segunda-feira, janeiro 12, 2009

Resistência


Concentro-me nas garrafas que navegam oceanos inteiros até às mãos de alguém.

Concentro-me nos rostos dos meninos prisioneiros da violência do mundo, a tentarem ainda sorrir.

Concentro-me nas gotas de água que no deserto chegam para alguém sobreviver.

Concentro-me no homem que não quer deixar o seu telemóvel pessoal mesmo sendo presidente da maior nação do mundo.

Concentro-me na vida do escritor que descobri recentemente e que em tudo me ilumina: é nómada, tem dupla nacionalidade, diz não gostar de dinheiro. Concentro-me no seu bloqueio de escrita anos e anos, mudo pelo silêncio dos índios com os quais viveu.

Concentro-me na alegria das histórias que nascem tecidas entre mim e os alunos e dos cenários de alegria que montamos em lugares desolados. E pergunto o que levarão destes dias, destes tempos, o que está para além no número na pauta.

Concentro-me nos pequenos almoços de Domingo, quando fazemos panquecas e as comemos ensonados de pijama e me sinto em paz.

Quando as notícias são más, tenho os meus truques de não entristecer, de não adoecer de tristeza.
~CC~

sábado, janeiro 10, 2009

O meu nome é Vanessa (III)


Amor, para além da idade.
Foi assim que a equipa baptizou esta reportagem, fiquei hesitante em concordar. Primeiro temia chamar amor ao que podia não ser, há tantas razões para as pessoas estarem juntas, temia a classificação categórica. E depois se calhar não era para além da idade, se calhar a idade podia ser justamente o importante, elas podiam estar juntas por terem aquela(s) idade(s). Mas há muito sabia que perdia sempre a guerra dos títulos, essa e muitas outras. Depois aquilo não me apetecia, tinha pouca apetência para reportagens sobre afectos, preferia coisas mais desapaixonadas: gostava de projectos profissionais interessantes, de lugares especiais por alguma coisa particular, e de tudo o que se assemelhava a uma batalha de alguém por alguma coisa. Por isso as palavras: "está na altura de fazeres coisas deste tipo", vindas da chefia, soaram-me como um aviso claro de que não seria tolerada a escusa.


E assim comecei à procura de pessoas juntas numa relação amorosa que entre elas teriam pelo menos vinte anos de diferença. Comecei pelos homens por me ser mais fácil. E não foi difícil encontrar o que os movia. Registei com enfado as palavras: são mais frescas, mais doces, mais enérgicas, renovam a vida de um homem, dão-nos uma sensação de confiança em nós, são mais alegres... e embora eu não lhes tivesse pedido comparação alguma, era como se tivessem sempre a comparar as mais novas com as mulheres da idade deles.

Antes da Vanessa entrevistei uma mulher que vivia com um homem mais novo, muito mais novo. Falava dele como se fosse filho dela e fiquei com muitas dúvidas sobre o amor, sobre o que era aquele amor.

Depois a Vanessa. Eu tinha-a avisado que só teria meia hora para ela.

~CC~

quinta-feira, janeiro 08, 2009

o meu nome é Vanessa (II)


As instruções eram claras: meia hora gravada em registo digital para cada entrevistado. Mais: entre seis a dez por tema e a reportagem traçada no cruzamento destas vidas. Se uma delas se revelasse muito interessante, era-lhe dado destaque ou a reportagem fazia-se unicamente com ela.


Quando entrevistei os mineiros do Monte da lua andei perto de pisar o risco. Primeiro porque eram vidas trágicas e sem esperança. Segundo porque não consegui entrevistar apenas dez, todos queriam falar: homens, mulheres e até crianças. Com a Vanessa as coisas foram piores, mas de uma maneira diferente.

~CC~

terça-feira, janeiro 06, 2009

O meu nome é Vanessa (I)


- O meu nome é Vanessa.


Esta história começa há alguns meses atrás na redaccão da revista Vidas, onde eu trabalhava como jornalista há cerca de 4 anos, depois de ter estado cinco num jornal diário de renome. Curiosamente ganho bem melhor aqui e, se a princípio desconfiei que isto não passava de uma revistinha cor de rosa, hoje até acho alguma piada a este formato tipo National Geographic do ser humano. A ideia é dar destaque às vidas humanas, mas a verdade é que no centro temos que colocar a vida de uma vedeta qualquer, ainda que possa ser uma vedeta intelectual. O resto pode ser ocupado por vidas de gente como nós.

- O meu nome é Vanessa, tenho quase trinta anos.

As vidas que destacamos aparecem a coberto de um tema qualquer, que vai desde os jovens agricultores aos médicos das urgências de hospital ou às mulheres pastoras. As pessoas gostam de histórias, nós contamos histórias, histórias com rosto humano, num formato curto e coloquial. Desde o início que o chefe de redacção nos recomendou evitar as histórias muito pesadas, assim como as "cor de rosa às bolinhas", aindo oiço a voz dele "a ideia é a de aproximar isto do cidadão normal, se é que isso existe". Pelo menos ele ainda duvidava, já não era mau.

- O meu nome é Vanessa, tenho quase trinta anos, está a olhar para o meu cabelo como se ele fosse pintado, mas é um ruivo natural.

~CC~

Gaza: sem dúvida.

STOP. STOP. STOP. STOP. STOP. STOP. STOP. STOP. STOP NOW!

~CC~

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Prendas alheias

Tenho uma certa tendência para trocar involuntáriamente de prendas com as pessoas próximas ou apaixonar-me por algumas que não são minhas, faço-as minhas suavemente, numa espécie de roubo consentido. Há dois anos entre uma máquina caseira de fazer pão e uma máquina fotográfica digital, perdi o sentido do que era meu e do que tinha oferecido, neste caso acho que fiquei sem e com as duas coisas, ou seja partilhamos estas prendas no eixo Setúbal Algarve, fazendo-as variar de mãos e de casas.


Este ano perdi completamente o sentido dos CD´s que eram meus e não eram, e só registei o da Cibele porque entre mim e ela há alguma coincidência. Há ainda as prendas que não o são e são as melhores, como foi o caso do programa de espectáculo do dia de Natal, feito por cinco das meninas da família. O programa foi expressivo das competências de cada uma e das suas diferentes apostas, mas conseguiram juntar essas diferenças num curioso número de dança-ginástica-judo-música. Mas não foi tudo, fizeram ainda convites com o respectivo programa, misturando a impressão a computador com a capa dura reciclada dos pacotes de cereais. E houve ainda as prendas japonesas, a merecerem por si só uma prosa.


E agora a paixão, ou seja J.M.G.Clezio, no seu "Caçador de Tesouros". Devo vir atrasada, eu sei. Se calhar já todos descobriram como é deslumbrante esta prosa intensamente poética. Há muito que não tinha vontade de chorar ao ler um livro e, acreditem, não é só a história e as personagens. O que me fascinam são as palavras que trazem paisagens inteiras agarradas e nos levam com elas numa viagem de alma maior do que as que fazemos realmente. Vejo escritas belas e das quais gosto muito, mas eu não queria escrever assim, é por exemplo, o caso do Zafon e do Zimler. Com o Clezio é verdadeiramente um sentimento estranho, é como se eu quisesse dizer assim também, como se este livro fosse o livro que sonhei um dia escrever. Não gosto de transcrever pedaços de livros aqui, mas por ele abrirei uma pequenina excepção.


" É assim que partimos, nesta quarta feira, 31 de Agosto, é assim que deixamos o nosso mundo, o único que possuíamos e agora perdemos, a grande casa da Baixada onde nascemos, a varanda onde Mam nos lia a Sagrada Escritura, a história de Jacob e o anjo, Moisés salvo das águas, e este jardim tão frondoso como o Paraíso, com as árvores da Independência, as goiabeiras e as mangueiras, a ravina do Tamarindeiro inclinado, a grande árvore do bem e do mal, a estrada de estrelas que vai dar ao sítio do céu onde há mais luzes. Partimos, deixamos tudo, e sabemos que nada disto jamais voltará a existir. A nossa viagem é sem regresso, como a morte."


Eu também parti um dia assim de um lugar. E quando lá voltei, já não existia mais. Por isso a vida de quem perdeu os lugares da sua infância parece às vezes feita de metades, ou parece ser mais do que uma.
~CC~

sábado, janeiro 03, 2009

Gaza: a dúvida sistemática



Aos catorze li o Exodus em extase. Para mim o sonho de uma pátria chamada Israel era o mínimo que o mundo poderia dar aos judeus depois do holocausto. O seu sofrimento, o seu desejo, a sua coragem, eram motivos para uma admiração que não tinha limites. Do Exodus segui para a literatura seguinte e aos dezasseis imaginava construir em Portugal um kibutz semelhante aos que existiam em Israel. O sonho comunitário impregnava a minha alma adolescente em confusa comunhão com os ideais ecológicos que ganharam força nos anos oitenta. Não via, na altura, nenhum conflito em pertencer a um movimento ecológico e ser pró-Israel.

Justamente aos dezasseis conheci uma tribo que usava lenços palestinianos quase todos os dias e que denominava os Israelitas como usurpadores de terra alheia, inimigos da esquerda, em tudo apoiados pelo aliado americano. Explicaram-me passo por passo que a Palestina não era um deserto de pedras que os Israelitas tinham transformado em terra de leite e de mel. Fiquei a saber que a Palestina já tinha gente que chamava aquela terra como sua. Mudei de lado com a mesma convicção com que antes tinha pertencido ao outro, coisa que só na juventude podemos fazer com absoluta sinceridade porque o mundo é ainda um lugar inexplorado que estamos a conhecer.

Hoje sou adulta, habita-me uma dúvida sistemática quanto à razão que mora em cada lado do conflito. Só a certeza de que a guerra é uma coisa estúpida e que nada resolve, me anima a estar contra o que está a acontecer em Gaza.
~CC~

terça-feira, dezembro 30, 2008

DOZE PASSAS para 2009

Doze desejos ordenados sem ordem

MUNDO

1.Término do conflito entre Hutus e Tutsis no Sudão. 2. Reconhecido eficazmente direito do povo palestiniano ao seu território. 3.Fim do império de Mugabe no Zimbabué. 4.Retirada das Tropas Ocidentais do Iraque. 5.Encerramento da prisão de Guatánano. 6. Início da decadência em direcção ao fim progressivo dos movimentos terroristas islâmicos e de outras formas de terrorismo existentes. 7.Aceitação pelos EUA protocolo de Quioto e do Tribunal Penal Internacional. 8. Passos de gigante para a Democracia em Cuba. 9. Pressão forte para término das oligarquias e ditaduras na África e na Ásia. 11. Denúncia clara das violações dos Direitos Humanos em todo o mundo, com forte ascendência das organizações não governamentais sérias.12. Organização de um seminário internacional promovido pela ONU para o progressivo entendimento e respeito entre religiões em todo o mundo, pela Paz.
(são só 12??? Ainda faltam coisas…)


EU

1.Amar muito e ser muito amada. 2. Poder estar perto da minha família e dos meus amigos e valer a pena alargar ainda o coração para caberem lá mais amigos. 3. Obter estabilidade profissional. 4. Acabar (ou quase) a minha tese de doutoramento. 5. Infirmar de vez todos os fantasmas relativos a questões de saúde. 6. Sentir-me bonita em pelo menos metade dos dias do ano. 7. Ir a Itália (Roma-Florença-Veneza) com o rapaz e as meninas no primeiro projecto férias de aventura colectiva. 8. Sentir-me melhor e mais valorizada no meu local de trabalho e, sobretudo, sentir-me realizada com o trabalho que faço com os estudantes. 9. Deparar com a Estação de Comboios ideal para o projecto da minha vida e escrever uma carta à CP para saber se a querem transformar. 10. Fazer mais sol nas casas que habitamos (melhorá-las, reconstruir ou ter uma nova). 11. Recomeçar uma actividade física regular que me dê prazer. 12. Escrever, continuar a apetecer-me escrever.

E BOM ANO A TODOS OS VISITANTES DA ARDÓSIA AZUL!

~CC~

domingo, dezembro 28, 2008

Tempo outro

Este é um tempo outro. Subitamente tudo parece tão distante, que só um pedaço de insónia numa das noites vem lembrar a existência em que cabe o trabalho e o quotidiano. Este é um tempo de estar num outro lugar que é também um lugar de morada, mesmo que não lhe chame ainda casa. Gosto de pensar que é um território, um abrigo, uma zona de encontro. Aqui é um sítio onde se chega à procura de afecto como se ele nos faltasse a cada dia que vivemos e só aqui se sentisse essa segurança básica. Estas pessoas a que chamamos famíia não nos vão faltar quando precisarmos, não nos faltam quando precisamos, este é talvez o único conceito de família que reconheço. É verdade que este conceito se alarga a uns quantos amigos, acho que nunca são muitos os que sentimos como se fossem sangue do nosso sangue, aqueles que o tempo nunca levou, ou que se alguma coisa forçou essa separação, voltaram depois desse tempo.

Não é um tempo de férias, aqui e ali espreitam as tarefas que viajaram na mala e no computador, mas espreitam amortecidas pelo torpor das filhoses que ainda sobraram, pelas novas músicas que chegaram embrulhadas com laços, pelo riso das crianças que ainda ficaram. Aqui e ali espreitam as notícias sempre envoltas em papel negro, mas a dor que carregam chega-me mais ténue à pele. E mesmo a chuva e o frio incomodam um pouco menos, como se não fossem senão parte do que resta da festa e da festa que ainda virá.

É tempo de levar as meninas ao cinema, de me deslumbrar com o sobrinho mais novo e de constantar uma vez mais como é interessante o mais velho. É tempo de beber chá de limão com mel como se fosse possível ele afastar todas as gripes, de comer nozes a meio da tarde, de fazer roupa velha com as sobras do bacalhau, de afastar pensamentos sobre desgraça que a balança vai acusar assim que Janeiro entrar.

É tempo de sesta depois do almoço por causa de uma noite mais mal dormida e de lá encontrar um calor bom que se abraça aos pés e depois nos aconchega todo o corpo, e de encontrar nesse aconchego uma paz que a todo o custo se quer fazer perdurar, se quer para sempre.
~CC~

terça-feira, dezembro 23, 2008

Apontamentos de família (III)

A- Não vais fumar I? Já estás a fumar outra vez?
I- Se eu não fumasse, já tinha morrido!

(A tem 12 anos e I quase cinquenta)

~CC~

Apontamentos de família (II)

T- Vais então buscar o F ao aeroporto?
C - Sim, eu vou.
T - E levas a mãe?
C- Não, é muito cedo, é melhor ela esperar por ele em casa.
T - Sim, é melhor. Assim tem tempo para se empiriquitar toda para o receber.

(A mãe tem 80 anos e o F é o filho que vem do Brasil)

domingo, dezembro 21, 2008

Apontamentos de família (I)


N-Os japoneses não sabem o que é roubar, nem usam a violência. As regras são inculcadas desde muito cedo e não respeitar esses valores é tão penoso socialmente que eles simplesmente cumprem.

A- Então, o que é que dá lá no Telejornal?

(N, 26 anos, a viver temporariamente no Japão)
(A, 12 anos, residente em Setúbal)

~CC~

sábado, dezembro 20, 2008

Manhãs de Inverno

Nas manhãs de Inverno em que o nosso corpo nu dorme junto de outro corpo nu, há um calor pele na pele que é ainda melhor que o ar quente verdadeiro. É assim que às vezes no Inverno se faz Verão.
~CC~

Para onde is?

Pais Natais sem rumo, é o que é. Mais ou menos como nós...
~CC~

quinta-feira, dezembro 18, 2008

A chegada dos rapazes

Começa hoje a chegada da família para o Natal. O primeiro rapaz chega do Japão onde encontrou o seu primeiro emprego. O segundo rapaz chega do Brasil onde vive desde a adolescência e onde já nasceram os filhos e o primeiro neto. O terceiro já cá está mas é como se chegasse pela primeira vez este Natal porque no outro pesava menos que um quilinho de acúçar e tentava sobreviver no serviço de neonatologia do Garcia da Orta.

As meninas, filhas das três manas, trocaram as voltas aos Natais com os pais e ficaram com as mães porque este ano os rapazes chegam de longe e temos connosco o rapaz pequenino. Há uma força sempre a juntar-nos e é nela que reside a alegria que tem cada Natal. O resto é infinitamente pouco importante, não obstante adorar filhoses.
~CC~

domingo, dezembro 14, 2008

Universo


Há coisas que me entusiasmam, mesmo com frio, chuva e a influenza a dominar-me.

~CC~

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Ponte dos milagres (XII)

Ela disse-me que não queria o marido preso. E explicou: na minha aldeia perdoam as mulheres tontas, as que fazem pequenas loucuras. Sabem que queria muito um filho, e por isso compreendem que assombrada pelo desejo o tenha ido buscar a um hospital. Mas nunca compreenderiam que o meu marido o tivesse feito. E completou: Percebe Doutora?
Eu não percebia, eu antes não percebia. No curso de Direito só me falaram de leis, não das pessoas, nem de poesia.

Ele disse-me que era culpado mas eu não quero saber mais deste assunto. Estou aqui uns seis anos, porque nunca fiz nada disto e porque há muitas atenuantes para mulheres tontas que acreditam em milagres. Depois voltarei para o sol da minha aldeia. Que saudades tenho de figos, do cheiro do mar, das minhas mãos enrugadas pela água de lavar a roupa. E tenho saudades de ser tocada e agarrada, tenho muita saudade das mãos do meu marido.

Ela disse-me que eu só tinha que cuidar de tudo muito bem para quando ela voltasse. Nunca antes tinha feito tanta lida da casa, cansa como o trabalho na oficina. Quando os dias são grandes vou ver o mar como ela me pede e penso nela, penso muito no corpo dela e nos seus olhos. É estranho que só na sua ausência tomei consciência de como é bonita a minha mulher.
FIM
~CC~

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Ponte dos milagres (XI)

Contei-lhe num dia frio de Novembro, com as mãos dela dentro das minhas, e dentro do peito um desejo enorme de morrer. Há dias que não desejamos acordar no dia seguinte, pensamos que podemos dormir durante o sono sem dar por nada, e que Deus virá erguer o nosso corpo já leve para nos levar com ele.

Fui eu meu amor, fui eu que raptei a menina do hospital. Sou eu meu amor quem tem que ocupar esse lugar onde estás, temos que trocar de posições. Tu, meu amor, é que tens que me trazer a broa e o queijo.

Os seus olhos de mel derramaram-se e o chão ficou cheio das suas lágrimas doces. Demorou uma eternidade para dizer uma palavra e quando a disse tive vontade maior ainda de morrer. Tudo nela era perdão e carinho e por isso a minha vergonha tornou-se ainda maior. Disse uma e duas vezes que tudo deveria ficar assim, que não devia dizer a minha verdade a mais ninguém. Colou nos meus lábios um manto de silêncio e pediu que fosse para sempre.

Que fazemos quando somos os culpados e os inocentes não querem trocar de lugar connosco? Como podemos matar esta culpa que nos nasce a cada manhã maior? Que amor redentor é este que nos acolhe em toda a nossa imperfeição?

A minha mulher encheu o chão com lágrimas de mel e eu bebi-as uma a uma e mesmo assim sinto-me azedo como um leite coalhado. Um milagre, precisava tanto de um milagre.
~CC~

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Cantilena


Quando era pequena, mesmo vivendo na terra quente africana, entoava muitas vezes a linda falua que lá vem, lá vem...brincavámos na rua, juntando os miúdos em comboios enormes que depois se repartiam na passagem em que era preciso fazer a escolha entre duas pessoas, duas coisas, dois mundos...às vezes eram coisas tão triviais como duas frutas ou duas cores...

Pensava muito naquela cantilena e no seu significado profundamente dramático e triste que em nada nos afectava a brincadeira...passará, passará, mas algum ficará, se não for a mãe da frente é o filho lá de trás...e a mãe lá ia deixando os filhotes na passagem até ela própria lá ficar. Penso nesta cantilena em muitas ocasiões em que a perda é uma possibilidade na minha vida ou na vida dos outros, penso sempre nela quando vejo as pessoas se enfiarem numa barcaça para atravessarem um mar, sabendo o risco de vida que correm e como mais de metade não alcança a terra que deseja.

E ao mesmo tempo que destesto a inevitabilidade que a cantilena contém, aquela espécie de portagem fatal onde a mãe deixará de certeza pelo menos um dos filhos, acho que é uma boa metáfora para o risco que muitas das passagens da nossa vida comportam.

Sinto-me assim muitas vezes, a andar no arame a alguns metros do chão, de um lado a possibilidade de voar e, do outro, a possibilidade de cair. E mesmo sabendo o risco que corro, avanço. Felizmente o meu risco é consideravalmente menor do que aqueles que se enfiam nas barcaças, talvez por isso pense hoje tanto neles, no seu desespero e na sua coragem*.

~CC~
* E pensar que já lá vão 60 anos de Declaração dos Direitos Humanos!

terça-feira, dezembro 09, 2008

A obra

Há meses que eles vivem ao meu lado, trabalham de dia e de noite e não me deixam dormir. Conheço agora melhor que nunca o significado das cores dos capacetes e distingo o que faz cada uma delas. São por vezes tantos que parecem as minhas formigas africanas, outras vezes são tão poucos que parece que a obra será impossível de terminar com tamanha escassez.

Têm cores variadas, quase tanto como as nacionalidades. São quase todos homens, mas já houve mulheres na obra, parece que se foram com a aproximação do Inverno. Penso como aguentam o frio e a chuva pela noite fora, como se mantêm acordados, como é que se sustenta tanta dureza com um salário em regra tão baixo. No outro dia cheguei muito perto e pude ver os coletes com o logotipo da empresa de trabalho temporário.

Nunca tinha visto construir de raiz um tunel, passagens inferiores e superiores, pequenas pontes, casinhas várias. Nunca tinha visto a transformação do nada pela armação do ferro, da madeira, da terra, numa minúcia que corresponde a segundos, horas, meses de observação. Quando partirem eu já não serei a mesma, até porque terei dormido consideravalmente menos e, pior ainda, sonhado pouco. Talvez tenha aprendido coisas que não sei para que servem, é assim que os meus alunos as enunciam muitas: não sabemos para que serve aprender essas coisas...para que serve...

Poderia odiá-los porque há meses que não me deixam dormir. Estive várias vezes a um passo de terminar com isto, apresentando queixa em todos os lugares em que isso fosse possível. Mas no sábado passado entre o ruído das máquinas ouvia-se uma voz forte a cantar um fado por baixo da minha janela, era bela e cortava quente o frio matinal, e é por essas e outras que não os posso odiar, não consigo.
~CC~

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Ponte dos milagres (X)


- Escute homem, tem que dizer que foi você que raptou a menina, tem que libertar a sua mulher da prisão!
- Não sei se aguento fazer isso, não é por ir preso, mas pela desilusão que lhe causarei.
- A verdade é mais importante, como é que pensa continuar a viver com ela com uma mentira dessas instalada entre vós?
- Dra, ela não tem antecedentes, vai sair daqui a uns três ou quatro anos e recomeçaremos a nossa vida como se nada disto tivesse acontecido.
- Não pode fazer isso, não é justo ela pagar pelo que você fez.
- Ela vai deixar de me amar e isso não é uma prisão por três ou quatro anos, é um abandono para toda a vida, ela vai deixar-me se souber o que eu fiz. Sempre acreditou que eu era um homem bom, sempre a dizer-me isso em cada abraço, em cada beijo...e agora eu sou capaz de roubar uma criança?!
- Homem, se o deixar, paciência. Pode ser que ela compreenda que o fez por amor, para a consolar.
- Não é assim Dra, se ela me deixar eu vou morrer mesmo estando vivo.

~CC~

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Metade de mim

Ilha do Ibo, Novembro 2007

Não posso evitar a saudade. O frio e a chuva entram em mim sob a forma de tristeza. A minha pele, embora seja branca, mostra os sinais da revolta em forma de eczema. A minha energia está reduzida, vejo-lhe o nível insatisfatório, e embora me tente manter acordada, mal me reconheço.

A neve é bela sim, mas não é, jamais será minha. Eu podia ir agora com os pássaros em bando, poderia migrar em busca do sol.
~CC~

terça-feira, dezembro 02, 2008

Ponte dos milagres (IX)


Perguntei-lhe, em desespero, quem era o responsável pelo rapto da menina. E ele tapou o rosto com as mãos e ficou assim um bocado. Depois levantou-o, olhou-me nos olhos e disse: sou eu. Ao contrário de aceitar a verdade que ele me queria dar, não acreditei. Fui dizendo que tinha sido uma mulher e não um homem, uma mulher envolta em panos negros, uma mulher desesperada.

E ele foi dizendo que não tinha sido uma mulher mas um homem desesperado. Contou como tinha proposto a compra das vestes a uma mulher cigana no mercado, como tinha estudado por vários dias o hospital fingindo ser um electricista, como tinha visto por várias vezes o modo como o povo cigano impunha respeito nos hospitais. Contou da compra da peruca de cabelo preto comprido, dizendo que era para o Carnaval. Foi falando de como a ideia o tinha torturado desde aquele Inverno em que a mulher se tinha encostado a ele num beijo doce até à madrugada do dia de Primavera em que a tinha deixado na Ponte da Mizarela, de como a tinha deixado à espera de um milagre.

Contou como tinha escolhido o bebé, como o tinha segurado com muito cuidado e posto por baixo dos panos, segurando-o como se fosse uma barriga grande. Falou do medo que tinha sentido, bastava um choro e tudo se tinha descoberto. Mas o bebé não chorara, parecia até gostar do aconchego e só quando o pusera dentro do berço no carro ele tinha dado sinais de vida. E a sua mulher também não desconfiara de nada, aceitando dos seus braços a menina, sem uma pergunta ou sequer espanto. Tudo isto ele afirmou sem culpa, como se tivesse simplesmente cumprido um designío, como se a emoção que o alimentou e agora enforma a sua razão, o fizesse inocente.

Que fazer, o que deveria eu fazer com este homem?


~CC~

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Calor na Igrejinha

As famílias têm datas marcadas num calendário privado, ao mesmo tempo que partilham algumas datas do calendário público. As famílias há muito deixaram de ser apenas aquelas que o sangue nos trouxe, acrescentámos tribos outras trazidas pelos trilhos que fomos marcando pelo mundo.

O mundo académico não é apenas um ninho de gente competitiva, ciosa dos seus saberes e dos lugares, não é apenas gente que gosta de se ouvir a sí própria sem pé que seja na realidade dos seres comuns. Há outra gente lá dentro, ou gente que está dentro e está fora, num saudável vai e vem. A escola de Lisboa, auto-intitulada desse modo, sem qualquer pendor centrista ou orgulho de capital (até porque só uma minoria é efectivamente de Lisboa) todos os anos se acolhe junto de uma lareira no frio alentejano da Igrejinha. Gostamos todos efectivamente de boa comida, música e dança e é o que fazemos com gosto e sem temores nem vergonhas. Aqui e ali espreitam os "doutoramentos" que fazemos e a preocupação que temos em ir até ao fim, mas as teses já estão longe de ser o nó que nos ata.

Já perdi tanta gente pelo caminho, acho que agora estou mais atenta, por mais que por vezes eu própria telefone e escreva pouco a estas pessoas. Não quero, contudo, deixar de as ver, porque sei hoje bem qual é o calor que nos serve para enfrentar o frio de todos os invernos que nos acontecem.
~CC~

sexta-feira, novembro 28, 2008

Palavras à procura de um blogue

Moçambique, foto CC, de Novembro de 2007


" ...já te falei dos bandos de pássaros que agora aqui andam? Parece que são tordos que vieram comer azeitonas, toda a gente fala deles porque são às centenas e fazem desenhos nos céus da cidade e dos campos, por cima do monte e do rio, como se se exibissem para nós. Ontem estava a dar consulta e da janela do consultório conseguia vê-los por cima dos telhados e do rio a dançarem em bando como se soubessem que me iam distrair."
EB (Viana do Castelo)


Recebi dela estas palavras por mail, quase trinta anos depois de um Verão em que nos encontrámos, duas raparigas repletas de luar nos cabelos. Depois desse Verão, creio que nos teremos visto muito pouco, quase nada. Depois a Ardósia promoveu por si mesma este encontro. Há muito tempo que não nos vemos, mas os olhos, agora mais cansados, registam ainda o voo dos pássaros.

~CC~

Ponte dos milagres (VIII)

Eu era a sua advogada de defesa, tinha sido o marido dela a contratar-me. As poupanças, dizia ele, de nada valiam se não pudesse ter a sua mulher de volta.

Eu acreditava nesta mulher inocente, mais que na inocência desta mulher, porque a inocência não era nela o facto de não ser culpada, ela era inocente em si mesma, era apenas e quase só uma rapariga à procura de um milagre. Mas se ela era inocente, alguém teria culpa.

A criança tinha sido efectivamente roubada do hospital nessa cidade que ficava relativamente próxima da Ponte da Mizarela, ainda que distante. E em menos de uma semana descobriram este casal que dizia a ter recebido de mãos divinas. Uma menina chamada "Senhorinha", registada ainda por cima por pessoas de fora?! Porque razão viria uma família do Sul registar ali uma criança que não tinha nascido num hospital da região? E sem nenhum papel que comprovasse o nascimento da criança? Discretamente enquanto a funcionária fingia acreditar na história, a polícia foi avisada e o falso registo considerado uma prova.

Foram dias de desnorte e tormento e este homem chega até mim em estado pleno de desorientação. Pedi que repetisse a história várias vezes até a compreender. E hoje, passado quase um ano da prisão desta mulher, consigo traçar o roteiro da culpa pelo roubo da menina. Infelizmente, este saber nada acrescenta, não posso ou não consigo libertar esta mulher. Resta-me o consolo de saber que ainda sei ler um olhar. E a absoluta tristeza de saber que se eu a libertar com a minha verdade rondará junto dela uma outra espécie de morte.
~CC~

quarta-feira, novembro 26, 2008

Vítimas

Não gosto da palavra vítima, por indiciar um estado de coisa sem retorno, um corpo reduzido a nada. Estes miúdos que falaram já foram vítimas, durante todo o tempo do seu silêncio e do seu medo. Não é a condenação dos abusadores que os salvará, nem a nós, mas poderá mostrar que os mais vulneráveis também são capazes de lutar, e isso é esperança. O mais importante não é nos contentarmos com a condenação dos poderosos, como se os seus privilégios, conseguidos ou não por direito próprio, nos incomodassem mais do que os abusos que cometeram.

O que é importante é acreditar que há gente que poderá cortar com a sua voz silêncios de séculos. Já não são vítimas, são heróis à medida do mundo.
~CC~

terça-feira, novembro 25, 2008

Ponte dos milagres (VII)

Beijei o meu marido naquele dia de Inverno, a sonhar com o dia em que a Primavera chegaria. Depois desse dia ficou entre nós mais vivo o amor. Lembro-me de o ver passar para a oficina de madeiras ainda muito jovem, na sua motoreta preta, a fazer contraste com o capacete branco que usava. Tem sido um marido exemplar, mas fala muito pouco. Eu, pelo contrário, sempre gostei de cantar, de bailar, de brincar, sempre fui alegre. Uma vez, num baile de Verão, consegui que viesse dançar comigo. Tinha os pés tão presos ao chão que acho que fui eu que o conduzi, mas vi que o seu sorriso tímido escondia um homem bom. No dia seguinte veio trazer-me uma rosa e disse baixinho: tirei-a da estufa do avô Manel, ele nem deve notar. Nesse momento, senti muita ternura, e apeteceu-me casar com ele.

Nestes dias dificeís em que aqui tenho estado presa neste cubículo escuro, ele tem vindo sempre, nunca me abandonou. Imagino que tenha cuidado da nossa menina, essa benção que me foi entregue pelo raiar de uma manhã de Primavera. Imaginava que a tinha recebido das mãos de Deus, mas parece que não foi assim, parece que afinal foi o Diabo que ma entregou, mas eu não tenho culpa, não sabia que tinha que lhe dar a minha alma em troca.

O advogado disse-me que eu teria que confessar que a tinha roubado no hospital da cidade, mas eu nunca poderei confessá-lo porque não é verdade, eu não entrei em nenhum hospital para a roubar. Ele diz que estão gravadas as imagens de uma mulher coberta de panos pretos como se fosse uma cigana e que o rosto mal se vê, mas que só posso ser eu. Eu não sei explicar mais nem melhor, mas o desconhecido que na ponte da Mizarela me entregou a criança, estava coberto de panos pretos. Achei normal que ele se quisesse encobrir, porque os milagres são assim mesmo: uma luz ou uma sombra.

~CC~

domingo, novembro 23, 2008

Ponte dos milagres (VI)

Tentei convencer os juízes da inocência desta mulher simples, nascida numa aldeia do sul, fruto de um mundo em que as soluções se esgotam depressa como areia a cair das mãos. Tentei mostrar-lhes como é possível ir ao encontro de um milagre e acreditar de facto que ele existiu, mesmo que isso de todo nos pareça impossível. Mas ela era também uma mulher esperta, capaz e despachada, pelo que não podia nem queria marcá-la com um rótulo que tornaria a sua vida uma outra coisa. Sim, se o mundo se podia dividir em dois, ela era imputável.

Nunca, por mais casos que defenda em tribunal, me posso esquecer dos seus olhos meigos como mel, da sua voz dizendo:
Aconteceu percebe?! Pela manhã o desconhecido apareceu na ponte da Mizarela, apareceu logo com a criança, não me lembro do rosto dele, trazia um pano a cobri-lo. Debaixo desse pano preto, muito comprido, trazia o bebé. Era rosado, muito bonito, igual ao melhor dos meus sonhos. E deu-mo, simplesmente passou-o para os meus braços sem uma palavra.

Fez um silêncio, e depois, espantada com o que ela própria tinha descoberto, disse:
Só se esse desconhecido era o próprio Diabo, e como eu aceitei a criança dos seus braços, cometi o maior dos pecados e por isso tenho de ser julgada.

E lembro como nessa altura o juiz baixou a cabeça, passou a mão pelos olhos, e pareceu desesperar com a impossibilidade de comunicar com esta mulher.
~CC~

Jogo de Inverno

A tua mão desliza devagar para fora dos meus dedos, no último dedo eu agarro-a e ela enrola-se na minha. Depois és tu a fazer o mesmo. É um jogo de Inverno, e lutamos ambos contra o frio que teima em competir connosco.
~CC~

quinta-feira, novembro 20, 2008

Pela poesia



Enquanto a dita maior e melhor livraria do país fecha as portas, há outras ideias pequeninas a vingar. Vejam esta: publicar poesia a partir da receita de alfarroba.


~CC~

quarta-feira, novembro 19, 2008

Ponte dos milagres (V)



É como já vos disse, nasci numa aldeia entre o Alentejo e o Algarve, num lugar do qual nunca desejei sair. O meu professor do 6º ano dizia para estudarmos porque só assim poderíamos ir para a cidade e conquistar novos empregos, novos ofícios. Eu não queria, gostava do cheiro da cal nas casas, do sol a debruar a soleira da porta, das sardinheiras a espreitar das janelas e dos quintais. Gostava de ir aos figos pelos campos, de deixar a roupa a secar no estendal do quintal, de dar milho às galinhas, de ajudar a mãe a fazer os queijos. Já mais velha, chegavam-me os bailes com as festas dos santos, o café central, as excursões que a Filarmónica organizava, as tardes de praia conseguidas à boleia na mota de um ou num carro velhote de outro.


Eu não queria saber de outro mundo além da minha aldeia. O único lugar que despertou o meu interessou foi mesmo a ponte da Mizarela. Contei primeiro à minha melhor amiga, uma mulher casada como eu, mas já com dois filhos. Ela disse-me que se fosse ela, também iria, que devemos tentar tudo para realizar os nossos sonhos. Já o meu marido fez tudo para me fazer desistir da ideia, até não me poder ouvir mais falar na possibilidade do milagre. Foi depois do jantar, numa noite especialmente fria, em que de tão triste eu tinha ficado parada no sofá, sem sequer me levantar para acender a lareira. Dormitava enrolada numa manta, quando ele se chegou a mim e disse: Quando chegar a Primavera eu levo-te lá.

~CC~

terça-feira, novembro 18, 2008

Perdidos e achados



As pessoas que eu perdi sem que tivesse escolhido perdê-las. Ficaram lá atrás, situadas em cenários com voz, cheiro, paisagem. Pergunto porque é que a vida as levou para longe do meu presente quando havia entre nós um rio de palavras e silêncios coloridos, tantos modos de nos dizer...Por vezes luto contra essa perca, vou fazendo alguns telefonemas ou enviando mails, até que o tempo me vence e o espaço entre cada comunicação se torna maior. É como se os caminhos se tivessem desviado de forma inevitável, destinos que se perderam. Aceito essas ausências sem mágoa, mas de quando em quando elas tornam-se tristes, como se as pessoas ausentes fossem sombras que me acompanham e que de repente tomam forma.


Hoje foi assim com a sms dela, devia ter ficado alegre por saber que está bem e a fazer teatro, coisa que sempre desejou. Devia ter ficado feliz, mesmo sabendo que o que escreveu a mim é o mesmo que escreveu a todas as pessoas que constam da sua lista de endereços. Mas ela deixou de ser sombra e tomou forma de carne e osso e voz. E vi-me e via-a na nossa juventude e transição para a vida adulta, pensei nas tardes, nas noites, nas manhãs em que acordámos juntas em tantos lugares. Lembro-me de pensar que as nossas crianças cresceriam juntas num sítio no campo, perto do mar e de muitos malmequeres. Como é que a vida desfaz amizades fortes, alimentadas de tanto sonho, de tanta ternura? Mesmo com o telefone na mão, sabemos que não podemos voltar, perdemos a intimidade. O que nos resta é talvez um café, algumas palavras de circunstância a conferir se estamos bem, o que resta do brilho antigo deixado num breve sorriso.

E pensamos e dizemos: Adeus, até á próxima. Mas nem sequer sabemos se a próxima existirá.


~CC~

segunda-feira, novembro 17, 2008

Ponte dos milagres (IV)

A lenda da ponte da Mizarela é simples. A mulher que não engravida ou que já grávida viva em sérias dificuldades deve pernoitar nesta ponte. Assim que a manhã espreitar, ela deve esperar o primeiro caminhante que passe. Deve chamar por ele e pedir-lhe que jogue com a ajuda de uma corda um vaso que deve regressar cheio de água do rio rabagão. Com essa água, o viajante procede ao baptismo da criança (ou da sua esperança) no ventre da futura mãe. É muito importante o contacto da água com a pele, pelo que a mulher deve afastar a roupa que a cobre ou deve levar vestes em que abriu previamente um orifício. Deve ser dita a reza condizente, pela qual todos os rapazes nascidos deste ritual se chamarão Gervásios e as raparigas Senhorinhas.

Quando esta mulher morena e bonita, filha de um pai não comunista e não crente, na casa dos 30 anos, me contou esta história, confesso que lhe fiz uma série de perguntas nascidas da minha racionalidade de advogada. Como é que hoje em dia se acredita que há viadantes a passar no começo da manhã em lugares tão inóspitos como este? Porque é que esta água é milagrosa e não outra qualquer? Como é que uma água sobre a pele influencia a gestação? Mas sobretudo, como é que uma mulher de hoje acredita numa lenda que parece ter sido criada em plena idade média, ou mesmo antes?

Esta mulher da ponte da Mizarela, cuja voz já ouviram na primeira pessoa, na situação em que está actualmente não tem revistas nem jornais à mão. Por isso não me respondeu que Nicole Kidman, actriz bem sucedida de Hollywodd, atribuiu recentemente a sua gravidez a uma cascata milagrosa na Austrália. Mas eu coleccionei estes e outros artigos com estas histórias, e mesmo sem entender, respeitei estas mulheres.
~CC~

domingo, novembro 16, 2008

Um passeio no Outono




Pelos passos da manhã me levei e te levei comigo no caminho do Outono junto ao mar.

Em cada fotografia de árvore retratamos o que temos em comum: o olhar mudo e cumplice deitado às formas de seiva, água e húmus.

~CC~

sexta-feira, novembro 14, 2008

Ponte dos milagres (III)

Eu morava longe da ponte da Mizarela, numa aldeia pequenina perto do mar, branca de cal como são os lugares do sul. Na minha casa, o meu pai tinha deitado fora todos os cristos e rosários que a minha mãe tinha trazido para o casamento. Cá em casa nada de rezas nem mézinhas, essas crendices que só fazem mal ao povo. A nossa luta é contra os patrões, mais nada. Da sua intolerância mas também da sua força tinha nascido eu, herdeira de esperanças que nunca concretizei. Oiço ainda a sua voz forte, os seus olhos sempre duros, a pele tisnada do sol do campo: tens de ir à escola, tens de estudar.

Tudo me interessava mais que a escola, lugar que deixava por qualquer passeio para apanhar azedas, por qualquer pescaria na ribeira, por uma ajuda na queijaria, por uma tarde a ouvir música na filarmónica. A escola aborrecia-me e a vida divertia-me, era uma miúda aluada, distraída, que tinha tanto sono depois do almoço que a minha colega do lado tinha por missão me abanar para eu não deitar a cabeça no tampo da mesa. O meu pai não sabia que fazer de mim, e ocupado com a luta política, não tivera tempo para mais filhos. Era eu a única e ainda por cima tão incapaz que não só desistira cedo da escola e casara mal feitos os vinte, como não lhe dava netos.

Como podia esquecer-me da lengalenga que a velhota me fizera anotar no papel: escreve minha filha, se sabes escrever, que eu não sei. Com o meu 6º ano de escola eu ainda era capaz de deixar no papel aquelas palavras que me acompanhariam daí em diante.

"Eu te baptizo criatura de Deus, pelo poder de Deus, e da Virgem Maria. Se for rapaz, será 'Gervás';se for rapariga, será Senhorinha. Pelo poder de Deus e da Virgem Maria,um Padre-Nosso e uma Avé-Maria. Eu te baptizocriatura de Deus, Pelo poder de Deus, e da Virgem Maria."

Como faria eu para ir ao Minho, junto ao rio Rabagão?

~CC~

Os caçadores de planetas


Pesados e redondos, adornados de poeiras vermelhas, afastados por milhares de anos luz, chegam pelas mãos dos caçadores de planetas, rasgos de mistério em pleno universo.

Pudesse eu nascer de novo, e estaria esta profissão escolhida logo no berço.

~CC~

quarta-feira, novembro 12, 2008

Ponte dos milagres (II)



Era uma ponte construída pelas mãos do próprio Diabo, só ele poderia incliná-la assim por cima das pedras. Mais tarde, muito mais tarde vim a saber o quanto isto era verdade, mas na altura só pensava no que a velhota me tinha dito, na ideia de trazer deste lugar uma criança abençoada pelas próprias águas. A minha história começa e termina neste lugar.
~CC~

segunda-feira, novembro 10, 2008

Ponte dos milagres (I)

Esta é a minha história, a de uma mulher que aguarda há dez anos por um filho que não chega. Na minha aldeia não há nenhuma mulher como eu. Espreito a corda de roupa da minha vizinha, onde há em todas as manhãs de sol o espelho dos seus meninos na roupa molhada. As mulheres dizem baixinho quando eu passo: coitada, tão jeitosa, e nada!

Já rezei a todos os santos que conhecia e a santas também. Cansei-me de beber chás de todas as cores. Já deitei de tudo na comida do meu homem. Depois convenci-me e fui ao médico lá na cidade, que me olhou por dentro e por fora à procura das causas para o meu ventre infértil. Disse-me que ia demorar a encontrar as respostas e eu tenho pressa, quero ter os meus filhos antes dos trinta, depois serei já mulher madura.

Até que, já vai fazer um ano, uma velha quase sem dentes parou ao pé de mim com o seu cajado de nogueira e disse-me: porque não vais à ponte dos milagres?! Agarrei-a pela manga do seu vestido preto já coçado, obrigando-a a contar-me a história toda.

E foi assim que conheci a lenda da ponte da Mizarela.
~CC~

domingo, novembro 09, 2008

Profissão professor



Oiço-os de um e do outro lado falar de uma vida que é também a minha. Vejo o rosto tenso e duro da Ministra da Educação, de certa forma há um desconsolo profundo nela. Vejo os rostos vitoriosos de quem desce a avenida unido numa causa comum, agora parecem felizes, mas conheço bem o cansaço que trazem acumulado. Um cansaço maior e além deste modelo de avaliação. É a escola, é o seu modelo de ser escola que já rebenta pelas costuras. Era essa a luta que gostava mesmo de travar: uma outra escola.

Vejo como na vida me tem sido sempre tão difícil fazer estas escolhas, estar num ou no outro lado da fronteira. Compreendo as razões de um e do outro lado e isso torna-me vulnerável, presa de um e do outro lado. Lembro as muitas situações em que me encostaram à parede, obrigando-me a uma escolha impossível. Fiquei sozinha, sou sozinha de certo modo, creio que o serei sempre. Em muitas situações, nunca poderei estar inequivocamente com os vencidos ou com os vencedores. Creio que os professores deveriam gritar na rua que querem ser avaliados. Esta é a mensagem principal, a outra é que querem um modelo de avaliação alternativo a este.

Eu gostava de ter sido avaliada como professora nas várias dimensões em que exerço a minha profissão, desde a sala de aula, às propostas e projectos, à relação e inserção nesta comunidade onde a minha escola se insere. Creio que se tivesse sido avaliada, não estaria na péssima situação em que hoje estou. Nunca, ou quase nunca, as competências que temos e as que conquistamos foram o essencial da avaliação na profissão que exercemos e essa é uma das tragédias portuguesas.

Grito portanto na rua que sou a favor da avaliação e que não a podemos suspender, nem adiar. Mas grito também contra alguns dos erros que estão a ser cometidos, desde logo por essa divisão absurda entre os professores titulares e não titulares, designação do mais infeliz que conheço. Não estou por ora na fileira dos que serão avaliados pois a avaliação do exercício da profissão no ensino superior não é para já, mas virá também.

Sublinho que adoro esta profissão, creio mesmo que a maior parte de nós que a temos, gosta muito dela. E é nisso que a ministra falha e era essencial que acertasse: desde sempre que lhe falta reconhecer o valor de quem todos os dias entra nas salas de aula com prazer.

~CC~

quinta-feira, novembro 06, 2008

Ausências e errâncias (VIII)

É hoje o dia do baptizado de Carol e André, os meus dois filhos, com diferença de apenas um ano um do outro. A igrejinha da Candosa está bonita, teve uma pintura nova e enchi-a de flores do campo que eu própria fui apanhar para os lados do Cabril. E estamos na Primavera, está um dia limpo e fresco.

Discuti muito com o padre e o meu único verdadeiro amor o baptismo destas crianças, virando ele a cara e desviando o olhar cada vez que eu lhe dizia que se ele os baptizasse seriam também um pouco filhos dele, os filhos que não tinham nascido do nosso amor. E quando ele me responde não há o nosso amor, ele percebe o quanto mente a si próprio. Durante estes cinco anos em que não voltei, escrevemos regularmente um a outro uma carta por mês. Cartas à moda antiga que o meu amor é um homem do mundo colado às tradições da sua aldeia. Inquieta-vos que lhe chame meu amor? Não é simplesmente como os outros, mas ele é a ligação mais forte que eu tenho a outro ser humano. O fascínio que tenho por este homem e o desejo que sinto por ele já são parte de mim, são o meu sangue.

Sim, é verdade que tive estes dois meninos loiros, fruto de uma grande amizade e de um respeito enorme pelo Peter, meu colega cientista. Nasceram lá longe, nos dias frios e chuvosos de Londres quando a mão dele era tudo o que me podia roubar à tristeza. Talvez o ame também, um outro tipo de amor, uma aragem fresca e doce como a que me chega hoje ao olhar o rio.

Daqui a pouco ele entrará nesta igreja, os seus olhos tão negros e brilhantes, serão mais uma vez o lume que nunca esquecerei. O amor, o amor é tudo isto, o que temos e o que nunca teremos, o que nos corre na pele e o que não correu nem nunca correrá.

Quando a cerimónia acabar, a senhora da Candosa estará sorridente, o seu padre nunca a deixará, e ganhará por momentos mais um menino e uma menina para enrolar no seu manto protector.

Eu estou feliz.

Fim
~CC~

terça-feira, novembro 04, 2008

I have a dream!


Sonhei que o Obama tinha ganho as eleições nos Estados Unidos.

Sonhei mais, sonhei que o Obama, por ganhar as eleições nos Estados Unidos, tinha começado a ser mais corajoso. Sonhei que tinha recusado a benção de qualquer religião, virado a cara ao lobby do Petróleo, tinha finalmente assinado o protocolo de Quioto e aceite que os seus cidadãos podem ser julgados pelo Tribunal Internacional dos Direitos Humanos.

Sonhei mais e mais, sonhei que ele tinha desmantelado os seus lugares encapotados de guerra nos quatro cantos do mundo, e que tinha dito que de ora em diante as suas tropas só agiriam na cena internacional integradas nas forças de Paz da ONU.

Sonhei que ele não dormia a pensar nos caminhos possíveis para resolver o conflito entre Hutsis e Tutsis que cruza vários países de África e agora assola o Congo. Sonhei que ele tinha dito "I Have a Dream" e tinha explicado que esse sonho era o de um mundo realmente melhor, pelo qual evidentemente não poderia lutar sozinho, sonhei que tinha dito que de alguma forma contava connosco.

~CC~

segunda-feira, novembro 03, 2008

Noites com silêncio


O silêncio é só esta noite espessa onde as horas passam velozes, em contra relógio com as muitas tarefas sempre atrasadas.

Há em cada noite de silêncio um semanário sem leitura que sobrou do fim de semana, um livro na estante a piscar-me o olho, um monte sempre crescente de roupa para passar, pensamentos persistentes à volta de alguns medos que crescem como se fossem a sombra da crise.

Há no silêncio da noite sonhos permanentes de passeios, de viagens. Estou já perto de Sevilha e a caminho das termas de Budapeste.

Há em cada silêncio de cada noite a saudade de um lugar amado, um cheiro ou um sabor que vem de um tempo já passado. São as gambas de Benguela, o azul claro do Índico, o sol deitado no final da tarde num pedacinho da ria formosa.

Às vezes o silêncio da noite tem o nome da tua ausência e sabe à tristeza de uma boca sem beijos.

~CC~

sábado, novembro 01, 2008

Noites com música

Leaders, Seixal Jazz 2008

Do palco para nós, a alegria a transbordar em música.
~CC~

sexta-feira, outubro 31, 2008

Ausências e errâncias (VII)

Várzea, Verão 2007


Quantas vezes precisamos para saber de vez que alguém não nos quer? É verdade que assisti ao seu abraço com a religião católica e que nunca me pareceu que pudesse haver retorno, mas precisei de todo este tempo, quase dez anos. Mantive o meu abraço quente à espera dele. Todos os meus envolvimentos neste anos foram pontuados pela ausência de esperança e de calor que neles depositei. Em sonhos eu era a Senhora da Candosa, montada no burro, capaz de abrir e fechar desfiladeiros com um olhar, dona de um encanto, de uma luz tão grande que Deus ao pé de mim era só uma sombra. Imaginava-o a acordar comigo em cada manhã, com aqueles seus olhos castanhos tão claros como mel e aquela paz que o habitava desde sempre a entornar-se também para dentro de mim. Imaginava que a fusão dos nossos dois corpos doces e macios traria à terra dos nossos pais pelo menos uma menina traquina, com duas tranças loiras e um rapazito de ar grave, a fazer perguntas sobre as razões da nossa existência.


Nada foi assim, eu perguntei pelo seu amor uma vez e duas e três e só na terceira chorei. Quando as lágrimas finalmente tomaram forma, eu pude perceber que a vida que eu tinha pensado um dia ter, não existiria nunca.


E quando parti para Londres era já uma outra pessoa, um outro destino de mim.


~CC~

terça-feira, outubro 28, 2008

Beleza (II)

Uma cor na camisola que rima em excelência com o olhar. Um sorriso aberto e limpo de quem procura dias claros. Uma pequena saliência na pele que parece ser saborosa. O modo como as palavras se pronunciam. O recorte largo dos gestos na companhia da fala. O andar de navio vagoroso, mar manso. O sal, em dose quase igual ao açucar. O saber sem arrogância de quem olhou o mundo em múltiplos espelhos. Uma lágrima agarrada nas pregas do tempo. Os livros lidos sem alarde, tornados vida interior. Um abraço pronto a sair a qualquer momento, quente ainda. Um desejo de viagem preso nos sonhos. O mundo todo para aprender.

É assim para mim a beleza, feita de coisas tão pequenas e tão imensas.
~CC~

segunda-feira, outubro 27, 2008

Ausências e errâncias (VI)

Beira interior, 2007


-Diz-me, alguma vez desejaste uma mulher?
- Talvez sim, mas já não me lembro.
- Como pudeste esquecer? Como se anula essa parte do nosso ser?
- Não anulas, simplesmente não lhe dás espaço. Repara, é um prazer que não conheço, por isso não posso sentir saudade, só há saudade do que conhecemos e amamos.
-Não desconheces que o celibato não é uma regra de todas as religiões, mesmo das monoteístas.
- Claro que sei isso.
- Então porque aceitas? Porque não te mexes para acabar com isso.
- Porque não acho uma coisa errada, não acho que seja o nosso maior problema.
- Qual é o sentido disso, não consigo encontrar.
- O sentido de uma missão que ocupa muito espaço, toda a nossa disponibilidade. Quantos cientistas não fizeram o mesmo com a sua vida? E muitos que não o fizeram, se calhar deviam.
- Como?! Nós conseguimos equilibrar as coisas, os cientistas já não são ratos de laboratório.
- Alguns são, e outros tentam ter família mas não lhe dão atenção, acho pior esse engano.
- Não é saudável, todas as partes no nosso ser são importantes, devem estar em equilíbrio.
- Pois eu acho essa tua visão muito higiénica e normativa, o equilíbrio é uma coisa muito pessoal.
- Rejeito a tua renúncia.
- Porque não percebes que é uma escolha, não uma renúncia.
- Não é uma escolha tua, é a escolha que a tua religião fez por ti.
- Mas se eu escolhi essa religião, tornou-se uma escolha minha.
- E os casos, todos os casos de padres que não cumprem essa regra? Que o fazem às escondidas?
O que dizes a isso?


~CC~

domingo, outubro 26, 2008

Varanda ao sul

Faro, 2008

Onde o olhar encontra o branco que resta intacto e se aquece no azul da ria.

~CC~


quinta-feira, outubro 23, 2008

Beleza (I)

Aos catorze sabia o que era a beleza masculina, apaixonei-me pelo rapaz mais bonito e desejado da escola e consegui namorar com ele uns três meses. Um êxito acompanhado pela angústia dos olhares permanentes sobre o objecto amado. Não sei se todas as pessoas deslumbrantemente belas precisam de público, mas aquele vivia disso. Depois a vida deu uma volta tão grande e depois outra e mais outra e perdi todos os padrões, nunca mais foi contemplada com a inveja das amigas nem com os olhares de admiração das mulheres pelo homem que me dava a mão. Só pelo silêncio das mulheres é que consigo saber que os meus homens não devem ter sido, não devem ser homens muito bonitos.

Recentemente terminei uma acção de formação, quase só mulheres, mas havia um homem. Achei-o efectivamente bonito quando o vi na primeira sessão de trabalho, mas depressa me esqueci dele. Estive aliás convencida que ele tinha faltado muitas vezes e por isso fui confirmar a folha de presenças, para meu espanto tinha estado em todas as sessões. Por me parecer quase impossível fui confirmar com alguém de confiança, que me sublinhou a palavra todas, ele tinha estado sempre presente. O homem, sem chama nenhuma, tinha uma beleza que morria no quotidiando, apagava-se no vazio.
Agora a publicidade televisiva de uma marca de automóveis, vejo uma e outra vez e não percebo a publicidade, é a minha filha que me ajuda, que explica. O homem que a mulher do anúncio escolhe é o mais feio, mas tem o tal automóvel, o tal que é barato mas muito charmoso. Ora eu acho que ela fez a melhor escolha em tudo, no autómovel e no homem, acho-o o mais bonito dos três que ela podia escolher. A minha filha ri muito, diz que não, que ele não é efectivamente o mais bonito, que é até feio. E rimos as duas quando lhe digo: e além de ser bonito, diz que não lava a loiça, mas aspira...não está mal, até porque as máquinas já vão lavando a loiça mas máquinas de aspirar ainda não sei se há.

Já é tempo de dizer que para se ser bonito é mesmo preciso o que está dentro, até porque mais de meio mundo anda a dizer o contrário.
~CC~

Ausências e errâncias (V)

É verdade, apaixonei-me irremediavelmente por este rapaz naquela noite de chuva, ou melhor talvez antes, talvez muito antes. Sei que agora é padre, sei que pensam que os jovens já não escolhem esse futuro para eles e que o meu drama só poderia localizar-se no passado e habitar um romance de um Camilo ou de um Eça.

São poucos, é verdade, mas se repararem bem, há jovens padres. E o meu não foi para o seminário aos 10 anos, no final da escola primária, por ser muito inteligente e os pais não terem como dar continuidade aos seus estudos. O meu padre teve todas as hipóteses para escolher outro futuro, era bonito, comunicativo, tinha bons resultados em praticamente todas as matérias escolares. No entanto sempre morou nele alguma tristeza, por vezes um silêncio, outras mesmo ausência. Foi ainda jovem que começou as suas missões inserido numa organização católica e na altura ainda não afirmava esta sua vocação, era apenas a vontade de estar nos lugares do mundo onde, dizia ele, a miséria é tão grande que é difícil preservar a condição humana. Foi depois da sua missão no Libano que ele tomou a decisão de ser padre católico, veio de lá transformado, uma sombra de si próprio. Raramente fala do que viu ou viveu nestas suas missões e continua a fazê-las com regularidade, mesmo agora depois de ter assumido de vez a paróquia da Várzea. Não compreendo também porque não escolheu outro lugar, ele que tanto gosta de errância.


Quando lhe perguntei porque voltou aqui, respondeu com aquele sorriso terno: foi aqui que me encontrei com a Senhora da Candosa, foi aqui que aprendi a respeitar tudo o que não compreendo inteiramente, é aqui que volto a ter paz. E então eu perguntei-lhe se queria que lhe explicasse outra vez que "pelo desfiladeiro da Candosa atravessa uma "linha" de "quartzito", uma das mais duras pedras existentes – mais dura que o granito..." e que todo o mistério tem uma tradução clara na geologia, na física e na química. E ele sorriu novamente e disse: não, não preciso que me expliques novamente.
~CC~



terça-feira, outubro 21, 2008

Ausências e errâncias (IV)



São minhas as conversas com o jovem padre e com a amiga Isabel. O meu nome é Josefa e estou prestes a fazer 27 anos. Nasci numa várzea no interior deste país, lugar fértil onde tudo nasce e o rio corre. Cresci a furar os campos de milho alto, sabendo que a vitória era chegar ao outro lado sem me perder. Tinha uma enorme paixão pelo interior da matéria, sonhava com células como as minhas colegas sonhavam com os grupos da moda. Recebi da minha aldeia todo o incentivo que possam imaginar para uma carreira bem sucedida. Fui primeiro a melhor aluna da escola de pedra da primeira infância e repeti esta dose de êxito na vila e na cidade. Toda a aldeia foi comigo quando me mudei para a faculdade na capital e me escreveu cartas quando fui para Londres.

Como é que vos posso explicar este sentimento de ser maior do que eu, de ser o orgulho da terra, dos meus pais explicarem demoradamente no café da aldeia qual a natureza dos prémios que aqui e ali eu ganhava e de se fazerem brindes depois da missa "à menina Zéfinha que é de todas a melhor das nossas meninas". Eu não sou eu, sou a vingança de toda este gente que nunca saiu daqui a quase parte nenhuma, sou todas as meninas que casaram cedo e não puderam continuar os estudos, sou todos os rapazes que começaram cedo a lidar com o tractor e a podar as vinhas e não fizeram mais nada a não ser seguir o destino traçado, sou todas as velhotas que nunca aprenderam a ler. Carrego nos meus ombros toda a alegria de ter sido o seu orgulho e a imensa tristeza de não poder ter sido tudo o que eles foram e são. Não sei fazer marmelada, não sei calcular a olho nu a profundidade a que a semente deve ficar, não sei pegar numa agulha, não sei ter um bebé no colo e embalá-lo, não sei rezar.

E quando eles me abraçam e me chamam menina Zéfinha, eu não sei retribuir o afecto com o mesmo calor e creio que é isso o que me traz maior dor. Eu perdi-me deles mas eles não se perderam de mim, é como se tivessem ficado aqui à espera de todos nós que partimos, mesmo os que eram tão jovens como eu ficaram à espera.


E eu volto sempre à procura de mim, volto sempre que me perco e não me encontro, volto quando o meu coração parece que vai parar de bater tão devagar.


~CC~


domingo, outubro 19, 2008

O grande lago

Alqueva, Outubro de 2008


Acrescentei uma estrela à constelação de momentos felizes. Acrescentei uma estrela à constelação de momentos tristes. Acrescentei várias estrelas nos meus olhos tristes-felizes, coração viajando por todos estes sentimentos na vertigem vagorosa do barco deslizando em tanta água nova, água cheia de histórias por criar. As aldeias e as pessoas sempre estiveram ali, o grande lago não. O novo e o antigo parecem não se encontrar por ora, mas vi muito pouco para além das águas.

Estrelas felizes as meninas tomando banho no grande lago. Estrelas tristes no homem do acordeão tão desfasado no restaurante neo-moderno dentro da aldeia triste, estrela de seu nome. Estrelas zangadas no teu olhar, por vezes fechado num mundo só teu, sem pontes para nós. Estrelas a brilhar no aconchego do teu abraço, em dose dupla de ternura para vencer a crónica falta de ar, desta vez derrotada em toda a linha. Faz-me feliz derrotá-la.

Um estrela feita rosa vermelha do campo riu-se para mim quando abri a mala, já meio desfeita mas com cheiro intacto. Esperança cheiro em momentos felizes.

~CC~


Ausências e errâncias(III)

- Mas diz-me, antes de ele ser padre, foram namorados?
- Nunca fomos namorados, acho que ele nunca teve uma namorada. Mas aconteceu qualquer coisa sim.
-Qualquer coisa que nunca esqueceste...
- Chovia muito nesse crepúsculo de Outono e sem queremos afastámo-nos muito da aldeia, movidos por uma estranha energia que nos levava a querer andar mais e mais. Perto do Cabriz, já encharcados, procurámos o moinho velho. Quando somos novos nunca temos frio e raramente temos medo, de modo que tudo aquilo nos divertia. Sei que pensas que se seguiu o que não se seguiu.
- Confesso que o cenário me parece muito propício...e quantos anos tinham?
- Ele tinha dezasseis e eu quinze.
- Se tivesse acontecido eu poderia esquecer, mas não aconteceu.
- Não aconteceu nada?
- Aconteceu sim. Ele pegou na minha mão esquerda e limpou com um beijo cada gota de água que escorria dos meus dedos. Depois fez o mesmo à mão direita. E quando eu ia retribuir-lhe com uma festa no rosto, parou o meu movimento em pleno voo e disse que tinhamos que voltar imediatamente porque a tempestade ia piorar. Diz-me, há muitos homens que nos tocam, mas achas que se consegue esquecer um que nos beija cada um dos dedos com tamanha devoção?
~CC~

sexta-feira, outubro 17, 2008

Sobre a história "ausências e errâncias"...

Gosto de histórias, de lendas, de mistérios. O que me interessa na religião é essa sua enorme relação com o mistério da vida, coisa que a ciência explicou sem revelar. Revelar é esse lançamento de luz, é a chegada da paz com a resposta.

Não esperava, que no dia em que comecei a escrever esta história sobre este lugar com o qual a minha vida em tempos se cruzou, esta capela tivesse sido notícia. Enquanto eu pensava no monte da Senhora da Candosa, nesta história de uma amizade entre uma jovem brilhante da aldeia com o padre que foi seu colega de escola, inspirada em dados tão reais quanto fruto da minha imaginação, a capela era assaltada e foi notícia no telejornal das oito. Acontece que não sou grande espectadora de televisão e nem sequer das notícias de qualquer um dos canais, mas na Quarta estava a ver. Nem queria acreditar no que ouvia, acreditem que durante anos e anos nunca ouvi falar dela e muito pouco daquela região. Mesmo sendo objecto de um assalto estranho (levaram os santos) não pensei que a pudesse ver na televisão, nem às pessoas da aldeia a chorar o ultraje à sua santa.

Era a minha Candosa, no mesmo dia escrita pelos meus dedos e objecto público de notícia. Há coincidências, tentei concentrar-me nisso, nas enormes coincidências, afinal só se podia mesmo tratar disso. Ou então, a senhora da Candosa, sempre pronta a pregar partidas, como em tempos fazia com os mouros que queriam inundar a aldeia.

~CC~

Ausências e errâncias (II)

-Lembras-te quando vieram cá aqueles miúdos da colónia e a monitora lhes contou a lenda da Candosa? O que eles se riram...acharam idiota a ideia de que esta passagem por onde o rio corre foi repetidamente aberta por uma santa.
- Vim para aqui muitas vezes, crente de que ela me apareceria.
- A senhora da Candosa?
- Sim, achava-me merecedor dessa aparição, era um miúdo arrogante.
- Pois eu toda a vida pensei que conseguiria explicar cientificamente o fenómeno destas pedras grandes que a seguir a esta passagem se encontram pelo rio, que conseguiria saber a data precisa em que a várzea foi um lago e a razão da cintiliação que todos diziam ver nas pedras ao cair da noite.
- Estão as nossas vidas explicadas, eu segui a profissão religiosa e tu és uma brilhante cientista.
- É verdade, o que uma lenda a atravessar as nossas infâncias e adolescências pode fazer-nos.
- O que temos nós em comum então?
- Vou dizer-te: "O desfiladeiro passa de leste para oeste, e pode ver-se o pôr do sol através dele(...) antigamente acreditava-se que as almas dos mortos viajavam sempre para oeste em direcção ao pôr do sol"(1). Talvez seja isto que une as nossas vidas.

~CC~

(1) in http://www.goisproperty.com/portugues/regiao%20de%20Gois/A_lenda_da_Candosa.html

quarta-feira, outubro 15, 2008

Ausências e errâncias(I)

- Olha bem lá para baixo, vê como é estreita a passagem e como o rio pode inundar todo o vale se impedirem a sua passagem. A senhora aparecia sempre montada num burro e apenas com o seu olhar impedia a tragédia de acontecer.
- Há quanto tempo foi?
- No tempo da ocupação, quando os mouros viviam por todo este Portugal.
- Acreditas que aconteceu mesmo?
- Podes ver nas pedras, estão lá as marcas, atravessaram os séculos.
- Podem ser marcas de qualquer coisa, como sabes que são do burro da senhora?
- Porque só as marcas do milagre resistem assim ao tempo, as outras desaparecem.
- Sinto o mistério, mas não acredito nele, não era suposto ser assim, pois não?
- Tens o principal para chegar à fé, o coração aberto a um outro entendimento do mundo.
- Sim, mas nunca chegarei lá.
- Há também qualquer coisa em ti que não quer.

Descemos devagar o monte da Candosa, respirando o vento doce que vinha dos pinheiros, sempre que a tarde chegava ao fim. Não fora ter olhado para o seu andar, teria uma vez mais esquecido que ele usava agora batina. Teria esquecido todo o campo da impossibilidade que essas vestes colocavam entre nós. O lugar teria sido propício a um corpo num abraço junto do meu corpo. E o vento dos pinheiros, como era doce e quente.
~CC~

terça-feira, outubro 14, 2008

Saudade


"...trate-a com carinho"
Só numa certa África as coisas se poderiam dizer desta forma. Saudade, tenho saudades.
~CC~

segunda-feira, outubro 13, 2008

Desnorte

Há locais onde destesto ir, o banco é um deles. Mas a verdade é que em todos os lugares onde há gente, a vida se mostra inteira no registo do tempo que vivemos. Pude assim perceber que não tinha sido a única destinatária de cartões multibanco novos sem nenhum pedido a justificá-lo. O senhor à minha frente acusava: eu nunca pedi nada, isto é um abuso de confiança!

O bancário tinha voz baixa e doce, e assumia um tom de culpa, não obstante explicar que eram apenas manobras publicitárias do banco, pelas quais ele não era responsável. Eram as chamadas campanhas de publicidade activa, um modo de contacto directo com o cliente, incentivando-o a comprar um produto, tudo oriundo da central e não daquela pequena agência de cidade periférica. Talvez numa outra altura essa agressividade do banco pudesse passar incólume, afinal tão legítima como outra publicidade qualquer. Mas não agora, há nas pessoas desconfiança e medo. De repente somos nós que parecemos tontos quando aconselhámos os mais velhos a não guardar o dinheiro debaixo do colchão. Os bancos provavelmente sempre foram instituições sem noção do bem comum, mas agora quase se nos afiguram mais próximos dos ladrões do que dos polícias. O homem que protestava nem tinha razão, nunca pagaria anuidade de um cartão se não o aceitasse e isso implicaria assinar um papel a declará-lo, mas compreendi muito bem a sua revolta. Era um "deixem-nos em paz!"

Eu cá achei imensa piada aos cartões cheios de flores que me enviaram, pensei mesmo que me eram exclusivos, dada a minha paixão pela flora, em estudos de mercado mais apurados devem mesmo vir com os cheiros que gostamos. Perguntei pelos outros cartões que já tinha e é claro que ela respondeu que só os anulava se quisesse, podia manter todos. Imaginei-me então com uns às bolas ou mesmo de várias cores para combinar com as roupas e é claro todos a pagar anuidade, que essa é a parte interessante para o banco. E pensar que há quem nem saiba que aqueles plasticozinhos se pagam. O senhor tem razão, talvez seja preciso gritar-lhes para parar. Ou talvez nos caiba a nós pará-los de vez.
~CC~

domingo, outubro 12, 2008

Aniversários

Escrevo-os no plural porque desde Agosto até Outubro não fazemos em família outra coisa que não apagar velas ao velho estilo tradicional, por vezes com umas pinceladas de alguma inovação e uma pitada da loucura, essa coisa boa que mora no nosso sangue. E há muitos amigos também nesta linha que cruza as duas estações do ano mais belas em cheiros, em cores, em chama e em melancolia, esta linha Verão-Outono.

Começa com a mais nova das manas, uma centelha de persistência, sempre a puxar pelo riso e a lutar contra os desesperos vários que teimam em cruzar-lhe a vida. E depois a mãe, já pelo final de Agosto. Este ano os seus oitenta mostraram-na em toda a sua juventude e beleza. Há também amigas pelo final de Agosto, algumas a que enviamos flores.

Depois em Setembro chegam os homens, estes sem dúvida mais distantes, mas há entre nós mapas traçados com estradas menos óbvias. E depois, já no final de Setembro, três de nós, são raparigas que gostam de palavras, têm lágrima fácil, são motivadas para convívios com as fadas e acreditam que as estrelas são todas gente boa que já morreu. Estão na transição entre o realismo que as sustenta e a magia branca que lhes dá asas. As amigas de final de Setembro são também assim.

Em Outubro chega o aniversário da mana mais velha e com ela inauguramos um planeta do cosmos onde o Outono já mora, por isso apesar desta estação trazer lá dentro o frio, são as cores quentes que ela procura sempre. Com ela aprendemos que as festas nunca nos devem envergonhar, muito pelo contrário. E há duas pessoas que me puxam pela ternura até o coração derreter, uma menina Celeste e um menino Ruca, tal qual duas personagens de banda desenhada que desceram dos quadradinhos para me trazer sorrisos.

E apesar de há uns anos atrás ter aberto muito os olhos para entender o que um amigo me dizia quando referia que depois dos trinta já não se fazem amigos, lembro hoje as palavras de um dos meus amigos mais recentes, em resposta ao abraço carinhoso que lhe enviei.
"O bom dos aniversários, para além do acréscimo de tempo nos ajudar a ter mais «sabedoria» para ver o que é mais importante, é o ar que respiramos ficar mais denso de amizade e isso é uma sensação muito forte, tão forte como a do homem do leme, de Fernando Pessoa, que mesmo nas situações mais difíceis nos faz sempre avançar e renascer."

Nem mais, JH!
~CC~

quinta-feira, outubro 09, 2008

Os dias do Verão no Sul que era Norte


Se Maria Laura não fosse ainda viva e uma mulher tão surpreendente que poderia vir até aqui espreitar-se, contaria a sua história inteira, como ela o fez numa tarde de Verão dentro de um escritório de pedra entulhado em papel velho. Falaria de mim e do modo como ela me ignorava para se centrar no homem que estava comigo, falaria de como gostei dela e ao mesmo tempo a detestei.

Todas as suas marcas de nobreza comprada marcavam um território de elite, onde os pobres seriam sempre os outros e os empregados seriam sempre isso, como se não pudessem ser pessoas. E ao mesmo tempo quanta coragem, quanta luta, quanta ousadia. Uma mulher que deu nome a uma casta de vinho fintando burocracias e biologias várias, não é uma mulher qualquer. Falaria de Maria Laura, de como é nascer mulher abastada no Portugal interior, de como se trocam e invertem papéis colados a nós à nascença, falaria de como é ser forte e de uma fraqueza e tristeza imensa. Falaria da sua solidão entre a folhagem das vinhas, das peras, das amoras.

Falaria de uma capela pequena coberta de hera e sempre fechada, falaria dos bancos de jardim onde ninguém se senta, dos santos de pedra dispersos pelos jardins, da piscina onde os hóspedes tomam banho. Falaria da mulher que despede os arquitectos e atormenta as empregadas, da mulher que diz não conseguir andar, enfiada tempos sem fim na sua cama, e depois de como ela sobe as escadas, escrutina tudo e descobre num ápice o que foi mudado de lugar.

Se ela sabe que estas meninas não são irmãs e que este homem e esta mulher não são casados, não sei se poderemos voltar a cruzar com esta tranquilidade o portão da quinta. Se ela sabe que vamos ao Festival das danças, onde os cabeludos sem eira nem beira se divertem, não sei se nos poderemos sentar a esta mesa a saborear o seu maravilhoso vinho. E se calhar tudo ela sabe, mas finge acreditar que somos esta família bem comportada de senhores professores que fugiram da praia no sul para se recolher nas leituras silenciosas da tarde.
~CC~

terça-feira, outubro 07, 2008

Dia(s) II

Na minha ausência aconteceu qualquer coisa estranha na minha casa. Está ali uma alfarrobeira pequenina que insiste em dirigir-me a palavra. Perguntei-lhe porque veio para aqui e respondeu que foi para me fazer companhia. Expliquei-lhe que estava bem sozinha, que não temo a solidão e que para calor, por ora, me bastava o do sol. E disse-lhe que desde a história do principezinho que já foi há muito, muito tempo atrás...que não há plantas a falar com pessoas, que aliás isso está completamente fora de moda, até nas histórias infantis. Não tive êxito com o reparo nem com a minha arrogância, ela respondeu que eu achava que me conhecia muito bem a mim própria mas se calhar não me conhecia assim tão bem.
Fiquei a pensar.

~CC~

Dia(s)

Hoje é dia mundial do beijo, dia mundial é um pouco menos do que universal, mas está muito perto de viajar pelo universo e é certo que pelo menos à lua chega. Mas é um dia mundial diferente dos outros porque varia na proporção exacta dos dias do calendário em que, para cada um de nós, um beijo alterou as nossas vidas. Eu tenho este que não esqueço e espero que perdure na memória dos tempos, assim riscado dentro de um Outono, antes e depois de um passeio de bicicleta. É pelos beijos que começamos a nascer.
~CC~

segunda-feira, outubro 06, 2008

Homens e bichos (XIII)

Durante muitos dias eu pensei que o meu vazio ia chegar ao fim, mas ele só se tornava maior a cada madrugada, a cada crespúsculo. E se a princípio achei que era uma loucura poder tornar-me numa ave, essa ideia passou a ser para mim uma obssessão. Imaginem que podem voar, que podem tornar-se num pássaro, mas que mantêm um olhar humano sobre o mundo, imaginem que são um ser de fronteira, capaz de falar duas linguagens: a dos homens e a dos animais.

Além dessa curiosidade imensa sobre a minha possibilidade de transformação num outro ser, havia ainda a possibilidade do amor. Eu já a achava linda e era ainda um homem, imaginava como a poderia ver com olhos de pássaro. Foi, no entanto, preciso que o Outono chegasse e com ele a tristeza das árvores nuas, o frio a entrar-me nos ossos, o dia a descer cada vez mais depressa para a noite. Foi preciso a tristeza habitar o meu corpo como se fosse a minha própria pele. Senti então o que ela me tinha dito como a condição da minha transformação: a dor intensa, o profundo desejo.

O azul do céu é agora riscado pelas minhas asas negras brilhantes. Ela muito branca, eu muito preto, somos um maravilhoso casal de aves a dançar entre as nuvens.

FIM
~CC~

quinta-feira, outubro 02, 2008

Homens e bichos (XII)

P- Não chores meu amor!
R- Não me chames meu amor
P - A tua namorada não te chamava assim?
R- Não, nunca...isso é um bocadinho piroso.
P - Piroso, o quer dizer piroso?
R- Sei lá eu explicar-te...é uma coisa sentimental de mais.
P - E queres ser o meu amor?
R- Mas como é que isso pode ser se eu sou um homem e tu uma pomba.
P - Tu podes transformar-te, eu não.
R- Queres dizer que me posso tornar numa ave?!
P - Sim, podes. Se quiseres podemos voar por todo este azul, é tao bom...se soubesses como é bom!
R - E como é que eu posso me posso transformar?
P - Por uma dor intensa ou um profundo desejo.
R - Estou cansado da minha vida, profundamente cansado.
P - Anda, transforma-te!
~CC~