque no outro pesava menos que um quilinho de acúçar e tentava sobreviver no serviço de neonatologia do Garcia da Orta.

As meninas, filhas das três manas, trocaram as voltas aos Natais com os pais e ficaram com as mães porque este ano os rapazes chegam de longe e temos connosco o rapaz pequenino. Há uma força sempre a juntar-nos e é nela que reside a alegria que tem cada Natal. O resto é infinitamente pouco importante, não obstante adorar filhoses.
~CC~

domingo, dezembro 14, 2008

Universo


Há coisas que me entusiasmam, mesmo com frio, chuva e a influenza a dominar-me.

~CC~

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Ponte dos milagres (XII)

Ela disse-me que não queria o marido preso. E explicou: na minha aldeia perdoam as mulheres tontas, as que fazem pequenas loucuras. Sabem que queria muito um filho, e por isso compreendem que assombrada pelo desejo o tenha ido buscar a um hospital. Mas nunca compreenderiam que o meu marido o tivesse feito. E completou: Percebe Doutora?
Eu não percebia, eu antes não percebia. No curso de Direito só me falaram de leis, não das pessoas, nem de poesia.

Ele disse-me que era culpado mas eu não quero saber mais deste assunto. Estou aqui uns seis anos, porque nunca fiz nada disto e porque há muitas atenuantes para mulheres tontas que acreditam em milagres. Depois voltarei para o sol da minha aldeia. Que saudades tenho de figos, do cheiro do mar, das minhas mãos enrugadas pela água de lavar a roupa. E tenho saudades de ser tocada e agarrada, tenho muita saudade das mãos do meu marido.

Ela disse-me que eu só tinha que cuidar de tudo muito bem para quando ela voltasse. Nunca antes tinha feito tanta lida da casa, cansa como o trabalho na oficina. Quando os dias são grandes vou ver o mar como ela me pede e penso nela, penso muito no corpo dela e nos seus olhos. É estranho que só na sua ausência tomei consciência de como é bonita a minha mulher.
FIM
~CC~

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Ponte dos milagres (XI)

Contei-lhe num dia frio de Novembro, com as mãos dela dentro das minhas, e dentro do peito um desejo enorme de morrer. Há dias que não desejamos acordar no dia seguinte, pensamos que podemos dormir durante o sono sem dar por nada, e que Deus virá erguer o nosso corpo já leve para nos levar com ele.

Fui eu meu amor, fui eu que raptei a menina do hospital. Sou eu meu amor quem tem que ocupar esse lugar onde estás, temos que trocar de posições. Tu, meu amor, é que tens que me trazer a broa e o queijo.

Os seus olhos de mel derramaram-se e o chão ficou cheio das suas lágrimas doces. Demorou uma eternidade para dizer uma palavra e quando a disse tive vontade maior ainda de morrer. Tudo nela era perdão e carinho e por isso a minha vergonha tornou-se ainda maior. Disse uma e duas vezes que tudo deveria ficar assim, que não devia dizer a minha verdade a mais ninguém. Colou nos meus lábios um manto de silêncio e pediu que fosse para sempre.

Que fazemos quando somos os culpados e os inocentes não querem trocar de lugar connosco? Como podemos matar esta culpa que nos nasce a cada manhã maior? Que amor redentor é este que nos acolhe em toda a nossa imperfeição?

A minha mulher encheu o chão com lágrimas de mel e eu bebi-as uma a uma e mesmo assim sinto-me azedo como um leite coalhado. Um milagre, precisava tanto de um milagre.
~CC~

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Cantilena


Quando era pequena, mesmo vivendo na terra quente africana, entoava muitas vezes a linda falua que lá vem, lá vem...brincavámos na rua, juntando os miúdos em comboios enormes que depois se repartiam na passagem em que era preciso fazer a escolha entre duas pessoas, duas coisas, dois mundos...às vezes eram coisas tão triviais como duas frutas ou duas cores...

Pensava muito naquela cantilena e no seu significado profundamente dramático e triste que em nada nos afectava a brincadeira...passará, passará, mas algum ficará, se não for a mãe da frente é o filho lá de trás...e a mãe lá ia deixando os filhotes na passagem até ela própria lá ficar. Penso nesta cantilena em muitas ocasiões em que a perda é uma possibilidade na minha vida ou na vida dos outros, penso sempre nela quando vejo as pessoas se enfiarem numa barcaça para atravessarem um mar, sabendo o risco de vida que correm e como mais de metade não alcança a terra que deseja.

E ao mesmo tempo que destesto a inevitabilidade que a cantilena contém, aquela espécie de portagem fatal onde a mãe deixará de certeza pelo menos um dos filhos, acho que é uma boa metáfora para o risco que muitas das passagens da nossa vida comportam.

Sinto-me assim muitas vezes, a andar no arame a alguns metros do chão, de um lado a possibilidade de voar e, do outro, a possibilidade de cair. E mesmo sabendo o risco que corro, avanço. Felizmente o meu risco é consideravalmente menor do que aqueles que se enfiam nas barcaças, talvez por isso pense hoje tanto neles, no seu desespero e na sua coragem*.

~CC~
* E pensar que já lá vão 60 anos de Declaração dos Direitos Humanos!

terça-feira, dezembro 09, 2008

A obra

Há meses que eles vivem ao meu lado, trabalham de dia e de noite e não me deixam dormir. Conheço agora melhor que nunca o significado das cores dos capacetes e distingo o que faz cada uma delas. São por vezes tantos que parecem as minhas formigas africanas, outras vezes são tão poucos que parece que a obra será impossível de terminar com tamanha escassez.

Têm cores variadas, quase tanto como as nacionalidades. São quase todos homens, mas já houve mulheres na obra, parece que se foram com a aproximação do Inverno. Penso como aguentam o frio e a chuva pela noite fora, como se mantêm acordados, como é que se sustenta tanta dureza com um salário em regra tão baixo. No outro dia cheguei muito perto e pude ver os coletes com o logotipo da empresa de trabalho temporário.

Nunca tinha visto construir de raiz um tunel, passagens inferiores e superiores, pequenas pontes, casinhas várias. Nunca tinha visto a transformação do nada pela armação do ferro, da madeira, da terra, numa minúcia que corresponde a segundos, horas, meses de observação. Quando partirem eu já não serei a mesma, até porque terei dormido consideravalmente menos e, pior ainda, sonhado pouco. Talvez tenha aprendido coisas que não sei para que servem, é assim que os meus alunos as enunciam muitas: não sabemos para que serve aprender essas coisas...para que serve...

Poderia odiá-los porque há meses que não me deixam dormir. Estive várias vezes a um passo de terminar com isto, apresentando queixa em todos os lugares em que isso fosse possível. Mas no sábado passado entre o ruído das máquinas ouvia-se uma voz forte a cantar um fado por baixo da minha janela, era bela e cortava quente o frio matinal, e é por essas e outras que não os posso odiar, não consigo.
~CC~

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Ponte dos milagres (X)


- Escute homem, tem que dizer que foi você que raptou a menina, tem que libertar a sua mulher da prisão!
- Não sei se aguento fazer isso, não é por ir preso, mas pela desilusão que lhe causarei.
- A verdade é mais importante, como é que pensa continuar a viver com ela com uma mentira dessas instalada entre vós?
- Dra, ela não tem antecedentes, vai sair daqui a uns três ou quatro anos e recomeçaremos a nossa vida como se nada disto tivesse acontecido.
- Não pode fazer isso, não é justo ela pagar pelo que você fez.
- Ela vai deixar de me amar e isso não é uma prisão por três ou quatro anos, é um abandono para toda a vida, ela vai deixar-me se souber o que eu fiz. Sempre acreditou que eu era um homem bom, sempre a dizer-me isso em cada abraço, em cada beijo...e agora eu sou capaz de roubar uma criança?!
- Homem, se o deixar, paciência. Pode ser que ela compreenda que o fez por amor, para a consolar.
- Não é assim Dra, se ela me deixar eu vou morrer mesmo estando vivo.

~CC~

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Metade de mim

Ilha do Ibo, Novembro 2007

Não posso evitar a saudade. O frio e a chuva entram em mim sob a forma de tristeza. A minha pele, embora seja branca, mostra os sinais da revolta em forma de eczema. A minha energia está reduzida, vejo-lhe o nível insatisfatório, e embora me tente manter acordada, mal me reconheço.

A neve é bela sim, mas não é, jamais será minha. Eu podia ir agora com os pássaros em bando, poderia migrar em busca do sol.
~CC~

terça-feira, dezembro 02, 2008

Ponte dos milagres (IX)


Perguntei-lhe, em desespero, quem era o responsável pelo rapto da menina. E ele tapou o rosto com as mãos e ficou assim um bocado. Depois levantou-o, olhou-me nos olhos e disse: sou eu. Ao contrário de aceitar a verdade que ele me queria dar, não acreditei. Fui dizendo que tinha sido uma mulher e não um homem, uma mulher envolta em panos negros, uma mulher desesperada.

E ele foi dizendo que não tinha sido uma mulher mas um homem desesperado. Contou como tinha proposto a compra das vestes a uma mulher cigana no mercado, como tinha estudado por vários dias o hospital fingindo ser um electricista, como tinha visto por várias vezes o modo como o povo cigano impunha respeito nos hospitais. Contou da compra da peruca de cabelo preto comprido, dizendo que era para o Carnaval. Foi falando de como a ideia o tinha torturado desde aquele Inverno em que a mulher se tinha encostado a ele num beijo doce até à madrugada do dia de Primavera em que a tinha deixado na Ponte da Mizarela, de como a tinha deixado à espera de um milagre.

Contou como tinha escolhido o bebé, como o tinha segurado com muito cuidado e posto por baixo dos panos, segurando-o como se fosse uma barriga grande. Falou do medo que tinha sentido, bastava um choro e tudo se tinha descoberto. Mas o bebé não chorara, parecia até gostar do aconchego e só quando o pusera dentro do berço no carro ele tinha dado sinais de vida. E a sua mulher também não desconfiara de nada, aceitando dos seus braços a menina, sem uma pergunta ou sequer espanto. Tudo isto ele afirmou sem culpa, como se tivesse simplesmente cumprido um designío, como se a emoção que o alimentou e agora enforma a sua razão, o fizesse inocente.

Que fazer, o que deveria eu fazer com este homem?


~CC~

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Calor na Igrejinha

As famílias têm datas marcadas num calendário privado, ao mesmo tempo que partilham algumas datas do calendário público. As famílias há muito deixaram de ser apenas aquelas que o sangue nos trouxe, acrescentámos tribos outras trazidas pelos trilhos que fomos marcando pelo mundo.

O mundo académico não é apenas um ninho de gente competitiva, ciosa dos seus saberes e dos lugares, não é apenas gente que gosta de se ouvir a sí própria sem pé que seja na realidade dos seres comuns. Há outra gente lá dentro, ou gente que está dentro e está fora, num saudável vai e vem. A escola de Lisboa, auto-intitulada desse modo, sem qualquer pendor centrista ou orgulho de capital (até porque só uma minoria é efectivamente de Lisboa) todos os anos se acolhe junto de uma lareira no frio alentejano da Igrejinha. Gostamos todos efectivamente de boa comida, música e dança e é o que fazemos com gosto e sem temores nem vergonhas. Aqui e ali espreitam os "doutoramentos" que fazemos e a preocupação que temos em ir até ao fim, mas as teses já estão longe de ser o nó que nos ata.

Já perdi tanta gente pelo caminho, acho que agora estou mais atenta, por mais que por vezes eu própria telefone e escreva pouco a estas pessoas. Não quero, contudo, deixar de as ver, porque sei hoje bem qual é o calor que nos serve para enfrentar o frio de todos os invernos que nos acontecem.
~CC~