Tenho uma certa tendência para trocar involuntáriamente de prendas com as pessoas próximas ou apaixonar-me por algumas que não são minhas, faço-as minhas suavemente, numa espécie de roubo consentido. Há dois anos entre uma máquina caseira de fazer pão e uma máquina fotográfica digital, perdi o sentido do que era meu e do que tinha oferecido, neste caso acho que fiquei sem e com as duas coisas, ou seja partilhamos estas prendas no eixo Setúbal Algarve, fazendo-as variar de mãos e de casas.
Este ano perdi completamente o sentido dos CD´s que eram meus e não eram, e só registei o da Cibele porque entre mim e ela há alguma coincidência. Há ainda as prendas que não o são e são as melhores, como foi o caso do programa de espectáculo do dia de Natal, feito por cinco das meninas da família. O programa foi expressivo das competências de cada uma e das suas diferentes apostas, mas conseguiram juntar essas diferenças num curioso número de dança-ginástica-judo-música. Mas não foi tudo, fizeram ainda convites com o respectivo programa, misturando a impressão a computador com a capa dura reciclada dos pacotes de cereais. E houve ainda as prendas japonesas, a merecerem por si só uma prosa.
E agora a paixão, ou seja J.M.G.Clezio, no seu "Caçador de Tesouros". Devo vir atrasada, eu sei. Se calhar já todos descobriram como é deslumbrante esta prosa intensamente poética. Há muito que não tinha vontade de chorar ao ler um livro e, acreditem, não é só a história e as personagens. O que me fascinam são as palavras que trazem paisagens inteiras agarradas e nos levam com elas numa viagem de alma maior do que as que fazemos realmente. Vejo escritas belas e das quais gosto muito, mas eu não queria escrever assim, é por exemplo, o caso do Zafon e do Zimler. Com o Clezio é verdadeiramente um sentimento estranho, é como se eu quisesse dizer assim também, como se este livro fosse o livro que sonhei um dia escrever. Não gosto de transcrever pedaços de livros aqui, mas por ele abrirei uma pequenina excepção.
" É assim que partimos, nesta quarta feira, 31 de Agosto, é assim que deixamos o nosso mundo, o único que possuíamos e agora perdemos, a grande casa da Baixada onde nascemos, a varanda onde Mam nos lia a Sagrada Escritura, a história de Jacob e o anjo, Moisés salvo das águas, e este jardim tão frondoso como o Paraíso, com as árvores da Independência, as goiabeiras e as mangueiras, a ravina do Tamarindeiro inclinado, a grande árvore do bem e do mal, a estrada de estrelas que vai dar ao sítio do céu onde há mais luzes. Partimos, deixamos tudo, e sabemos que nada disto jamais voltará a existir. A nossa viagem é sem regresso, como a morte."
Eu também parti um dia assim de um lugar. E quando lá voltei, já não existia mais. Por isso a vida de quem perdeu os lugares da sua infância parece às vezes feita de metades, ou parece ser mais do que uma.
~CC~